Outras obras da autora publicadas pela Record
Ayla, Filha das Cavernas
Os caadores de mamutes
Plancie de passagem
Traduo de
DOMINGOS DEMASI
EDITORA RECORD
RIO DE JANEIRO  SO PAULO
2003
CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.




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Sempre-Lendo, o  melhor grupo de troca de livros da Internet!


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Para KENDALL,
Auel, Jean M.
O abrigo de pedra / c; traduo

Domingos Demasi. -Rio de Janeiro: Record, 2003.        -
742p.: mapa; -(Os filhos da Terra; voES)        . . .exceto sua mae,
Traduo de: The shelters of atone
Continuao de: Plancie de passagem
ISBN 85-01-06507-2
1. Homem pr-histrico - Fico. 2. Romance
norte-americano. 1. Demasi, Domingos, 1944- - II.
Ttulo. III. Srie.
03-1471        CDU-821.ll1(73)-3        trs dos melhores,
Ttulo original norte-americano
THE SHELTERS OF STONE
Copyright (c) 2002 by Jean M. Auel
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quaisquer meios.
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ISBN 85-01-06507-2
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Captulo 1

        As pessoas estavam reunidas na salincia de calcrio, olhando
atentamente para eles l em baixo. Ningum fazia um gesto de boas-vindas, 
e alguns mantinham lanas em posio de prontido ou mesmo de verdadeira 
ameaa. A jovem mulher quase podia sentir o medo ansioso deles. Ela 
observava do p da trilha enquanto mais pessoas se aglomeravam na beirada, 
olhando fixamente para baixo, muitos mais do que imaginava que haveria. Ela 
vira a mesma relutncia em acolh-los em outro povo que eles haviam 
encontrado na sua Jornada. No eram apenas eles, disse a si mesma,  
sempre assim no comeo, mas ela se sentia intranqila.
        O homem alto desceu com um salto do dorso do jovem garanho. No 
se sentia relutante nem agitado, mas hesitou por um momento, segurando o 
cabresto do garanho. Virou-se e percebeu que ela vacilava.
        - Ayla, pode segurar o cabresto de Racer? Ele parece nervoso - disse 
ele, e depois olhou para a beirada. - Acho que eles tambm esto.
        Ela fez que sim, levantou a perna, escorregou do dorso da gua e 
segurou a corda. Alm da tenso de ver gente estranha, o jovem cavalo 
castanho continuava agitado perto da me dele. Ela no estava mais no cio, 
porm ainda permaneciam os odores residuais de seu contato com o 
garanho do rebanho. Ayla segurou bem junto o cabresto do macho castanho, 
mas deu uma longa distncia para a gua amarelo-pardo, e se posicionou 
entre os dois. Decidiu ceder a dianteira a Huiin; a gua dela j estava mais 
habituada a grandes grupos de estranhos, e no costumava ser agitada, mas 
tambm parecia nervosa. Aquela multido de gente deixaria qualquer um 
nervoso.
        Quando o lobo apareceu, Ayla ouviu rudos de agitao e alarme na 
salincia diante da caverna, se  que aquilo podia ser chamado de caverna. 
Ela nunca vira uma como aquela. Lobo pressionou contra a lateral de sua 
perna e moveu-se um pouco para diante dela, receosamente defensivo; ela 
podia sentir a vibrao de seu rosnado quase inaudvel. Atualmente, era 
muito mais precavido na presena de estranhos do que quando iniciaram a 
sua longa Jornada, um ano atrs, mas, na ocasio, ele era pouco mais do que 
um filhote, e depois de algumas experincias perigosas, tornara-se ainda 
mais protetor de Ayla.
        Enquanto o homem dava largas passadas pela inclinao em direo s 
pessoas apreensivas, no demonstrava medo, mas a mulher estava contente 
pela oportunidade de ficar para trs,  espera, a fim de observ-los antes 
de se encontrar com eles. Ela esperava, temia, esse momento havia mais de 
um ano, e a primeira impresso era importante para ambos os lados.
        Embora os demais se mantivessem parados, uma moa correu na 
direo dele. Jondalar reconheceu imediatamente a sua irm, apesar de a 
bonita menina, durante os cinco anos de sua ausncia, ter desabrochado em 
uma jovem mulher.
        - Jondalar! Eu sabia que era voc! - exclamou, arremessando-se para 
ele. - Finalmente voltou para casa!
        Deu-lhe um abrao apertado, depois levantou-a e girou-a em seu 
entusiasmo.
        - Folara, estou to feliz em ver voc! - depois que a colocou no cho, 
olhou-a da distncia de um brao. - Mas voc cresceu. Era apenas uma 
menina quando parti, e agora  uma bela mulher.., como sempre soube que 
seria - afirmou, com algo mais do que um lampejo fraterno no olhar.
        Ela sorriu para ele, olhou dentro dos seus olhos de um incrvel azul 
intenso e foi atrada pelo seu magnetismo. Sentiu-se enrubescer, no pelo 
elogio dele, apesar de ter sido isso o que as pessoas prximas pensaram, 
mas por causa do arrebatamento da atrao que sentiu pelo homem, fosse 
ou no seu irmo, a quem no encontrava havia muitos anos. Folara ouvira 
histrias sobre o belo irmo mais velho, que, com aqueles olhos incomuns, 
era capaz de enfeitiar qualquer mulher, mas a sua lembrana era de um 
alto e adorado colega de brincadeiras disposto a participar de qualquer jogo 
ou atividade que ela desejasse realizar. Era a primeira vez que, como uma 
jovem mulher, ela se expunha ao efeito total do inconsciente carisma dele. 
Jondalar notou a reao dela e sorriu afetuosamente diante de sua terna 
confuso.
        Ela desviou a vista, em direo  trilha abaixo perto do pequeno rio.
        - Quem  aquela mulher, Jond? - perguntou. - E de onde vieram 
esses animais? Animais fogem das pessoas, por que esses no fogem dela?  
uma Zelandoni? Ela os chama?        - Em seguida, franziu a testa. - Onde est 
Thonolan?        - Inspirou bruscamente diante do ar dolorido que retesou a 
testa de Jondalar.
        - Thonolan agora viaja pelo outro mundo, Folara - explicou-, e eu no 
estaria aqui se no fosse por esta mulher.
        - Oh, Jond! O que aconteceu?
        -  uma antiga histria, e este no o momento para cont-la - 
justificou-se, mas teve que sorrir do nome pelo qual ela o chamava. Era o 
apelido particular com o qual se referia a ele. - No ouo esse nome desde 
que parti. Agora tenho certeza de que estou em casa. Como est todo mundo, 
Folara? Mame est bem? E Willamar?
        - Zelandoni executou a sua mgica especial, e agora ela parece tima. 
Venha e veja por si mesmo - sugeriu, segurando-lhe a mo e comeando a 
conduzi-lo pelo resto do caminho acima.
        Jondalar virou-se e acenou para Ayla, tentando fazer com que ela 
entendesse que voltaria logo. Lamentava ter que deix-la sozinha com os 
animais, mas ele precisava visitar a me, ver por si mesmo se ela estava bem. 
Aquele "susto" o deixara preocupado, e ele precisava falar com as pessoas 
sobre os animais. Os dois j haviam se dado conta de como era estranho e 
assustador para a maioria das pessoas verem animais que no fugiam delas.
        As pessoas conheciam animais. Todas as que eles haviam encontrado 
em sua Jornada os caavam, e a maioria respeitava ou prestava homenagem 
a eles ou, de um modo ou de outro, aos seus espritos. Animais vinham sendo 
observados cuidadosamente desde que qualquer um era capaz de se lembrar. 
As pessoas conheciam os ambientes favoritos deles e do que gostavam de 
comer, seus padres migratrios e movimentaes sazonais, os perodos em 
que pariam e as pocas de cio. Mas ningum nunca havia tentado tocar de 
modo amistoso em um animal vivo. Ningum nunca havia tentado amarrar uma 
corda em volta da cabea de nenhum animal e conduzi-lo por a. Ningum 
nunca havia tentado domesticar um animal, nem mesmo imaginar que isso era 
possvel.
        Por mais contentes que aquelas pessoas tivessem ficado em ver um 
parente retornar de uma longa Jornada, principalmente um que poucos 
esperavam voltar a ver, os animais domesticados eram um tal fenmeno 
desconhecido, que a primeira reao delas foi de medo. Era to estranho, 
to inexplicvel, to distante da experincia que tinham, ou de sua 
imaginao, que no podia ser natural. S podia ser antinatural, sobrenatural. 
A nica coisa que impedia muitas delas de fugirem ou se esconderem, ou 
tentarem matar os temveis animais, era o fato de Jondalar, a quem 
conheciam, ter chegado junto com eles, e este estava subindo a trilha do Rio 
do Bosque, acompanhado da irm, que mantinha uma aparncia bastante 
normal sob a brilhante luz do sol.
        Folara mostrara muita coragem, ao avanar correndo como o fizera, 
mas ela era jovem e tinha o destemor da juventude. E ficou to contente em 
ver o irmo, uma pessoa especial para ela, que no conseguiu esperar. 
Jondalar jamais faria algo para machuc-la, e ele no temia os animais.
        Ayla observava do p da trilha, enquanto as pessoas o rodeavam, 
dando-lhe as boas-vindas com sorrisos, abraos, beijos, tapinhas, apertos de 
mos com ambas as mos, e muitas palavras. Notou uma mulher enorme de 
gorda, um homem de cabeleira castanha que ganhou um abrao de Jondalar, 
e uma mulher mais velha a quem ele cumprimentou afetuosamente e depois 
manteve o brao em volta dela. Provavelmente a sua me, imaginou Ayla, e 
perguntou-se o que aquela mulher acharia dela.
        Aquelas pessoas eram a famlia dele, seus parentes, seus amigos, 
gente com quem havia sido criado. Ela era uma estranha, uma perturbadora 
estranha que havia trazido animais e, quem sabe, outros ameaadores 
hbitos estrangeiros e idias absurdas. Elas a aceitariam? E se no a 
aceitassem? No poderia voltar, o seu povo vivia a mais de um ano de viagem 
em direo ao leste. Jondalar prometera que partiria com ela, se ela 
quisesse ir embora - ou fosse forada -, mas isso foi antes de ele se 
encontrar com todos, antes de ser recebido to calorosa mente. Como ele se 
sentia agora?
        Sentiu uma cutucada atrs de si e estendeu o brao para alisar o 
robusto pescoo de Huiin, grata pela amiga t-la lembrado de que ela no 
estava sozinha. Quando vivia no vale, depois de deixar o Cl, durante um 
longo tempo a gua fora a sua nica companhia. Ayla no havia notado o 
afrouxamento na corda de Huiin quando a gua se aproximou dela, mas deu 
um pouco mais de trela a Racer. A fmea e a sua cria costumavam encontrar 
um no outro amizade e conforto, mas quando a gua entrou no cio isso 
perturbou o padro normal dos dois.
        Mais pessoas - como podiam ser tantas? - estavam olhando na direo 
dela, e Jondalar conversava srio com o homem de cabeleira castanha, 
depois acenou para ela e sorriu. Quando desceu de volta, ele veio seguido 
pela moa, o homem de cabeleira castanha e mais alguns outros. Ayla 
inspirou fundo e ficou  espera.
         medida que se aproximavam, o rosnado do lobo se tornava mais alto. 
Ela abaixou-se para mant-lo prximo.
        - Tudo bem, Lobo. So apenas os parentes de Jondalar - acalmou-o. O 
seu toque tranqilizador foi um sinal para ele parar de rosnar, no parecer 
to ameaador. Fora difcil lhe ensinar o sinal, mas o esforo valera a pena, 
principalmente agora, imaginou ela. Desejou conhecer um toque que 
acalmasse a si mesma.
        O grupo com Jondalar parou a uma curta distncia, tentando no 
demonstrar o seu temor, nem olhar fixo para os animais que os encaravam 
abertamente e se mantinham em seus lugares, mesmo quando pessoas 
estranhas se aproximavam deles. Jondalar avanou a pequena distncia.
        - Creio que devemos comear com as apresentaes formais, 
Joharran. - anunciou, olhando para o homem de cabeleira castanha.
        Quando Ayla largou os dois cabrestos, a fim de se preparar para uma 
apresentao formal, o que requeria contato com as mos, os cavalos 
recuaram, mas o lobo permaneceu. Ela notou o lampejo de medo nos olhos do 
homem, embora duvidasse que aquele temesse alguma coisa. Deu uma 
olhadela para Jondalar, perguntando-se se ele tinha um motivo para querer 
apresentaes formais de imediato. Observou atentamente o homem 
desconhecido e subitamente lembrou- se de Brun, o lder do cl com o qual 
se criou. Forte, altivo, inteligente e competente, ele temeu muito pouca 
coisa - exceto o mundo dos espritos.
        - Ayla, este  Joharran, Lder da Nona Caverna dos Zelandonii, filho 
de Marthona, antiga Lder da Nona Caverna, nascido da lareira de Joconan, 
antigo Lder da Nona Caverna - anunciou o louro alto com seriedade, 
sorrindo em seguida -, alis, Irmo de Jondalar, Viajante de Terras 
Distantes.
        Seguiram-se alguns rpidos sorrisos. De certa forma, o comentrio 
dele aliviou a tenso. Rigorosamente, em uma apresentao formal, as 
pessoas podiam fornecer a lista completa de seus nomes e laos familiares 
para confirmar a condio social, todas as suas prprias referncias, ttulos 
e realizaes, e todos os seus parentes e amigos, juntamente com os ttulos 
e realizaes deles, e algumas o faziam. Mas, por motivos prticos, exceto 
nas ocasies de maior cerimnia, eram mencionados apenas os principais. 
        No era incomum, entretanto, para os jovens, especialmente irmos, 
fazer-se acrscimos jocosos ao longo, e por vezes tedioso discorrer do 
parentesco de algum, e Jondalar estava lembrando-o de anos passados, 
antes de ele ser onerado com as responsabilidades da liderana.
        - Joharran, esta  Ayla dos Mamuti, Membro do Acampamento do 
Leo, Filha do Lar do Mamute, Escolhida pelo Esprito do Leo das Cavernas, 
e Protegida do Urso da Caverna.
        O homem de cabeleira castanha percorreu a distncia entre ele e a 
jovem mulher, esticou ambas as mos, com as palmas para cima, fazendo o 
conhecido gesto de boas-vindas e generosa amizade. Ele no conhecia 
nenhum dos laos familiares dela, e no estava totalmente seguro de quais 
eram os mais importantes.
        - Em nome de Doni, a Grande Me Terra, eu lhe dou as boas-vindas, 
Ayla dos Mamuti, Filha do Lar do Mamute - falou.
        Ayla segurou as mos dele.
        - Em nome de Mut, a Grande Me de Todos, eu o sado, Joharran, 
Lder da Nona Caverna dos Zelandonii - em seguida, sorriu -, e Irmo do 
Viajante Jondalar.
        Joharran percebeu, em primeiro lugar, que ela falava muito bem a sua 
lngua, mas com um sotaque incomum, depois teve noo de sua estranha 
vestimenta e da aparncia estrangeira, mas, quando ela sorriu, ele retribuiu 
o sorriso. Em parte porque ela havia demonstrado a compreenso do 
comentrio de Jondalar e fez com que Joharran soubesse que o seu irmo 
era importante para ela, mas em grande parte porque no conseguiu resistir 
ao seu sorriso.
        Ayla era uma mulher atraente pelos padres de qualquer um: alta, 
tinha um corpo firme e bem modelado, longos cabelos louros que tendiam a 
ondular, lmpidos olhos azuis-acinzentados e belas feies, embora 
levemente diferentes das caractersticas das mulheres Zelandonii. Mas, 
quando sorria, era como se o sol projetasse nela um raio especial, que 
iluminava por dentro cada feio. Ela parecia fulgurar com tal estonteante 
beleza, que Joharran perdeu o flego. Jondalar sempre dizia que o sorriso 
dela era notvel, e ele arreganhou os dentes, vendo que o seu irmo no era 
imune a ele.
        Ento Joharran notou o garanho cabriolar nervosamente na direo 
de Jondalar, e olhou para o lobo.
        - Jondalar me disse que precisamos arrumar algumas... h... 
acomodaes para esses animais... em algum lugar prximo, suponho. - Mas 
no muito prximo, imaginou ele.
        - Os cavalos necessitam apenas de um campo com grama, perto da 
gua, mas precisamos avisar s pessoas que, no incio, no devem tentar se 
aproximar, a no ser que Jondalar ou eu estejamos com eles. Huiin e Racer 
ficam nervosos com pessoas por perto, at se acostumarem a elas - 
informou Ayla.
        - No creio que isso ser um problema - rebateu Joharran, captando o 
movimento da cauda de Huiin e olhando para ela. - Eles podero ficar aqui, 
se este vale for adequado.
        -  perfeito - concordou Jondalar. - Mas teremos que lev-los riacho 
acima, um pouco fora do vale.
        - Lobo est acostumado a dormir perto de mim - prosseguiu Ayla. Ela 
notou uma ruga na testa de Joharran. - Ele se tornou um tanto quanto 
protetor e poder causar alguma perturbao se no puder ficar por perto.
        Ela percebeu a semelhana dele com Jondalar, principalmente na 
fronte enrugada de preocupao, e quis sorrir. Mas Joharran estava 
seriamente preocupado. No era momento para sorrisos, embora a 
expresso dele desse a ela uma sensao de cordial familiaridade. Jondalar 
tambm vira o enrugar preocupado do irmo.
        - Creio que  um bom momento para apresentar Joharran a Lobo - 
afirmou.
        Os olhos de Joharran se arregalaram de pnico, mas antes que ele 
pudesse objetar, Ayla alcanou sua mo ao mesmo tempo em que se 
agachava ao lado do animal. Ela colocou o brao em volta do largo pescoo do 
lobo, para acalmar um incipiente rosnado, mesmo ela podia farejar o medo 
do homem; tinha certeza de que Lobo tambm conseguia.
        - Primeiro, deixe que ele cheire a sua mo. - props. - Essa  a 
apresentao formal de Lobo. - O lobo aprendera, em experincias 
anteriores, que era importante para Ayla que ele aceitasse em sua alcatia 
de humanos as pessoas que ela lhe apresentava daquele modo. No gostava 
do cheiro do medo, mas farejou o homem para se familiarizar com ele.
        - Alguma vez j sentiu o plo de um lobo vivo, Joharran? - perguntou 
ela, olhando-o de baixo para cima. - Vai notar que  um pouco spero - 
alertou ela, conduzindo a mo dele para sentir o plo um tanto desgrenhado 
do pescoo do animal. - Ele ainda est trocando o plo e tem sarna, e adora 
que cocem atrs de suas orelhas - continuou ela, mostrando-lhe como fazer.
        Joharran sentiu o plo, porm ficou mais a par da calidez e,  
subitamente deu-se conta de que era um lobo vivo! E ele no se importava 
em ser tocado.
        Ayla observou que a mo dele no estava mais to tensa, e que 
Joharran realmente tentava esfregar o lugar que ela indicou.
        - Deixe que ele cheire novamente a sua mo.
        Quando Joharran levou a mo de volta em direo ao focinho do lobo, 
ele voltou a arregalar os olhos, surpreso.
        - O lobo lambeu a minha mo! - exclamou, sem saber se aquilo era uma 
preparao para algo melhor, ou pior. A seguir, viu Lobo lamber o rosto de 
Ayla, e ela pareceu muito contente com aquilo.
        - Sim, voc  muito bom, Lobo - disse ela, sorrindo, ao mesmo tempo 
em que lhe fazia uma festinha, assanhando a sua juba. Em seguida, ela se 
levantou e bateu com as mos diante dos ombros. O lobo saltou, colocou as 
patas no local em que ela havia indicado, e quando Ayla exps a garganta, ele 
lambeu o seu pescoo, depois enfiou o queixo e a mandbula dela na boca, 
mas com grande delicadeza.
        Jondalar notou o arfar de espanto de Joharran e dos demais, e deu-
se conta do quanto devia parecer amedrontador o ato de afeto do lobo para 
pessoas que no o entendiam.
        O irmo olhou para ele, com a expresso igualmente de medo e 
assombro.
        - O que ele est fazendo com ela?
        - Tem certeza de que est tudo bem? - insistiu Folara, quase ao 
mesmo tempo. Ela no conseguia continuar parada. As outras pessoas 
tambm faziam indecisos gestos nervosos.
        Jondalar sorriu.
        - Tenho. Ayla est bem. Ele a ama, e jamais a machucaria.  desse 
modo que os lobos demonstram afeto. Eu tambm levei muito tempo para me 
acostumar, e conheo Lobo h tanto tempo quanto ela, desde que ele era um 
filhotinho felpudo.
        - Mas isso no  um filhote!  um lobo enorme!  o maior lobo que j 
vi! - exclamou Joharran. - Ele poderia arrancar a garganta dela!
        - Sim. Poderia arrancar a garganta dela. Eu j o vi arrancar a garganta 
de uma mulher... uma mulher que tentou matar Ayla - lembrou Jondalar. - 
Lobo a protege.
        Os Zelandonii que assistiam deram um suspiro coletivo de alvio 
quando o lobo desceu e voltou a ficar parado ao lado dela, a boca aberta e a 
lngua pendendo de  lado, exibindo os dentes. Lobo tinha aquele olhar que 
Jondalar via como o seu sorriso de lobo, "como se ele estivesse contente 
consigo mesmo".
        - Ele faz isso o tempo todo? - quis saber Folara. - Com... qualquer um?
        - No - respondeu Jondalar. - S com Ayla, e s vezes comigo, se ele 
estiver se sentindo particularmente feliz, e s se eu deixar. Ele  bem 
comportado, no machuca ningum... a no ser que Ayla seja ameaada.
        - E as crianas? - perguntou Folara. - Lobos costumam ir atrs dos 
fracos e dos jovens.
         meno de crianas, um ar preocupado surgiu nos rostos das 
pessoas que estavam por perto.
        - Lobo adora crianas - elucidou rapidamente Ayla -, e ele  muito 
protetor em relao a elas, particularmente as mais novas ou fracas. Ele foi 
criado com as crianas do Acampamento do Leo.
        - Havia um menino muito fraco e doente, que pertencia ao Lar do Leo 
- acrescentou Jondalar. - Voc devia ter visto os dois brincarem. Lobo era 
cuidadoso na presena dele.
        - Trata-se de um animal muito incomum - comentou um outro homem.
        -  difcil acreditar que um lobo poderia se comportar to... diferente 
de um lobo.
        - Tem razo, Solaban - concordou Jondalar. - Para as pessoas, ele se 
comporta de um modo muito diferente de um lobo, mas, se ns fssemos 
lobos, no acharamos isso. Lobo foi criado com gente, e Ayla diz que ele v 
as pessoas como sua alcatia. Ele trata as pessoas como se elas fossem 
lobos.
        - Ele caa? - quis saber o homem a quem Jondalar chamou de Solaban.
        - Caa - confirmou Ayla. - s vezes, caa sozinho, para si mesmo, e s 
vezes nos ajuda a caar.
        - Como ele sabe o que deve caar e o que no deve? - indagou Folara. - 
Como aqueles cavalos,
        Ayla sorriu.
        - Os cavalos tambm fazem parte de sua alcatia. Observe que eles 
no o temem. E Lobo nunca caa pessoas. Por outro lado, pode caar 
qualquer animal que desejar, a no ser que eu lhe diga que no.
        - Se lhe disser no, ele no caa? - perguntou um outro homem.
        - Exatamente, Rushemar - afirmou Jondalar.
        O homem sacudiu a cabea, abismado. Era difcil acreditar que algum 
pudesse ter tal controle sobre um poderoso animal caador.
        - Bem, Joharran - falou Jondalar. - Voc acha que  seguro o 
bastante levar Ayla e Lobo l para cima?
        O homem pensou por um instante, e depois confirmou com a cabea. - 
        - Mas, se houver qualquer problema...
        - No haver, Joharran - garantiu Jondalar, e depois se dirigiu a Ayla. 
        - Minha me nos convidou para ficar com ela. Folara ainda vive com ela, 
mas tem o seu prprio cmodo, como tambm Marthona e Willamar. No 
momento, ele se encontra em uma misso de comrcio. Ela nos ofereceu o 
seu espao central de habitao. Claro que poderemos ficar com a Zelandoni 
e os visitantes da famlia, se voc preferir.
        - Terei prazer em ficar com a sua me, Jondalar - consentiu Ayla.
        - timo! Mame tambm sugeriu que deixemos as apresentaes mais 
formais para depois que nos instalarmos. No que eu precise ser 
apresentado, e no faz sentido repetir tudo para cada um, j que podemos 
fazer isso de uma s vez.
        - J estamos planejando um banquete de boas-vindas para esta noite 
- adiantou Folara. - E talvez um outro, posteriormente, para todas as 
Cavernas prximas.
        - Aprecio a deferncia de sua me, Jondalar. Ser mais fcil 
conhecer todo mundo de uma s vez, mas precisa me apresentar a esta moa 
- lembrou Ayla.
        Folara sorriu.
        - Claro, era o que pretendia fazer - adiantou Jondalar. - Ayla, esta  
minha irm Folara, Abenoada por Doni, da Nona Caverna dos Zelandonii, 
Filha de Marthona, antiga Lder da Nona Caverna; nascida da lareira de 
Willamar, Viajante e Mestre Comerciante; Irm deJoharran, Lder da Nona 
Caverna; Irm deJondalar...
        - Ela sabe a seu respeito, Jondalar, e j ouvi os nomes e laos 
familiares dela interrompeu Folara, impaciente com as formalidades, e a 
seguir esticou ambas as mos em direo a Ayla. - Em nome de Doni, a 
Grande Me Terra, eu lhe dou as boas vindas Ayla dos Mamuti, Amiga de 
cavalos e lobos.
        A aglomerao de pessoas na ensolarada varanda de pedra recuou 
rapidamente ao ver a mulher e o lobo comearem a subir a trilha junto com 
Jondalar e o pequeno grupo que os acompanhava. Um ou dois se aproximaram, 
enquanto outros esticavam o pescoo em volta deles. Ao chegarem  beira 
de pedra, Ayla teve o primeiro contato com o espao de habitao da Nona 
Caverna dos Zelandonii. A viso a surpreendeu.
        Embora ela soubesse que a palavra "Caverna" na denominao do lar 
de Jondalar no se referia a um lugar, mas ao grupo de pessoas que l viviam, 
a formao que ela via era escura e tinha uma srie delas no interior da 
face de uma rocha, penhasco ou subterr neo, com uma abertura para fora. 
O espao de habitao daquelas pessoas era a rea abaixo de um imenso 
rochedo saliente projetando-se do penhasco de calcrio, uma lapa, que 
fornecia proteo de chuva ou neve, mas era aberto  luz do dia.
        Os altos rochedos da regio foram outrora o leito sob a superfcie de 
um antigo mar.  medida que as conchas calcrias dos crustceos que viviam 
no mar iam sendo descartadas, foram se acumulando no leito at se 
tornarem carbonato de clcio - calcrio. Durante certos perodos de tempo, 
por uma srie de motivos, alguns dos depsitos de conchas criaram grossas 
camadas de calcrio mais duras do que outras. Quando a terra se deslocou e 
exps o leito do mar que acabou se transformando em penhascos, o processo 
de eroso do vento e da gua desgastou com mais facilidade a pedra 
relativamente mais mole, escavando espaos profundos e deixando entre 
eles ressaltos da pedra mais dura.
        Ainda que os penhascos fossem tambm perfurados de cavernas, o 
que era comum no calcrio, essas inusitadas formaes parecidas com 
prateleiras criaram abrigos de pedra que deram locais de moradia 
excepcionalmente bons e foram usados desse modo por milhares e milhares 
de anos.
        Jondalar levou Ayla na direo da mulher mais velha com quem ela o 
vira do p da trilha. A mulher era alta e nobre em sua postura enquanto 
esperava pacientemente por eles. Seu cabelo, mais cinzento do que 
castanho-claro, era puxado para trs do rosto em um nico longo tranado, 
que se enovelava atrs da cabea. Os sinceros e avaliadores olhos claros 
tambm eram cinzentos.
        Quando chegaram a ela, Jondalar iniciou a apresentao formal.
        - Ayla, esta  Marthona, antiga Lder da Nona Caverna dos Zelandonii;
Filha de Jemara; nascida da lareira de Rabanar; acasalada com Willamar, 
Mestre Comerciante da Nona Caverna dos Zelandonii; Me de Joharran, 
Lder da Nona Caverna; Me de Folara. Abenoada por Doni; Me de... - Ele 
ia dizer "Thonolan", hesitou, e rapidamente emendou: - Jondalar, Viajante 
Retornado. - Em seguida, virou-se para a sua me.
        - Marthona, esta  Ayla do Acampamento do Leo dos Mamuti, Filha 
do Lar do Mamute, Escolhida pelo Esprito do Leo das Cavernas, Protegida 
do Esprito do Urso das Cavernas.
        Marthona estendeu ambas as mos.
        - Em nome de Doni, a Grande Me Terra, eu lhe dou as boas-vindas, 
Ayla dos Mamuti.
        - Em nome de Mut, Grande Me de Todos, eu a sado, Marthona da 
Nona Caverna dos Zelandonii e Me de Jondalar - declarou Ayla, ao 
juntarem as mos.
        No tinha prtica de seu linguajar, mas notou o quanto ela falava bem, 
apesar disso, e acuou que era um pequeno defeito na fala ou o sotaque de 
uma lngua desconhecida de um lugar muito distante. Ela sorriu.
        - Voc vem de muito longe, Ayla, deixando para trs tudo o que 
conhecia e amava. Se voc no tivesse feito isso, no creio que eu tivesse 
Jondalar de volta  sua casa. Eu sou grata a voc por isso. Espero que, aqui, 
no demore a se sentir em casa, e farei tudo para ajud-la.
        Ayla sabia que a me de Jondalar era sincera. Sua franqueza e 
honestidade eram verdadeiras; ela estava contente por ter o filho de volta. 
Ayla ficou aliviada e comovida com a acolhida de Marthona.
        - Eu ansiava por conhec-la desde a primeira vez em que Jondalar 
falou em voc.., mas tambm me sentia um pouquinho temerosa - retrucou 
com semelhante franqueza e honestidade.
        - No a censuro por isso. No seu lugar, eu tambm acharia muito 
difcil. Venha, vou lhe mostrar onde pode colocar as suas coisas. Deve estar 
cansada e gostaria de descansar antes dos festejos de boas-vindas desta 
noite - ponderou Marthona, ao passar a conduzi-los na direo da rea sob a 
salincia. De repente, Lobo comeou a ganir, deu um pequeno "latido de 
filhote" e esticou as patas dianteiras, mantendo elevadas a traseira e a 
cauda, numa posio de brincar.
        Joridalar surpreendeu-se.
        - O que ele est fazendo?
        Ayla olhou para Lobo, tambm um tanto surpresa. O animal repetiu o 
gesto, e subitamente ela sorriu.
        - Creio que ele est tentando atrair a ateno de Marthona - sugeriu. 
        - Ele acha que ela no o notou, e creio que deseja ser apresentado.
        - E eu tambm quero ser apresentada a ele - salientou Marthona.
        - Voc no tem medo dele! - afirmou Ayla. - E ele sabe disso!
        - Eu notei. No vi nada para se temer - reconheceu ela, estendendo a 
mo na direo do lobo. Ele farejou a mo dela, lambeu-a e voltou a ganir.
        - Acho que Lobo quer que voc o toque; ele adora a ateno das 
pessoas de quem gosta - esclareceu Ayla.
        - Voc gosta disto, no  mesmo? - notou a mulher mais velha ao lhe 
fazer uma festinha. Lobo?  assim que o chama?
        - Sim.  a palavra Mamuti para "lobo". Pareceu ser o nome adequado 
para ele - esclareceu Ayla.
        Mas eu nunca o vi aceitar algum to depressa - observou Jondalar, 
olhando pasmado para a me.
        - Nem eu - concordou Ayla, fitando Marthona com o lobo. - Talvez 
apenas esteja feliz por conhecer algum que no tem medo dele.
        Ao se encaminharem para a sombra da pedra suspensa, Ayla sentiu o 
imediato resfriar da temperatura. Por um timo, sentiu um calafrio de medo, 
ao olhar de relance para o alto em direo  imensa prateleira de pedra 
projetando-se da parede do rochedo, imaginando se ela poderia desabar. 
Mas, depois que seus olhos se acostumaram  luz mais fraca, sua admirao 
no ficou limitada apenas  forma o fsica do lar de Jondalar: o espao 
sob o abrigo de pedra era imenso, muito maior do que havia imaginado.
        Ela vira ressaltos semelhantes em penhascos ao longo do rio, a 
caminho dali, alguns obviamente habitados, embora nenhum parecesse to 
grande quanto aquele. Todos na regio sabiam do imenso abrigo de pedra e 
do grande nmero de pessoas que acolhia. A Nona Caverna era a maior de 
todas as comunidades que chamavam a si mesmas de Zelandonii.
        Agrupadas na extremidade oriental do espao abrigado, ao longo da 
parede dos fundos e elevando-se independentes no centro, havia estruturas 
individuais, muitas bem grandes, feitas em parte com pedras e em parte 
com armaes com pedaos de pau e peles de animais. As peles eram 
enfeitadas com belas imagens representando animais e vrios simbolos 
abstratos, pintados em preto e variados tons fortes de cores como 
vermelho, amarelo e marrom. As estruturas estavam dispostas em uma 
curva voltada para oeste em volta de um espao aberto perto do centro da 
rea coberta pela saliente prateleira de pedra, o qual estava repleto de uma 
confuso de objetos e gente.
        Quando Ayla olhou mais atentamente, o que a princpio lhe parecera 
de imediato uma grande algazarra desordenada revelou-se como reas 
dedicadas a diferentes tarefas, em geral tarefas relacionadas umas com as 
outras. Apenas a princpio parecia uma confuso, pois eram desenvolvidas 
muitas atividades.
        Ela viu couros sendo curtidos em armaes, e compridas hastes de 
lanas, aparentemente em processo de alinhamento, pendendo de uma viga 
sustentada por duas traves. 
        Cestos em diferentes etapas de fabricao estavam empilhados em 
outro local, e tiras de couro secavam esticadas entre pares de ossos. 
Compridas meadas de cordame pendiam de cavilhas enfiadas em vigas acima 
de redes inacabadas estendidas sobre armaes, e redes toscamente 
tranadas formavam feixes no cho. Peles, algumas tingidas de vrias cores, 
inclusive muitos tons de vermelho, estavam cortadas em pedaos, e perto 
delas pendiam vrias peas de vesturio parcialmente montadas.
        Ela reconheceu a maioria dos ofcios, mas perto das roupas 
desenvolvia-se uma atividade que lhe era inteiramente desconhecida. Uma 
armao continha verticalmente vrios fios finos de corda, com um padro 
parcialmente formado com o material entrelaado por eles na horizontal. Ela 
quis se aproximar para olhar de perto, mas prometeu a si mesma que faria 
isso depois. Pedaos de pau, pedra, ossos, chifre e marfim de mamute 
estavam em outros locais, entalhados como utenslios - conchas, colheres, 
tigelas, pinas, armas -, a maioria com enfeites esculpidos e por vezes 
pintados. Tambm havia pequenas esculturas e objetos en talhados que no 
eram utenslios ou ferramentas. Pareciam ter sido feitos por fazer ou por 
algum motivo que Ayla desconhecia.
        Ela viu legumes e ervas pendendo do alto de grandes estruturas com 
muitas hastes horizontais, e abaixo, no solo, carne secando sobre armaes. 
Distante de certa forma das outras atividades, ficava uma rea com afiadas 
lascas de pedras espalhadas pelo cho; para gente como Jondalar, pensou 
ela, lascas de slex usadas como ferramentas, facas e pontas de lanas.
        Para onde quer que ela olhasse, via gente. A comunidade que vivia 
debaixo do espaoso abrigo de pedra era do tamanho correspondente ao 
espao. Ayla fora criada num cl com menos de trinta pessoas; na 
Congregao do Cl, que acontecia a cada sete anos, duzentas pessoas se 
reuniam por um curto perodo de tempo, e para ela, na ocasio, tratava-se 
de uma enorme assemblia. Embora a Reunio de Vero dos Mamuti 
atrasse um nmero muito maior, a Nona Caverna dos Zelandonii, sozinha, 
que abrangia mais de duzentas pessoas vivendo num mesmo lugar, era maior 
do que toda a Congregao do Cl.
        Ayla no sabia quantas pessoas havia por ali observando-os, mas 
lembrou-se da ocasio em que foi com o cl de Brun  reunio de cls e teve 
a sensao de que todos olhavam para ela. Eles tentavam no chamar a 
ateno, mas as pessoas que olhavam fixamente enquanto Marthona 
conduzia Jondalar, Ayla e o lobo para o seu local de habitao no 
demonstravam nem um pouco de educao. No tentavam olhar para baixo 
ou desviar a vista. Ela imaginou se conseguiria se acostumar a viver com 
tanta gente morando perto o tempo todo; perguntou a si mesma se queria 
isso.
        A imensa mulher levantou a vista de relance, ao perceber o movimento 
da cortina de pele colocada na entrada, e depois olhou rapidamente para 
baixo quando a estranha jovem loura emergiu da habitao de Marthona. Ela
estava sentada no lugar costumeiro, um assento escavado em um bloco de 
pedra macio, forte o bastante para agentar a sua enorme corpulncia. O 
assento de pedra com estofo de plo fora feito especialmente, e ficava 
localizado exatamente onde ela o queria: em direo aos fundos da enorme 
rea aberta sob o imenso rochedo suspenso que protegia o povoado, mas 
com vista para praticamente todo o espao habitacional da comunidade.
        A mulher parecia meditar, mas no era a primeira vez que usava o 
local para observar disfaradamente alguma pessoa ou atividade. As pessoas 
haviam aprendido a no perturbar as suas meditaes, a no ser numa 
emergncia, principalmente se ela estivesse usando a placa de marfim do 
peito com o lado liso, sem ornamentos, voltado para fora. Quando o lado 
entalhado com smbolos e animais ficava  mostra, qualquer um estava livre 
para se aproximar, mas, quando virava a placa para o lado liso, esta se 
tornava um smbolo de silncio e significava que ela no desejava falar e no 
queria ser perturbada.
        A Caverna se acostumara  sua presena ali, e quase no a enxergava, 
apesar de toda a sua costumeira presena dominadora. Ela havia cultivado 
cuidadosamente esse efeito e no se sentia constrangida por causa disso. 
Como lder espiritual da Nona Caverna dos Zelandonii, considerava sua 
responsabilidade o bem-estar das pessoas e utilizava todos os meios que o 
seu frtil crebro era capaz de arquitetar para cumprir esse dever.
        Observou a jovem deixar o abrigo de pedra e rumar na direo da 
trilha que levava ao vale, e notou a inconfundvel aparncia estrangeira de 
sua tnica de pele. A velha donier tambm se cientificou de que ela andava 
com a elasticidade que lhe davam a sade e a fora, e uma confiana que 
contradizia a sua juventude e o fato de estar entre completos estranhos no 
espao habitado por eles.
        A Zelandoni levantou-se e caminhou em direo  estrutura, um dos 
muitos locais de moradia de vrios tamanhos espalhados no interior do 
abrigo de calcrio. Na entrada para a habitao que dividia o espao 
privativo de moradia da grande rea pblica aberta, ela bateu na chapa de 
couro ao lado da entrada fechada pela cortina e ouviu se aproximarem 
passadas abafadas por calados de pele macia. O homem alto, louro e 
surpreendentemente belo afastou a cortina. Olhos de um extraordinrio 
intenso tom de azul pareceram surpresos, e a seguir fervorosos de 
satisfao.
        - Zelandoni! Que bom ver voc - exclamou -, mas mame no est no 
momento.
        - O que o faz pensar que vim falar com Marthona? Foi voc quem 
sumiu por cinco anos. - O tom de voz dela era brusco.
        Ele ficou repentinamente aturdido e sem palavras.
        - Como , vai me deixar parada aqui, Jondalar?
        - Oh... Entre, claro - convidou ele, a testa marcada pelo enrugado 
habitual, apagando o sorriso afetuoso. Deu um passo para trs, mantendo a 
cortina afastada enquanto ela entrava.
        Estudaram-se em silncio por algum tempo. Quando ele partiu, ela 
acabara de se tornar A Primeira Entre Aqueles Que Serviam  Me; teve 
cinco anos para crescer na posio, e como crescera durante esse tempo. A 
mulher que ele havia conhecido se tornara imensamente gorda. Era duas ou 
trs vezes o tamanho da maioria das mulheres, com seios enormes e 
extensas ndegas. Tinha um rosto suave e abundante completado por trs 
papadas, mas os penetrantes olhos azuis pareciam no deixar escapar nada. 
Ela sempre fora alta e forte, transportava com graciosidade o enorme 
tamanho, e o porte era uma afirmao de seu prestgio e autoridade. Era 
dotada de grande presena e nela havia uma aura de poder que ordenava 
respeito.
        Ambos falaram ao mesmo tempo. 
        - Posso-lhe... - comeou Jondalar.
        - Voc mudou...
        - Perdoe... - desculpou-se ele pelo que pareceu uma interrupo, 
sentindo-se estranhamente constrangido. Em seguida, notou apenas uma 
leve insinuao de sorriso, um ar familiar nos olhos dela, e sentiu-se 
descontrair.
        - Estou contente em ver voc... Zolena - disse ele. A testa ficou lisa e 
o sorriso voltou, ao focar os seus olhos dominadores cheios de cordialidade 
e amor.
        - Voc no mudou tanto assim - observou ela, sentindo-se reagir ao 
carisma dele e s lembranas que isso suscitava. - H muito tempo que 
ningum me chama de Zolena.
        - Voltou a avali-lo cuidadosamente. - Mas, mesmo assim, mudou. 
Cresceu um pouco. Est mais bonito do que nunca...
        Ele comeou a protestar, mas ela sacudiu a cabea.
        - No faa objees, Jondalar. Sabe que  verdade. Mas h uma 
diferena. Voc parece... como direi? Voc no tem aquele olhar faminto, 
aquela necessidade que toda mulher quer satisfazer. Creio que encontrou o 
que andava procurando. Voc  feliz de uma maneira como nunca foi.
        - Nunca consegui esconder nada de voc - aquiesceu, sorrindo 
encantado, com uma satisfao quase infantil. - Eu e Ayla pretendemos nos 
acasalar no Matrimonial de vero. Ns podamos ter tido uma cerimnia de 
acasalamento antes de partirmos, ou ao longo do caminho, mas eu preferi 
esperar at chegar-mos em casa, para que voc pudesse pr a correia de 
couro sobre os nossos punhos e amarrar o n para ns.
        O simples fato de falar nela mudou-lhe a expresso, e a Zelandoni 
teve a inornentnca sensao do amor quase obsessivo que ele sentia por 
aquela mulher chamada Ayla. Isso a deixou preocupada e alertou todos os 
instintos protetores que sentia pelo seu povo - em particular por aquela 
pessoa -, como a voz, a substituta e o instrumento da Grande Me Terra. Ela 
sabia das fortes emoes com as quais Jondalar havia pelejado enquanto 
crescia, e que finalmente tinha aprendido a manter sob controle. Mas uma 
mulher que ele amava tanto assim poderia mago-lo terrivelmente, talvez 
at mesmo destru-lo. Os olhos dela se apertaram. Desejava saber mais 
sobre a jovem que o havia cativado to completa mente. Que tipo de 
controle ela exercia sobre ele?
        - Como pode estar seguro de que  a mulher certa para voc? Onde a 
conheceu? O quanto sabe realmente a respeito dela?
        Jondalar sentiu a preocupao dela, porm algo mais tambm, algo que 
o deixou inquieto. A Zelandoni era a lder espiritual do mais alto nvel de 
toda a zelandonia, e no era a Primeira  toa. Tratava-se de uma mulher 
poderosa, e ele no queria que ela se voltasse contra Ayla. A maior 
preocupao que ele - e, sabia, tambm de Ayla - tivera, durante a longa e 
difcil Jornada de volta dos dois, era se ela seria ou no aceita pelo seu povo. 
Apesar de todas as suas excepcionais qualidades, havia algumas coisas a 
respeito de Ayla que ele gostaria que ela mantivesse em segredo, embora 
duvidasse de que o fizesse. Ayla poderia ter enormes dificuldades - e 
provavelmente as teria, causadas por algumas pessoas - sem ter que 
contrair a inimizade daquela mulher em particular. Muito pelo contrrio, 
mais do que de ningum, Ayla precisava do apoio da Zelandoni.
        Ele esticou os braos e segurou os ombros da mulher, pois precisava 
convenc la, de alguma forma, no apenas a aceitar Ayla, mas tambm ajud-
la, embora ele no tivesse certeza de que modo. Olhando nos olhos dela, no 
pde deixar de lembrar do amor que houve outrora entre os dois, e 
subitamente percebeu que, por mais difcil que pudesse ser para ele, 
somente a total honestidade poderia dar certo. Se  que algo poderia dar 
certo.
        Jondalar era um homem reservado em relao a sentimentos pessoais; 
fora o modo atravs do qual aprendera a controlar as fortes emoes, 
guardando-as para si mesmo. No era fcil para ele falar com pessoa alguma 
sobre os seus sentimen tos, nem mesmo com algum que o conhecia to bem 
quanto ela.
        - Zelandoni... - O seu tom de voz suavizou. - Zolena... sabe que foi 
voc quem me estragou para outras mulheres. Eu era pouco mais do que um 
menino, e voc, a mulher mais excitante que qualquer homem poderia 
desejar. Eu no era o nico em umedecer os sonhos pensando em voc, mas 
tornou os meus em realidade. Eu me consumia por sua causa, e quando veio a 
mim, tornou-se a minha donii-mulher, e eu no me fartava de voc. A minha 
primeira masculinidade foi repleta de voc, mas voc sabia que ela no 
acabava ali. Eu queria mais, e por mais que voc evitasse, queria tambm. 
Apesar de ser proibido, eu amei voc e voc me amou. Eu ainda a amo. 
Sempre amarei.
        "Mesmo mais tarde - continuou -, depois de todo o problema que 
causamos para todos, e mame me mandar viver com Dalanar, quando voltei, 
ningum mais tinha chegado perto de voc. Eu ansiava por voc, ao passar o 
tempo deitado ao lado de outra mulher, e desejava ardentemente mais do 
que o seu corpo. Queria partilhar um lar com voc. No me importava a 
diferena de idade, ou que nenhum homem devia se apaixonar pela sua donii-
mulher. Eu queria passar a minha vida com voc.
        - E olhe o que voc teria conseguido, Jondalar - observou Zolena. Ela 
estava comovida, mais do que imaginava ainda poder se comover. - J deu 
uma boa olhada? No sou apenas mais velha do que voc. Sou to gorda, que 
comeo a ter problemas para me locomover. Ainda sou forte, ou teria mais 
problemas, e os terei com o passar do tempo. Voc  jovem, e to bom de se 
olhar, que as mulheres padecem por voc. A Me me escolheu. Ela devia 
saber que eu cresceria para ficar parecida com ela. Isso  perfeito para 
uma Zelandoni, mas, no seu lar, eu seria apenas uma velha gorda, e voc 
continuaria sendo um jovem bonito.
        - Voc acha que eu me importaria? Zolena, eu precisei viajar alm do 
final do Rio da Grande Me at encontrar uma mulher que se comparasse a 
voc.., e no  capaz de imaginar o quanto isso  longe. Eu faria isso 
novamente, e mais ainda. Agradeo  Grande Me por ter encontrado Ayla. 
Eu a amo, como amei voc. Seja boa com ela, Zolena... Zelandoni. No a 
magoe.
        - Isso me basta. Se ela  a mulher certa para voc, se ela se 
"compara", eu no poderia mago-la, e ela no iria mago-lo, no poderia. Era 
isso o que eu precisava saber, Jondalar.
        Ambos levantaram a vista quando a cortina sobre a entrada foi 
afastada para o lado. Ayla entrou na moradia carregando balaios de 
bagagem, e viu Jondalar segurando os ombros de uma mulher enorme de 
gorda. Ele recolheu as mos, aparentando embarao, quase envergonhado, 
como se estivesse fa zendo algo errado.
        Que significava aquele olhar de Jondalar para a mulher, e o jeito das 
mos dele segurarem os ombros dela? E a mulher? A despeito do seu 
tamanho, havia uma capacidade sedutora no modo como continha o seu corpo. 
Mas outra caracterstica afirmou-se rapidamente. Ao se virar para olhar 
Ayla, movimentou-se com um senso de autoconfiana e serenidade que era 
sinal manifesto de sua autoridade.
        Observar pequenos detalhes de expresso e atitude atrs de 
significados era uma segunda natureza da jovem mulher. O Cl, o povo que a 
criou, no falava preferencialmente com palavras. Ele se comunicava com 
sinais, gestos e nuanes. De interpretar a linguagem corporal evoluiu e se 
expandiu, passando a incluir o entendimento dos sinais e gestos 
inconscientes daqueles que usavam a linguagem falada. Subitamente, Ayla 
soube quem era aquela mulher, e percebeu que algo importante havia 
transpirado entre o homem e a mulher, e que a envolvia. Sentiu que 
enfrentava uma prova decisiva, mas no hesitou.
        - Ela  a tal, no  mesmo, Jondalar? - indagou Ayla, aproximando-se 
deles.
        - A tal o qu? - quis saber a Zelandoni, encarando a estranha.
        Ayla encarou-a de volta, sem vacilar.
        - A tal a quem devo agradecer - disse ela. - Antes de conhecer 
Jondalar, eu no entendia a respeito dos Dons da Me, especialmente o Seu 
Dom do Prazer. S conhecia dor e raiva, mas ele foi paciente e bondoso, e 
aprendi a conhecer a satisfao. Ele me falou da mulher que o ensinou. 
Obrigada, Zelandoni, por ensinar Jondalar, para que ele pudesse me dar o 
Seu Dom. Mas sou grata a voc por algo muito mais importante... e mais 
difcil para voc. Obrigada por desistir de Jondalar, para que ele pudesse 
me encontrar.
        A Zelandoni ficou surpresa, embora pouco deixasse transparecer. As 
palavras de Ayla no foram exatamente o que esperava ouvir. Os olhos das 
duas mantiveram-se presos enquanto a mulher estudava Ayla, buscando o 
senso de sua sagacidade, a percepo de seus sentimentos, o discernimento 
da verdade. A compreenso dos sinais inconscientes e da linguagem corporal 
da mulher mais velha no era diferente da de Ayla, embora fosse mais 
intuitiva. Sua capacidade desenvolvera-se atravs da observao subliminar
e anlise instintiva, e no pela ampla utilizao de uma linguagem aprendida 
em criana, mas era no menos astuta. A Zelandoni no sabia como sabia, ela 
apenas sabia.
        Demorou um momento at ela se dar conta de algo curioso. Apesar de 
a jovem mulher aparentar fluncia em Zelandonii - o seu controle da lngua 
era to bom, que a utilizava como uma nativa -, no restava dvida de que se 
tratava de uma estrangeira.
        Aquela Que Servia estava familiarizada com visitantes que falavam 
com sotaque de outra lngua, mas a fala de Ayla tinha um atributo 
estranhamente extico, diferente de tudo o que ela j ouvira. Sua voz, um 
tanto grave, mas um pouco gutural, no era desagradvel, e ela tinha 
problemas com certos sons. Lembrou da observao feita por Jondalar, 
sobre a grande distncia que havia percorrido em sua jornada, e um 
pensamento passou pela mente da Zelandoni durante as poucas pulsaes em 
que as mulheres permaneceram paradas, con frontando-se: essa mulher se 
disps a viajar uma grande distncia para vir para casa com ele.
        S ento notou que o rosto da jovem tinha uma aparncia nitidamente
estrangeira, e tentou identificar a diferena. Ayla era atraente, mas isso 
era de esperar de qualquer mulher que Jondalar levasse para casa. O rosto 
dela era de certo modo mais largo e mais curto do que os das mulheres 
Zelandonii, porm agradavelmente proporcionado com uma mandbula bem 
definida. Era um pouquinho mais alta do que a mulher mais velha, e o seu 
cabelo louro um tanto escuro era realado por riscas descoloridas pelo sol. 
Os claros olhos azuis-acinzentados guardavam segredos, uma forte 
resoluo, mas nenhum sinal de malcia.
        A Zelandoni fez um gesto afirmativo com a cabea e dirigiu-se a 
Jondalar.
        - Ela serve.
        Ele expirou demoradamente, e ento olhou de uma para outra.
        - Ayla, como sabia que esta era a Zelandoni? Ainda no foram 
apresentadas, no?
        - No foi difcil. Voc ainda a ama, e ela o ama.
        - Mas... mas... como...? - gaguejou ele.
        - No sabe que j vi esse ar nos seus olhos? No acha que eu sei como 
uma mulher que o ama se sente por dentro? - comentou Ayla.
        - Algumas pessoas ficariam com cimes, se vissem a pessoa amada 
olhar com amor para uma outra - lembrou ele.
        A Zelandoni desconfiava que, por "algumas pessoas", ele se referia a 
si mesmo.
        - Voc no acha que ela pode ver um belo jovem e uma velha gorda, 
Jondalar?  o que todo mundo veria. O seu amor por mim no  nenhuma 
ameaa para ela. Se a sua memria ainda o cega, sou grata o bastante.
        Virou-se para Ayla.
        - Eu no estava segura a seu respeito. Se achasse que no era a 
pessoa certa para ele, no importaria o quanto tivesse viajado, voc jamais 
se acasalaria com ele.
        - Nada que voc pudesse fazer impediria isso - afirmou Ayla.
        - Est vendo? - observou a Zelandoni, virando-se para olhar para 
Jondalar. - Eu lhe disse que, se ela fosse a pessoa certa para voc, eu no 
con seguiria mago-la.
        - Voc achou que Marona era a pessoa certa para mim, Zelandoni. - 
insinuou Jondalar, com um vestgio de irritao, comeando a achar que, 
para ela, ele no tinha direito a decidir-se sozinho. - Voc no fez objees 
quando fui prometido a ela.
        - Isso no importa. Voc no a amava. Ela no podia mago-lo.
        Ambas as mulheres o olhavam, e, apesar de no terem qualquer 
semelhana uma com a outra, suas expresses eram to semelhantes, que 
isso as fazia parecerem iguais.
        De repente, Jondalar deu uma risada.
        - Bem, estou feliz por saber que os dois amores de minha vida vo ser 
amigas - salientou ele.
        A Zelandoni levantou uma sobrancelha e deu-lhe um olhar severo.
        - O que faz voc pensar que vamos ser amigas? - perguntou, mas 
sorriu para si mesma, ao sair.
        Jondalar experimentou uma estranha srie de emoes confusas ao 
observar a Zelandoni partir, mas ficou contente com o fato de a poderosa 
mulher parecer disposta a aceitar Ayla. Sua irm tambm fora amistosa com 
ela, bem como sua me. Todas as mulheres que realmente importavam 
pareciam dispostas a receb la bem - pelo menos por enquanto, imaginou. 
Sua me at mesmo lhe dissera que faria todo o possvel para fazer Ayla se 
sentir em casa.
        A cortina de pele sobre a entrada moveu-se, e Jondalar sentiu um 
arrepio de surpresa ao ver a me, pois acabara de pensar nela. Marthona 
entrou, carregando o estmago conservado de um animal de mdio porte 
cheio de um lquido que se infiltrava pelo recipiente quase impermevel o 
bastante para deixar nele a mancha de um roxo intenso.
        O rosto de Jondalar iluminou-se com um sorriso.
        - Me, voc trouxe um pouco do seu vinho! - exclamou. - Ayla, voc 
lembra da bebida que tomamos quando ficamos com os Xaramudi? O vinho 
de mirtilo? Agora, ter a chance de provar o vinho de Marthona. Ela  
famosa por causa dele. No importa que fruta a maioria das pessoas use, o 
suco delas costuma ficar azedo, mas a mame d um jeito nisso. Sorriu para 
ela e acrescentou:
        - Talvez, algum dia, ela me revele o seu segredo.
        Marthona sorriu de volta para o homem alto, mas no fez nenhum 
comentrio. Pela sua expresso, Ayla percebeu que a mulher tinha uma 
tcnica secreta, e que era boa em manter segredos, no apenas os seus. 
Talvez ela conhecesse muitos. Havia camadas e profundezas ocultas naquela 
mulher, por ela ser direta e honesta no que falava. E por ser ela amistosa e 
acolhedora, Ayla sabia que a me de Jondalar era cautelosa em sua avaliao 
antes da aceitao total.
        Subitamente, Ayla lembrou-se de Iza, a mulher do Cl que fora uma 
me para ela. Iza tambm conhecia muitos segredos, porm, como o resto 
do Cl, ela no mentia.
        Por causa da linguagem dos gestos, e nuanes comunicadas por 
atitudes e expresses, eles no conseguiam dizer uma mentira. Ela seria 
conhecida imediatamente. Mas eles podiam abster-se de mencionar algo. O 
que, embora pudesse ser visto como uma omisso, era permitido, em 
considerao  privacidade.
        No era a primeira vez, ela percebeu, que recentemente se lembrara 
do Cl. Joharran, lder da Nona Caverna, irmo de Jondalar, lembrara-lhe 
Brun, o seu lder do Cl. Por que os parentes de Jondalar lembravam-lhe o 
Cl? - perguntou-se.
        - Vocs devem estar famintos - observou Marthona, incluindo ambos 
em seu olhar.
        Jondalar sorriu.
        - Sim, eu estou faminto! No comemos desde manh cedo. Eu estava 
com tanta pressa de chegar aqui, e nos encontrvamos to perto, que no 
quis parar.
        - Se j trouxeram todas as suas coisas para c, sentem-se e 
descansem um pouco, enquanto preparo uma comida para vocs. - Marthona 
conduziu-os a uma mesa baixa, indicou almofadas para eles sentarem e 
despejou em canecos, para cada, um pouco do lquido vermelho-escuro. 
        Olhou em volta. - No estou vendo o seu animal-lobo, Ayla. Eu sei que 
o trouxe para c. Ele tambm no precisa de comida? O que ele come?
        - Eu costumo aliment-lo com aquilo que comemos, mas ele tambm 
caa para si. Eu o trouxe para ele saber onde  o seu lugar, mas voltou 
comigo, quando desci de volta para o vale onde esto os cavalos, e resolveu 
ficar. Lobo anda livre por a, a no ser quando preciso dele - contou Ayla.
        - Como ele sabe quando precisa dele?
        - Ela tem um assobio especial para cham-lo - revelou Jondalar. - Ns 
tambm chamamos os cavalos com assobios. - Levantou o seu caneco, provou, 
e suspirou de contentamento.
        - Agora eu sei que estou em casa. - Deu outro gole, fechou os olhos e 
saboreou. - De que fruta foi feito este, mame?
        - Na maioria, com aquelas bagas redondas que nascem em cachos em 
longas parreiras que crescem apenas nas encostas voltadas para o sul e 
protegidas do sol - explicou Marthona para compreenso de Ayla. - H uma 
rea, vrios quilmetros a sudeste daqui, onde sempre dou uma olhada. Em 
alguns anos, elas no se desenvolvem bem, mas, anos atrs, tivemos um 
inverno razoavelmente quente, e no outono seguinte os cachos ficaram 
enormes, cheios de frutos, doces mas no muito. Acrescentei um pouco de 
sabugo, suco de amora-preta, mas no muito. Esse vinho  o meu favorito.  
um pouco mais forte do que o normal. No me resta muito dele.
        Ayla farejou o aroma de fruta, ao levar o caneco aos lbios para 
provar. O lquido era cido e travoso, seco, no tinha o sabor adocicado que 
ela esperava diante do cheiro de fruta. Sentiu a natureza alcolica que 
provara pela primeira vez na cerveja de btula feita por Talut, o chefe do 
Acampamento do Leo, porm isto mais parecia com o suco de mirtilo 
fermentado feito pelos Xaramudi, s que esse, pelo que lembrava, tinha um 
sabor mais adocicado.
        No havia gostado do spero ardor de lcool, ao experiment-la pela 
primeira vez, mas o resto do Acampamento do Leo pareceu deleitar-se 
bastante com a cerveja de btula, e ela quis se enturmar e ser como eles, e 
portanto a tomou. Aps algum tempo, acostumou-se com ela, embora 
desconfiasse que o motivo pelo qual as pessoas gostavam daquilo no era 
muito pelo gosto, mas pela sensao estonteante, se bem que perturbadora, 
que causava. Uma grande quantidade geralmente fazia com que se sentisse 
tonta e muito amistosa, mas algumas pessoas se tornavam tristes ou 
zangadas, ou at mesmo violentas.
        Aquela beberagem, porm, tinha algo mais. Elusivas complexidades 
alteravam de forma extraordinria a simples caracterstica do suco da 
fruta. Tratava-se de uma bebida que ela podia aprender a gostar.
        -  muito bom - afirmou Ayla. - Eu nunca no provei algo... Eu nunca 
provei algo parecido - corrigiu-se, sentindo-se ligeiramente constrangida. 
Ela sentia-se completamente  vontade em Zelandonii; foi a primeira lngua 
falada que aprendeu depois de ter vivido com o Cl. Jondalar lhe ensinara, 
enquanto se recuperava dos ferimentos dos golpes do leo. Embora tivesse 
dificuldade com alguns sons - no importava o quanto ela insistisse, no 
conseguia pronunci-los de acordo -, raramente cometia erros na formao 
de frases como aquela. Olhou de relance para Jondalar e Marthona, mas 
eles no pareceram perceber. Ela relaxou e olhou em volta.
        Apesar de ter entrado e sado vrias vezes da moradia de Marthona, 
ainda no tinha dado uma boa olhada nela. Demorou-se em observ-la mais 
atentamente, e ficava surpresa e encantada em cada canto. A construo 
era interessante, semelhante mas no igual s habitaes no interior da 
caverna Losadunai, onde haviam parado para uma visita, antes de atravessar 
a geleira do elevado planalto.
        O primeiro metro das paredes externas de cada moradia era 
construdo em calcrio. Blocos relativamente grandes eram aparados 
toscamente e colocados em cada lado da entrada, mas ferramentas de 
pedra no eram adequadas para uma perfeita moldagem de rochas para 
construo de um modo fcil e rpido. O restante das paredes inferiores 
era formado do calcrio da maneira como ele fora encontrado, ou 
grosseiramente moldado com um martelo de pedra. Vrios pedaos, mais ou 
menos do mesmo tamanho, talvez com cerca de sete centmetros de largura, 
no tanto de profundidade, e quatro vezes maior do que a largura - mas 
alguns maiores e outros menores - eram engenhosamente encaixados a fim 
de que se engatassem, formando uma estrutura firme e compacta.
        Os pedaos de forma grosseiramente losangular eram selecionados e 
aplana dos pelo tamanho, depois dispostos lado a lado no sentido longitudinal, 
para que a largura das paredes fosse equivalente ao comprimento das 
pedras. As grossas paredes eram construdas em camadas, para que cada 
pedra fosse colocada na concavidade onde duas pedras abaixo dela haviam 
sido juntadas. Ocasionalmente, pedras menores eram usadas para preencher 
espaos vazios, principalmente em volta dos blocos maiores prximos  
entrada.
         medida que eram dispostas as camadas, fazia-se um ligeiro ressalto 
para dentro, projetando-se de tal forma que cada camada sucessiva 
salientava-se um pouco mais da de baixo. Era feita uma cuidadosa seleo e 
disposio, a fim de que qualquer irregularidade da pedra contribusse para 
o escoamento da umidade externa, fosse a gua da chuva soprada para 
dentro, a condensao acumulada ou o gelo derretido.
        Nenhuma argamassa ou barro era necessrio para tapar buracos ou 
aumentar o apoio. O calcrio bruto fornecia sustentao necessria para 
evitar deslizamento ou deslocamento, e a massa de pedras era mantida 
firme pelo seu prprio peso e at mesmo podia suportar a fora de uma viga 
de zimbro ou pinho enfiada nas paredes para sustentar outros elementos da 
construo ou estruturas de prateleiras. As pedras eram to habilmente 
encaixadas que nenhuma rstia de luz penetrava, e nenhuma rajada errante 
de vento invernal era capaz de encontrar uma abertura. O efeito tambm 
era bastante atraente, com uma agradvel textura, principalmente visto 
pelo lado de fora. Pelo lado de dentro, a parede amortecedora de vento 
ainda era escondida por uma segunda parede feita de chapas de couro cru - 
couro no tratado que, ao secar, ficava retesado e duro - presas a estacas 
de pau enfiadas no cho de terra. As chapas comeavam no nvel do cho, 
mas se estendiam verticalmente alm das paredes de pedra at uma altura 
acima de dois metros e meio. Ayla lembrou que as chapas superiores 
tambm eram profusamente enfeitadas pelo lado de fora. Muitas das 
chapas tambm eram pintadas com animais e sinais enigmticos pelo lado de 
dentro, mas as cores pareciam menos vivas porque era mais escuro no 
interior. 
        Porque a estrutura de Marthona foi construda encostada  parte 
posterior ligeiramente inclinada do rochedo, debaixo da prateleira suspensa, 
uma parede da habitao era de calcrio macio. Ayla olhou para cima. No 
havia teto, exceto o lado de baixo da salincia de pedra a alguma distncia 
acima. A menos que houvesse uma ocasional corrente de ar de baixo para 
cima, a fumaa das fogueiras elevava-se acima das chapas das paredes e era 
carregada ao longo do imponente rochedo, deixando o ar claro. A salincia 
do rochedo os protegia do tempo inclemente, e com roupas quentes as 
habitaes podiam ser bastante confortveis, mesmo quando fazia frio. Elas 
eram razoavelmente amplas, ao contrrio de alguns dos espaos de 
habitao aconchegantes que Ayla tinha visto, fceis de aquecer, cercados 
totalmente, mas em geral repletos de fumaa.
        Ao mesmo tempo em que as paredes de pau e couro forneciam 
proteo contra o vento e a chuva que pudessem penetrar, eram muito mais 
projetadas para delimitar uma rea de espao pessoal e fornecer um certo 
grau de privacidade, pelo menos dos olhos se no dos ouvidos. Algumas das 
partes superiores das chapas, se desejassem, podiam ser abertas para 
permitir a entrada da luz ou para conversas de vizinhos, mas quando as 
chapas da janela estavam fechadas, era considerado educado por parte do 
visitante usar a entrada e solicitar o ingresso, e no simplesmente gritar do 
lado de fora ou ir entrando.
        Ayla examinou o cho mais atentamente, quando os seus olhos 
notaram pedras encaixadas. O calcrio dos enormes rochedos da regio 
podia se quebrar ou ser cortado naturalmente ao longo das linhas de sua 
estrutura cristalizada, em largos fragmentos achatados. O cho de terra do 
interior da habitao era pavimentado com pedaos irregulares das pedras 
planas e coberto com esteiras tecidas com capim e junco e pequenos 
tapetes de macia pele de animais.
        Ayla voltou a ateno para a conversa entre Jondalar e a me. Ao dar 
um gole no vinho, examinou o caneco em sua mo. Era feito de um chifre oco, 
de biso, imaginou, provavelmente uma parte cortada no muito distante da 
ponta, j que tinha um dimetro estreito. Levantou-o e olhou embaixo; o 
fundo era de pau, moldado para se ajustar  extremidade circular 
ligeiramente torta, e introduzido  fora. Viu marcas riscadas na lateral, 
mas, ao observar mais atentamente, ficou surpresa ao verificar que se 
tratava da figura de um cavalo visto de lado, perfeita e delicadamente 
talhada.
        Pousou o caneco, e em seguida examinou a baixa plataforma em volta 
da qual estavam sentados. Tratava-se de uma fina laje de calcrio pousada 
sobre uma estrutura de apoio feita de pau vergado, com pernas, tudo unido 
com tiras de couro. O tampo era coberto por uma esteira de um tipo de 
fibra bem fina, tecida para formar um intricado padro que sugeria animais 
e vrias linhas e formas abstratas, em gradaes de um tosco colorido 
avermelhado. Vrias almofadas feitas de diferentes materiais estavam 
dispostas em volta. As de pele tinham um tom semelhante de vermelho.
        Duas lamparinas de pedra descansavam sobre a mesa de pedra. Uma 
era lindamente esculpida, na forma de uma tigela rasa com uma asa 
decorada, a outra era grosseiramente equivalente, com uma depresso que 
fora apressadamente esburacada no centro de um pedao de calcrio. 
Ambas continham sebo derretido - gordura animal deixada cozer em gua 
fervente - e pavios para queimar. A lamparina tosca tinha dois pavios, e a 
bem-acabada, trs. Cada pavio produzia a mesma quantidade de luz. Ayla 
pressentiu que a lamparina tosca fora feita recentemente, para um rpido 
acrscimo de luz no fracamente iluminado espao de moradia que ficava nos 
fundos do abrigo, e teria apenas um uso temporrio.
        O espao interno, dividido em quatro reas com divisrias mveis, era 
arrumado, desatravancado e iluminado por mais lamparinas de pedra. Os 
tabiques divisores, a maioria colorida ou enfeitada de alguma forma, 
tambm tinham estrutura de madeira, alguns com painis opacos, em geral 
feitos com o duro couro cru no curtido. Mas alguns eram translcidos, 
provavelmente, imaginou Ayla, feitos dos intestinos de algum grande animal, 
que eram cortados, abertos e aplainados e deixados a secar.
        Na extremidade esquerda da parede de pedra dos fundos, junto a um 
painel exteridr, havia uma divisria particularmente bonita, que parecia ter 
sido feita com carnaz - o material semelhante ao pergaminho, que podia ser 
retirado em grandes pedaos do lado interno do couro dos animais, se fosse 
posto a secar sem ser raspado. Um cavalo e alguns padres enigmticos, que 
incluam linhas, bolinhas e quadrados, tinham sido desenhados nela em preto 
e tons de amarelo e vermelho. Ayla lembrou que o Mamut do Acampamento 
do Leo usava um tabique semelhante durante as cerimnias, s que os seus 
animais e os sinais eram desenhados apenas em preto. O dele tinha vindo do 
carnaz de um mamute branco, e era a sua posse mais sagrada.
        No cho, diante da divisria, havia uma pele acinzentada que Ayla 
teve certeza de que era o couro de um cavalo com a grossa pelagem de 
inverno. O brilho de uma pequena fogueira, que parecia vir de um nicho na 
parede atrs dele, iluminava o tabique do cavalo, realando a sua decorao.
        Prateleiras, feitas com pores de calcrio mais finas do que as do 
pavimento e espacejadas em vrios intervalos, enfileiravam-se  direita da 
divisria e continham uma variedade de objetos e implementos. Formas 
indistintas podiam ser vistas no cho em uma rea de depsito sob a 
prateleira mais baixa, onde era mais fundo o declive da parede. Ayla 
reconheceu o uso prtico de muitas das coisas, mas algumas haviam sido 
entalhadas e coloridas com tal habilidade, que eram tambm belos objetos.
         direita das prateleiras, uma divisria com placas de couro 
projetava-se da parede de pedra, marcando o canto do aposento e o incio 
de um outro. Os tabiques apenas sugeriam uma diviso entre os cmodos, e 
por uma abertura Ayla pde ver uma plataforma elevada com uma pilha de 
peles macias. O espao de dormir de algum, deduziu. 
        Outro espao de dormir estava vagamente definido por tabiques, que 
o separavam do primeiro espao de dormir do aposento que eles ocupavam. A 
entrada cortinada fazia parte da parede de painis de madeira e couro 
oposta  parede de pedra, e ao lado, depois dos espaos de dormir, havia um 
quarto aposento, onde Marthona estava preparando comida. Ao longo da 
parede de entrada, perto do aposento de cozinhar, prateleiras individuais 
de madeira continham, engenhosamente dispostos, cestos e vasilhas de 
madeira, lindamente enfeitados com padres geomtricos ou reprodues 
realistas de animais em entalhe, tecido ou pintura. Recipientes maiores 
encontravam-se no cho perto da parede, alguns com tampas, enquanto 
outros revelavam abertamente o seu contedo: legumes, frutas, gros, 
carnes secas.
        Havia quatro lados na habitao grosseiramente retangular, embora 
as paredes externas no fossem perfeitamente retas nem os espaos 
inteiramente simtricos. De algum modo, eles se curvavam irregularmente, 
tendendo a seguir os contornos do espao sob a grande salincia e cedendo 
pores para outras habitaes.
        - Voc mudou as coisas por aqui, mame - observou Jondalar. - 
Parecem mais espaosas do que me recordo.
        - Esto mesmo mais espaosas, Jondalar. Agora s h ns trs aqui. 
Folara dorme ali - confirmou Marthona, indicando o segundo espao de 
dormir. - Willamar e eu dormimos no outro aposento. - Fez um gesto em 
direo ao aposento encostado  parede de pedra. - Voc e Ayla podem usar 
o aposento principal. Podemos puxar a mesa mais para perto da parede e 
abrir espao para uma plataforma de dormir, se voc quiser.
        Para Ayla, o lugar parecia bastante espaoso. A residncia era muito 
maior do que os espaos individuais de habitao de cada lareira - de cada 
famlia - da casa longa semi-subterrnea do Acampamento do Leo, mas no 
to grande quanto a pequena caverna dela no vale, onde morava sozinha. Mas, 
diferentemente da quela rea de habitao, a moradia dos Mamuti no era 
uma formao natural; as pessoas do Acampamento do Leo a tinham feito 
sozinhas.
        Sua ateno foi atrada para a parte mais prxima, que separava o 
espao de cozinhar do aposento principal. Ele se curvava ao meio, e ela 
deduziu que eram duas divisrias translcidas unidas de um modo incomum. 
As estacas de madeira que formavam a parte interna da armao e as 
pernas de ambos os painis esta vam enfiadas em crculos de chifres de 
biso cortados na transversal. Os anis formavam uma espcie de dobradia 
perto da parte de baixo e em cima, permitindo que a divisria dupla se 
dobrasse para trs. Ela ficou imaginando se as outras divisrias eram feitas 
do mesmo modo.
        Olhou para o espao de cozinhar, curiosa em relao s instalaes. 
Marthona estava ajoelhada sobre uma esteira ao lado de uma lareira 
rodeada por pedras de tamanhos semelhantes; as pedras do pavimento em 
volta dela eram completamente limpas. Atrs da mulher, num canto mais 
escuro iluminado por uma nica lamparina de pedra, havia mais prateleiras 
com canecos, vasilhas de madeira, travessas e apetrechos. Ela notou ervas e 
legumes secos pendurados, e ento viu a extremidade de uma armao com 
peas transversais nas quais eles estavam amarrados. Em uma prateleira ao 
lado do fogo, havia vasilhas de madeira, cestos e uma enorme travessa de 
osso com pedaos de carne vermelha fresca cortada em pedaos.
        Ayla perguntou-se se devia oferecer ajuda, mas ela no sabia onde as 
coisas eram guardadas, ou o que Marthona estava preparando. Era melhor 
no ajudar do que atrapalhar. O mais vantajoso seria esperar, concluiu.
        Observou Marthona enfiar a carne em quatro espetos pontiagudos e 
coloc-los sobre a brasa, apoiados em duas pedras dispostas na vertical, 
com entalhes para conter vrios espetos de uma s vez. A seguir, com uma 
concha entalhada de um chifre de bix, a mulher transferiu lquido de um 
cesto calafetado para vasilhas. Com uma pina flexvel feita de madeira 
entortada de ponta a ponta, pescou duas pedras lisas do cesto de cozimento 
e acrescentou outra que havia sido esquentada no fogo, e depois levou as 
duas vasilhas para Ayla e Jondalar.
        Ayla notou as esferas de pequenas cebolas e algumas outras razes 
comestveis na sopa consistente, e deu-se conta do quanto estava com fome, 
mas esperou e ficou olhando o que Jondalar fazia. Ele pegou a sua faca de 
comer, uma pequena e pontuda lmina de slex enfiada em um cabo de chifre 
de veado, e espetou uma pequena raiz. 
        Colocou-a na boca, mastigou-a por um momento, e depois deu um gole 
no caldo da vasilha. Ayla pegou a sua faca de comer e fez o mesmo. A sopa 
tinha um delicioso sabor de caldo de carne, mas no havia carne nela, apenas 
legumes, uma inusitada combinao de ervas, para o paladar dela, e algo mais, 
porm Ayla no sabia o qu. Isso a surpreendeu, pois quase sempre era 
capaz de distinguir os ingredientes da comida. A carne, dourada nos espetos 
sobre o fogo, logo foi levada para eles. Tambm tinha um inusitado sabor 
delicioso. Ela quis perguntar, mas conteve a lngua.
        - No vai comer, mame? Est timo - exclamou Jondalar, espetando 
outro pedao de legume.
        - Folara e eu comemos mais cedo. Preparei bastante, pois ando 
esperando a volta de Willamar. Ainda bem que fiz isso - sorriu. - S precisei 
esquentar a sopa para vocs, e cozer a carne de auroque. Eu a deixei de 
molho no vinho.
        Era esse o sabor, refletiu Ayla, ao dar outro gole no lquido vermelho. 
Tambm estava na sopa.
        - Quando Willamar vai voltar? - perguntou Jondalar. - Estou ansioso 
para v-lo.
        - Em breve - respondeu Marthona. - Ele foi para o oeste, numa misso 
de comrcio, nas Grandes guas, para conseguir sal e o que mais puder 
trocar, mas ele sabe que planejamos partir para a Reunio de Vero. Ele 
certamente voltar antes disso, a no ser que algo o retarde, mas eu o estou 
esperando a qualquer momento.
         - Laduni dos Losadunai me disse que eles permutam com uma Caverna 
que extrai sal de uma montanha. Eles a chamam de Montanha de Sal - contou 
Jondalar.
        - Uma montanha de sal? No sabia que havia sal em montanhas, 
Jondalar. Acho que voc vai ter histrias para contar durante muito tempo, 
e ningum saber o que  histria e o que  verdade - observou Marthona.
        Jondalar sorriu, mas Ayla teve a ntida impresso de que a me dele, 
sem o dizer, duvidou do que lhe foi contado.
        - Eles tm sal, e vivem bem distantes da gua salgada. Se tivessem 
que viajar grandes distncias para conseguir sal, no creio que seriam to 
liberais com essa coisa.
        O sorriso de Jondalar se ampliou, como se ele tivesse pensado em 
algo engraado.
        - Por falar em viajar grandes distncias, tenho um recado para voc, 
mame, de algum que conhecemos em nossa Jornada, algum que voc 
conhece.
        - De Dalanar ou Jerika? - quis saber ela.
        - Tambm temos um recado deles. Esto vindo para a Reunio de 
Vero. Dalanar vai tentar convencer algum Zelandonii jovem a voltar com 
eles. A Primeira Caverna dos Lanzadonii est crescendo. No ficaria 
surpreso se em breve iniciassem uma segunda Caverna - observou Jondalar.
        - No creio que ser difcil encontrar algum - comentou Marthona. - 
Ser uma honra e tanto. Quem quer que v, ser verdadeiramente o 
Primeiro, o primeiro e nico Lanzadonii.
        - Mas, como eles ainda no tm Aquele Que Serve, Dalanar quer que 
Joplaya e Echozar participem do Matrimonial Zelandonii - prosseguiu 
Jondalar.
        Um rpido ar de desaprovao percorreu o rosto de Marthona.
        - Sua prima mais chegada  uma moa linda, incomum, mas linda. 
Nenhum rapaz consegue tirar os olhos dela, quando vem s Reunies dos 
Zelandonii. Por que ela escolheria Echozar, se pode ter qualquer homem que 
quiser?
        - No, no qualquer homem - afirmou Ayla. Marthona olhou para ela e 
percebeu um cintilar de veemncia defensiva. Ela enrubesceu levemente e 
desviou a vista. - E ela me disse que nunca encontrar algum que a ame 
tanto quanto Echozar.
        - Tem razo - concordou Marthona, fez uma pausa e logo, olhando 
diretamente para ela, acrescentou: - H alguns homens que ela no consegue 
ter. - A mulher mais velha deu uma olhadela de relance para o filho. - Mas 
ela e Echozar no parecem... combinar. Joplaya  de uma beleza estonteante, 
e ele.., no. Mas as aparncias no contam para tudo; s vezes, ela no conta 
coisa alguma. E Echozar parece ser um homem bom e zeloso.
        Embora Marthona no tenha dito, Ayla soube que ela rapidamente 
entendeu o motivo pelo qual Joplaya fizera a sua escolha; a "prima mais 
chegada" de Jondalar, a filha da parceira de Dalanar, amava um homem que 
nunca poderia ter. Nada mais importava, da ela ter escolhido aquele que ela 
sabia que a amava de verdade. E Ayla compreendeu que a objeo de 
Marthona era insignificante, estimulada por um senso particular de esttica, 
e no por algum senso de propriedade violado, como ela havia temido. A me 
de Jondalar adorava coisas lindas, e parecia-lhe apropriado que uma linda 
mulher se unisse a um homem  sua altura, mas tinha a compreenso de que 
a beleza de carter era mais importante.
        Jondalar no parecia notar a leve tenso entre as duas mulheres, pois 
estava contente demais consigo mesmo por lembrar as palavras que lhe 
pediram que transmitisse  sua me, ditas por algum a quem ele nunca a 
ouvira mencionar. 
        - A mensagem que tenho para voc no  dos Lanzadonii. Ns nos 
hospedamos com algumas pessoas em nossa Jornada, ficamos mais tempo do 
que o planejado, apesar de no termos planejado ficar. Mas isso  outra 
histria. Quando partimos, Aquela Que Serve disse: "Quando falar com 
Marthona, diga-lhe que Bodoa envia seu amor."
        Jondalar esperava alguma reao da me, dotada de autocontrole e 
dignidade, ao mencionar um homem do passado que ela provavelmente havia 
esquecido. Sua inteno era fazer uma divertida troa com o seu amoroso 
jogo de palavras e significados implcitos, dizer sem dizer, mas no esperava 
a reao que obteve.
        Os olhos de Marthona arregalaram-se e o rosto descorou.
        - Bodoa! Oh, Grande Me! Bodoa? - colocou a mo sobre o peito, e 
pareceu perder a respirao.
        - Mame! Voc est bem? - perguntou Jondalar, dando um salto e 
hesitando diante dela. - Desculpe, no pretendia lhe causar um choque 
desses. Devo chamar a Zelandoni?
        - No, no, estou bem - declarou Marthona, inspirando fundo. - Mas 
fiquei surpresa. No pensava que jamais voltaria a ouvir esse nome. Nem 
mesmo sabia que ela estava viva. Voc... chegou a conhec-la bem?
        - Ela disse que quase foi uma co-parceira sua com Joconan, mas achei 
que devia estar exagerando, talvez no se lembrando das coisas com 
exatido - aventou Jondalar.
        - Por que nunca a mencionou? - Ayla lanou-lhe um olhar intrigado. Ela 
no sabia que ele no acreditara inteiramente na S'Armuna.
        - Foi doloroso demais, Jondalar. Bodoa era como uma irm. Eu teria 
ficado contente em ser co-parceira dela, mas o nosso Zelandoni foi contra. 
Ele alegou que haviam prometido ao tio de Bodoa que ela iria embora daqui 
depois de seu treinamento. Voc disse que ela  Uma Que Serve? Talvez 
tenha sido melhor, mas ela ficou to zangada quando partiu. Implorei-lhe 
que esperasse a mudana da estao antes de tentar atravessar a geleira, 
mas no me deu ouvidos. Fico feliz em saber que sobreviveu  travessia, e 
contente por ter me enviado o seu amor. Voc acha que ela falou srio?
        - Sim, tenho certeza, mame. Mas ela no teve que voltar para casa - 
revelou Jondalar. - O tio dela j tinha partido deste mundo, como tambm a 
sua me. Ela se tornou S'Armuna, mas a raiva que tinha fez com que usasse 
mal a sua vocao. Ajudou uma mulher m a se tornar lder, embora no 
soubesse o quanto Attaroa se tornaria malvada. A S'Armuna agora est 
reparando isso. Creio que conseguiu a afirmao de seu chamado ao ajudar a 
Caverna dela a superar os anos ruins, apesar de ter se tornado a lder at 
surgir algum, como voc fez, mame. Bodoa  notvel, at mesmo descobriu 
uma maneira de transformar barro em pedra.
        - Barro em pedra? Jondalar, voc est parecendo um viajante 
Contador de Histrias - duvidou Marthona. - Como poderei saber no que 
acreditar, se continuar contando essas coisas inacreditveis?
        - Acredite em mim. Estou falando a verdade - afirmou Jondalar, com 
toda a seriedade e sem nenhum sutil jogo de palavras. - Eu no me tornei um 
viajante Contador de Histrias, que vai de Caverna a Caverna enfeitando 
lendas e histrias para deixar as pessoas entusiasmadas, mas fiz uma longa 
Jornada e vi muitas coisas. - Olhou de relance para Ayla. - Se voc no 
tivesse visto, acreditaria que pessoas podem montar em cavalos ou fazer 
amizade com um lobo? Tenho mais coisas a lhe contar, que achar 
inacreditveis, e algumas para mostrar, que faro com que duvide dos 
prprios olhos.
        - Est bem, Jondalar. Voc me convenceu. No voltarei a question-lo, 
mesmo se achar difcil acreditar no que voc diz - cedeu, e em seguida 
sorriu, com um malicioso encanto que Ayla ainda no havia visto. Por um 
momento, a mulher pareceu anos mais jovem, e Ayla deu-se conta de onde 
vinha o sorriso de Jondalar.
        Marthona levantou o seu caneco de vinho e tomou-o lentamente, 
incentivando-os a terminar de comer. Ao acabarem, recolheu as vasilhas e 
os espetos, deu-lhes uma macia pele absorvente umedecida, para limparem 
as suas facas pessoais de comer antes de guard-las, e serviu-lhes mais 
vinho.
        - Voc ficou fora muito tempo, Jondalar - falou para o filho. Ayla 
tinha a sensao de que ela escolhia cuidadosamente as palavras. - Sei que 
deve ter muitas histrias para contar sobre a sua longa Jornada. Voc 
tambm, Ayla - sugeriu ela, olhando para a jovem. - Levar muito tempo para 
contarem todas elas, creio eu. Espero que estejam planejando ficar... por 
algum tempo. - Deu um olhar significativo para jondalar. -Vocs podem ficar 
aqui o quanto desejarem.
        Jondalar sorriu.
        - Sim, mame, vamos querer. No se preocupe, no partirei novamente. 
O meu lar  aqui. Estou planejando ficar, ambos estamos, a no ser que 
algum tenha alguma objeo.  essa a histria que quer ouvir? Ayla e eu 
ainda no nos acasalamos, mas o faremos. J falei para a Zelandoni... ela 
esteve aqui antes de voc chegar com o vinho. Eu quis esperar at 
chegarmos em casa, para podermos nos unir aqui e fazer a Zelandoni 
amarrar o n, no Matrimonial deste vero. Estou cansado de viajar - 
acrescentou com veemncia.
        Marthona sorriu feliz.
        - Ser bom ver uma criana nascer da sua lareira, talvez at do seu 
esprito, Jondalar - sugeriu.
        Ele olhou para Ayla e sorriu.
        - Tambm sinto o mesmo - afirmou.
        Marthona esperava que ele estivesse expressando o que aparentava, 
mas no quis perguntar. Seria ele quem lhe diria. Marthona s esperava que 
Jondalar no tentasse ser to evasivo em relao a um assunto to 
importante quanto a possibilidade de crianas nascidas da lareira do seu 
filho.
        - Talvez voc se alegre em saber - continuou Jondalar - que Thonolan 
deixou uma criana do seu esprito, se no da lareira dele, pelo menos de 
uma Caverna, talvez mais. Uma mulher Losadunai chamada Filonia, uma que o 
achou agracivel, descobriu que fora abenoada, logo depois de pararmos. 
Ela agora est acasalada e tem dois filhos. Laduna me contou que, quando se 
espalhou a notcia de que ela estava grvida, todos os homens Losadunai 
disponveis encontraram um motivo para uma visita. 
        Ela fez a escolha, mas chamou a primeira criana, uma filha, de 
Thonolia. Eu vi a menininha. Ela se parece muito com Folara, quando era 
pequena.
        -  pena que morem to longe, e depois de uma geleira.  uma grande 
distncia para viajar, apesar de que, na viagem de volta, parea muito perto 
de casa.
        Parou e ficou pensativo. - Eu nunca gostei de viajar tanto assim. Eu 
nunca teria viajado tanto, se no fosse por Thonolan... - de repente, notou a 
expresso da me, e quando se deu conta de quem estivera falando, seu 
sorriso murchou.
        - Thonolan nasceu da lareira de Willamar - lembrou Marthona -, 
nascido tambm do seu esprito. Tenho certeza. Ele sempre quis se manter 
em movimento, mesmo quando era um beb. Ele ainda viaja?
        Ayla notou novamente uma evasiva nas perguntas que Marthona fazia 
ou, vezes, no perguntava, mas, mesmo assim, deixava isso claro. Em seguida, 
ela lembrou que Jondalar sempre ficava um pouco desconcertado pela 
franqueza e a sincera curiosidade dos Mamuti, e teve uma sbita intuio. 
O povo que chamava a si mesmo de Caadores de Mamutes, a gente que a 
adotara e cujos modos ela havia pelejado para aprender, no era o mesmo de 
Jondalar. Embora o Cl chamasse de os Outros a todas as pessoas que se 
pareciam com ela, os Zelandonii no eram os Mamuti, e no era apenas a 
lngua que era diferente. Se ela quisesse se adaptar quilo, teria de prestar 
ateno nas diferenas do modo dos Zelandonii fazerem as coisas.
        Jondalar inspirou fundo, dando-se conta de que estava na hora de 
contar  me a respeito do irmo dele. Estendeu os braos e segurou-lhe 
ambas as mos.
        - Lamento, mame. Thonolan agora viaja no outro mundo.
        Os olhos claros e sinceros de Marthona mostraram a intensidade de 
sua dor repentina e a tristeza pela perda do filho mais jovem; os ombros 
pareceram desabar por causa da pesada carga. Ela j sofrera a perda de 
entes queridos, mas nunca perdera um filho. Parecia mais difcil perder um 
que ela criara at se tornar adulto, que ainda tinha toda uma vida diante de 
si. Fechou os olhos, tentando dominar as emoes, depois endireitou os 
ombros e olhou para o filho que havia retornado para ela.
        - Voc esteve com ele, Jondalar?
        - Estive - respondeu, revivendo a ocasio e sentindo renovar a sua dor. 
- Foi na caverna de um leo... Thonolan seguiu-o at um desfiladeiro... Tentei 
det-lo, mas no me deu ouvidos.
        Jondalar lutava para se controlar, e Ayla lembrou aquela noite no seu 
vale, quando a dor dele o dominou, e ela o segurou e o embalou como uma 
criana. Na ocasio, nem mesmo sabia a lngua dele, mas nenhuma lngua  
necessria para entender a dor. Ela estendeu a mo e tocou em seu brao, 
para faz-lo ver que estava ali para apoi-lo, sem interferir no momento que 
transcorria entre me e filho. No passou desapercebido a Marthona que o 
toque de Ayla pareceu ajudar. Ele tomou flego.
        - Tenho uma coisa para voc, mame - anunciou. Levantou-se e foi at 
os balaios de bagagem. Retirou um pacote embrulhado e, aps pensar um 
pouco, retirou outro.
        - Thonolan conheceu uma mulher e se apaixonou. O povo dela chama a 
si mesmo de Xaramudi. Eles vivem perto do final do Rio Grande Me, onde 
 to grande que a gente entende por que ganhou o nome de Grande Me. Os 
Xaramudi na verdade so dois povos. A metade Xamudi vive na terra e 
caa camura nas montanhas, e os Ramudi vivem na gua e pescam esturjo 
gigante no rio. No inverno, os Ramudi se mudavam para viver com os 
Xamudi, pois. cada famlia de um grupo tinha uma ligao familiar no outro, 
acasalado de certa forma. Pareciam ser dois povos diferentes, mas havia 
muitas coisas semelhantes entre eles que faziam cada um parecer a metade 
de um povo. - Jondalar tinha dificuldade de explicar a inusitada e complexa 
cultura.
        - Thonolan ficou to apaixonado, que estava disposto a se tornar um 
deles. Tornou-se parte da metade Xamudi, quando acasalou com Jetamio.
        - Que lindo nome - comentou Marthona.
        - Ela era linda. Voc a teria adorado.
        - Era?
        - Morreu tentando dar  luz um beb que teria sido o filho da lareira 
dele. Thonolan no suportou perd-la. Creio que ele quis segui-la ao outro 
mundo.
        - Ele sempre foi to alegre, to despreocupado...
        - Eu sei, mas quando Jetamio morreu, ele mudou. No era mais alegre 
e despreocupado, apenas afoito. No conseguiu mais ficar com os Xaramudi. 
Tentei convenc-lo a voltar para casa comigo, mas insistiu em rumar para 
leste. No podia deixar que fosse sozinho. Os Ramudi nos deram um de 
seus barcos... eles fazem excelentes embarcaes... e seguimos rio abaixo, 
mas perdemos tudo no grande delta ao final do Rio Grande Me, onde ele se 
despeja no Mar de Beran. Eu me machuquei e Thonolan quase foi sugado por 
areia movedia, mas um Acampamento dos Mamuti nos salvou.
        - Foi quando conheceu Ayla?
        Jondalar olhou para Ayla, e em seguida de volta para a me.
        - No - contestou ele, pausando por um instante. - Depois que 
deixamos o Acampamento do Salgueiro, Thonolan decidiu que queria ir para 
o norte e caar mamutes com eles durante a Reunio de Vero, mas creio 
que ele no estava ligando para nada. Queria apenas seguir em frente. - 
Jondalar fechou os olhos e voltou a inspirar fundo.
        "Estvamos caando um veado - narrou, retomando a histria-, mas 
no sabamos que o mesmo veado estava sendo seguido por uma leoa. Ela 
saltou sobre ele no mesmo momento em que jogamos as lanas. As lanas 
atingiram primeiro, mas a leoa apoderou-se da caa. Thonolan decidiu tom-
la; disse que era dele, e no dela. Eu o aconselhei a no discutir com uma 
leoa, que a deixasse levar a caa, mas ele insistiu em segui-la at a sua toca. 
Esperamos um pouco e, quando a leoa partiu, Thonolan resolveu entrar no 
desfiladeiro e pegar um pedao da carne. A leoa tinha um macho, e ele no ia 
abrir mo do animal abatido. O leo o matou, e tambm me machucou 
seriamente.
        Marthona franziu a testa, preocupada.
        - Voc foi ferido por um leo?
        - Se no fosse por Ayla, eu estaria morto - afirmou Jondalar. - Ela 
salvou a minha vida. Me livrou do leo e tambm cuidou dos ferimentos. Ela  
uma curandeira.
        - Ela o livrou de um leo?
        - Huiin me ajudou, e eu no teria conseguido, se fosse um leo 
qualquer - tentou elucidar Ayla.
        Jondalar entendeu a confuso da me. E sabia que a explicao no 
tornaria mais fcil de se acreditar.
        - Voc viu como Lobo e os cavalos cuidam dela...
        - No est me dizendo que...
        - Diga para ela, Ayla - pediu Jondalar.
        - Era um leo que encontrei quando ainda era filhote - comeou Ayla. - 
Ele tinha sido pisoteado por um veado, e a me o deixou para morrer. E 
quase morre. Era eu quem estava perseguindo o veado, tentando fazer com 
que ele casse no meu buraco-armadilha. Eu consegui pegar um, e a caminho 
de volta para o vale, encontrei o filhote, e o levei tambm. Huiin no ficou 
muito feliz, pois o cheiro do leo a assusta, mas levei tanto o veado quanto o 
leo para a minha caverna. Tratei dele, e ficou bom, mas no podia cuidar de 
si mesmo sozinho, e me tornei a sua me. Huiin tambm aprendeu a cuidar 
dele. - Ayla sorriu, ao se recordar. - Era to engraado v-los juntos, 
quando ele era pequeno.
        Marthona olhou para a jovem e obteve uma nova compreenso.
        -  assim que faz? - indagou. - O lobo. E os cavalos tambm?
        Foi a vez de Ayla olhar surpresa. Nunca antes ningum havia feito to 
depressa a associao. Ficou to contente por Marthona ter sido capaz de 
entender, que exultou.
        - Sim! Claro  isso que tenho tentado dizer a todo mundo! Se voc 
encontra um animal muito jovem, alimenta-o e o cria como se fosse seu 
prprio filho, ele se afeioa a voc. O leo que matou Thonolan e feriu 
Jondalar era o leo que eu criei. Era como um filho para mim.
        - Mas, na ocasio, era um leo crescido, no? E vivia com uma fmea. 
Como conseguiu afast-lo de Jondalar? - quis saber Marthona. Ela parecia 
incrdula.
        - Ns cavamos juntos. Quando ele era pequeno, partilhei minhas 
habilidades com ele, e fiz com que partilhasse as dele comigo. Sempre fazia 
o que eu pedia. Eu era a sua me. Lees esto acostumados a cuidar de suas 
mes - explicou Ayla.
        - Tambm no entendo - falou Jondalar, vendo a expresso da me.
        - Esse leo foi o maior que j vi, mas Ayla fez com que ele parasse 
antes de me atacar uma segunda vez. Eu a vi montar nele mais de uma vez. 
        Toda a Reunio de Vero dos Mamuti a viu montar no leo. Eu vi, mas 
ainda no consigo acreditar.
        As palavras de Ayla lembraram a Marthona sua dor, e todos por um 
instante ficaram envolvidos em seus prprios sentimentos, porm Marthona 
queria saber mais, queria entender.
        - Estou feliz por saber que ele encontrou algum para amar - 
confessou.
        Jondalar pegou o primeiro pacote que havia retirado do balaio de 
bagagem.
        - No dia em que Thonolan e Jetamio se acasalaram, ele me disse que 
voc sabia que ele jamais voltaria, mas me fez prometer que eu algum dia 
faria isso. E pediu que, quando eu voltasse, trouxesse uma coisa bonita para 
voc, como Willamar sempre faz. Quando Ayla e eu paramos, no caminho de 
volta, para visitar osXaramudi, Roshario me entregou isto para dar a voc. 
Roshario  a mulher que criou Jetamio, depois que a me dela morreu. Disse 
que era o objeto favorito de Jetamio - explicou Jondalar, ao entregar o 
pacote  me.
        Jondalar cortou o cordo que amarrava o pacote envolto em pele. A 
princpio, Marthona achou que o presente era a prpria pele macia de 
camura, pois era to linda, mas quando a abriu ficou sem flego ao ver um 
lindo colar. Era feito de dentes de camura, os caninos perfeitos de animais 
jovens, furados na raiz, graduados em tamanhos e combinados 
simetricamente, cada qual separado por pedaos gradativos de espinhas de 
pequenos esturjes, com um pingente de uma tremeluzente e iridescente 
madreprola, que parecia um barco pendurado no meio.
        - Ele representa o povo ao qual Thonolan escolheu se unir, os 
Xaramudi, ambos os lados dele. A camura da terra dos Xamudi, o 
esturjo do rio dos Ramudi, e a canoa de concha de ambos. Roshario quis 
que voc ficasse com algo que havia pertencido  mulher escolhida por 
Thonolan - explicou Jondalar.
        Lgrimas escorreram pelas faces de Marthona, ao olhar o lindo 
presente.
        - Jondalar, o que fez Thonolan achar que eu sabia que ele no ia 
voltar? - perguntou ela.
        - Ele falou que, ao partir, voc lhe desejou "Boa Jornada", e no "At 
a volta - esclareceu.
        Uma nova inundao de lgrimas se formou e transbordou.
        - Ele tinha razo. Eu no achava que voltaria. Por mais que negue para 
mim mesma, eu tinha certeza de que, quando partiu, eu no voltaria a v-lo. 
        E quando soube que voc tinha ido com ele, achei que havia perdido 
dois filhos. Jondalar, eu queria que Thonolan tivesse voltado para casa com 
voc, mas estou feliz por pelo menos voc ter voltado - confessou, abrindo-
lhe os braos.
        Ayla no pde evitar derramar as prprias lgrimas, ao ver Jondalar e 
a me se abraarem. Passou a entender, ento, por que Jondalar no pde 
ficar com os Xaramudi quando Tholie e Markeno quiseram que ficasse. Ayla 
sabia o que era perder um filho. Sabia que nunca mais veria o seu filho, mas 
desejava saber como ele era, o que acontecia com ele, que tipo de vida 
estava levando.
        A cortina da entrada foi afastada novamente para o lado.
        - Adivinhem quem chegou? - gritou Folara, precipitando-se. Ela foi 
seguida mais calmamente por Willamar.
        Marthona correu para saudar o homem que acabara de voltar, e 
abraaram-se afetuosamente. - Ora! Vejo que aquele seu filho alto est de 
volta, Marthona! Nunca imaginei que ele viraria um viajante. Talvez ele deva 
se tornar um comerciante em vez de um lascador de pedra - considerou 
Willamar, livrando-se de sua mochila. Em seguida, deu um cordial abrao em 
Jondalar. - Noto que voc no diminuiu nada - observou o homem mais velho 
com um grande sorriso, olhando para cima diante dos quase dois metros de 
altura do homem de cabelos louros. Jondalar retribuiu o sorriso. Aquele era 
o modo como o homem sempre o saudava, com piadas sobre a sua altura. Com 
mais de um metro e oitenta, Willamar, que sempre fora o homem de sua 
lareira tanto quanto Dalanar, no era exatamente baixo, mas Jondalar 
superou o tamanho do homem com quem Marthona havia se acasalado quando 
ele nasceu, antes de ela e Dalanar cortarem o n.
        -  Cad o seu outro filho, Marthona? - perguntou Willamar, ainda 
sorrindo. Ento notou o rosto dela manchado de lgrimas e deu-se conta da 
sua aflio. Ao ver sua dor refletida em Jondalar, o sorriso foi sumindo.
        -  Thonolan agora viaja no outro mundo - falou Jondalar. - Eu estava 
contando para mame... - Ele viu o homem descorar e depois cambalear como 
se tivesse sido atingido por uma pancada.
        -  Mas... mas ele no pode estar no outro mundo - protestou Willamar, 
abalado e incrdulo. - Ele  jovem demais. Ainda no encontrou uma mulher 
para formar um lar. 
        - Sua voz elevava-se de intensidade a cada afirmao. - Ele... ele ainda 
no voltou para casa... -A ltima objeo foi quase um gemido lamentoso.
        Willamar sempre gostara muito de todos os filhos de Marthona, mas 
quando os dois se acasalaram, Joharran, o filho que ela havia tido na lareira 
de Joconan, estava quase pronto para a sua donii-mulher, era quase um 
homem; essa relao foi de amizade. E, embora rapidamente tivesse passado 
a amar Jondalar, um beb ainda sendo amamentado, Thonolan e Folara  que 
eram os filhos de sua lareira. Ele estava convencido de que Thonolan era 
tambm o filho do seu esprito, pois, em vrios aspectos, o menino era igual 
a ele, mas, em particular, porque gostava de viajar e sempre queria ver 
novos lugares. Ele sabia que, secretamente, Marthona temeu nunca mais 
voltar a ver Thonolan, e nem a Jondalar, quando soube que havia partido com 
o irmo. Mas Willamar achava que era apenas uma preocupao de me. 
Willamar esperava que Thonolan retornasse, como ele mesmo sempre o fez. 
O homem parecia aturdido, desorientado. Marthona encheu um caneco com o 
lquido do recipiente vermelho, enquanto Jondalar e Folara o arrastavam 
para se sentar nas almofadas ao lado da mesa baixa.
        -  Tome um pouco de vinho - sugeriu Marthona, sentando-se a seu lado. 
        Ele se sentia entorpecido, incapaz de entender a tragdia. Levantou o 
caneco e tomou tudo de uma vez, sem aparentemente saber o que fazia, e 
depois ficou olhando fixamente para o vaso.
        Ayla desejava que houvesse algo que ela pudesse fazer. Pensou em 
apanhar a sua bolsa de remdios e preparar para ele uma bebida calmante e 
relaxante. Mas ele no a conhecia, e ela sabia que Willamar estava 
recebendo o melhor tipo de cuidado que poderia obter naquele momento: a 
ateno e a dedicao das pessoas que o amavam. 
        Ela imaginou como se sentiria se soubesse de repente que Durc estava 
morto. Era diferente saber que nunca mais veria o seu filho, mas ainda podia 
imagin-lo crescendo com Uba, para am-lo e cuidar dele.
        -  Thonolan encontrou uma mulher para amar - informou Marthona, 
tentando confort-lo. A viso do pesar e da carncia do seu homem fez com 
que ela aplacasse a prpria aflio para ajud-lo. - Jondalar me trouxe uma 
coisa que pertenceu a ela. - Apanhou o colar para mostrar. Ele parecia 
encarar o espao vazio, inconsciente de qualquer coisa  sua volta, ento 
estremeceu e fechou os olhos. Aps algum tempo, vrou-se para olhar para 
Marthona, parecendo lembrar que ela havia falado com ele, embora no 
lembrasse do que havia sido dito.
        - Isto pertenceu  companheira de Thonolan - falou, mostrando-lhe o 
colar.
        - Jondalar disse que representa o povo dela. Ele vive perto de um 
grande rio... o Rio Grande Me.
        -  Ento ele chegou to longe - observou Willamar, a voz abafada pela 
angstia.
        -  Mais longe ainda - afirmou Jondalar. - Ns alcanamos o final do Rio 
Grande Me, seguimos todo o caminho at o Mar de Beran e mais alm. 
Thonolan queria ir de l para o norte, caar mamutes com os Mamut.
        Willamar ergueu o olhar para ele, a expresso agoniada e 
desorientada, como se no tivesse entendido o que foi dito. 
        - E estou com uma coisa dele - anunciou Jondalar, tentando imaginar 
um meio de ajudar o homem. Apanhou da mesa o outro pacote embrulhado. - 
Foi Markeno quem me deu. Markeno era a companheira rival dele, parte de 
sua famlia Ramudi.
        Jondalar abriu o pacote envolto em pele e mostrou para Willamar e 
Marthona um utenslio feito de um chifre de lafo - uma variedade de alce - 
com os galhos salientes acima da primeira forquilha. Um buraco com cerca 
de quatro centmetros de dimetro fora feito no largo espao logo abaixo 
da primeira forquilha. A ferramenta era o desempenador de hastes de 
lanas de Thonolan.
        A habilidade de Thonolan fora o conhecimento de como se aplicar 
presso  madeira, geralmente aquecida com pedras quentes ou vapor. A 
ferramenta era usada para conseguir melhor controle e fora de alavanca, 
ao se exercer presso para endireitar partes recurvadas ou torcidas das 
hastes, a fim de que as lanas que ele fazia voassem corretamente. Era 
especialmente til perto da ponta de um galho comprido onde no era 
possvel fazer presso com a mo. Quando a ponta era enfiada no buraco, 
ganhava-se uma fora adicional de alavanca, tornando possvel endireitar-se 
a ponta. Apesar de ser chamado de desempenador, o utenslio tambm podia 
ser usado como entortador de madeira, para se fazer um calado em forma 
de raquete para andar na neve, pinas, ou qualquer outro objeto que 
necessitasse dobrar madeira. Eram diferentes aspectos da mesma 
habilidade.
        A resistente empunhadura de trinta centmetros da ferramenta era 
entalhada com smbolos de animais e plantas da primavera. Os entalhes 
representavam muitas coisas, dependendo do contexto; entalhes e pinturas 
eram sempre muito mais complexos do que aparentavam. Todas essas 
reprodues homenageavam a Grande Me Terra e, nesse sentido, os 
desenhos no desempenador de Thonolan eram feitos para que Ela 
consentisse que os espritos dos animais fossem atrados para as lanas 
feitas com a ferramenta. Havia tambm representado um elemento sazonal, 
que fazia parte de uma viso espiritual. As reprodues belamente 
executadas no eram simples representaes, mas, Jondalar sabia, o seu 
irmo gostava dos entalhes porque eles eram bonitos.
        Willamar pareceu concentrar-se na ferramenta feita com um chifre 
furado, e a seguir segurou-a.
        -  Isto era de Thonolan - disse ele.
        -  Sim - confirmou Marthona, - Lembra quando ele entortou a madeira, 
com esta ferramenta, para fazer o suporte desta mesa? - Alisou o tampo 
baixo, diante dela, feito com uma placa de pedra.
        -  Thonolan era bom no seu ofcio - afirmou Willamar, a voz ainda 
estranha, distante.
        -  Sim, era - concordou Jondalar. - Acho que parte do motivo pelo qual 
ele se sentia to  vontade com os Xaramudi era porque eles fazem coisas 
com madeira que Thonolan nunca imaginou que pudessem ser feitas. Eles 
curvam madeira para fazer embarcaes. Cortam e escavam um tronco para 
fazer uma canoa, uma espcie de barco, depois curvam os lados para dex-
la mais larga. Podem faz-las maiores, acrescentando rebordos... pranchas 
compridas... ao longo das laterais, curvando-as para acompanhar a forma do 
barco e prendendo-as umas s outras. Os Ramudi so muito habilidosos em 
manobrar barcos na gua, mas tanto os Xamudi quanto os Ramudi 
trabalham juntos para faz-los.
        -  Cheguei a pensar em ficar com eles.  um povo maravilhoso. Quando 
Ayla e eu paramos, no caminho de volta, para fazer uma visita, queriam que 
ficssemos l. Se tivesse ficado, creio que escolheria a metade Ramudi. E 
havia por l um jovenzinho muito interessado em aprender a lascar slex.
        Jondalar percebia que tagarelava, mas no sabia o que fazer ou dizer, 
e dessa forma tentava preencher o vazio. Ele nunca tinha visto Willamar to 
abalado.
        Ouviu-se uma batida na entrada, mas, sem esperar por uma resposta, 
a Zelandoni afastou a cortina e entrou. Folara vinha logo atrs, e Ayla deu-
se conta de que a moa tinha sado sorrateiramente e chamado a mulher. 
        Fez um gesto de aprovao para si mesma; era a coisa certa a ser 
feita. A irm de Jondalar era uma moa sensata.
        Folara havia ficado muito preocupada ao ver Willamar to 
transtornado. No tinha ideia do que fazer, a no ser pedir ajuda. E a 
Zelandoni era a donier: a provedora dos Dons de Doni, aquela que atuava 
como intermediria da Grande Me Terra e Seus filhos, a fornecedora de 
assistncia e medicao, aquela a quem se pedia ajuda. Folara contara  
poderosa mulher a essncia do problema; a Zelandoni olhou em volta e 
inteirou-se rapidamente da situao. Virou-se e falou baixinho com a moa, 
que imediatamente rumou para a rea de cozinhar e comeou a soprar o 
carvo da lareira, para reacend-lo. Mas o fogo estava apagado. Marthona 
espalhara uniformemente as brasas para cozer a carne e no havia voltado 
para ati-lo e colocar mais carvo a fim de mant-lo aceso.
        Tratava-se de algo que Ayla podia fazer para ajudar. Ela deixou a 
dolorida cena e rapidamente foi apanhar o seu balaio diante da entrada. 
Sabia exatamente onde estava o seu estojo de iscas de fogo, apanhou-o e 
seguiu para a rea de cozinhar, pensando em Barzec, o Mamuti que 
preparou as iscas para ela, aps Ayla ter dado uma pedra de pirita para cada 
lar do Acampamento do Leo.
        -  Deixe-me ajudar a fazer uma fogueira - pediu.
        Folara sorriu. Ela sabia como fazer uma fogueira, mas era 
perturbador ver o homem da sua lareira to aflito, e ficou contente por ter 
algum a seu lado. Willamar sempre fora to forte, to firme, to 
controlado.
        - Se tiver lenha, eu acendo - props Ayla.
        -  Os gravetos de fazer fogo esto bem ali - avisou Folara, vrando-se 
na direo da prateleira de trs.
        - Pode deixar. No vou precisar deles - recusou Ayla, abrindo o seu 
estojo de iscas de fogo. Ele tinha vrios compartimentos e bolsinhas. Abriu 
uma, e despejou estrume de cavalo, seco e triturado; de outra, tirou 
felpudas fibras de epilbio e arrumou-as em cima do esterco; e, de uma 
terceira, despejou ao lado do primeiro monte um pouco de finas raspas de 
madeira.
        Folara observava. Durante a longa Jornada, obviamente Ayla 
aprendera a ter facilmente  mo materiais para acender uma fogueira, mas 
a mulher mais jovem pareceu intrigada quando, a seguir, Ayla pegou duas 
pedras. Inclinando-se para bem perto do montinho, a mulher que o irmo 
dela trouxera para casa bateu uma pedra na outra, acendeu a isca e ela 
irrompeu em chamas. Tratava-se de algo fantstico!
        -  Como fez isso? - quis saber Folara, totalmente maravilhada.
        -  Eu lhe mostrarei depois - disse Ayla. - Por enquanto, vamos acender 
o fogo para ferver um pouco de gua para a Zelandoni.
        Folara sentiu um sobressalto provocado por algo parecido com medo. - 
Como sabia o que eu ia fazer?
        Ayla olhou de relance para ela, depois voltou a fit-la. O rosto de 
Folara revelava a sua consternao. Tinha sido um dia tenso, emocionante e 
angustiado, com a volta de um irmo, aps uma longa ausncia, trazendo 
animais domesticados e uma mulher desconhecida, depois sabendo da morte 
do outro irmo, e vendo a inesperada e perturbadora reao de Willamar. 
Aps a estranha dar a impresso de criar fogo por mgica, e depois parecer 
saber algo que ningum lhe disse, Folara comeou a se perguntar se no 
seria verdade toda a especulao e boatos sobre a mulher de Jondalar 
possuir poderes sobrenaturais. Ayla podia ver que ela estava extremamente 
nervosa, e tinha quase certeza de que sabia por qu.
        -  Eu conheci a Zelandoni. Eu sei que ela  a curandeira de vocs. Foi 
por isso que a chamou, no foi? - indagou Ayla.
        -  Sim, ela  a donier - respondeu a moa.
        -  Curadoras costumam fazer um ch ou uma bebida para ajudar a 
acalmar algum que est transtornado. Deduzi que ela havia pedido a voc 
para ferver um pouco de gua para isso - esclareceu Ayla com todo o 
cuidado.
        Folara se descontraiu visivelmente; era perfeitamente razovel.
        -  E prometo que lhe mostrarei como fazer fogo desse modo. 
Qualquer um pode fazer... com as pedras certas.
        -  Qualquer um?
        -  Sim, at mesmo voc - afirmou Ayla, sorrindo.
        A moa tambm sorriu. Ela andava morrendo de curiosidade a 
respeito da mulher, e havia tantas perguntas que queria fazer, mas no quis 
ser indelicada. Agora, tinha ainda mais perguntas, e a estrangeira no 
parecia to inacessvel. Alis, parecia bastante amvel.
        -  Vai me contar tambm a respeito dos cavalos?
        Ayla deu-lhe um grande sorriso gentil. Subitamente percebeu que, 
embora Folara pudesse parecer em cada centmetro uma alta e bela jovem 
mulher, no fazia muito tempo que ela era assim. Teria de perguntar a 
Jondalar quantos anos tinha Folara, mas desconfiava que ela ainda era muito 
nova, provavelmente prxima em idade de Larie, a filha de Nezzie, que era a 
companheira do chefe do Acampamento do Leo dos Mamuti.
        -  Claro. Vou at mesmo lev-la para conhec-los - olhou de relance 
em direo  mesa onde todos estavam reunidos -, talvez amanh, quando 
tudo estiver mais calmo. Pode descer e olh-los quando quiser, mas s deve 
se aproximar deles sozinha depois que os cavalos se acostumarem com voc.
        -  Oh, no farei isso - prometeu Folara.
        Recordando o fascnio de Latie com os cavalos, Ayla sorriu e 
perguntou:
        -  Voc gostaria de montar em Huiin algum dia?
        -  Oh! Posso? - ofereceu-se Folara, ofegante, os olhos arregalados. 
        Naquele instante, Ayla quase pde ver Latie na irm de Jondalar. Ela 
criara uma paixo to grande pelos cavalos, que Ayla chegou a imaginar se 
algum dia Latie tentaria conseguir um potro para si.
        Ayla voltou a dedicar-se a acender a fogueira, ao mesmo tempo em 
que Folara pegava a sua bolsa de gua - o estmago impermeabilizado de um 
animal de grande porte.
        -  Preciso apanhar mais gua. Isto aqui est quase vazio - avisou a 
jovem. O carvo j brilhava, quase aceso. Ayla soprou-o um pouco mais, 
acrescentou raspas de madeira, depois os pequenos gravetos que Folara lhe 
dera, e, finalmente, pedaos maiores de lenha. Ela viu as pedras de cozinhar 
e colocou vrias no fogo, para esquentar. Quando Folara voltou, a bolsa de 
gua vinha bojuda e parecia bastante pesada, mas obviamente a moa estava 
acostumada a carreg-la, e encheu de gua uma vasilha funda, parecida com 
a que Marthona usava para fazer ch. Em seguida, deu para Ayla a pina de 
madeira com as pontas levemente queimadas. Quando achou que as pedras 
estavam quentes o bastante, Ayla usou a pina para apanhar uma. A pedra 
crepitou e lanou para o alto uma nuvem de vapor ao ser jogada dentro da 
gua. Ela acrescentou uma segunda, depois pescou a primeira e a substituiu 
por uma terceira, e assim por diante.
        Folara foi avisar  Zelandoni que a gua estava quase pronta. Ayla 
percebeu que ela deve ter dito algo mais, pelo modo como a cabea da 
mulher mais velha se esticou para olh-la. Ayla observou a mulher iar-se 
das baixas almofadas, e pensou em Creb, o Mog-ur do Cl. Ele tinha uma 
perna aleijada, e isso lhe dificultava levantar-se de assentos baixos. O seu 
lugar favorito para relaxar era uma velha rvore torta com um galho baixo 
que tinha a altura exata para se sentar e se levantar com facilidade.
A mulher foi para o aposento de cozinhar.
        -  Soube que a gua est quente. - Ayla fez um gesto com a cabea na 
direo da vasilha fervente. - E ser que ouvi direito o que Folara contou? 
Ela disse que vai mostrar a ela como acender uma fogueira com pedras. Que 
tipo de truque  esse?
        -  Sim. Eu tenho algumas pedras-de-fogo. Jondalar tambm tem. O 
nico truque  aprender como us-las, e no  difcil. Ficarei contente em 
lhe mostrar em qualquer ocasio que desejar. Ns j tnhamos mesmo 
planejado fazer isso. - A Zelandoni olhou para trs, em direo a Willamar, 
Ayla percebeu que ela estava dividida entre duas direes.
        -  Agora no - afirmou a mulher a meia-voz, sacudindo a cabea. 
Mediu na palma da mo algumas ervas desidratadas, tiradas de uma bolsa 
presa ao cinturo em volta de sua extensa cintura, e depois jogou-as na gua 
fumegante. - Gostaria de ter trazido um pouco de mileflio - murmurou para 
si mesma.
        -  Se voc quiser, eu tenho um pouco - informou Ayla.
        -  O qu? - perguntou a Zelandoni. Ela estava concentrada no que 
fazia, e no havia prestado ateno.
        -  Eu disse que, se quiser, eu tenho um pouco de mileflio. Voc falou 
que gostaria de ter trazido algum.
        -  Falei? Eu estava pensando nisso, mas por que voc teria mileflio?
        -  Eu sou curandeira... uma curadora. Sempre carrego medicamentos 
essenciais. Mileflio  um deles.  bom para dor de estmago, relaxa e ajuda 
ferimentos a sarar de forma limpa e rpida - afirmou.
        O queixo da Zelandoni teria cado, se ela no o tivesse contido a 
tempo.
        -  Voc  uma curandeira? A mulher que Jondalar trouxe para casa  
uma curandeira? - Ela quase deu uma gargalhada, depois fechou os olhos e 
sacudiu a cabea. - Acho que vamos precisar ter uma longa conversa, Ayla.
         Terei o maior prazer em conversar com voc a qualquer momento - 
disse ela - mas voc quer o mileflio?
        A Zelandoni ponderou por um momento. Ayla no podia ser Uma Que 
Serve. Se fosse, nunca teria deixado a sua gente para seguir um homem at 
a casa dele, mesmo se tivesse optado por acasalar. Mas talvez conhecesse 
um pouco sobre ervas. Muita gente aprendia alguma coisa a respeito. Se ela 
tinha mileflio, por que no us-lo? A erva tem um cheiro bastante 
caracterstico, portanto poderei saber se  verdadeira.
        -  Quero. Creio que ajudar, se voc tiver algum  mo.
        Ayla correu para o seu balaio de viagem, alcanou uma abertura 
lateral e retirou a bolsa de remdios feita de uma pele inteira de lontra. Ela 
est ficando muito gasta, ponderou, ao voltar carregando-a. Terei que 
substitu-la em breve. Quando ela chegou na rea de cozinhar, a Zelandoni 
olhou com interesse para o estranho recipiente. Parecia ter sido feito do 
animal inteiro. Nunca vira um assim, mas havia algo em sua aparncia que lhe 
dava autenticidade.
        A jovem mulher levantou a aba sobre a cabea da lontra, soltou o 
cordo da bainha em volta do pescoo, depois olhou l dentro e retirou uma 
bolsinha. Ela sabia o que continha, por causa do tom da cor da pele, da fibra 
do cordo que a fechava, e o nmero e a disposio dos ns nas pontas 
pendentes. Desatou o n que fechava a bolsinha - tratava-se de um n fcil 
de desatar, se se soubesse como - e a entregou  mulher.
        A Zelandoni ficou imaginando como Ayla sabia que ela continha a erva 
certa, sem ter cheirado, mas, quando a levou ao nariz, percebeu que era a 
correta. A donier despejou um pouco na palma da mo, observou 
cuidadosamente para ver se eram apenas folhas, ou folhas e flores, e se 
havia algo mais misturado. Parecia ser mileflio puro. Acrescentou algumas 
pitadas  vasilha.
        -  Devo acrescentar outra pedra de cozinhar? - indagou Ayla, sem 
saber se ela queria uma infuso ou um cozimento, embebido ou fervido.
        -  No - respondeu a donier. - No quero algo muito forte. Ele s 
precisa de uma infuso leve. J est quase superando o choque. Willamar  
um homem forte. Agora, est preocupado com Marthona, e quero dar um 
pouco para ela. Preciso tomar cuidado com a medicao dela.
Ayla deduziu que ela devia estar dando para a me de Jondalar doses 
regulares de algum medicamento ao qual precisava ficar atenta.
        Gostaria de preparar um ch para todo mundo? - perguntou ela.
        - No sei. De que tipo? - quis saber a curadora mais velha. - Apenas 
algo leve e que tenha um bom sabor. 
        - Hortel ou camomila. Tambm tenho flores de tlia para adoar.
        - Sim, por que voc no faz? Um pouco de camomila com flores de 
tlia seria timo, pois  levemente calmante - props a Zelandon, ao se virar 
para sar.
        Ayla sorriu, ao retirar mais bolsinhas de sua bolsa de remdios. Ela 
conhece mgica que cura! Nunca mais estive perto de quem conhece 
remdios e mgica que cura, desde que deixei o Cl! Vai ser formidvel ter 
algum com quem conversar a respeito.
        Originalmente, Ayla aprendera a curar - pelo menos medicina e 
tratamentos com ervas, sem falar nas questes do mundo espiritual - com 
Iza, a sua me Cl, que foi reconhecida como uma digna descendente da mais 
importante linhagem de curandeiras. Ela aprendera detalhes adicionais com 
outras curandeiras na Congregao do Cl para o qual tinha ido com o cl de
Brun. Posteriormente, na Reunio de Vero dos Mamuti, passou uma
quantidade considervel de tempo com os mamutii.
        Descobriu que todos Aqueles Que Serviam  Me eram versados
tanto em remdios quanto espritos, mas no igualmente habilidosos. Isso
dependia dos prprios interesses individuais. Alguns mamutii eram 
particularmente entendidos em medicamentos, outros mais motivados pelas 
prticas de cura, e havia os interessados nas pessoas em geral, para saber
por que algumas se recuperavam das mesmas doenas ou ferimentos e
outras no. Ainda outros cuidavam apenas de coisas do mundo espiritual e da
mente, e no se interessavam de modo algum em curar.
        Ayla queria saber tudo. Tentava absorver todas as coisas - ideias 
sobre o mundo espiritual, conhecimento e uso de palavras de contar, 
memorizar lendas e histrias -, mas era particular e incessantemente 
interessada em qualquer coisa relacionada  cura: remdios, prtica da 
medicina, tratamentos e causa. J havia experimentado, nela mesma, 
diferentes plantas e ervas, do jeito que Iza lhe ensinara, utilizando 
conhecimento e zelo, e aprendera tudo o que podia de curandeiras que 
encontrara na Jornada. Ela se imaginava como algum com conhecimento, 
mas que ainda estava aprendendo. No se dava conta completamente do 
tanto que sabia nem do quanto era altamente habilidosa. Mas algo que lhe 
fazia falta mais do que qualquer coisa desde que deixara o Cl era ter 
algum com quem discutir isso tudo, uma colega.
        Folara ajudou-a a fazer o ch e lhe mostrou onde ficavam as coisas. 
As duas levaram canecos fumegantes para todos. Willamar encontrava-se 
visivelmente mais calmo e pediu a Jondalar detalhes da morte de Thonolan. 
Ele comeara a recontar as circunstncias em que ocorrera o ataque do leo 
das cavernas, quando todos ergueram a vista ao ouvirem o som de batidas 
vindo da entrada.
        -  Pode entrar - exclamou Marthona.
Joharran afastou a cortina e pareceu um pouco surpreso ao ver todos, 
inclusive a Zelandoni, reunidos l dentro.
        -  Eu vim falar com Willamar. Queria saber como foi a permuta. Eu vi 
Tvonan, e voc trouxe um grande pacote, mas com toda essa agitao e o 
festim desta noite, achei que deveramos esperar at amanh para 
fazermos uma re... - vinha falando ao se aproximar. Ento notou que algo 
parecia errado. Olhou de um para outro e, finalmente, para a Zelandoni.
        -  Jondalar ia nos contar sobre o leo das cavernas que... atacou 
Thonolan - comeou ela, e, ao ver o olhar horrorizado dele, percebeu que 
Joharran no sabia da morte de seu irmo mais novo. Tambm no ia ser 
fcil para ele. Thonolan era muito amado. - Sente-se, Joharran. Acho 
melhor todos ouvirem juntos. A dor compartilhada  mais fcil de suportar, 
e duvido que Jondalar queira repetir essa histria muitas vezes.
        Ayla fez contato visual com a Zelandoni, pendeu a cabea na direo 
da primeira bebida calmante que a mulher havia preparado, e depois para o 
segundo ch que ela fizera. A Zelandoni fez um gesto com a cabea para a 
segunda, e ficou observando Ayla servir em silncio um caneco e 
imperceptivelmente entreg-lo a Joharran. Ele o segurou sem mesmo notar, 
enquanto ouvia Jondalar resumir os incidentes que levaram  morte de 
Thonolan. A Zelandoni estava ficando cada vez mais intrigada com a jovem. 
Ela possua alguma coisa, talvez algo mais do que um pequeno conhecimento a 
respeito de ervas.
        -  O que aconteceu, depois que o leo atacou ele, Jondalar? - indagou 
Joharran.
        -  Me atacou.
        -  Como voc escapou?
        -   Ayla quem deve contar essa histria - sugeriu Jondalar. Todos os 
olhos, de repente, voltaram-se para ela.
        Ayla ficara bastante desconcertada, na primeira vez em que Jondalar 
havia feito isso, ao contar a histria at um ponto e depois ter se dirigido a 
ela sem aviso. Ela agora j estava mais acostumada quilo, mas aquelas 
pessoas eram a famlia dele. Teria que falar da morte de um deles, um 
homem que ela no conheceu, e que, obviamente, era muito querido de todos. 
Sentiu o seu nervosismo na boca do estmago.
        -  Eu estava montada em Huiin - comeou. - A sua barriga estava cheia 
com Racer, mas precisava de exerccio, e portanto, todos os dias eu andava 
um pouco com ela. Normalmente, amos para leste, porque era mais fcil, 
mas eu estava cansada de fazer sempre o mesmo caminho, e, para variar, 
resolvi ir para oeste. Fomos at a extremidade do vale, onde a parede do 
rochedo comea a nivelar. Atravessamos o riacho, e quase mudei de ideia em 
seguir naquela direo. Huiin estava puxando o arrastador de carga, e a 
elevao  bem ngreme, mas ela tem boa estabilidade e subiu sem multo 
problema.
        -  O que  o arrastador de carga? - quis saber Folara.
        -  So dois paus atados em uma extremidade ao dorso de Huiin, com 
as duas outras pontas arrastando no cho, e um resistente bagageiro preso 
entre os paus atrs dela.  desse modo que Huiin me ajudava a carregar 
coisas para a minha caverna, como os animais que eu caava - disse Ayla, 
tentando explicar o reboque que ela havia imaginado.
        -  Por que no pedia s pessoas para ajudar voc? - perguntou Folara.
        -  No havia ningum para me ajudar. Eu vivia sozinha no vale - 
explicou Ayla.
        As pessoas do grupo se entreolharam surpresas, mas, antes que mais 
algum pudesse fazer outra pergunta, a Zelandoni interveio.
        -  Tenho certeza de que temos muitas perguntas para Ayla, mas as 
faremos depois. Por que no deixamos agora que ela termine de nos contar a 
histria envolvendo Thonolan e Jondalar?
        Houve gestos de concordncia, e todos voltaram a ateno para a 
forasteira.
        -  Quando amos passar diante de um desfiladeiro, ouvi o rugido de um 
leo, e em seguida um grito, o grito de dor de um homem - continuou Ayla.
        Eles absorviam cada palavra, e Folara no conseguia ficar calada.
        -  O que voc fez?
        -  Eu no sabia o que fazer a princpio, mas precisava descobrir quem 
havia gritado. Se pudesse, tinha que tentar ajudar. Huiin me levou at o 
desfiladeiro. Abaixei-me atrs de uma pedra, e lentamente tentei olhar 
para o interior dele. Ento, vi e ouvi o leo. Era Nenm. No tive mais medo, 
e entrei. Eu sabia que ele no ia nos machucar - justificou.
        Desta vez foi a Zelandoni quem no se conteve.
        -  Voc reconheceu o rugido de um leo? E entrou num desfiladeiro 
onde havia um leo rugindo?
        -  No se tratava de um leo qualquer. Era Nenm. O meu leo. O que 
eu criei - esclareceu Ayla, tentando mostrar uma importante diferena. 
Olhou de relance para Jondalar, e ele estava sorrindo, apesar da gravidade 
dos acontecimentos que ela relatava. Ele no conseguia evitar.
        -  Eles j me falaram desse leo - lembrou Marthona. - 
Aparentemente, Ayla leva jeito com outros animais, e no apenas com 
cavalos e lobos. Jondalar contou que a viu montar nesse leo, igual aos 
cavalos. Ele afirma que outros tambm viram. Por favor, Ayla, continue.
        A Zelandoni ponderou que precisava verificar essa ligao com os 
animais. Ela tinha visto os cavalos perto do Rio, e sabia que Ayla trouxera 
um lobo, mas ela tinha ido ver uma criana doente em outra habitao 
quando Marthona os admitiu em seu domiclio. No momento, eles no 
estavam em evidncia, e ela os afastou por enquanto do pensamento.
        - Quando atingi o final do desfiladeiro - prosseguiu Ayla -, vi Nenm 
em uma salincia com dois homens. Pensei que ambos estivessem mortos, 
mas quando subi para olhar, percebi que s um deles estava morto. O outro 
ainda vivia, mas, sem ajuda, ele no resistiria por muito tempo. Consegui 
descer Jondalar da salincia e o amarrei no arrastador de carga.
        -  E o leo? - indagou Joharran. - Lees das cavernas no costumam 
deixar que nada se intrometa entre eles e algo que mataram.
        -  No, no costumam, mas esse era Nenm. Mandei que ele fosse 
embora. - Ayla vu o olhar dele pasmo de descrena. - Exatamente como eu 
fazia, quando cavamos juntos. De qualquer modo, no achava que ele 
estivesse com fome, pois a sua leoa acabara de lhe trazer um veado. E ele 
no caava gente. Eu o criei. Fui a sua me. Pessoas eram a famlia dele... seu 
orgulho. Creio que o nico motivo pelo qual atacou os dois homens foi porque 
eles invadiram a cova dele, o seu territrio,
        "Mas eu no queria deixar o outro homem l. A leoa no achava que 
pessoas eram sua famlia. No havia lugar para ele no arrastador de carga, 
nem tempo para um enterro. 
        Receava que Jondalar tambm morresse, se eu no o levasse para a 
minha caverna. Notei um declive ngreme coberto de pedras soltas ao fundo 
da salincia, com uma rocha contendo-as. Arrastei o corpo para l e usei a 
minha lana.., na ocasio, eu usava as lanas grossas e compridas do Cl... 
para deslocar a rocha do caminho, a fim de que o cascalho o cobrisse. No 
podia deix-lo ali daquele jeito, sem ao menos uma mensagem para o Mundo 
Espiritual. No sou uma mog-ur, mas utilizei o ritual de Creb e pedi que o 
esprito do Grande Urso das Cavernas ajudasse a gui-lo  Terra dos 
Espritos. Depois, Huiin e eu levamos Jondalar para casa.
        Havia muitas perguntas que a Zelandoni desejava fazer. Quem ou o 
qu era um grrrub", que foi como o nome Creb havia soado para ela. E por 
que o esprito de um urso das cavernas em vez da Grande Me Terra? Ela 
no entendeu metade do que Ayla falou, e achou difcil acreditar na outra 
metade.
        - Bem, felizmente Jondalar no ficou ferido com tanta gravidade 
quanto voc pensou - observou a curadora mais velha.
        Ayla sacudiu a cabea. O que ela quis dizer com aquilo? Jondalar 
estava quase morto. Ela ainda no tinha certeza de como o havia salvo.
        Pela expresso dela, Jondalar podia adivinhar o que Ayla estava 
pensando. Era bvio que a Zelandoni tirara algumas concluses que 
precisavam ser corrigidas. Ele se levantou.
        - Creio que vocs precisam saber o quanto fiquei ferido - avisou, 
levantando a tnica e desatando da cintura a tira de couro de sua perneira 
de vero.
        Embora os homens, como tambm as mulheres, raramente ficassem 
inteiramente nus, mesmo nos dias mais quentes do vero, algum mostrar o 
corpo despido no era nada inquietante. As pessoas costumavam ver umas s 
outras quando iam nadar ou tomar banhos de suadouro. No foi para a sua 
masculinidade exposta que as pessoas olharam quando Jondalar se despiu, 
mas para a grande cicatriz que pegava a parte de cima da coxa e a virilha. 
Os ferimentos tinham sarado bem; havia evidncia de que Ayla at mesmo 
costurara no lugar partes de sua pele, notou a Zelandoni. Ela tinha dado 
sete pontos visveis na perna dele: quatro ns ao longo do ferimento mais 
profundo, e mais trs para manter os msculos no lugar. Ningum lhe 
ensinara, foi a nica maneira que pde imaginar para manter fechados os 
cortes abertos.
        Jondalar no tinha dado nenhuma indicao de que sofrera 
ferimentos to srios. A perna no mancava nem precisava de apoio, e, 
exceto pelas prprias cicatrizes, o tecido muscular sob elas parecia bem 
normal. Havia outras cicatrizes e marcas pelo corpo, em volta do ombro e 
peito direitos, provocadas pelos arranhes e talhos feitos pelo leo, e outra 
cicatriz, aparentemente sem relao, na costela. Era evidente que a longa 
Jornada no o deixara ileso.
        Todos ento entenderam quo gravemente Jondalar ficou ferido, e 
por que precisou de cuidados imediatos, mas apenas a Zelandoni fazia 
alguma ida de quanto esteve to prximo da morte. Ela enrubesceu, ao 
imaginar como havia subestimado a capacidade de Ayla como curadora, e 
ficou constrangida por lembrar as suas observaes um tanto quanto 
precipitadas.
        - Desculpe, Ayla. Eu no fazia dia de que era to habilidosa. Creio 
que a Nona Caverna dos Zelandonii  afortunada por Jondalar ter trazido 
uma curadora com tanta prtica - concedeu ela, notando o sorriso de 
Jondalar, e um leve suspiro de alvio de Ayla, enquanto ele voltava a se 
cobrir.
        A Zelandoni ficou ainda mais determinada a saber mais sobre a 
forasteira. A associao com os animais tinha de significar alguma coisa, e 
algum com tanto talento como curadora tinha de ser levado diante das 
autoridades e das pessoas influentes da zelandonia. Uma forasteira como 
aquela, sem algum controle ou superviso, poderia provocar o caos na vida 
ordeira do povo dela. Mas, como foi Jondalar quem a trouxe, a Zelandoni 
teria de ir devagar. Antes, havia muto a aprender a respeito daquela mulher.                                                               
        - Parece que tenho que agradecer a voc pela volta de pelo menos um 
dos meus filhos, Ayla - observou Marthona. - Estou feliz por t-lo aqui e 
grata a voc.
        - Se ao menos Thonolan pudesse ter retornado, seria realmente uma 
ocasio de muita alegria. Mas, quando ele partiu, Marthona sabia que no ia 
voltar - lembrou Willamar, e, depois, olhando para a companheira do seu lar: 
        - Eu no quis acreditar em voc, mas devia saber que era intil. Ele 
queria ver tudo e ir a todos os lugares. Somente isso o fazia viver viajando. 
Ainda em criana tinha uma curiosidade era enorme.
        O comentrio lembrou Jondalar de uma grande preocupao que h 
muito sentia. Talvez aquele fosse o momento apropriado.
        - Zelandoni, preciso lhe perguntar uma coisa:  possvel um esprito 
encontrar o prprio caminho para o mundo espiritual?
        A habitual testa enrugada de Jondalar rivalizou com a de Joharran. - 
        - Depois que a mulher com quem Thonolan se acasalou morreu, ele no 
fo mais o mesmo, e no queria ir para o outro mundo sem a devida ajuda. Os 
seus ossos continuam debaixo da pilha de cascalho, nas estepes orientais. 
Ele no teve um enterro apropriado. E se o seu esprito estiver perdido, 
vagando pelo outro mundo, sem ningum para lhe mostrar o caminho?
        A enorme mulher franziu a testa. Tratava-se de uma pergunta muito 
sria, e teria de ser tratada com delicadeza, principalmente em 
considerao  dor da famlia de Thonolan.
        -  Ayla, voc no mencionou algo sobre um apressado ritual que  
realizou? Me fale a respeito.
        -  No h muito para falar - alegou Ayla. - Fo o ritual que Creb 
sempre usava quando uma pessoa morria e o seu esprito deixava este mundo. 
Eu estava mais preocupada com o homem que estava vivo, mas quis fazer 
algo para ajudar o outro a encontrar o seu caminho.
        - Ela me levou depois ao local - acrescentou Jondalar -, e me deu um 
pouco de ocre vermelho pulverizado para espalhar sobre as pedras da 
sepultura dele. Ao deixarmos o vale pela ltima vez, voltamos pelo 
desfiladeiro onde Thonolan e eu fomos atacados. Encontrei uma pedra muito 
especial que estava na pilha que o soterrou. Eu a trouxe comigo. Espero que 
ela auxilie voc a encontrar o esprito dele, se ainda estiver vagando, para 
ajud-lo a encontrar o seu cadinho. Est na minha sacola.
        Jondalar levantou-se, foi at a sacola, e voltou rapidamente com uma 
bolsa simples de couro presa a uma correia, a fim de poder ser usada em 
volta do pescoo, embora no revelasse sinais desse tipo de utilizao. 
Abriu-a e sacudiu dela os  objetos para a palma de sua mo. O primeiro era 
um pequeno fragmento de ocre vermelho. O outro parecia ser um pedao 
pontudo de pedra cinza comum, aparentando algo como uma pirmide 
achatada. Mas, ao levant-lo e mostrar a superfcie da base no vista, houve 
exclamaes sufocadas e olhares surpresos. A faceta era revestida com 
uma fina camada opalescente azul leitosa, tremeluzindo com uma ardente
luminosidade vermelha.
        -  Eu estava parado l, pensando em Thonolan, e isto rolou da ladeira 
de cascalho e pousou a meus ps - esclareceu Jondalar. - Ayla disse que 
devia coloc-la em meu amuleto... esta bolsa... e traz-la para casa. No sei o 
que significa, mas pareceu... parece... como se, de alguma forma, o esprito 
deThonolan estivesse ligado a ela.
        Entregou a pedra  Zelandoni. Ningum mais se sentia disposto a 
toc-la e, Ayla notou, Joharran at mesmo estremeceu. A mulher a 
examinou cuidadosamente, demorando algum tempo para pensar e decidir o 
que dizer.
        -  Creio que tem razo, Jondalar - concedeu ela. - Isto est ligado ao 
esprito de Thonolan. No sei o que significa, preciso estud-la mais e pedir 
orientao  Me, mas foi sensato em traz-la para mim. - Ficou em silncio 
por um instante, e depois acrescentou: - O esprito de Thonolan era 
aventuroso. Talvez este mundo fosse pequeno demais para ele. Pode ser que 
ainda esteja viajando pelo outro mundo, no porque esteja perdido, mas 
porque talvez ainda no esteja pronto para encontrar o seu lugar por l. A 
que distncia para leste voc estavam, quando terminou a vida dele neste 
mundo?
        -  Alm do mar interior, ao final do grande rio, o tal que comea do 
outro lado da geleira montanhosa.
        -  O que chamam de Rio da Grande Me?
        -  Sim.
        A Zelandoni voltou a ficar em silncio. Finalmente, falou:
        -  Pode ser, Jondalar, que a busca de Thonolan s se satisfizesse no 
outro mundo, na terra dos espritos. Talvez Doni achou que era a hora de 
cham-lo, deixando que voc voltasse para casa. O que Ayla fez pode ter 
sdo o suficiente, mas no entendo o que ela fez, ou por que o fez. Preciso 
fazer algumas perguntas.
        Olhou para o homem alto e bonito que outrora ela amara, e ainda 
amava  sua prpria maneira, e para a jovem sentada ao lado dele, que havia 
conseguido assombr-la mais de uma vez durante o curto espao de tempo 
desde a sua chegada.
        -  Primeiro, quem  esse "Grrrub" de quem fala, e por que apelou para 
o esprito de um urso das cavernas e no para a Grande Me Terra?
        Ela podia perceber aonde levariam as perguntas da Zelandoni e, por 
se tratar de perguntas diretas, ela quase se sentiu obrigada a responder. 
Ayla j havia descoberto o que era mentir, e que algumas pessoas podiam 
falar coisas que no eram verdadeiras, mas ela no era capaz disso. O 
mximo que conseguia fazer era evitar mencionar uma coisa, e isso era 
particularmente difcil quando lhe faziam uma pergunta direta.
        Ayla baixou a vista e olhou fixamente para as mos. Havia nelas 
manchas pretas, por ter acendido o fogo. Ela tinha certeza de que tudo 
acabaria por ser revelado enquanto ele voltava a se cobrir, mas, antes disso, 
esperava passar uns tempos com o povo de Jondalar, para conhec-lo bem. 
Talvez fosse melhor daquele jeito. Se tivesse de partir, que o fizesse antes 
de passar a gostar dele.
        Mas, e Jondalar? Ela o amava. E se tivesse de ir embora sem ele? O 
seu filho estava dentro dela. No apenas o filho da sua lareira, ou mesmo o 
filho do seu esprito. O filho dele. No importava no que os outros 
acreditassem, ela estava convencida, sabia que era filho dele, tanto quanto 
dela. Comeara a crescer em seu interior quando os dois compartilharam 
Prazeres - o Dom do Prazer concedido aos Seus filhos pela Grande Me 
Terra.
        Ayla andara com medo de olhar para Jondalar, evitando fazer isso por 
temer o que ela pudesse enxergar. De repente, levantou a vista e olhou 
direto para ele. Ela precisava saber.
        Jondalar sorriu e assentiu imperceptivelmente para ela. Ento, 
alcanou a sua mo e deu um leve aperto. Ayla mal podia acreditar naquilo. 
Estava tudo bem! Ele compreendia e estava lhe dizendo que estava tudo bem. 
Ela poderia contar o que quisesse sobre o Cl. Ele ficaria com ela. Ele a 
amava. Ayla devolveu o sorriso, o seu largo e formidvel sorriso, repleto de 
amor.
        Jondalar, tambm, percebera aonde estavam levando as perguntas da 
Zelandoni, e, para sua prpria surpresa, no se importava. Em certa ocasio, 
havia ficado to preocupado com o que a sua famlia e o seu povo pudessem 
pensar daquela mulher, e o que achariam do fato de ele lev-la para sua casa, 
que quase desistiu dela, quase a perdeu. Agora, no importava. Por mais que 
gostasse deles, por mais que estivesse contente em v-los, se os seus 
prprios familiares no a aceitassem, ele partiria. Era Ayla quem ele amava. 
Juntos, tinham muito a oferecer. Vrias Cavernas j tinham pedido para 
ficarem vivendo l, inclusive os Lanzadonii de Dalanar. Ele estava certo de 
que conseguiriam encontrar uma casa - em algum lugar.
        A donier percebeu que algo havia sido transmitido entre Ayla e 
Jondalar, algum tipo de concordncia ou reao positiva. Isso a deixou 
curiosa, mas ela aprendera que, em geral, observao e pacincia 
satisfaziam muito melhor a sua curiosidade do que perguntas.
        Ayla virou-se e olhou para a Zelandoni, para responder.
        -  Creb era o mog-ur do Cl de Brun, o que conhecia o mundo espiritual, 
mas ele era mais do que apenas um mog-ur. Era como voc, Zelandoni, era 
Primeiro, O Mog-ur de todo o Cl. Mas, para mim, Creb era... o homem da 
minha lareira, apesar de eu no ter nascido l, e a mulher com quem ele vivia, 
Iza, era sua irm, e no sua companheira. Creb nunca teve companheira.
        -  Quem ou o qu  o Cl? - perguntou a Zelandoni. Ela percebeu que o 
sotaque de Ayla tornava-se mais acentuado quando falava dele.
        -  O Cl ... Eu fui adotada pelo Cl. Foram eles que me aceitaram 
quando eu era... sozinha. Creb e Iza cuidaram de mim, me criaram. Iza foi a 
me, a nica me de quem me lembro. E ela era uma curandeira, uma 
curadora. Iza tambm, de certo modo, era Primeira. Era a mais respeitada 
de todas as curandeiras, como o foram sua me e sua av, recuando ao incio 
do Cl, numa linhagem ininterrupta.
        -  Foi assim que voc aprendeu as suas habilidades de cura? - sugeriu 
a Zelandoni, inclinando-se para a frente sobre as almofadas.
        -  Foi. Iza me ensinou, embora eu no fosse sua filha de verdade e no 
tivesse lembranas dela, como Uba tinha. Uba era minha irm. No era de 
verdade, mas, mesmo assim, minha irm.
        -  O que aconteceu com a sua me verdadeira, a sua famlia, o povo no 
qual nasceu? - quis saber a Zelandoni. Todos estavam curiosos, fascinados, 
mas deixavam que ela fizesse as perguntas.
        Ayla recostou-se e olhou para cima, como se tentasse achar uma 
resposta. Em seguida, baixou a vista para a grande mulher, que a olhava 
atentamente.
        -  No sei. No me lembro. Eu era jovem, Iza achava que devia contar 
cinco anos... embora eles no tivessem palavras para contar, como os 
Zelandonii. O Cl chamava os anos comeando como se fossem bebs. O 
primeiro era o ano do nascimento, depois o da amamentao, o do desmame, 
e assim por diante. Eu os colocava em palavras de contar - tentou explicar. 
Ento, ela parou. No podia explicar tudo contar a sua vida inteira com o Cl. 
Seria melhor apenas responder s perguntas.
        -  No se lembra nada do seu prprio povo? - insistiu a Zelandoni.
        -  S sei o que Iza me contou. Um terremoto destruiu a caverna dele, 
e o cl de Brun estava procurando uma nova, quando me encontrou  beira de 
um rio, inconsciente.
        Eles estavam sem uma casa havia algum tempo, mas Brun permitiu que 
Iza me levasse. Ela me disse que eu devo ter sido atacada por um leo das 
cavernas, pois havia marcas de quatro garras na minha perna, e elas 
estavam... escorrendo, contaminadas, ptridas - Ayla tentava achar as 
palavras certas.
        -  Sim, eu entendo - atalhou a donier. - Infeccionadas, supurando, 
talvez num estgio de putrefao mrbida. Garras de felinos tendem a 
fazer isso.
        -  Eu ainda tenho as cicatrizes. Foi por isso que Creb soube que o Leo 
das Cavernas era o meu totem, embora seja normalmente o totem de um 
homem. As vezes, ainda sonho estar em um lugar pequeno e escuro vendo a 
garra de um grande felino se aproximando - contou Ayla.
        -  Trata-se de um sonho poderoso. Voc tem outros sonhos? Isto , 
sobre essa poca de sua vida?
        -  Tenho um mais apavorante, mas difcil de explicar. Nunca consigo 
me lembrar direito.  mais uma sensao, a sensao de um terremoto. -A 
jovem estremeceu. - Eu detesto terremotos!
        A Zelandoni assentiu compreensiva.
        -  Algum outro?
        -  No... sim, mas apenas uma vez, quando Jondalar ainda estava se 
recuperando e me ensinando a falar...
        A Zelandoni achou que era um modo peculiar de manifestar aquilo, e 
olhou de relance para Marthona, para ver se ela havia percebido a estranha 
informao.
        -  Eu entendia parte da coisa - frisou Ayla. - Eu havia aprendido 
muitas palavras, mas tinha problema em junt-las, e ento sonhei com a 
minha me, a minha me verdadeira.
        Vi o seu rosto, e ela falou comigo. O aprendizado foi mais fcil depois 
disso.
        -  Ahhh... Trata-se de um sonho muito importante - comentou Aquela 
Que Serve. -  sempre importante quando a Me surge nos seus sonhos, 
seja qual for a forma que Ela assuma, mas particularmente quando Ela 
assume a forma da sua prpria me falando com voc do outro mundo.
        Jondalar lembrou um sonho que teve com a Me, quando eles ainda 
estavam no vale de Ayla. Um sonho muito estranho. Ele pensou em cont-lo 
para a Zelandoni em alguma ocasio.
        -  Ora, se voc sonhou com a Me, por que no fez um apelo pra Ela 
ajudar Thonolan a encontrar o caminho dele no outro mundo? No entendo 
por que voc pediu o auxlio de um urso das cavernas e no da Grande Me.
        - Eu s soube a respeito da Grande Me depois que Jondalar me 
contou, depois de aprender a lngua de vocs.
        -  No sabia sobre Dom, sobre a Grande Me Terra? - perguntou 
Folara com espanto. Nenhum dos Zelandonii jamais ouvira falar de algum 
que no reconhecia a Grande Me com algum nome ou forma. Todos ficaram 
aturdidos.
        -  O Cl presta respeito a Ursus, o Grande Urso das Cavernas - 
justificou-se Ayla. - Foi por isso que pedi a Ursus para ajudar a guiar o 
esprito daquele homem morto...na ocasio, eu no sabia o seu nome... mesmo 
ele no sendo do Cl. Tambm pedi ao esprito do Leo das Cavernas, j que 
ele era o meu totem.
        -  Bem, se voc no A conhecia, fez o que pde, diante das 
circunstncias. Estou certa de que isso ajudou - concedeu a Zelandoni, mas 
ela estava mais preocupada do que demonstrava. Como era possvel algum 
dos filhos Dela no conhecer a Me?
        -  Eu tambm tenho um totem - falou Willamar. - O meu  a guia-
Real. - Sentou-se um pouco ereto. - Minha me me contou que, quando eu era 
beb, uma guia me levantou do cho e tentou me levar embora, mas ela me 
agarrou e segurou firme. Ainda tenho as cicatrizes. O Zelandoni disse para 
ela que o esprito da Aguia-Real me reconheceu como um da sua prpria 
espcie. No  muita gente que tem totens particulares, no entre os 
Zelandonii, mas a pessoa que tem um  considerada de sorte.
        -  Bem, voc teve muita sorte em escapar - comentou Joharran.
        -  Creio que eu tive sorte em escapar do leo das cavernas que me 
deixou marcas - mencionou Ayla -, e Jondalar tambm. Acredito que o totem 
dele tambm  o Leo das Cavernas. O que acha, Zelandoni?
        Desde que conseguiu se comunicar com ele, Ayla dizia a Jondalar que 
o esprito do Leo das Cavernas o havia escolhido, mas este sempre evitou 
fazer qualquer comentrio a respeito. Aparentemente, totens individuais 
no eram to importantes para o povo dele quanto o eram para o Cl, mas 
isso era importante para ela. Ayla no queria correr nenhum risco.
        O Cl acreditava que o totem de um homem precisava ser mais forte 
do que o de uma mulher, para ela ter filhos. Era por isso que o forte totem 
masculino de Ayla deixara Iza to perturbada. A despeito de seu poderoso 
totem, Ayla teve um filho, mas houve dificuldades, comeando na gravidez, 
durante o parto, e, muitos acreditavam, posteriormente. A certeza que 
tinham era a da falta de sorte do menino - o que confirmava isso era a sua 
me no ter um companheiro, nenhum homem para cri-lo adequadamente.
        A culpa das dificuldades e dos infortnios recaa sobre o fato de ela 
ser mulher e ter um totem masculino. Agora que Ayla estava novamente 
grvida, no queria problemas para aquele filho que Jondalar havia 
comeado, nem para ela nem para o beb. Embora tenha aprendido muito 
sobre a Me, no esquecera os ensinamentos do Cl, e se o totem de 
Jondalar era um Leo das Cavernas como o dela, ento, tinha certeza, este 
seria forte o bastante para ela ter um beb saudvel e que levaria uma vida
normal.
        Algo no tom de voz de Ayla chamou a ateno da Zelandoni. Olhou 
atentamente para a jovem. Ela quer que Jondalar tenha um totem do Leo 
das Cavernas, percebeu a mulher, e esse totem  muito importante para ela. 
Espritos totmicos devem ter grande significado para o povo desse Cl que 
a criou. Provavelmente  verdade que o Leo das Cavernas seja agora o 
totem de Jondalar, e no far mal se as pessoas pensarem que ele tem 
sorte. Talvez ele a tenha recuperado, afinal!
        - Creio que tem razo, Ayla - afirmou a doner. - Jondalar pode 
reivindicar o Leo das Cavernas como seu totem, e reivindicar a sorte. Ele 
teve muita sorte por voc estar presente, quando precisou da sua ajuda.
        -  No lhe falei, Jondalar? - exclamou Ayla, aparentando alvio.
        Por que ser que esse Cl d tanta importncia ao Esprito do Leo 
das Cavernas? Ou ao Urso das Cavernas?, perguntou-se a Zelandoni. Todos 
os espritos so importantes, os dos animais, at mesmo os das plantas, dos 
insetos e tudo o mais, porm  a Grande Me que d origem a todos eles. 
Quem  essa gente? Esse tal de Cl?
        -  Voc contou que vivia sozinha no vale, no  mesmo? Foi l que esse 
Cl criou voc? - quis saber a donier.
        -  Sim, eu tambm gostaria de saber. Jondalar no apresentou voc 
como Ayla dos Mamuti? - interveio Joharran.
        -  Voc disse que no conhecia a Me, mas nos saudou com as boas-
vindas de "A Grande Me de Todos", que  um dos nomes que damos a Doni - 
acrescentou Folara.
        Ayla olhou de um para outro, e depois para Jondalar, sentindo um qu 
de pnico. Havia um vestgio de sorriso no rosto dele, como se estivesse se 
divertindo com a maneira como as respostas sinceras de Ayla deixava a 
todos desconcertados. Apertou novamente a mo dela, mas nada disse. Ele 
estava interessado em de que modo ela responderia. Ayla se descontraiu um 
pouco.
        -  O meu cl vivia na extremidade sul da terra que se estende at o 
Mar de Beran. Pouco antes de morrer, Iza sugeriu que eu achasse o meu 
prprio povo. Contou que ele vivia no norte, no continente, mas quando, 
finalmente, procurei Por ele, no consegui achar ningum. O vero estava 
quase terminando quando encontrei o vale, e fiquei com medo de que a 
estao fria chegasse e eu no estivesse preparada para ela. O vale era um 
timo lugar, protegido dos ventos, tinha um riacho, muitas plantas e animais 
e at mesmo uma pequena caverna. Decidi ficar l, para o inverno, e acabei 
permanecendo trs anos, com apenas Huiin e Nenem por companhia. Talvez 
eu estivesse  espera de Jondalar - sugeriu ela, sorrindo para o homem.
        Eu o encontrei no fim da primavera; e foi somente no final do vero 
que Jondalar se sentiu bem o bastante para viajar. Resolvemos fazer uma 
pequena viagem, para explorar a regio, A cada noite, montvamos 
acampamento em uma regio diferente, nos afastando cada vez mais do vale. 
Ento encontramos Talut, o chefe do Acampamento do Leo, e ele nos 
convidou para uma visita. Ficamos com ele at o incio do vero seguinte, e 
durante a minha estada l, eles me adotaram. Tambm queriam que Jondalar 
ficasse e se tornasse um deles, mas, j nessa ocasio, ele estava planejando 
voltar.
        -  Bem, eu me alegro por isso - disse Marthona.
        -  Parece que voc tem muita sorte, por ter um povo disposto a adot-
la - comentou a Zelandoni. Ela no podia evitar ficar intrigada com a 
estranha histria que Ayla estava contando. E no estava sozinha em suas 
restries. Todos pareciam um tanto incrdulos e a Zelandoni ainda tinha 
mais perguntas do que respostas.
        -  No incio, tenho certeza de que foi ideia de Nezzie... ela era a 
companheira de Talut. Creio que ela o convenceu porque eu ajudei Rydag 
quando ele teve um...problema ruim. Rydag era fraco de... - Ayla no 
conseguia encontrar as palavras corretas e ficou frustrada. Jondalar nunca 
as ensinara para ela. Ele era capaz de lhe transmitir as palavras exatas para 
vrios tipos de pedras e termos especficos para o processo de mold-las 
em ferramentas e armas, mas a terminologia medicinal e de cura no fazia 
parte de seu vocabulrio normal. Ela virou-se para ele e falou em Mamuti. - 
Qual a palavra de vocs para dedaleira, a planta que eu sempre colhia para 
Rydag?
        Ele lhe disse, mas antes mesmo que Ayla pudesse repeti-la e tentasse 
explicar, a Zelandoni teve certeza de ter entendido o que aconteceu. Assim 
que ouviu Jondalar pronunciar a palavra, ela soube no apenas qual era a 
planta, mas tambm a sua utilizao. Ela teve uma boa ideia de que a pessoa 
a quem Ayla se referia tivera uma fraqueza interna no rgo que bombeava 
sangue, o corao, e que ele podia ser ajudado com a adequada extrao de 
elementos da dedaleira. Isso tambm a fez perceber por que algum ia 
querer adotar uma curadora talentosa o bastante para saber como usar algo 
to benfico, embora potencialmente perigoso, como essa planta. E como 
esse algum tinha posio de autoridade, como era o caso da companheira 
de um chefe, ela pde entender por que Ayla foi adotada to rapidamente. 
Aps ouvir Ayla contar essencialmente o que ela j adivinhara, a Zelandoni 
fez outra deduo.
        -  Essa pessoa, Rydag, era uma criana? - quis saber, para confirmar a 
sua especulao conclusiva.
        -  Era - confirmou Ayla, sentindo um momento de tristeza.
        A Zelandoni achou que entendia a respeito de Ayla e os Mamuti, mas 
o Cl ainda a deixava perplexa. Decidiu, ento, tentar uma abordagem 
diferente.
        -  Sei que voc  habilidosa nos mtodos de cura, Ayla, mas 
geralmente os que se tornam entendidos tm algum tipo de marca para que 
as pessoas o reconheam. Como esta - afirmou, tocando em uma tatuagem na 
fronte acima da tmpora esquerda. - No vejo nenhuma marca em voc.
        Ayla olhou atentamente para a tatuagem. Tratava-se de um retngulo 
dividido em seis retngulos menores, quase quadrados, em duas fileiras de 
trs, com quatro pernas acima de cada fileira, que, se unidas, formariam 
uma terceira fila de quadrados, O contorno do retngulo era escuro, mas 
trs dos quadrados eram preenchidos com tons de vermelho, e um, de 
amarelo.
        Embora se tratasse de uma marca incomum, vrias das pessoas que 
ela vira tinham tatuagens, de um tipo ou de outro, inclusive Marthona, 
Joharran e Willamar. Ela no sabia se as marcas significavam algo em 
particular, mas, depois que a Zelandoni elucidou o significado da sua prpria 
marca, Ayla desconfiou que deviam ter.
        -  O Mamut tinha uma marca na bochecha - mostrou Ayla, tocando o 
lugar em sua face. -Todos os mamutii tinham. Alguns tambm tinham outras 
marcas. Eu teria ganho uma, se tivesse ficado. O Mamut passou a me treinar 
assim que me adotou, mas eu no havia sido treinada totalmente at partir, 
e por isso no fui marcada.
        -  Mas no disse que foi adotada pela mulher que era a companheira 
do chefe?
        -  Eu achei que Nezzie ia me adotar, e ela tambm, mas, na cerimnia, 
o Mamut disse Lar do Mamute, e no Lar do Leo. Ele me adotou, em vez 
dela.
        -  Esse Mamut  Um Que Serve  Me? - perguntou a Zelandoni, 
pensando: ento ela foi treinada para ser Uma Que Serve.
        -  Sim, como voc. O Lar do Mamute era dele, e para Aqueles Que 
Servem A Me. Muitas pessoas escolhem o Lar do Mamute, ou sentem que 
foram escolhidas. O Mamut disse que eu nasci para ele. - Ayla enrubesceu 
um pouco e olhou para o lado, sentindo-se um pouco constrangida por falar 
sobre algo que lhe fora dado, que ela no conquistara.
        Isso a fez pensar em Iza e no quanto a mulher cuidadosamente a 
treinara para ser uma boa mulher do Cl.
        - Penso que o seu Mamut era um homem sensato - comentou a 
Zelandoni. - Mas voc disse que aprendeu as suas habilidades de cura com 
uma mulher do povo que a criou, esse tal de Cl. Eles no fazem nada para 
marcar as suas curandeiras, para lhes dar essa condio e reconhecimento?
        -  Eu recebi uma certa pedra preta, um sinal especial, para manter no 
meu amuleto, quando fui aceita como curandeira do Cl - informou Ayla. - 
Mas nao fazem uma marca, como uma tatuagem, nas curandeiras, apenas a 
do totem, quando um menino se torna homem.
        -  Como as pessoas reconhecem uma curandeira, quando precisam 
receber  ajuda de uma delas?
        Ayla ainda no tinha pensado nisso. Parou um pouco para refletr.
        -  Curandeiras no precisam ser marcadas. As pessoas as conhecem, 
curandeira tem essa condio pelo seu prprio direito. Sua posio  sempre 
conhecida. Iza era a mulher que tinha o mais alto nvel no Cl, mais alto 
ainda que o da companheira de Brun.
        A Zelandon sacudiu a cabea. Obviamente, Ayla achou que havia 
explicado algo, mas a mulher no entendeu.
        -  Tenho certeza de que isso  verdade, mas como as pessoas sabem?
        -  Pela posio dela - repetiu Ayla, e depois tentou esclarecer: - 
Posio que ela assume quando o Cl vai a algum lugar, o lugar que ela ocupa, 
do que come, pelos sinais que ela usa quando... fala, pelos sinais que lhe so 
feitos quando algum se dirige a ela.
        -  Isso no  um tanto inconveniente? Esse uso embaraoso de sinais? 
- sugeriu a Zelandon.
        -  No para eles.  assim que as pessoas do Cl falam. Atravs de 
sinais, no falam com palavras, como a gente - explicou Ayla.
        -  Mas, por que no? - quis saber Marthona.
        -  No conseguem. No conseguem emitir todos os sons que consegui. 
Conseguem alguns, mas no todos. Eles falam com as mos e os corpos - 
tentou esclarecer Ayla.
        Jondalar podia perceber a crescente perplexidade da me e dos 
parentes, e Ayla ficar ainda mais frustrada. Decidiu que estava na hora de 
acabar com a comdia.
        -  Ayla foi criada pelos cabeas-chatas, mame - anunciou ele. Seguiu-
se um silncio atordoante.
        -  Cabeas-chatas! Cabeas-chatas so animais! - exclamou Joharran.
        -  No, no so - rebateu Jondalar.
        -  Claro que so - afirmou Folara. - Eles no falam!
        -  Eles falam, s que no falam como voc - justificou Jondalar.  Eu 
mesmo falo um pouco a lngua deles, mas  claro que Ayla fala muito mais. 
Quando ela disse que eu a ensinei a falar, foi exatamente o que aconteceu. 
Deu  uma olhada para a Zelandon; ele havia notado a expresso anterior 
dela.        - De criana, Ayla esqueceu como falar a lngua que conhecia, qualquer 
que tenha sido, e s conseguia falar do jeito do Cl. O Cl so cabeas-
chatas, os cabea chatas chamam a si mesmos de O Cl.
        -  Como eles podem se chamar de alguma coisa, se falam com as mos  
cismou Folara.
        -  Eles tm algumas palavras - repetiu Ayla -, s no conseguem dizer
tudo. Nem mesmo entendem todos os sons que fazemos. Eles poderiam 
entender se  comeassem ainda jovens, mas no esto acostumados a ouvi-
los. - Ela pensou em Rydag. Ele conseguia entender tudo o que era dito, 
embora no conseguisse se expressar.
        - Bem, eu no sabia que eles se chamavam por algum nome - observou
Marthona, em seguida pensando em outra coisa. - Como voc e Ayla se 
comunicaram, Jondalar?
        -  No nos comunicvamos, no incio - disse ele. -A princpio,  claro, 
no foi necessrio. Ayla sabia o que fazer. Eu estava ferido e ela cuidou de 
mim.
        -  Jondalar, est me dizendo que ela aprendeu com os cabeas-chatas 
como curar os ferimentos provocados pelo leo das cavernas? - 
surpreendeu-se a Zelandoni.
        Em vez dele, foi Ayla quem respondeu:
        -  Eu j lhe disse, Iza veio da mais respeitada linhagem de 
curandeiras do cl. Ela me ensinou.
        -  Acho muito difcil acreditar em cabeas-chatas inteligentes - 
afirmou a Zelandoni.
        -  Eu no - confessou Willamar.
        Todos se viraram e olharam para o Mestre Comerciante.
        -  No creio que de modo algum sejam animais. H muito que no creio 
nisso. Tenho visto muitos deles, em minhas viagens.
        -  Por que no disse antes algo a respeito disso? - perguntou Joharran.
        -  Nunca surgiu esse assunto - respondeu Willamar. - Nunca me 
perguntaram, e tambm nunca me preocupei muito com esse fato.
        -  O que fez voc mudar de ideia sobre eles, Willamar? - quis saber a 
Zelandoni. Isso fazia surgir uma nova perspectiva. Ela teria de pensar sobre 
a surprendente dia que Jondalar e a estrangeira haviam apresentado.
        - Deixem-me pensar. A primeira vez que comecei a duvidar se eram 
animais foi muitos anos atrs - comeou Willamar. - Eu estava a sudoeste 
daqui, remando sozinho. O tempo havia mudado repentinamente, surgiu uma 
sbita onda de frio, e eu me apressava em voltar para casa. Continuei 
avanando at escurecer, acampei  beira de um regato.
        Planejava atravess-lo pela manh. Quando acordei descobri que havia 
parado do lado oposto de um grupo de cabeas-chatas. Fiquei com muito 
medo... a gente ouvia coisas a respeito deles... e fiquei de olho, estar 
preparado, no caso de virem atrs de mim.
        - O que eles fizeram? - perguntou Joharran.
        - Nada, a no ser levantar acampamento, como qualquer um faria - 
revelou Willamar. - Eles sabiam que eu estava ali,  claro, e, como estava 
sozinho, no lhes daria muito trabalho, mas no pareciam estar com muita 
pressa. Ferveram um pouco de gua, prepararam uma bebida quente, 
enrolaram suas tendas... diferentes das nossas, mais baixas, perto do cho e 
mais difceis de se ver... mas as colocaram sobre as costas, e partiram com 
passadas rpidas.
        -  Deu para perceber se havia mulheres? - perguntou Ayla.
        -  Fazia muito frio, e todos estavam bem cobertos. Eles usavam 
roupas. No as notamos durante o vero porque no usam muitas, e a gente 
raramente os v no inverno. 
        Nessa poca, no costumamos viajar muito, nem para muito longe, e 
eles talvez tambm no faam isso.
        -  Tem razo, eles no gostam de se afastar muito de casa, quando 
faz frio ou neva - comentou Ayla.
        -  A maioria tinha barba, mas no estou certo se todos tinham - 
observou Willamar.
        -  Os jovens no tm barba. Voc notou se carregavam um cesto nas 
costas?
        -  Creio que no - disse ele.
        -  As mulheres do Cl no caam, mas se os homens vo em uma longa 
viagem, as mulheres costumam ir junto, para secar a carne e carreg-la nas 
costas; esse deve ter sido um grupo de caa, com homens apenas, que se 
encontrava nas proximidades - aventou Ayla.
        -  Voc fazia isso? - cismou Folara. - Ir em viagens de caa?
        -  Sim, at mesmo fui com eles, certa vez, quando caaram um 
mamute - lembrou Ayla -, mas no cacei.                                                            
        Jondalar percebeu que todos pareciam mais curiosos do que 
intransigentes. Apesar de ter certeza de que muita gente se mostraria 
intolerante, pelo menos a sua famlia parecia interessada em saber a 
respeito dos cabeas-chatas... o Cl.
        -  Joharran - comeou Jondalar -, que bom que esse assunto surgiu 
agora pois eu estava mesmo planejando falar a respeito com voc. H algo 
que precisa saber. Conhecemos um casal Cl, a caminho daqui, pouco antes 
de atravessarmos aquele planalto de geleira a leste. Eles nos contaram que 
vrios cls esto planejando se reunir para conversar a nosso respeito e os 
problemas que tm tido com a gente. Eles nos chamam de os Outros.
        -  Mal consigo acreditar que eles nos chamem de alguma coisa - 
comentou o homem -, quanto menos em que faro reunies para conversar 
sobre ns.
        -  Pois bem, acredite. Se no acreditar, poderemos ter problemas. 
        Vrias vozes surgiram ao mesmo tempo.
        "Como assim?" "Que tipo de problema?"
        -  Conheo um problema que existe na regio dos Losadunai. Um bando
jovens valentes de vrias Cavernas passou a importunar cabeas-chatas... 
homens do Cl. Soube que comearam h vrios anos, escolhendo apenas um 
para provocar, como se caassem um rinoceronte. Mas os homens do Cl no 
so de brincadeira. So inteligentes e fortes. Alguns desses jovens 
descobriram isso quando um ou dois foram capturados, e ento eles 
passaram a provocar as mulheres. Mulheres do Cl normalmente no lutam, e 
por isso no era divertido nem representavam um desafio.
        Para tornar as coisas interessantes, eles passaram a forar as 
mulheres do Cl a... bem, eu chamaria isso de Prazeres.
        -  O qu? - exclamou Joharran.
        -  Voc ouviu direito - afirmou Jondalar.
        -  Pela Grande Me! - deixou escapar a Zelandoni.
        -  Isso  terrvel! - externou Marthona ao mesmo tempo.
        -  Que horror - bradou Folara, torcendo o nariz de nojo.
        -  Que desprezvel - bufou Willamar.
        -  Eles tambm acham isso - observou Jondalar. - No vo tolerar por 
muito tempo, e assim que se derem conta de que podem fazer algo, no vo 
mesmo tolerar isso da gente. No h rumores de que estas cavernas outrora 
pertenceram a eles? E se as quiserem de volta?
        -  So apenas rumores, Jondalar. No h nada nas Histrias ou nas 
Lendas dos Antigos que confirme - informou a Zelandoni. - S existem 
menes a ursos.
        Ayla nada disse, mas ponderou que os rumores talvez fossem 
verdadeiros.
        -  Em todo caso, no vo tom-las - afirmou Joharran. - Esta  a nossa 
casa, territrio Zelandonii.
        -  Mas h algo mais que precisam saber e que pode pesar a nosso 
favor. De acordo com Guban... era esse o nome do homem...
        -  Eles tm nomes? - indagou Joharran.
        -  Claro que tm nomes - interveio Ayla -, como as pessoas do meu cl. 
O nome  Guban, e o dela, Yorga. - Ayla falou os nomes com a prpria 
pronncia do Cl. Com sons guturais, vindos bem fundo da garganta. Jondalar 
sorriu, ela fez isso de propsito, imaginou ele.
        Se  assim que eles falam, pensou a Zelandoni, sei com certeza de 
onde vem o dela. Ayla deve estar dizendo a verdade. Foi criada por eles. 
Mas teria aprendido sua medicina com eles? 
        - O que estou tentando dizer, Joharran,  que Guban... - a pronncia 
dele mais fcil de ser entendida -...me disse que algumas pessoas, no sei de 
que cavernas, se aproximaram de alguns cls com a ideia de estabelecerem 
relaes.
        -  Comerciar! Com cabeas-chatas! - irritou-se Joharran.
        -  Por que no? - retrucou Willamar. - Acho que poderia ser 
interessante. Vai depender,  claro do que eles tm para trocar.
        -  Falou o Mestre Comerciante - salientou Jondalar.
        -  Por falar em comrcio, o que os Losadunai esto fazendo a respeito 
desses jovens? - quis saber Willamar. - Ns comerciamos com eles. 
Detestaria descer para o outro lado da geleira, com um grupo de comrcio, 
e dar de cara com um bando de cabeas-chatas com ideias de vingana na 
cabea.
        -  Quando ns... Quando eu ouvi falar a respeito disso, cinco anos 
atrs, eles no faziam muita coisa - disse Jondalar, tentando no se referir 
a Thonolan. Eles sabiam o que estava acontecendo, e alguns homens at 
mesmo chamavam isso de "vivacidade", mas Laduni ficava muito irritado s 
de ouvir falar no assunto. Depois, a coisa piorou. No caminho de volta, 
paramos para visitar os Losadunai. Os homens do Cl tinham passado a 
acompanhar as suas mulheres, quando elas saam para coletar alimentos, e, 
portanto, esses jovens cheios de "vivacidade" deixaram de provocar os 
homens do Cl indo atrs de suas mulheres, mas foram atrs de uma jovem 
da Caverna de Laduni e a foraram... todos eles... antes dos Primeiros Ritos.
        -  Oh, no! Como puderam, Jond? - lamentou Folara, caindo em 
prantos.
        -  Pelo Subterrneo da Grande Me! - trovejou Joharran.
        -   para l que eles deviam ser mandados! - exclamou Willamar.
        -  So abominaes! Nem mesmo consigo imaginar um castigo forte o 
bastante - inflamou-se a Zelandoni.
        Incapaz de fazer qualquer comentrio, Marthona colocou a mo sobre 
o peito, estarrecida.
        Ayla ficara profundamente sentida pela moa que fora agredida, e 
tentara aplacar a prpria aflio, mas no pde deixar de notar como os 
parentes de Jondalar reagiram com muito mais intensidade, diante da 
notcia de uma jovem dos Outros ter sido atacada pelo bando, do que quando 
souberam dos ataques s mulheres do Cl. No caso das mulheres do Cl, eles 
se sentiram ofendidos, mas, com relao a uma deles mesmos, ficaram 
ultrajados.
        Isso, mais do que qualquer coisa que possa ter sido dita ou feita, fez 
com que ela compreendesse a extenso do abismo que separava os dois 
povos. Ento, perguntou-se: qual seria a reao deles - por mais inconcebvel 
que a ideia lhe parecesse - se um bando de homens do Cl... se cabeas-
chatas tivessem cometido tal ato abominvel contra mulheres Zelandonii?
        - Podem ter certeza de que os Losadunai esto, no momento, fazendo 
algo a respeito desses jovens - garantiu Jondalar. - A me da moa exigiu 
uma retribuio de sangue contra a Caverna do lder desses degenerados.
        -  Ahhh,  uma pssima notcia. Que situao difcil para os lderes - 
observou Marthona.
        -   direito dela! - proclamou Folara.
        -  Sim, claro que  direito dela - concordou Marthona -, mas um ou 
outro parente, ou a Caverna inteira, vai resistir, e isso pode levar a uma luta, 
talvez algum seja morto, e a algum vai querer se vingar. Quem sabe onde 
isso acabar? O que eles vo fazer, Jondalar?
        -  Vrios lderes de Cavernas enviaram mensageiros e muitos se 
reuniram e conversaram. Concordaram em enviar batedores, achar os jovens, 
separ-los para dispersar o bando, e depois cada Caverna cuidar 
individualmente do seu prprio integrante. Imagino que eles sero 
severamente punidos, mas tero uma chance de fazer uma reparao - 
esclareceu Jondalar.
        -  Eu diria que  um bom plano, principalmente se todos concordarem, 
inclusive a Caverna do incitador - comentou Joharran -, e se o rapaz se 
entregar pacificamente, quando o encontrarem...
        -  No sei a respeito do lder deles, mas acho que os outros querem 
voltar para casa, e concordariam com qualquer coisa para serem aceitos de 
volta. Eles me pareceram famintos, com fome, sujos e nada contentes - 
revelou Jondalar.
        -  Voc os viu? - perguntou Marthona.
        -  Foi assim que conhecemos o casal Cl. O bando tinha ido atrs da 
mulher, pois no viu o homem por perto. Ele havia subido numa pedra alta, 
para localizar uma caa, e pulou de l quando atacaram a mulher dele. 
Quebrou a perna, mas isso no o impediu de tentar combat-los. Topamos 
com eles nessa ocasio; no era longe da geleira que nos preparvamos para 
atravessar. -Jondalar sorriu. -Ayla, Lobo e eu, sem mencionar as duas 
pessoas do Cl, conseguimos alcan-los rapidamente. No restava muita 
fora de oposio nos rapazes. E, com Lobo e os cavalos, e o fato de 
sabermos onde eles estavam e de nunca nos terem visto antes... bem... acho
que lhes demos um susto.
        -  Sim - falou pensativa a Zelandoni. - Posso imaginar.
        -  Vocs teriam assustado a mim - confessou Joharran, com um 
sorriso amarelo.
        Ento Ayla convenceu o homem do Cl a deixar que ela desse um jeito 
em sua perna quebrada - continuou Jondalar. - Acampamos juntos durante 
dois dias. Preparei dois pedaos de pau para dar apoio e ajud-lo a andar, e 
ele resolveu ir para casa. Eu consegui falar um pouco com o homem, mas foi 
Ayla quem conversou com ele por mais tempo. Acho que me tornei uma 
espcie de irmo para ele-recordou.
        Ocorreu-me uma coisa, Joharran - interveio Marthona. Se h uma 
possibilidade de termos problemas com essa... como  mesmo que chamam a 
si prprios? Povo Cl?... e se so capazes de se comunicar o suficiente para 
negociar pode ser til ter por perto algum como Ayla, capaz de falar com 
eles.
        -  Estive pensando a mesma coisa - acrescentou a Zelandoni. Ela 
tambm estivera pensando no que Jondalar havia falado sobre o efeito 
aterrorizante que os animais de Ayla causavam nas pessoas, mas no disse 
nada. Isso poderia ser til.
        -  Claro que isso  verdade, mame, mas ser difcil me acostumar  
idia de falar com os cabeas-chatas, ou cham-los de uma outra coisa, e 
no sou o nico que ter problemas com isso - adiantou Joharran. Fez uma 
pausa, e depois sacudiu a cabea para si mesmo. - Se eles falam com as mos, 
como vamos saber se esto dizendo alguma coisa ou simplesmente sacudindo 
os braos  toa?
        Todos olharam para Ayla. Ela dirigiu-se a Jondalar.
        -  Acho melhor a gente fazer uma demonstrao - sugeriu ele -, e 
talvez voc consiga falar ao mesmo tempo, do jeito como fez ao conversar 
com Guban ao mesmo tempo em que traduzia para mim.
        -  O que devo dizer?
        -  Que tal cumpriment-los, como se voc estivesse falando por 
Guban? - sugeriu.
        Ayla ponderou um instante. No poderia cumpriment-los do modo 
como Guban o faria. Ele era homem, e uma mulher jamais saudaria ningum 
do mesmo modo que um homem. 
        Ela poderia fazer um sinal de saudao, pois era sempre o mesmo, mas 
ningum nunca faria apenas um gesto de saudao. Ele sempre sofria 
modificaes, dependendo de quem o fazia e para quem estava sendo 
dirigido. E no existia nenhum sinal para uma pessoa do Cl cumprimentar 
algum dos Outros. Isso nunca tinha sido feito, no de um, modo formal, 
reconhecido. Talvez conseguisse imaginar como seria feito, se; eles 
tivessem que faz-lo. Ela se levantou e recuou para a rea livre no meio do 
aposento principal.
        -  Esta mulher sada vocs, Povo dos Outros - comeou Ayla, e fez 
uma pausa. - Ou talvez deva dizer Povo da Me - disse ela, tentando 
imaginar como  o Cl faria os sinais.
        -  Experimente Filhos da Me, ou Filhos da Grande Me Terra - 
sugeriu Jondalar.                                                                                 
        Ela fez que sim e recomeou:
        -  Esta mulher... chamada Ayla, sada vocs, Filhos de Doni, a Grande 
Me Terra. - Expressou o prprio nome e o da Me em sons verbalizados, 
mas com a inflexo e o timbre tonal do Cl. O resto foi comunicado por 
sinais atravs da linguagem formal do Cl e falado em Zelandoni.
        - Esta mulher espera que, no devido tempo, vocs sejam saudados por 
um do Cl do Urso das Cavernas, e que a saudao seja respondida. O Mog-
ur disse a esta mulher que o Cl  antigo, as lembranas vo longe. O Cl 
estava aqui quando os novos chegaram. Eles chamaram os novos, aqueles que 
no eram o Cl, de os Outros. O Cl escolheu seguir o prprio caminho, 
evitar os Outros. Esse  o modo Cl, e as tradies Cl mudam lentamente, 
mas alguns do Cl iniciaro a mudana, faro novas tradies. 
        Se assim for, esta mulher espera que a mudana no prejudique nem o 
Cl nem os Outros.
        A sua traduo Zelandonii foi falada em um montono tom de voz 
baixo, com o mximo de preciso e o mnimo de sotaque possveis. As 
palavras lhes diziam o que ela estava expressando, mas podiam perceber que 
no fazia sinais aleatrios com os gestos de mo. Os gestos intencionais, os 
sutis meneios do corpo indicando um movimento, a altiva cabea levantada, o 
curvar aquiescente, e at mesmo o levantar de uma sobrancelha, tudo flua 
suavemente ao mesmo tempo que com elegante propsito. O significado de 
cada meneio, contudo, no ficou claro, nem o que queriam dizer os seus 
movimentos.
        O efeito do conjunto, porm, foi surpreendente e belo; provocou um 
arrepio na espinha de Marthona. Ela olhou para a Zelandoni, que fez um 
rpido contato e um gesto afirmativo com a cabea. Ela, tambm, sentira 
algo profundo.
        Jondalar percebeu o discreto jogo cnico; ele observava quem estava 
observando Ayla, e podia ver a impresso que ela causava. Joharran olhava 
atentamente, embevecido, com uma ruga vincando a testa; Willamar exibia 
um leve sorriso e aprovava com um gesto de cabea; o sorriso de Folara no 
era em nada retrado. Ela estava to maravilhada, que ele tambm foi levado 
a sorrir.
        Ao terminar, Ayla voltou a se sentar  mesa, baixando-se para 
assumir uma posio com as pernas cruzadas, com to elegante desenvoltura, 
que foi ainda mais notvel aps o seu desempenho. Seguiu-se um silncio 
constrangido em volta da mesa. Ningum sabia direito o que dizer, e cada 
qual achava que precisava de tempo para pensar. 
        Finalmente, Folara sentiu-se compelida a preencher o vazio.
        - Foi maravilhoso, Ayla! Lindo, quase como uma dana - exclamou. 
        - Para mim,  difcil ver desse modo.  assim que eles falam. Se bem 
que eu me lembre que adorava ficar olhando os contadores de histrias - 
confessou a Ayla.
        - Foi muito impressionante - declarou Marthona, olhando em seguida 
Para o filho. - Voc tambm faz isso, Jondalar?
        - Fao mas no como Ayla  capaz de fazer. Ela ensinou s pessoas do 
Acampamento do Leo para que pudessem se comunicar com Rydag. Elas se 
divertiram muito na Reunio de Vero, pois podiam falar umas com as outras 
sem que mais percebesse - lembrou.
        -  Rydag no era a tal criana com o corao fraco? - perguntou a 
Zelandoni. - Por que ele no conseguia falar como todo mundo?
        Jondalar e Ayla se entreolharam.
        -  Rydag era metade Cl, e tinha a mesma dificuldade em produzir 
sons - explicou Ayla. - Por isso, ensinei a ele e ao Acampamento do Leo sua 
linguagem.
        -  Metade Cl? - surpreendeu-se Joharran. - Quer dizer metade 
cabea-chata? Uma abominao metade cabea-chata!
        -  Ele era uma criana! - exclamou Ayla, olhando-o irritada. - Como 
outra criana qualquer. Nenhuma criana  uma abominao!
        Joharran surpreendeu-se com a reao, e ento lembrou-se de que 
Ayla foi criada por eles e entendeu por que ela se ofendeu. Tentou gaguejar 
uma desculpa.
        -  Eu... Eu... lamento. Mas  o que todos pensam. A Zelandoni interveio 
para acalmar a situao:
        -  Ayla, deve levar em conta que no tivemos tempo para apreciar 
tudo o que voc disse. Sempre imaginamos o seu povo Cl como animais, e 
uma coisa semi-humana e semi-animal  uma abominao. Sei que voc deve 
estar certa, esse... Rydag era uma criana.
        Ela tem razo, disse Ayla a si mesma, no que voc no soubesse o que 
os Zelandonii sentiam. Jondalar deixou isso claro na primeira vez em que 
voc mencionou Durc. 
        Ela tentou se controlar.
        -  Mas eu gostaria de entender uma coisa - prosseguiu a Zelandoni, 
buscando um meio de fazer as perguntas sem ofender a estrangeira. - A 
pessoa chamada Nezzie era a companheira do chefe do Acampamento do 
Leo, est correto?
        -  Est. -Ayla podia perceber aonde estava sendo levada e olhou de 
relance para Jondalar. Teve certeza de que ele tentava reprimir um sorriso. 
Isso a fez sentir melhor; ele tambm sabia, e estava tendo um prazer 
perverso diante confuso em que se encontrava a poderosa donier.
        -  Essa criana, esse Rydag, era dela?
Jondalar quase desejou que Ayla dissesse sim, s para faz-los pensar. 
Custara-lhe muito superar as crenas de seu povo, incutidas nele desde a 
nfncia praticamente junto com o leite da me. Se eles achassem que uma 
mulher que dera  luz a uma "abominao", pudesse se tornar companheira 
de um chefe, isso talvez abalasse um pouco essa crena, e quanto mais ele 
pensava nisso, mais se convencia de que, para o seu prprio bem, para a sua 
prpria segurana, seu povo teria de mudar, teria de aceitar o fato de que o 
Cl tambm era gente.
        - Ela o amamentou - esclareceu Ayla -, junto com a prpria filha, era 
filho de uma mulher do Cl, que era sozinha e morreu logo aps o parto. 
Nezzie o adotou, do mesmo modo como Iza me adotou quando eu no tinha 
ningum para cuidar de mim.
        Isso tambm foi um choque, e de certa forma mais assustador ainda, 
pois a companheira do chefe, voluntariamente, optara por cuidar do recm-
nascido que teria sido deixado para morrer junto com a me. Um silncio 
baixou sobre o grupo, enquanto cada qual fazia uma pausa para refletir 
sobre o que acabara de ouvir.


        Lobo tinha ficado para trs, no vale onde os cavalos pastavam, a fim 
de explorar o novo territrio. Aps um tempo que julgou apropriado e o 
suficiente para os seus prprios motivos, ele decidiu voltar ao lugar que 
Ayla lhe fizera entender que era a casa, o lugar aonde deveria ir quando 
quisesse encontr-la. Como todos de sua espcie, o lobo avanava com 
eficiente velocidade e encantadora facilidade, e parecia flutuar ao se 
deslocar atravs da paisagem arborizada. Vrias pessoas estavam no Vale do 
Rio do Bosque colhendo bagas. Um homem vislumbrou Lobo avanando como 
espectro silencioso por entre as rvores.
        -  Aquele lobo vem vindo! E est sozinho! - gritou o homem. Ele saiu 
afobado do caminho o mais depressa que pde.
        -  Cad o meu beb? - gritou em pnico uma mulher. Ela olhou em volta, 
viu a sua filhinha e correu para apanh-la e carreg-la para longe.
        Quando Lobo chegou  trilha que levava  salincia, subiu-a correndo 
com o mesmo passo rpido e gil.
        -   aquele lobo! No gosto da ideia de um lobo subr aqu na nossa 
salincia - comentou outra mulher.
        -  Joharran disse que devemos permitir que ele v e venha quando 
quiser, mas vou pegar a minha lana - avisou um homem. - Talvez ele no 
machuque ningum, mas no confio nesse animal.
        As pessoas recuaram do caminho, para lhe dar mais espao, quando 
Lobo chegou  salincia, no alto da trilha, e seguiu direto para a habitao 
de Marthona. Um homem derrubou vrias hastes de lana ao se chocar com 
elas, na pressa de colocar bastante distncia entre si e o eficiente caador 
de quatro patas. O lobo percebeu o medo  sua volta e no gostou, mas 
continuou em direo ao local que Ayla lhe indicara para ir.
        O silncio no interior da habitao de Marthona foi quebrado quando 
Willamar, vendo a cortina da entrada se mover, subitamente deu um salto e 
gritou: 
        - Um lobo! Pela Grande Me, como esse lobo entrou aqui?
        -  Est tudo bem, Willamar - avisou Marthona, tentando acalm-lo. - 
ele tem permisso para entrar aqui. - Folara fez contato visual com o seu 
irmo mais velho e sorriu, e embora Joharran ainda se sentisse nervoso 
perto do animal, conseguiu retribuir com um sorriso de aceitao.
        -  Esse  o lobo de Ayla - informou Jondalar, levantando-se para 
evitar qualquer reao precipitada, ao mesmo tempo em que Ayla corria para 
a entrada para acalmar o animal, que ficara mais assustado do que Willamar 
por ser recebido com tanto barulho e nervosismo. A cauda de Lobo estava 
entre as pernas, o plo, eriado, e os dentes, trincados.
        Se a Zelandoni pudesse, tambm teria pulado to rpdo quanto 
Willamar. Um rosnado alto e ameaador parecia dirigir-se especificamente a 
ela, e estremeceu de medo. 
        Apesar de ter ouvido a respeito dos animais de Ayla e t-los visto  
distncia, ficou apavorada com o imenso predador que havia entrado na 
habitao. Ela nunca estivera to perto de um lobo; na natureza, os lobos 
costumam fugir de grupos de pessoas.
        Ela observou estupefata Ayla correr corajosamente em direo a 
Lobo, curvar-se, colocar os braos em volta dele, abra-lo e pronunciar 
palavras, das quais a Zelandoni entendeu apenas algumas, procurando 
acalmar o animal. O lobo, a princpio, ficou animado e lambeu o pescoo e o 
rosto da mulher, enquanto ela o afagava, e s depois se acalmou realmente. 
Foi a mais inacreditvel demonstrao de poderes sobrenaturais que ela 
jamais testemunhara. Exatamente que espcie de misterioso talento possua 
essa mulher para exercer esse tipo de controle sobre tal animal? Ela sentiu-
se arrepiar diante do pensamento.
        Willamar tambm havia se acalmado, por causa do incentivo de 
Marthona e Jondalar, e depois de ter visto Ayla com o lobo.
        -  Creio que Willamar deve ser apresentado a Lobo, no, Ayla? - 
sugeriu Marthona.
        -  Principalmente j que eles vo dividir a mesma habitao - 
completou Jondalar. Willamar fitou-o com um olhar surpreso de descrena.
        Ayla levantou-se e caminhou na direo deles, sinalizando para Lobo 
vir junto. 
        - O modo pelo qual Lobo se familiariza com uma pessoa  habituando-
se com o seu cheiro. Se voc estender a mo e deixar que ele a fareje... - 
comeou a dizer, alcanando a mo de Willamar.
        O homem recolheu-a.
        -  Voc tem certeza disso? - duvidou, olhando para Marthona.
        A companheira dele sorriu, e estendeu a prpria mo na direo do 
lobo. Ele farejou-a, lambendo-a em seguida.
        -  Voc nos deu um susto e tanto, Lobo, chegando de repente e antes 
de ser apresentado a todo mundo - reclamou Ayla.
        Willamar continuava um pouco hesitante, mas no poderia fazer 
menos do que Marthona fizera, e colocou a mo  frente. Ayla apresentou 
Lobo da maneira habitual, falando a favor do homem, ao mesmo tempo em 
que o lobo o farejava. - Lobo, este  Willamar. Ele mora aqui com Marthona. 
        - O lobo lambeu-o e depois deu um curto latido.
                -  Por que ele fez sso? - quis saber Willamar, recolhendo 
rapidamente a mo. No tenho certeza, mas talvez ele tenha farejado 
Marthona em voc, e ele se afeioou rapidamente a ela - sugeriu Ayla. - 
Experimente fazer uma festinha ou co-lo. - Como se o arremedo de coar 
feito por Willamar apenas produzisse ccegas, Lobo subitamente se 
enroscou e coou vigorosamente atrs da prpria orelha, provocando 
sorrisos e risinhos por causa de sua pose um tanto quanto indigna. Ao 
terminar, ele seguiu direto para a Zelandoni.
        Ela olhou-o com cautela, mas manteve a postura. Ela sentiu pavor 
quando o lobo surgiu na entrada da habitao. Jondalar ficou mais ciente de 
sua reao do que os demais. Ele a vira paralisar de medo. Todos ficaram 
preocupados com Willamar, que dera um pulo e gritara, e no notaram o puro 
terror da mulher. Ela ficou contente por no terem percebido. Quem Servia 
 Me era tido como uma pessoa destemida, e, de fato, isso geralmente era 
verdade. Ela no se lembrava da ltima vez em que sentira tamanho temor.
        -  Acho que ele sabe que no foi apresentado a voc, Zelandoni - 
observou Jondalar. - E j que ele vai morar aqui, acho que tambm precisam 
ser apresentados um ao outro. - Do modo como ele a olhou, a Zelandoni 
sups que Jondalar sabia o quanto ela ficara apavorada, e agradeceu com um 
gesto da cabea.
        -  Creio que tem razo. O que devo fazer, oferecer-lhe a minha mo? 
- admitiu, impelindo a mo em direo ao lobo. Ele a farejou, lambeu-a, e 
ento, de repente, colheu a mo com os dentes e a manteve no interior da 
boca, rosnando baixinho.
        -  O que ele est fazendo? - surpreendeu-se Folara. Ela tambm ainda 
no fora apresentada oficialmente a ele. - Ele antes s havia usado os 
dentes com Ayla.
        No tenho certeza - disse Jondalar com um tom de preocupao. A 
Zelandoni olhou duramente para Lobo, e ele largou sua mo. 
        - Ele a machucou? - quis saber Folara. - Por que ele fez isso? 
        - No, claro que no me machucou. Fez isso para deixar claro que no 
tenho nada a temer dele - sugeriu a Zelandoni, sem fazer qualquer tentativa 
para retira-lo. Ns nos entendemos. - Em seguida, contemplou Ayla, que 
retribuiu o olhar. - E ns temos muito o que aprender uma com a outra. Oh 
se temos. Estou ansiosa para isso - rebateu.
        - E Lobo ainda precisa conhecer Folara - lembrou Jondalar. - Venha c,  
venha conhecer a minha irmzinha.
        Reagindo ao tom brincalho de sua voz, Lobo saltou na direo dele.
        -  Lobo, esta  Folara - apresentou ele. A moa logo descobriu como 
era divertido fazer festinha, coar e alisar o lobo.
        -  Agora  a minha vez - anunciou Ayla. - Eu gostaria de ser 
apresentada a Willamar - pediu ela, dirigindo-se depois  donier - e  
Zelandoni, apesar de sentir que j conheo ambos.
        Marthona adiantou-se.
        -  Claro. Eu tinha esquecido que ainda no haviam sido apresentados 
formalmente. Ayla, este  Willamar, Renomado Viajante e Mestre 
Comerciante da Nona Caverna dos Zelandonii, Acasalado com Marthona, 
Homem da Lareira de Folara, Abenoada de Doni. - Em seguida, olhou para o 
homem. - Willamar, por favor, d as boas-vindas a Ayla do Acampamento do 
Leo dos Mamut, Filha do Lar do Mamute, Escolhida pelo Esprito do Leo 
das Cavernas, Protegida do Urso das Cavernas - sorriu para o animal - e 
Amiga de Lobo e de dois cavalos - acrescentou.
        Depois que foram relatados os incidentes e as histrias que Ayla 
acabara de contar, os parentes de Jondalar passaram a entender mais o 
significado dos nomes e dos laos e sentiram que a conheciam melhor. Isso a 
fez parecer menos estrangeira. Willamar e Ayla agarraram-se com ambas as 
mos e saudaram um ao outro em nome da Me com frases de uma 
apresentao formal, s que Willamar se referiu a ela como "me" em vez 
de "amiga" de Lobo. Ayla notara que as pessoas raramente repetiam 
exatamente as apresentaes, em geral acrescentando uma variao por 
conta prpria.
        -  Eu estou ansioso por conhecer os cavalos, e creio que vou 
acrescentar "Escolhido pela gua-Real" aos meus nomes. Afinal de contas,  
o meu totem - afirmou, com um sorriso afetuoso e apertando as mos dela 
antes de solt-las. Ela retribuiu com um enorme e deslumbrante sorriso. Eu 
estou contente em rever Jondalar, depois de todo esse tempo, pensou ele, e 
que maravilhoso para Marthona ele ter trazido uma mulher para se acasalar. 
        Isso significava que Jondalar planejava ficar. E que bela mulher. Se 
os dois forem do seu esprito, imaginem como parecero os filhos dela.
        Jondalar resolveu que seria ele quem faria a apresentao formal 
entre Ayla e a Zelandoni.
        -  Ayla, esta  a Zelandoni, Primeira Entre Aqueles Que Servem  
Grande Me Terra, a Voz de Doni, Substituta Daquela Que Abenoa, a 
Donier, Provedora de Ajuda e Cura, Instrumento do Ancestral Original, 
Lder Espiritual da Nona Caverna dos Zelandonii, e Amiga de Jondalar, 
outrora conhecida como Zolena. - Disse a ltima palavra com um sorriso. 
Esse no era um dos seus ttulos habituais.
        -  Zelandoni, esta  Ayla dos Mamuti - comeou, e, ao final, adicionou 
- e que em breve vai se acasalar com Jondalar, espero.
        Ainda bem que ele disse "espero", observou a Zelandoni para si 
mesma, ao avanar com ambas as mos estendidas. Esse acasalamento ainda 
no foi aprovado.
        - Como a Voz de Doni, a Grande Me Terra, eu lhe dou as boas-vindas,
Ayla dos Mamuti, Filha do Lar do Mamute - afirmou, tomando nas suas as 
mos de Ayla e relacionando o que para ela eram os ttulos mais importantes.
        - Em nome de Mut, Me de Todos, que tambm  Doni, sado voc, 
Zelandoni, Primeira Entre Aqueles Que Servem  Grande Me Terra - disse 
Ayla. Enquanto as duas mulheres se encaravam uma  outra, Jondalar 
desejou ardorosamente que elas se tornassem boas amigas. Jamais ia querer 
qualquer uma das duas como inimiga.
        -  Agora, preciso ir. No havia planejado ficar tanto tempo - 
justificou-se a Zelandoni.
        -  Eu tambm preciso ir - anunciou Joharran, inclinando-se para 
esfregar a bochecha na da me, e em seguida pondo-se de p. - H muito o 
que fazer antes do banquete desta noite. E, Willamar, amanh quero que me 
conte como foram as permutas.
        Depois que a Zelandoni e Joharran se foram, Marthona perguntou se 
Ayla queria descansar antes da festividade.
        -  Eu me sinto to suja e quente da viagem. No h nada que eu 
quisesse fazer agora melhor do que ir nadar, para refrescar e me lavar. H 
erva-saboeira crescendo aqui perto?
        -  H sim - confirmou Marthona. -Jondalar, atrs da grande pedra, 
acima do Rio, a pouca distncia do Vale do Rio do Bosque. Voc sabe onde 
fica, no?
        -  Sim, eu sei. O Vale do Rio do Bosque  onde esto os cavalos, Ayla. 
Eu vou lhe mostrar o lugar. Um mergulho me soa bem. - Jondalar colocou um 
brao em volta de Marthona. - E  bom estar em casa, mame. Acho mesmo 
que por um bom tempo no vou querer viajar novamente.
        - Vou querer o meu pente e acho que ainda sobraram algumas flores 
de ceanoto para lavar o meu cabelo - disse Ayla, abrindo os seus balaios de 
bagagem. - E a pele de camura de Roshario, para me secar - acrescentou, 
tirando-a para fora.
        Lobo saltava em direo  porta e voltava at eles, como se quisesse 
apress-los.
        -  Acho que Lobo sabe que vamos nadar - comentou Jondalar. - s 
vezes, penso que esse animal entende o que se fala.
        -  Vou levar a minha muda de roupas, para vestir algo limpo, e 
poderamos estender as nossas peles de dormir antes de sairmos - sugeriu 
Ayla, separando a sua toalha e outras coisas, e afrouxando os ns de outro 
balaio.
        Rapidamente, eles criaram um espao para dormir, passaram a cuidar 
das poucas posses que traziam, e Ayla desdobrou a tnica e a cala curta 
que havia deixado de lado. Examinou atentamente a roupa. Era feita de pele 
macia e malevel de gamo, talhada ao estilo simples dos Mamuti, mas sem 
enfeites, e, apesar de limpa, estava manchada. Mesmo com a lavagem, era 
difcil tirar manchas da felpuda textura aveludada da pele, mas era a nica 
coisa que ela tinha para vestir no banquete. Viajar limitava a quantidade de 
coisas que se podia levar, mesmo com cavalos para ajudar no transporte, e 
Ayla quis trazer outras coisas que eram mais importantes para ela do que 
mudas de roupa.
        Ayla percebeu que Marthona a observava, e comentou:
        -  Isto  tudo o que tenho para vestir esta noite. Espero que seja 
adequado. No podia trazer muita coisa. Roshario me presenteou com uma 
roupa linda, enfeitada, feita ao estilo dos Xaramud, naquele couro 
maravilhoso que eles preparam, mas eu a dei para Madena, a jovem 
Losadunai que foi brutalmente atacada.
        -  Foi muita bondade sua - declarou a mulher.
        -  De qualquer modo, eu tinha que aliviar a minha carga, e Madenia 
pareceu muito contente, mas agora gostaria de ter uma roupa parecida. 
Seria timo vestir algo um pouco menos gasto para o festim desta noite. Vou 
precisar fazer algumas roupas. - Sorriu para a mulher e olhou em volta. - 
Ainda acho difcil acreditar que estamos mesmo aqui.
        -  Tambm  difcil para mim - disse Marthona, e depois de uma 
pausa:
        - Eu gostaria de ajud-la a fazer algumas roupas, se no se opuser.
        -  No, no me oponho de modo algum. Gostaria muito. - Ayla sorriu. -
Tudo o que vocs tm aqui  to bonito, Marthona, e no sei o que  
apropriado para uma mulher Zelandonii vestir.
        -  Posso ajudar tambm? - pediu Folara. -As ideias de mame a 
respeito de roupas nem sempre so o que as mulheres jovens gostam.
        -  Eu adoraria contar com a ajuda de vocs duas, mas, por enquanto, 
isto ter que servir - comentou Ayla, mostrando a sua roupa surrada.
        -  Ela servir muito bem para esta noite - afirmou Marthona. Em 
seguida, fez para si mesma um gesto com a cabea, como se tivesse tomado 
uma deciso.
        - Tenho algo que gostaria de lhe dar, Ayla. Est no meu aposento de 
dormir.
        Ayla seguiu Marthona ao aposento dela.
        - Venho guardando isso h muito tempo para voc - disse a mulher, ao 
abrir uma caixa de madeira coberta.
        - Mas acabou de me conhecer! - exclamou Ayla.
        - Para a mulher que, um dia, Jondalar escolhesse como companheira. 
Pertenceu  me de Dalanar. - Estendeu um colar. Surpresa, Ayla perdeu a 
respirao, e com alguma hesitao apanhou o colar oferecido. Examinou-o 
cuidadosamente. Era feito de conchas iguais, dentes perfeitos de veado e 
delicadas cabeas de veadas esculpidas em marfim. Um lustroso pingente de 
cor laranja pendia docentro.
        -   lindo - ofegou Ayla. Sentiu-se particularmente atrada pelo 
pingente, e olhou-o cuidadosamente. Era brilhante, e lustroso pelo desgaste 
do uso e manuseio. 
        - Isto  mbar, no  mesmo?
        -  . Essa pedra est na famlia h muitas geraes. A me de Dalanar 
a colocou no colar. Ela me presenteou com ele, quando Jondalar nasceu, e 
disse para eu dar  mulher que ele escolhesse.
        -  O mbar no  frio, como as outras pedras - disse Ayla, segurando 
o pingente. -Transmite uma sensao quente, como se tivesse um esprito 
vivo.
        -  Que interessante voc ter falado isso. A me de Dalanar sempre 
dizia que essa pea tinha vida - observou Marthona. - Experimente. Veja 
como fica em voc.
        Marthona conduziu Ayla na direo da parede de calcrio do seu 
aposento de dormir. L, fora escavado um buraco, e enfiada nele se 
encontrava a ponta redonda que sobressaa do cerne do chifre de um 
megcero, e depois se estendia e se achatava  maneira caracterstica de 
chifre palmado. Os galhos estendidos do chifre haviam sido quebrados, 
restando uma prateleira ligeiramente irregular com uma borda cncava de 
vrias curvas salientes. Acomodada em cima e apoiada na parede um tanto 
inclinada para a frente, mas quase perpendicular ao cho, estava uma 
pequena prancha de madeira com a superfcie bem lisa.
        Ao se aproximar, Ayla notou que ela refletia com surpreendente 
claridade os utenslios de madeira e de vime espalhados pelo aposento, e a 
chama que ardia em uma lamparina de pedra perto deles. Ento, parou, 
assombrada.
        - Eu posso ver a mim mesma! - exclamou Ayla. Estendeu a mo para 
tocar na superfcie. A madeira fora esfregada com pedra de arenito, para 
alisar, tingida de preto retinto com xido de mangans, e polida com 
gordura, para ficar bem lustrosa.
        - Voc nunca tinha visto um refletidor? - admirou-se Folara. Ela 
estava parada um pouco para dentro do aposento, perto do contorno da 
entrada, morrendo de curiosidade para ver o presente que sua me deu a 
Ayla.
        -  No como este. J me olhei num lago de guas tranquilas, num dia 
de vero - disse Ayla -, mas este est bem aqui, no seu aposento de dormir!
        -  Os Mamuti no tm refletidores? Para se verem, quando se 
vestem para uma ocasio importante? - indagou Folara. - Como sabem que 
tudo est direito?
        Ayla enrugou a testa, ao pensar por um instante.
        -  Eles olham uns aos outros. Nezzie sempre cuidava para que tudo 
estivesse direito em Talut, antes das cerimonias, e quando Deggie... ela era 
minha amiga... arrumava o meu cabelo todos faziam comentrios elogiosos - 
explicou Ayla.
        -  Bem, vejamos como o colar fica em voc - props Marthona, 
colocando-o em volta do pescoo dela e segurando unidas as partes de trs.
Ayla admirou o colar, percebendo o quanto ficava bem sobre o seu peito, e 
depois descobriu-se estudando o reflexo do seu rosto. Raramente via a si 
mesma, e estava menos familiarizada com as suas prprias feies do que 
com as das pessoas  sua volta, a quem s conhecera recentemente. Apesar 
de a superfcie refletora ser razoavelmente boa, a luz no interior do 
cmodo era fraca, e a sua imagem, um tanto escura. Ela parecia a si mesma 
meio pardacenta, descorada e com o rosto achatado.
        Ayla tinha crescido no Cl, imaginando-se grande e feia, pois, embora 
fosse mais esguia do que as mulheres de l, era mais alta do que os homens, 
e tinha uma aparncia diferente, tanto aos olhos deles quanto aos seus. 
Estava mais acostumada a julgar a beleza em termos das feies mais 
marcantes das pessoas do Cl, com os seus rostos largos e frontes 
inclinadas para trs, arcada superciliar espessa e saliente, pronunciados 
narizes proeminentes e grandes olhos de um intenso castanho. Os olhos dela, 
azuis-acizentados, pareciam desbotados, em comparao.
        Depois de viver algum tempo entre os Outros, ela deixou de sentir 
que parecia to estranha, mas ainda no conseguia ver-se como bonita, 
embora Jondalar, com bastante frequncia, lhe dissesse que o era. Ela sabia 
o que era considerado atraente para o Cl; no sabia definir direito beleza 
nos termos dos Outros. Para Ayla, Jondalar, com as suas feies msculas e, 
portanto, mais marcantes, e seus olhos de um vivo azul, era muito mais 
bonito do que ela.
        - Acho que fica bem nela - comentou Willamar. Ele tinha aparecido 
para dar a sua opinio. Nem mesmo ele sabia que Marthona possua o colar. 
Fora para a habitao dela que ele havia se mudado; ela abrira espao para 
ele e suas posses, e o fizera sentir-se  vontade. Ele gostava da maneira 
como ela ordenava e arrumava as coisas, e no desejava de modo algum 
ruar cada canto ou fenda, nem bisbilhotar seus pertences.
        Jondalar estava parado atras de Willamar, olhando por cima do ombro
sorrindo.
        - Voc nunca me contou que vov lhe deu isso quando eu nasci, mame.
        -  Ela no me deu isso para voc. Era para a mulher com quem voc se 
acasalasse. Aquela com quem formaria um lar, para o qual ela pudesse trazer 
filhos... com as  bnos da Me - rebateu, tirando o colar do pescoo de 
Ayla e colocando-o nas mos dela.
        -  Bem, voc o deu  pessoa certa - concordou ele. - Vai us-lo esta 
noite.
        Ela olhou para o colar e enrugou levemente a testa.
        - No. Tudo o que tenho  uma roupa velha, e ele  lindo demais para 
usar com ela. Vou esperar para us-lo quando tiver algo apropriado para 
vestir.
        Marthona sorriu e consentiu com um ligeiro gesto de cabea.
        Ao deixarem o aposento, Ayla viu outro buraco escavado na parede de 
calcrio, acima da plataforma de dormir. Era um tanto maior e parecia 
seguir bem profundo na parede. Uma pequena lamparina de pedra queimava 
diante dele, e, com a luz que ela projetava para trs, Ayla pde perceber, de 
seu ponto de vista, parte de uma estatueta, com abundantes formas 
arrendondadas, de uma mulher grande e bem provida. Era uma donii, sabia 
Ayla, uma representao de Doni, a Grande Me Terra, e, quando Ela 
escolhia, um receptculo para o Seu Esprito.
        Na parte superior do ncho, ela notou, na parede de pedra acima do 
lugar de dormir, outra daquelas esteiras, semelhante  da mesa, feita de 
finas fibras tecidas para formar um complexo padro. Desejou que pudesse
examin-la mais de perto, para poder descobrir do que era feita. Ento deu-
se conta de que talvez pudesse. Eles no estavam mais viajando. Aquela ia
ser a sua casa.
        Folara disparou para fora da habitao, depois que Ayla e Jondalar
saram, e correu para uma outra nas proximidades. Ela quase pediu para ir
junto com eles, mas viu o olhar da me e o ndisfarvel sacudir de sua
cabea, e isso a fez perceber que talvez os dois quisessem ficar sozinhos.
Alm do mais, sabia que as amigas teriam uma poro de perguntas a fazer-
lhe. Arranhou o painel da edificao vizinha.
        - Ramila? Sou eu, Folara.
        Um instante depois, uma atraente moa rechonchuda de cabelos 
castanhos abriu a cortina.
        - Folara! Ns estvamos  sua espera, mas Galeya teve que ir embora. 
Disse a nos encontrarmos com ela no cepo. As duas caminharam para fora da 
salincia, conversando animadamente. Ao proximar do alto cepo de um p de 
zimbro atingido por um raio, viram uma ruiva magra e franzina correndo 
para l, vindo de outra direo, pelejando por carregar duas midas e 
protuberantes bolsas de gua razoavelmente grandes.
        -  Galeya, acabou de chegar aqui? - perguntou Ramila.
        -  Sim, e vocs esperaram muito? - quis saber Galeya.
        -  No, Folara s foi em casa agora h pouco. Estvamos vindo para c, 
quando avistamos voc - falou Ramila, pegando uma das bolsas, ao se 
dirigirem de volta.
        -  Deixe que eu carrego a sua o resto do caminho, Galeya - pediu 
Folara, aliviando-a da outra bolsa de gua. - Isto  para o banquete desta 
noite?
        -  O que mais? Parece que no fiz outra coisa o dia todo, a no ser 
carregar coisas, mas vai ser divertido termos uma reunio no-programada. 
Apesar disso, acho que ser maior do que esto pensando. Poderemos acabar 
no Campo de Reunio. Soube que vrias Cavernas das proximidades enviaram 
mensageiros oferecendo comida para o banquete. Sabe que isso quer dizer 
que vir a maioria do pessoal das Cavernas deles - deduziu Galeya. Em 
seguida, parando e vrando-se para olhar para Folara, perguntou: - Como , 
no vai falar dela?
        -  Ainda no sei muita coisa. S estamos comeando a nos conhecer. 
Ela vai morar com a gente. Ayla e Jondalar esto prometidos e vo amarrar 
o n no Matrimonial de Vero. Ela  uma espcie de Zelandoni. No 
exatamente, pois no tem uma marca ou coisa parecida, mas conhece os 
espritos, e  uma curadora. Salvou a vida de Jondalar. Thonolan j estava 
viajando no outro mundo, quando ela encontrou os dois. Eles tinham sido 
atacados por um leo das cavernas! Vocs no vo acreditar nas histrias 
que eles tm para contar - tagarelou Folara ativamente enquanto 
caminhavam de volta ao longo da varanda de pedra da comunidade.
        Muitas pessoas estavam ocupadas executando as muitas atividades 
relacionadas com o festim, mas vrias pararam para olhar as moas, 
principalmente Folara, pois sabiam que ela passara algum tempo com a 
estrangeira e o homem Zelandonii que havia retornado. E algumas a 
escutavam, em particular uma atraente mulher de cabelos louros muito 
claros e olhos cinza-escuro. Carregava uma bandeja de osso com carne 
fresca, e fingia no ouvir as jovens, mas caminhava na mesma direo e se 
encontrava perto o bastante para escutar. Inicialmente, ela pretendia ir na 
direo oposta, mas isso fora antes de ouvir o falatrio de Folara.
        -  Como ela ? - indagou Ramila.
        -  Acho que  amvel. Fala meio engraado, mas veio de muito longe. 
At mesmo as roupas dela so diferentes... as poucas que possui. Ela s tem 
uma roupa para mudar. 
         muito simples, mas no tem mais nada para vestir, e vai us-la esta 
noite. Disse que quer umas roupas Zelandonii, mas no sabe o que  
apropriado, e quer se vestir de acordo. Mame e eu vamos ajud-la a fazer 
algumas. Amanh, vai me levar para conhecer os cavalos. Talvez eu at 
monte num deles. Ela e Jondalar acabaram de descer. 
Foram nadar e se banhar no Rio.
        - Voc va mesmo subir num cavalo, Folara? - espantou-se Ramila.
        A mulher que estava escutando no esperou para ouvir a resposta. Ela 
se deteve um instante, depois sorriu maliciosamente, e retornou apressada.
        Lobo corria na frente, parando de vez em quando para se certificar 
de que a mulher e o homem ainda o seguiam. O caminho em declive, que 
descia da extremidade nordeste do terrao frontal, conduzia a um prado  
margem direita de um pequeno rio que se aproximava de sua confluncia com 
o curso de gua principal. A plana campina gramada era cercada por um 
sortido bosque acessvel que se tornava mais denso ao longe, rio acima.
        Quando chegaram ao prado, Huin rinchou uma saudao, e algumas 
pessoas que observavam  distncia sacudiram a cabea espantadas, quando 
o lobo correu dreto para a gua e os dois tocaram os focinhos. A seguir, o 
canino assumiu uma postura de gracejo, com a cauda e o traseiro levantados 
e a parte da frente baixada, e deu um latido de filhote na direo do jovem 
garanho. Racer levantou a cabea, relinchou e pateou o cho, retribuindo o 
gesto brincalho.
        Os cavalos pareciam particularmente felizes em v-lo. A gua 
aproximou-se e colocou a cabea sobre o ombro de Ayla, que lhe abraou o 
robusto pescoo. Ficaram encostadas uma  outra, numa ntima posio 
aconchegante e tranquilizadora. Jondalar afagou e deu palmadinhas no 
jovem garanho, e esfregou e coou os lugares sarnentos que Racer oferecia. 
        O cavalo castanho-escuro deu alguns passos  frente e afocinhou Ayla, 
tambm querendo o contato com ela. Todos ento se congregaram, inclusive 
o lobo, desfrutando entre si a agradvel presena familiar naquele lugar com 
tantos estranhos.
        -  Estou com vontade de cavalgar - anunciou Ayla. Olhou acima, para 
ver a posio em que o sol se encontrava no cu da tarde. - Temos tempo 
para um passeio rpido, que tal?
        -  Devemos ir, sim. As pessoas s se reuniro para o festim quando 
escurecer - Jondalar sorriu. - Vamos! Depois, poderemos nadar - sugeriu. - 
Eu me sinto como se algum estivesse me observando o tempo todo.
        -  E algum est - confirmou Ayla. - Sei que  apenas a curiosidade 
natural, mas ser bom nos afastarmos um pouco disso.
        Muito mais pessoas haviam se juntado para observar  distncia. Elas 
viram a mulher saltar com facilidade para o dorso da gua amarelo-pardo, e 
o homem alto pareceu fazer um pouco mais do que dar um passo para montar 
no garanho Castanho. Partiram num galope, seguidos, sem dificuldade, pelo 
lobo.
        Jondalar foi  frente, primeiro por uma curta distncia rio acima at 
um local de travessia do afluente, e continuaram subindo um pouco mais pela 
margem oposta do pequeno rio, at avistarem um estreito vale em uma 
espcie de desfiladeiro  direita deles. Cavalgaram em direo ao norte, 
afastando-se do curso de gua e seguindo por toda a extenso do vale 
confinado ao longo de um leito rochoso de rio seco, que se tornava um 
regato com o escoamento das guas, na poca das chuvas. Ao final da 
garganta havia uma trilha ngreme mas escalvel, que depois se abria para 
um altiplano ventoso dando vista para os cursos de gua e a zona rural 
abaixo. Eles pararam para usufruir a vista magnfica.
        Uma elevao com cerca de duzentos metros, o altiplano era um dos 
mais altos da rea em volta c proporcionava um panorama extasiante, no 
apenas pelos rios e plancies aluviais do vale, mas pela paisagem de colinas 
ondulantes, mais alm, do outro lado. Os Causses, acima dos vales com rios, 
no eram nivelados.
        O calcrio  solvel na gua, de acordo com o tempo e o contedo 
cido adequado. Durante as longas eras, os rios e a gua subterrnea 
acumulada cortaram atravs da base de calcrio da regio, esculpindo o 
outrora leito achatado do antigo mar em colinas e vales. Os rios existentes 
criaram os vales mais profundos e os penhascos mais ngremes, mas, embora 
as paredes de pedra erigidas e os vales apertados tivessem em geral altura 
uniforme em uma determinada rea, eles variavam em termos de elevao 
de um lugar para outro, seguindo o padro das colinas acima.
        Olhando-se apressadamente, a vegetao dos secos, altos e ventosos 
Causses, em ambos os lados do rio principal, parecia a mesma, semelhante  
das plancies a cu aberto das estepes continentais do leste. Relva era o 
predominante, com zimbros, pinheiros e espruces mirrados agarrando-se a 
reas expostas prximas a regatos e pequenos lagos, e moitas de arbustos e 
pequenas rvores cresciam nas depresses e pequenos vales.
        Contudo, dependendo de onde medrava, a vida vegetal podia ser 
surpreendentemente diferente. Os ralos cumes e encostas voltados para o 
norte das colinas favoreciam uma vegetao rtica, que florescia quando o 
clima era frio e seco, ao passo que as encostas voltadas para o sul eram mais 
verdes e plenas de plantas de baixa latitude boreal e clima temperado.
        O amplo vale do rio principal abaixo era mais exuberante, com rvores 
decduas e sempre-verdes revestindo as ribanceiras. Exibindo um tom mais 
claro de verde do que o fariam mais tarde, durante a estao, as rvores 
recm-desfolhadas eram, em sua maioria, de variedades de pequenas 
folhagens, como o vidoeiro-branco e o salgueiro, mas mesmo conferas, como 
a espruce e o pinheiro, exibiam cones levemente coloridos de nova 
vegetao nas pontas de galhos e gravetos.
        s vezes, ao longo de seu trajeto, o curso de gua serpenteava pelo 
meio dos prados verdejantes no nvel das plancies aluviais, fazendo com que 
o capim alto do incio de vero parecesse ouro. Em outros lugares, as curvas 
e as voltas do Rio estreitavam o caudal e o foravam a ir de encontro s 
paredes de pedra mais prximas dos rochedos, primeiro de um lado e depois 
do outro.
        Em lugares onde as condies eram simplesmente adequadas, as 
plancies aluviais de alguns rios, principalmente de afluentes, nutriam 
pequenas florestas heterogneas. 
Em reas protegidas, especialmente nas encostas voltadas para o sul, 
distantes do vento, cresciam ps de castanha, noz, avel e ma, muitos 
deles mirrados e sem produzir em alguns anos, mas oferecendo bons 
resultados em outros. Juntamente com as rvores, havia uma variedade de 
trepadeiras, arbustos c plantas frutferas, incluindo morango, framboesa e 
groselha, um pouco de uva, cassis e amora-preta, outro tanto de amora-
amarela semelhante  framboesa e uma grande variedade de mirtilo.
        Em elevaes ainda maiores, preponderava a frgil vegetao de 
tundra, principalmente no alto macio ao norte, encapado com gelo glacial, 
embora se agitassem vrios vulces ativos - Ayla e Jondalar haviam 
encontrado nascentes de gua quente na regio, quando a atravessaram, 
vrios dias antes de sua chegada. Liquens agarravam-se s pedras, ervas 
pairavam apenas a centmetros do solo, e acanhados arbustos jaziam 
prostrados atravs da terra frgida sobre a base de um subsolo 
permanentemente congelado. Musgos de variados matizes de verde e cinza 
suavizavam a paisagem em regies mais midas, juntamente com juncos, 
canios e alguns tipos de capins. A diversidade de vegetao por toda a 
regio contribua para a riqueza de variedade e escolha e incrementava uma 
igual riqueza de vida animal.
        Eles prosseguiram por uma trilha, que virava para nordeste atravs do 
campo elevado, at o ressalto de um ngreme rochedo que dava vista para O 
Rio, que agora corria numa direo quase exata de norte a sul ao se chocar 
com a parede de calcrio abaixo. Praticamente no nvel do solo, a trilha 
atravessava um riacho e razia uma curva para noroeste. O riacho continuava 
seguindo em direo  salincia e caa pela face da escarpa. Eles se 
detiveram, quando a trilha comeou uma descida gradual para o outro lado, e 
retornaram. No caminho de volta, incitaram os cavalos ao galope e correram 
pelo alto campo a cu aberto, at os animais diminurem a marcha por 
vontade prpria. Ao chegarem novamente ao racho, pararam para os animais 
beberem, juntamente com Lobo, e depois apearam para tambm tomar gua.
Ayla no se sentia to maravilhosamente livre para cavalgar desde que 
montara pela primeira vez na gua. No havia empecilhos, nenhum reboque 
ou balaios bagagem, nem manta de montar ou mesmo cabresto. Apenas suas 
pernas nuas contra o dorso do animal, do jeito que ela havia aprendido a 
cavalgar, transmitindo sinais  sensvel pele de Huiin, a princpio 
inconscientemente, para gui-la na direo em que queria ir.
        Racer tinha um cabresto; foi desse modo que Jondalar treinou o 
garanho embora tivesse tido que inventar um dispositivo para segurar a 
cabea do cavalo e transmitir os sinais para lhe dizer aonde queria ir. 
Tambm ele experimentou uma liberdade de um modo como no sentia h 
muito tempo. Tinha sido uma longa Jornada, e a responsabilidade de 
conduzir todos a salvo para casa havia pesado demais sobre ele. Esse peso 
fora aliviado, juntamente com os balaios de bagagem, e montar a cavalo era 
s diverso. 
        Ambos se sentiam alegres, estimulados, infinitamente contentes 
consigo mesmos, e o revelavam com os seus encantadores sorrisos ao darem 
alguns passos ao longo do riacho.
        -  Foi uma boa dia, Ayla, sair para cavalgar - disse-lhe Jondalar 
sorrindo.
        -  Tambm acho - concordou ela, sorrindo de volta do jeito que ele 
sempre adorou.
        -  Oh, mulher, voc  to bonita - afirmou, colocando os braos em 
volta da cintura dela e olhando-a de cima para baixo com os seus olhos de 
um azul intenso e vibrante, revelando todo o seu amor e felicidade. O nico 
lugar em que ela vira uma cor que rivalizava com a dos seus olhos foi no 
cume de uma geleira, nas profundezas de um manancial de gelo derretido.
        -  Voc  lindo, Jondalar, Embora diga que homens no so chamados 
de bonitos, voc sabe que para mim voc . - Envolveu o pescoo dele com os 
seus braos, sentindo toda a fora da atrao a que poucos podiam resistir.
        -  Voc pode me chamar do que quiser - rebateu, ao se curvar para 
beij-la, e subitamente desejou que aquilo no parasse por ali. Eles haviam 
se acostumado  privacidade, a estar sozinhos no meio da imensido, longe 
dos olhares curiosos. Ele teria que voltar a se acostumar a ter muita gente 
em volta... mas no naquele momento.
        Sua lngua cutucou delicadamente a boca aberta de Ayla, depois 
buscou a maciez e o calor internos. Por sua vez, ela explorou a dele, 
fechando os olhos para se deixar sentir as sensaes que j comeavam a 
surgir. Jondalar a manteve abraada, desfrutando a sensao do corpo dela 
colado ao seu. Em breve, imaginou ele, os dois participariam de uma 
cerimonia, para se unir e formar um lar, para o qual Ayla levaria os filhos 
dela, filhos da lareira dele, talvez os filhos do seu esprito, e, se ela 
estivesse certa, mais do que isso. Talvez at fossem seus filhos, filhos de 
seu corpo, formados pela sua essncia. A mesma essncia que ele agora 
sentia nascer dentro de si.
        Recuou e olhou para ela. Em seguida, com mais premncia, beijou-lhe o 
pescoo, provou o sal de sua pele e alcanou o seio. Este estava mais cheio, 
ele podia sentir a diferena; logo, estaria repleto de leite. Desatou o cinto 
em volta da cintura dela, enfiou a mo para segurar o firme peso redondo e 
sentir na palma da mo o duro mamilo ereto.
        Levantou a parte de cima da roupa de Ayla, que o ajudou a tir-la, e 
depois livrou-se de suas calas curtas. Por um instante, ele apenas olhou-a 
de p sob o sol, e encheu os olhos com a sua feminilidade: a beleza do rosto 
sorridente dela, a firme musculatura de seu corpo, os grandes e empinados 
seios e os mamilos altivos, a ligeira curvatura da barriga e os escuros 
cabelos louros de seu monte. Ele a amava tanto, ele a queria tanto, que 
lgrimas afloraram em seus olhos.
        Rapidamente, desatou a prpria roupa e a pousou na grama. Ela deu 
alguns passos em sua direo, e quando Jondalar ficou de p, Ayla o 
alcanou e ele a envolveu em seus braos. Ela fechou os olhos, Jondalar 
beijou-a na boca, no pescoo e na garganta, e ao encher as mos com os seus 
seios, Ayla encheu as dela com a sua ereta masculinidade. Jondalar caiu de 
joelhos, saboreou o sal da pele e do pescoo dela, e correndo a lngua da 
garganta  fenda entre os seios, segurou ambos; depois, curvando-se 
ligeiramente, apoderou-se de um mamilo com a boca.
        Ela prendeu a respirao, sentindo um fremir de excitao percorrer 
todo o caminho at o lugar interno dos Prazeres, e mais outro, quando 
Jondalar mudou para o mamilo seguinte e o sugou com fora, ao mesmo 
tempo em que massageava o anterior com os dedos hbeis. Ento, pressionou 
os seios para colocar ambos ao mesmo tempo na boca. 
        Ela gemeu e se entregou s sensaes.
        Ele explorou novamente cada mamilo rijo e ansioso, baixou at o 
umbigo, depois at o monte, tremulou a lngua morna no interior de sua 
fenda e acariciou o pequeno boto l dentro. Ardentes sensaes 
percorreram o seu corpo ao mesmo tempo em que ela arqueou  frente e um 
grito escapou de seus lbios. Com os braos em volta do traseiro redondo 
dela, ele a puxou em sua direo, esfregando a lngua para dentro e para 
fora da fenda e sobre a protuberncia endurecida.
        Ali de p, as mos sobre os braos dele, a respirao vindo em curtas 
arfadas acompanhadas de gemidos, percebendo cada clida investida, Ayla 
sentiu a onda se erguer dentro dela, pressionando-a, at se abater com um 
espasmo, outro, e mais outro, de prazer. Ele sentiu a calidez e a umidade, e 
saboreou o gosto inconfundvel de Ayla.
        Ela abriu os olhos e baixou a vista para o sorriso malicioso dele.
        -  Voc me pegou de surpresa - disse ela.
        -  Eu sei - retrucou sorrindo.
        -  Agora,  a minha vez - anunciou Ayla com um sorriso, dando-lhe um 
pequeno empurro, que o derrubou. Cobriu-o com o seu corpo e o beijou, 
percebendo o ligeiro gosto de si mesma. A seguir, mordiscou a orelha dele, 
beijou o pescoo e a garganta, enquanto Jondalar sorria encantado. Adorava 
os momentos em que ela brincava com ele e o acompanhava nas brincadeiras 
quando os dois se sentiam no clima.
        Ela beijou o peito e os mamilos dele, correu a lngua pelos plos at o 
umbigo, e depois mais baixo ainda, at encontrar o membro repleto e 
preparado. Jondalar fechou os olhos, ao sentir a morna boca de Ayla cobri-
lo, deixando que a sensao o preenchesse enquanto ela se movia para cima e 
para baixo, criando suco por todo o caminho. Ele a ensinara, como lhe fora 
ensinado, as maneiras de um agradar o outro. Por um momento, Jondalar 
pensou na Zelandoni, quando ela era moa e conhecida por Zolena, e lembrou 
da poca em que achava que jamais encontraria outra mulher como ela. Mas 
encontrou, e subitamente ficou to comovido, que dedicou um pensamento 
de agradecimento  Grande Mae Terra. Que faria ele, se algum dia perdesse 
Ayla?
        Seu nimo mudou repentinamente. Ele havia gostado da brincadeira, 
mas agora queria a mulher. Sentou-se, levantou-a sobre os joelhos, para 
ficar de frente para ele, e montou-a em seu colo, uma perna de cada lado. 
Segurou-a e beijou-a com tal intensidade, que a surpreendeu, e depois a 
abraou. Ayla no sabia o que fizera mudar o estado de nimo dele, mas seu 
amor por Jondalar era igualmente forte, e ela reagiu  altura.
        Logo ele estava beijando os ombros e o pescoo dela e acariciando os 
seus seios. Ela sentia com tanta fora a necessidade emanando dele, que 
isso quase a erguia. 
        Jondalar fuava os seios, tentando encontrar os mamilos. Ela elevou-
se um pouco, arqueou as costas e percebeu as sensaes percorrerem o seu 
corpo enquanto ele sugava e mordiscava. Sentiu a haste dura e abrasadora 
sob ela e levantou-se um pouquinho mais e, sem hesitar, descobriu-se 
guiando-o para dentro de si.
        Foi praticamente mais do que ele conseguia suportar quando ela 
baixou, envolvendo-o em seu abrao clido, mido e vido. Ayla ergueu-se 
novamente, inclinou-se para trs, ao mesmo tempo em que Jondalar a 
mantinha prximo, com um brao, para manter um mamilo na boca enquanto 
massageava o outro, como se ele no conseguisse se fartar de sua 
feminilidade.
        Ela guiava o corpo acima dele, sentindo o Prazer preench-la em cada 
arremetida, respirando com dificuldade e gritando. De repente, a 
necessidade dele tornou-se mais forte, crescendo com cada elevao e 
mergulho. Largou os seios dela, curvou-se para trs, apoiado nas mos, 
ergueu o corpo, baixou e voltou a ergu-lo. Ambos gritavam,  medida que 
ondas de intenso Prazer cresciam a cada estocada, at que, com um 
esplendoroso fluxo de estremecer libertador, eles atingiram o auge do 
prazer.
        Mais algumas arremetidas, e ele caiu de costas na grama, sentiu uma 
pedrinha sob o ombro, mas a ignorou. Ayla desabou em cima dele, a cabea 
descansando em seu peito, e permaneceu assim por um tempo. Finalmente, 
voltou a se sentar. Ele sorriu-lhe, quando ela se levantou, desprendendo-se. 
Jondalar gostaria que ficassem mais tempo juntinhos, mas precisavam voltar. 
        Ela caminhou os poucos metros at o regato e agachou-se para se 
lavar. Jondalar tambm foi se lavar.
        -  Ns vamos nadar e nos purificar assim que chegarmos l - lembrou 
ele.
        -  Eu sei.  por isso que no estou sendo cuidadosa demais.
        Para Ayla, purificar-se, sempre que possvel, era um ritual que lhe 
fora ensinado por Iza, sua me do Cl, apesar de a mulher duvidar de que a 
sua estranha filha, to alta e desgraciosa, jamais fosse ter um motivo para 
tal. Por Ayla sempre ser meticulosa com essa coisa, usando at mesmo 
riachos com gua congelante, isso tambm se tornara um hbito para 
Jondalar, embora ele nem sempre fosse to cuidadoso.
        Quando ela foi apanhar as roupas, Lobo se aproximou, cabea baixa e 
cauda abanando. Quando ele era jovem, Ayla o treinara para ficar afastado 
quando os dois partilhavam Prazeres durante a Jornada. Jondalar se irritava 
se o lobo os perturbasse, e ela tambm no gostava de ser interrompida. Na 
poca em que no era o suficiente dizer a Lobo, de modo convincente, que 
fosse embora, ao se aproximar farejando para ver o que os dois estavam 
fazendo, Ayla era obrigada a amarrar uma corda em volta de seu pescoo, e 
o mantinha afastado, s vezes deixando-o a uma grande distncia. Lobo 
acabou aprendendo, mas, depois que acabavam, ele sempre se aproximava de 
Ayla cautelosamente, at ela lhe fazer um sinal de que estava tudo bem.
        Os cavalos, pastando pacientemente ali perto, voltaram ao ouvir os 
assobios deles. Os dois cavalgaram at a beira do planalto e pararam 
novamente para olhar abaixo os vales do rio principal e seu afluente, e os 
adicionais penhascos de calcrio que seguiam paralelos aos seus cursos. Do 
campo elevado, podiam ver a confluncia do pequeno rio desaguando do 
noroeste e o caudal principal aproximando-se do leste. O rio menor 
desaguava no principal pouco antes de o maior virar em direo ao sul, 
enquanto ainda seguia a parte de seu curso que corria para oeste, ao final 
de uma srie de penhascos, viram o bloco geolgico de calcrio onde se 
projetava a extraordinria salincia da Nona Caverna, com o seu comprido 
terrao frontal. Quando, porm, Ayla olhou para baixo, em direo  mofada 
da Nona Caverna, no foi o espantoso tamanho de seu abrigo suspenso que 
lhe chamou a ateno, mas outra formao incomum. Muito antes, durante o 
processo orognico, o perodo de formao das montanhas, quando 
impressionantes cumes foram dobrados e levantados durante o demorado 
ritmo do tempo geolgico, uma pilastra de rocha gnea libertou-se do local 
de seu bero vulcnico e caiu na gua. A parede de pedra de onde veio a 
pilastra tomou a forma de sua estrutura cristalina, aps o magma 
incandescente ter esfriado e se tornado basalto, transformando-se em 
grandes colunas com lados achatados juntando-se em ngulos.
        Depois que a pedra que se soltou foi levada adiante, empurrada por 
inundaes torrenciais e arrastada pelo gelo glacial, a parte colunar de 
basalto, embora castigada e agredida, manteve a sua forma bsica. A 
pilastra de pedra foi finalmente depositada no leito de um mar interior, 
juntamente com profundas camadas de sedimentos de vida marinha 
acumulados que estavam formando calcrio. Posteriormente, movimentos da 
terra elevaram o leito do mar, que acabou se tornando uma terra de colinas 
e rochedos arredondados ao longo dos vales do rio. Depois de a gua, o 
tempo e o vento causarem a eroso das grandes faces verticais de calcrio, 
criando abrigos e cavernas usados pelos Zelandonii, tambm expuseram, em 
local mais distante, o excntrico pedao danificado de basalto que tomara a 
forma de uma coluna.
        Como se o seu prprio tamanho no fosse o bastante para tornar 
incomparvel aquele stio, o enorme abrigo tornou-se ainda mais incomum 
por causa da estranha pedra comprida engastada prximo ao topo e 
lanando-se  frente da imensa projeo de calcrio. Embora enterrada 
profundamente em uma ponta no penhasco, ela se inclinava num tal ngulo 
que parecia prestes a cair, criando um marco caracterstico que 
acrescentava um elemento surpreendente ao extraordinrio abrigo da Nona 
Caverna. Ayla o viu assim que chegara e, com um arrepio de admisso, sentiu 
que j o havia visto antes.
        -  Aquela pedra tem um nome? - perguntou ela, apontando.
        -   chamada de Pedra Cadente - respondeu Jondalar.
        -  Que timo nome para ela - observou. - E a sua me no mencionou 
os nomes desses rios?
        -  O principal no tem propriamente um nome - frisou Jondalar. -Todo 
mundo simplesmente o chama de O Rio. A maioria das pessoas acha que  o 
mais importante da regio, apesar de no ser o maior. Ele desagua em outro 
muito mais largo, ao sul daqui... por sinal, ns o chamamos de Grande Rio... 
mas muitos das Cavernas dos Zelandonii vivem perto deste aqui, e todos 
sabem que  a ele que se refere quando algum diz O Rio.
        -  O pequeno afluente  chamado de Rio do Bosque - continuou 
Jondalar. - Muitas rvores crescem perto dele, e h mais rvores naquele 
vale do que na maioria. A rea no  muito usada por caadores. - Ayla 
gesticulou com a cabea, num tcito entendimento.
        O vale do rio tributrio, ladeado  direita pelos penhascos de calcrio 
e  esquerda por colinas ngremes, no era como a maioria dos vales relvados 
a cu aberto do rio principal e de seus outros afluentes prximos. Era denso 
com rvores e veeetao, principalmente rio acima. Diferentemente da 
maioria das reas a cu aberto, matas no eram apreciadas por caadores, 
pois a caa era mais trabalhosa. Os animais se tornavam mais difceis de ver, 
com rvores e arbustos para eles se esconderem e usarem como camuflagem, 
e os que migravam em grandes manadas eram mais propensos a preferir 
vales com grandes extenses de grama. Por outro lado, o vale fornecia 
madeira para construes e utenslios, e para o fogo. Frutas e amndoas 
tambm eram recolhidas, e vrias outras plantas apanhadas para 
alimentao e outros usos, juntamente com animais menores que caam em 
laos e armadilhas. Em uma terra com relativamente poucas rvores, 
ningum desprezava o valor das contribuies do Vale do Rio do Bosque.
        Na borda nordeste do terrao da Nona Caverna abaixo, que tambm 
dava vista para os vales dos dois rios, Ayla avistou os restos bvios de uma 
fogueira de bom tamanho. 
        Ela no a havia notado quando estivera ali, pois estava mais 
preocupada em descer a trilha em direo ao prado dos cavalos, no Vale do 
Rio do Bosque.
        -  Por que uma fogueira to grande na beira do terrao, Jondalar? 
No pode ser para aquecimento;  usada para cozinhar?
        -   um sinal de fogo - esclareceu, e continuou em frente, quando 
notou a expresso confusa dela. - Um grande fardo queimando pode ser 
visto de uma grande distncia daquele ponto. Enviamos mensagens com fogo 
para outras Cavernas, e elas as transmitem com as suas fogueiras.
        -  Que tipo de mensagens?
        -  Ah, de muitos tipos. So usadas bastante quando as manadas esto 
se movimentando, para informar aos caadores o que foi visto. s vezes, so 
usadas para anunciar acontecimentos ou reunies, ou outros tipos de 
encontros.
        - Mas como algum sabe o que o fogo quer dizer?
        -  Geralmente,  combinado antes, principalmente quando  poca de 
certas manadas se movimentarem e uma caada  planejada. E h 
determinados sinais de fogo significando que algum precisa de ajuda. Em 
qualquer momento que as pesoas vem um fogo queimando ali, elas sabem 
que precisam ficar atentas. Se no sabem o que significa, enviam um 
mensageiro para descobrir.
        -  E uma ida muito engenhosa - observou ela, e depois acrescentou 
uma opinio: - So como os signos e os sinais do Cl, no  mesmo? 
Comunicao sem palavras.
        -  Eu nunca tinha visto desse modo, mas creio que tem razo - 
concedeu.
        Jondalar voltava por um caminho diferente daquele por onde vieram. 
Seguia em dreo ao Vale do Rio, ao longo de uma trilha sinuosa que descia 
em ziguezague a ladeira escarpada perto do cume e depois virava  direita 
atravs do capm e das moitas cerradas, num declive mais gradual. Ela saa 
ao longo da beira da plana baixada  margem direita do Rio e atravessava 
direto o Vale do Rio do Bosque at o prado dos cavalos.
        No caminho de volta, Ayla sentia-se relaxada, mas no tinha a 
exultante sensao de liberdade que experimentara durante o passeio a 
cavalo. A despeito de ter gostado de todas as pessoas que conhecera at 
ento, ainda haveria o grande banquete, e ela no se encontrava muito 
disposta a conhecer o resto da Nona Caverna dos Zelandonii, naquela note. 
No estava acostumada a tanta gente ao mesmo tempo.
        Deixaram Huiin e Racer no prado abundante e encontraram um lugar 
onde crescia uma planta saponria, mas Jondalar teve que apont-la. No se 
tratava da mesma com a qual Ayla estava familiarizada. Ela a examinou 
cuidadosamente, notou semelhanas e diferenas, cuidando para que as 
reconhecesse no futuro, e depois foi apanhar a bolsa de flores secas de 
ceanoto.
        Lobo pulou no Rio com eles, mas no ficou muito tempo quando 
pararam de lhe dar ateno. Depois de nadarem demoradamente, para 
encharcar a poeira e a sujeira agarradas  pele devido  viagem, esmagaram 
com uma pedra redonda a raiz da planta com um pouco de gua em uma 
depresso de uma rocha plana, para liberar a espuma rica em saponina. 
Esfregaram-se com ela e, rindo um do outro, mergulharam para enxagu-la. 
Ayla deu a Jondalar umas flores de ceanoto, em seguida aplicou outras no 
prprio cabelo. A planta no era to saponcea e espumava apenas um pouco, 
mas era cheirosa e refrescante. Aps uma nova enxaguada, a jovem estava 
pronta para deixar a gua.
        Secaram-se com peles macias, estenderam-nas e sentaram-se sobre 
elas, expondo-se aos raios do sol. Ayla apanhou o pente com quatro dentes 
compridos entalhados em marfim de mamute, um presente de Deegie, sua 
amiga Mamuti, mas, quando ia comear a pentear o cabelo, Jondalar a 
deteve.
        -  Deixe que eu fao isso - falou, pegando o pente. Ele havia tomado 
gosto por pentear os seus cabelos, depois que ela os lavava, e experimentava 
um maravilhoso prazer em acariciar a grossa massa de cabelos molhados que 
secava e se tornava fios soltos e maleveis. E isso fazia com que ela se 
sentisse excepcionalmente mimada.
        -  Gostei de sua me e de sua irm - disse Ayla, sentada de costas 
para ele, enquanto a penteava -, e tambm de Willamar.
        -  Eles tambm gostaram de voc.
        - E Joharran parece ser um bom lder. Sabia que voc e o seu irmo 
tm os mesmos vincos na testa? - perguntou. - S podia gostar dele, me 
pareceu to familiar.
        - Ele foi conquistado por esse seu lindo sorriso - afirmou Jondalar. -
Do mesmo modo que eu.
        Ayla ficou calada por algum tempo. Depois, com o comentrio seguinte, 
revelou a direo que os seus pensamentos haviam tomado.
        -Voc no me disse que havia tanta gente na sua Caverna. E como se 
toda uma Congregao do Cl morasse aqui - observou. - E voc parece 
conhecer todo mundo. No sei se eu jamais vou conseguir.
        -  No se preocupe. Vai conseguir. Voc no levar muito tempo - 
falou, tentando desembaraar um teimoso emaranhado. - Oh, desculpe, 
puxei com muita fora?
        -  No, tudo bem. Alegro-me por ter, finalmente, conhecido a 
Zelandoni. Ela conhece medicina; ser maravilhoso ter algum com quem 
conversar.
        -  Ela  uma mulher poderosa, Ayla.
        -  Isso  bvio. H quanto tempo ela  a Zelandoni?
        -  Deixe-me ver - respondeu. - No foi muito tempo depois que parti 
para viver com Dalanar, eu acho. Ainda a vejo como Zolena de ento. Ela era 
linda. Voluptuosa. 
        No lembro de ela ter sido algum dia magra, mas engordou para 
parecer cada vez mais com a Grande Me. Acho que ela gosta de voc. - 
Parou de pentear por um instante, fez uma pausa, e logo comeou a 
gargalhar.
        -  O que h de to engraado? - quis saber Ayla.
        -  Eu estava ouvindo voc contar a ela como me encontrou e sobre 
Nenm e tudo o mais. Pode ter certeza de que vai lhe fazer mais perguntas. 
Eu fiquei observando a expresso dela. Sempre que voc respondia a uma 
pergunta, ela provavelmente queria fazer mais trs. Voc a deixou ainda 
mais curiosa. Sempre faz isso. Voc  um mistrio, mesmo para mim. Faz 
ideia do quanto  notvel, mulher?
J tinha se virado, e ele a fitava com olhos amorosos.
        -  Me d um pouco de tempo, e lhe mostrarei o quanto voc pode ser 
notvel - retrucou, um sorriso preguioso e sensual espalhando-se pelo rosto. 
        Jondalar aproximou-se para beij-la.
        Ouviram uma risada e ambos voltaram o rosto bruscamente.
        -  Oh, ns interrompemos alguma coisa?-perguntou uma mulher. 
Tratava-se da atraente mulher de cabelos claros e olhos negros que ouvira 
Folara contar s amigas sobre os viajantes recrn-chegados. Havia duas 
outras mulheres com ela.
        - Marona! - exclamou Jondalar enrugando ligeiramente a testa. - No,  
interromperam nada. Apenas fiquei surpreso em v-la.
        -  Por que se surpreenderia em me ver? Achava que eu tinha sado 
inesperadamente em uma Jornada? - cismou Marona.
        Jondalar contorceu-se e olhou de relance para Ayla, que fitava a 
mulher.
        -  No. Claro que no. Creio que fiquei apenas surpreso.
        -  Ns estvamos dando um passeio, quando vimos vocs a e, admito, 
Jondalar, no pude resistir a deix-lo um pouco constrangido. Afinal de 
contas, ns fomos Prometidos.
        Os dois no haviam sido Prometidos formalmente, mas Jondalar no 
argumentou com ela. Ele sabia que lhe dera a impresso de que o foram.
        -  No sabia que voc ainda vivia aqui. Pensei que tivesse se acasalado 
com algum de outra Caverna - eximu-se Jondalar.
        -  E me acasalei - confirmou ela. - No durou muito, e por isso voltei. - 
Ela olhava seu musculoso e bronzeado corpo nu de uma maneira que a ele era 
familiar. 
        - No mudou muito em cinco anos, Jondalar. Exceto por algumas feias 
cicatrizes. - Virou-se para fitar Ayla. - Mas no viemos aqui para conversar 
com voc. Viemos conhecer a sua amiga - revelou Marona.
        -  Ela ser apresentada formalmente a todos esta noite - disse ele, 
tentando resguardar Ayla.
        -  Foi o que soubemos, mas no precisamos de uma apresentao 
formal. S queramos cumpriment-la e lhe dar as boas-vindas.
        Ele no podia se recusar a apresent-la.
        -  Ayla, do Acampamento do Leo dos Mamuti, essas so Marona, da 
Nona Caverna dos Zelandonii, e suas amigas... - Olhou mais atentamente. - 
Portula? Da Quinta Caverna?  voc? - perguntou Jondalar.
        A mulher sorriu e enrubesceu, satisfeita por ter sido lembrada. 
        Marona franziu a testa para ela.
        - Sim, sou Portula, mas agora estou na Terceira Caverna. - Ela 
certamente se lembrava de Jondalar. Ele fora escolhido por ela para os seus 
Primeiros Ritos.
        Mas ele lembrou que ela tinha sido uma das jovens que passaram a 
segui-lo, depois disso, tentando encontr-lo sozinho, embora fossem 
proibidos de se juntar por pelo menos um ano depois dos Primeiros Ritos. A 
persistncia dela, de algum modo, prejudicara a lembrana dele de uma 
cerimonia que normalmente o deixava com uma ardorosa afeio pela jovem 
envolvida.
        -  No creio que conhea a sua outra amiga, Marona - assinalou 
Jondalar. Ela parecia ser um pouco mais nova do que as outras duas.
        -  Sou Lorava, irm de Portula - informou a moa.
        -  Ns nos tornamos amigas quando me acasalei com um homem da 
Quinta Caverna - explicou Marona. - Elas vieram me visitar. - Dirigiu-se a 
Ayla. -Saudaes, Ayla dos Mamuti.
        Ayla levantou-se para retribuir o cumprimento. Ainda que isso 
normalmente no a perturbasse, ela se viu um pouco desconcertada por 
saudar, sem roupas, mulheres desconhecidas. 
        Envolveu-se na pele de secar, prendera na cintura, e pendurou o 
amuleto de volta no pescoo.
        - Saudaes, Marrona da Nona Caverrna dos Zelandonii - disse Ayla, 
os rs levemente puxados e o peculiar sotaque gutural revelando-a 
imediatamente como uma estrangeira. 
        - Saudaes, Porrtula da Quinta Caverrna, e Saudaes  sua irrm 
Lorrava - prosseguiu.
        A mais jovem deu uma rsadinha diante da maneira engraada de Ayla 
falar, e depois tentou sufoc-la, e Jondalar notou o vestgio de um sorriso 
afetado no rosto de Marona. A testa dele ficou vincada.
        - Eu queria fazer mais do que saud-la, Ayla - disse Marona. - No sei 
se Jondalar havia mencionado isso, mas agora j sabe que fomos Prometidos 
antes de ele decidir partir repentinamente para essa Jornada que precisava 
fazer. Tenho certeza de que deve saber que no fiquei nada contente.
        Jondalar tentava pensar em algo para dizer, a fim de evitar o que 
sentia que viria a seguir: Marona contar a Ayla que ficou muito infeliz, 
enchendo-lhe os ouvidos com os defeitos dele, mas ela o surpreendeu.
        - Mas isso  passado - concedeu Marona. - Honestamente, fazia anos 
que eu no pensava nele, at vocs chegarem hoje. Outras pessoas, porm, 
talvez no tenham esquecido, e algumas gostam de comentar. Eu apenas 
quero dar a eles algo mais para comentar, mostrar-lhes que sou capaz de 
saud-la adequadamente. - Fez um gesto na direo das amigas, para inclu-
las. - Estamos indo para o meu aposento, a fim de nos prepararmos para o 
seu Banquete de Boas-Vindas desta noite, e achamos que gostaria de ir com 
a gente, Ayla. Minha prima Wylopa j est l... lembra de Wylopa, no, 
Jondalar? Achei que isso lhe daria uma oportunidade de conhecer algumas 
mulheres, antes de todas as apresentaes formais desta noite.
        Ayla percebeu uma certa tenso, particularmente entre Jondalar e 
Marona, mas, diante das circunstncias, isso no seria incomum. Jondalar 
havia comentado a respeito de Marona e que os dois quase tinham sido 
Prometidos antes de ele partir, e Ayla pde imaginar como se sentiria se 
estivesse no lugar daquela mulher. Marona, porm, tinha usado de franqueza, 
e Ayla quis conhecer melhor aquela mulher.
        Ela sentia falta de amigas. Conhecera poucas mulheres de sua idade, 
durante  o tempo que crescia. Uba, a filha verdadeira de Iza, fora como uma 
irm para ela, mas era muito mais nova, e, enquanto Ayla crescia para cuidar 
de todas as mulheres do Cl de Brun, as diferenas foram surgindo. No 
importava o quanto arduamente tentasse ser uma boa mulher do Cl, 
algumas coisas ela conseguia mudar. Somente quando foi viver com os 
Mamuti e conheceu Deegie, ela passou a apreciar o quanto era divertido 
ter algum de sua idade para conversar. Sentia saudades de Deegie, e 
tambm de Tholie, dos Xaramudi, que logo se tornara uma amiga de quem 
sempre se lembrava.
        -  Obrigada, Marona. Eu gostaria de ir com vocs. Isto  tudo que
tenho para vestir - disse ela, vestindo rapidamente a manchada roupa 
simples de viagem -, mas Marthona e Folara vo me ajudar a fazer algumas 
roupas. Eu gostaria de ver o que vocs vestem.
        -  Talvez possamos lhe dar algumas coisas, como presente de boas-
vndas - anunciou Marona.
        -  Pode levar com voc esta pele de secar, Jondalar? - pediu Ayla.
        -  Claro - disse ele. Jondalar abraou-a rapidamente, ela roou a face 
na dele e ento partiu com as trs mulheres.
        Enquanto Jondalar as observava se afastar, as rugas da sua testa se 
aprofundavam. Apesar de no haver pedido formalmente a Marona para ser 
sua parceira, ele a levara a acreditar que os dois se uniriam no Matrimonial 
da Reunio de Vero seguinte, antes de sua partida, e ela fizera planos. Em 
vez disso, ele partiu com o irmo, em uma Jornada, e sumiu. Deve ter sido 
difcil para ela.
        No que ele no a tivesse amado. No havia dvida de que era linda. A 
maioria dos homens a considerava a mulher mais bela e desejvel das 
Reunies de Vero. Embora ele no admitisse de todo, ela certamente levava 
jeito no que se referia a partilhar o Dom do Prazer de Doni. Ela apenas no 
era quem ele mais desejava. Mas as pessoas diziam que eram perfeitos um 
para o outro, pareciam muito bem juntos, e todos esperavam que 
amarrassem o n. Ele tambm, de certa forma, achava isso. Sabia que, algum
da, ia querer dividir um lar com uma mulher e os filhos dela, e j que no 
podia ter Zolena, a mulher que ele queria, essa bem que podia ser Marona.
        Na realidade, no admitia para si mesmo, mas sentiu-se aliviado 
quando decidiu r em Jornada com Thonolan. Na ocasio, pareceu o modo 
mais fcil de se desvencilhar do envolvimento com ela. Tinha certeza de que, 
enquanto estivesse fora, ela encontraria mais algum. Marona disse que 
havia encontrado, mas no tinha durado. Ele esperava encontr-la com um 
lar cheio de filhos. Ela no falara nada a respeito de filhos. Era 
surpreendente.
        No achava que, quando voltasse, a encontraria sem parceiro. Ainda 
era uma bela mulher, mas tinha mau gnio e um pssimo temperamento. Era 
bem capaz ser rancorosa e vingativa. A testa de Jondalar se franziu de 
preocupao, ao bservar Ayla e as trs mulheres caminharem na direo da 
Nona Caverna.
        Lobo viu Ayla seguir com as trs mulheres, pelo caminho que 
atravessava o prado dos cavalos, e correu na direo dela. Lorava deu um 
gritinho ao avistar o grande carnvoro, Portula arquejou e, em pnico, olhou 
em volta  procura de um lugar para onde correr, e Marona empalideceu de 
medo. Ayla olhou de relance para as mulheres assim que viu o lobo, e, 
notando a reao delas, rapidamente fez um gesto para que ele parasse.
        -  Pare, Lobo - falou em voz alta, mais por causa das mulheres do que 
para deter o animal, embora isso reforasse o seu gesto. Lobo parou 
imediatamente e ficou observando Ayla, alerta  espera de um sinal 
indicando que poderia se aproximar dela. - Vocs gostariam de ser 
apresentadas a Lobo? - perguntou, e a seguir, vendo que as mulheres ainda 
mostravam estar com medo, acrescentou: - Ele no vai machucar vocs.
        -  Por que eu ia querer ser apresentada a um animal? - menosprezou 
Marona.
        O tom de sua voz fez com que Ayla prestasse mais ateno  mulher 
de cabelos claros. Notou medo, e, surpreendentemente, uma inflexo de 
repugnncia e mesmo ira.
        Ayla entendia o medo, mas o resto da reao de Marona lhe pareceu 
fora de propsito. No era certamente a reao provocada pela viso do 
animal que ela estava acostumada a ver. As outras duas mulheres olharam 
para Marona, e ento pareceram acompanhar sua lder, sem demonstrar 
nenhuma indicao de que desejavam se aproximar do lobo.
Ayla percebeu que a postura de Lobo se tornou mais cautelosa. Ele tambm 
deve ter sentido algo, imaginou ela.
        -  Lobo, v procurar Jondalar - ordenou, fazendo um sinal para que 
fosse embora. Ele demorou-se um pouco mais, observando-a, depois afastou-
se com um salto, quando Ayla se virou para seguir com as trs mulheres o 
caminho em direo ao imenso abrigo de pedra da Nona Caverna.
        Passaram por vrias pessoas pelo caminho, e cada qual reagiu 
imediatamente ao v-la com as mulheres. Algumas lanaram olhares 
especulativos ou risos desconcertados, outras pareceram surpresas, at 
mesmo assustadas. S as crianas pareceram no prestar ateno nelas. 
Ayla no pde deixar de notar, e isso a deixou um pouco nervosa.
        Ela analisou Marona e as outras mulheres, sem nenhuma obviedade, 
utilizando as tcnicas das mulheres do Cl. Ningum conseguia ser mais 
imperceptvel do que as mulheres do Cl. Elas eram capazes de, 
disfaradamente, se confundir com o ambiente, parecer sumir e dar a 
impresso de que no estavam cientes do que acontecia  sua volta, mas isso 
era um erro.
        Desde muito jovens, as meninas aprendiam a nunca encarar ou sequer 
olhar diretamente para um homem, a ser discretas, mas se esperava delas 
que soubessem quando um deles precisava ou queria sua ateno. Como 
consequncia, as mulheres do Cl aprendiam a se concentrar com todo o 
cuidado e exatido e, com uma olhadela, absorver rapidamente informaes 
significativas sobre postura, movimentos e expresso. E elas se enganavam 
muito pouco.
        Ayla era um perita, como qualquer outra delas, ainda que no 
estivesse ciente desse legado obtido pelos anos passados com o Cl como 
estava de sua habilidade em ler a linguagem corporal. As observaes que 
fez das mulheres a deixaram alerta e a fizeram pensar novamente sobre os 
motivos de Marona, mas no queria fazer suposies.
        Ao chegar debaixo da salincia de pedra, foram em uma direo 
diferente da que ela seguira anteriormente e entraram em uma habitao 
muito maior na direo do centro do espao. Marona as conduziu ao interior 
e fotam recebidas por uma outra mulher que parecia estar  espera delas.
        -  Ayla, esta  minha prima Wylopa - indicou Marona, ao passarem 
pelos aposento principal a caminho de um cmodo de dormir ao lado. -Wylopa, 
esta  Ayla.
        -  Cumprimentos - disse Wylopa.
        Ayla estranhou que, aps tantas apresentaes formais com todos os 
parentes prximos de Jondalar, a feita de forma imprevista com a prima de 
Marona no tivesse qualquer manifestao de boas-vindas, embora fosse a 
sua primeira vez naquela habitao. Isso no estava de acordo com o 
comportamento que j esperava dos Zelandomi.
        -  Cumprrimentos - devolveu Ayla. - Esta habitao lhe perrtence? 
        Wylopa ficou surpresa com a pronncia inusitada de Ayla, e estava 
to de costumada a ouvir qualquer outra lngua que no fosse a sua que teve 
problema para entender a estrangeira.
        -  No - interps-se Marona. - Esta  a casa do meu irmo, sua
companheira e os trs filhos deles. Wylopa e eu moramos aqui com eles. Ns
dividimos este aposento.
        Ayla olhou rapidamente em volta do espao delimitado por divisrias, 
semelhante ao modo como a habitao de Marthona era dividida.
        - Vamos arrumar os nossos cabelos e rostos para a comemorao
desta noite adiantou Portula. Olhou de relance para Marona com um sorriso
insinuante que se tornou um riso forado quando dirigiu a vista de volta para 
Ayla. - Achamos que voc gostaria de se preparar com a gente.
        - Agradeo por terem me convidado. Eu gostaria de ver como vocs 
fazem - disse Ayla. - No conheo os hbitos dos Zelandonii. s vezes, 
minha amiga Deegie costumava arrumar o meu cabelo, mas ela  Mamuti e 
vive muito longe. Sei que nunca mais a verei, e sinto saudades.  muito bom 
ter amigas.
        Portula ficou surpresa e comovida com a resposta honesta e amistosa 
da recm-chegada; o riso forado transformou-se num sorriso de verdade.
        - J que  um festim para lhe dar as boas-vndas - adiantou Marona -, 
pensamos tambm em lhe dar algo para vestir. Pedi  minha prima para 
juntar algumas roupas para voc experimentar, Ayla. - Marona olhou em 
direo s vestimentas que haviam sido dispostas em volta. - Voc fez uma 
boa seleo, Wylopa. - Lorava deu uma risadinha.
        Portula desviou o olhar.
        Ayla reparou que havia vrias roupas espalhadas sobre a cama e o 
cho, principalmente perneiras e camisas ou tnicas de mangas compridas. 
Em seguida, observou as roupas que as quatro mulheres estavam usando.
        Notou que Wylopa, aparentemente mais velha do que Marona, vestia 
uma roupa semelhante s que estavam espalhadas, usadas um pouco folgadas. 
Lorava, bem mais jovem, estava com uma tnica de mangas curtas, com um 
cinto em volta dos quadris, de certa forma talhada bem diferente das que 
estavam espalhadas. Portula, um tanto rechonchuda, usava uma saia 
comprida feita de algum tipo de material fibroso e uma blusa folgada com 
uma comprida franja que pendia sobre a saia. Marona, que era magra mas 
bem proporcionada, vestia uma blusa sem mangas muito curta, aberta na 
frente, profusamente enfeitada com contas e penas e uma franja 
avermelhada na parte de baixo, que ia at logo abaixo da cintura, e uma 
tanga semelhante ao tipo que Ayla usara nos dias quentes de sua Jornada.
        Jondalar havia lhe mostrado como pegar um pedao retangular de 
pele macia,  enfi-lo entre as pernas e amarr-lo com uma tira de couro em 
volta da cintura, deixando as compridas pontas penderem  frente e atrs, e 
juntando-as dos lados, fazendo a tanga parecer uma saia curta. A de Marona, 
ela percebeu, tinha uma franja  frente e   atrs, nas pontas. Ela deixara um 
espao aberto em ambos os lados revelando as longas e bem torneadas 
pernas nuas, e como havia amarrado as pontas abaixo, logo acima dos quadris, 
isso fazia com que as franjas oscilassem quando andava. Ayla achou que as 
roupas de Marona, a camisa muito curta, que no se juntava na frente e no 
podia ser fechada, e a tanga escassa - pareciam curtas demais para ela, 
como se tivessem sido feitas para uma criana, e no para uma mulher. 
Entretanto, estava certa de que a mulher de cabelos claros escolhia as suas 
roupas intencionalmente e com todo o cuidado.
        -  Vamos, escolha alguma coisa - incitou Marona -, e depois 
ajeitaremos o seu cabelo. Queremos que seja uma noite especial para voc.
        -  Todas essas coisas parecem to grandes e pesadas - alegou Ayla. - 
No so quentes demais?
        -   noite, faz frio - justificou Wylopa -, e essas roupas so para 
serem usadas folgadas. Como esta. - Levantou os braos e mostrou o ajuste 
folgado de sua blusa.
        -  Tome, experimente isto - props Marona, pegando uma tnica. - 
Ns lhe mostraremos como deve ser usada.
        Ayla despiu a tnica com que estava vestida, depois tirou a bolsa com 
o amuleto de volta do pescoo e a colocou sobre uma prateleira, e deixou 
que as mulheres enfiassem a outra tnica por cima de sua cabea. Embora 
ela fosse mais alta do que as quatro mulheres, a roupa bateu nos joelhos, e 
as mangas compridas passaram das pontas dos dedos.
        -   grande demais - constatou Ayla. Ela no viu Lorava, mas achou ter 
ouvido um riso abafado atrs de si.
        -  No, no  - afirmou Wylopa, com um largo sorriso. - Voc s 
precisa de um cinto, e deve enrolar as mangas. Como eu fiz, est vendo? 
Portula, traga aquele cinto, para eu mostrar a ela.
        A gorducha trouxe um cinto, porm no ria mais, ao contrrio de 
Marona e sua prima, que sorriam excessivamente. Marona pegou o cinto e o 
colocou em volta de Ayla.
        -  Amarre bem baixo, assim, em volta dos quadris, deixe a blusa e a 
franja penduradas. Est vendo?
        Ayla continuava achando que havia material demais.
        -  No, no creio que se ajusta bem. E mesmo grande demais. E olhem 
esta perneira - exclamou, apanhando o par que estava ao lado da tnica e 
colocando-as  sua frente.
        - A cintura fica muito em cima. - Puxou a tnica por cima da cabea.
        -  Tem razo - concordou Marona. - Experimente outra. - Apanharam 
outra roupa, ligeiramente menor e com enfeites de contas de marfim e 
conchas bastante rebuscados.
        -  Esta  linda - disse Ayla, baixando a vista para examinar a frente 
da tnica. - Quase to linda...
        Lorava produziu um estranho rudo de escrnio, e Ayla se virou para 
encar-la, mas ela estava olhando para o outro lado.
        -  Mas  muito pesada e tambm grande demais - prosseguiu Ayla, 
tirando a segunda tnica.
        -  Acho que deve estar achando grande porque no est acostumada 
com as roupas dos Zelandonii - sugeriu Marona, franzindo a testa, e depois 
animando-se com um sorriso de auto-satisfao. - Mas talvez tenha razo. 
Espere aqui. Acho que sei de algo que dever ficar perfeito, e acabou de ser 
feito. - Deixou o aposento de dormir e foi a uma outra parte da habitao. 
Pouco depois, voltou com uma roupa. Essa era muito menor e mais leve. A 
perneira justa ia at a metade da barriga da perna, mas se ajustava 
perfeitamente na cintura, onde a parte da frente ficava superposta e 
amarrada com uma tira de couro resistente e flexvel. A parte de cima era 
uma tnica sem mangas, com um profundo corte em V na frente, unida por 
finas tiras de couro. Era um pouco pequena, e Ayla no conseguia apertar 
bem os dois lados, mas, com as tiras frouxas, at que no ficava ruim. 
Diferentemente das outras, era uma roupa simples, sem enfeites, feita de 
um couro macio que causava uma sensao agradvel em contato com sua 
pele.
        -   muito agradvel - observou Ayla.
        -  E eu tenho a coisa certa para arrematar - ressaltou Marona, 
mostrando-lhe um cinto tecido com vrias fibras coloridas que formavam um 
padro rebuscado.
        -  Ele foi feito de maneira belssima e  muito interessante - 
comentou Ayla, quando Marona o colocou em volta de sua cintura. Ela se 
satisfez com a roupa. - Esta serve - afirmou. - Agradeo o presente. - 
Colocou o amuleto e dobrou a roupa que usava antes.
        Lorava engasgou e tossiu.
        -  Preciso de gua - disse ela, e disparou para fora do cmodo.
        -  Agora, preciso arrumar o seu cabelo - anunciou Wylopa, ainda com 
um sorriso largo.
        -  Prometo pintar o seu rosto, depois do de Portula - adiantou Marona.
        -  E voc disse que ia arrumar o meu cabelo, Wylopa - lembrou Portula.
        -  Voc tambm prometeu arrumar o meu - falou Lorava da entrada do 
aposento.
        -  Se  que j passou o seu acesso de tosse - observou Marona, dando 
um olhar rspido para a moa.
        Enquanto Wylopa penteava e cuidava do cabelo dela, Ayla observava 
com interesse enquanto Marona enfeitava os rostos das duas outras 
mulheres. Ela utilizou gorduras solidificadas misturadas com ocres vermelho 
e amarelo reduzidos a um p finssimo, para colorir as bocas, as bochechas e 
as testas, e, misturadas a carvo, para realar os olhos. Em seguida, usou 
tons mais fortes das mesmas cores para acrescentar nos rostos delas 
desenhos cuidadosamente executados de bolinhas, curvas e vrias outras 
formas, e isso de certo modo lembrou a Ayla as tatuagens que vira em 
algumas pessoas.
        -  Deixe-me agora cuidar do seu rosto, Ayla - disse Marona. - Acho 
que Wylopa terminou com o seu cabelo.
        -  Ah, sim! - exclamou Wylopa. - J terminei. Deixe Marona pintar o 
seu rosto.
        Embora os enfeites nos rostos das outras mulheres fossem 
interessantes, Ayla sentiu-se desalentada com a ideia. Na habitao de 
Marona, havia uma sutil utilizao de cores e desenhos bastante agradveis, 
mas Ayla no tinha muita certeza se gostava de como as mulheres ficaram 
parecendo. De certo modo, parecia demasiado.
        -  No... acho que no - escusou-se Ayla.
        -  Mas  preciso! - salientou Lorava, parecendo desanimada.
        -  Todas colocam pinturas - justificou Marona. -Voc ser a nica sem.
        -  Sim! Vamos l. Deixe Marona pintar voc.  o que todas as mulheres 
fazem - insistiu Wylopa.
        -  Voc devia aproveitar - recomendou Lorava. - Todas sempre querem 
que Marona pinte o seu rosto. Tem sorte por ela estar disposta.
        Pressionaram tanto, que isso a fez resistir. Marthona no lhe dissera 
nada sobre pintar o rosto. Ela queria dar tempo ao tempo para achar o seu 
prprio jeito, sem forar os costumes com os quais no estava familiarizada.
        - No, no desta vez. Talvez depois - disse Ayla.
        -  Ora, v em frente e se pinte. No estrague tudo - reclamou Lorava.
        -  No! No quero que pintem o meu rosto - objetou Ayla com tal 
firme deciso, que elas, finalmente, deixaram de pression-la.
        Ficou olhando-as enfeitar os cabelos umas das outras, com 
rebuscados tranados e cachos, juntando atraentes pentes decorados e 
grampos. Finalmente, acrecentaram
ornamentos faciais. Ayla s notou realmente os buracos estratgicos dos 
seus rostos quando colocaram brincos nos lbulos e ornamentos parecidos 
com pinos nos narizes, bochechas e sob os lbios inferiores, e viu que agora, 
algumas das pinturas acentuavam os ornamentos que haviam sido pendurados.
        -  Voc no tem perfuraes? - perguntou Lorava. - Vai precisar 
conseguir algumas. Pena que no possamos faz-las agora.
        Ayla no tinha certeza de que queria ser furada, exceto, talvez, nas 
orelha para poder usar os brincos que vinha carregando desde a Reunio de 
Vero dos Caadores de Mamutes. Olhou as mulheres colocarem contas e 
pingentes em volta do pescoo e braceletes nos braos.
        Notou que, de vez em quando, elas davam uma olhadela para algo alm 
de uma divisria. Finalmente, um pouco entediada com toda aquela penteao 
e decorao, levantou-se e ficou andando por ali para ver o que estavam 
olhando. Ouvu Lorava engolir em seco quando Ayla viu o pedao brilhante de 
madeira escurecida, parecido com o refletidor de Marthona, e olhou-se nele.
        Ayla no ficou contente com o reflexo que viu. O cabelo fora 
enfeitado com tranas e cachos, mas pareciam estar em lugares estranhos e 
desagradveis, e no na satisfatria ordem simtrica como nos das demais. 
        Viu Wylopa e Marona se entreolharem e depois desviarem a vista. 
Quando ela tentava fazer contato visual com alguma das mulheres, elas a 
evitavam. Algo estranho estava acontecendo, e Ayla no estava gostando. 
Certamente no gostou do que fora feito com o seu cabelo.
        - Acho que vou usar o meu cabelo solto - disse Ayla, comeando a 
tirar os pentes, grampos e laos. -Jondalar gosta desse jeito. - Depois que 
removeu toda a parafernlia, pegou o pente e o passou pelo denso cabelo 
louro-escuro realado por uma onda natural recm-lavada.
        Arrumou o amuleto em volta do pescoo - ela no gostava de ficar 
sem ele, apesar de geralmente us-lo debaixo da roupa - e depois olhou-se 
no refletidor. Talvez, algum dia, aprendesse a fazer um penteado em seu 
cabelo, mas, por enquanto, gostava mais do jeito como caa naturalmente. 
Olhou de relance para Wylopa e perguntou-se por que a mulher no 
percebeu o quanto o seu cabelo estava esquisito.
        Ayla examinou a sua bolsa com o amuleto no refletdor e tentou v-la 
da maneira que uma outra pessoa a veria. Parecia cheia de caroos, por 
causa dos objetos que continha, e a cor estava mais escura do que antes, 
devido ao suor e ao uso. Inicialmente, a pequena bolsa enfeitada era um 
estojo de costura. Agora, somente escuras pontas restavam do que foram 
outrora penas brancas decorando o fundo arredondado, mas o desenho de 
contas de marfim permanecia intacto e acrescentava uma interessante 
aparncia  tnica simples de pele. Decidiu deix-la  mostra. Lembrou-se 
de que foi a sua amiga Deegie que a convencera a us-la como amuleto, 
quando viu a bolsinha simples e suja que Ayla usava anteriormente. Agora, a 
sua estava velha e gasta. Imaginou que deveria em breve fazer uma outra, 
para substitu-la, mas no jogaria essa fora. Ela guardava muitas lembranas.
Ayla podia ouvir alguma atividade do lado de fora e estava farta de ver as 
mulheres acrescentarem pequenos e insignificantes arremates aos rostos ou
cabelos umas das outras, que no tinham nenhum efeito visvel que ela 
pudesse perceber. 
        Finalmente, ouviu-se um arranhado no painel de couro cru ao lado da 
abertura da moradia.
        -  Todos esto esperando por Ayla - gritou uma voz. Parecia ser 
Folara.
        -  Diga que ela j est indo - respondeu Marona. - Tem certeza de que 
no quer que eu pinte o seu rosto s um pouquinho, Ayla? Afinal, trata-se de 
um festejo em sua homenagem.
        -  No, no quero mesmo.
        -  Bem, j que esto  sua espera,  melhor voc r na frente. Ns 
iremos daqui a pouco - disse Marona. - Ainda temos que nos trocar.
        -  Vou sim - concordou Ayla, feliz por ter uma desculpa para sair. Sua 
impresso era de que haviam ficado muito tempo l dentro. - Obrigada pelos 
presentes - lembrou-se de dizer. - Esta  mesmo uma roupa muito 
confortvel. - Apanhou a tnica surrada e a cala curta, e saiu.
        No viu ningum debaixo do abrigo saliente; Folara tinha ido embora 
sem esperar por ela. Rapidamente, Ayla desviou-se na direo da habitao 
de Marthona e deixou as roupas velhas no interior da entrada. Depois, 
caminhou apressadamente na direo de um ajuntamento de pessoas que viu 
l fora, alm da sombra  da alta prateleira de pedra que protegia as 
construes aninhadas sob ela.
        Ao sair para a luz do sol do final de tarde, algumas pessoas prximas 
a perceberam, pararam de conversar e ficaram boquiabertas. Depois, outras 
mais a viram, ficaram encarando-a e dando cotoveladas nas pessoas 
prximas, para que tambm olhassem. Ayla diminuiu o passo e logo parou, 
devolvendo o olhar das pessoas que a encaravam. Logo, toda a conversa 
cessou. De repente, em meio ao silncio, algum soltou uma gargalhada 
abafada. Ento, outro gargalhou, e depois mais outro.
        Em pouco tempo, todos gargalhavam.
        Por que riam? Estariam rindo dela? Havia algo errado? Seu rosto 
enrubesceu, constrangido. Ela cometera alguma terrvel gafe? Olhou em 
volta, querendo fugir, mas sem saber para que lado ir.
        Viu Jondalar, caminhando a passos largos em sua direo, uma 
expresso furiosa no rosto. Marthona tambm corria para ela, vinda de 
outra direo.
        -  Jondalar - gritou Ayla, quando ele chegou mais perto. - Por que 
esto todos rindo de mim? O que h de errado? O que foi que eu fiz? - Sem 
perceber, ela estava falando em Mamuti.
        -  Voc est usando roupa de baixo de inverno de um menino. O seu 
cinto  usado por um rapaz durante a iniciao da puberdade, para as 
pessoas saberem que ele est pronto para a sua donii-mulher - elucidou 
Jondalar na mesma lngua que ela havia falado. Ele estava furioso por Ayla 
ter sido vtima de uma brincadeira to cruel no primeiro dia que passava 
com o seu povo.
        -  Onde conseguiu essas roupas? - quis saber Marthona, ao se 
aproximar.
        -  Marona - respondeu Jondalar em seu lugar. - Quando a gente 
estava no Rio, ela apareceu e disse para Ayla que queria ajud-la a se vestir 
para a comemorao desta noite. Eu devia ter adivinhado que ela tinha em 
mente algum plano perverso para se vingar de mim.
        Todos se viraram e olharam para trs, para baixo da laje, em direo 
 habitao do irmo de Marona. Paradas, na sombra da salincia, estavam 
as quatro mulheres.
        Com as mos nas ancas, encostadas umas s outras, elas riam tanto da 
mulher que haviam enganado e feito com que vestisse uma roupa de menino 
totalmente inadequada, que lgrimas escorriam de seus rostos, manchando 
com listras vermelhas e pretas a maquilagem feita com tanto cuidado. Ayla 
percebeu que sentiam um grande prazer diante da sua aflio e do seu 
constrangimento.
        Ao olhar para as mulheres, teve a sensao de um acesso de raiva se 
avolumar dentro de si. Era esse o presente que queriam lhe oferecer? Para 
lhe dar as boas-vindas?
        Queriam que as pessoas rissem dela daquele jeito? Compreendeu 
ento que tudo o que lhe haviam oferecido era inadequado para uma mulher. 
        Agora ficara bvio que todas aquelas eram roupas de homens. Mas 
deu-se conta de que no foram apenas as roupas. Foi por isso que haviam 
feito nela aquele penteado to esquisito? Para as pessoas rirem dela? E 
haviam planejado pintar o seu rosto para tambm torn-la risvel?
        Ayla sempre gostou de rir. Quando vivia com o Cl, at nascer seu 
filho, ela era a nica que ria com prazer. Quando as pessoas faziam uma 
careta que parecia um sorriso, no se tratava de um sinal de felicidade. 
        Tratava-se de uma expresso de nervosismo, ou temor, ou indicava a 
ameaa de um possvel perigo. Seu filho era o nico que sorria e gargalhava 
como ela, e ainda que isso deixasse as pessoas intranqiiilas, ela adorava as 
risadinhas de Durc.
        Quando vivia no vale, ria encantada com as travessuras de Huiin e 
Nenm quando eram novos. O sorriso fcil e a gargalhada desinbda de 
Jondalar deram-lhe a certeza de que havia encontrado nele um semelhante, 
fizeram com que ela o amasse ainda mais. E foram o sorriso acolhedor e o 
bramido cordial de Talut, quando se conheceram, que a incentivaram a 
visitar o Acampamento do Leo. Ela conhecera muita gente em suas viagens, 
e muitas vezes rira junto com elas, mas nunca tinham rido dela. No sabia 
que o riso podia ser usado para magoar, essa era a primeira vez que o riso 
lhe causava dor e no alegria.
        Marthona tambm no ficou contente com a brincadeira maldosa 
feita com a visitante, a hspede da Nona Caverna dos Zelandonii, aquela que 
o seu filho trouxera para casa a fim de se acasalar e se tornar uma deles.
        -  Venha comigo - pediu Marthona. - Vou lhe dar algo mais adequado. 
Sei que poderei encontrar uma roupa minha que voc possa vestir.
        -  Ou minha - adiantou-se Folara. Ela tinha visto todo o incidente e 
veio ajudar.
        Ayla comeou a se afastar com elas, mas depois se deteve.
        -  No - disse ela.
        Aquelas mulheres lhe deram as roupas erradas, como "presentes de 
boas-vindas", porque queriam que ela parecesse extica, diferente, para 
mostrar que no pertencia quilo ali. Pois bem, ela tinha agradecido os 
"presentes" e iria us-los! No era a primeira vez que se tornava alvo de 
olhares. Entre as pessoas do Cl, sempre fora a esquisita, a feia. Nunca 
riram dela daquele modo - elas no sabiam rir daquele jeito -, mas todas a 
ficaram encarando quando ela chegou  Congregao do Cl.
        Se ela fora capaz de resistir sendo a diferente, a que no fazia parte, 
a nica que no era do Cl em toda a Congregao do Cl, certamente 
conseguiria resistir aos Zelandonii. Pelo menos eles pareciam ser iguais. Ayla 
aprumou-se, empinou o queixo e olhou firme para a multido s gargalhadas.
        -  Obrigada, Marthona. Tambm agradeo a voc, Folara. Mas esta 
roupa  vai servir. Ela me foi dada como presente de boas-vindas. No farei a 
descortesia de deix-la de lado.
        Olhou de relance para trs e percebeu que Marona e as outras haviam 
sumido. Tinham voltado para o aposento de Marona. Ayla virou-se para 
encarar o ajuntamento de pessoas, e iniciou a caminhada em direo a elas. 
Quando ela passou,  Marthona e Folara olharam para Jondalar, aturdidas, 
mas tudo o que ele conseguiu fazer foi encolher os ombros e abanar a 
cabea.
        Com o canto do olho, enquanto avanava, Ayla captou um movimento 
familiar. Lobo havia surgido na extremidade da trilha e vinha correndo em 
sua direo. Ao alcan-la,
        Ayla deu um tapinha em si mesma, ele saltou, ps as patas diante dos 
ombros dela, lambeu seu pescoo e depois colocou-o delicadamente entre as 
mandbulas. Um audvel alvoroo agitou a multido. Ayla fez um sinal para 
que Lobo descesse e depois indicou para que ele a seguisse de perto, do 
jeito que ela o havia ensinado na Reunio de Vero dos Mamuti.
        Ao caminhar pelo meio das pessoas, havia algo no modo como ela 
andava, algo em sua determinao, algo no seu olhar desafiador diante 
daqueles que riram, e algo em Lobo caminhando a seu lado, que os silenciou. 
        Em pouco tempo, ningum mais teve vontade de rir.
        Dirigiu-se ao grupo de pessoas que conhecera antes. Willamar, 
Joharran e a Zelandoni a cumprimentaram. Virou-se e viu Jondalar logo 
atrs, seguido por Marthona e Folara.
        - Ainda no fui apresentada a algumas pessoas aqui. Podia fazer as 
apresentaes, Jondalar? - pediu Ayla.
        Em vez disso, Joharran adiantou-se.
        - Ayla dos Mamuti, Membro do Acampamento do Leo, Filha do Lar 
do Mamute, Escolhida pelo Esprito do Leo das Cavernas e Protegida do 
Esprito do Urso das Cavernas...e Amga de cavalos e um lobo, esta  minha 
companheira Proleva, da Nona Caverna dos Zelandonii, Flha de...
        Willamar sorria enquanto eram feitas as apresentaes aos parentes 
prximos e amigos, mas sua expresso no era, de modo algum, de escrnio. 
Marthona, cada vez mais pasmada, observava com um interesse ainda maior 
a mulher que o seu filho trouxera consigo. Fez contato visual com a 
Zelandoni, e um olhar de cumplicidade foi trocado entre as duas; discutiriam 
aquilo depois.
        Muitas pessoas olharam Ayla com redobrada ateno - principalmente 
os homens, que comearam a notar o quanto as roupas e o cinto se 
ajustavam to bem  pessoa que os estava usando, apesar do que 
significavam para eles aquelas vestes. Ela passara todo o ano anterior 
viajando, caminhando ou cavalgando, e os seus msculos eram firmes. A 
justa roupa de baixo de inverno usada por rapazes ressaltava o esbelto 
corpo musculoso e bem proporcionado. Como ela no conseguira amarrar as 
tiras de couro  frente do peito firme mas abundante, a abertura deixava 
exposto um colo de certa maneira mais atraente do que o seios nus que eles 
estavam acostumados a ver. A perneira exibia suas pernas longas e bem 
torneadas e as ndegas redondas, e o cinto apertado, a despeito do que 
simbolizava a sua concepo, acentuava a cintura apenas levemente mais 
dilatada por causa dos estgios iniciais de uma gravidez.
        Em Ayla, a roupa assumiu um novo significado. Embora muitas 
mulheres usassem ornamentos faciais e pintura, a falta deles servia apenas 
para acentuar a sua beleza natural. Os longos cabelos, caindo soltos com as 
desordenadas ondas naturais e cachos que captavam os ltimos raios do sol 
que se punha, formavam um contraste atraente e sensual com os bem-
cuidados penteados das outras mulheres. Sua aparncia era jovial e 
lembrava aos homens sua prpria juventude e o primeiro despertar para o 
Dom do Prazer da Grande Me Terra. Isso os fazia desejar que fossem 
jovens novamente e que Ayla fosse sua doni-mulher.
        A excentricidade da roupa de Ayla foi rapidamente esquecida, e 
aceita como se  de algum modo, fosse adequada para a bela estrangeira com 
um tom de voz de grave e extico sotaque. Isso no era certamente mais
estranho do que o controle que ela exercia sobre cavalos e Lobo.
        Jondalar notou que as pessoas observavam Ayla e ouviu seu nome ser 
mencionado nas conversas que se seguiram. Ento, escutou um homem 
comentar:
        -  Que mulher de notvel beleza Jondalar trouxe para casa.
        -  Era de se esperar que ele trouxesse uma mulher bonita - replicou 
uma mulher -, mas ela tambm  corajosa e tem uma forte determinao. Eu 
gostaria de conhec-la melhor.
        Os comentrios fizeram com que Jondalar olhasse novamente para 
Ayla, e subitamente viu o modo como ela parecia, e no a incongruncia da 
roupa. Poucas mulheres podiam reivindicar uma forma to excepcional, 
principalmente mulheres de sua idade, que normalmente j tinham tido um 
ou dois filhos, o que resultava no afrouxamento do jovem tnus muscular. 
        Poucas optavam por usar roupas justas, ainda que fossem adequadas. 
A maioria preferia usar vestes folgadas e mais confortveis, que mais 
escondiam do que revelavam. E ele gostava do cabelo solto, como ela usava. 
Ayla era uma bela mulher, refletiu, e corajosa. Ele se descontraiu e sorriu, 
lembrou o passeio dos dois naquela tarde e a pausa que fizeram no campo 
elevado, pensando no quanto era um sujeito de sorte.
        Marona e suas trs aliadas tinham voltado ao aposento, ainda s 
gargalhadas, para consertar os danos causados  pintura em seus rostos. 
Planejavam aparecer mais tarde, usando as melhores roupas, e as mais 
adequadas, esperando fazer uma entrada triunfal.
        Marona tinha trocado a saia-tanga por uma mais comprida e elegante, 
feita de uma pele muito macia e flexvel, com uma longa sobre-saia franjada, 
que colocou e amarrou em volta da cintura e dos quadris, mas continuou 
usando a mesma camisa curta enfeitada. Portula vestia sua saia e camisa 
favoritas. Lorava usava, apenas a tnica curta, mas as outras mulheres lhe 
emprestaram uma sobre-saia comprida e vrios colares e braceletes a mais, 
e arrumaram o seu cabelo e pintaram o seu rosto de um modo mais 
rebuscado do que jamais ela havia usado antes.  Wylopa, rindo enquanto
tirava a saia ornamentada e a cala de homem, trocou-a por uma cala 
bastante enfeitada, tingida com uma tonalidade de vermelho alaranjado, e 
uma tnica bastante colorida com uma franja em tom escuro.
        Aps se aprontar, deixaram a habitao e caminharam juntas para o
terrao frontal a cu aberto, mas, quando as pessoas viram Marona e as 
amigas, viraram-lhes ostensivamente as costas e as ignoraram. Os 
Zelandoni no eram um povo cruel. Riram da estrangeira somente porque 
tinham ficado surpresos com o de uma mulher adulta vestir a roupa de baixo 
de inverno de um rapaz e o cinto da  puberdade. A maioria, porm, no ficou 
contente com a troa grosseira. Isso percutiu mal para eles, fez com que 
parecessem descorteses e pouco hospitaleiros. Ela era hspede deles e 
seria, provavelmente muito em breve, uma de seu povo. Alm do mais, Ayla 
tinha-se portado to bem, que isso lhes revelou o seu temperamento e fez 
com que sentissem orgulho dela.
        As quatro mulheres viram um grupo maior aglomerado em volta de 
algum, e, quando vrias pessoas se dispersaram, puderam ver Ayla no 
centro, ainda usando as roupas que elas lhe haviam dado. Nem mesmo tinha 
se trocado! Marona ficou chocada. Ela tinha toda a certeza de que um dos 
parentes de Jondalar daria algo mais apropriado para a recm-chegada 
vestir - isto , se ela ousasse voltar a mostrar a cara- Mas, em vez disso, o 
seu plano de colocar em evidncia a estranha mulher que Jondalar trouxera, 
aps deix-la em uma posio embaraosa, com nada alm de uma promessa 
vazia, revelara a pessoa rancorosa e mesquinha que ela era.
        A cruel brincadeira de Marona se voltara contra ela, e sso a deixou 
enfurecida. Convencera, com adulaes, as amigas a se juntarem a ela, 
prometendo-lhes que seriam o centro das atenes, dizendo-lhes como 
brilhariam. Em vez disso, todo mundo parecia comentar a respeito da mulher 
de Jondalar. At o seu estranho sotaque, do qual Lorava rira alto e que 
Wylopa tivera dificuldade de entender, estavam considerando extico e 
encantador.
        Era Ayla quem atraa todas as atenes, e as trs amigas de Marona 
estavam arrependidas de se terem deixado persuadir. Portula, em particular, 
fora relutante. Concordou somente porque Marona prometera pintar-lhe o 
rosto, e Marona era famosa por seus elaborados desenhos faciais. Ayla no 
lhe parecera uma pessoa m. Era amigvel, e agora estava fazendo amizade 
com todos os demais.
        Por que elas no perceberam que a roupa de menino destacava a 
beleza da recm-chegada, quando ela a vestira? As outras mulheres, porm, 
viram o que esperavam ver, o simbolismo, e no a realidade. Nenhuma delas 
sequer pensaria em usar em pblico tal vestimenta, mas Ayla no se 
importara com isso. Ela no era suscetvel  roupa, emocional ou 
culturalmente, nem ao que ela representava. Tudo o que fez foi notar o 
quanto era confortvel. Uma vez passado o choque das gargalhadas, Ayla 
esqueceu aquilo. E, porque ela esqueceu, todos os demais tambm 
esqueceram.
        Um grande bloco de calcrio, com uma superfcie relativamente chata 
na parte de cima, ocupava um espao no terrao diante do grande alapado. 
Ele se rompera no tanto tempo da ponta da prateleira suspensa, que ningum 
se lembrava da poca em que no se encontrava ali. Normalmente era usado 
quando algum queria atrair a ateno das pessoas reunidas na rea, pois, 
quando uma pessoa subia nele, ficava alguns metros acima do nvel da 
multido.
        Vendo Joharran subir na Pedra do Pronunciamento, um silncio de 
expectativa comeou a baixar sobre o ajuntamento. Ele estendeu a mo para 
Ayla, ajuda-la a subir, e depois para Jondalar, convidando-o a ficar ao lado 
dela. Lobo saltou para l, sem ser convidado, e se acomodou entre a mulher 
e o homem da nica alcateia que conhecia. Juntos sobre a rocha que se 
elevava acima dos demais, o homem alto e vistoso, a extica mulher bonita e 
o imenso e magnfico lobo compunham uma cena deslumbrante. Marthona e a
Zelandoni, paradas lado a lado, olharam para os trs, e depois um a um, cada
qual perdida em pensamentos difceis de serem expressos em palavras.
        Joharran ficou parado,  espera de que a multido os percebesse e
silenciasse. Olhando em direo s pessoas, ele teve certeza de que toda a 
Nona Caverna retribua o seu olhar. Nem uma s pessoa parecia estar 
faltando. Em seguida, reconheceu vrias outras de Cavernas prximas, e 
depois muitas mais. Deu-se conta de que a reunio era maior do que previra.
        A maioria da Terceira Caverna estava  esquerda, e a Dcima Quarta 
Caverna ao lado dela. Em direo ao fundo,  direita, viu muita gente da 
Dcima Primeira. Havia, inclusive, algumas da Segunda Caverna e seus 
parentes da Stima, do outro lado do vale que os separava. Dispersas no 
meio dos outros, notou umas pessoas da Vigsima Nona, e at um casal da 
Quinta. Cada Caverna das redondezas estava representada, e havia gente 
que viera de muito longe.
        A notcia correra depressa, imaginou, e mensageiros devem ter sido 
enviados. Talvez no venhamos a necessitar de uma segunda reunio para 
abranger uma maior parte da comunidade. Todos pareciam estar presentes. 
Eu devia ter imaginado que estariam. E todas as Cavernas rio acima ao longo 
do caminho tambm devem t-los visto. 
        Afinal de contas, Jondalar e Ayla viajaram para o sul montados em 
cavalos. Provavelmente haveria mais gente na Reunio de Vero deste ano. 
Talvez devssemos planejar uma grande caada, antes de partirmos, para 
ajudar com as provises.
        Aps atrair a ateno de todos, ele esperou um pouquinho mais 
enquanto ordenava os pensamentos. Finalmente, comeou.
        - Como lder da Nona Caverna dos Zelandonii, eu, Joharran, quero 
falar. - As poucas ltimas vozes cessaram. - Vejo que temos muitos 
visitantes esta noite, e em nome de Doni, a Grande Me Terra, me sinto 
feliz em dar as boas-vindas a todos vocs a esta reunio, para festejar a 
volta do meu irmo Jondalar de sua longa Jornada. 
        Somos gratos pela Me ter guiado os seus passos enquanto ele 
caminhou por terras estranhas, e agradecidos por Ela ter guiado os seus ps 
errantes de volta para casa.
        Vozes concordantes elevaram-se. Joharran fez uma pausa, e Ayla 
notou sua testa enrugar do mesmo modo familiar como a de Jondalar 
costumava fazer.          Ela teve por ele a mesma calorosa sensao de afeto, 
igual  primeira vez em que per cebeu essa semelhana.
        -  Como a maioria de vocs j deve saber - prosseguiu Joharran -, o 
irmo que partiu com Jondalar no voltar. Thonolan agora caminha no outro
mundo. A Me chamou um favorito de volta para Si. - Olhou para os ps por 
um momento.
        A tal referncia novamente, lembrou Ayla. No era necessariamente 
considerado sorte o fato de algum ter muitos talentos, muitos Dons, para 
ser amado tanto a ponto de ser considerado favorecido pela Me. Ela, s 
vezes, sentia saudades de Seus favoritos e os chamava mais cedo de volta 
para Si, quando ainda eram jovens.
        -  Mas Jondalar no retornou sozinho - continuou Joharran, e sorriu 
para Ayla. - No creio que muitos ficariam surpresos em saber que o meu 
irmo conheceu uma mulher em sua Jornada. - Houve alguns risos sufocados 
e muitos sorrisos sugestivos na multido. - Mas devo admitir: no esperava 
que nem mesmo Jondalar encontrasse algum to extraordinrio.
        Ayla sentiu o rosto corar quando as palavras de Joharran se tornaram 
claras. Dessa vez, o seu constrangimento no foi causado por risadas 
zombeteiras, mas o resultado dos elogios dele.
        -  As apresentaes adequadas a cada uma das pessoas presentes 
levariam dias, principalmente se algum resolvesse incluir todos os seus 
nomes e laos familiares. 
        -Joharran voltou a sorrir, e muitos reagiram com gestos afirmativos 
de cabea e olhares de admisso. - E a nossa hspede jamais lembraria de 
cada um; portanto, decidimos apresentar a nossa visitante para todos, e 
deixar que cada um de vocs se apresente quando surgir a oportunidade.
        Joharran virou-se e sorriu para a mulher que estava de p na rocha 
alta junto a ele, mas depois dirigiu a vista para o louro alto, e sua expresso 
tornou-se mais sria.
        -  Jondalar da Nona Caverna dos Zelandonii, Mestre Lascador de 
Slex; Filho de Marthona, outrora Lder da Nona Caverna; nascido da lareira 
de Dalanar, Lder e Fundador dos Lanzadonii; Irmo de Joharran, Lder da 
Nona Caverna, retornou aps cinco anos de uma longa e difcil Jornada. Ele 
trouxe uma mulher de uma terra to distante que demorou um ano inteiro 
para fazer a viagem de volta.
        O lder da Nona Caverna tomou ambas as mos de Ayla nas suas.
        -     Em nome de Doni, a Grande Me Terra, apresento-lhe todos os 
Zelandonii, Ayla dos Mamuti, Membro do Acampamento do Leo, Filha do 
Lar do mamute, Escolhida pelo Esprito do Leo das Cavernas e Protegida do 
Esprito Urso das Cavernas - ento, sorriu -, e, como vocs viram, Amiga de 
cavalos e este lobo. - Jondalar convenceu-se de que o lobo sorriu, como se 
soubesse que havia sido apresentado.
        Ayla dos Mamuti, pensou ela, lembrando-se de quando era Ayla de 
Nenhum Povo, e sentiu-se encher de gratido por Talut, Nezzie e o resto do 
Acampamento do Leo, por lhe terem dado um lugar para reivindicar como 
seu. Fez de tudo para conter as lgrimas que a ameaavam. Sentia saudades 
de todos.
        Joharran largou uma das mos de Ayla, mas, segurando a outra, 
voltou-se para as Cavernas reunidas.
        -  Por favor, acolham esta mulher que viajou de to longe com
Jondalar, dem-lhe uma boa acolhida a esta terra dos Zelandonii, os Filhos 
da Grande Me Terra. Mostrem a esta mulher a hospitalidade e o respeito 
com os quais os Zelandonii dignificam todos os seus hspedes, 
principalmente um Abenoado de Doni. Mostrem a ela que estimamos os 
nossos visitantes.
        Houve alguns olhares de esguelha na direo de Marona e suas amigas. 
A brincadeira no era mais to engraada. Era a vez delas de se sentirem 
constrangidas, e Portula, pelo menos, ficou vermelha quando ergueu a vista 
para a forasteira, de p na Pedra do Pronunciamento, usando a roupa de 
baixo de um jovem Zelandonii e o cinto da puberdade. Ayla no sabia que as
vestes que lhe deram eram inadequadas. No importava. O modo como ela as 
usou as tornou totalmente adequadas.
        Ayla, ento, sentindo a necessidade de fazer alguma coisa, deu um 
curto passo  frente.
        -  Em nome de Mut, a Grande Me de Todos, a quem vocs conhecem 
como Doni, eu sado vocs, Zelandonii, Filhos desta linda terra, Filhos da 
Grande Me Terra, e agradeo por me acolherem. Tambm agradeo por 
acolherem os meus amigos animais em seu meio; por permitirem que Lobo 
fique comigo no interior de uma habitao. - Ao ouvir o seu nome, Lobo olhou 
para cima, em direo a ela. - E por fornecerem um lugar para os cavalos 
Huiin e Racer.
        A reao imediata da multido foi de uma surpresa assustadora. 
Apesar de seu sotaque bastante perceptvel, no foi o seu modo de falar 
que causou espanto nas pessoas.
        Dentro do esprito da formalidade das apresentaes, Ayla 
pronunciou o nome da gua do jeito que dera originalmente a Huin, e as 
pessoas ficaram pasmadas com o som que sara de sua boca. Ayla reproduziu 
o relincho com tal perfeio, que, por um momento, elas pensaram se tratar 
de um cavalo. No era a primeira vez que surpreendia as pessoas com a sua 
habilidade para imitar o som de um animal - um cavalo no era o nico animal 
que ela conseguia imitar.
        Ayla no se recordava da lngua que aprendera quando criana; no 
conseguia se lembrar de coisa alguma sobre a sua vida antes do Cl, exceto 
por uns sonhos vagos e um medo mortal de terremotos. Mas os parentes de 
Ayla tinham uma compulso inata, um mpeto gentico, quase to forte 
quanto a fome, a linguagem falada. Quando vivia sozinha no vale, aps deixar 
o Cl e antes de voltar a aprender a falar com Jondalar, desenvolveu 
verbalizaes para si mesma, s quais atribua um significado, uma linguagem 
que somente ela, e de certo modo Huiin e Racer, conseguiam entender.
        Ayla tinha uma aptido natural para reproduzir sons, mas, por no ter 
uma linguagem verbal e viver sozinha, ouvindo apenas os sons produzidos 
pelos animais passou a imt-los. A lngua particular que inventou era uma 
combinao de rudos de beb que o seu filho havia comeado a fazer, antes 
de ser forada a deix-lo, com as poucas palavras faladas pelo Cl, e a 
imitao onomatopaica dos sons produzidos pelos animais, incluindo piados 
de pssaros. O tempo e a prtica a tornaram to habilidosa na imitao 
desses sons, que nem mesmo os bichos eram capazes de notar a diferena.
        Muita gente conseguia imitar animais; tratava-se de uma til 
estratgia de caa, se a imitao fosse razovel, mas ela era to boa, que 
parecia algo fantstico.
        Foi isso que causou o momento de consternao, mas as pessoas, 
acostumadas a um certo elemento de caoada por parte dos oradores 
quando a ocasio no era totalmente sria, convenceram-se de que ela 
produzira o som como um toque de humor. O choque inicial cedeu lugar a 
sorrisos e risadinhas de descontrao.
        Ayla, que ficara um pouco apreensiva diante da reao inicial, 
percebeu o alvio da tenso e tambm relaxou. Quando as pessoas sorriram 
para ela, Ayla no pde evitar retribuir com um dos seus belos e gloriosos 
sorrisos que pareciam faz-la resplandecer.
        -  Jondalar, com uma potranca como essa, como vai conseguir manter 
afastados os jovens garanhes? - bradou uma voz. Tratava-se da primeira 
manifestao de reconhecimento da beleza e da atrao exercida por Ayla.
        O homem de cabelos louros sorriu.
        -  Terei que cavalg-la bastante, mant-la ocupada - retrucou. - Voc 
sabe que eu aprendi a montar enquanto estive fora, no  mesmo?
        -  Jondalar, voc j sabia "montar" antes de partir!
        Seguiu-se um estrondo de gargalhadas; dessa vez, Ayla percebeu, as 
risadas eram uma reao a algo engraado.
        Joharran falou, quando o rudo diminuiu:
        - S tenho mais uma coisa a dizer - anunciou. - Quero convidar todos 
Zelandonii, que vieram das Cavernas vizinhas, para se juntar  Nona Caverna 
no festim que preparamos para dar as boas-vindas a Jondalar e Ayla.

        O dia todo, maravilhosos aromas emanaram das reas de cozinhar da 
comunidade, na distante ponta desocupada a sudoeste do abrigo, 
estimulando o apetite de todos, e um grande nmero de pessoas havia se 
ocupado com os preparativos de ltima hora, antes de Joharran ter 
comeado a falar. Depois das apresentaes, quando a aglomerao seguiu 
em direo  ponta distante, Jondaalar e Ayla foram impelidos adiante, mas 
a multido tomou cuidado de deixar um espao em volta do lobo, que seguia 
um passo atrs da mulher.
        A comida estava arrumada de forma atraente em bandejas e vasilhas 
feitas de osso, capim e fibras tecidas, e madeira entalhada, e dispostas em 
compridas mesas baixas feitas de blocos e placas de calcrio. Pinas de 
madeira curvada, colheres de chifre entalhados, grandes facas de slex 
encontravam-se convenientemente perto, prontas para serem usadas como 
utenslios para se servir. A maioria das pessoas trouxe os prprios pratos 
de comer, embora houvesse alguns a mais para aqueles que precisassem.
        Ayla parou um momento para admirar a ostentao. Havia os quartos 
de uma rena jovem, assados inteiros, uma gorda tetraz, travessas de trutas 
e lcios, e, muito mais valiosos durante o incio do vero, pores de 
hortalias ainda escassas,  razes jovens,  verduras frescas, brotos novos e 
jovens samambaias firmemente enroscadas.
        Flores comestveis de asclpia acrescentavam um agradvel toque 
decorativo a muitos dos pratos. Tambm havia amndoas e frutas secas da 
colheita do outono anterior, e recipientes de um caldo substancial, com 
nacos de alimentos desidratados e reconstitudos, como carne de auroque, 
razes e cogumelos.
        Um pensamento ocorreu a Ayla: se eles ainda tinham tanta variedade 
de comida valiosa, apesar de sobreviverem aos rigores de um longo inverno, 
isso realmente era uma boa referncia sobre sua habilidade para organizar 
a coleta, a preservao, o armazenamento e a distribuio das provises 
adequadas a fim de manter as varias Cavernas  Zelandoni por toda a 
estao fra. S as cerca de duzentas pessoas da  Nona Caverna j 
formariam uma comunidade grande demais, em uma regio menos produtiva, 
para se sustentar durante um ano inteiro, mas o meio ambiente 
excepcionalmente rico, como tambm o grande nmero de abrigos 
confortveis e aproveitveis estimulavam o crescimento populacional de 
vrias Cavernas.
        O lar da Nona Caverna dos Zelandonii era um alto rochedo de calcrio
cuja face foi esculpida pelo tempo e desgastado para formar uma enorme 
prateleira suspensa que ia ligeiramente do sul em direo a leste e quase a 
sudoeste em uma curva comprida e estreita, voltada para o sul, que seguia O 
Rio. A salincia que projetava abrigava uma rea de duzentos metros de 
extenso e quarenta e cinco de profundidade, oferecendo quase dez mil 
metros quadrados de espao coberto habitvel. O solo de pedra abaixo da 
grande lapa, com camadas seculares de terra e pedregulhos socados, 
estendia-se como um terrao ou varanda um tanto alm da beirada da 
salincia.
        Com tanto espao disponvel, os membros da Nona Caverna no 
ocupavam com construes habitveis toda a rea protegida. Ningum havia 
resolvido isso intencionalmente, mas, talvez, de forma intuitiva, para 
determinar e manifestar limites bem definidos da rea contgua onde os 
artesos da vizinhana costumavam se reunir, os espaos de moradia da 
Nona Caverna ficavam agrupados na ponta oriental do abrigado. Como 
tinham muito espao para se espalhar, o lugar imediatamente a oeste das 
habitaes era usado como local de trabalho da comunidade. A sudoeste 
dele, e continuando at o fim, ficava um grande espao desocupado, para as 
crianas brincarem e para as pessoas se reunirem fora de suas habitaes, 
e, ainda assim, protegidas dos rigores do tempo.
        Apesar de nenhuma das outras se aproximar do tamanho da Nona 
Caverna, havia muitas outras Cavernas Zelandon ao longo do Rio e seus 
afluentes, a maior parte deles vivendo, pelo menos no inverno, em 
semelhantes abrigos resguardados de calcrio com espaosas varandas 
frontais do mesmo material. Embora as pessoas no soubessem, e os seus 
descendentes, durante muitos milnios, nem mesmo pensassem nesses 
termos, a localizao da terra dos Zelandonii ficava a meio caminho do Plo 
Norte e do equador. Eles no precisavam saber disso para entender os 
benefcios da equidistncia de sua posio latitudinal. Ali viviam havia 
muitas geraes e aprenderam com a experincia, transmitindo-a atravs do 
exemplo e das tradies, que, sabendo-se como utiliz-las, o territrio tinha 
vantagens em todas as estaes.
        No vero, as pessoas costumavam viajar em torno da enorme regio 
que consideravam como a terra Zelandonii, normalmente vivendo ao ar livre, 
em barracas ou refgios construdos com materiais naturais, principalmente 
ao se juntarem em grandes grupos, em geral quando iam fazer visitas, caar, 
ou coletar boas quantidades da produo de legumes. Mas, quando 
conseguiam, sempre ficavam felizes por encontrar um abrigo de pedra 
voltado para o sul, para utiliz-lo temporariamente, ou compartilhar abrigos 
de amigos e parentes, por causa de suas indiscutveis vantagens.
        Mesmo durante a Era Glacial, quando o limite, ao norte, da orla da 
mais prxima massa de gelo estava a apenas alguns poucos quilmetros, os 
dias claros estao temperada podiam ser bem quentes nas latitudes mdias. 
        Quando o sol passava acima, parecendo girar em torno do grande 
planeta-me, ele seguia pelo cu sudoeste. O grande rochedo saliente 
protetor da Nona Caverna, e outros virados para o sul ou sudoeste, 
projetavam uma sombra abaixo deles, durante o calor do meio-dia, 
fornecendo o conforto de uma atraente obscuridade refrescante.
        E quando o tempo comeava a esfriar, anunciando a estao 
inclemente de frio intenso em territrios periglaciais, eles agradeciam pelos 
seus lares mais permanentes e protegidos. Durante os invernos glaciais, 
ainda que prevalecessem os ventos cortantes e temperaturas bem abaixo do 
ponto de congelamento, os dias de frio mais intenso geralmente eram secos 
e claros. Nessas ocasies o brilhante orbe pendia baixo no cu, e os 
compridos raios do sol vespertino podiam penetrar fundo no abrigo voltado 
para o sul, dando um beijo de calidez solar na pedra acolhedora. A grande 
placa de pedra apreciava o seu presente e o mantinha at a noite, quando o 
frio intenso do gelo mordia mais fundo, e ento ela transferia o seu calor 
para o espao protegido.
        Roupas adequadas e fogo eram essenciais para se sobreviver nos 
continentes setentrionais, quando as geleiras cobriam quase um quarto da 
superfcie da Terra, mas, na terra dos Zelandonii, o calor solar passivo dava 
uma significativa contribuio ao aquecimento de seu espao habitacional. 
Os imensos rochedos com a proteo de seus abrigos eram um motivo 
importante para a regio estar entre as mais densamente povoadas de todo 
o antigo mundo gelado.
        Ayla sorriu para a mulher responsvel pela organizao do banquete.
        -  Est to bonito, Proleva. Se os maravilhosos odores no me 
deixassem faminta, eu ficaria satisfeita s de olhar.
        Proleva retribuiu o sorriso, satisfeita.
        -   a especialidade dela - afirmou Marthona. Ayla virou-se, um tanto 
surpresa em ver a me de Jondalar; ela a havia procurado, antes de subir na 
Pedra do Pronunciamento, mas no conseguiu ach-la. - Ningum  capaz de 
organizar um festim ou uma reunio como Proleva. E tambm  uma tima 
cozinheira, mas a sua habilidade em angariar as contribuies de alimentos e 
a ajuda de outras pessoas  que a torna um trunfo para Joharran e a Nona 
Caverna.
        -  Aprendi com voc, Marthona - reconheceu Proleva, obviamente 
encantada com o grande elogio da me de seu parceiro.
        -  Voc fez mais do que me superar. Nunca fui to boa em preparar 
banquetes como voc acabou se tornando - concedeu Marthona.
        Ayla notou a referncia especfica ao preparo de banquetes, e 
lembrou que a "especialidade" de Marthona no fora organizar festins e 
reunies. A sua habilidade de organizao tinha sido utilizada como lder da 
Nona Caverna antes de Joharran.
        -  Espero que, da prxima vez, me deixe ajud-la, Proleva - pediu Ayla. 
- Gostaria de aprender com voc.
        -  Ficarei feliz se me ajudar da prxma vez, mas, j que este 
banquete  para voc, e as pessoas esto esperando que voc comece, posso 
lhe servir um pouco desse assado de rena jovem?
        -  E o seu animal lobo? - quis saber Marthona. - Ele gostaria de um 
pouco de carne?
        -  Gostaria, mas no precisa ser uma carne jovem e tenra. E provvel 
que ele fique mais contente com um osso, desde que haja nele um resto de 
carne e no sirva para se fazer sopa - explicou Ayla.
        -  H muitos ali, perto das fogueiras de cozinhar - mostrou Proleva -, 
mas, antes, pegue para voc uma fatia de rena e uns brotos de hemerocale.
        Ayla estendeu sua vasilha de comer, para aceitar o pedao de carne e 
uma concha dos quentes legumes verdes, depois Proleva chamou outra 
mulher para servir a comida e foi com Ayla na direo dos braseiros, 
permanecendo do seu lado esquerdo, longe de Lobo. Ela os conduziu  pilha 
de ossos ao lado de um enorme braseiro e ajudou Ayla a escolher um 
comprido osso quebrado com uma rebarba brilhante numa ponta. O tutano 
fora extrado, mas pedaos acastanhados de carne crua ressecada ainda 
estavam agarrados a ele.
        -  Esse est timo - disse Ayla, enquanto o lobo a olhava com a lngua 
pendente em antecipao. - Quer dar para ele, Proleva?
        Proleva fez uma careta nervosa. Ela no queria ser indelicada com 
Ayla, principalmente depois da pea pregada por Marona, mas no estava 
ansiosa para dar um osso a um lobo.
        -  Eu dou - antecipou-se Marthona, sabendo que todos ficariam menos 
temerosos se a vissem fazer aquilo. - O que devo fazer?
        -  Pode lev-lo at ele ou jogar para ele - ensinou Ayla. Ela percebeu 
que vrias pessoas, inclusive Jondalar, haviam se juntado ao grupo. Ele 
exibia no rosto um sorriso divertido.
        Marthona pegou o osso e o manteve estendido para o animal, enquanto 
se aproximava dele; ento, mudando de ideia, jogou-o na direao do lobo. Ele 
deu um salto e agarrou-o no ar com os dentes, um truque que causou 
comentrios admirados, e em seguida olhou para Ayla,  espera.
        Leve-o para al, Lobo - ordenou, fazendo um gesto para indicar o 
grande cepo carbonizado na beira do terrao. O lobo transportou o osso 
como se fosse uma posse valiosa, instalou-se perto do cepo e comeou a roer.
        Quando voltaram para as mesas, todos queriam oferecer a Ayla e a 
Jondalar provas de comidas especiais, e ela notou que tinham uma variedade 
de sabores diferentes daqueles que ela conhecera na infncia. Uma coisa, 
porm, aprendera nas suas viagens: quaisquer que fossem as comidas mais 
apreciadas pelas pessoas de uma regio, mesmo sendo incomuns, 
costumavam ser saborosas.
        Um homem, um pouco mais velho do que Jondalar, aproximou-se do 
grupo que cercava Ayla. Embora ela achasse a sua aparncia bastante 
desmazelada - os cabelos louros sujos estavam escuros e engordurados e as 
roupas, enegrecidas e precisando de conserto -, muitas pessoas sorriram 
para ele, principalmente os rapazes. Ele carregava sobre o ombro um 
recipiente semelhante a uma bolsa de gua. Era feito do estmago 
praticamente impermevel de um animal e estava cheio de um lquido que 
distendia a sua forma.
        Pelo tamanho, Ayla adivinhou que o recipiente devia ter vindo do 
estmago de um cavalo; ele no parecia ter o contorno caracterstico de 
uma bolsa de gua feita do estmago com mltiplas cmaras de um 
ruminante. E, pelo cheiro, ela percebeu que no continha gua. Mais 
exatamente, o odor lembrava-lhe a bouza de Talut, a bebida fermentada 
que o chefe do Acampamento do Leo fazia com seiva de btula e outros 
ingredientes - que ele gostava de manter em segredo, mas geralmente 
inclua gros de alguma espcie.
        Um rapaz, que andara rondando por perto de Ayla, levantou a vista e 
deu um largo sorriso.
        -  Laramar! - exclamou. -Voc trouxe um pouco da sua barma? 
        Jondalar ficou contente em v-lo distrado. Ele no o conhecia, mas 
sabia que o nome do homem era Charezal. Tratava-se de um novo membro da 
Nona Caverna que viera de um grupo bem distante dos Zelandonii, e era 
muito jovem. Provavelmente, quando eu parti, ele ainda nem havia conhecido 
a sua primeira donii-mulher, imaginou Jondalar, mas estivera esvoaando em 
volta de Ayla como um mosquito.
        -  Trouxe. Quis dar uma contribuio ao Banquete de Boas-vindas 
para essa jovem - respondeu Laramar, sorrindo para Ayla.                                         
        O sorriso pareceu insincero, o que despertou a sensibilidade do Cl de 
Ayla. Ela prestou mais ateno  linguagem que o corpo dele falava, e 
rapidamente concluiu que aquele no era um homem confivel.
        -  Uma contribuio? - perguntou uma das mulheres, com uma ponta 
de sarcasmo. Ayla imaginou que era Salova, a parceira de Rushemar, um dos 
dois homens que ela considerava como segundos em comando de Joharran, 
como o fora Grod para Brun, no Cl. Lderes precisavam de algum em quem 
pudessem confiar, decidiu ela.
        -  Achei que era o mnimo que eu podia fazer - disse Laramar. - No   
frequentemente que uma Caverna pode dar as boas-vindas para algum de 
to longe.
        Ao levantar dos ombros a pesada bolsa e girar o corpo para pous-la 
na mesa de pedra mais prxima, Ayla ouviu a mulher murmurar a meia-voz:
        -  E menos frequentemente Laramar contribuir com alguma coisa. O 
que ser que ele quer?
        Ficou bvio para Ayla que ela no era a nica a desconfiar do homem. 
Outros tambm no confiavam nele. Isso a deixou curiosa a seu respeito. 
Gente com canecos na mo j se aglomerava em volta dele, mas o homem 
fazia questo de se concentrar em Ayla e Jondalar.
        -  Creio que o viajante que retornou e a mulher que ele trouxe devem 
ser os primeiros a beber - sugeriu Laramar.
        -  Eles dificilmente recusaro uma honra to grande - murmurou 
Salova. Ayla mal conseguiu ouvir o comentrio zombeteiro, e ficou 
imaginando se foi uma outra pessoa que o fez. Mas a mulher estava certa. 
Eles no podiam recusar. Ayla olhou para Jondalar, que prontamente 
esvaziou a gua de sua caneca e gesticulou com a cabea em direo ao 
homem. Ela esvaziou o prprio caneco ao se encaminharem para Laramar.
        -  Obrigado - disse sorrindo Jondalar. Ayla achou o sorriso dele to 
insincero quanto o de Laramar. -  muita considerao de sua parte. Todos 
sabem que a sua barma  a melhor, Laramar. J conheceu Ayla?
        -  Juntamente com todo mundo - respondeu -, mas ainda no fui 
apresentado.
        -  Ayla dos Mamuti, este  Laramar da Nona Caverna dos Zelandonii. 
E  verdade. Ningum faz uma barma melhor do que a dele - reafirmou 
Jondalar.
        Ayla achou que foi uma apresentao formal bastante limitada, mas o 
homem sorriu diante do elogio. Ela entregou o seu caneco para Jondalar, a 
fim de ficar com ambas as mos livres e as estendeu para o homem.
        -  Em nome da Grande Me Terra, eu sado voc, Laramar da Nona 
Caverna dos Zelandonii - disse ela.
        -  E eu lhe dou as boas-vindas - retrucou ele, pegando as mos dela, 
mas segurando-as apenas brevemente, quase como se estivesse 
constrangido. - Em vez de uma apresentao formal, deixe-me que lhe 
oferea uma excelente acolhida.
        Laramar foi abrir o seu recipiente. Primeiro, desenrolou um pedao 
impermevel de intestino limpo de uma bica feita de uma nica vrtebra da 
coluna vertebral de um auroque. O material irrelevante em volta do osso 
tubular tinha sido cortado e fora feito um sulco envolvendo o lado de fora. 
Depois, fora inserido em uma abertura natural do estmago, e uma 
resistente corda amarrada em volta da pele que circundava o osso, a fim de 
que fosse puxada para o sulco, mantendo-o no lugar e fazendo uma ligao 
estanque. Ento, ele retirou o tampo, uma fina tira de couro em que foram 
dados vrios ns ao mesmo tempo em uma ponta at ficar grande o bastante 
para tapar o buraco central. Era muito mais fcl controlar o fluxo de lquido 
da bolsa flexvel atravs do buraco natural no centro do pedao macio da 
espinha dorsal.
        Ayla apanhou de volta o seu caneco com Jondalar e o estendeu. 
Laramar o encheu mais da metade. Em seguida, despejou um pouco no de 
Jondalar. Ayla deu um pequeno gole.
-   muito bom - elogiou, sorridente. - Quando eu vivia com os Mamuti, o 
chefe, Talut, costumava fazer uma bebida parecida com esta, com seiva de 
btula, gros e outros ingredientes, mas devo admitir que esta  melhor.
Laramar olhou em volta, com um sorriso afetado de satisfao, para as 
pessoas ali perto.
        -  Do que  feita? - quis saber Ayla, tentando captar o sabor.
        -  No fao sempre da mesma maneira. Depende do que h disponvel. 
s vezes, uso seiva de btula e gros - respondeu Laramar, evasivo. - Voc
consegue adivinhar o que tem nela?
        Ela provou novamente. Era difcil adivinhar os ingredientes depois de 
fermentados.
        -  Acho que h gros, talvez seiva de btula ou de alguma outra rvore, 
talvez fruta, porm algo mais, algo doce. Mas no sei dizer as propores, o 
quanto de cada foi usado - arriscou Ayla.
        -  Voc tem um excelente paladar - afirmou ele, evidentemente 
mpressionado. - Essa fornada tem fruta, mas que restaram em uma 
rvore depois uma geada, o que as torna mais doces, mas o doce que voc 
sentiu  mel.
        -  Claro! Agora que falou, consigo sentir o sabor de mel - conferiu
Ayla.
        -  Nem sempre consigo mel, mas, quando consigo, ele deixa a barma 
melhor e mais forte - justificou Laramar, dessa vez com um sorriso 
verdadeiro. No h muita gente com quem eu possa discutir a preparao 
dessa beberagem.
        Muitas pessoas tinham um ofcio, algo no qual desenvolviam uma 
habilidade para se sobressair. Laramar sabia que era capaz de fazer barma 
melhor do que qualquer um. Ele considerava isso o seu ofcio, a nica coisa 
que conseguia bem, mas achava que poucos lhe davam o crdito que 
acreditava merecer.
        Muitos alimentos fermentavam naturalmente, alguns na parreira ou 
em que cresciam; s vezes, at mesmo animais que os comiam eram afetados. 
muita gente fazia beberagens fermentadas, pelo menos ocasionalmente, mas 
eram irregulares e geralmente o seu produto azedava. Marthona costumava 
ser citada como fabricante de um excelente vinho, mas isso era considerado 
por muitos - uma coisa sem importncia e,  claro, essa no era a sua nica 
habilidade.
        Sempre se podia contar com Laramar para fazer uma beberagem 
fermentada que se tornava alcolica, no vinagrada, e a sua geralmente era 
boa. Ele sabia que isso no era sem importncia, requeria habilidade e 
conhecimento para se fazer bem, mas a maioria s se importava com a fase 
final do seu produto. No ajudava o fato de ele ser conhecido por ingerir a 
maior parte da produo e costumar estar "doente" demais para caar de 
manh ou participar de alguma atividade coletiva, s vezes desagradvel, 
mas normalmente necessria, que precisava ser feita em benefcio da 
Caverna.
        Logo aps ter servido a barma aos convidados de honra, surgiu uma 
mulher ao lado de Laramar. Uma criana pequena estava pendurada em sua 
perna, e ela parecia ignor-la.
        A mulher tinha o caneco na mo, que estendeu na dreo de Laramar. 
Um estremecer de desprazer percorreu por um instante as feies dele, 
mas manteve a expresso cuidadosamente neutra, ao servir-lhe um pouco de 
barma.
        -  No vai apresentar ela  sua companheira? - insinuou a mulher, 
obviamente dirigindo a pergunta a Laramar, mas olhando para Ayla.
        -  Ayla, essa  a minha companheira, Tremeda, e esse pendurado em 
sua perna  o filho mais novo dela - apresentou Laramar, limitando ao mnimo 
o pedido dela, e de certa forma relutante, pensou Ayla.
        -  Tremeda, essa  Ayla dos... Matumo.
        -  Em nome da Me, eu a sado, Tremeda da... - iniciou Ayla, pousando 
o caneco, para poder usar ambas as mos durante a apresentao formal.
        -  Eu lhe dou as boas-vindas, Ayla - enunciou Tremeda, e logo tomou 
um trago, sem se importar em deixar as mos livres para o cumprimento.
        Mais duas crianas se amontoaram em volta dela. As roupas de todas 
elas estavam to esfarrapadas, manchadas e sujas, que se tornava difcil 
perceber as pequenas diferenas que Ayla havia observado entre os meninos 
e meninas zelandonii, e a prpria Tremeda no parecia nada melhor. O 
cabelo estava despenteado, e as roupas, manchadas e sujas. Ayla desconfiou 
que Tremeda condescendia demais com a beberagem do parceiro. O mais 
velho dos filhos, um menino, Ayla achou, olhava para ela com uma expresso
desagradvel.
        Por que ela fala to esquisito? - perguntou ele, levantando a vista para 
a mulher.  - E por que est usando roupa de baixo de menino?
        -      No sei. Por que no pergunta para ela? - sugeriu Tremeda, 
bebendo o restante do lquido do seu caneco.
        Ayla olhou para Laramar e viu que ele estava fulo de raiva. Parecia 
estar prestes a bater no garoto. Antes que o fizesse, Ayla falou com o 
menino.
        - O motivo pelo qual tenho um modo diferente de falar  porque vim 
de  longe e cresci com um povo que no falava do mesmo modo que os 
Zelandonii. Jondalar me ensinou a falar a lngua de vocs, depois que eu j 
era crescida. Quanto s roupas, elas me foram dadas de presente, hoje mais 
cedo.
        O garoto pareceu surpreso por Ayla ter respondido para ele, mas no 
hesitou em fazer outra pergunta.
        -  Por que algum lhe daria roupas de menino? - quis saber.
        -  No sei - respondeu. - Talvez quisessem fazer uma brincadeira, mas 
eu gostei delas. So confortveis. Voc no acha?
        -  Acho que sim. Nunca tive umas melhores do que estas - justificou-
se o menino.
        -  Ento talvez a gente possa fazer algumas para voc. Se voc me 
ajudar, eu as farei de bom grado - prometeu Ayla.
        Os olhos dele se iluminaram.
        -  Est falando srio?
        -  Sim, estou. Pode me dizer o seu nome?
        - Eu sou Bologan - informou o garoto.
        Ayla estendeu ambas as mos. Bologan olhou-a surpreso. No 
esperava uma apresentao formal, e no estava certo do que devia fazer. 
No sabia se tinha uma  denominao formal. Nunca tinha ouvido a sua me 
ou o homem da sua lareira saudarem ningum usando os seus nomes e laos 
familiares. Ayla aproximou-se e, segurou as mos tisnadas dele.
        -  Eu sou Ayla dos Mamuti, Membro do Acampamento do Leo - 
comeou, e prosseguiu com a sua completa denominao formal. Como o 
garoto no respondeu com a sua, ela o fez para ele. - Em nome de Mut, a 
Grande Me Terra, tambm conhecida como Doni, eu sado voc, Bologan da 
Nona Caverna dos Zelandonii; Filho de Tremeda, Abenoada por Doni, 
acasalada com Laramar Fabricante de Barma da Mais Alta Qualidade.
        Do jeito que ela falou pareceu como se ele realmente tivesse nomes e 
familiares dos quais se orgulhava, como todos os demais. Olhou para cima, 
para a me e o parceiro dela. Laramar no estava mais zangado. Eles sorriam 
e pareciam bastante felizes pelo modo como ela os denominara.
        Ayla notou que Marthona e Salova tinham se juntado a eles.
        -  Eu gostaria de um pouco da Barma da Mais Alta Qualidade - pedu 
Salova. Laramar pareceu mais do que feliz em servi-la.
        -  E eu tambm - disse Charezal, fazendo logo o seu pedido, pois 
outras pessoas comeavam a se apinhar em volta de Laramar com os canecos
estendidos.
        Ayla percebeu que Tremeda tambm pegou um caneco cheio, antes de 
sair seguida pelos filhos. Bologan ficou olhando para ela, enquanto se 
afastavam.
        Ayla sorriu para ele e ficou feliz ao v-lo retribuir o sorriso.
        - Creo que voc tornou aquele rapaz num amigo - observou Marthona.
        -  Um rapaz um tanto quanto desordeiro - acrescentou Salova. - Voc 
vai mesmo fazer roupas de baixo de inverno para ele?
        -  Por que no? Eu gostaria de aprender como isto  feito - afirmou 
Ayla, indicando a roupa que vestia. - Posso ter um filho algum dia. E queria 
fazer uma veste desta para mim.
        -  Fazer uma para voc? Quer dizer que vai usar isto? - surpreendeu-
se Salova.
        -  Com algumas variaes, como uma camisa mais bem ajustada. J 
experimentou uma?  muito cmoda. E, alm do mais, me foi dada como 
presente de boas-vindas. Vou demonstrar o quanto gostei dela - disse Ayla, 
revelando um pouco de sua raiva e orgulho.
        Os olhos de Salova arregalaram-se ao olhar para a estrangeira que 
Jondalar trouxera para casa, subitamente consciente outra vez do seu modo 
incomum de se expressar.
        Essa mulher no  algum que se deixa provocar, imaginou ela. Marona 
pode ter tentado constranger Ayla, mas ela virou-lhe as costas. Quem 
acabar humilhada ser Marona. Vai se encolher toda vez que a encontrar 
usando essa roupa. No gostaria que Ayla se zangasse comigo!
        -  Bologan vai mesmo precisar de algo quente para vestir neste 
inverno - comentou Marthona. Ela no havia perdido um s detalhe da sutil 
comunicao havida entre as duas mulheres mais jovens. Era bom mesmo que 
Ayla comeasse logo a firmar o seu lugar, ponderou ela. As pessoas precisam 
saber que no se pode levar vantagem com ela to facilmente. Afinal de 
contas, ela vai se acasalar com um homem que nasceu e foi criado no meio 
das pessoas que so os confiveis lderes dos Zelandonii.
        -  Ele precisa de algo para vestir a qualquer momento - observou 
Salova. Alguma vez j teve algo decente? Essas crianas s tm alguma 
coisa porque as pessoas sentem pena delas e lhes do aquilo que no querem 
mais. Vocs notaram que, por mais que ele beba, Laramar sempre consegue 
ter barma suficiente para trocar por tudo o que ele quer, principalmente 
para fazer mais barma, mas no o bastante para alimentar a parceira e suas 
crias? E nunca est por perto quando se precisa fazer algo, como espalhar 
p de pedra nas fossas, ou mesmo caar.
        E Tremeda no ajuda - continuou Salova. - Os dois so muito 
parecidos e ela sempre est "doente" para poder ajudar na coleta de 
alimentos ou em projetos comunitrios, apesar de no se importar em pedir 
uma parte dos esforos de outra pessoa, para alimentar "os pobres filhos 
famintos". E quem pode recusar. Eles se vestem mesmo muito mal, 
raramente se limpam e vivem com fome.
        Aps a refeio, a reunio tornou-se mais turbulenta, principalmente 
depois da barma de Laramar. Ao cair a escurido, os ruidosos festejantes 
deslocaram-se para uma rea mais prxima ao centro do espao sob a 
imensa prateleira de pedra que cobria todo o povoado, e uma grande 
fogueira foi acesa apenas a pouca distncia da beira do abrigo acima. Mesmo 
durante os dias mais quentes do vero, a noite trazia um frio penetrante, 
uma lembrana das grandes massas de gelo glacial ao norte.
        A fogueira levou de volta o calor para a laje, e  medida que a pedra 
se aquecia, aumentava o conforto nos arredores. Tambm aumentava a 
multido amistosa, se bem que mudando constantemente, em volta do casal 
recm-chegado. Ayla conheceu tanta gente, que, a despeito de sua 
excepcional habilidade de memorizao, no tinha certeza de que se 
lembraria de todos.
        Lobo voltou a aparecer de repente, quase junto com Proleva, que 
carregava um sonolento Jaradal, e se juntaram ao grupo. O menino levantou 
a cabea e quis descer do colo, para a bvia aflio da me.
        -  Lobo no vai machuc-lo - prometeu Ayla.
        -  Ele  muito bom com as crianas, Proleva - acrescentou Jondalar. - 
Ele foi criado com as crianas do Acampamento do Leo, e protegia 
especialmente as fracas e as doentes.                                                                               
        A me nervosa curvou-se para deixar o menino descer, ao mesmo 
tempo mantinha um brao em volta dele. Ayla aproximou-se, agarrada ao 
animal, principalmente para tranquilizar a mulher.                                                          
        -  Quer tocar em Lobo, Jaradal? - perguntou Ayla. Ele fez que sim, 
levantando e baixando solenemente a cabea. Ela guiou a mo dele em 
direo  cabea de Lobo.
        -  Ele d ccegas! - disse Jaradal com um sorriso.
        -  Sim, o plo dele faz ccegas. E tambm d ccegas nele. Est 
trocando o plo; isso quer dizer que uma parte est caindo - explicou Ayla.
        -  E isso di? - quis saber Jaradal.
        -  No, apenas provoca ccegas.  por isso que, nessa poca, ele gosta 
muito que o cocem.
        -  Por que o plo dele est caindo?
        -  Porque est esquentando. No inverno, quando faz frio, nasce nele 
uma poro de plo, para mant-lo aquecido, mas esquenta demais no vero - 
elucidou Ayla.
        -  Por que ele no coloca um casaco, quando faz frio? - insistiu 
Jaradal A resposta veio de outra parte.                                                        
        -   difcil para os lobos fazerem casacos; por isso, em cada inverno, a
me faz um para eles - afirmou a Zelandoni. Ela havia se juntado ao grupo 
logo atrs de Proleva. - No vero, quando esquenta, a Me tira os casacos 
deles. Quando lobo  troca o plo, essa  a maneira de Don tirar o casaco 
dele, Jaradal.
        Ayla ficou surpresa com a doura na voz da mulher, ao se dirigir ao 
garoto e a ternura em seus olhos. Isso a fez se perguntar se alguma vez a 
Zelandoni pensara ter filhos. Com os seus conhecimentos de medicina, Ayla 
tinha certeza de que a donier sabia como expulsar uma gravidez, porm era 
mais difcil saber como iniciar uma ou evitar um aborto. Fico imaginando 
como ela acha que a vida comea, refletiu Ayla, ou se sabe como impedi-la.
        Quando Proleva pegou o menino no colo para lev-lo para a habitao, 
Lobo passou a segui-los. Ayla chamou-o de volta.
        -Creio que deve ir para a habitao de Marthona, Lobo - sugeriu 
fazendo-lhe o sinal de "ir para casa". A casa dele era qualquer lugar onde 
Ayla tivesse deixado as peles dela.
        Depois que a escurido gelada dominou a regio, superando o paliativo 
da luz de uma fogueira, muita gente deixou a rea principal da comemorao. 
Alguns, principalmente famlias com crianas pequenas, se retiraram para as 
suas habitaes. Outros, na maioria casais jovens, mas tambm gente mais 
velha, e eventualmente mais de dois, permaneceram nas sombras em volta 
das imediaes do fogo, ocupados uns com os outros de um modo mais ntimo, 
s vezes conversando, s vezes se abraando. No era incomum 
compartilhar parceiros em tais ocasies, e desde que todas as partes 
concordassem, no resultava nenhum dano.
        A ocasio lembrou a Ayla uma comemorao em Honra  Me, e se 
partilhar o Seu Dom do Prazer era honr-La, Ela parecia estar sendo 
bastante honrada naquela noite.
        Os Zelandonii no eram to diferentes dos Mamuti, avaliou Ayla nem 
dos Xaramudi ou Losadunai, e at mesmo a lngua era a mesma dos 
Lanzadonii.
        Vrios homens tentaram atrair a bela estrangeira para compartilhar 
os prazeres, o Dom da Grande Me. Ayla ficou contente com a ateno, mas 
deixou claro que no sentia desejo por nenhum outro alm de Jondalar.
        Os sentimentos dele eram confusos em relao a todo o interesse que 
ela despertava. Estava contente por Ayla ter sido to bem recebida pelo 
seu povo, e orgulhoso por tantos homens admirarem a mulher que havia 
trazido, mas desejava que eles no se mostrassem to abertamente vidos 
por lev-la para as suas peles principalmente aquele desconhecido chamado 
Charezal - e estava feliz por no ter mostrado inclinao por mais ningum. 
Ciume no era bem tolerado pelos Zelandonii. Isso podia levar a discrdia e 
rivalidade, e mesmo briga, e, como uma comunidade, eles prezavam, acima de
tudo,  a harmonia e a cooperao. Em uma terra que era mais do que uma 
vastdo gelada grande parte do ano, a disposio para a assistncia mtua 
era essencial a sobrevivncia. A maior parte de seus costumes e hbitos 
visava a manuteno da boa vontade, e desestimulava qualquer coisa, como o 
cime, que pudesse colocar em risco suas relaes amigveis.
        Jondalar sabia que teria problemas para ocultar o seu cime, se Ayla 
escolhesse outro qualquer. No queria dividi-la com ningum. Talvez, depois
que estivessem acasalados por muitos anos e o conforto do hbito cedesse
lugar  excitao por algum novo, pudesse ser diferente, mas ainda no, e,
em seu corao, duvidava se jamais teria a disposio de compartilhar Ayla.
        Algumas pessoas tinham comeado a cantar e danar, e Ayla tentava
ir na direo delas, mas todos  sua volta se aglomeravam, querendo 
conversar. Um homem em particular, que estivera quase a noite toda 
rondando em volta do grupo, agora parecia resolvido a falar com ela. Mais 
cedo, Ayla imaginou ter notado uma pessoa incomum, mas, quando tentou 
prestar ateno nela, algum lhe perguntou algo ou fez algum comentrio 
que a distraiu.
        Ela olhou para cima, quando um homem lhe ofereceu outro caneco de 
barma. Embora a bebida lhe lembrasse a bouza deTalut, essa era mais forte. 
Sentia-se um pouco tonta e resolveu que estava na hora de parar. Estava 
familiarizada com os efeitos que tais bebidas fermentadas lhe causavam, e 
no desejava ficar "amistosa" demais durante o primeiro contato com o povo 
de Jondalar.
        Ela sorriu para o homem que lhe oferecera o caneco, em educada 
antecipao  recusa, mas o choque de v-lo congelou por um momento o 
sorriso em seu rosto. Rapidamente, o sorriso tornou-se uma expresso de 
afeio e amizade.
        -  Eu sou Brukeval - falou. Ele parecia hesitante e tmido. - Sou primo 
de Jondalar. - Sua voz era um tanto grave, mas intensa e ressonante, muito 
agradvel.
        -  Saudaes! Eu me chamo Ayla dos Mamuti - apresentou-se, 
intrigada no s pela voz ou comportamento dele.
        Ele no parecia muito com o resto dos Zelandonii que ela conhecera. 
Em vez, dos habituais olhos azuis ou cinza, seus olhos enormes eram bem 
escuros. Ayla achou que eram castanhos, mas tornava-se difcil saber ao 
certo  luz da fogueira. Mais impressionante do que os olhos, porm, era o 
todo de seu aspecto. Ele tinha uma aparncia que lhe era familiar. Suas 
feies pareciam com as do Cl!
        Ele  uma mistura, do Cl e dos Outros. Tenho certeza, pensou. Ela 
ficou observando-o, mas apenas com olhadelas. Ele pareceu fazer aflorar o 
seu treinamento como mulher do Cl, e descobriu-se sendo cuidadosa para 
no olh-lo fixamente. Ela no achava que ele era uma mistura uniforme de 
metade do Cl e metade Outros, como Echozar, a quem Joplaya fo 
prometida ou seu prprio filho.
        A aparncia dos Outros era mais marcante naquele homem; a fronte 
era essencialmente alta e reta, inclinando-se apenas um pouco para trs, e 
quando ele se virou, ela pde perceber que, apesar de a cabea ser comprida,
a parte de trs era redonda e carecia do protuberante coque sseo occipital.
Mas o superclio saliente que pendia sobre os grandes olhos profundamente 
engastados, era o seu trao mais caracterstico, no to imponente quanto 
os dos homens do Cl, mas bastante proeminente.
        O nariz, tambm, era bem grande, e embora mais bem modelado do 
que o dos homens do Cl, no geral tinha a mesma forma.
        Ela achou que ele talvez tivesse um queixo recuado. A barba 
castanho-escura tornava difcil saber, mas a prpria barba o fazia se 
parecer com os homens que ela conhecera quando criana. A primeira vez 
que Jondalar se barbeou, o que costumava fazer no vero, foi um choque 
para ela, pois fez com que parecesse muito jovem, um pr-adolescente.
        Ela nunca tinha visto antes um adulto sem a barba. Aquele homem era 
um pouco menor do que o normal, ligeiramente mais baixo do que ela, embora 
fosse de forte compleio, corpulento, musculoso e com um trax pleno e 
abaulado.
        Brukeval tinha todas as qualidades masculinas dos homens com os 
quais Ayla crescera, e, tranquilamente, o achou bonito. At mesmo sentiu um 
qu de atrao. Tambm se sentia embriagada - definitivamente, nenhum 
caneco a mais de barma para ela.
        O afetuoso sorriso de Ayla comunicou o seu sentimento, mas Brukeval 
achou que nela havia uma cativante timidez, por causa do modo como olhava 
para os lados e para baixo. No estava acostumado a mulheres reagirem a 
ele to ardorosamente, em especial uma que estava com o seu alto e 
carismtico primo.
        -  Pensei que ia querer um caneco da barma de Laramar - props 
Brukeval. -Tem havido tanta gente  sua volta, mas ningum se lembrou de 
que voc podia estar com sede.
        -  Obrigada. Estou mesmo com sede, mas no ouso tomar mais um gole 
disso - disse ela, apontando para o caneco. - J tomei demais, e estou tonta. 
        - Em seguida, deu um sorriso, um daqueles seus sorrisos largos, 
intensos e irresistveis.
        Brukeval estava to extasiado que esqueceu de respirar por um 
momento. Passara a noite toda esperando conhec-la, mas tivera medo de se 
aproximar dela. Ja tinha sido anteriormente, sem cerimonia, rejeitado por 
mulheres bonitas. Com aqueles  cabelos dourados brilhando  luz da fogueira, 
o corpo firme e extraordinariamente bem modelado revelando-se 
favoravelmente por causa do couro macio justo, e as feies ligeiramente 
estrangeiras dando-lhe um atrativo extico, ele pensou que Ayla era a 
mulher mais bonita que jamais havia visto.
        Quer que eu pegue outra coisa para voc beber? - perguntou 
finalmente Brukeval, sorrindo com uma ansiedade infantil para agradar. No 
esperava que fosse to acessvel e amistosa.
        -  V embora, Brukeval. Eu cheguei primeiro - disse Charezal, no 
totalmente de brincadeira. Ele tinha visto o modo como Ayla sorrira para 
Brukeval, a noite toda vinha tentando seduzi-la, ou pelo menos arrancar uma 
promessa de que ela o encontraria em uma outra oportunidade.
        Poucos homens seriam to persistentes em tentar interessar uma 
mulher trazida por Jondalar, mas Charezal tinha se mudado de uma distante
Caverna para a Nona havia apenas um ano. Ele era vrios anos mais jovem do 
que Jondalar ainda no atingira a idade adulta na ocasio em que este e o 
irmo partiram em sua Jornada, e desconhecia a fama do homem alto como 
algum dotado de jeito incomparvel com as mulheres. S soubera naquele 
dia que o lder tinha irmo. Tinha ouvido, porm, rumores e fofocas a 
respeito de Brukeval.
        -  No acha que ela vai se interessar por algum cuja me era metade 
cabea-chata, acha? - zombou Charezal.
        Seguiu-se um arfar na multido e um silncio repentino. H anos, 
ningum fazia abertamente tal referncia a Brukeval. Seu rosto distorceu-
se com um olhar virulento de puro dio, ao encarar o rapaz com uma fria 
quase incontrolvel Ayla ficou atordoada ao notar a transformao. S uma 
vez ela tinha visto aquela espcie de fria em um homem de Cl, e isso a 
deixara apavorada.
        Mas aquela no era a primeira vez que algum ridicularizava Brukeval 
daquele modo. Ele se sensibilizara de modo especial com o apuro de Ayla, 
quando falaram dela por estar vestida com as roupas que Marona e as 
amigas lhe deram, Brukeval tambm tinha sido alvo de brincadeiras cruis. 
        Quis correr para proteg-la, como o fez Jondalar, e lgrimas vieram 
aos seus olhos ao ver como Ayla enfrentou as gargalhadas. Ao observ-la 
caminhar to altiva e enfrentar todo mundo, ele perdeu o seu corao para 
ela.
        Mais tarde, ainda que ansiasse falar com ela, sofreu a agonia da 
indeciso hesitou em apresentar-se. As mulheres nem sempre reagiam 
favoravelmente a e ele e preferiu admir-la  distncia do que v-la olh-lo 
com desdm, como o faziam algumas mulheres bonitas. Mas, aps vigi-la por 
algum tempo, finalmente decidiu arriscar. E ela fora to amvel com ele! Sua 
presena pareceu agrad-la. O sorriso dela tinha sido to caloroso e 
receptivo, e a deixara ainda mais bonita.
        No silncio que se seguiu ao comentrio de Charezal, Brukeval viu 
Jondalar aproximar-se por trs de Ayla, rondando de forma protetora. Ele 
invejava Jondalar. Ele sempre invejara Jondalar, que, inclusive, era mais alto 
do que a maioria, embora Jondalar nunca houvesse tomado parte no esporte 
de chamar apelidos, e tivesse defendido mais de uma vez, Brukeval achava 
que ele o fazia por compai xo, e isso era bem pior. Agora Jondalar tinha 
voltado para casa com aquela linda mulher que todos admiravam.
        Por que algumas pessoas eram to favorecidas?
        Seu olhar para Charezal, porm, havia perturbado Ayla mais do que 
ele poderia imaginar. Ela no via uma expresso semelhante desde que 
deixara o cl de Brun; isso lhe lembrou Broud, o filho da companheira de 
Brun, que costumava olh-la daquela maneira. Apesar de Brukeval no estar 
zangado com ela, Ayla estremeceu diante da lembrana e qus ir embora.
        Virou-se para Jondalar.
        - Vamos. Estou cansada - falou a meia-voz em Mamuti, e deu-se 
conta de que estava, de fato, exausta. Eles tinham acabado de completar 
uma longa e rdua Jornada, e acontecera tanta coisa, que era difcil 
acreditar que tinham chegado apenas naquele dia. Houve a ansiedade de ser 
apresentada  famlia de Jondalar e a tristeza de lhes contar sobre a morte 
de Thonolan; a desagradvel brincadeira de Marona, como tambm a emoo 
de conhecer todas as pessoas daquela enorme Caverna; e, agora, Brukeval. 
Era demais.
        Jondalar percebeu que o incidente entre Brukeval e Charezal a 
deixara aflita, e fazia uma ideia do motivo.
        - Foi um dia cansativo - disse ele. - Creio que est na hora de ir.
        Brukeval pareceu perturbado por resolverem partir pouco depois de, 
finalmente, ele ter reunido coragem para falar com ela. Sorriu hesitante.
        -  Voc tem mesmo que ir? - perguntou.
        -  Est tarde. Muta gente j foi dormir, e eu estou cansada - 
respondeu ela, retribuindo o sorriso. Sem aquela expresso malvola, ela foi 
capaz de sorrir para ele, mas o sorriso careceu da calidez de antes. Deram 
boa-noite s pessoas prximas, mas, quando ela olhou para trs, viu Brukeval 
encarando novamente Charezal.
        Ao se encaminhar com Jondalar de volta para as habitaes e a casa 
de Marthona, Ayla perguntou:
        -  Voc viu o olhar que o seu primo deu para Charezal? Estava cheio 
de dio.
        -  No posso censur-lo por estar com raiva de Charezal - respondeu. 
Jondalar tambm no era muito cordial em relao a ele. - Voc sabe que  
um insulto terrvel chamar algum de cabea-chata, e pior ainda dizer que a 
me de algum . Brukeval j sofreu muita zombaria, principalmente quando 
era novo. As crianas so cruis.
        Jondalar passou a contar que, quando Brukeval era criana, sempre 
que algum queria implicar com ele chamava-o de "cabea-chata". Apesar de 
ele no ter a caracterstica especfica que valeu o apelido ao povo do Cl, a 
fronte inclinada para trs, essa era a nica expresso que o fazia reagir 
furiosamente. E, para o menino rfo que mal a conhecera, o pior era se 
referirem  sua me de um modo que significava o tipo de abominao mais 
desprezvel, algum ser metade animal e metade humano.
        Quando ele era menino, por causa de sua previsvel reao emocional, 
as crianas maiores e mais velhas, com a sem-cerimnia de sua crueldade, 
costumavam implicar com ele chamando-o de "cabea-chata" ou "filho de 
uma abominao". Mas, ao crescer, o que lhe faltava em estatura ele 
compensou com a fora. Depois de algumas brigas com garotos, que apesar 
de maiores no eram preo para a sua fenomenal fora muscular, os insultos 
odiosos cessaram, pelo menos na sua frente.
        -  No entendo por que isso incomoda tanto as pessoas, mas deve ser 
verdade - observou Ayla. - Creio que ele  parte Cl. Ele me lembra Echozar, 
mas Brukeval tem menos Cl. D para notar que essa coisa no  to 
marcante, exceto por aquele olhar. Isso me lembrou o jeito como Broud 
olhava para mm.
        -  No tenho certeza se ele  um mestio. Talvez algum ancestral 
tenha vindo de um lugar distante, e essa  a nica possibilidade de ele ter 
alguma semelhana superficial com os ca... o povo do Cl - sugeriu Jondalar.
        -  Ele  seu primo. Que sabe a seu respeito?
        -  No se muita coisa com certeza, mas posso lhe contar o que ouvi - 
respondeu Jondalar. - Os mais velhos dizem que, quando a av de Brukeval 
ainda era jovem, ao viajar para uma Reunio de Vero muito distante, de 
algum modo; separou-se do seu povo. Os Primeiros Ritos dela iam ocorrer 
nessa reunio. Quando a encontraram, j era final do vero. Dizem que ela 
parecia irracional, nem mesmo um pouco coerente. Ela alegou que fora 
atacada por animais. Dizem que nunca voltou a ficar muito bem, mas no 
viveu muito. Algum tempo depois de sua volta, descobriu-se que ela fora 
abenoada pela Me, mesmo no tendo feito os Primeiros Ritos. Mas morreu 
logo depois de dar  luz a me de Brukeval, ou talvez como resultado disso.
        -  Aonde acham que ela foi?
        -  Ningum sabe.
        Um pensamento franziu a testa de Ayla.
        -  Ela deve ter encontrado abrigo e comida enquanto esteve 
desaparecida - comentou.
        -  No creio que tenha passado fome - disse ele.
        -  Ela contou que tipo de animal a atacou?
        -  No que eu saiba.
        - Tinha algum arranho, mordidas ou outro tipo de ferimento?-insistiu 
Ayla.
        - No sei.
Ayla parou quando se aproximaram da rea das habitaes e olhou para o 
homem alto sob a plida iluminao da lua crescente e da fogueira distante.
        -  Os Zelandonii no chamam o Cl de animais? Alguma vez a av dele 
falou algo sobre esses a quem vocs chamam de cabeas-chatas?
        - Dizem que ela odiava cabeas-chatas, e fugia ao gritos, quando via 
um - lembrou Jondalar.
        - E a me de Brukeval? Voc a conheceu? Como era a aparncia dela?
        - No lembro direito, eu era muito jovem - justificou-se Jondalar. - 
Era baixinha. Eu me lembro de que ela tinha olhos enormes e bonitos, 
escuros como os de Brukeval, meio marrons, mas no de um marrom intenso, 
mais para o castanho.
        - Acastanhados, como os olhos de Guban? - perguntou Ayla.
        -Agora que falou, acho que sim.
        - Tem certeza de que a me de Brukeval no tinha a aparncia do Cl, 
como Echozar... e Rydag?
        - No creio que era considerada muito bonita, mas no lembro de ter 
a fronte saliente, como Yorga. Ela nunca se acasalou. Acho que os homens 
no se interessavam muito por ela.
        -  E como engravidou?
        Ela conseguiu ver o sorriso de Jondalar mesmo no escuro.
        -  Voc est convencida de que  necessrio um homem, no  mesmo? 
Todos disseram que a Me a abenoou mas Zolena... a Zelandoni me disse, 
certa vez, que ela foi uma das raras mulheres que foram abenoadas 
imediatamente aps os Primeiros Ritos. As pessoas acham que ainda  cedo, 
mas acontece.
        Ayla fez que sim.
        -  O que aconteceu com ela?
        -  No sei. A Zelandoni disse que ela no era muito saudvel. Acho que 
morreu quando Brukeval ainda era muito novo. Foi criado pela me de 
Marona, uma prima da me de Brukeval, mas no creio que ela ligasse muito 
para ele. Era mais uma obrigao. s vezes, Marthona cuidava dele. Eu me 
lembro de brincar com ele quando ramos bem pequenos. Alguns meninos 
mais velhos j implicavam com ele nessa ocasio. Brukeval sempre detestou 
ser chamado de cabea-chata.
        -  No admira ele ter ficado to furioso com Charezal. Pelo menos 
agora eu entendo. Mas aquele olhar... - Ayla estremeceu novamente. - Ele 
pareceu tanto com Broud. Desde que eu me entendo por gente, Broud me 
odeia. No sei por qu. Ele simplesmente me odeia, e nada consegui fazer 
para mudar isso. Eu tentei, mas lhe digo uma coisa, Jondalar: jamais vou 
querer que Brukeval me odeie.
        Lobo olhou para cima, em saudao, quando os dois entraram na 
habitao de Marthona. Ele havia encontrado as peles de dormir de Ayla e 
fora se enroscar perto delas, aps a ordem de "ir para casa". Ayla sorriu ao 
ver os olhos dele brilhando  luz de uma nica lamparina que Marthona 
deixara acesa. Quando ela se sentou, Lobo lambeu-lhe o rosto e a garganta, 
num vido gesto de boas-vindas. E de seguida, fez o mesmo com Jondalar.
        - Ele no est acostumado com tanta gente - comentou Ayla.
        Depois que ele voltou para Ayla, ela segurou-lhe a cabea entre as 
mos e fitou os olhos cintilantes.
        - O que foi, Lobo? Muita gente estranha para voc se acostumar? Eu 
sei como se sente.
        - No sero estranhas por muito tempo, Ayla - garantiu Jondalar. -
Todo mundo j ama voc.
        - Exceto Marona e as amigas dela - rebateu Ayla, endireitando o 
corpo e soltando os ns da macia camisa de pele que deveria ser uma roupa 
de baixo para rapazes.
        Jondalar ainda estava perturbado por causa da maneira como Marona 
tratara Ayla, e, ao que parecia, ela tambm. Ele desejou que ela no tivesse 
passado por aquele tormento, principalmente no primeiro dia ali. Em breve, 
Ayla seria um deles. Ele queria que ela fosse feliz com o seu povo. Mas 
estava orgulhoso do modo como Ayla lidou com aquilo.
        - Voc foi maravilhosa. O jeito como fez Marona se pr em seu lugar. 
Todos acharam isso - disse ele.
        - Por que essas mulheres queriam que as pessoas rissem de mim? Elas 
no  sabem quem eu sou, e nem ao menos quiseram me conhecer.
        - A culpa foi minha, Ayla - reconheceu Jondalar, parando em meio ao 
desatar os ns em volta da parte superior de seu calado, que envolvia a 
panturrilha de uma perna. - Marona tinha todo o direito de esperar que, 
naquele vero, eu estivesse presente para o Matrimonial. Eu parti, sem dar 
explicaes. Ela deve ter ficado terrivelmente magoada. Como voc se 
sentiria, se algum com quem esperasse se acasalar no aparecesse?
        - Eu ficaria muito infeliz, e zangada com voc, mas acho que no 
tentaria  magoar algum que no conheo - respondeu Ayla, soltando os ns 
da cintura de sua perneira.
        - Quando disseram que queriam ajeitar o meu cabelo, me lembrei de 
Deegie, mas acabei penteando-o, depois que me olhei no refletidor e vi o que 
elas tinham feito. Achei que voc tinha me dito que os Zelandonii eram um  
povo que acreditava em cortesia e hospitalidade.
        -  E acredita - afirmou. - A maioria.
        -  Mas nem todos. No as suas antigas amigas. Talvez fosse bom voc 
me dizer com quem mais devo tomar cuidado - props Ayla.
        - Ayla, no deixe que Marona sugestione a sua opinio sobre todos os 
demais. D a eles uma chance.
        - E os tais que caoam de rfos e os transformam em um Broud?
        - A maioria no  assim, Ayla - justificou, olhando-a com a expresso 
preocupada.
        Ela exalou um demorado suspiro.
        - No, voc tem razo. A sua me no  assim, nem a sua irm ou o 
resto de seus parentes. At mesmo Brukeval foi muito gentil comigo. 
Acontece que a ltima vez em que vi aquela expresso foi quando Broud 
falou para Goov lanar uma maldio de morte contra mim. Desculpe, 
Jondalar.  que estou cansada. - De repente, ela o alcanou, enterrou o 
rosto em seu pescoo e deixou escapar um soluo. - Eu quis causar uma boa 
impresso ao seu povo, e fazer novos amigos, mas aquelas mulheres no 
quiseram ser amigas. Apenas fingiram querer.
        - Voc causou uma boa impresso, Ayla. No podia ter causado uma 
melhor. Marona sempre fo geniosa, mas eu tinha certeza de que 
encontraria outro enquanto eu estivesse fora. Ela  muito atraente, todos 
sempre afirmaram que era a Beldade do Bando, a mulher mais desejada em 
cada Reunio de Vero. Acho que era por isso que todos esperavam que 
fssemos acasalar - disse ele.
        -  Porque voc era o mais atraente, e ela a mais bonita? - insinuou 
Ayla.
        -  Acho que sim - admitiu, sentindo-se enrubescer e grato pela fraca 
iluminao. - No sei por que ela no est acasalada atualmente.
        -  Ela disse que esteve, mas no durou.
        -  Eu sei. Mas, por que no arranjou outro? No  porque tenha 
esquecido de repente como dar Prazer a um homem, ou tenha se tornado 
menos atraente e desejvel.
        -  Talvez tenha, Jondalar. Como voc no a quis, talvez outros homens 
tenham resolvido prestar mais ateno. Uma mulher disposta a magoar 
algum que ela nem mesmo conhece pode ser menos atraente do que voc 
imagina - assegurou Ayla ao se livrar de uma das perneiras.
        Jondalar enrugou a testa.
        - Espero que no seja por minha culpa. J foi ruim demais eu t-la
deixado naquela situao difcil. Eu detestaria pensar que tornei impossvel 
para ela encontrar um outro parceiro.
        Ayla olhou-o intrigada.
        - Por que voc pensaria isso?
        - Voc no disse que, como eu no a quis, talvez outros homens...?
        - Outros homens prestariam mais ateno. E, se eles no gostarem do 
que vem, que culpa tem voc?
        -  Bem... ah...
        -  Voc pode se culpar por ter ido embora sem explicaes. Estou 
certa de que ela ficou magoada e constrangida. Mas ela teve cinco anos para 
encontrar outro, e voc disse que ela era muito desejada. Se Marona no foi 
capaz de encontrar outro, a culpa no  sua, Jondalar - declarou Ayla.
        Jondalar ficou parado, e depois fez que sim.
        -  Tem razo - admitiu, e continuou tirando as roupas. -Vamos dormir. 
As coisas parecero melhores pela manh.
        Ao engatinhar para as quentes e confortveis peles de dormir, outro 
pensamento cruzou a cabea de Ayla.
        -  Se Marona  to boa em dar Prazer, por que no teve filhos?
         Jondalar soltou uma risadinha.
        -  Espero que voc esteja certa que  o Dom de Doni que faz os filhos. 
Isso seria o mesmo que dois Dons... - parou, ao puxar o seu lado da coberta. 
- Mas voc tem razo! Ela no tem filhos.
        -  No puxe a coberta tanto assim para cima! Est frio! - reclamou 
com um sonoro sussurro.
        Ele rapidamente enfiou-se no seu rolo de dormir e aconchegou o 
corpo nu ao dela.
        -  Pode ser esse o motivo pelo qual ela no se acasalou - prosseguiu - 
ou pelo menos, parte dele. Quando um homem resolve se acasalar, 
geralmente quer uma mulher que possa dar filhos ao lar dele. Uma mulher 
pode ter filhos e permanecer no lar da me dela, ou at mesmo fazer o seu 
prprio lar, mas o nico modo de um homem poder ter filhos de sua lareira  
se acasalar com uma mulher para que ela leve filhos para essa lareira. Se 
Marona se acasalou e no teve filhos pode ser que isso a tenha tornado 
menos desejvel.
        -  Isso seria uma vergonha - observou Ayla, sentindo uma sbita 
pontada de empatia. Ela sabia o quanto desejara ter filhos. Desejou um 
bebe seu at quando vira Iza dar  luz a Uba, e estava certa de que fora o 
dio de Broud que deu um filho a ela. Fora o seu dio que o levou a tom-la  
fora, e, se ele tivesse forado, nenhuma vida nova teria comeado a 
crescer dentro dela.
        Ayla no sabia na ocasio,  claro, mas olhando mais atentamente o 
seu isso a fez entender. O cl de Brun nunca vira uma criana como a dela, e 
j que seu filho no se parecia bastante com ela - como os Outros - acharam 
que era  uma criana deformada do Cl; mas ela percebeu que era um 
mestio. Ele tinha algumas caractersticas suas e algumas deles, e, intuindo 
repentinamente, ela se deu conta de que, quando um homem coloca o seu 
rgo naquele lugar de onde saem os bebs, de algum modo uma nova vida 
tem incio. No era nisso que o Cl acreditava, e no era no que acreditavam 
o povo de Jondalar ou qualquer  dos Outros, mas Ayla estava convencida de 
que era verdade.
        Deitada ao lado de Jondalar, ciente de que carregava o beb dele 
dentro de si, Ayla sentiu uma pontada de compaixo e pesar pela mulher que 
o havia perdido e que, talvez, no pudesse ter filhos. Poderia realmente 
culpar Marona por se sentir perturbada? Como ela se sentiria, se perdesse 
Jondalar? Lgrimas ameaaram brotar por causa desse pensamento, mas 
uma onda consoladora diante de sua boa sorte arrastou-se pelo corpo.
        Foi um truque sujo, porm, e ele poderia ter causado um dano maior. 
Ayla no podia evitar ficar zangada, e no sabia o que elas fariam quando 
decidisse encar-las.
        Talvez lhe virassem as costas. Ayla podia sentir compaixo por 
Marona, mas no teria de gostar dela. E tambm havia Brukeval. A sua 
aparncia do Cl fizera com que ela se sentisse amigvel com ele, mas, agora, 
Ayla estava desconfiada.
        Jondalar a manteve abraada at achar que ela tinha adormecido, 
tentando ficar acordado para ter certeza. Depois, fechou os olhos e 
tambm adormeceu. Mas Ayla acordou no meio da noite, sentindo uma 
presso e a necessidade de se aliviar. Lobo seguiu-a silenciosamente at o 
cesto noturno perto da entrada. Depois que ela voltou para a cama, ele se 
enroscou a seu lado. Ela sentiu-se grata pela calidez e a proteo do lobo de 
um lado e do homem do outro, mas demoraria muito para voltar a dormir.
        Ayla dormiu at tarde. Quando se sentou e olhou em volta, Jondalar 
havia sumido, e Lobo tambm. Estava sozinha na habitao, mas algum 
deixara uma bolsa de gua cheia e uma bacia impermevel feita de um 
tranado bem apertado, para que ela pudesse se refrescar. Um caneco de 
madeira entalhada prximo a ela continha um lquido.
        O cheiro parecia de ch de menta, mas, no momento, ela no estava 
disposta a beber nada.
        Levantou-se a fim de usar o grande cesto prximo  porta, para se 
aliviar - indiscutivelmente, j havia notado o aumento da frequncia dessa 
necessidade. Agarrou o amuleto e rapidamente tirou-o, para afast-lo do 
caminho antes de passar a bacia, no para se lavar, mas para conter a 
consequncia do estmago enjoado. A nusea naquela manh parecia pior do 
que a de costume. A barma de Laramar, pensou. Enjoo matutino seguido de 
enjoo matutino. Acho que, de agora em     diante, deixarei de lado a bebida. 
Talvez agora no faa bem para mim, ou para o beb, pensou ainda. Depois 
de esvaziar o estmago, usou o ch de menta para lavar a boca. Notou que 
que havia colocado perto de suas peles de dormir a trouxa de roupas limpas  
manchadas que ela planejara primeiramente usar na noite anterior. Ao vesti-
las, lembrou-se de t-las deixado na entrada. Pretendia ficar com a roupa 
que Marona lhe dera, em parte porque estava resolvida a vesti-la novamente, 
mas tambm porque era confortvel e no via nada de errado em us-la. Mas 
no hoje, decidiu.
        Amarrou o forte cinto de couro que usara na viagem, ajustou a bainha 
da faca em seu cmodo lugar de sempre, disps o resto dos utenslios e 
bolsinhas pendentes, e enfiou de volta por cima da cabea a bolsa com o 
amuleto. Apanhou o cesto malcheiroso e levou-o consigo, mas o deixou perto 
da entrada, sem saber onde despejar o seu contedo, e saiu para perguntar 
a algum. Uma mulher com uma criana, que se aproximava da habitao, 
cumprimentou-a. Em algum lugar, no fundo da memria, Ayla foi buscar um 
nome.
        -  Um dia agradvel para voc... Ramara.  o seu filho?
        -   Robenan quer brincar com Jaradal, e estou procurando Proleva. 
Ela no estava em casa, e achei que podia estar aqui.
        -  No, ela no est na habitao. Quando me levantei, todos j 
tinham sado. No sei onde esto. Estou me sentindo meio tonta esta manh. 
Dormi at tarde - disse Ayla.
        -  A maioria dormiu - esclareceu Ramala. - Muita gente no se disps a 
acordar cedo, depois dos festejos de ontem  noite. Laramar faz uma 
bebida muito forte. Ele  conhecido por isso...  a nica coisa que sabe fazer.
        Ayla percebeu um tom de desprezo no comentrio da mulher. Isso a 
deixou um pouco hesitante para perguntar a Ramara onde havia um lugar 
apropriado para despejar a sujeira da manh, porm no havia mais ningum 
por perto, e ela no queria deixar aquilo ali.
        -  Ramara... ser que podia me dizer onde posso... me livrar de alguns... 
resduos?
        A mulher pareceu intrigada por um momento, em seguida olhou de 
relance na direo em que Ayla, inadvertidamente, tinha olhado, e sorriu.
        -  Voc est querendo as fossas sanitrias. Olhe ali, na direo da 
borda leste do terrao, no diante de onde as fogueiras so acesas, mas em
direo  parte de trs. L, tem uma trilha.
        -  Sim, estou vendo - confirmou Ayla.
        -  Ela  ascendente - continuou Ramara. - Siga um pouco por ela, e
ver uma bifurcao. O caminho da esquerda  ngreme e continua subindo e 
vai lev-la ao topo deste rochedo. Mas pegue o caminho da direita. Ele 
circunda a encosta at voc poder ver o Rio do Bosque l embaixo. Um pouco
alm, h um campo plano a cu aberto com vrias fossas... vai sentir o cheiro 
antes de chegar l - revelou Ramara. -J faz algum tempo que no so 
polvilhadas, como poder perceber.
        Ayla sacudiu a cabea.
        -  Polvilhadas?
        -  Sim, espalhar p de rochedo cozido. Fazemos isso o tempo todo, 
mas no suponho que todo mundo faa - observou Ramara, baixando-se para 
pegar no colo Robenan, que j estava inquieto.
        -  Como cozinham p de rochedo? E por qu? - quis saber Ayla.
        -  A gente pega pedras do rochedo, soca at virar p, aquece em fogo 
bem quente... ns usamos a fogueira de sinalizao... e depois o espalha nas 
fossas. O porqu disso  que reduz bastante o cheiro, ou o encobre. Mas 
quando derramamos gua ou acrescentamos algum lquido, o p tende a 
endurecer novamente, e depois que as fossas ficam cheias de resduos e p 
endurecido de rochedo,  preciso cavar umas novas, o que d muito trabalho. 
Por isso, no gostamos de polvilh-las com muita frequncia. Mas, 
atualmente, esto precisando. Ns temos uma Caverna grande e as fossas 
so muito usadas. Apenas siga a trilha. No ter problema em localiz-las.
        -  Estou certa de que irei encontr-las. Obrigada, Ramara - agradeceu 
Ayla, quando a mulher foi se afastando.
        Ela ia apanhar o cesto, quando lembrou de outra coisa, e voltou a 
entrar para pegar a bolsa de gua para poder lavar a bacia tranada. Depois, 
apanhou a coisa malcheirosa e partiu para a trilha. Coletar e armazenar 
alimentos para uma Caverna to grande e com tanta gente d muito trabalho, 
ela imaginava enquanto seguia pela trilha, e tambm cuidar dos dejetos. O 
cl de Brun simplesmente ia l fora; as mulheres em um lugar, os homens em 
outro, e mudavam constantemente o lugar. Ayla refletiu sobre o processo 
que Ramara lhe explicara, e ficou intrigada.
        O aquecimento, ou calcinao, do calcrio para se obter cal virgem e 
us-la para diminuir o cheiro de resduos no era uma prtica com a qual ela 
estivesse familiarizada, mas, para pessoas que viviam em rochedos calcrios 
ou usavam continuamente o fogo, a cal natural era um subproduto. Aps 
limpar as cinzas de uma fogueira, o que, invariavelmente, inclua a cal 
casualmente acumulada, e jogando-as em uma ou outra pilha de dejetos, no 
demorava muito para ser notado o efeito desodorizante.
        Com tanta gente vivendo num s lugar, mais ou menos 
permanentemente, exceto durante o vero, quando vrios grupos ficavam 
fora por longos perodos de tempo, havia muitas tarefas que exigiam o 
empenho e a cooperao de toda a comunidade, como cavar fossas sanitrias, 
ou, como ela acabara de descobrir, torrar pedras do rochedo de calcrio 
para fazer cal virgem.
        O sol estava quase no seu znite quando Ayla voltou do campo das 
fossas. Encontrou um lugar ensolarado perto da trilha dos fundos, para 
secar e arejar a vasilha de material tranado, depois resolveu dar uma 
olhada nos cavalos e, ao mesmo tempo, encher novamente a bolsa de gua. 
        Ao chegar ao terrao frontal, vrias pessoas a cumprimentaram, e de 
algumas lembrava os nomes, mas no de todas. Sorriu e gesticulou com a 
cabea em resposta, mas se sentia um pouco constrangida em relao 
queles de quem no conseguia se lembrar. Viu nisso uma falha de memria 
de sua parte, e tomou a deciso de aprender o mais cedo possvel quem era
todo mundo.
        Recordou-se de sentir a mesma coisa quando membros do cl de Brun
deixaram transparecer que a achavam meio obtusa, pois no era capaz de se 
lembrar to bem quanto os jovens do Cl. Como resultado, porque queria se 
adaptar ao povo que a havia encontrado e adotado, ela disciplinou-se em 
lembrar, logo da primeira vez, o que lhe era explicado. Ayla no sabia que, no 
processo de exercitar a sua inteligncia nativa a reter o que aprendia, 
tambm treinava a prpria habilidade de memorizao muito alm do que 
era normal para a sua prpria espcie.
        Com o passar do tempo, Ayla comeou a entender que a memria deles 
funcionava de um modo diferente da dela. A despeito de no entender 
completamente o que eram, Ayla sabia que a gente do Cl tinha "lembranas" 
que ela no tinha, no da mesma maneira. De uma forma instintiva, que 
evoluira ao longo de caminhos de certo modo divergentes, as pessoas do Cl 
nasciam com a maior parte do conhecimento do que necessitariam para 
sobreviver, informaes que atraves do tempo tinham sido assimiladas 
individualmente pelos genes de seus ancestrais, do mesmo modo que o 
conhecimento instintivo  adquirido pelos animais, inclusive o humano.
        Em vez de ter de aprender e memorizar, como Ayla o fez, as crianas 
do Cl precisavam apenas ser "lembradas" uma vez, a fim de serem 
desencadeadas as memorias inerentes  raa. A gente do Cl sabia muita 
coisa sobre o seu mundo antigo e como viver nele, e depois que aprendiam 
uma coisa jamais esqueciam, ao contrrio de Ayla e sua espcie, porm, no 
aprendiam coisas novas com facilidade. A mudana era dificil para eles, mas 
quando os Outros chegaram as suas terras, levaram consigo a mudana.
        Huiin e Racer no estavam onde ela os tinha deixado, no prado dos 
cavalos, mas pastando bem mais distante, vale acima, longe da rea mais 
bem usada, que ficava perto da confluncia do Rio do Bosque com O Rio. 
Quando Huiin a viu, pendeu a cabea, atirou-a para o ar e descreveu um 
circulo no ar com o focinho Em seguida, arqueou o pescoo, baixou a cabea, 
e, com a cauda esticada, correu na direo da mulher, intensamente feliz em 
v-la. Racer saltitou ao lado de sua me, com o pescoo orgulhosamente 
arqueado as orelhas para a frente e a cauda levantada, seguindo em direo 
a Ayla com passadas altas no seu suave andar a meio galope.
        Relincharam cumprimentos. Ayla retribuiu do mesmo modo e sorriu.
        - Por que vocs dois esto to contentes? - perguntou, utilizando 
sinais do Cl e a linguagem de palavras que ela havia inventado para si mesma 
no vale. Era o jeito como ela vinha falando com Huiin desde o incio, e o modo 
como falava com cavalos. Ela sabia que eles no a entenderam totalmente, 
mas reconheceram algumas palavras e determinados sinais, como tambm o 
tom de voz que transmitiu o seu prazer em reencontr-los.
        - Vocs hoje esto mesmo cheios de si. Sabem que chegamos ao final 
de nossa Jornada e no vamos viajar mais? - prosseguiu. - Gostam deste 
lugar? Espero que sim.
        - Esticou-se para coar a gua nos lugares onde ela gostava, e depois 
o garanho, a seguir apalpou as laterais e a barriga de Huin, tentando 
avaliar se ela estava carregando um potro, depois do encontro que tivera 
com o garanho.
        -  muito cedo para se ter certeza, mas acho que voc tambm vai ter 
um beb, Huiin. Embora eu ainda no aparente tanto, j perdi o meu segundo 
ciclo da lua. - Ela se examinou do mesmo modo como fez com a gua, 
pensando: a minha cintura est mais grossa, a minha barriga, mais redonda, 
os meus seios esto doloridos e um pouco maiores. E enjo pela manh - 
prosseguiu, falando e cantando -, mas s um pouquinho, quando me levanto, e 
no como antes, quando ficava o tempo todo enjoada. No creio que haja 
alguma dvida de que eu esteja grvida, mas, no momento, me sinto bem. 
Bem o bastante para cavalgar. Que tal um pouco de exerccio, Huiin?
O animal voltou a sacudir a cabea, como em resposta.
        Onde estar Jondalar? Vou procurar por ele, para ver se quer 
cavalgar, falou para si mesma. Vou pegar tambm a manta de montar;  mais 
confortvel, mas, agora, montarei em plo.
        Com um movimento fcil e experiente, ela agarrou a ponta da crina 
curta e eriada de Huiin, saltou para o seu dorso e seguiu em direo ao 
abrigo. Conduziu o animal com a presso dos msculos das pernas, sem 
pensar nisso - aps tanto tempo, tratava-se de uma segunda natureza -, 
apenas permaneceu montada, deixando a gua seguir no seu prprio ritmo. 
Ouviu Racer seguir logo atrs, como estava acostumado a fazer.
        Por quanto tempo ainda conseguirei saltar dessa maneira? Vou 
precisar de alguma coisa para alcanar o dorso dela, quando eu ficar maior, 
foi pensando Ayla, e quase abraou a si mesma de felicidade diante da idia 
de que ia ter um beb.
        Seus pensamentos se extraviaram na longa Jornada que haviam 
acabado de completar e chegaram ao dia anterior. Ela conhecera tanta 
gente que era difcil se lembrar de todo mundo, mas Jondalar estava com a 
razo: a maioria no era m. No devo deixar que os poucos desagradveis -
Marona, e Brukeval quando ele agiu como Broud - estraguem os bons
sentimentos em relao ao resto. Por que ser que  mais fcil lembrar dos
maus? Talvez porque no sejam muitos.
        O dia estava clido; o sol quente aquecia at mesmo o vento constante. 
Ao se aproximar do pequeno afluente, no mais do que um fio d'gua mas 
veloz e espumante Ayla olhou rio acima e viu uma pequena cachoeira 
descendo a face da rocha. Sentiu sede, e lembrando que precisava encher a 
bolsa de gua virou na direo do lquido que cintilava na encosta do rochedo.
        Desmontou, e todos beberam no lago que se formava ao p da 
cachoeira, Ayla com as mos em concha. Depois ela encheu a bolsa com o 
fresco lquido gelado. Ficou sentada ali um pouco sentindo-se refrescada e 
ainda um tanto indolente, recolheu alguns seixos e, preguiosa jogou-os na 
gua. Apanhou uma outra pedra rolou-a na mo, sentiu-lhe a textura, olhou 
para ela sem v-la, e depois a lanou.
        Demorou algum tempo para a caracterstica da pedra penetrar em seu 
consciente. Ento bracejou em volta para procurar outra, e quando a 
apanhou - ou uma parecida - olhou-a com mais ateno. Tratava-se de um 
pequeno ndulo cinza com os ngulos aguados e os lados achatados de sua 
inata estrutura cristalina. Subitamente, alcanou a faca de slex que 
carregava na bainha do cinturo e atingiu a pedra com a parte de trs. 
Fascas voaram. Bateu novamente.
        -  uma pedra de fogo, - gritou bem alto.
Ela no vira nenhuma desde que havia deixado o seu vale. Olhou atentamente 
para as pedras e os seixos no cho e perto do leito do rio, e localizou outro 
pedao de pirita e depois mais outro. Recolheu vrios, com crescente 
entusiasmo.
        Acocorou-se, olhando a sua pequena pilha de pedras semelhantes.
Existe pedra de fogo aqui! No precisamos mais tomar tanto cuidado com as 
que temos, pois podemos conseguir mais. Ela mal podia esperar para mostrar 
a Jondalar.
        Recolheu-as e mais algumas outras que localizou, e assobiou chamando
Huiin, que seguira errante por um caminho verde e suculento. Mas, antes de 
se preparar para montar, ela viu Jondalar caminhando em sua direo, com 
Lobo ao lado.
        - Jondalar! - chamou, correndo para ele. - Veja o que encontrei! - 
exclamou, estendendo nas mos vrios pedaos de pirita enquanto corria.
        - H pedras de fogo  aqui em volta. Esto por todo este regato!
        Ele correu para ela, exibindo um largo sorriso, muito mais em relao 
a exuberante felicidade dela pela notvel descoberta.
        - Eu no sabia que havia isso nas proximidades, mas, mesmo assim, 
nunca prestei ateno a esse tipo de pedra, pois andava  procura de slex. 
Mostre onde as encontrou.
        Ela o levou ao pequeno lago ao p da cachoeira, e ento aguou a vista 
para as pedras do leito do rio e ao longo das margens do regato.
        - Olhe! - bradou triunfante. - L est outra- apontou para uma pedra 
na ribanceira.
        Jondalar ajoelhou-se e a apanhou.
        - Voc tem razo! Isto far muita diferena, Ayla. Pode significar 
pedras de fogo para todos. Se existem aqui, deve haver outros lugares por 
perto onde existam tambm. Ningum ainda sabe da existncia dessas 
pedras, pois ainda no tive chance de contar a ningum.
        - Folara sabe, e a Zelandoni - revelou Ayla.
        - Como  que elas sabem?
        - Lembra do ch calmante que a Zelandoni fez para Willamar, depois 
que lhe contou a respeito do seu irmo? Eu deixei Folara nervosa, quando 
usei uma pedra-de-fogo para acender o fogo que tinha se apagado, e 
prometi mostrar a ela como funcionava. E Folara contou para a Zelandoni - 
disse Ayla.
        - Ento a Zelandoni sabe. De algum modo, ela sempre acaba sabendo 
as coisas primeiro - comentou Jondalar. - Mas voltaremos aqui depois, para 
procurar mais. No momento, algumas pessoas querem falar com voc.
        - A respeito do Cl? - imaginou.
        Joharran apareceu esta manh e me levou para uma reunio, antes 
mesmo de eu querer me levantar, mas o convenci a deixar voc dormindo. 
Falei sobre o nosso encontro com Guban e Yorga. Eles esto muito 
interessados, mas acham difcil acreditar que o Cl so pessoas e no 
animais. A Zelandoni andou analisando com mais cuidado as Lendas dos 
Antigos..,  ela quem conhece a histria dos Zelandonii... tentando ver se h 
alguma indicao sobre os cabeas-chatas... O Cl.., vivendo por aqui antes 
dos Zelandonii. Ramara contou que voc j tinha acordado, e Joharran 
mandou que eu viesse busc-la - contou Jondalar. - Ele nao  o nico com 
uma poro de perguntas.
        - Jondalar havia levado consigo o cabresto de Racer, mas o jovem e 
brincalho garanho refugou um pouco, ainda disposto a brincar. Com um 
pouco de paclencia e coadas nos lugares onde comichava, o cavalo 
finalmente aquiesceu. o homem montou e eles seguiram de volta pelos 
bosques a descoberto do Pequeno vale. Jondalar conteve a montaria para 
cavalgar ao lado de Ayla, e aps alguma hesitao comentou:
        - Como est se sentindo?
        - Estou bem, Jondalar - afirmou.
        - Ele fez uma beberagem forte. Voc no estava se sentindo bem 
ontem.
        - Ontem  noite eu estava cansada - alegou. - E esta manh senti 
apenas um leve enjo, pois vou ter um beb. - Pela expresso de Jondalar, 
Ayla desconfiou que ele estava preocupado com algo mais do que o enjo 
matinal dela.
         - Foi um dia cheio. Voc conheceu muita gente.
        - E gostei da maioria - disse ela, olhando-o com um leve sorriso. - 
Sabe que no estou acostumada a tanta gente de uma s vez.  como toda 
uma Congregao do Cl. Nem mesmo consigo me lembrar do nome de todas 
as pessoas.
        - Voc acabou de conhec-las. Ningum espera que voc se lembre de 
toda gente. Desmontaram no prado dos cavalos e deixaram os animais no 
incio da trilha. Ao olhar para cima, Ayla notou a Pedra Cadente silhuetada 
contra o cu claro e por um momento aquilo pareceu emitir um brilho 
estranho; porm, depois que ela piscou, ele sumiu. O sol est brilhando, 
pensou ela. Devo ter olhado para ele sem proteger os olhos.
        A Lobo surgiu do meio do capim alto; ele os seguira de um modo 
incoerente, explorando pequenos orifcios e perseguindo odores 
interessantes. Ao ver Ayla  parada, piscando, resolveu que estava na hora de 
saudar adequadamente a lider principal de sua alcatia. O enorme candeo 
pegou-a desprevenida ao dar  salto para o alto e colocar as patas diante dos 
ombros dela. Ayla cambaleou um pouco, mas se equilibrou e abraou-o para 
conter o peso do animal enquanto ele lambia o queixo dela e o mantinha 
preso entre os dentes.
        - Bom dia, Lobo! - cumprimentou, agarrando com ambas as mos a 
prega desgrenhada de seu pescoo. - Vejo que voc hoje tambm est cheio 
de si igual aos cavalos. - Ele baixou para o cho e seguiu-a trilha acima, 
ignorando o olhar embasbacado das pessoas que ainda no tinham visto 
aquela particular demonstrao de afeto, e os sorrisos satisfeitos daquelas 
que j tinham e se divertiam com a reao das outras. Ayla fez um sinal para 
o lobo ficar perto.
        Ela pensou em passar pela habitao de Marthona, para deixar a bolsa 
de gua que tinha enchido, mas Jondalar continuou alm da rea de 
habitao e ela o acompanhou. Passaram pela rea de trabalho, em direo  
ponta sudoeste da salincia. Adiante, Ayla viu vrias pessoas de p e 
sentadas perto dos restos da fogueira da  noite anterior.
        Ao se aproximarem, Ayla percebeu uma pequena fogueira na beira do 
grande crculo negro. Perto, havia um cesto fundo cheio de um lquido 
fumegante no qual flutuavam pedaos de folhas e outras substncias 
vegetais. O cesto era revestido por algo escuro, e o nariz dela detectou o 
cheiro de resina de pinheiro, que fora usado para impermeabiliz-lo.
        Com uma concha, Proleva despejou um pouco em um caneco.
        - Tome um ch quente - ofereceu, estendendo-lhe o caneco.
        - Obrigada - agradeceu Ayla, segurando o caneco. Deu um gole. 
Tratava- se de uma deliciosa mistura de ervas, com um gostinho de pinheiro. 
Bebeu mais, e ento deu-se conta de que teria preferido algo slido. O 
lquido fez com que voltasse a ter nuseas, e sua cabea doa. Notou um 
bloco de pedra desocupado e sentou-se, esperando que o estmago se 
acomodasse. Lobo deitou-se aos seus ps. Ayla manteve o caneco na mo, 
sem beber, e desejou ter preparado um pouco da bebida especial da "manh
seguinte", que ela havia inventado para Talut, o chefe Mamuti do 
Acampamento do Leo.
        A Zelandoni olhou atentamente para Ayla e achou ter percebido sinais 
familiares.
        - Este pode ser o momento apropriado para parar e comer algo. H 
sobras de ontem  noite? - perguntou a Proleva.
        -  uma boa idia - concordou Marthona. - J passa da metade do dia. 
Voc comeu alguma coisa, Ayla?
        - No - respondeu, agradecida por algum ter pensado em perguntar. 
        - Eu dormi at tarde, depois fui at as fossas e ao Vale do Rio do 
Bosque, para dar uma olhada nos cavalos. Enchi a bolsa de gua num pequeno 
regato. - Levantou-a para mostrar. - Foi l onde Jondalar me encontrou.
        - timo. Se no se importa, usaremos a gua para fazer mais ch, e 
mandarei algum trazer comida para todos - disse Proleva ao seguir com 
passadas enrgicas em direo s habitaes.
        Ayla olhou em volta, para ver quem participava daquela reunio, e 
imediatamente fez contato visual com Willamar. Os dois trocaram sorrisos. 
Ele estava conversando com Marthona, a Zelandoni e Jondalar, que, naquele 
momento, estava de costas para ela. A ateno de Joharran estava voltada 
para Solaban e Rushemar, seus amigos ntimos e conselheiros. Ayla lembrou 
que Ramara, a mulher como garotinho com quem havia conversado mais cedo, 
era a parceira de Solaban. Ela tambm conhecera a parceira de Rushemar na 
noite anterior. Fechou os olhos, para tentar lembrar o nome dela. Salova, 
isso mesmo. Permanecer sentada e para da tinha ajudado; o enjo diminuiu.
        Dos demais presentes, ela lembrou que o homem de cabelos grisalhos 
era o lder de uma Caverna nas proximidades. Manvelar era o seu nome. Ele 
conversava com um outro homem, a quem Ayla achava que no fora 
apresentada. De vez em quando, ele olhava apreensivo para Lobo. Uma 
mulher alta e magra, cujo comportamento deixava transparecer bastante 
autoridade, era a lder de uma outra Caverna, recordou Ayla, mas no 
conseguiu lembrar o seu nome, O homem a seu lado tinha uma tatuagem 
semelhante  da Zelandoni, e Ayla deduziu que tambm era um lder 
espiritual.
        Ocorreu-lhe que aquele grupo de pessoas era todo formado por 
lderes de um tipo ou de outro daquela comunidade. No Cl, aquelas pessoas 
seriam as de maior posio.
        Entre os Mamuti, seriam o equivalente ao Conselho de Irms e 
Irmos. Os Zelandonii, diferentemente dos Mamuti, no tinham uma 
liderana mtua de irmo e irm como a de chefa-chefe para cada 
Acampamento; em vez disso, alguns lderes Zelandonii eram homens e outros, 
mulheres.
        Proleva estava retornando com as mesmas passadas enrgicas. 
Embora parecesse a responsvel pelo fornecimento de alimentos para o 
grupo - Ayla notou que era a ela que recorriam quando queriam comida -, 
obviamente no seria a pessoa quem ia traz-los e servi-los. Ela estava 
voltando para a reunio; devia considerar a si mesma uma ativa participante. 
Aparentemente a parceira de um lder tambm podia ser lder.
        No Cl, todas as pessoas nesse tipo de reunio seriam homens. No 
havia mulheres lderes; as mulheres no tinham um status prprio. Exceto 
pelas curandeiras, o status de uma mulher dependia da condio social do 
parceiro. Como conciliavam isso, se viviam visitando uns aos outros?, 
perguntou-se.
        - Ramara, Salova e algumas outras esto organizando uma refeio 
para ns - anunciou Proleva, gesticulando com a cabea em direo de 
Solaban e Rushemar.
        - timo - avaliou Joharran, o que pareceu ser um sinal de que a 
reunio havia reiniciado. Todos pararam de bater papo uns com os outros e 
olharam para ele. Joharran dirigiu-se a ela. - Ayla estava presente ontem  
noite. Todos vocs foram apresentados?
        - Eu no estava aqui ontem  noite - esclareceu o homem que estivera 
conversando com o lder de cabelos grisalhos.
        - Ento, permita-me que o apresente - sugeriu Joharran. Quando o 
homem se adiantou, Ayla ficou de p, mas sinalizou para Lobo ficar quieto. - 
Ayla este  Brameval, Lder do Pequeno Vale, a Dcima Quarta Caverna dos 
Zelandonii Brameval, apresento-lhe Ayla do Acampamento do Leo dos 
Mamuti... - Joharran fez uma pausa, tentando lembrar o resto de seus 
estranhos nomes e laos familiares. - Filha do Lar do Mamute.  o bastante 
- concluiu ele.
        Brameval repetiu seu nome e sua ocupao, ao estender as mos.
        - Em nome de Doni, seja bem-vinda - falou.
        Ayla aceitou as suas mos.
        - Em nome de Mut, a Grande Me de Todos, tambm conhecida por 
Doni, eu o sado - retrucou sorrindo.
        Ele havia notado antes a diferena no jeito de ela falar, e muito mais 
agora, mas respondeu ao sorriso e manteve um pouco mais as mos de Ayla 
nas suas.
        - O Pequeno Vale  o melhor lugar para se pegar peixe. As pessoas da 
Dcima Quarta so conhecidas como os melhores pescadores; ns fazemos 
excelentes armadilhas para peixe. Somos vizinhos bem prximos, e precisa 
nos visitar em breve.
        - Obrigada, ser um prazer visit-los. Eu gosto de peixe, e tambm de 
peg-los, mas no sei como apanh-los com armadilha. Quando eu era 
pequena, aprendi a pegar peixe com as mos. - Ayla enfatizou a informao 
levantando as suas, que ainda estavam sendo seguradas por Brameval.
        -  mesmo? Eu gostaria de ver isso - afirmou, ao larg-las.
        A mulher lder adiantou-se.
        - Eu gostaria de apresentar o nosso donier, o Zelandoni do Lugar do 
Rio - disse ela. - Ele tambm no estava aqui ontem  noite. - Olhou de 
relance para Brameval, levantou as sobrancelhas, e acrescentou: - A Dcima 
Primeira Caverna  conhecida por fazer as balsas que so usadas para subir 
e descer O Rio.  muito mais fcil transportar cargas pesadas numa balsa do 
que nas costas das pessoas. Se est interessada, ser bem-vinda se quiser 
nos fazer uma visita.
        - Estou muito interessada em aprender como vocs fazem as suas 
embarcaes que flutuam no rio - declarou Ayla, tentando lembrar se elas 
tinham sido apresentadas e qual era o seu nome. - Os Mamuti fazem uma 
espcie de vasilhas flutuantes, com couro cru grosso preso a uma estrutura 
de madeira, e as utilizam para levar pessoas e coisas para atravessar um rio 
largo, mas o rio  muito agitado, e a pequena embarcao redonda  to leve 
que se torna difcil control-la. Quando prendemos uma ao arrastador de 
carga de Huiin, melhorou.
        - No entendi o que  "arrastador de carga de ruim". O que isso 
significa? - quis saber a lder da Dcima Primeira Caverna.
        - Huiin  o nome de um dos cavalos, Kareja - esclareceu Jondalar, ao 
se levantar e dar um passo  frente. - O arrastador de carga foi inventado 
por Ayla. Ela poder lhe dizer o que .
        Ayla descreveu o meio de transporte e acrescentou:
        - Com ele, Huiin podia me ajudar a levar para o meu abrigo os animais 
que eu caava. Eu lhe mostrarei em alguma ocasio.
        - Quando chegamos ao outro lado do rio - ajuntou Jondalar -, 
resolvemos prender o barco-vasilha s travessas, em vez da plataforma 
tranada, pois podamos colocar nele a maioria das nossas coisas. Desse 
modo, quando atravessvamos rios, a embarcao flutuava e nada se molhava, 
e como estava presa s travessas, ficava mais fcil de se controlar.
        - Balsas tambm podem ser um pouco difceis de se controlar - 
observou a mulher lder. - Creio que todas as embarcaes devem ser 
difceis de se controlar.
        - Algumas so mais fceis do que outras. Na minha Jornada, passei 
algum tempo com os Xaramudi. Eles entalham belos barcos em grandes 
troncos de rvores. A frente e a traseira formam pontas, e eles usam remos 
para conduzi-los aonde querem ir. Isso requer prtica, mas os Ramudi, o 
Povo do Rio, a outra metade dos Xaramudi, so muito bons nisso - afirmou 
Jondalar.
        - O que so remos?
        - Remos parecem com colheres achatadas, e eles os usam para 
empurrar o barco pela gua. Eu os ajudei a fazer um dos barcos e aprendi a 
usar um remo.
        - Voc acha que eles funcionariam melhor do que as varas compridas 
que usamos para empurrar as balsas pela gua?
        - Essa conversa sobre barcos  muito interessante, Kareja - 
interrompeu o homem que se adiantou. Ele era mais baixo do que a mulher e 
de compleio frgil. - Mas ainda no fui apresentado. Creio que  melhor eu 
mesmo faz-lo.
        - Kareja enrubesceu levemente, mas no fez nenhum comentrio. 
Quando Ayla ouviu o nome dela, lembrou que tinham sido apresentadas.
        - Eu sou o Zelandoni da Dcima Primeira Caverna dos Zelandonii, 
tambm conhecida como Lugar do Rio. Em nome de Doni, a Grande Me 
Terra, eu lhe dou as boas-vindas, Ayla dos Mamuti, Filha do Lar do Mamute 
- declarou, estendendo as mos.
        - Eu o sado, Zelandoni da Dcima Primeira Caverna como Aquele Que 
Serve a Ela Que  A Me de Todos - disse Ayla, segurando-lhe as mos. Ele 
tinha um aperto forte, que desmentia a sua frgil compleio, e ela sentiu 
no s o seu vigor, como tambm uma fora e segurana interiores. Ela 
detectou, ainda, algo mais no modo como se movimentava, que a lembrou de 
alguns mamutii que conhecera na Reunio de Vero dos Mamuti.
        O velho Mamut que a adotara havia lhe falado sobre aqueles que 
carregam no mesmo corpo tanto a essncia masculina quanto a feminina. 
Eram considerados como detentores do poder de ambos os sexos, e s
vezes eram temidos, mas, se atingissem a categoria Daqueles Que Servem 
Me, costumava-se acreditar serem especialmente poderosos e eram bem 
recebidos. Como resultado, ele havia explicado, muitos homens que se 
sentiam cativados por homens, como as mulheres se sentiriam, ou mulheres 
que se sentiam cativadas por mulheres, como os homens se sentiriam, eram 
atrados para o Lar do Mamute. Ayla ficou imaginando se o mesmo se 
aplicava  zelandonia, e, a julgar pelo homem que estava  sua frente, sups 
que poderia ser.
        Observou novamente a tatuagem acima da tmpora dele. Como a da 
Zelandoni Que Era A Primeira, consistia em quadrados, alguns s o contorno, 
outros coloridos na parte de dentro, mas ele tinha menos e diferentes dos 
que eram preenchidos, e alguns smbolos curvos a mais. Isso fez Ayla 
perceber que todos ali, exceto Jondalar e ela mesma, tinham alguma espcie 
de tatuagem facial. A menos evidente era a de Willamar, e a mais floreada 
decorava o rosto de Kareja, a lder mulher.
        - Como Kareja j se vangloriou das faanhas da Dcima Primeira 
Caverna - ajuntou o donier, virando-se para agradecer  lder da Caverna -, 
eu queria apenas acrescentar o meu convite para uma visita, mas gostaria de 
fazer uma per gunta: Voc tambm  Uma Que Serve?
        Ayla franziu a testa.
        - No - respondeu. - O que o fez pensar isso?
        - Andei ouvindo umas conversas. - Sorriu ao admitir. - Por causa do 
seu controle sobre os animais - disse ele, gesticulando em direo ao lobo -, 
muita gente acha que voc deve ser. E me lembro de ter ouvido sobre o povo 
ao leste que caa mamutes. Dizem que Aqueles Que Servem s comem 
mamute e todos vivem em um mesmo lugar, talvez em um mesmo lar. Quando 
voc foi apresentada como sendo "do Lar de Mamute", me perguntei se 
alguma coisa disso  verdade.
        - No de todo - esclareceu Ayla, sorrindo. -  verdade que entre os 
Caadores de Mamute, Aqueles Que Servem  Me pertencem ao Lar do 
Mamute, mas isso no quer dizer que todos vivam juntos. Trata-se de um 
nome, como "zelandonia". H muitos lares... o Lar do Leo, o Lar da Raposa, o 
Lar do Grou. Eles indicam a... linhagem  qual uma pessoa est incorporada. 
Uma pessoa normalmente nasce de uma lareira, mas tambm pode ser 
adotada. H muitas lareiras diferentes em apenas um Acampamento, que 
recebe o nome do fundador da lareira. O meu era chamado de Acampamento 
do Leo porque Talut era do Acampamento do Leo, e era o chefe. Tulie, a 
irm dele, era a lder. Todo Acampamento tem uma irm e um irmo como 
lderes.
        Todos ouviam com interesse. Saber como outras pessoas se 
organizavam e viviam era fascinante para quem s conhecia seus prprios 
costumes.
        - Na linguagem deles, Mamuti significa "os caadores de mamute", ou 
talvez "os filhos da Me que caam mamutes", j que tambm honram a Me 
- Prosseguiu Ayla, tentando explicar. - O mamute  especialmente sagrado 
para eles.
        Pessoas costumam escolher o Lar do Mamute, ou achar que so 
escolhidas, mas eu fui adotada pelo velho Mamut do Acampamento do Leo, 
e  por isso que sou uma "Filha do Lar do Mamute". Se eu fosse Uma Que 
Serve, eu diria "Escolhida pelo Lar do Mamute" ou "Chamada pelo Lar do 
Mamute".
        Os dois membros da zelandonia ameaaram fazer outras perguntas, 
mas Joharran interrompeu. Apesar de tambm intrigado, naquele momento 
ele estava mais interessado nas pessoas que criaram Ayla do que nas que a 
adotaram.
        - Eu gostaria de ouvir mais sobre os Mamuti - alegou -, mas Jondalar 
andou nos contando coisas interessantes sobre os cabeas-chatas que 
encontra ram na viagem de volta. Se o que ele diz  verdade, precisamos 
comear a encarar os cabeas-chatas de um modo completamente diferente. 
Para ser honesto, receio que isso pode apresentar uma ameaa maior do que 
jamais imaginamos.
        - Por que uma ameaa? - cismou Ayla, imediatamente na defensiva.
        - Pelo que Jondalar me contou, eles so... gente que pensa. Sempre 
vimos os cabeas-chatas como animais pouco diferentes dos ursos das 
cavernas, talvez at mesmo aparentados com eles; um tipo menor, de certa 
forma um pouco mais inteligentes, mas animais - afirmou Joharran.
        - Sabemos que, outrora, algumas covas e grutas por aqui pertenceram 
a ursos das cavernas - salientou Marthona. - E a Zelandoni nos falou que 
algumas das Histrias e Lendas dos Antigos dizem que s vezes ursos das 
cavernas foram mortos ou afugentados para que o Primeiro Povo pudesse 
ter moradias. Se alguns desse "ursos das cavernas" eram cabeas-chatas... 
bem... se eram gente inteligente, tudo  possvel.
        - Se so gente, e os temos tratado como animais, animais hostis... -
Joharran fez uma pausa. - O que tenho a dizer  que, se eu estivesse no 
lugar deles, imaginaria um jeito de retaliar. H muito tempo eu j teria 
tentado me vingar. Creio que precisamos ficar atentos para a possibilidade 
de eles fazerem isso.
        Ayla se descontraiu. Joharran havia firmado muito bem a sua posio. 
Ela entendeu por que achava que eles poderiam ser uma ameaa. Talvez at 
estivesse certo.
        - Eu me pergunto se no  por isso que as pessoas sempre insistiram 
que os cabeas-chatas so animais - sugeriu Willamar. - Matar animais  uma 
coisa, desde que seja necessrio para alimentao ou abrigo, mas, se eles 
so gente, mesmo de uma espcie estranha,  outra coisa. Ningum quer 
pensar que os seus ancestrais mataram gente e roubaram as suas moradias, 
mas, se voc se convencer de que so animais,  capaz de conviver com isso.
        Ayla achou aquilo uma surpreendente percepo, mas Willamar j 
havia feito antes comentrios sensatos e inteligentes. Ela comeava a 
entender por que Jondalar sempre se referia a ele com tanto afeto e 
respeito. Willamar era um homem excepcional.
        - Sentimentos ruins podem ficar adormecidos durante muito tempo - 
refletiu Marthona -, por muitas geraes, mas, se eles tm Histrias e 
Lendas, elas lhes do lembranas e podem desencadear problemas. J que 
sabe bastante a respeito deles, Ayla, ser que podemos lhe fazer mais 
perguntas?
        Ela ficou pensando se devia contar-lhes que o Cl tinha histrias e 
lendas, mas delas no precisava para se lembrar de sua histria. Eles 
nasciam com lembranas que recuavam muito no tempo.
        - Talvez seja mais inteligente tentar um contato com eles de um modo 
diferente do que fizemos no passado - continuou Joharran. -  provvel que 
a gente consiga evitar problemas antes que eles se materializem. Devemos 
considerar a possibilidade de enviar uma delegao para se encontrar com 
eles, talvez discutir acordo comercial.
        - O que voc acha, Ayla? - perguntou Willamar. - Eles estariam 
interessados em fazer comrcio com a gente?
        Ayla enrugou a testa, pensativa.
        - No sei. O Cl que conheci tinha conscincia de pessoas como ns. 
Para eles, ramos os Outros, mas evitavam o contato. Na maior parte do 
tempo, o pequeno cl em que cresci no pensava nos Outros. Eles sabiam que 
eu no era do Cl, mas era criana, e muito pequena. No significava muito 
para Brun e os homens, pelo menos quando eu era jovem - contou. - Mas o cl 
de Brun no vivia perto dos Outros. Creio que dei sorte por isso. At me 
encontrarem, ningum do cl dele j tinha visto uma moa dos Outros;
alguns, nem um adulto, mesmo  distncia. Eles se dispuseram a me recolher
e cuidar de mim, mas no sei como reagiriam se fossem expulsos de suas
moradias ou importunados por um bando de jovens grosseiros.
        - Mas Jondalar nos falou que algumas pessoas entraram em contato,
para fins de comrcio, com os que vocs conheceram - lembrou Willamar. - 
Se outras pessoas fazem comrcio com eles, por que ns no podemos?
        - Isso no dependeria de eles serem gente de verdade e no animais 
aparentados com ursos das cavernas? - aparteou Brameval.
        - Eles so gente, Brameval - insistiu Jondalar. - Se tivesse tido um 
contato prximo com um deles, voc saberia. E so inteligentes. Durante a 
minha Jornada, encontrei muitos outros, alm do casal que Ayla e eu 
conhecemos. Me lembre de depois lhe contar algumas histrias.
        - Voc afirma que foi mesmo criada por eles, Ayla - interferiu 
Manvelar.
        - Conte algo sobre eles. Que tipo de gente so? - O homem grisalho 
parecia sensato e no algum que tira consluses apressadas sem se 
informar o mximo possvel.
        Ayla fez que sim, mas parou um momento para pensar antes de 
responder.
        -  interessante vocs acharem que eles tm parentesco com ursos 
das cavernas. H nisso uma estranha espcie de verdade; o Cl tambm 
acredita que tem. s vezes, at mesmo vivem com um.
        - Huhmmm - bufou Brameval, como se observasse: "Eu no disse?"
Ayla dirigiu-lhe seus comentrios.
        - O Cl venera Ursus, o Esprito do Urso das Cavernas, do mesmo 
modo que os Outros homenageiam a Grande Me Terra. Quando o Cl faz a 
sua grande Congregao que  como uma Reunio de Vero, mas no todos os 
anos... executa uma cerimnia muito sagrada para o Esprito do Urso das 
Cavernas. Muito antes da Congregao do Cl, o cl anfitrio captura um 
filhote de urso das cavernas, que passa a viver na caverna deles.  
alimentado e criado como se fosse um filho deles, pelo menos at ficar 
grande demais; depois, constrem um lugar para o urso, a fim de evitar que
fuja, mas continuam a aliment-lo e mim-lo.
        "Durante a Congregao do Cl - prosseguiu Ayla - os homens
competem para ver quem ter a honra de enviar Ursus para o Mundo dos 
Espritos para falar em nome do Cl e levar as mensagens dele. So 
escolhidos os trs homens que superaram a maioria dos competidores. so 
necessrios pelo menos trs para mandar um urso adulto para o outro mundo. 
Se por um lado  uma honra ser escolhido, por outro  muito perigoso. 
Geralmente o urso leva consigo um ou mais homens para o Mundo dos 
Espritos.
        - Quer dizer que eles se comunicam com o mundo dos espritos - 
observou o Zelandoni da Dcima Primeira.
        - E enterram os seus mortos com ocre vermelho - informou Jondalar 
sabendo que as suas palavras continham um profundo significado para o 
homem.
        - Essa informao levar algum tempo para ser entendida - insinuou a 
lder da Dcima Primeira Caverna. - E exigir uma grande dose de reflexo. 
Isso significar muitas mudanas.
        - Voc tem razo, Kareja,  claro - disse a Primeira Entre Aqueles 
Que Serviam.
        - No momento, no precisamos pensar muito para decidir parar e 
fazer uma refeio - sugeriu Proleva, dando uma olhada para trs, na 
direo da extremidade oriental do terrao. Todos se viraram e olharam na 
mesma direo. Uma procisso de pessoas se aproximava carregando 
travessas e recipientes com comida.
        Os participantes da reunio se separaram em pequenos grupos para 
comer. Manvelar, com o seu prato de comida, sentou-se ao lado de Ayla e 
defronte a Jondalar. Ele fizera questo de se apresentar na noite anterior, 
mas com a multido cercando a rcem chegada, no tentara conhec-la 
melhor. A caverna dele ficava perto e sabia que teria tempo para isso depois. 
        - Voc teve vrios convites, mas me deixe acrescentar outro - 
anunciou.
        - Precisa ir visitar a Pedra dos Dois Rios; a Terceira Caverna dos 
Zelandonii  bem vizinha.
        - Se a Dcima Quarta Caverna  conhecida pelos melhores 
pescadores, e a Dcima Primeira por fazer balsas, pelo que  conhecida a 
Terceira Caverna? - quis saber Ayla.
        Jondalar respondeu por ele.
        - Pela caa.
        - Mas todo mundo no caa? - indagou ela.
        - Claro,  por isso que eles no se gabam, justamente porque todo 
mundo caa. Individualmente, alguns caadores de outras Cavernas gostam 
de comentar as suas faanhas, e talvez sejam mesmo muito bons, mas, como 
um grupo, a Terceira Caverna  a que caa melhor.
        Manvelar sorriu.
        - Ns nos gabamos, sim, ao nosso modo, mas creio que  a nossa 
localizao o motivo pelo qual nos tornamos to bons caadores. O nosso 
abrigo fica bem acima da confluncia de dois rios, com amplas campinas. 
Esse - disse ele, acenando com uma mo que segurava um osso com carne, na 
direo do Rio - e outro chamado Rio da Relva. A maioria dos animais que 
caamos migram atravs desses dois vales, e temos o melhor lugar para 
observ-los durante qualquer poca do ano. Aprendemos a avaliar quando  
provvel alguns deles aparecerem, costumamos avisar a todo o resto, mas 
geralmente somos os primeiros a ca-los.
        - Isso pode ser verdade, Manvelar, mas todos os caadores da 
Terceira Caverna so bons, e no apenas um ou dois. E do duro para 
aperfeioar sua habilidade. Todos eles - destacou Jondalar. - Ayla entende 
isso. Ela adora caar,  espantosa com uma funda, mas espere s at 
mostrarmos o novo arremessador de lanas que inventamos. Voc no vai 
acreditar. Ele dispara uma lana muito mais longe e com mais velocidade. A 
pontaria de Ayla  mais certeira, e eu consigo lanar mais longe, mas 
qualquer um  capaz de atingir um animal estando duas ou at trs vezes 
mais distante do que  possvel acert-lo com uma lana arremessada com a 
mo.
        - Isso eu gostaria de ver! - pretendeu Manvelar. - Joharran quer 
organizar uma caada em breve, para aumentar as provises para a Reunio 
de Vero. Pode ser uma boa ocasio para demonstrar essa nova arma, 
Jondalar. - Ento, dirigindo-se a Ayla, acrescentou: - Vocs dois 
participaro da caada, no  mesmo?
 - Sim, eu gostaria. Ela fez uma pausa para dar uma mordida e olhando para 
os homens falou: - eu tenho uma pergunta. Por que as cavernas so 
numeradas desse modo? H alguma ordem para os nmeros ou algum 
significado?
        - As Cavernas mais antigas tm os nmeros mais baixos - explicou 
Jondalar.
        - Elas se organizaram primeiro. A Terceira Caverna foi organizada 
antes da Nona, e a Nona antes da Dcima Primeira ou da Dcima Quarta. 
No h mais a Primeira Caverna. A mais antiga  a Segunda Caverna dos 
Zelandonii, que no fica muito distante daqui. A Caverna de Manvelar  a 
mais antiga depois dela. Foi organizada pelo Primeiro Povo.
        - Quando voc me ensinou as palavras de contar, Jondalar, elas 
sempre eram ditas numa ordem particular - lembrou Ayla. - Esta  a Nona 
Caverna, e a sua, Manvelar,  a Terceira. Onde esto as pessoas das 
Cavernas com os nmeros intermedirios?
        O homem de cabelos grisalhos sorriu. Ayla havia escolhido a pessoa 
certa para obter informaes sobre os Zelandonii. Manvelar tinha um 
permanente interesse pela histria de seu povo e adquirido um grande 
acmulo de informaes com os vrios membros da zelandonia, viajantes 
contadores de histrias, e gente que ouvira narrativas transmitidas pelos 
seus ancestrais. Membros da zelandonia, inclusive a prpria Zelandoni, 
costumavam lhe fazer perguntas.
        - Com o passar dos anos, desde que o Primeiro Povo organizou as 
Cavernas originais, muitas coisas mudaram - esclareceu Manvelar. - Pessoas 
se mudaram ou encontraram parceiros em outras Cavernas. Algumas 
Cavernas ficaram pequenas, e outras, grandes.
        - Do mesmo modo que a Nona Caverna, algumas cresceram muito - 
acrescentou Jondalar.
        - As Histrias falam de doenas que s vezes exterminavam muita 
gente, ou de anos ruins quando as pessoas passavam fome - Manvelar 
retomou a narrativa. - Quando as Cavernas ficavam pequenas, s vezes duas 
ou mais se juntavam. As Cavernas combinadas normalmente ficam com o 
nmero mais baixo, mas nem sempre. Quando as Cavernas ficam grandes 
demais para o seu tamanho ou abrigo, elas podem se dividir, para formar 
uma nova, geralmente nas proximidades. Algum tempo atrs, um grupo da 
Segunda Caverna se separou e mudou-se para o outro lado do vale deles. 
Receberam a denominao de Stima Caverna, porque, na ocasio, havia a 
Terceira, a Quarta, a Quinta e a Sexta. Ainda h a Terceira,  claro, e a 
Quinta, ao norte, mas no existem mais a Quarta nem a Sexta.
        Ayla ficou maravilhada em aprender mais sobre os Zelandonii, e sorriu 
agradecida pela explicao. Os trs continuaram sentados, convivendo por 
alguns momentos, enquanto comiam em silncio. Ento, Ayla surgiu com outra 
pergunta.
        - Pelo que  conhecida a Nona Caverna?
        - Pelos seus artistas e artfices - respondeu Manvelar por ele. - 
Todas as cavernas tm artesos, mas a Nona Caverna possui os melhores. 
Em parte porque  muito grande. No so apenas as crianas que nascem, 
mas qualquer um que deseje o melhor treinamento em qualquer coisa, desde 
entalhe a feitura de utenslios, quer se mudar para a Nona Caverna.
        - Isso se deve principalmente a Rio Abaixo - esclareceu Jondalar.
        - O que  "Rio Abaixo"? - indagou Ayla.
        -  o abrigo seguinte, logo rio abaixo daqui - explicou Jondalar. - No 
se trata da habitao de uma Caverna organizada, embora algum possa 
achar isso, por causa do nmero de pessoas que costuma estar l. Trata-se 
de um lugar onde as pessoas vo trabalhar em seus projetos, e conversar 
com as outras sobre eles. Eu vou levar voc l, talvez depois desta reunio... 
se escaparmos antes de escurecer.
        Depois que todos comeram, incluindo os serventes, os filhos de vrias 
pessoas, e Lobo, eles se descontraram com canecos e vasilhas de ch 
quente. Ayla se sentia muito melhor. O embrulho no estmago havia sumido, 
como tambm a dor de cabea, mas sentia a necessidade cada vez mais 
premente de voltar a verter gua. Quando as pessoas que tinham trazido a 
refeio estavam indo embora com as enormes travessas vazias, Ayla notou 
que Marthona ficou sozinha por um momento, e aproveitou para ir ter com 
ela.
        - H algum lugar aqui perto onde passa gua? - perguntou baixinho. - 
        Ou preciso ir at as habitaes?
        Marthona sorriu.
        - Eu estava pensando em fazer a mesma coisa. H uma trilha para O 
Rio, perto da Pedra em P, um pouquinho ngreme perto do cume, mas d num 
lugar perto da margem, que  usado principalmente pelas mulheres. Eu lhe 
mostro. - Lobo seguiu-as, vigiou Ayla por alguns momentos, depois descobriu 
um cheiro mais interessante e partiu para explorar mais alm a margem do 
Rio. No caminho de volta, passaram por Kareja, que descia para a trilha. 
Cumprimentaram-se com a cabea, em mtua compreenso.
        Aps tudo ser retirado, Joharran levantou-se, ao verificar que todos 
estavam presentes Pareceu ser um sinal para a retomada das discusses. 
        Todos olharam
        Para o lder da Nona Caverna.
        - Ayla - comeou Joharran -, enquanto comamos, Kareja levantou uma
questo. Jondalar disse que pode se comunicar com os cabeas-chatas, o Cl, 
como voc os chama, mas no da maneira como voc consegue. Conhece to 
bem a lngua deles como Jondalar afirma?
        - Sim, conheo a lngua - respondeu Ayla. - Eu fui criada por eles. No 
conhecia nenhuma outra lingua antes de conhecer Jondalar. Anteriormente, 
quando eu era bem jovem, antes de me perder do meu proprio povo, devo ter 
conhecido uma outra, mas no recordo dela.
        - Mas o lugar onde voc cresceu fica muito distante daqui, um ano de 
viagem, no e mesmo? - prosseguiu Joharran Ayla fez que sim com a cabea
        - A lngua de gente que vive muito distante no  a mesma que a nossa. 
Eu no entendo quando voc e Jondalar falam Mamutoi. Mesmo os Losadunai, 
que vivem muito mais perto, tm uma lingua diferente. Algumas palavras so 
parecidas e consigo compreender mas no sou capaz de comunicar nada alem 
das ideias mais simples. Sei que a linguagem da gente desse Cl no  a 
mesma nossa, mas como voc, que veio de to longe,  capaz de entender a 
linguagem daqueles que vivem em volta daqui?
        - Entendo a sua duvida - retrucou Ayla - Quando encontramos Guban 
e Yorga, eu mesma no tinha certeza se seria capaz de me comunicar com 
eles. Mas a linguagem com palavras  diferente do tipo de linguagem que 
eles usam, no apenas por causa dos gestos e sinais, mas porque eles tem 
duas linguagens.
        - Como assim, duas linguagens? - estranhou a Zelandoni Que Era A 
Primeira.
        - Eles tm uma linguagem normal, corrente, que cada cl utiliza entre 
si no dia-a-dia - esclareceu Ayla - Embora, na maior parte das vezes, usem 
sinais e gestos, inclusive posturas e expresses. Eles tambem utilizam 
algumas palavras mesmo no sendo capazes de expressar todos os sons que 
os Outros conseguem. Alguns cls pronunciam mais palavras do que outros. A 
linguagem e as palavras correntes do dia-a-dia de Guban e Yorga eram 
diferentes das do meu cl, e no  conseguia entend-las. Mas o Cl tambm 
tem uma linguagem especial, formal, que utiliza para falar com o Mundo dos 
Espritos e para se comunicar com as pessoas dos outros cls que tm uma 
linguagem corrente diferente. Ela  muito antiga, e nenhuma palavra  usada, 
exceto algumas de nomes de pessoas. Era essa a linguagem que eu usava.
        - Deixe eu ver se entendi isso - refletiu a Zelandoni. - Esse Cl... 
estamos falando aqui de cabeas-chatas... no tem apenas uma lngua mas 
duas, e uma delas  mutuamente inteligvel pelos outros cabeas-chatas 
mesmo por algum que viva distante um ano de viagem?
        -  dificil de acreditar no? - observou Jondalar com um largo sorriso 
- Mas  verdade.
        A Zelandoni sacudiu a cabea. O resto pareceu igualmente descrente.
        -  uma lngua muito antiga, e a gente do Cl tem uma memria que 
recua muito no tempo - tentou elucidar Ayla. - Eles no esquecem nada.
        - Mesmo assim, acho difcil acreditar que eles consigam realmente se 
comunicar apenas com gestos e sinais - declarou Brameval.
        - Eu tambm acho a mesma coisa - concordou Kareja. - Da mesma 
maneira como Joharran falou sobre os Losadunai e os Zelandonii 
entenderem uns aos outros, talvez a coisa se resuma apenas a idias simples.
        - Ontem, voc deu uma pequena demonstrao em minha casa - 
mencionou Marthona. - Podia mostrar para todos ns?
        - Se, como afirma, Jondalar conhece um pouco dessa linguagem, 
talvez ele possa traduzir para ns - acrescentou Manvelar. Todos 
concordaram com a cabea.
        Ayla levantou-se. Parou um pouco para ordenar os pensamentos. Ento, 
com os movimentos da antiga linguagem formal, ela sinalizou:
        - Esta mulher deseja saudar o homem Manvelar. - Expressou o nome 
em voz alta, mas o maneirismo de sua fala e o seu sotaque peculiar foram 
muito mais fortes quando o pronunciou.
        Jondalar traduziu.
        - Saudaes, Manvelar.
        - Esta mulher quer saudar o homem Joharran - continuou Ayla.
        - E voc tambm, Joharran - disse Jondalar. Prosseguiram com 
algumas frases mais simples, mas ele pde perceber que os demais no 
estavam captando toda a essncia da compreensvel, se bem que silenciosa, 
linguagem. Jondalar sabia que Ayla conseguia dizer mais coisas, porm ele 
no era capaz de traduzir toda a sua complexidade.
        - Est apenas me transmitindo sinais bsicos, no  mesmo, Ayla?
        - No creio que voc seja capaz de traduzir mais do que os sinais 
bsicos, Jondalar. Isso foi tudo o que eu ensinei ao Acampamento do Leo e 
a voc. O suficiente para que pudesse se comunicar com Rydag. Receio que a 
linguagem completa no significaria muito para voc - disse Ayla.
        Quando nos mostrou, Ayla - interrompeu Marthona -, voc mesma fez 
a traduo. Acho que, desse modo, ficaria mais claro.
        - Sim, por que no mostra dessa maneira, para Brameval e os demais, 
usando ambas as linguagens? - props Jondalar.
        - Est bem, mas o que devo falar?
        - Por que no nos conta sobre a sua vida com eles - sugeriu a 
Zelandoni.
        Voc se lembra de quando eles a acolheram?
        Jondalar riu para a grande mulher. Era uma boa idia. No apenas 
mostraria a linguagem a todos, tambm revelaria a compaixo do povo, pela 
sua disposio em acolher criana orf, ainda que uma estranha criana rf. 
Isso provaria que o Cl trata melhor um dos nossos do que ns os tratamos.
        Ayla ficou parada um  momento, reunindo os pensamentos; em seguida, 
comeou, usando tanto a linguagem de sinais do Cl quanto as palavras dos 
Zelandonii.
        - No me lembro direito do incio, mas Iza costumava me contar como 
ela me encontrou. Eles estavam procurando uma nova caverna. Tinha havido 
um terremoto, provavelmente aquele com o qual ainda sonho. O terremoto 
havia destruido a habitao deles, pedras cairam no interior da caverna, 
mataram vrios do cl de Brun, e muitas coisas ficaram danificadas.
        Enterraram os mortos e depois partiram. Embora a caverna 
continuasse l, era perigoso permanecer. Os espritos dos totens deles 
estavam infelizes ali e queriam que partissem.
        Eles viajavam com pressa. Precisavam  logo de uma nova habitao, 
no apenas para si, mas porque os seus  protetores precisavam de um lugar 
onde ficassem satisfeitos.
        Embora Ayla mantivesse um tom de voz neutro e contasse a histria 
com gestos e movimentos, as pessoas ja estavam envolvidas na histria que 
narrava. Para elas, os totens eram uma teorizao da Me e tinham 
conhecimento dos desastres que a Grande Me era capaz de desencadear se 
no estivesse contente.
        - Iza me contou que estavam seguindo um rio, quando viram aves 
carniceiras circulando. Brun e Grod me viram primeiro mas passaram direto. 
Eles estavam procurando comida, e ficariam contentes se as aves 
carniceiras tivessem localizado uma presa morta por um animal caador. 
Desse modo, poderiam manter afastado o caador de quatro patas o tempo 
suficiente para pegar um pedao da carne. Eles pensaram que eu estivesse 
morta, mas no comem gente, nem mesmo dos Outros. Enquanto falava os 
movimentos de Ayla eram graciosos e tinham fluidez. Fazia os sinais e os 
sons com a desenvoltura do habito
        - Quando Isa viu deitada no cho ao lado do rio, parou para olhar. Ela 
era curandeira e curiosa. A minha perna tinha sido dilacerada pela pata de 
um grande felino, talvez um leo das cavernas, pensou ela, e a ferida estava 
infeccionada. A principio tambem pensou que eu estivesse morta, mas, 
quando me ouviu gemer, examinou mais de perto e descobriu que eu ainda 
respirava. Perguntou a Brun, o lder, que era seu irmo, se podia me levar. 
        Ele no a proibiu.
        "timo", "bem", reagiu a platia. Jondalar riu consigo mesmo.
        - Na ocasiao Isa estava grvida, mas me recolheu e me carregou at 
montarem acampamento para passar a noite. Ela no estava certa se a sua 
medicina funcionaria com algum dos Outros, mas tinha notcia de um caso 
anterior em que havia funcionado, e resolveu tentar. Preparou um 
cataplasma para deter a infeco. E tambm me carregou durante todo o 
dia seguinte. Lembro que gritei, quando acordei pela primeira vez e vi o seu 
rosto, mas ela me abraou e me consolou. No terceiro dia, consegui caminhar 
um pouco, e Iza ento decidiu que eu fui destinada a ser sua filha.
        Ayla parou por a. Reinava um silncio profundo. Tratava-se de uma 
histria comovente.
        - Que idade voc tinha? - perguntou finalmente Proleva.
        - Iza me disse posteriormente que, na ocasio, eu devia contar cinco 
anos. Eu talvez tivesse a idade de Jaradal ou Robenan - acrescentou, 
olhando para Solaban.
        - Voc tambm disse tudo isso com gestos? - quis saber Solaban. - 
Eles so mesmo capazes de falar tanta coisa sem palavras?
        - No havia um gesto para cada palavra que eu falei, mas, 
essencialmente, entenderam a mesma histria. A linguagem deles  mais do 
que apenas movimentos com as mos. Ela tem tudo; mesmo um piscar de olho 
ou uma inclinao de cabea podem conter um significado.
        - Mas, com esse tipo de linguagem - frisou Jondalar -, eles no 
conseguem contar uma mentira. Se tentarem, uma expresso ou uma postura 
podem denunci-los. Quando a conheci, Ayla nem mesmo fazia idia de que 
se pode dizer uma coisa que no seja verdade. Teve at problemas para 
entender o que eu pretendia expressar. Embora atualmente entenda o que , 
continua sem conseguir mentir. Ayla no mente. Nunca aprendeu a mentir. 
Foi criada assim.
        - Pode haver mais mritos do que se imagina em se falar sem usar 
palavras. - comentou baixinho Marthona.
        - Depois de observ-la, creio que  bvio que esse tipo de linguagem 
de gestos  um meio natural de comunicao para Ayla - deduziu a Zelandoni, 
pensando consigo mesma que os movimentos da jovem no seriam to suaves 
e graciosos, se ela os estivesse forjando. E que motivos teria para mentir - 
seria verdade que no era capaz de contar uma mentira? No estava 
totalmente convencida, mas os argumentos de Jondalar tinham sido 
convincentes.
        - Conte mais sobre a sua vida com eles - pediu o Zelandoni da Dcima 
Primeira. - No precisa continuar com os sinais, a no ser que queira. So 
bonitos de se ver, mas creio que j provou o que queria. Voc disse que eles 
enterram os mortos. Eu queria saber mais sobre os costumes de 
sepultamento.
        - Sim, eles enterram os mortos. Eu estava l, quando Iza morreu.
        A conversa continuou durante toda a tarde. Ayla fez um comovente 
relato sobre a cerimnia e o ritual dos enterros, depois falou um pouco mais 
sobre a sua infncia.
        Todos fizeram muitas perguntas, quase sempre interrompendo-a para 
debater e pedir maiores informaes.
        Finalmente Joharran percebeu que escurecia.
        - Acho que Ayla est cansada, e todos ns estamos novamente com 
fome - salientou. - Antes de encerrarmos, creio que devemos combinar uma 
caada antes da Reunio de Vero.
        - Jondalar me falou que ia nos mostrar uma nova arma de caa - 
lembrou Manvelar. - Talvez amanh ou o dia seguinte seja bom para se caar. 
Isso dar tempo  Terceira Caverna de desenvolver um plano para propor 
um lugar aonde deveremos ir.
        - timo - concordou Joharran -, mas, agora, Proleva providenciou uma 
outra refeio para ns, se  que algum est com fome.
        A reunio fora intensa e fascinante, mas as pessoas ficaram 
contentes em poder se levantar e se movimentar. Enquanto caminhavam de 
volta para as habitaes, Ayla ia pensando na reunio e em todas as 
perguntas. Ela sabia que respondera a tudo com honestidade, mas que 
tambm no havia, espontaneamente, oferecido muito alm do que lhe fora 
perguntado. Evitara, especialmente, qualquer meno ao seu filho. Ayla sabia 
que, para os Zelandonii, ele seria considerado uma abominao, e, apesar de 
no conseguir mentir, ela tinha a capacidade de omitir.
        Estava escuro no interior, quando chegaram  habitao de Marthona. 
Folara tinha preferido ficar com a amiga Ramila, em vez de esperar sozinha 
que a me, Willamar, Ayla e Jondalar voltassem. Eles a tinham visto durante 
a refeio da noite, mas as conversas haviam continuado de um modo mais 
informal, e a moa sabia que no voltariam cedo para casa.
        Nem mesmo o leve rubor de carves se extinguindo na lareira podia 
ser visto quando afastaram a cortina da entrada.
        - Vou pegar uma lamparina ou uma tocha com Joharran, para acender 
um fogo - props Willamar.
        - No vejo nenhuma luz por l - avisou Marthona. - Ele estava na 
reunio, e Proleva tambm. Talvez tenham ido pegar Jaradal.
        - E na moradia de Solaban? - perguntou Willamar.
        - Tambm no vejo luz por l. Ramara no deve estar. Solaban 
tambm passou o dia todo na reunio.
        - No precisa se incomodar em ir pegar fogo - alertou Ayla. - Eu 
tenho as pedras-de-fogo que encontrei hoje. Posso acender um bem rpido.
        - O que so pedras-de-fogo? - Marthona e Willamar perguntaram 
quase em unssono.
        - Ns vamos lhes mostrar - anunciou Jondalar. Embora no pudesse 
ver o seu rosto, Ayla sabia que ele sorria.
        - Vou precisar de uma isca para fazer fogo - disse Ayla. - Algo para 
pegar uma fasca.
        - H isca perto da lareira, mas no sei se conseguirei chegar at l 
sem tropear em alguma coisa - justificou-se Marthona. - Podemos pegar 
fogo com algum, para acender a lareira.
        - Teria que entrar e procurar uma lamparina ou uma tocha no escuro, 
no  mesmo? - argumentou Jondalar.
        - Podemos pedir uma lamparina emprestada - sugeriu Marthona.
        - Acho que posso produzir luzes de centelhas suficientes para 
encontrar a lareira - disse Ayla, retirando a faca de slex e apalpando a 
bolsa  procura das pedras-de-fogo que havia encontrado.
        Entrou na habitao na frente, segurando adiante o ndulo de pirita-
de-ferro,  esquerda, e a faca,  direita. Por um instante, teve a sensao 
de que entrara numa caverna profunda. A escurido era to intensa, que 
parecia empurr-la de volta. Foi sacudida por um rpido arrepio. Atingiu a 
pedra-de-fogo com a parte de trs da faca de slex.
        - Ooohhh! - Ayla ouviu Marthona exclamar, quando uma reluzente 
fasca iluminou por um instante o interior escuro como breu e em seguida se 
extinguiu.
        - Como fez isso? - surpreendeu-se Willamar. - Consegue fazer 
novamente? Fiz isso com a minha faca de slex e a pedra-de-fogo - explicou 
Ayla, e voltou a bater uma na outra para mostrar que, de fato, podia fazer 
aquilo novamente. A duradoura centelha permitiu-lhe dar alguns passos na 
direo da lareira. Bateu novamente e avanou mais um pouco. Ao chegar  
rea de cozinhar, percebeu que Marthona tambm havia encontrado seu 
caminho at l.
        - Eu guardo as minhas iscas aqui, deste lado - informou Marthona. - 
Onde quer coloc-las?
        - Aqui perto da beirada est timo - disse Ayla. Sentiu no escuro a 
mo de Marthona e os pedaos secos e macios de algum tipo de material 
fibroso que ela segurava. Ayla colocou as iscas no cho, curvou-se para 
perto e riscou novamente a pedra-de-fogo. Dessa vez, a fasca saltou para a 
pequena pilha de material inflamvel e causou uma tnue e rubra 
incandescncia. Ayla soprou-a levemente e foi recompensada com uma 
pequena chama. Empilhou sobre ela mais um pouco de iscas.
        Marthona j estava pronta para acrescentar pequenas lascas de lenha, 
em seguida gravetos maiores, e no que pareceu um pouco mais do que um 
piscar de olhos, uma fogueira generosa acendeu-se no interior da habitao.
        - Agora eu quero ver essa tal pedra-de-fogo - anunciou Willamar, 
aps acender algumas lamparinas.
        Ayla entregou-lhe o pequeno ndulo de pinta-de-ferro. Willamar 
examinou a pequena pedra cinza-dourado, virando-a para ver todos os lados.
        - Parece uma pedra, com uma cor interessante. Como voc faz fogo 
com ela? - indagou. - Qualquer um pode fazer?
        - Sim, pode - respondeu Jondalar. - Eu vou lhe mostrar. Pode me dar 
um pouco de isca, mame?
        Enquanto Marthona ia pegar mais iscas, Jondalar foi at a sua sacola 
de viagem, atrs do estojo de fazer fogo e pegou o acendedor de slex e a 
pedra-de-fogo. A seguir, fez uma pilha com as fibras macias - 
provavelmente imaginou ele, fibras de tabua ou loendro, misturadas com um 
pouco de piche e lenha podre seca e esfarelada de rvore morta. Era a isca 
de fazer fogo preferida de sua me. Curvando-se para perto da mecha 
inflamvel, Jondalar bateu o slex contra a pinta- de-ferro. A fasca no foi 
to fcil de ser vista, por causa da proximidade da fogueira incandescente; 
mesmo assim, pousou na pilha inflamvel, chamuscou-a de marrom e mandou 
para o ar uma baforada de fumaa. Jondalar soprou, criou uma pequena 
chama e juntou mais combustvel. Logo uma segunda fogueira queimava no 
crculo rodeado de pedras escurecido por cinzas, que era a lareira da 
habitao.
        - Posso experimentar? - ofereceu-se Marthona.
        -  preciso um pouco de prtica para extrair uma fasca e faz-la 
pousar onde se deseja, mas no  difcil - instruiu Jondalar, entregando-lhe 
a pedra e o acendedor.
        - Tambm quero experimentar depois de voc - pediu Willamar.
        - No precisa esperar - disse Ayla. - Vou pegar o acendedor do meu 
estojo de fazer fogo e lhe mostrar. Eu andei usando a parte de trs da 
minha faca, mas ela j est lascando e no quero quebrar a lmina.
        As primeiras tentativas deles foram desajeitadas, mas, com Ayla e 
Jondalar ensinando-lhes a tcnica, Marthona e Willamar comearam a pegar 
o jeito. Willamar foi o primeiro a acender um fogo, mas teve problemas para 
conseguir uma segunda vez. Assim que Marthona fez um fogo, conseguiu 
dominar a tcnica, e, com a prtica e a orientao dos dois especialistas, 
misturadas a muitas gargalhadas no demorou muito para ambos tirarem 
fascas da pedra e fazerem fogueiras com facilidade.
        Folara chegou em casa e encontrou os quatro sorrindo de prazer, 
ajoelhados em volta da lareira contendo vrias fogueiras. Lobo veio com ela. 
O animal se cansara de ficar o dia todo num mesmo lugar com Ayla, e, 
quando encontrou Jaradal com Folara, que o incentivou, no pde resistir a 
se juntar aos dois. Eles ficaram felizes em exibir o seu bom relacionamento 
com o predador curiosamente amigvel, e a aproximao fez com que este 
parecesse menos ameaador s de mais pessoas da Caverna.
        Aps cumpriment-los, a todos, adequadamente e beber um pouco de 
gua, Lobo foi para o canto perto da entrada, que reivindicara como seu, e 
enroscou-se para descansar de um dia maravilhosamente cansativo com 
Jaradal e algumas outras crianas.
        - O que est havendo? - quis saber Folara, aps os entusiasmados 
cumprimentos, ao perceber o braseiro. - Por que tanto fogo na lareira?
        - Estivemos aprendendo a fazer fogo com pedras - contou Willamar.
        - Com a pedra-de-fogo de Ayla? - perguntou Folara.
        - Sim.  to fcil - comentou Marthona.
        - Eu prometi mostrar para voc, Folara. Quer experimentar agora? - 
sugeriu Ayla.
        - Voc fez mesmo fogo, mame? - duvidou Folara.
        - Claro.
        - E voc tambm, Willamar?
        - Sim.  preciso prtica, mas no  difcil - falou.
        - Bem, eu no posso ser a nica da famlia que no sabe fazer - alegou 
Folara.
        Enquanto Ayla mostrava  moa os detalhes de se fazer fogo com 
pedras, sob a orientao de Jondalar e do novo especialista, Willamar, 
Marthona utilizava as fogueiras existentes para esquentar pedras de 
cozinhar. Encheu de gua seu cesto de fazer ch e passou a fatiar um 
pedao de carne assada fria de biso. Quando as pedras ficaram quentes, 
colocou vrias no cesto de fazer ch, provocando uma nuvem de vapor, 
depois adicionou mais algumas, juntamente com mais gua de um recipiente 
feito de vime de salgueiro-branco, fortemente entrelaado com feixes 
presos a uma base de madeira. Nele havia verduras que tinham sido cozidas 
naquela manh: brotos de hemerocale, pedaos cortados de caules verdes 
de erva-dos-cancros, brotos de sabugueiro, caules de cardo, caules de 
bardana, rebentos de samambaia e bulbos de lrios, temperados com 
manjerico silvestre, flores de sabugo e raiz de nogueira-amarga para dar 
um sabor picante.
        Quando a ceia leve de Marthona ficou pronta, Folara j havia 
acrescentado a sua pequena fogueira s que ainda queimavam na lareira. 
Todos pegaram os seus pratos de comer e canecos de ch e se sentaram em 
volta da mesa baixa. Aps a refeio, Ayla levou uma tigela de madeira com 
sobras e um pedao a mais de carne para Lobo, serviu-se de outro caneco de 
ch e foi se juntar aos demais.
        - Quero saber mais sobre essas pedras-de-fogo - declarou Willamar. 
- Eu nunca tinha ouvido falar que se fazia fogo desse jeito.
        - Onde aprendeu a fazer isso, Jond? - quis saber Folara.
        - Ayla me mostrou - respondeu.
        - Onde voc aprendeu, Ayla? - insistiu Folara.
        - No foi algo que aprendi, planejei ou pensei em fazer, apenas 
aconteceu.
        - Mas como uma coisa dessas pode simplesmente "acontecer"? - 
rebateu Folara.
        Ayla deu um gole no ch e fechou os olhos para se lembrar.
        - Foi um daqueles dias em que tudo parece dar errado - iniciou. - O 
meu primeiro inverno no vale apenas comeava, o rio estava virando gelo e a 
minha fogueira tinha se apagado no meio da noite. Huiin ainda era beb, as 
hienas bisbilhotavam no escuro em volta da minha caverna, e eu no 
conseguia encontrar a minha funda. Tive que afugenta-las jogando pedras de 
cozinhar. Pela manh, fui cortar lenha para fazer uma fogueira, mas deixei 
cair o meu machado e ele se quebrou. Era o unico que eu tinha, e precisava 
fazer outro. Felizmente, tinha notado que havia nodulos de silex no monte 
de pedras e ossos de animais que tinham se  empilhado embaixo da caverna.
        Desci para a ribanceira rochosa do rio para lascar um novo machado e 
alguns outros utenslios. Enquanto trabalhava, coloquei de lado o meu 
rebarbador de pedras, mas a minha mente estava no slex, e apanhei a pedra 
errada por engano. No era o meu rebarbador, mas uma pedra como esta, e 
quando a bati no slex, saiu uma centelha.
        Isso me fez pensar em fogo, e como eu precisava mesmo fazer uma 
fogueira, resolvi experimentar para fazer uma com a fasca que saa da  
pedra. Depois de algumas tentativas, deu certo.
        - Voc faz isso parecer muito simples - observou Marthona -, mas no 
sei se eu tentaria fazer uma fogueira desse modo, mesmo se tivesse visto 
uma fasca.
        - Eu estava sozinha no vale, sem ningum para me mostrar como fazer 
as coisas, ou me dizer o que no podia ser feito - alegou Ayla. - Eu j tinha 
caado e morto uma egua, o que era contra as tradies do Cl, e depois 
adotado a cria dela, o que o Cl jamais teria permitido. Na ocasio, eu j 
havia feito tantas coisas que no devia fazer, que estava pronta para 
experimentar qualquer idia que me surgisse.
        - Vocs tm muitas dessas pedras-de-fogo? - indagou Willamar.
        - Havia muitas pedras-de-fogo naquela praia rochosa - respondeu 
jondalar. - Antes de deixarmos o vale pela ltima vez, juntamos quantas 
pudemos. Demos algumas, durante a nossa Jornada, mas tentei guardar o 
mximo possvel para as pessoas daqui. No encontramos mais nenhum 
durante todo o caminho.
        -  uma pena - lamentou o Mestre Comerciante. - Seria timo dividi-
las, talvez fazer umas trocas com elas.
        - Mas podemos! - exclamou jondalar. - Esta manh, pouco antes de ir 
para a reunio, Ayla encontrou algumas no Vale do Rio do Bosque. Foi a 
primeira vez que vi uma dessas pedras depois que deixamos o vale dela.
        - Voc encontrou mais? Aqui? Onde? - quis saber Willamar.
        - No p de uma pequena cachoeira - respondeu Ayla.
        - Se h algumas naquele pequeno lugar, deve haver mais perto dali - 
arriscou jondalar.
        -  verdade - concordou Willamar. - Para quantas pessoas vocs j 
falaram dessas pedras-de-fogo?
        - No tivemos tempo de contar para ningum, mas a Zelandoni sabe - 
informou Jondalar. - Folara contou para ela.
        - Quem contou para voc? - perguntou Marthona a ela.
        - Ayla, ou melhor, eu a vi usar uma - revelou Folara. - Ontem, depois 
que voc voltou para casa, Willamar.
        - Mas ela no viu por si mesma? - perguntou Willamar, um sorriso se 
formando.
        - Creio que no - disse Folara.
        - Isso vai ser engraado. Mal posso esperar para mostrar a ela! - 
exultou Willamar. - Ela vai ficar pasma, mas no vai querer demonstrar.
        - Ser engraado - concordou jondalar, sorrindo tambm. - No  
fcil surpreender essa mulher.
        -  porque ela sabe coisas demais - comentou Marthona. - Mas voc j 
a impressionou mais do que imagina, Ayla.
        -  verdade - confirmou Willamar. - Os dois j impressionaram. Vocs 
tem mais surpresas guardadas sobre as quais ainda no contaram?
        - Bem, acho que vo ficar assombrados com o arremessador de lanas 
que vamos demonstrar amanh, e vocs no conseguem imaginar o quanto 
Ayla  boa com a funda - afirmou jondalar. - E, embora no deva significar 
muita coisa Dalanar ficou impressionado.
        - Se Dalanar ficou impressionado, eu terei que ficar - admitiu 
Willamar.
        - E tambm tem o puxador de fio - acrescentou Ayla.
        - Puxador de fio? - surpreendeu-se Marthona.
        - Sim, para cerzir. Eu simplesmente no conseguia aprender como 
enfiar um cordo fino ou um tendo atravs de um furo feito por uma sovela. 
Ento, tive uma idia, mas foi o Acampamento do Leo inteiro que me ajudou 
a fazer o primeiro. Se quiserem, posso apanhar o meu estojo de costura e 
mostrar para vocs - props Ayla.
        - Voc acha que essa coisa pode ajudar algum cujos olhos no 
conseguem enxergar furos to bem quanto antes? - indagou Marthona.
        - Creio que sim - disse Ayla. - Vou apanhar.
        - Por que no espera at amanh, quando haver mais luz? No  to 
fcil enxergar  luz de uma fogueira quanto  luz do sol - sugeriu Marthona. 
        - Mas gostaria de ver isso.
        - Bem, Jondalar, voc certamente causou muita comoo por aqui - 
reconheceu Willamar. - S o seu retorno teria sido suficiente, mas trouxe 
para c muito mais do que voc mesmo. Eu sempre disse que viajar abre 
novas possibilidades, suscita novas idias.
        - Acho que tem razo, Willamar - concedeu Jondalar. - Mas lhe digo 
sinceramente: estou farto de viajar. Vou me contentar em ficar em casa por 
um longo tempo.
        - Voc vai  Reunio de Vero, no vai, Jond? - indagou Folara.
        - Claro. Ns vamos nos acasalar l, irmzinha - adiantou Jondalar, 
colocando o brao em volta de Ayla. - Ir  Reunio de Vero no  bem 
viajar, principalmente depois da Jornada que fizemos. Ir  Reunio de Vero 
faz parte de estar em casa. O que me faz lembrar de uma coisa, Willamar j 
que Joharran est planejando uma caada extra antes de irmos, voc sabe 
onde podemos conseguir disfarces? Ayla tambm quer caar, e ns dois 
vamos precisar deles.
        - Estou certo de que conseguiremos achar alguma coisa. Eu tenho uma 
galhada sobrando, para o caso de irmos atrs de cervos. Muita gente tem 
peles e outras coisas - adiantou o Mestre Comerciante.
        - O que so disfarces? - perguntou Ayla.
        - A gente se cobre com peles de animais, e s vezes usa galhadas de 
veados ou chifres, para conseguir chegar perto de uma manada. Bichos so 
desconfiados perto de pessoas, e por isso a gente tenta fazer com que eles 
pensem que somos animais - explicou Willamar.
        - Huiin e eu ajudamos na caada a bises - sugeriu Ayla, e dirigiu-se a 
Willamar.
        - Quando estamos montados, os animais no nos vem, s enxergam os 
cavalos. Podemos chegar bem perto, e, com Lobo, e ns dois apenas usando 
os arremessadores de lanas, temos sido bem-sucedidos.
        - Usar os seus animais para ajudar a caar animais? Voc no 
mencionou isso, quando perguntei se tinham mais surpresas escondidas. 
Acha que isso no seria impressionante? - observou Willamar com um 
sorriso.
        - Tenho um pressentimento de que, mesmo eles, no sabem de todas 
as surpresas que tm guardadas para ns - ponderou Marthona, e, depois de 
uma pausa: - Algum mais quer ch de camomila antes de ir dormir? - olhou 
de relance para Ayla. -  muito calmante e relaxante, e hoje voc passou por 
um interrogatrio e tanto. Esse povo do Cl tem muito mais coisas do que 
jamais imaginei.
        Os ouvidos de Folara captaram o comentrio. Todo mundo andava 
falando sobre a demorada reunio, e as suas amigas a tinham procurado para 
conhecer os detalhes, achando que ela tinha as informaes. Dissera-lhes 
que no sabia nada alm do que todo mundo, porm conseguiu deixar 
subentendido que no podia contar o que conhecia. Agora, pelo menos, ela 
fazia alguma idia do assunto da reunio. Continuou ouvindo atentamente o 
desenrolar da conversa.
        - . . .eles parecem ter qualidades muito boas - dizia Marthona. - 
Cuidam dos doentes, e o lder parece colocar em primeiro lugar os 
interesses de seu povo. O conhecimento das curandeiras deve ser bastante 
amplo, tendo em vista a reao da Zelandoni, e tenho a impresso de que ela 
vai querer saber mais sobre o lder espiritual deles.
        Creio que ela vai querer lhe fazer muito mais perguntas, Ayla, mas se 
contenha. Joharran estava mais interessado nas pessoas e no seu modo de 
vida.
        Seguiu-se uma acomodao, um momento de silncio. Olhando a bela 
moradia de Marthona,  sedutora luz suave lanada pela fogueira da lareira 
e das lamparinas a leo, Ayla percebeu mais detalhes estticos. A habitao 
complementava a mulher, isso lhe lembrou o sentido de elegncia com o qual 
Ranec havia arrumado seu espao de moradia na habitao de terra do 
Acampamento do Leo. Ele era um artista, um excelente entalhador, e se 
dera ao trabalho de explicar-lhe os seus sentimentos e ideias sobre criar e 
apreciar a beleza, por si mesmo e em homenagem  Grande Me Terra. Ela 
achou que Marthona tambm devia ter algo desse sentimento.
        Dando pequenos goles no ch quente, Ayla observou a famlia de 
Jondalar, enquanto eles relaxavam silenciosamente em volta da mesa baixa, 
e vivenciou uma sensao de paz e contentamento nunca dantes 
experimentada. Aquelas eram pessoas que conseguia entender, gente como 
ela, e naquele momento lhe ocorreu que era realmente uma dos Outros. 
Ento, subitamente, evocou uma imagem da caverna do cl de Brun, onde ela 
crescera, e espantou-se diante do contraste.
        Entre os Zelandonii, cada famlia tinha as suas habitaes individuais, 
com divisrias e paredes separando as unidades de moradia. Vozes e sons 
podiam ser ouvidos no interior das habitaes, os quais, por costume, eram 
ignorados, mas cada famlia tinha a sua privacidade visual. Os Mamuti 
tambm tinham reas definidas para cada famlia, no interior da habitao 
de terra do Acampamento do Leo, com cortinas que, se fosse desejado, 
asseguravam a privacidade visual.
        Na caverna do seu cl, as fronteiras que delimitavam o espao de 
moradia de cada famlia eram conhecidas, ainda que no fossem definidas 
com algo mais do que algumas pedras estrategicamente dispostas. 
Privacidade era uma questo de convvio social; uma pessoa no olhava 
diretamente para o interior da lareira do vizinho e no "enxergava" alm da 
fronteira invisvel. O Cl era perfeito em no ver o que no devia. Ayla 
recordou com uma pontada dolorida o modo pelo qual, mesmo aqueles que a 
amavam, simplesmente deixaram de enxerg-la depois que fora amaldioada 
com a morte.
        Os Zelandonii tambm definiam os espaos internos e externos da 
moradia, com lugares para dormir, cozinhar e comer, e as vrias tarefas a 
serem executadas. No Cl, no eram to exatamente localizadas as reas 
para as diferentes atividades. Em geral, eram preparados os locais de 
dormir e demarcada a lareira, mas, na maioria das vezes, a diviso do espao 
era uma questo de costume, hbito e comportamento. Havia divises 
mentais e sociais, mas no fsicas. As mulheres evitavam os locais onde os 
homens trabalhavam, os homens ficavam distantes das atividades das 
mulheres, e as tarefas a serem executadas costumavam ser feitas onde era 
conveniente na ocasio.
        Os Zelandonii pareciam ter mais tempo para fazer as coisas do que o 
Cl, presumiu Ayla. Todos pareciam fazer tantas coisas, e no apenas as 
necessrias. Talvez fosse o seu modo de caar que fazia a diferena. Ela 
estava perdida em pen samentos, e no ouviu a pergunta que lhe fizeram.
        - Ayla?... Ayla! - chamou alto Jondalar.
        - Oh! Desculpa, Jondalar. O que foi que disse?
        - No que estava pensando, para no me ouvir?
        - Eu estava pensando nas diferenas entre os Outros e o Cl, e me 
perguntava por que os Zelandonii parecem fazer mais do que o Cl fazia - 
esclareceu Ayla.
        - Chegou a alguma concluso? - quis saber Marthona.
        - No sei, mas talvez os mtodos diferentes de caar tenham a ver 
com isso - respondeu Ayla. - Quando Brun e seus caadores saam, 
costumavam trazer de volta um animal inteiro, as vezes dois. O 
Acampamento do Leo devia contar mais ou menos com o mesmo nmero de 
pessoas do cl de Brun, mas, quando caavam iam todos que podiam sair, 
homens, mulheres, e at crianas, mesmo se fosse pelo passeio. Costumavam 
abater muitos animais e levavam de volta apenas os melhores e os pedaos 
mais gordos, e guardavam a maior parte da carne para o inverno. No me 
lembro de nenhuma poca em que qualquer um tenha passado fome, mas, no 
final do inverno, em geral s restava ao cl um alimento menos gordo e 
menos sacivel, e por vezes tinham que caar na primavera, quando os 
animais ainda estavam magros. No Acampamento do Leo, alguns alimentos 
acabavam, e eles ficavam ansiosos por verduras, mas pareciam se alimentar 
bem, at o incio da primavera.
        - Talvez a gente deva mencionar isso para Joharran, depois - disse 
Willamar, bocejando ao mesmo tempo em que se levantava. - Mas, no 
momento, vou dormir.  provvel que tenhamos tambm um dia movimentado 
amanh.
        Marthona levantou-se das almofadas, ao mesmo tempo que Willamar, 
e levou os pratos de servir para a rea de cozinhar.
        Folara se ps de p, espreguiou-se e bocejou de um modo bem 
parecido ao de Willamar, e Ayla sorriu diante da semelhana.
        - Tambm vou dormir. Amanh, eu ajudo voc a limpar esses pratos, 
mame - prometeu, esfregando com um pequeno pedao de pele de veado em 
sua tigela de comer, antes de deix-la de lado. - Estou muito cansada agora.
        - Voc vai caar, Folara? - perguntou Jondalar.
        - Ainda no decidi. Verei depois como estarei me sentindo - retrucou, 
rumando para o seu aposento de dormir.
        Depois que Marthona e Willamar entraram no seu espao de dormir, 
Jondalar afastou a mesa baixa para um lado e espalhou as peles dele e de 
Ayla. Ao se acomodarem nelas, Lobo aproximou-se para dormir ao lado de 
Ayla. O animal no se importava em ficar fora do caminho, quando havia 
pessoas presentes, mas quando Ayla ia para a cama, ele achava que o seu 
lugar era ao lado dela.
        - Gostei muito de sua famlia, Jondalar - afirmou Ayla. - Acho que vou 
gostar de viver com os Zelandonii. Estive pensando no que voc disse ontem 
 noite, e conclu que tem razo. No devo julgar todos por algumas poucas 
pessoas desagradveis.
        Tambm no julgue todos pelas melhores - recomendou Jondalar. - 
Nunca se sabe como as pessoas reagiro diante de alguma coisa.  bom 
julg-las uma de cada vez.
        - Acredito que todo mundo tem coisas boas e ms - aventou Ayla. 
Alguns tem mais de uma coisa do que de outra. Sempre espero que as 
pessoas sejam mais boas do que ms,  e quero acreditar que a maioria . 
Voce se lembra de Frebec? No incio, ele era mesmo detestvel, mas, no 
final, revelou-se gentil.
        - Admito que ele me surpreendeu - concordou Jondalar, aconchegando 
se a ela e fuando o seu pescoo.
        - Mas voc no me surpreende - disse ela, sorrindo ao sentir as mos 
dele entre suas coxas. - Eu sei no que est pensando.
Espero que esteja pensando na mesma coisa - sugeriu ele. Ao se esticar para 
beij-lo, ela devolveu-lhe o gesto. - E acho que est mesmo.
        O beijo foi extenso e demorado. Ambos sentiram o desejo aumentar, 
mas havia afobao, nenhuma necessidade de pressa. Estavam em casa, 
lembrou Jondalar. Apesar de todas as dificuldades da longa e perigosa 
Jornada, ele a trouxera para casa. Agora, ela estava a salvo, os perigos 
tinham cessado. Parou, baixou a vista para Ayla, e sentiu tanto amor por ela, 
que no sabia se seria capaz de cont-lo.
        Mesmo com a iluminao suave das fogueiras que se extinguiam, Ayla
conseguiu enxergar o amor nos olhos azuis que, iluminados pela luz do fogo, 
tinham um magnfico tom violeta, e sentiu-se preencher da mesma emoo. 
Na poca em que estava crescendo, ela nunca sonhou que encontraria um 
homem como Jondalar, nunca sonhou que teria tanta sorte.
        Ele sentiu um n na garganta e curvou-se para beij-la novamente, e 
percebeu que precisava tom-la, am-la, unir-se a ela. E ficou grato por 
saber que ela estava ali a sua disposio. Ayla sempre parecia estar pronta 
para Jondalar, para desej-lo toda vez que a desejava. Nunca fizera com ele 
o jogo do recato, como muitas mulheres faziam.
        Marona cruzou a mente dele por um instante. Ela gostava de brincar 
desses jogos,  no tanto com ele, mas com outros. E, subitamente, 
agradeceu por ter partido  com o irmo para uma aventura, em vez de ficar 
e se acasalar com Marona. Se ao menos Thonolan tivesse sobrevivido...
Mas Ayla estava viva, apesar de quase t-la perdido mais de uma vez. 
Jondalar sentiu a boca de Ayla se abrir, para a sua lngua exploradora e a 
quentura da respirao dela. Beijou-lhe o pescoo, mordiscou o lobulo da 
orelha e percorreu a lngua  pelo seu pescoo abaixo, numa clida carcia.
        Ela se manteve imvel, resistindo  sensao formigante, deixando 
que se tornasse em espasmos internos de expectativa. Ele beijou a 
depresso da sua garganta para um lado, em direo ao mamilo ereto, 
circundandoo, mordiscando-o. A antecipao dela era to intensa, que quase 
teve uma sensao de alvio quando ele, finalmente, tomou na boca e o sugou. 
Ayla sentiu o estremecer e a excitao nas profundezas de seu ser e no 
lugar de seus Prazeres.
        Ele estava pronto, estava pronto demais, mas se sentiu completar 
ainda mais ao ouvir o leve gemido ao sugar e delicadamente morder um e 
depois o outro. A nsia subitamente o dominou fortemente, e a desejou 
naquele instante, mas quis que ela estivesse to pronta quanto ele. E sabia 
como faz-lo.
        Ayla conseguia sentir o vido desejo dele, e isso desencadeou o dela. 
Estava disposta a se abrir para ele naquele momento, mas quando Jondalar 
empurrou para baixo a parte de cima do rolo de dormir deles e o baixou 
ainda mais, ela conteve a respirao, sabendo e desejando o que viria a 
seguir.
        A lngua de Jondalar circulou o umbigo dela por apenas um momento; 
ele no queria esperar, nem ela. Ao chutar para longe a coberta, ela sentiu 
um momento de hesitao, ao pensar nos outros em seus locais de dormir ali 
perto. Ayla no estava acostumada a estar numa habitao com outras 
pessoas e se sentiu um pouco constrangida.
        Jondalar no parecia ter esses escrpulos.
        O embarao escorregou para fora de sua mente ao sentir Jondalar 
beijar uma coxa, pressionar para lhe abrir as pernas, beijar a outra, e 
depois beijar as suaves dobras de sua feminilidade. Saboreou o gosto 
familiar dela, lambeu lentamente, e encontrou o pequeno e duro ndulo.
        O gemido dela saiu mais alto. Sentiu lampejos de Prazer pelo corpo 
como clares de relmpago, enquanto ele a sugava e a massageava com a 
lngua. No se dera conta de que estava to pronta. A coisa lhe veio mais 
depressa do que esperava. Quase sem aviso, ela estava l, sentido o pice do 
Prazer e um desejo avassalador por ele e por sua masculinidade.
Ayla o alcanou, puxou-o para cima e ajudou-o a penetrar. Ele penetrou 
fundo. Com a primeira investida, ele pelejou para se conter, esperar um 
pouco, mas ela estava pronta, exigindo-o, e Jondalar cedeu. Com uma 
contente renncia, mergulhou, totalmente, uma vez mais, depois mais outra, 
e ento l estava ele, e ela tambm, sentindo as ondas de Prazer se 
erguerem e transbordarem repetidamente.
        Jondalar descansou em cima dela, um momento que ela sempre 
saboreava, mas ele lembrou que Ayla estava grvida e ficou preocupado com 
o fato de o seu peso ser de mais. Ayla sentiu um instante de decepao 
quando ele se afastou cedo demais.
        Ao rolar para o lado, ele voltou a se perguntar se Ayla estaria certa.
Foi assim que o beb comeou dentro dela? O beb era dele tambm, como
ela sempre insistiu? Estaria certa quanto aos seus filhos no serem apenas
esse maravilhoso Dom do Prazer mas que esse era o modo de  a mulher 
comear uma nova vida? Ele queria que ela estivesse certa, queria que fosse 
verdade, mas como poderia saber?
        Aps um instante, Ayla se levantou. Do balaio de bagagem, retirou 
uma pequena vasilha e despejou nela um pouco de gua da bolsa de gua. 
Lobo a havia seguido na costumeira tentativa de abordagem aps os 
Prazeres dela com Jondalar. Ayla sorriu para ele e fez o sinal de tudo bem; 
ento, de p sobre o cesto noturno, limpou-se como Isa lhe havia ensinado 
na primeira vez em que se tornou mulher. Iza, sei que duvidou de que eu iria 
precisar do treinamento, pensou Ayla, mas voc estava certa em me ensinar 
os rituais da limpeza.
        Jondalar estava semi-adormecido quando ela voltou para o leito. Ele 
tinha ficado cansado demais para se levantar, mas, pela manh, ela havia 
arejado e escovado o rolo de dormir, para limp-lo. Agora que iam ficar em 
um s lugar por um longo perodo ela at mesmo teria tempo para lavar as 
peles de dormir, presumiu. Nezzie havia lhe mostrado como faz-lo, mas 
demandava tempo e cuidado.
        Ayla rolou para o seu lado do leito, Jondalar a abraou por trs e 
apoiou-se nela. Ficaram aninhados como duas colheres em uma beirada, e ele 
adormeceu abraando-a, mas Ayla no conseguiu pegar no sono, embora se 
sentisse  vontade e satisfeita. Naquela manh, ela havia acordado bem mais
tarde do que o normal, ficou deitada sem dormir, e comeou novamente a
pensar no Cl e nos Outros. Recordaes de sua vida com eles e as
permanncias com vrios grupos de Outros continuaram passando pela sua 
mente, e ela se descobriu fazendo comparaes.
        Os mesmos tipos de materiais estavam disponveis para ambos os 
povos, mas a utilizao que davam a eles no era exatamente a mesma. 
Ambos caavam animais, coletavam alimentos que cresciam, e usavam peles, 
ossos, vegetais e pedras para vestimenta, abrigo, utenslios e armas, mas 
eram diferentes.
        Talvez a diferena mais notvel fosse o fato de que, enquanto o povo 
de Jondalar  decorava o seu ambiente com pinturas, entalhes de animais e 
desenhos, o Cl no fazia isso. Apesar de no saber exatamente como 
explic-lo, nem a si mesma, percebeu que o povo do Cl expressava apenas os 
primrdios de tal decorao. Ocre vermelho em um enterro, por exemplo, 
que dava cor ao corpo, o interesse por objetos incomuns, que juntavam para 
colocar em seus amuletos. Cicatrizes totmicas e marcas coloridas feitas no 
corpo com uma inteno em especial. Mas o povo primitivo do Cl no 
produzia nenhuma herana artstica.
        Somente o tipo de gente como Ayla o fazia, apenas gente como os 
Mamutoi e os Zelandonii, e o resto dos Outros que eles haviam encontrado 
em sua Jorna da. Ficou imaginando se o povo desconhecido do qual ela 
nasceu enfeitava os objetos materiais em seu mundo, e concluiu que sim. 
Foram os que vieram depois, os que partilharam durante algum tempo com o 
Cl aquele antigo mundo gelado, os tais a quem chamavam de os Outros, que 
viram primeiro um animal em movimento, uma forma viva, respirando, e o 
reproduziram em desenho ou entalhe. Tratava-se de uma profunda 
diferena de expresso da habilidade de fazer abstrao - a habilidade de 
captar a essncia de uma coisa e torn-la um smbolo representativo da 
prpria coisa. O smbolo de uma coisa tambm tinha outras formas: um som, 
uma palavra. Um crebro capaz de pensar em termos artsticos era um 
crebro capaz de desenvolver ao mximo o seu potencial para outra 
abstrao de enorme significado: a linguagem. E o crebro capaz de criar 
uma sntese da abstrao da arte e da abstrao da liguagem algum dia 
faria uma associao de ambos os smbolos, ou seja, uma evocao das 
palavras: a escrita.
        Diferentemente do dia anterior, Ayla abriu os olhos bem cedo, na 
manh seguinte. No havia brasas luzindo na lareira e todas as lamparinas 
estavam apagadas, mas ela conseguia distinguir os contornos da prateleira 
de calcrio pendendo no alto, acima das escuras divisrias da habitao de 
Marthona, em meio ao plido reflexo da primeira luz, o incio do se acender 
do cu que propalava o nascer do sol. Ningum se agitou quando ela 
escorregou para fora das peles e seguiu um caminho no to escuro como o 
breu para usar o cesto noturno. Lobo levantou a cabea no instante em que 
ela se levantou, ganiu uma alegre saudao e foi atrs dela.
Ayla achava-se um pouco enjoada, mas no o bastante para vomitar, e sentia 
a necessidade de algo slido para acalmar o estmago embrulhado. Foi  
rea de cozinhar, fez uma pequena fogueira, depois pegou uns bocados da 
carne de biso, que sobraram na bandeja de osso plvico servida na noite 
anterior, e algumas verduras encharcadas no fundo do cesto para 
armazenagem e cozimento. No tinha certeza se se sentia melhor, mas 
resolveu ver se conseguia fazer um ch para acalmar o estmago. No sabia 
quem havia feito o ch para ela, no dia anterior, mas imaginou que tinha sido 
Jondalar, e pensou em fazer tambm um dos favoritos dele.
        Pegou a bolsa de remdios no balaio de bagagem. Agora que, 
finalmente, estamos aqui, posso reabastecer o meu suprimento de ervas e 
remdios, pensou ao olhar para cada pacote e lembrar do seu uso. Junco 
doce pode ajudar um mal-estar no estmago, mas, no, Iza me alertou que 
pode provocar aborto, e no quero fazer isso. Enquanto considerava os 
efeitos colaterais, a mente forneceu mais detalhes do seu extenso 
repertrio de conhecimento medicinal. Casca de btula negra pode prevenir 
aborto, mas no tenho nenhuma. Bem, no creio que esteja correndo perigo 
de perder este filho.
        Passei momentos bem piores com Durc. Ayla lembrou quando Iza saiu 
para pegar serpentria fresca, para que ela no o perdesse. Na ocasio, Iza 
j estava doente, pegou frio e umidade, e isso a fez piorar. No acho que ela 
tenha se recuperado totalmente, pensou Ayla. Sinto falta de voc, Iza. 
Gostaria que estivesse aqui por perto, para lhe contar que consegui um 
homem para acasalar. Gostaria que estivesse viva, para conhec-lo. Creio 
que voc o aprovaria.
        Manjerico,  claro! Isso pode ajudar e evitar aborto, e  uma tima 
bebida. Colocou de lado o pacote. Hortel seria bom. Acaba com enjo, ajuda 
na dor de estmago e tem um excelente sabor. Jondalar tambm gosta. 
Separou tambm a bolsinha. E flores secas de lpulo, que so boas para dor 
de cabea e clicas, e relaxam, lembrou, ao coloc-las ao lado da hortel. 
Mas no muito, pois o lpulo pode deixar a pessoa tonta.
        Sementes de cardo-leitoso podem me fazer bem no momento, mas 
precisam ser maceradas durante bastante tempo, pensou Ayla, enquanto 
vasculhava o limitado suprimento de ervas medicinais que havia trazido. Sim, 
asprula; cheira to bem. E acalma o estmago, mas no  to forte. E 
camomila; podia us-la em vez de hortel, pois tambm  bom para o 
estmago embrulhado. Com outras ervas, poderia ficar com um sabor melhor, 
mas porei hortel para Jondalar. Manjerona tambm seria bom, mas, no, 
Iza sempre usava folhas frescas, e no secas, para problemas estomacais. 
Que mais Iza gostava de usar fresco? Folhas de framboesa! Claro!  disso 
que preciso.  bom em especial para enjo matutino. No tenho folhas, mas 
havia framboesa no festim da outra noite; portanto, deve haver aqui por 
perto. E tambm est na poca.  melhor pegar as folhas quando as bagas 
esto maduras. Cuidarei para ter o bastante, quando entrar em trabalho de 
parto. Iza sempre usava esse ch quando uma mulher estava para dar  luz. 
Ela me disse que relaxa o tero da mulher e ajuda o beb a sair com mais 
facilidade.
        Ainda tenho flores de tlia sobrando; isso  especialmente bom para 
um estmago nervoso, e as folhas so doces e do um ch de sabor 
agradvel. Os Xaramudi tinham um enorme, antigo e maravilhoso p de tlia 
nas proximidades. Ser que ps de tlia crescem por aqui? Com o canto do 
olho, percebeu um movimento, ergueu o olhar e viu Marthona sair de sua 
rea de dormir. Lobo tambm olhou para cima, e depois levantou-se,  
espera.
        - Acordou cedo esta manh, Ayla - comentou num tom baixo de voz 
para no incomodar os que ainda dormiam. Abaixou-se para fazer uma 
festinha de cumprimento no lobo.
        - Eu sempre acordo... se no vou dormir tarde na noite anterior em 
que comi muito e tomei beberagens fortes - replicou Ayla, tambm falando 
baixo e com um sorriso irnico.
        - , Laramar faz uma bebida muito forte, mas as pessoas parecem 
gostar. - observou Marthona. -Vejo que j fez fogo. Geralmente,  noite, 
abafo o fogo com cinzas, para ter brasas pela manh e poder iniciar um novo, 
mas, com as pedras de fogo que nos mostrou, vou acabar me tornando 
preguiosa. O que voc est fazendo?
        - Um ch matinal - respondeu Ayla. - De manh, tambm gosto de 
fazer um ch para Jondalar ficar desperto. Posso fazer um para voc 
tambm?
        - Quando a gua estiver quente, tenho uma mistura que a Zelandoni 
quer que eu prepare pelas manhs - falou Marthona, comeando a limpar os 
restos da ceia da noite anterior. - Jondalar me contou sobre o seu hbito de 
preparar um ch matinal. Ontem, ele resolveu fazer um para voc tomar, 
quando acordas-se. Disse que voc sempre lhe prepara um caneco, e, pela 
primeira vez, ele quis que encontrasse um ch, quando acordasse. Sugeri que 
fizesse um ch de hortel, j que tem um gosto bom, quando est frio, pois 
parecia que voc ia acordar tarde.
        - Fiquei imaginando se foi mesmo Jondalar que o tinha preparado. Mas 
foi voc quem deixou a bacia e a gua? - quis saber Ayla. Marthona sorriu e 
fez que sim com a cabea.
        Ayla pegou as pinas de madeira usadas para pegar as pedras de 
cozinhar, colheu uma quente do fogo e a jogou no cesto de ch bem 
tranado que estava cheio de gua. Ela fumegou, chiou e produziu algumas 
bolhas preliminares. Acrescentou outra, e, passado um instante, retirou as 
pedras e colocou outras. Quando a gua estava fervendo, as duas mulheres 
prepararam as suas infuses individuais de ch. Apesar de a mesa baixa ter 
sido afastada mais para a entrada, a fim de dar lugar para as peles de 
dormir a mais, havia bastante espao para as duas mulheres fazerem 
companhia uma  outra sentadas nas almofadas em volta, tomando as suas 
bebidas quentes.
        - Eu estava esperando uma chance de falar com voc, murmurou 
baixinho Marthona. - Eu me preocupava com a possibilidade de Jondalar 
encontrar uma mulher que ele pudesse amar. - Ela quase disse "novamente", 
mas se conteve. - Ele sempre teve muitos amigos, era benquisto, mas 
guardava para si os seus verdadeiros sentimentos, e poucos o conheciam 
bem. Thonolan foi a pessoa mais ntima dele. Sempre achei que, algum dia, 
Jondalar ia se acasalar, mas no tinha certeza se alguma vez se permitiria 
se apaixonar. Acredito que ele est apaixonado.- Sorriu para Ayla.
        -  verdade que ele guarda para si os seus sentimentos. Eu quase me 
acasalei com outro homem, antes de perceber isso. Embora amasse Jondalar, 
achei que ele tinha deixado de me amar - confessou Ayla.
        - No creio que haja nenhuma dvida.  bastante bvio que a ama, e 
estou contente por ele ter encontrado voc. - Marthona deu um gole no ch. 
        - Fiquei orgulhosa de voc outro dia, Ayla. Foi preciso coragem para 
enfrentar as pessoas, como voc fez, depois da pea que Marona lhe pregou. 
Voc sabe que ela e Jondalar falaram em se acasalar, no  mesmo? Embora, 
 claro, eu no tivesse feito nenhuma objeo, fiquei feliz por ele no t-la 
escolhido. Ela  uma mulher atraente, e todos achavam que era perfeita 
para ele, mas eu no achava - afirmou Marthona.
        Ayla ficou torcendo para que Marthona lhe dissesse o motivo. A 
mulher parou e deu outro gole no ch.
        - Eu gostaria de lhe dar algo mais apropriado para vestir do que o 
"presente" que Marona lhe ofertou - disse a mulher mais velha ao terminar 
a sua bebida e pousar o caneco.
        - Voc j tinha me dado algo lindo para usar - lembrou Ayla. - O colar 
da me de Dalanar.
        Marthona sorriu, ao se levantar e ir silenciosamente ao seu canto de 
dormir. Voltou com uma roupa dobrada sobre o brao. Segurou-a no alto 
para mostrar a Ayla. Tratava-se de uma comprida tnica de uma cor clara e 
suave, parecendo com os caules esbranquiados de capim depois do longo 
inverno, lindamente enfeitada com contas e conchas, costurada com fios 
coloridos e uma comprida franja, mas no era feita de pele. Num exame 
mais de perto, Ayla viu que era feita de finos cordes ou fios de uma fibra 
que se cruzavam acima e abaixo uns dos outros, lembrando a textura de 
cestaria, mas com um entrelaado muito estreito. Como algum era capaz de 
tecer fios to finos daquele jeito? Era parecido com a esteira que havia 
sobre a mesa, mas muito mais delicado.
        - Nunca vi nada parecido - exclamou Ayla. - Que tipo de material  
esse? De onde veio?
        - Fui eu que fiz; eu o teci numa armao especial - revelou Marthona. 
- Voc conhece a planta chamada linho? Um planta alta com flores azuis?
        - Conheo. Estou familiarizada com esse tipo de planta, e creio que 
Jondalar disse se chamar linho - respondeu Ayla. -  boa para problemas de 
pele, como bolhas, chagas e erupes, mesmo no interior da boca.
        - J tentou entrelaar as fibras para fazer cordes? - quis saber 
Marthona.
        -  possvel, s que no me lembro, mas sei que pode ser feito. Ela 
tem fibras bem compridas.
        - Foi o que usei para fazer isto.
        - Sei que o linho  til, mas no sabia que podia ser usado para fazer 
algo to bonito quanto isto.
        - Voc poder us-lo em seu Matrimonial. Partiremos em breve, na 
prxima lua cheia, para a Reunio de Vero, e voc disse que no tinha nada 
para usar em ocasies especiais - frisou Marthona.
        - Oh, Marthona,  muita bondade sua - reconheceu Ayla -, mas j 
tenho uma roupa para o matrimonial. Nessie fez uma para mim e prometi que 
a usaria. Espero que voc no se importe. O tempo todo, eu a trouxe comigo, 
desde a Reunio de Vero do ano passado. Foi feita no estilo Mamuti, e eles 
tm um costume especial sobre o modo como ela deve ser vestida.
        - Creio que ser mais apropriado voc usar uma roupa Matrimonial 
Mamuti, Ayla. Eu no sabia que voc tinha algo para usar, e no estava 
certa de que teramos tempo para fazer uma roupa antes de partirmos. De 
qualquer modo, fique com ela, por favor - ofereceu Marthona, sorrindo, ao 
lhe entregar a roupa. Ayla achou que ela pareceu aliviada. - Pode haver 
outras ocasies em que voc queira vestir algo especial.
        - Obrigada!  muito bonita! - afirmou Ayla, levantando-a e 
examinando-a novamente; depois a colocou em cima do corpo, para ver como 
ficava nela a roupa folgada.
        - Deve ter demorado muito tempo para ser feita.
        - Sim, mas adorei. Levei anos desenvolvendo o processo. Willamar me 
ajudou a fazer a armao que usei, e Thonolan, antes de partir. Muita gente 
tem algum tipo de habilidade especial. Ns costumamos fazer permuta das 
coisas que fazemos, ou presente-las. Estou ficando um pouco velha para 
continuar fazendo essas coisas, e j no enxergo to bem quanto antes, 
especialmente de perto.
        - Eu ia lhe mostrar hoje o puxador de fio! - lembrou Ayla, levantando-
se. Acho que vai facilitar a costura para algum que no enxerga to bem. 
Vou apanh-lo. - Foi at os seus balaios de bagagem, para apanhar o estojo 
de costura, e viu um dos pacotes especiais que havia trazido. Sorrindo 
consigo mesma, levou-o tambm para a mesa. - Gostaria de ver a minha 
roupa Matrimonial, Marthona?
        - Sim, claro, mas no queria pedir. Algumas pessoas gostam de mant-
la em segredo e surpreender todo mundo - comentou Marthona.
        - Eu tenho uma surpresa diferente - anunciou Ayla, desembrulhando a 
sua roupa Matrimonial. - Mas vou lhe revelar agora. A vida iniciou dentro de 
mim. Estou carregando o beb de Jondalar.
        - Ayla! Voc tem certeza? - indagou Marthona com um sorriso. Ela 
achou um pouco estranho o seu modo de dizer que a Me a tinha Abenoado... 
carregar o beb de Jondalar... mesmo que, provavelmente, fosse filho do 
esprito dele.
        - Tenho toda a certeza. J perdi duas fases da lua, sinto um pouco de
enjoo pela manh e estou percebendo algumas mudanas em mim, que, 
geralmente, significam gravidez - respondeu Ayla.
        - Isso  maravilhoso! - exclamou a me de Jondalar. Aproximou-se e 
deu um abrao em Ayla. - Se j foi Abenoada, isso trar sorte para o seu 
acasalamento,  o que as pessoas dizem.
        Sentando-se  mesa baixa, a jovem mulher desatou o pacote envolvido 
em pele e tentou desfazer o amarrotado da tnica e da perneira que vinham 
sendo transportadas pelo continente, atravs de todas as estaes do ano 
anterior. Marthona examinou a roupa, e rapidamente enxergou alm das 
rugas, ao se dar conta do quanto eram magnficas aquelas peas. Com 
certeza absoluta, Ayla se destacaria com aquela roupa na Cerimnia de 
Acasalamento.
        Antes de mais nada, o estilo era totalmente incomum. Tanto os 
homens quanto as mulheres dos Zelandonii, com algumas diferenas e 
variaes de acordo com o sexo, usavam normalmente folgadas tnicas 
inteirias, presas a cintos nos quadris, com vrios enfeites de osso, concha, 
pena ou pele, e franjas de couro ou cordes. 
        As vestes das mulheres, principalmente as roupas que usavam em 
ocasies especiais, em geral tinham compridas franjas suspensas que 
sacudiam quando caminhavam, e a moa logo aprendia como fazer o enfeite 
pendente acentuar os seus movimentos.
        Entre os Zelandonii, uma mulher nua era uma viso comum, mas 
franjas eram consideradas bastante provocantes. No que as mulheres no 
usassem roupas, mas, naquela sociedade sempre em contato ntimo, era 
praticamente impensvel ter uma relativa privacidade para tir-las a fim de 
lav-las, troc-las, ou por qualquer outro motivo.
        Por outro lado, uma franja, principalmente vermelha, era capaz de dar 
a uma mulher um poder de seduo obcecante o suficiente para levar 
homens ao extremo, e, em raras ocasies, at mesmo  violncia por causa 
de uma associao em particular.
        Quando as mulheres assumiam o papel de donii-mulheres - ao se 
tornar disponveis para ensinar aos jovens sobre o Dom do Prazer da Grande 
Me Terra-, elas usavam uma comprida franja vermelha pendente em volta 
dos quadris, para indicar a sua importante condio ritual. Em dias quentes 
do vero, costumavam vestir pouco mais do que a franja.
        Se por um lado as donii-mulheres eram protegidas pelos costumes e 
convenes de um avano inadequado e, em todo caso, tendiam a permanecer 
em certas reas quando usavam a franja vermelha, por outro acreditava-se 
que era perigoso: para uma mulher usar tal franja em qualquer outra ocasio. 
Quem podia saber o que isso talvez levasse um homem a fazer? Ainda que as 
mulheres usassem geralmente, continha alguma implicao ertica. Como 
resultado, a palavra "franja", em sutis insinuaes ou brincadeiras 
grosseiras, freqentemente carregava o duplo sentido dos plos pbicos. 
Quando um homem se sentia cativado por uma mulher da qual no conseguia 
se afastar ou parar de olhar, dizia-se que estava "enredado em sua franja".
        As mulheres Zelandonii usavam outros enfeites ou os costuravam em 
suas roupas, mas gostavam particularmente de usar franjas que se sacudiam 
sensualmente quando caminhavam, seja decorando uma tnica quente de 
inverno ou um corpo nu. Apesar de explicitamente evitarem franjas 
vermelhas, muitas mulheres escolhiam cores que continham uma forte aluso 
ao vermelho.
        A roupa Mamuti de Ayla no tinha franjas, mas no restava dvida 
de que fora necessria uma tremenda quantidade de esforo para faz-la. O 
couro, da mais alta qualidade, tinha um magnfico tom terroso de amarelo-
dourado, que quase rivalizava com a cor dos cabelos dela, o resultado de 
ocres amarelos misturados sutilmente com vermelhos e outras cores. A pele, 
provavelmente, era de alguma variedade de veado, ou talvez de um antlope 
saiga, deduziu Marthona, embora no se tratasse da habitual pele aveludada 
de um veado macho ou de um couro bem raspado. Em vez disso, apesar de 
bastante macio, o couro tinha um acabamento encerado, brilhante, que o 
tornava impermevel. 
        A qualidade das peas essenciais, porm, constitua apenas o comeo; 
a requintada decorao era o que tornava a roupa to extraordinria. A 
comprida tnica de couro e a parte inferior da perneira eram cobertas por 
rebuscadas formas geomtricas, feitas predominantemente com contas de 
marfim, algumas reas totalmente preenchidas. Os desenhos comeavam 
com tringulos apontando para baixo, os quais se desenvolviam 
horizontalmente para ziguezagues, verticalmente para losangos e divisas, e 
depois evoluam para complexas figuras geomtricas, como espirais 
retangulares e paralelogramos concntricos.
        Os desenhos formados pelas contas de marfim eram realados e 
definidos por muitas continhas de mbar, em gradaes de cor mais claras e 
mais escuras do que o couro, porm do mesmo tom, com bordados em 
vermelho, marrom e preto. A tnica, que atrs caa em forma de tringulo 
invertido, descia aberta na frente, com a poro abaixo dos quadris se 
afunilando, e, quando os lados se juntavam, formava-se outro tringulo 
invertido. Era amarrada e fechada na cintura com uma faixa tranada  mo, 
contendo um padro geomtrico semelhante feito com plo ruivo de mamute, 
l de muflo cor marfim, fios castanhos de l da subpelagem de boi 
almiscarado e plo de rinoceronte lanudo de um intenso preto-avermelhado.
        A roupa era uma impressionante e magnfica obra de arte. A execuo, 
em cada detalhe, excelente. Era evidente que algum obtivera os melhores 
materiais e utilizara os mais perfeitos e habilidosos artesos para criar a 
vestimenta, e nenhum esforo fora poupado. O trabalho manual com as 
contas era um bom exemplo. Ainda que Marthona as visse apenas como um 
grande nmero, mais de trs mil contas de marfim, feitas de presas de 
mamute, foram cerzidas na pea, e cada continha fora entalhada, furada e 
polida a mo.
        A me de Jondalar jamais vira algo parecido, mas percebeu de 
imediato que quem ordenou a feitura da roupa inspirava grande respeito e 
ocupava um alto posto na comunidade. Estava claro que o tempo e o lavor 
gastos em sua feitura eram incalculveis, contudo, mesmo assim, a roupa foi 
presenteada a Ayla quando ela partiu. Nenhum dos benefcios do talento e 
do trabalho permaneceu com a comunidade que a produziu. Ayla disse que 
fora adotada, mas quem quer que a tenha adotado possua obviamente 
imenso poder e prestgio - ou seja, riqueza -, e ningum entendia disso mais 
do que Marthona.
        No admirava que Ayla quisesse usar a prpria vestimenta 
Matrimonial, deduziu Marthona, e ela deveria. Isso tambm no abalaria o 
prestgio de Jondalar. A jovem era mesmo cheia de surpresas. Sem dvida, 
ela seria a mulher mais comentada da Reunio de Vero daquele ano.
        - A roupa  admirvel, Ayla, realmente muito bonita - afirmou 
Marthona.
        - Quem a fez para voc?
        - Foi Nezzie, mas contou com muita ajuda. - Ayla ficou contente com 
a reao da mulher mais velha.
        - Sim, tenho certeza de que contou - confirmou Marthona. - Voc a 
mencionou anteriormente, mas no me recordo exatamente quem ela .
        -  a parceira de Talut, o chefe do Acampamento do Leo, o tal que ia 
me adotar, mas, em vez disso, foi o Mamut quem me adotou. Creio que foi o 
Mamut quem pediu a Nezzie para fazer a roupa.
        - E o Mamut  Um Que Serve a Me?
        - Acho que ele deve ter sido o Primeiro, como a sua Zelandoni. De 
qualquer modo, era certamente o mais velho. Acredito que era o mais velho 
Mamuti vivo. Quando parti, a minha amiga Deegie estava esperando, e a 
mulher do irmo dela estava prestes a dar  luz. As duas crianas seriam 
contadas como a quinta gerao deles.
        Marthona anuiu. Sabia que quem a havia adotado exercia uma enorme 
influncia; Ayla no se dera conta de que ele talvez fosse a pessoa mais 
respeitada e poderosa de todo o seu povo. Isso explicava muita coisa, 
pensou.
        - Voc disse que havia certos costumes associados a se usar essa 
vestimenta.
        - Os Mamuti no acham apropriado vestir uma roupa Matrimonial 
antes da cerimnia. Voc pode mostr-la  famlia e amigas ntimas, mas no 
deve vesti-la em pblico - esclareceu Ayla. - Quer ver como fica a tnica em 
mim?
        Jondalar resmungou e se virou em seu sono, e Marthona olhou de 
relance na direo das peles de dormir dos dois. Baixou ainda mais o tom de 
voz. - Desde que Jondalar continue dormindo. No achamos adequado que 
ele a veja com a vestimenta Matrimonial antes da cerimnia.
        Ayla despiu a tnica de vero e apanhou a outra, a profusamente 
enfeitada.
        - Nezzie me disse para us-la desta maneira, fechada, se quisesse 
mostr-la a algum - cochichou Ayla ao amarr-la com a faixa. - Mas, para a 
cerimnia, deve ficar aberta, assim - completou, dispondo a roupa de outro 
modo e retirando a faixa. - Nezzie disse: "Uma mulher exibe 
orgulhosamente os seios quando se junta, quando leva o seu lar para formar 
uma unio com um homem." No devo realmente us-la aberta, antes da 
cerimnia de acasalamento, mas, j que  a me de jondalar, acho que no 
tem problema voc ver.
Marthona concordou.
        - Estou muito contente por ter me mostrado.  nosso costume 
mostrar a roupa Matrimonial, antes da ocasio, apenas para mulheres, 
amigas ntimas ou familiares, e no acho que mais algum deva ver a sua 
antes. Acredito que ser... - Marthona parou e sorriu. - ... interessante, 
surpreender a todos. Se quiser, poderemos pendur-la no meu aposento, 
para alisar as rugas. Um pouco de vapor tambm ajudar.
        - Obrigada. Eu estava mesmo pensando onde poderia coloc-la. Esta 
linda tnica que voc me deu tambm pode ficar no seu aposento? - Ayla fez 
uma pausa, ao se lembrar de mais uma coisa. - E tenho tambm outra tnica, 
uma que eu fiz, que gostaria de deix-la em algum lugar. Pode guard-la para 
mim?
        - Sim, claro. Mas, por enquanto, deixe de lado as suas roupas. 
Poderemos fazer isso depois. Willamar acordou. Tem mais alguma coisa que 
voc queira que eu guarde? - quis saber Marthona.
        - Tenho colares e outras coisas, mas podem ficar nos meus balaios de 
bagagem, j que vou lev-los comigo para a Reunio de Vero - disse Ayla.
        - Tem muita coisa? - Marthona no resistiu  pergunta.
        - Apenas dois colares, inclusive o que voc me deu, uma pulseira, duas 
conchas espiraladas para as orelhas, que me foram presenteadas por uma 
mulher que dana, e um par de peas de mbar que Tulie me deu quando 
parti. Ela era a chefa do Acampamento do Leo, irm de Talut e me de 
Deegie. Queria que eu as usasse nas orelhas, no meu acasalamento, j que 
combinam com a tnica. Eu gostaria muito, mas as minhas orelhas no so 
furadas - explicou Ayla.
        Tenho certeza de que a Zelandoni ter prazer em fur-las para voc, 
se quiser - sugeriu Marthona.
        - Acho que vou querer. No desejo mais nenhum furo, pelo menos por 
enquanto, mas gostaria de usar o par de mbar quando Jondalar e eu nos 
acasalarmos, e a roupa de Nezzie.
        - Essa tal de Nezzie devia gostar muito de voc, para ter feito tanta 
coisa para voc - comentou Marthona.
        - Eu certamente gostava muito dela - retrucou Ayla. - Se no fosse 
por Nezzie, no creio que eu tivesse seguido Jondalar quando ele partiu. Eu 
deveria me acasalar com Ranec, no dia seguinte. Era o filho do irmo da 
lareira de Nezzie, embora ela fosse muito mais como uma me para ele. Mas 
Nezzie sabia que Jondalar me amava, e me disse que, se eu o amava de 
verdade, devia procurar Ranec e dizer isso para ele. Ela tinha razo. Mas foi 
difcil contar para Ranec que eu ia embora. Eu gostava muito dele, mas 
amava Jondalar.
        - Devia mesmo, ou no teria deixado o povo que a tinha em alta conta, 
para vir com Jondalar - observou Marthona.
        Ao perceber que Jondalar se mexia novamente, Ayla levantou-se. 
Marthona deu um gole no ch e ficou olhando a jovem mulher dobrar a sua 
roupa Matrimonial, depois a tnica tecida, e coloc-las no balaio de bagagem. 
        Quando ela voltou, apontou para seu estojo de costura, que estava 
sobre a mesa.
        - O meu puxador de fio est ali - avisou Ayla. - Talvez possamos sair 
para a luz do sol, depois que eu aprontar o ch de Jondalar, e lhe mostrarei.
        - Sim, gostaria de v-lo.
        Ayla fez a volta at o braseiro de cozinhar, acrescentou lenha ao 
fogo, depois algumas pedras para aquecer, e mediu na palma da mo algumas 
ervas secas para o ch de Jondalar. A me dele concluiu que era correta a 
primeira impresso que tivera de Ayla. Ela era atraente, mas possua algo 
mais do que isso. Parecia verda deiramente preocupada com o bem-estar de 
Jondalar. Daria uma tima parceira para ele.
        Ayla pensava em Marthona, admirando a sua tranqila e segura 
dignidade e soberana elegncia. Sentia que a me de Jondalar era dotada de 
um profundo senso de compreenso, mas Ayla tinha certeza que, se fosse 
preciso, a mulher que fora lder seria capaz de ser muito forte. No 
admirava o povo no ter querido que ela renunciasse aps a morte do 
parceiro, ponderou a jovem mulher. Deve ter sido difcil para Joharran 
substitu-la, mas, pelo que pde perceber, ele agora parecia  vontade na 
funo.
        Silenciosamente, Ayla colocou o caneco de ch quente de Jondalar 
perto dele, pensando em procurar alguns gravetos do tipo que gostava de 
usar para limpar os dentes, depois de ter mastigado um pouco as pontas. Ela 
gostava do sabor de gualtria. Na primeira chance que tivesse, procuraria a 
gualtria, que se parecia com o salgueiro. Marthona terminou o ch, Ayla 
apanhou o estojo de costura, e as duas mulheres escapuliram 
silenciosamente da habitao. Lobo seguiu-as.
        Ainda era cedo, quando chegaram  varanda da frente. O sol tinha 
acabado de abrir o seu olho brilhante e dado uma olhadela por cima da 
aresta das colinas do leste. 
        O reluzente claro dava  pedra do rochedo um clido rubor 
incandescente, mas o ar estava suavemente refrescante. Ainda no havia 
muita gente por ali.
        Marthona rumou na direo da borda prxima ao crculo escuro da 
fogueira sinalizadora. Sentaram-se sobre as grandes pedras que haviam sido 
dispostas em volta dele, de costas para o brilho ofuscante que escalava 
atravs da nvoa vermelho-dourado em direo  abbada azul sem nuvens. 
Lobo deixou-as e continuou descendo para o Vale do Rio do Bosque.
        Ayla desatou o cordo que prendia o estojo de costura, uma bolsinha 
de couro costurada nas laterais e fechando-se na parte de cima. A falta de 
contas de marfim que outrora formavam um padro geomtrico e fios pudos 
de um bordado revelavam a intensa utilizao da bolsa desgastada. Ela 
esvaziou no colo os pequenos objetos que continha. Havia cordes e linhas 
de vrios tamanhos, feitos de fibras, tendes, e plos de animais, inclusive 
vrios de l de mamute, muflo, boi almiscarado e rinoceronte, cada qual 
enrolado em pequenos ossos de falanges. Vrias pequenas lminas de slex, 
usadas para cortar, estavam amarradas juntas com um tendo, como 
tambm um feixe de sovelas de osso e slex, que serviam para furar. Um 
pequeno quadrado de couro duro de mamute servia de dedal. Os ltimos 
objetos eram pequenos tubos feitos de ossos ocos de pssaros.
        Ela apanhou um tubo, retirou uma pequena bucha de couro de uma das 
extremidades e despejou o contedo na mo. Uma pequena haste de marfim 
afunilada, com uma ponta em um dos lados, deslizou para fora - semelhante 
a uma sovela, mas com um pequenino furo na base. Entregou o objeto com 
todo o cuidado a Marthona.
        - Est vendo o buraco? - indagou Ayla.
        Marthona segurou-o longe da vista.
        - No estou vendo direito - disse ela, depois trouxe-o para mais perto 
e sentiu o pequeno objeto, primeiro a ponta aguada, em seguida, ao longo da 
haste, o lado oposto. -Ah! Aqui est ele! Posso sentir.  um buraco pequenino, 
no muito maior do que o de uma conta.
        - Os Mamuti furam contas, mas ningum no Acampamento do Leo 
era habilidoso na manufatura de contas. Jondalar fabricou a ferramenta de 
perfurao para fazer o buraco. Acho que foi a parte mais difcil para se 
fazer este puxador - disse Ayla, pegando-o de volta. Escolheu a talange que 
continha tendo, desenrolou um pedao, umedeceu a ponta na boca, 
habilmente enfiou-a no buraco e puxou-a do outro lado. Em seguida, 
entregou-o a Marthona.
        A mulher olhou a agulha atravessada, porm enxergou mais com as 
mos do que com os olhos envelhecidos, que ainda conseguiam distinguir 
razoavelmente objetos distantes, mas no to bem aqueles que se 
encontravam perto. O franzir de testa de concentrao, ao examinar o 
objeto, subitamente foi substitudo por um luminoso sorriso de percepo.
        - Claro! - exclamou. - Com isto, acredito que poderei voltar a costurar!
        - Em algumas coisas, vai precisar, antes, fazer um furo com uma 
sovela. Por mais aguada que se consiga fazer, a ponta de marfim no fura 
facilmente couro grosso ou duro - informou Ayla -, mas, ainda assim,  muito 
melhor do que tentar enfiar um fio por um buraco sem isto. Eu conseguia 
fazer os furos, mas no conseguia aprender a enfiar um fio por ele com a 
ponta de uma sovela, por mais pacientes que Nezzie e Deegie fossem comigo.
Marthona sorriu em concordncia, e depois fez um ar intrigado.
        - A maioria das meninas tem esse problema, quando est aprendendo; 
voc no aprendeu a costurar, quando era menina?
        - O Cl no costura, no da mesma maneira. Eles usam agasalhos que 
so amarrados ao corpo. Poucas coisas so atadas juntas, como os 
recipientes de casca de btula,         mas estes tm grandes buracos para se 
enfiar os cordes que so amarrados, ao contrrio dos furinhos que Nezzie 
queria que eu fizesse - esclareceu Ayla.
        - Continuo esquecendo que a sua infncia foi... incomum - observou 
Marthona. - Se no aprendeu a costurar quando criana, posso entender 
como isso se tornou uma dificuldade, mas este  um engenho 
espantosamente brilhante. - Ergueu a vista. -Acho que Proleva est vindo 
para c. Eu gostaria de mostrar isto para ela, se voc no se importar.
        - Claro que no me importo - afirmou Ayla. Olhando para o ensolarado 
terrao diante da salincia, ela viu a parceira de Joharran e Salova, a de 
Rushemar, vindo na direo delas, e notou que muito mais gente j tinha se 
levantado e andava pelo terrao.
        As mulheres se cumprimentaram, e depois Marthona anunciou:
        - Olhe isto, Proleva. Voc tambm, Salova. Ayla chama de "puxador de 
fio". E estava acabando de mostrar.  muito inteligente, e acho que vai me 
ajudar a costurar novamente, mesmo eu no conseguindo mais enxergar de 
perto to claramente. Poderei fazer isso apalpando.
        Imediatamente entenderam o conceito do novo utenslio, e logo 
estavam discutindo animadamente o seu potencial.
        - Aprender a usar isto ser muito fcil, eu acho - disse Salova. - Mas
deve ter sido difcil fazer esse puxador de fio.
        - Jondalar ajudou neste. Ele fez a ferramenta de perfurao fina 
para furar o buraquinho - contou Ayla.
        - S mesmo algum com a habilidade dele. Eu me lembro que, antes de 
partir, Jondalar fez sovelas de slex e algumas ferramentas de perfurao, 
para furar contas - recordou Proleva. - Creio que Salova tem razo. Deve 
ter sido difcil fazer um puxador de fio como este, mas tenho certeza de 
que valer o esforo. Eu gostaria de experimentar um.
        - Ser um prazer deixar que experimente este, Proleva, e tenho dois 
outros, de tamanhos diferentes - ofereceu Ayla. - Escolho o tamanho 
dependendo do que vou costurar.
        - Obrigada, mas no creio que terei tempo hoje, por causa de todo 
esse planejamento para a caada. Joharran acredita que esta Reunio de 
Vero ter uma freqncia excepcional - adiantou Proleva, e depois sorriu 
para Ayla -, por sua causa. A notcia de que Jondalar retornou e trouxe uma 
mulher j correu O Rio de cima a baixo, e mais alm. Ele quer ter certeza de 
levar o suficiente para alimentar as pessoas a mais que iro, quando 
oferecermos um banquete.
        - E todos esto ansiosos para conhec-la, para ver se as histrias 
sobre voc so verdadeiras - acrescentou Salova, sorrindo. Ela tambm 
havia sentido a mesma coisa.
        - Quando chegarmos l, elas no sero mais verdadeiras - observou 
Proleva. 
        - Histrias sempre so aumentadas. Mas a maioria sabe disso, e, para 
incio de conversa, no acredita na metade das histrias. Acho que este ano 
Jondalar e Ayla conseguiro surpreender algumas pessoas - comentou 
Marthona.
        Proleva notou uma rara expresso no rosto da antiga lder da Nona 
Caverna dos Zelandonij, um sorriso maroto e um tanto convencido. Ficou 
imaginando o que Marthona sabia que os demais desconheciam.
        - Voc vai com a gente hoje  Pedra dos Dois Rios, Marthona? - 
perguntou Proleva.
        - Sim. Acho que vou. Quero ver a demonstrao do tal "arremessador 
de lanas" de que Jondalar anda falando. Se for to brilhante quanto o 
puxador de fio - sugeriu Marthona, lembrando da experincia de fazer fogo 
da noite anterior e outras idias que eles trouxeram, dever ser 
interessante.
        Joharran ia  frente do caminho que contornava uma parte ngreme 
da rocha perto do Rio, levando todos a caminharem em fila unica Marthona 
ia logo em seguida a ele, e, ao olhar para as costas do filho mais velho, teve 
a agradvel sensao de saber que no apenas tinha um filho caminhando  
sua frente, mas tambm, pela primeira vez em muitos anos, o outro filho, 
Jondalar, vinha atrs dela. Ayla seguia Jondalar, com Lobo em seus 
calcanhares. Outras pessoas da Nona Caverna os acompanhavam, mas 
deixavam um espao de alguns passos atrs do lobo. Mais gente se juntou a 
eles, quando passaram pela Dcima Quarta Caverna.
        Chegaram a um lugar ao longo do Rio, entre os abrigos da Decima 
Quarta Caverna do lado deles, e da Decima Primeira do outro, onde o curso 
de agua se alargava e espumava em volta das pedras que se projetavam para 
fora da agua O Rio era facilmente vadeado naquele trecho, raso o bastante 
para ser atravessado e o lugar que muita gente usava para chegar ao outro 
lado. Ayla ouviu pessoas se referirem a ele como a Travessia.
        Quem usava coberturas nos ps sentou-se para retira-las. Outros 
estavam descalos, como Ayla, ou aparentemente no se importavam em 
molhar o seu calado. O pessoal da Dcima Quarta Caverna parou mais atrs 
e permitiu que Joharran e a Nona Caverna fizesse primeiro a travessia. 
Tratava-se de uma cortesia para ele, j que foi Joharran quem sugeriu uma 
ltima caada antes de partirem para a Reunio de Vero, e era 
notadamente o lder.
        Quando Jondalar enfiou o p na gua fria, lembrou-se de algo que 
queria contar ao irmo.
        - Joharran, espere um momento - gritou. O homem parou. Marthon 
estava ao lado dele. - Quando fomos com o Acampamento do Leo para a 
Reunio de Vero dos Mamuti, tivemos que atravessar um rio bem profundo 
pou antes de atingirmos o lugar onde haveria a Reunio O Acampamento do 
Lobo, o anfitrio da Reunio, colocou na agua pilhas de pedras e cascalho, 
formando passadeiras, para que as pessoas pudessem atravessar o rio sem 
se molhar Eu sei que, as vezes, a gente tambem faz isso, mas o rio deles era 
to fundo, que se podia pescar dos lados das pedras. Achei uma boa idia, e 
queria me lembrar de contar isso para algum, quando retornasse.
        - Este rio corre muito rpido. Isso no levaria embora as pedras? -
Indagou Joharran.
        - O rio deles tambem corria rapido, e era fundo o bastante para ter 
salmo e esturjo, alm de outros peixes. A gua escoava pelos espaos 
entre as pedras. Eles me contaram que as pedras eram carregadas, quando o 
rio enchia, mas, a cada ano faziam novas passadeiras. Dava uma tima 
pescaria em cima das pedras perto do meio do rio - exps Jondalar. Outras 
pessoas tinham parado perto, para escutar.
        - Talvez valha a pena pensar nisso - observou Marthona.
        - E as balsas? As passadeiras no ficariam no caminho? - quis saber 
um homem.
        - Aqui, na maior parte do tempo, no  fundo o bastante para as 
balsas. De qualquer modo, as pessoas costumam fazer a volta pela Travessia 
carregando-as, juntamente com a sua carga - alegou Joharran.
        Enquanto esperava, j que a discusso prosseguia, Ayla notou que a 
gua era lmpida o bastante para se enxergar as pedras no fundo e um ou 
outro peixe. Deu- se conta, ento, de que o meio do rio oferecia uma vista 
incomparvel da rea. Olhando adiante, para o sul, na margem esquerda do 
Rio, viu um rochedo com abrigos que, provavelmente, seria o lugar aonde se 
dirigiam, e, mais adiante dele, um afluente juntando-se ao curso d'gua 
principal. Do outro lado do pequeno rio, ficava o incio de uma fileira de 
rochedos ngremes que seguiam paralelamente ao rio principal. Virou-se e 
olhou na outra direo. Rio acima, para o norte, enxergou mais rochedos 
altos e o imenso abrigo de pedra da Nona Caverna situado na margem direita, 
externamente a uma curva fechada.
        Joharran reiniciou a caminhada, liderando a comprida fila de pessoas 
que seguia em direo  morada da Terceira Caverna dos Zelandonii. Ayla 
percebeu algumas pessoas esperando adiante, acenando. Entre elas, 
reconheceu Kareja e o Zelandoni da Dcima Primeira. 
        A fila foi se alongando, e eles ficavam mais para trs. Ao se 
aproximarem do alto rochedo adiante, ela teve uma viso melhor do imenso 
paredo de pedra, um dos muitos rochedos de calcrio existentes no vale do 
Rio. Ele fora esculpido pelas mesmas foras da natureza que haviam criado 
todos os abrigos de pedra da regio, em dois e, em alguns lugares, trs 
nveis de terraos empilhados um sobre o outro. Na metade da imponente 
rocha adiante, havia uma prateleira com mais de noventa metros de 
comprimento, diante da abertura de um abrigo. Tratava-se do pavimento 
principal para as atividades normais do dia-a-dia da Terceira Caverna, e ali 
se localizava a maioria das habitaes. O terrao fornecia a proteo de um 
telhado rochoso para o abrigo abaixo, ao mesmo tempo em que, por sua vez, 
era abrigado pelo rochedo acima que se projetava para a frente.
Jondalar percebeu que Ayla observava o grande rochedo de calcrio e parou 
por um instante para permitir que ela o alcanasse. A trilha no era to 
estreita, e puderam caminhar lado a lado.
        - O lugar onde o Rio da Relva se junta ao Rio  chamado de Dois Rios - 
disse ele. - Aquele rochedo  a Pedra dos Dois Rios porque se eleva acima da 
Confluncia
        - Eu pensei que fosse a Terceira Caverna - estranhou Ayla.
        -  conhecida como a morada da Terceira Caverna dos Zelandonii, mas 
o nome  Pedra dos Dois Rios, do mesmo modo que a Dcima Quarta Caverna 
dos Zelandonii  chamada de Pequeno Vale, e a morada da Dcima Primeira 
Caverna  o Lugar do Rio - esclareceu Jondalar.
        - E como se chama a Nona Caverna? - indagou Ayla.
        - Nona Caverna - respondeu Jondalar e notou que ela franziu a testa.
        - Por que no tem um nome como as outras? - quis saber ela.
        - No sei - retrucou Jondalar. - Sempre  Nona Caverna. Eu acho que 
poderia se chamar algo como "Pedra dos Dois Rios", pois o Rio do Bosque se 
junta ao Rio ali perto, mas a Terceira Caverna j tinha esse nome. Ou, talvez, 
"Pedra Grande", mas um outro lugar  chamado assim.
        - H outros nomes pelos quais poderia ser chamada. Talvez algo como 
Pedra Cadente. Nenhum outro lugar tem um objeto to incomum, no  
mesmo? - perguntou Ayla, tentando entender. Era mais fcil lembrar coisas 
consistentes, mas sempre havia excees.
        - No, no que eu tenha visto - concedeu Jondalar.
        - Mas a Nona Caverna  apenas a Nona Caverna, e no tem outro nome 
a no ser esse - refletiu Ayla. - Eu gostaria de saber por qu.
        - Talvez porque, por muitos motivos, o nosso abrigo seja nico. 
Ningum nunca viu nem ouviu falar de um nico abrigo de pedra to grande, 
ou que tenha tanta gente. 
        Ele d vista para dois rios, como outros, mas o Vale do Rio do Bosque 
possui mais rvores do que a maioria dos outros vales. A Dcima Primeira 
Caverna sempre pede para cortar ali as rvores para as suas balsas. E 
tambm, como voc diz, tem a Pedra Cadente - disse Jondalar. - Todo 
mundo conhece a Nona Caverna, at mesmo gente de muito longe, mas um 
nico nome no  capaz de descrev-la realmente. Creio que simplesmente 
passou a ser conhecida pelas pessoas que habitam l, as da Nona Caverna.
        Ayla concordou com a cabea, mas continuava com a testa enrugada.
        - Bem, suponho que a torna incomum cham-la pelo nome da gente que 
mora l.
        Ao se aproximarem da morada da Terceira Caverna, Ayla pde ver um 
atravancado de barracas, telhados de meia-gua, estruturas e armaes no 
espao entre a base do rochedo e O Rio. Vrias lareiras dispersas ao acaso - 
escuras lentes circulares de antigas fogueiras e algumas poucas ainda 
queimando - estavam dispostas a intervalos em meio s estruturas. Tratava-
se da rea principal de trabalho das atividades externas da Terceira 
Caverna, e inclua um pequeno cais ao longo da ribanceira do Rio, para 
atracao das balsas.
        O territrio da Terceira Caverna abrangia no apenas o rochedo, mas 
a rea abaixo dos terraos de pedra, continuando at a beira da gua de 
ambos os rios, e, em alguns lugares, mais alm. No era de propriedade 
deles. As pessoas, principalmente das Cavernas prximas, podiam andar pelo 
territrio de outra Caverna e usar os seus recursos. Contudo, considerava-
se corts ser convidado ou pedir antes permisso. Essas restries tcitas 
eram cumpridas pelos adultos. Crianas,  claro, podiam ir aonde quisessem.
        A regio ao longo do Rio, entre o Rio do Bosque, logo depois da Nona 
Caverna, ao norte, e o Rio da Relva na Pedra dos Dois Rios, ao sul, era 
considerada uma comunidade coesa pelos Zelandonii que l viviam. Na 
verdade, era como uma aldeia estendida, embora eles no tivessem de fato 
um conceito para esse tipo de povoamento ou dessem um nome a isso. 
Quando, porm, Jondalar estava viajando e se referia  Nona Caverna dos 
Zelandonii como a sua terra natal, as pessoas no pensavam apenas naquele 
abrigo de pedra superpovoado em particular, mas em toda a comunidade 
circunvizinha.
        Os visitantes comearam a subir a trilha em direo ao pavimento 
principal da Pedra dos Dois Rios, mas pararam ao chegar ao nvel mais baixo, 
para esperar por uma pessoa que queria participar da reunio. Enquanto 
permaneciam ali parados, Ayla olhou para cima e se descobriu esticando a 
mo para uma parede mais prxima, a fim de se equilibrar. O cume do 
rochedo projetava-se para to longe, que, quando a vista dela se elevou para 
acompanhar a macia muralha, isso lhe deu a sensao de que o prprio 
rochedo se curvava para trs juntamente com o observador.
        - Este  Kimeran - anunciou Jondalar, sorrindo, enquanto o homem 
cumprimentava Joharran. Ayla olhou para o estranho, que era louro e mais 
alto do que Joharran. 
        Ela ficou impressionada com a linguagem corporal dos dois homens, 
que se pareciam considerar como iguais.
        O recm-chegado olhou apreensivo para o lobo, mas no fez nenhum 
comentrio enquanto continuaram subindo para o nvel seguinte. Quando, 
finalmente, chegaram ao pavimento principal, Ayla teve que parar novamente, 
desta vez detida pela vista espetacular. A respirao ficou presa na 
garganta. A varanda frontal de pedra do abrigo rochoso da Terceira 
Caverna dominava uma extensa vista da regio campestre em volta. Um 
pouco acima do Rio da Relva, ela conseguiu at mesmo ver outro pequeno 
curso d'gua que se juntava ao afluente.
        - Ayla. - Ela se virou, ao ouvir o seu nome. Joharran estava atrs dela 
com homem que acabara de se juntar a eles. - Quero lhe apresentar uma 
pessoa.
        O homem deu um passo  frente e estendeu ambas as mos, mas os 
olhos divisavam cautelosamente o lobo atrs dela, que o olhava com atenta 
curiosidade. Ele parecia to alto quanto Jondalar, e, por causa dos cabelos 
louros, aparentava uma leve semelhana com este. Ayla baixou a mo, 
sinalizando para que o animal ficasse parado, e avanou para cumprimentar o 
homem.
        Ele tomou as mos dela nas suas, enquanto o lder da Nona Caverna 
prosseguia com os nomes e laos familiares de Ayla. Joharran tinha notado o 
olhar ansioso do homem e entendido exatamente como ele se sentia. - Ayla, 
este  Kimeran, Lder do Lar Mais Antigo, a Segunda Caverna dos Zelandonii, 
irmo do Zelandoni da Segunda Caverna, Descendente do Fundador da 
Stima Caverna dos Zelandonii.
        - Em nome de Doni, a Grande Me Terra, voc  bem-vinda  terra 
dos Zelandonii, Ayla dos Mamuti - saudou Kimeran.
        - Em nome de Mut, Me de Todos, tambm conhecida por Doni e por 
muitos outros nomes, eu o sado, Kimeran, Lder do Lar Mais Antigo, a 
Segunda Caverna dos Zelandonii - retrucou Ayla, que, ento, sorriu e repetiu 
os ttulos completos dele. Kimeran notou primeiro o sotaque estrangeiro e 
depois o adorvel sorriso. Ela era realmente linda, pensou, mas poderia ele 
esperar menos de Jondalar?
        - Kimeran - exclamou Jondalar, quando eles terminaram com as 
palavras formais. - Que bom ver voc!
        - E voc, Jondalar. - Os homens agarraram as mos um do outro e 
depois se deram um abrao bruto mas afetuoso.
        - Quer dizer que agora  o lder da Segunda - comentou Jondalar.
        - Sim. H uns dois anos. Eu duvidava de que voc conseguiria voltar. 
Soube que havia retornado, mas tinha que vir ver por mim mesmo se eram 
verdadeiras todas as histrias a seu respeito. Creio que devem ser - frisou 
Kimeran, sorrindo para Ayla, mas ainda mantendo uma distncia cautelosa do 
lobo.
        - Ayla, Kimeran e eu somos amigos de longa data. Cumprimos juntos a 
nossa cerimnia de masculinidade, recebemos os nossos cintos.., nos 
tornamos homens ao mesmo tempo. - Jondalar sorriu e sacudiu a cabea, ao 
recordar. - Tnhamos todos quase a mesma idade, mas acho que me 
sobressaa porque era mais alto. Fiquei to contente, ao ver Kimeran se 
aproximar, pois ele era to alto quanto eu. Quis ficar perto dele, para no 
ser notado. Acho que ele pensava a mesma coisa. - Dirigiu-se novamente ao 
homem, que tambm sorria, mas a sua expresso mudou diante das palavras 
seguintes de Jondalar. - Kimeran, creio que deve se aproximar e ser 
apresentado a Lobo.
        - Ser apresentado a ele?
        - Sim, Lobo no vai machucar voc. Ayla far as apresentaes, e ele 
o ter como um amigo.
        Kimeran sentiu-se embaraado enquanto Jondalar o conduzia na 
direo do caador de quatro patas. Tratava-se do maior lobo que j vira, 
mas, obviamente, a mulher no tinha medo. Ela baixou-se sobre um joelho e 
colocou um brao em dele. Em seguida olhou para cima e sorriu. A boca do 
lobo estava aberta, os dentes a mostra, e a lngua pendida para o contacto.  
        - Estique a mo, para que Lobo possa farej-la - pediu jondalar.
        - Que palavra  essa com a qual vocs o chamam? - perguntou Kimeran, 
franzindo a testa e evitando o gesto. Ele no tinha muita certeza se queria 
oferecer a mo ao animal, mas havia pessoas em volta, olhando, e Kimeran 
tambm no queria aparentar medo.
        - Foi o nome que Ayla deu a ele.  a palavra Mamuti para "lobo".
Quando Ayla lhe segurou a mo direita, Kimeran percebeu que seria 
obrigado. Inspirou fundo e permitiu que ela levasse aquela importante 
extenso de seu corpo at perto da boca repleta de dentes afiados.
        Kimeran ficou surpreso, como a maioria das pessoas, depois que Ayla 
iniciou o processo de mostrar como tocar no lobo, e assustou-se quando o 
lobo lambeu- lhe a mo. Mas, ao sentir o calor do corpo de Lobo, o homem 
duvidou que o animal fosse ficar parado diante do toque, e assim que a 
dvida inicial se desfez, ele se viu prestando mais ateno  mulher.
        Que tipo de poder ela possua?, especulou. Seria ela uma Zelandoni? 
Ele era particularmente ciente da zelandonia e suas incomparveis 
habilidades. Ela falava num claro e compreensvel Zelandonii, mas o seu 
modo de se expressar era estranho. No era exatamente um sotaque, sups. 
Ela quase parecia engolir alguns sons. No era desagradvel, mas fazia com 
que se prestasse ateno nela... no que, de qualquer modo, no se fizesse 
isso. Ela tinha aparncia estrangeira, sabia-se que ela era estrangeira, uma 
bela e extica estrangeira, porm, e o lobo era uma parte disso. Como ela 
controlava um lobo? O olhar dele era de admirao, quase de espanto.
        Ayla estivera observando as expresses de Kimeran, e viu o olhar de 
admirao. Desviou a vista quando sentiu que ia comear a rir, e depois olhou 
para cima, em direo a ele.
        - Eu cuido de Lobo desde que ele era um filhote - esclareceu ela. - Ele 
foi criado com as crianas do Acampamento do Leo. Est acostumado com 
gente.
        Kimeran sentiu um transbordar de surpresa. Era quase como se ela 
soubesse o que ele estava pensando e lhe deu as respostas antes mesmo de 
as perguntas serem feitas.
        - Voc veio sozinho? - indagou Jondalar depois que Kimeran, 
finalmente, conseguiu parar de olhar para o lobo e Ayla e voltou a sua 
ateno para ele.
        - Viro mais. Soubemos que Joharran queria organizar uma ltima 
caada antes de partir para a Reunio de Vero. Manvelar mandou um 
mensageiro para a Stima, e eles enviaram um at ns, mas eu no quis 
esperar pelos outros, e vim na frente - explicou.
        Se tratava de um grande grupo de caa, do tamanho de uma 
comunidade.
        tando para baixo, para o vale do Rio da Relva. - Consegue ver aquele 
pequeno afluente? - Ayla fez que sim - Aquele  o Pequeno Rio da Relva 
Continua ao longo do Rio da Relva, alm do afluente, para alcanar a Segunda 
e Stima Cavernas. Elas so aparentadas, e vivem defronte uma da outra 
num prado frtil.
        Os dois homens comearam a falar, recordando-se de fatos e 
colocando a conversa em dia, e Ayla voltou a se distrair com o cenrio 
panormico. A espaosa varanda superior da Terceira Caverna fornecia 
muitas vantagens aos seus habitantes. Era bem protegida do mau tempo pelo 
enorme ressalto, mas oferecia uma vista extraordinria.
        Diferentemente do vale arborizado perto da Nona Caverna, os vales 
do Rio da Relva e do Pequeno Rio da Relva eram uma frtil e luxuriante 
pradaria, embora diferente dos amplos prados das planicies aluviais do Rio. 
Uma variedade de rvores e arbustos enfileirava-se nas margens do rio 
principal, mas, depois do estreito corredor de floresta, ficava um campo a 
cu aberto composto essencialmente por grama-de-pasto, a favorita dos 
ruminantes. Do outro lado do Rio, em linha reta e dirigindo-se para oeste, a 
extensa plancie aluvial levava a uma srie de co linas que ascendiam a uma 
regio montanhosa coberta de grama.
        Os vales do Rio da Relva e do Pequeno Rio da Relva eram umidos, 
quase  pantanosos em determinadas pocas do ano, o que sustentava as 
variedades de capim alto que, em certos lugares, cresciam alm da altura de 
um homem e em geral se misturavam a ervas de forragem. A enorme 
diversidade de plantas era um convite para muitos tipos de animais de pasto 
ou herbvoros mordiscadores de folhas, os quais preferiam tipos ou partes 
especificas das varias gramineas e ervas folhosas, ao migrarem 
periodicamente atravs da paisagem.
        Como a varanda principal da Pedra dos Dois Rios dava vista para os 
vales do Rio e do Rio da Relva, tornava-se o local ideal para quem quisesse 
monitorar as manadas itinerantes Consequentemente, atravs dos tempos, o 
pessoal da Terceira Caverna no apenas desenvolveu uma grande habilidade 
em rastrear os movimen tos das manadas, mas tambem o conhecimento das 
mudanas sazonais e padres do clima que indicavam o surgimento dos vrios 
animais. Com essa vantagem, sua eficincia como caadores cresceu. Apesar 
de cada Caverna caar, as lanas dos caadores da Terceira Caverna, 
habitantes da Pedra dos Dois Rios, abatiam, mais do que qualquer outra, 
animais de pasto ou herbvoros mordiscadores de folhas, que migravam 
atravs das plancies aluviais recobertas de grama dos vales do rio.
        A primazia do conhecimento e da habilidade na caa da Terceira 
Caverna era do conhecimento da maioria dos Zelandonn, mas reconhecida 
principalmente pelos seus vizinhos mais prximos. Eram a eles que os demais 
recorriam para esclarecimento e Ayla olhou em direo  esquerda, o sul. Os 
vales gramados dos dois rios, que se juntavam logo abaixo, abriam passagem 
por entre os altos rochedos. Alargado pelo Rio da Relva, O Rio corria para 
sudoeste bem prximo da base dos altos rochedos, contornava as pedras de 
uma curva fechada e sumia de vista, rumando para um rio mais largo, no 
distante sul, e finalmente para as Grandes guas, mais distante, a oeste.
        Depois, Ayla olhou para a direita, o norte, para a direo de onde 
tinham vindo. O vale acima do Rio era um vasto prado verde com o cintilante 
tremeluzir da luz do sol refletindo no sinuoso curso d'gua, o qual 
resplandecia atravs de zimbros, vidoeiros-brancos, salgueiros e pinheiros, 
e at mesmo uma ocasional azinheira, que marcavam o seu curso. Rio acima, 
na margem oposta, onde O Rio fazia uma curva radical em direo ao sol que 
se elevava, podiam ser vistos os altos rochedos e o imenso abrigo saliente 
da Nona Caverna.
        Manvelar aproximou-se deles com passadas largas e um sorriso de 
boas-vindas. Ainda que o homem de cabelos grisalhos no fosse jovem, Ayla 
percebeu que ele caminhava com vitalidade e confiana. Ela achou difcil 
avaliar a sua idade. Depois das saudaes e algumas poucas apresentaes 
formais, Manvelar conduziu o grupo a uma parte desocupada no nvel 
principal, mais ao norte da rea habitada.
        - Estamos preparando para todos uma refeio de meio-dia - anunciou 
Manvelar -, mas, se algum estiver com sede, h gua e alguns canecos aqui. 
- Indicou duas grandes bolsas de gua midas apoiadas em uma pedra, com 
alguns canecos tranados empilhados ao lado.
        A maioria aceitou a oferta, apesar de muitos terem trazido os seus 
canecos pessoais. No era incomum algum levar seu caneco, sua tigela e sua 
faca de comer, numa bolsa ou alguma espcie de sacola, mesmo em viagens 
curtas ou quan do ia visitar amigos. Ayla levava no apenas o seu prprio 
caneco, como tambm uma tigela para Lobo. As pessoas olhavam fascinadas 
o magnfico animal lamber avidamente a gua que ela lhe deu, e muitas 
sorriram. Era reconfortante dar-se conta de que o lobo, que parecia 
vinculado  mulher por inexplicveis e misteriosos laos, podia ser to 
normal a ponto de ter necessidade de beber gua.
        Acomodaram-se com um ar de agradvel expectativa, alguns sentados 
em pedras, outros de p, esperando as coisas comearem. Manvelar protelou 
at que todos estivessem em silncio e prontos, e ento cumprimentou uma 
moa que estava de p a seu lado.
        - Ns mantivemos olheiros, durante os ltimos dois dias, aqui e na 
Segunda Vista - falou.
        - Aquela  a Segunda Vista, Ayla - informou baixinho Jondalar. Ela 
olhou para onde ele apontou. Depois da confluncia dos Dois Rios e de sua 
extensa planicie aluvial, havia outro pequeno abrigo de pedra que se 
projetava brusca mente de um ngulo fechado no princpio da fileira de 
rochedos, os quais seguiam paralelamente ao Rio, enquanto este continuava 
correnteza abaixo - Embora seja separada pelo Rio da Relva, a Terceira 
Caverna considera a Segunda Vista como parte da Pedra dos Dois Rios.
        Ayla olhou novamente em direo ao lugar denominado Segunda Vista, 
de pois deu alguns passos para olhar a gua abaixo por cima da borda. De 
sua perspectiva, conseguia ver que, na sua desembocadura, o Rio da Relva 
alargava-se formando um pequeno delta em forma de leque, ao se aproximar 
do curso d'gua maior. Na ribanceira direita do rio menor, na base da Pedra 
dos Dois Rios, uma trilha rumando para leste, rio acima, bifurcava-se na 
direo da gua que corria. Ela notou que a trilha forquilhada levava a 
ribanceira do Rio da Relva at uma aresta do delta, onde ele era mais largo 
e raso, mas por trs da turbulncia da con fluncia dos Dois Rios. Era onde a 
Terceira Caverna atravessava o Rio da Relva.
        Do outro lado, uma trilha continuava atravs do vale formado pela 
plancie de aluvio de ambos os rios por cerca de quatrocentos metros at o 
ressalto do abrigo angular. Pequeno e alto, ele no oferecia muita proteo 
abaixo de si, mas um caminho rochoso levava ao cume, uma plataforma de 
pedra, que funcionava como um mirante alternativo para os vaies de ambos 
rios do lado oposto do Rio da Relva.
        - Thefona surgiu com a informao pouco antes de vocs chegarem - 
dizia Manvelar. -Acho que h umas duas possibilidades de uma boa caada, 
Joharran. Estamos nos mantendo no rastro de uma manada mista com cerca 
de oito cervos gigantes e outros mais jovens dirigindo-se para c, e Thefona 
acaba de localizar uma manada de bom tamanho de bises.
        - Qualquer uma serve, desde que seja a mais garantida de apanharmos. 
O que vocs sugerem? - indagou Joharran.
        - Se fosse apenas a Terceira Caverna, provavelmente esperaramos 
pelos cervos gigantes no Rio e pegaramos alguns na Travessia, mas, no caso 
de uma caada mais substancial, eu iria atrs dos bises e os conduziria 
para um cercado - sugeriu Manvelar.
        - Podemos fazer ambas as coisas - afirmou Jondalar.
Muita gente sorriu. 
        - Ele quer abater todos? Jondalar sempre foi to vido? - observou 
algum, mas Ayla no viu quem foi.
        - vido sim, mas nem sempre para caar animais - replicou a voz de 
uma mulher. Seguiu-se um coro de risinhos e gargalhadas.
        Ayla cruzou o seu olhar com quem falou. Tratava-se de Kareja, a lder 
da Dcima Primeira Caverna. Ayla lembrou de t-la conhecido e ficado 
impressionada, no entanto no gostou do tom de seu comentrio. Ela parecia 
fazer troa de Jondalar, e recentemente Ayla fora objeto de risadas que 
lhe soaram semelhantes. Atentou para ver a reao dele. Um rubor coloriu o 
rosto de Jondalar, e ele deu um sorriso amarelo. Estava constrangido, sups 
Ayla, mas tentava no demonstrar.
        - Creio que pode parecer um pouco de avidez, e sei que, 
aparentemente, no conseguiremos fazer isso, mas eu acho que sim. Quando 
vivamos com os Mamuti, Ayla, em seu cavalo, ajudou o Acampamento do 
Leo a conduzir bises para um cercado - tentou explicar Jondalar. - Um 
cavalo  capaz de correr mais depressa do que uma pessoa, e conseguimos 
levar os cavalos aonde quisermos. Ns podemos ajudar a conduzir os bises, 
e ir  frente deles, se tentarem desviar do caminho. E vocs vero como  
fcil abater um cervo gigante com este arremessador de lanas. Talvez mais 
do que uma dupla. Acho que ficaro surpresos com o que isto  capaz de 
fazer.
        - Ele manteve levantada a arma de caa enquanto falava. Tratava-se 
de uma haste de madeira bem plana, que parecia simples demais para fazer 
tudo aquilo afirmado pelo viajante que retornara.
        - Est dizendo que pode fazer tudo isso? - questionou Joharran.
        A reunio foi interrompida por gente da Terceira Caverna que trazia 
comida. Aps uma tranqila refeio de meio-dia, discusses posteriores 
revelaram que o local da manada de bises no ficava muito longe de um 
cercado previamente construdo, que podia ser consertado e tornado 
aproveitvel. Planejaram passar um dia consertando o curral-armadilha, e, se 
conseguissem apront-lo, e os bises no se afastassem, poderiam ca-los 
na manh seguinte e tambm ir atrs dos cervos gigantes. Ayla ouviu 
atentamente quando a conversa se desviou para o planejamento estratgico 
da caada, mas no se ofereceu para ajudar com Huiin. Queria ver como as 
coisas sairiam.
        - Bem, vamos ver essa nova arma maravilhosa, Jondalar - pediu, 
finalmente, Joharran.
        - Sim - concordou Manvelar. - Voc me deixou muito curioso. 
Poderemos usar o campo de exerccios do Vale da Relva.
        O campo de exerccios ficava prximo ao sop da Pedra dos Dois Rios 
e consistia de uma pista de terra pisoteada e desprovida de vegetao, por 
causa da intensa utilizao. At mesmo o capim em volta fora achatado.
        Era determinada por um enorme pedao de calcrio, outrora uma 
salincia suspensa, que havia cado em uma poca imemorial. Suas antigas 
bordas afiadas estavam arredondadas por causa da ao do tempo e dos ps 
que nela subiam. Na outra ponta, quatro peles revestiam, amarradas, fardos 
de capim seco, que se projetavam de vrios buracos de lana, feitos 
anteriormente. Em cada pele, estava pintada a forma de um animal 
diferente.
        - Tero que afastar mais os alvos, pelo menos duas vezes essa 
distncia alertou Jondalar.
        - Duas vezes essa distncia? - surpreendeu-se Kareja, encarando o 
instrumento de madeira na mo dele.
        - No mnimo.
        O objeto que Jondalar segurava fora entalhado de um pedao reto de 
madeira e tinha mais ou menos o tamanho de seu antebrao, medindo-se das 
pontas dos dedos esticados  ponta do cotovelo. Era estreito e achatado, 
com uma comprida ranhura descendo do centro e duas alas de couro 
prximas da frente. Uma escora na parte de trs continha uma ponta 
adelgaada, um gancho que se encaixava em um furo talhado na base de uma 
lana leve.
        De uma aljava de couro cru, Jondalar tirou uma ponta de slex que 
vinha presa a um curto pedao de madeira com tendo e cola feita de cascos 
e raspas de couro fervidos. A parte inferior da pequena haste estreitava-se 
at uma ponta arredondada. O objeto parecia ser uma lana 
desproporcionalmente curta, ou talvez um tipo de faca com uma 
empunhadura fora do comum. Em seguida, retirou de um suporte uma haste 
comprida dotada de duas penas em uma extremidade, como uma lana, s 
que no havia ponta na outra. Da multido, elevou-se um murmrio de 
curiosidade.
        Ele enfiou o lado estreitado da haste, que estava presa  ponta de 
slex, num  buraco existente na extremidade dianteira da lana mais 
comprida, e surgiu com uma lana de duas peas um tanto quanto graciosa. 
Houve exclamaes de alguns que tinham entendido, mas nem todos.
        - Introduzi algumas modificaes, desde que inventei a tcnica de 
arremessar lanas - explanou Jondalar para o grupo. - E continuo 
experimentando novas idias, para ver como funcionam. Esta ponta de lana 
destacvel provou ser uma das boas. Em vez da lana comprida rachar, toda 
vez que atingir o alvo errado, ou se quebrar quando um animal que voc 
atingiu fugir, com isto - levantou a lana e voltou a separar as duas partes -, 
a ponta se destaca da haste, e no  preciso fazer uma nova lana inteira.
        Em resposta, surgiu um murmrio interessado do meio da multido. 
        Demandava tempo e esforo para se fazer uma lana reta, a fim de 
que voasse certeira, ao ponto possvel.
        - Podem notar que esta lana  bastante menor e mais leve do que 
uma lana normal - prosseguiu Jondalar.
        -  isso! - exclamou Willamar. - Eu sabia que havia algo diferente 
nessa lana, alm do fato de ter duas partes. De certa forma, parece mais 
graciosa, mais feminina. Como uma lana "Me".
        - Descobrimos que uma lana mais leve voa melhor - afirmou Jondalar.
        - Mas ela perfura? - perguntou Brameval. - Pode no ir to longe, mas, 
pelo que sei, uma lana precisa de peso. Se for leve demais, resvala num 
couro grosso ou a ponta se quebra.
        - Acho que est na hora de fazer uma demonstrao - anunciou 
Jondalar, apanhando o suporte e a aljava e recuando na direo da pedra 
desabada. Ele havia levado hastes a mais e algumas pontas destacveis, mas 
estas no eram todas iguais. Em algumas havia uma extremidade de slex, s 
que cada ponta tinha um formato ligeiramente diferente, e outras eram 
feitas de um comprido pedao de osso entalhado, na forma de uma ponta 
aguada com uma base que se fendia para ficar mais fcil prender a haste 
intermediria mais curta. Ele encaixou mais algumas lanas, para deix-las 
prontas, enquanto Solaban e Rushemar arrastavam um alvo para mais longe.
        - Est longe o bastante, Jondalar? - gritou Solaban.
Jondalar olhou de relance para Ayla. O lobo se instalara a seu lado. Ayla 
segurava o arremessador de lanas dela e tinha uma comprida aljava nas 
costas, com lanas extras j encaixadas. Sorriu para Jondalar, e este 
retribuiu o sorriso, mas foi um sorriso nervoso. Ele decidira iniciar com uma 
demonstrao, e depois explicar e responder a perguntas.
        - Est - gritou Jondalar em resposta. O alvo encontrava-se dentro 
dos limites, alis, perto at demais, porm serviria para a sua primeira 
demonstrao. Desse modo, a pontaria podia ser mais precisa. Ele no 
precisou mandar que sassem do caminho, O pessoal j se afastara 
alegremente, mais do que contente por permanecer longe da linha de 
arremesso de uma lana com aquele instrumento desconhecido. Jondalar 
esperou que voltassem, e, enquanto todos olhavam com expresses que iam 
da expectativa  desconfiana, ele preparou-se para lanar.
        Segurando o arremessador de lanas horizontalmente na mo direita, 
com o polegar e o indicador enfiados nas duas alas frontais, ele 
rapidamente acondicionou uma lana na ranhura. Deslizou-a para trs, a fim 
de que o gancho do lanador que tambm funcionava como escora, se 
encaixasse no buraco da extremidade com as penas, e, sem hesitar, 
arremessou a lana. Fez isso com tanta rapidez que muita gente percebeu a 
extremidade traseira do lanador elevar-se um pouco, enquanto ele 
mantinha segura a parte da frente com a ajuda das alas, acrescendo 
totalmente ao tamanho do arremessador de lanas a extenso do seu brao 
e, portanto, obtendo a vantagem do efeito alavanca.
        O que eles viram foi uma lana voar, com duas vezes a velocidade 
normal, e pousar com tanta fora no meio do veado pintado sobre a pele, que 
penetrou todo o feixe de capim. Para a surpresa dos espectadores, uma 
segunda lana seguiu-se  primeira, quase com a mesma potncia, e foi 
pousar perto do mesmo buraco. Ayla havia acompanhado o arremesso de 
Jondalar com uma de suas lanas. Seguiu-se um silncio atnito, e depois um 
murmurar de perguntas.
        - Vocs viram isso?
        - Eu no vi voc arremessar, Jondalar. Pode fazer isso novamente?
        - A lana quase atravessou o alvo. Como consegue arremessar com 
tanta potncia?
        - A dela tambm penetrou toda. O que lhes d essa fora?
        - Posso ver essa coisa? Como  que voc chama mesmo? Arremessador 
de lanas?
        As ltimas perguntas foram feitas por Joharran, e Jondalar deu-lhe o 
apetrecho. Seu irmo olhou o objeto cuidadosamente, e at mesmo virou-o e 
notou nas costas o entalhe simples de um cervo gigante. Isso o fez sorrir. 
Ele j vira antes um entalhe igual.
        - Nada mau para um lascador de slex - disse ele, apontando para o 
entalhe.
        - Como sabe que fui eu que fiz?
        - Eu me lembro de quando voc achava que podia ser um entalhador, 
Jondalar. Acho que ainda tenho uma travessa, que voc me deu certa vez, 
com um entalhe parecido com este. Mas, de onde veio isto? - perguntou, 
devolvendo o arremessador. - E gostaria de ver como voc o usa.
        - Eu o desenvolvi enquanto estive com Ayla no vale dela. No  difcil 
de se usar, mas requer prtica para se obter o controle. Eu consigo lanar 
mais longe ainda, mas a pontaria de Ayla  melhor do que a minha - admitiu 
Jondalar, ao apanhar outra lana. - Est vendo este pequeno furo que fiz na 
ponta traseira desta lana?
        Jondalar e vrios outros tinham se aglomerado em volta, para ver o 
entalhe redondo.
        - Qual o propsito disso? - quis saber Kareja.
        - Eu vou lhe mostrar. V esta salincia em forma de gancho nas costas 
do arremessador? Eles se encaixam assim - mostrou, enfiando no buraco a 
ponta do gancho. Ajustou a lana para que assentasse perfeitamente sobre 
o arremessador, com as duas penas enfeitando de cada lado, depois enfiou o 
polegar e o indicador direito na posio horizontal. Todos se amontoaram 
mais perto, para tentar ver. 
        - Ayla, por que tambm no mostra para eles? -         Ayla passou a 
fazer a mesma demonstrao.
        - Ela est segurando diferente - notou Kareja. - Ela enfiou os dois 
primeiros dedos nas alas, e Jondalar usa o polegar e o indicador.
        - Voc  muito observadora, Kareja - comentou Marthona.
        - Eu acho melhor segurar assim - mostrou Ayla. - Jondalar costumava 
segurar deste modo, mas agora prefere do jeito dele. Qualquer um dos dois 
est bem.
        Kareja assentiu, e depois falou: - As suas lanas tambm so menores 
e mais leves.
        - No incio, usvamos lanas maiores, mas, depois de algum tempo, 
Jondalar decidiu por estas menores. So mais fceis de manejar e melhores 
para a pontaria - disse Ayla.
Jondalar prosseguiu com a demonstrao.
        - No disparo, vocs perceberam que a parte de trs do arremessador 
levanta permitindo-se que ele va dando  lana um impulso extra? - Com a 
lana e o arremessador na mo direita, ele segurou a lana com a esquerda, 
para mostrar o movimento lentamente, sem deixar que ela casse. -  isso 
que d uma potncia extra.
        - Quando o arremessador de lanas fica todo estendido,  como se o 
seu brao dobrasse de tamanho - observou Brameval. Ele no tinha falado 
muito, antes, e Ayla levou algum tempo para lembrar que se tratava do lder 
da Dcima Quarta Caverna.
        - Vai arremessar outra lana? Pode nos mostrar novamente como 
funciona? - pediu Manvelar.
        Jondalar recuou, fez pontaria e disparou. A lana voltou a perfurar o 
alvo. A lana de Ayla seguiu-a no intervalo de um piscar de olhos.
        Kareja olhou para a mulher que Jondalar trouxera e sorriu. Ela no 
imaginava que Ayla fosse to talentosa. Mas isso no a surpreendia tanto. 
Ela pensava que a mulher obviamente atraente fosse mais como Marona, a 
tal que ele havia escolhido antes de partir, mas valeria a pena conhecer 
melhor essa jovem.
        - Quer experimentar, Kareja? - ofereceu Ayla, mostrando o seu 
arremessador de lanas.
        - Sim, quero - aceitou com um largo sorriso a lder da Dcima Primeira 
Caverna. Segurou o arremessador e o examinou, enquanto Ayla apanhava 
outra haste de lana com a ponta destacvel. Kareja notou o biso entalhado 
na parte de baixo e ficou imaginando se tambm foi Jondalar quem o fizera. 
Tratava-se de um entalhe razovel, nada excepcional, mas eficaz.
        - Lobo ficou perambulando enquanto Ayla e Jondalar mostravavam s 
pessoas, as tcnicas que elas teriam de praticar para usar com eficincia a 
nova arma de caa. Se, por um lado, algumas conseguiram alguns arremessos 
a uma boa distncia, por outro, era bvio que a pontaria precisaria de mais 
tempo. Ayla estava um pouco mais recuada, observando, quando captou um 
movimento com o canto do olho. Virou-se e viu Lobo perseguindo alguma 
coisa. Ao perceber o que era, ela tirou do estojo a sua funda e algumas 
pedras lisas e arredondadas.
        Colocou uma pedra na pea de couro do centro da funda, e, quando a 
ptrmiga, com toda a sua plumagem de vero, alou vo, ela estava pronta. 
Fez o arremesso na direo da ave rechonchuda e a viu cair. Uma segunda 
ptrmiga alou vo, e uma segunda pedra da funda de Ayla a abateu. Nesse 
momento, Lobo j havia encontrado a primeira. 
        Ela o interceptou, quando a levava embora, e tirou-a de sua boca; em 
seguida, apanhou a segunda e carregou ambas pelos ps. De repente, Ayla 
deu-se conta de que era a estao certa, e passou a procurar pelo capim em 
volta. Avistou o ninho e, com um sorriso de contentamento, recolheu 
tambm vrios ovos. Ela poderia preparar o prato favorito de Creb: 
ptrmiga recheada com os prprios ovos.
        Ia satisfeita consigo mesma, ao caminhar de volta, com Lobo a seu 
lado, e s percebeu que todos tinham parado de praticar e estavam olhando 
para ela ao se aproximar. Alguns riam, mas a maioria parecia surpresa. 
Jondalar exibia um largo sorriso.
        - No falei para vocs que ela era exmia com uma funda? - comentou 
Jondalar. Ele se sentia presunoso, e isso transparecia.
        - Mas no contou que ela usava o lobo para levantar a caa. Se tem a 
funda e o lobo, por que voc resolveu inventar esta coisa? - questionou 
Joharran, mostrando o arremessador de lanas.
        - Alis, foi a funda de Ayla que me deu a idia - frisou Jondalar -, e, 
na poca, ela no tinha Lobo, se bem que caasse com um leo das cavernas.
A maioria pensou que Jondalar estivesse brincando, embora no soubesse no 
que acreditar, ao olhar para a mulher que segurava duas ptrmigas mortas e 
o lobo a seu lado.
        - Como foi que voc imaginou este arremessador de lanas, Jondalar? 
- quis saber Joharran. Era a vez dele experimentar, e continuava com a 
arma na mo.
        - Observar Ayla disparar uma pedra com a funda me fez desejar 
arremessar uma lana do mesmo modo. Alis, as primeiras tentativas que fiz 
foi com uma espcie de funda, mas percebi que precisava de algo mais duro, 
menos flexvel. Finalmente, me surgiu essa idia - contou Jondalar. - Mas, na 
ocasio, eu no sabia realmente o que era possvel se fazer com isso. Exigiu 
prtica, como j demonstrados em cavalos. Agora que tiveram a chance de 
experimentar, talvez possamos fazer uma demonstrao de verdade. Pena 
no termos trazido os cavalos, mas, pelo menos, posso lhes dar uma idia do 
alcance das lanas.
        Vrias lanas foram retiradas dos alvos. Jondalar escolheu uma, 
pegou o arremessador das mos de Joharran, e recuou alguns metros. Deu 
uma olhada na direo dos alvos, mas, em vez de mirar diretamente para os 
feixes de palha, imprimiu ao projtil a maior velocidade de que foi capaz. A 
lana deslizou acima dos feixes, e seguiu mais do que outra metade do 
espao anterior antes de pousar no capim distante. Ouviram-se sons 
maravilhados.
        Ayla foi a seguinte, e, ainda que certamente no tivesse a fora do 
homem alto e musculoso, sua lana caiu apenas a uma curta distncia da de 
Jondalar. Sua fora fsica era superior  da maioria das mulheres; resultava 
de sua criao. O povo do Cl era mais forte e corpulento do que os Outros. 
 medida que crescia, para se equiparar a eles, e simplesmente executar as 
atividades comuns que eram esperadas das meninas e mulheres do Cl, ela 
precisou desenvolver ossos e msulos mais fortes do que seria normal em 
sua espcie.
        Recolhidas as lanas, as pessoas conversaram sobre a nova arma que 
tinham acabado de ver. Disparar uma lana com o arremessador no parecia 
muito diferente de atirar uma com a mo. A diferena estava nos resultados. 
Ela voava duas vezes mais longe e com uma fora maior. Esse foi o aspecto 
mais debatido, pois logo ficou claro que era mais seguro arremessar uma 
lana de uma distncia maior.
        Acidentes de caa, apesar de incomuns, tambm no eram raros. Mais 
de um caador j fora mutilado ou morto por um animal ferido enlouquecido 
de dor. A questo era quanto mais de empenho e de tempo seria preciso 
despender, se no para se alcanar o nvel de percia demonstrado por 
Jondalar e Ayla, pelo menos a fim de se obter a habilidade suficiente para o 
arremessador de lanas ser usado de forma competente. Alguns pareciam 
achar que j possuam as tcnicas adequadas para uma caada eficiente, mas 
outros, principalmente os mais jovens que ainda aprendiam, se mostravam 
mais interessados.
         primeira vista, a nova arma parecia simples demais, e de fato o era. 
Baseava- se, contudo, em princpios que, embora entendidos intuitivamente, 
somente muito depois seriam estabelecidos. O arremessador de lanas era 
uma empunhadura, um cabo incomum e destacvel, que utilizava a vantagem 
mecnica da alavanca para adicionar impulso a uma lana, fazendo-a voar 
muito mais longe e mais depressa do que aquela impelida simplesmente com 
um brao.
        As pessoas tm usado empunhaduras de vrios tipos desde que 
conseguem se lembrar, e qualquer cabo  capaz de aumentar a fora dos 
msculos. Por exemplo, uma lasca afiada de pedra - pederneira, jaspe, slex 
crneo, quartzo, obsidiana - era um instrumento de corte ao ser segurado 
com a mo, mas um cabo multi plicava a fora que podia ser aplicada ao gume, 
aumentando a eficcia da faca e dando um maior controle ao usurio.
        O arremessador de lanas, porm, era mais do que uma nova utilizao 
de princpios conhecidos de forma inata. Tratava-se de um exemplo de uma 
caracterstica congnita que dava mais probabilidades de sobrevivncia a 
pessoas como Jondalar e Ayla: a habilidade de conceber uma idia e 
transform-la em um objeto til, tornar real uma abstrao. Esse era o seu 
maior Dom, embora no o reconhecessem pelo que era.
        Os visitantes passaram o resto da tarde discutindo estratgias para 
a prxima caada. Decidiram ir atrs da manada de bises que fora avistada, 
j que havia mais animais nesse grupo. Jondalar voltou a mencionar que 
achava possvel caar tanto os bises quanto os cervos gigantes, mas no 
insistiu no assunto. Ayla nada falou, resolvida a esperar para ver. Os 
visitantes fizeram outra refeio e foram instados a passar a noite. Alguns 
decidiram permanecer, mas Joharran queria preparar algumas coisas antes 
da caada, e prometera a Kareja que pararia, no caminho de volta, para 
fazer uma curta visita  Dcima Primeira Caverna.
        Ainda havia luz, embora o sol estivesse se pondo no ocidente, quando 
a Nona Caverna iniciou a descida pela trilha. Ao chegarem  extenso de 
terra relativa mente plana perto da ribanceira do Rio, Ayla virou-se e voltou 
a olhar os mltiplos nveis tipo prateleira dos abrigos da Pedra dos Dois Rios. 
Algumas pessoas acenavam para eles com o gesto de "venham-novamente", 
que era usado por muita gente. Ela notou que os visitantes acenavam de 
volta com um movimento semelhante; o deles significava "venham-visitar".
        Caminhando prximos  ribanceira, seguiram o contorno do rochedo 
pela direita, rumando de volta para o norte. Ao continuarem correnteza 
acima, O paredo de pedra do Rio, do lado deles, ia ficando cada vez menos 
alto. Perto da parte mais baixa, ao p de uma ladeira, viram um abrigo de 
pedra. Ligeiramente recuado e no topo da ladeira, talvez a uns seis metros 
de distncia, ficava um segundo abrigado, porm se estendendo mais ou 
menos continuamente ao longo do mesmo nvel do terrao. 
        Uma pequena caverna tambm podia ser vista nas proximidades. Os 
dois abrigos, a caverna e o comprido terrao formavam o lugar de moradia 
de outra comunidade naquela colonizao regional densamente povoada - a 
Dcima Primeira Caverna dos Zelandonii.
        Kareja e as pessoas da Dcima Primeira Caverna tinham partido da 
Pedra dos Dois Rios antes da Nona, e a lder estava de p, ao lado do 
Zelandoni da sua Caverna, esperando para saudar o grupo quando este se 
aproximou. Vendo-os juntos Ayla notou que Kareja era mais alta do que o 
Zelandoni da Dcima Primeira. No que ela fosse muito alta, Ayla deu-se 
conta ao chegar mais perto, ele  que era muito baixo. Ao ser 
cumprimentada por ele, Ayla voltou a perceber o seu forte aperto de mo. 
Mas pressentiu algo mais em relao a ele. O homem tinha alguns trejeitos 
que a haviam confundido, ao ser apresentada a ele, e transmitiu uma forte 
impresso ao cumprimentar e acolher os visitantes.
        Subitamente, deu-se conta de que ele no a avaliava do mesmo jeito 
que a maioria dos homens Zelandonii, seja abertamente ou de um modo mais 
sutil, e concluiu que aquele homem no procurava mulheres para satisfazer 
as suas ne cessidades pessoais. Recordou que, quando vivia no Acampamento 
do Leo, ouviu com muito interesse uma discusso sobre pessoas que 
carregavam consigo as essncias tanto masculina quanto feminina. Depois, 
lembrou de Jondalar dizer que geralmente Zelandonii desse tipo davam 
excelentes curadores, e ela no pde evitar de sorrir. Talvez ele pudesse 
ser outra pessoa com quem poderia discutir prticas e tcnicas de cura e 
medicina.
        O sorriso dele em resposta foi amistoso.
        - Bem-vinda ao Lugar do Rio, a morada da Dcima Primeira Caverna 
dos Zelandonii - disse ele. Outro homem, que estava ao seu lado, 
ligeiramente mais atrs, sorria para o Zelandoni de um modo cordial e 
amoroso. Ele era relativamente alto e tinha feies agradveis e simtricas, 
o que levou Ayla a consider-lo bonito, mas ele se movimentava de uma 
maneira que lhe parecia feminina.
        O Zelandoni virou-se para olhar o homem alto e fez um sinal para que 
ele chegasse  frente.
        - Gostaria de apresentar o meu amigo, Marolan, da Dcima Primeira 
Caverna dos Zelandonii - falou, e prosseguiu com o restante da 
apresentao formal, que, para Ayla, pareceu bem mais demorada do que o 
normal.
        Enquanto ele falava, Jondalar aproximou-se e ficou ao lado dela, o que 
a fazia se sentir melhor diante de uma nova situao, e Ayla j havia 
enfrentado muitas desde que voltaram para a terra do povo dele. Virou-se e 
sorriu para Jondalar, depois voltou-se novamente para o homem, a fim de 
segurar as suas mos. Ele no era to alto quanto Jondalar, mas um pouco 
mais alto do que ela.
        - Em nome de Mut, a Grande Me de Todos, tambm conhecida como 
Doni, eu o sado, Marolan da Dcima Primeira Caverna dos Zelandonii - 
encerrou ela. O sorriso dele foi cordial e parecia interessado em conversar, 
mas tiveram que se afastar para o lado, a fim de abrir espao para os 
demais a quem a lder e O Zelandoni da Dcima Primeira Caverna davam as 
boas-vindas, e alguma cortesia. Haveria tempo depois para uma conversa, 
pensou ela.
        Ayla olhou em torno para examinar os arredores. Embora o local fosse 
mais alto do que a ribanceira, e um tanto recuado da margem da gua, 
mesmo assim ficava bem perto do Rio. Comentou isso com Marthona.
        - Sim, eles ficam prximos ao Rio - concordou a mulher. - H quem 
ache que estejam sujeitos a enchentes. O Zelandoni diz que havia algumas 
indicaes nas Lendas dos Antigos, mas nenhum continua vivo, e nem mesmo 
os mais velhos tm lembranas de ter havido enchentes por aqui. Portanto, 
eles aproveitam essa localizao.
        Willamar explicou que, por causa do acesso imediato que tm, o povo 
da Dcima Primeira Caverna fazia uma bom uso dos recursos do Rio. A pesca 
era a principal atividade, porm, mais importante ainda, a Dcima Primeira 
Caverna era conhecida pelo transporte aqutico.
        - Balsas so utilizadas para carregar quantidades considerveis de 
seja l o que for que precise ser transportado, alimentos, mercadorias, 
gente - esclareceu. 
- As pessoas da Dcima Primeira Caverna no so apenas as mais habilidosas 
em impelir as balsas Rio acima e abaixo para si mesmas e as das Cavernas 
vizinhas, como tambm constrem a maioria das suas embarcaes.
        - Essa  a grande habilidade dela - acrescentou Jondalar. - A Dcima 
Primeira Caverna se especializou em fazer e usar balsas fluviais. A morada 
deles  conhecida como Lugar do Rio.
        - No so aqueles troncos ali? - perguntou ela, apontando para vrias 
construes feitas de madeira e toras perto da margem do rio. No era algo 
estranho. Ela j vira antes algo semelhante e tentou lembrar onde. Ento, 
ocorreu-lhe. As mulheres S'Armunai tinham usado uma balsa. Quando ela 
tentava encontrar Jondalar, seguindo pela nica trilha que saa do lugar de 
onde ele havia sumido, foi dar num rio e viu uma pequena balsa nas 
proximidades.
        - Nem todos. Aquilo que parece uma enorme balsa  o cais. As 
pequenas plataformas amarradas a ele so as balsas. A maioria das Cavernas 
tem um lugar seguro perto da gua, para atracar balsas, e algumas docas no
passam de um sim ples monte de estacas; outras so mais bem-feitas, porm
nenhuma  como a deles. Quando algum deseja viajar para transportar algo,
rio acima ou rio abaixo, procuram a Dcima Primeira Caverna para os
preparativos. Ela faz viagens com bastante regularidade - disse Jondalar. -
Estou contente por ter parado aqui. Estava querendo falar com eles a 
respeito dos charamudi e as embarcaes fluviais maravilhosamente 
manobrveis que preparam a partir de troncos.
        Joharran escutava.
        - No creio que no momento ter todo esse tempo para uma conversa 
sobre embarcaes fluviais, a no ser que queira ficar para trs. Eu gostaria 
de estar de volta  Nona Caverna antes de escurecer - alertou. - Prometi a 
Kareja que ia parar aqui porque ela queria mostrar o local para voc, Ayla, e 
eu gostaria de fazer uma viagem de balsa rio acima, depois da caada, para 
um encontro com outros lderes sobre a Reunio de Vero.
        - Se a gente tivesse uma daquelas pequenas canoas dos Ramudi 
escavadas de um tronco, duas pessoas poderiam remar rio acima e no 
precisariam se preocupar em impelir com varas uma balsa pesada - disse 
Jondalar.
        - Quanto tempo demora para se fazer uma? - perguntou Joharran.
        - Requer muito trabalho - reconheceu Jondalar. - Mas, depois de 
feita, dura bastante.
        - Isso no vai me ajudar agora, vai?
        - No. Eu estava pensando em como ajudaria depois.
        - Talvez, mas precisarei subir o rio nos prximos dias - justificou 
Joharran -, e fazer a viagem de volta. Se a Dcima Primeira Caverna estiver 
planejando uma viagem, ser mais fcil, e muito mais rpido retornar, mas 
posso andar, se for necessrio.
        - Voc pode usar os cavalos - sugeriu Ayla.
        - Voc pode, Ayla. -Joharran deu-lhe um sorriso amarelo. - No sei 
fazer eles irem aonde eu quero.
        - Um cavalo carrega duas pessoas. Voc poderia montar atrs de mim 
- props ela.
        - Ou de mim - afirmou Jondalar.
        - Bem, talvez em outra ocasio, mas, por enquanto, vou procurar saber 
se a Dcima Primeira Caverna planeja para breve uma viagem rio acima - 
alegou Joharran.
        Eles no notaram a aproximao de Kareja.
        - De fato, eu estava pensando em fazer uma viagem rio acima - disse 
ela. Todos ergueram a vista. - Eu tambm vou a esse encontro, Joharran, e, 
se a caada for bem-sucedida...- mesmo sendo considerado provvel, 
ningum nunca pressupunha que qualquer caada seria bem-sucedida; isso 
daria m sorte - .. .pode ser uma boa idia levar um pouco de carne para o 
local da Reunio de Vero e guard-la de antemo nas proximidades. Creio 
que voc tem razo em pensar que a Reunio ter uma freqncia maior este 
ano. - Voltou-se para Ayla. - Eu sei que no podem demorar, mas quero lhes 
mostrar o lugar e apresentar vocs a algumas pessoas. - Ela no ignorou 
exatamente Jondalar, mas dirigiu as palavras. Para Ayla.
        Jondalar observou mais atentamente a lder da Dcima Primeira 
Caverna. Ela fora uma das pessoas que mais caoaram dele em relao s 
suas sugestes de caadas e afirmaes sobre a nova arma de caa dos dois, 
se bem que, agora, ela parecia bastante impressionada com Ayla, depois da 
exibio de sua habilidade. Talvez ele devesse esperar antes de sugerir o 
novo tipo de embarcao, e talvez Kareja no fosse a pessoa certa com 
quem devesse falar, pensou Jondalar, imaginando quem seria atualmente 
o principal construtor de balsas deles.
        Tentou lembrar o que sabia sobre Kareja. Ela nunca tivera muitos 
homens interessados nela, recordou. No porque no fosse atraente, mas 
no parecia particularmente interessada em homens e no os estimulava. 
Mas tambm no lembrava de Kareja interessada por mulheres. Ela sempre 
tinha morado com a me, Dorova, e Jondalar se perguntou se ainda moraria.
        Ele sabia que a me dela nunca escolhera viver com um homem. 
Jondalar no conseguia lembrar quem foi o homem da lareira dela, ou se 
algum por acaso sabia o esprito de qual homem a Grande Me havia 
selecionado para engravidar Dorova. As pessoas ficaram intrigadas com o 
nome que ela escolhera para a filha, principalmente porque tinha o som 
semelhante ao da palavra coragem Ser que ela achava que Kareja ia 
necessitar de coragem? Era preciso coragem para ser lider de uma Caverna.
Ayla sabia que o lobo atrairia a ateno e curvou-se para tranquiliz-lo com 
afagos e palavras de consolo. Ela tambem tirava dele o seu consolo. Era 
difcil ser o foco de um constante e excessivo exame minucioso, e era 
provavel que isso no diminusse to cedo. Ela no estava exatamente 
ansiosa pela Reunio de Vero, justamente por esse motivo, embora 
estivesse na expectativa pelo Matrimonial que a tornaria parceira de 
Jondalar. Inspirou fundo, soltou um suspiro furtivo e se ps de p. 
        Fez um sinal para Lobo ficar perto dela, juntou-se a Kareja e 
caminharam em direo ao primeiro dos abrigos habitados. Era semelhante 
aos outros abrigos de pedra da regio. Diferenas caractersticas na dureza 
do calcrio haviam feito com que os rochedos sofressem a eroso em nveis 
diferentes, criando espaos em meio a terraos e abas suspensos, que eram 
protegidos da precipitao acima, apesar de expostos  luz do dia. Com o 
acrscimo de estruturas construdas para obstruir o vento, e o fogo a fim 
de fornecer calor, os espaos nos rochedos de calcrio eram dotados de 
muitas condies de vida vantajosas, mesmo durante os invernos nas regies 
periglaciais da Idade do Gelo.
        Aps conhecer vrias pessoas e apresentar Lobo a algumas, Ayla foi 
conduzida a outro abrigo de pedra, onde Kareja vivia. Ela conheceu Dorova, 
a me da lder, mas nenhum outro parente. Kareja no parecia ter parceiro 
ou irmos, e deixou claro que no queria filhos, ao afirmar que cuidar da 
prpria Caverna era responsabilidade suficiente.
        Kareja parou, pareceu examinar Ayla, e ento falou:
        - J que voc  to entendida em cavalos, quero lhe mostrar uma 
coisa.
        Jondalar ficou um pouco surpreso quando a lder rumou para uma
pequena caverna. Ele sabia aonde estavam indo, e as pessoas no
Costumavam levar visitantes desconhecidos, numa primeira visita, a seus 
lugares sagrados. Perto da entrada da nica cmara da caverna havia uma 
srie de riscos crpticos, e no interior encontravam-se vrias gravaes 
toscas bem difceis de se enxergar. No teto, porm, via-se um enorme 
cavalo, belamente gravado, e mais sinais na extremidade.
        -  um cavalo extraordinrio - afirmou Ayla. - Quem o fez deve 
conhecer cavalos muito bem. Essa pessoa vive aqui?
        - Acho que no embora o seu esprito talvez ainda perdure - observou 
Kareja. Isto est aqui h muito tempo. Foi feito por algum ancestral, no 
sabemos qual. A ltima coisa a ser mostrada a Ayla foi a doca com duas 
balsas amarradas a ela, e a rea de trabalho onde uma outra balsa estava 
sendo feita. Ela desejaria se demorar ali e aprender mais, porm Joharran 
estava com pressa e Jondalar havia dito que tambm precisavam fazer 
alguns preparativos. Ayla no queria ficar sozinha, principalmente em sua 
primeira visita, mas prometeu voltar.
        O grupo prosseguiu para o norte, ao longo do Rio, correnteza acima, 
at o sop de um reduzido escarpamento rochoso onde havia um pequeno 
abrigo de pedra. Ayla notou que os entulhos de pedra tinham a tendncia de 
se acumular na beira da salincia do rochedo. O acmulo de tlus criava uma 
parede de casca lho solto e pontas afiadas abaixo da borda da lapa.
        Havia algumas evidncias de uso. Vrias divisrias se elevavam atrs 
do tlus, e uma tinha cado. Um velho rolo de dormir, to gasto que a maior 
parte do plo sumira, estava largado na parede dos fundos. Eram evidentes 
os crculos pretos de restos de algumas fogueiras, duas delas circundadas 
por pedras, e uma com forquilhas enfiadas no cho uma diante da outra, 
usadas, Ayla tinha certeza, para apoiar um espeto a fim de assar um pedao 
de carne.
        Ayla pensou ter visto alguns rolos de fumaa se elevarem de um dos 
braseiros, e ficou surpresa, o lugar parecia abandonado, mas era como se 
tivesse sido usado recentemente.
        - Que Caverna vive aqui? - perguntou.
        - Nenhuma Caverna vive aqui - respondeu Joharran.
        - Mas todas o utilizam - acrescentou Jondalar.
        - Todo mundo usa este lugar de vez em quando - esclareceu Willamar. 
-  um lugar para se abrigar da chuva, para um grupo de jovens se reunir, ou 
para um casal ficar sozinho  noite, mas ningum vive aqui permanentemente. 
As pessoas o chamam simplesmente de "O Abrigo".
        Depois da parada no Abrigo, prosseguiram subindo o vale do Rio em 
direo  Travessia. Olhando adiante, Ayla viu novamente os rochedos e a 
marcante salincia suspensa do abrigo da Nona Caverna, na ribanceira 
direita logo depois da curva fechada. Aps a travessia, seguiram por uma 
trilha bastante usada ao lado do Rio, ao longo da base de um aclive com 
rvores e arbustos esparsos.
        Novamente caminharam em fila nica, j que a trilha se estreitava 
entre O Rio e o rochedo completamente vertical.
        - Isto  chamado de "Pedra Alta", no  mesmo? - indagou Ayla, 
diminuindo o passo para Jondalar alcan-la.
        -  - respondeu, ao se aproximarem de uma bifurcao na trilha logo 
depois da muralha a prumo. A bifurcao levava de volta ao caminho por 
onde tinham vindo, mas tambm subia em curva.
        - Aonde leva essa trilha? - quis saber ela.
        - Para algumas cavernas l em cima do paredo escapardo pelo qual 
acaba mos de passar - disse ele. 
        Ela assentiu. Aps alguns metros, a trilha que seguia para o norte 
levou a um vale cercado de rochedos direcionado para leste-oeste. Um 
pequeno curso d'gua corria pelo meio do vale e ia para O Rio, o qual, 
naquele ponto, escoava quase que exatamen te de norte para o sul. To 
estreito que praticamente era um desfiladeiro, o vale aninhava dois 
ngremes aterrados: a Pedra Alta, o rochedo vertical pelo qual havi am 
passado, ao sul, e um segundo volume de pedra de propores ainda maiores, 
ao norte.
        - Isso tem um nome? - perguntou Ayla.
        - Todo mundo chama simplesmente de "Pedra Grande" - explicou 
Jondalar -, e o pequeno curso d'gua  chamado de Riacho do Peixe.
Ao olharem acima, para o caminho que seguia ao lado de um arroio, viram 
vrias pessoas descendo. Brameval vinha na frente, aproximando-se deles 
com um largo sorriso.
        - Venha visitar, Joharran - sugeriu, ao chegar perto. - Gostaramos de 
mostrar o lugar para Ayla e apresent-la a algumas pessoas.
        Jondalar podia ver, pela expresso do irmo, que ele no queria de 
modo algum parar novamente, embora soubesse que recusar seria muita 
descortesia. Marthona tambm percebeu a expresso dele e se adiantou, 
pois no desejava que o filho cometesse uma gafe capaz de hostilizar um 
bom vizinho s porque achava que precisavam voltar com toda a pressa. 
Fossem quais fossem os planos dele, isso no era to importante.
        - Claro - afirmou ela. - Adoraramos parar um instante. S que, desta , 
no podemos demorar. Temos que nos preparar para a caada, e Joharran 
precisa providenciar algumas coisas.
        - Como ele sabia que amos passar exatamente agora? - perguntou 
Ayla a Jondalar ao seguirem pela trilha que passava ao lado do Riacho do 
Peixe e se aproximarem do povoamento.
        -Lembra da bifurcao que sobe para as cavernas da Pedra Alta? - 
disse ele. - Brameval devia ter um olheiro l em cima, que, quando nos viu 
passar por l, simplesmente desceu e informou a ele.
        Ayla viu um ajuntamento de pessoas esperando por eles e notou que 
muitas partes dos enormes blocos de calcrio voltados para o riacho 
continham vrias pequenas cavernas e lajes e um imenso abrigo de pedra. Ao 
chegarem l, Brameval virou-se e estendeu os braos, num gesto que 
abrangia todo o lugar.
        - Bem-vindo ao Pequeno Vale, a moradia da Dcima Quarta Caverna 
dos Zelandonii - disse ele.
        O espaoso abrigado situava-se diante de um amplo terrao, acessvel 
por ambos os lados, atravs de uma ladeira gradativa na qual fora entalhado 
um estreito caminho de degraus baixos, ao longo do paredo. Um pequeno 
buraco na muralha de rocha acima fora ligeiramente alargado e podia ser 
usado para vigilncia ou como furo para escoar fumaa. Uma parte da 
abertura frontal do abrigo de pedra era pro tegida das intempries por uma 
parede de fragmentos de calcrio empilhados. Os visitantes da Nona 
Caverna foram convidados para um ch, na rea principal de habitao da 
pequena comunidade do vale, que j estava pronto. Camomila, concluiu Ayla, 
depois de uma prova. Lobo estava obviamente curioso para explorar aquele 
novo abrigo de pedra - provavelmente no mais do que Ayla -, mas ela o 
manteve a seu lado. Todos,  claro, sabiam do lobo que obedecia  mulher, e 
muitos j o tinham visto, mas  distncia. Ficou bvio para ela que era mais 
enervante para eles t-lo no interior de sua morada.
        Ela apresentou Lobo  irm de Brameval e ao Zelandoni deles, 
enquanto os demais observavam. Embora a Nona Caverna fosse amiga ntima 
da Dcima Quarta, todos sabiam que Ayla, uma estrangeira, era o foco das 
atenes. Depois das apresentaes, e uma segunda rodada de ch, seguiu-
se o incmodo silncio de estranhos que no sabem exatamente o que fazer 
ou dizer a seguir. Joharran olhava ansioso para o caminho que levava ao lado 
de fora, para O Rio.
        - Deseja ver o resto do Pequeno Vale, Ayla? - indagou Brameval, ao se 
tornar aparente que Joharran esta ansioso para ir embora.
        - Sim, gostaria - respondeu ela.
        Com um certo alvio, os visitantes da Nona Caverna e vrias pessoas 
da Dcima Quarta desfilaram pelos degraus abaixo entalhados ao longo do 
paredo, enquanto que crianas saltitavam  frente. Ao mesmo tempo que o 
grande abrigo era a morada principal da Dcima Quarta Caverna, os outros 
dois abrigos menores, prximos um ao outro ao p do rochedo voltado para o 
sul, tambm eram usados.
        Pararam num pequeno abrigo, a apenas alguns metros de distncia.
        - Este  o Abrigo do Salmo - anunciou Brameval, indo  frente para 
um pequeno recinto fechado e quase circular com uns seis metros de um 
lado a outro. Apontou para cima. Ayla olhou e viu esculpido em baixo relevo, 
no teto abobadado, um salmo em tamanho natural, com um metro e vinte de 
comprimento, retratado com as mandbulas recurvadas de um macho e 
nadando correnteza acima para procriar. Tratava-se de parte de uma cena 
mais complexa, contendo ainda um retngulo dividido por sete linhas, as 
patas dianteiras de um cavalo, e outros sinais e entalhes enigmticos, 
juntamente com a marca de uma mo em negativo esgravatada em um fundo 
preto. Toda a abbada tinha considerveis reas de um denso colorido 
vermelho e preto usado para realar os entalhes.
        Fizeram um rpido passeio pelo restante de Pequeno Vale. A sudoeste, 
de fronte ao enorme abrigo de pedra, havia uma caverna bastante espaosa, 
e, ao sul, uma aba projetava-se diante de um pequeno abrigado, que se 
prolongava para o interior da parede do rochedo atravs da cmara de uma 
caverna com cerca de vinte metros de extenso.  direita da entrada da 
caverna, num pequeno terracinho natural, havia dois auroques, entalhados 
com vigorosos contornos, e a sugesto de um rinoceronte. 
        Ayla ficou bastante impressionada com todos os stios naturais em 
Pequeno Vale e o revelou abertamente. Brameval e a Dcima Quarta Caverna 
eram orgu lhosos de sua morada e tinham prazer em mostr-la a algum que 
demonstrasse o seu apreo. Tambm j estavam se acostumando ao lobo, 
principalmente porque Ayla tomava cuidado em mant-lo sob controle. Muita 
gente encorajou o grupo visitante, ou pelo menos Ayla, a ficar para uma 
refeio.
      - Eu gostaria muito - alegou Ayla -, mas no desta vez. Eu adoraria vol 
tar aqui.
      - Bem, antes de ir, vou-lhes mostrar o nosso aude - props Brameval. 
- Fica a caminho do Rio.
      Ele foi  frente do grupo razoavelmente grande que se formara, 
incluindo os visitantes, at uma armadilha para peixes, uma represa 
permanente que fora construda no Riacho do Peixe. O curso d'gua que 
seguia pelo estreito vale era um riacho em que havia desova de salmo, e 
para onde o peixe adulto retornava a cada ano. Com vrias adaptaes 
introduzidas, o aude era um meio eficaz de se apanhar muitas das outras 
variedades de peixes que tambm achavam tentador o habitat.
      e meio, apesar de um metro e vinte ser o mais comum para um macho 
adulto.
      - Tambm fazemos redes para pescar, principalmente no Rio - frisou
Brameval.
      - O povo com que eu cresci vivia perto de um mar interior. s vezes, 
iam  desembocadura do rio que desaguava perto da cavernas deles, e 
usavam redes para pescar esturjo. Ficavam contentes quando pegavam 
fmeas, porque gostavam particularmente da ova, os minsculos ovos pretos 
do peixe - lembrou Ayla.
      - Eu provei ova de esturjo - falou Brameval -, quando visitamos o 
povo que vive perto das Grandes guas do Oeste.  deliciosa, mas o 
esturjo no cos tuma vir to longe assim correnteza acima. O salmo 
costuma, e os ovos dele tam bm so gostosos, so maiores e de uma cor 
brilhante, quase vermelhos. Mas prefiro a carne aos ovos. Eu acho que 
salmo gosta de vermelho. Voc sabia que o salmo macho fica vermelho 
quando est nadando riacho acima? Eu no estou muito familiarizado com o 
esturjo. Soube que eles podem ficar bem grandes.
      - Jondalar pegou um dos maiores esturjes que j vi. Creio que tinha o 
ta manho de dois - comentou Ayla, virando-se e sorrindo para o homem alto, 
e, com um piscar do olho, acrescentou: - Deu uma trabalheira e tanto para 
ele.
      - A no ser que estejam planejando ficar aqui, acho que Jondalar ter 
que deixar essa histria para nos contar depois - aparteou Joharran.
      - Sim, depois - concordou Jondalar. A histria era um pouco 
constrangedora, e ele no estava mesmo disposto a cont-la.
      Continuaram conversando sobre pesca, enquanto caminhavam juntos 
em direo ao Rio.
      - Quando algum vai pescar sozinho, geralmente usa o engasgo. Vocs 
sabem como funciona, no  mesmo? - indagou Brameval. - Voc pega um 
pedacinho de pau, afia nas duas pontas e amarra uma corda fina no meio - 
explicou com avidez, utilizando as mos enquanto falava. - Eu costumo usar 
uma bia numa ponta da corda e amarrar a outra numa vara. Voc prende 
uma minhoca em volta do engasgo, e fica agitando-o na gua,  espera. Ao 
sentir uma mordiscada, d um rpido puxo e, com sorte, o engasgo fica em 
posio horizontal na goela do peixe com as duas pontas presas em cada um 
dos lados. Mesmo os mais jovens fazem isso muito bem.
      Jondalar sorriu.
      - Eu sei. Voc me ensinou, quando eu era menino - lembrou ele, e 
depois olhou para Ayla. - No se pode deixar que Brameval comece a falar 
sobre pescaria.
      O lder pareceu um pouco embaraado. - Ayla tambm pesca, 
Brameval. - O homem sorriu para a mulher. - Ela consegue pegar um peixe s 
com as mos.
      - Sim, ela me contou - disse Brameval. - Deve ser difcil.
      -  preciso muita pacincia, mas no  difcil - alegou ela. - Algum dia 
eu vou lhe mostrar.
      Aps deixarem a estreita garganta de Pequeno Vale, Ayla prestou 
ateno na enorme massa de calcrio chamada de Pedra Grande, que 
formava o lado norte do pequeno vale da Dcima Quarta Caverna, eleva-se
em uma escarpada, mas, diferente de Pedra Alta, no se comprimia nas
proximidades do Rio. Depois de vrios metros, o caminho se alargava, ao
mesmo tempo em que as altas muralhas enfileiradas na ribanceira direita
recuavam da margem da gua at um largo campo separar os paredes de
pedra do rio corrente.
      - Isto  chamado de "Campo de Reunio" - disse Jondalar. - Trata-se
de outro lugar que  usado por todas as cavernas em volta daqui. Quando 
queremos nos reunir, para um banquete ou um encontro para que todos 
sejam co municados de alguma coisa, este lugar  grande o bastante para 
conter todos ns.  vezes, ns o usamos, depois de uma grande caada, a 
fim de secar carne para o inverno. Creio que, se aqui houvesse um abrigo de 
pedra ou uma caver na habitvel, j teria sido reivindicado, mas qualquer um 
pode us-lo agora. Principalmente no vero, quando uma barraca  boa o 
bastante para se passar uns dias.
      Ayla olhou a muralha de calcrio. Embora no houvesse alapados ou 
caver nas profundas, a face do rochedo era dividida por ressaltos e fendas 
onde pssaros faziam os seus ninhos.
      - Quando eu era jovem, costumava escalar bastante esse paredo - 
lem brou Jondalar. H todo tipo de locais para mirantes e uma vista 
espetacular do Vale do Rio.
      - Os mais jovens ainda fazem isso - observou Willamar.
      Alm do Campo de Reunio e logo correnteza abaixo da Nona Caverna, 
ou tra cadeia de rochedos calcrios se aglomerava perto do Rio. Ali, as 
foras que haviam erodido a pedra do rochedo criaram uma protuberante 
aparncia circular que se elevava at o cume, e como todos os rochedos de 
calcrio e salincias, a quente cor amarelada natural da pedra era listrada 
por tons de cinza-escuro.
      A partir do Rio, a trilha subia um declive bastante ngreme at um 
terrao plano de bom tamanho, que se estendia alm de uma fileira de 
considerveis abrigos de pedra, separados em alguns lugares por simples 
paredes rochosas sem abas protetoras. Para o sul, vrias estruturas simples 
de peles de animais e madeira eram vistas debaixo da protuberante 
salincia de abrigos de pedra. Eram construdas no padro de uma casa longa 
comunal, com uma fila de lareiras no meio parale lamente  parede do 
rochedo.
      Dois abrigos de pedra relativamente grandes da ponta setentrional do 
terrao, separados cerca de cinqenta metros, eram quase contguos ao 
enorme abrigo de pedra saliente da Nona Caverna, mas, pelo modo como o 
rochedo se curvava, os abrigos no se voltavam para o sul, e Ayla achou que 
isso tornava esse lugar menos desejvel. 
      Ela olhou para baixo, para a ponta meridional do terrao da Nona 
Caver na, alm de um regato alimentado por uma nascente, que corria para 
alm da beirada da varanda de pedra, e percebeu que aquela salincia era 
um pouco mais elevada.
      - Qual Caverna reivindica este lugar? - quis saber Ayla.
      - Nenhuma - frisou Jondalar. - Isto  chamado de Rio Abaixo, talvez 
por que fique rio abaixo da Nona Caverna. O fluxo de gua da nascente, que 
escorre pela parede posterior, escavou atravs da varanda de pedra, 
formando uma diviso entre a Nona Caverna e Rio Abaixo. Fizemos uma 
ponte para ligar os dois lugares. A Nona Caverna talvez faa um maior uso 
do que as outras, mas todas o utilizam.
      -  usado para qu? - indagou Ayla.
      - Para fazer coisas. Trata-se de um local de trabalho. As pessoas vm 
aqui para trabalhar em seus ofcios, principalmente os que utilizam 
materiais duros.
      Ayla ento notou que todo o terrao de Rio Abaixo, mas 
especialmente dentro e em volta da rea dos dois abrigos mais ao norte, 
estava coalhado de restos de marfim, osso, chifre, madeira e pedra, 
deixados pelo lascar de slex e a feitura de ferramentas, armas de caa e 
utenslios.
      - Jondalar, eu vou na frente - avisou Joharran. - Estamos quase 
chegan do, e sei que quer ficar aqui e falar para Ayla sobre Rio Abaixo.
      O resto das pessoas da Nona Caverna foi com ele. J anoitecia, e logo 
estaria escuro.
      - O primeiro desses abrigos de pedra  usado principalmente por 
aqueles que trabalham o slex - explicou Jondalar. - Quando se trabalha o 
slex, ele deixa muitos pedaos afiados.  melhor deix-los num lugar s. - 
Ento, olhou em Volta e viu por toda a parte restos descartados de lascas e 
fragmentos de pedras, que sobram do processo de feitura de facas, pontas 
de lana, raspadores, ferramentas tipo cinzel chamadas buris e outros 
utenslios e armas retirados da dura pedra siliciosa. - Bem - sorriu -, essa 
era a idia original.
      Contou para ela que a maioria dos instrumentos de pedra feitos ali 
eram levados Para o segundo abrigo de pedra, a fim de serem fixados a 
empunhaduras feitas de outros materiais, como madeira ou osso, e muitos 
deles seriam usados posteriormente Para fazer outras coisas dos mesmos 
materiais duros, porm no havia uma regra rgida sobre o que era feito 
onde. As pessoas costumavam trabalhar em conjunto. Por exemplo, o 
operrio que moldava slex em lamina de faca geralmente trabalhava em 
conjunto com o que fazia a empunhadura para ela, talvez lascando um pouco 
mais a espiga da faca, ou sugerindo que o cabo fosse modificado ou afinado, 
para um melhor equilbrio. Ou algum que moldava a ponta de osso de uma 
lana podia pedir ao lascador de slex que afiasse uma ferramenta ou 
sugerir um modo de retrabalh-la para torn-la mais fcil de ser usada. Ou 
o entalhador que cabo ou a haste podia querer uma ponta especial de cinzel, 
e somente um lascador habilidoso e experiente era capaz de desprender 
uma estilha-buril da ponta de um utenslio de slex no ngulo exato para se 
obter o resultado desejado.
      Jondalar cumprimentou alguns artfices, que ainda se encontravam no 
abrigo de pedra na extremidade norte do terrao, trabalhando em algum 
projeto, e apresentou Ayla.
      Eles olharam o lobo com cautela, mas voltaram a trabalhar depois que 
o animal e o casal passaram
      - Est escurecendo - disse Ayla. - Onde esse pessoal vai dormir? Pode 
ser que eles no voltem para a Nona Caverna, mas talvez acendam uma 
fogueira, fiquem aqui at mais tarde, e depois passem a noite num daqueles  
alojamentos sob os primeiros abrigos pelos quais passamos - sups - Esto 
tentando terminar o trabalho antes de amanh Como deve se lembrar, havia 
muito mais artifices aqui, mais cedo Os demais ja devem ter ido para casa, 
ou pernoitaro com amigos da Nona Caverna.
      - Todos vm aqui para trabalhar em projetos? - indagou Ayla.
- Cada Caverna tem um local de trabalho como este perto da rea de 
habitao, geralmente menor, mas sempre que artesos tm uma duvida ou 
uma idia para desenvolver, eles vm para c - disse Jondalar
      Continuou explicando que era ali tambm aonde era levado um jovem 
inte ressado que quisesse aprender algo sobre um ofcio em particular. 
Tratava-se de um timo lugar para se discutir coisas, como a qualidade do 
slex de vrias regies e a melhor utilizao para cada variedade. Ou para 
trocar pontos de vista a respeito de tcnicas sobre qualquer coisa: como 
derrubar uma rvore com um machado de slex, retirar adequadamente 
pedaos de marfim de uma presa de mamute, cortar uma ramificao de 
uma galhada de veado, abrir um furo numa concha ou num dente, moldar e 
perfurar contas, lapidar toscamente a forma aproximada de uma ponta de 
lana de osso. Era o lugar para se discutir a obteno de material bruto e 
planejar viagens ou misses de comrcio para consegui-lo. E, no menos 
importante, tratava-se de um timo lugar apenas para conversar sobre quem 
estava interessado em quem, quem estava tendo problemas com uma 
parceira ou a me dela, ou cuja filha, filho ou criana da lareira tinha dado o 
primeiro passo, pronunciado uma nova palavra, feito uma ferramenta, 
encontrado um terreno com bagas, rastreado um animal, ou abatido a 
primeira caa. Ayla entendeu rapidamente que se tratava de um lugar 
igualmente para o trabalho s rio e amistoso companheirismo.
      -  melhor irmos embora, antes que fique escuro demais para 
acharmos o nosso caminho - sugeriu Jondalar -, j que no temos tocha. 
Alm do mais, se formos caar amanh, haver algumas coisas que tambm 
precisaremos fazer, e teremos que sair cedo.
      O sol j tinha se posto, embora os ltimos lampejos tremeluzentes 
colorissem o cu acima, quando eles, finalmente, -desceram em direo 
ponte sobre o regato alimentado pela nascente. Fizeram a travessia para o
final do abrigo de pedra que era a morada de Jondalar e seu povo, a Nona 
Caverna dos Zelandonii. Quando a trilha ficou plana, Ayla reparou que a luz 
de vrias fogueiras adiante refletiam no lado de baixo da aba de calcrio. 
Foi uma viso bem-vinda. Por toda a proteo dos Espritos de animais, que a 
ajudaram a ser o que era, agradeceu por somente as pessoas saberem fazer 
fogo.
      Ainda estava escuro quando ouviram uma leve batida no batente da 
porta.
      - Os membros da zelandonia esto preparando a cerimnia de caa - 
avisou uma voz.
      - Estamos indo - respondeu baixinho Jondalar.
      Eles j estavam acordados, mas no vestidos. Ayla andara 
combatendo um pouco de nusea e tentando decidir o que vestir, no que 
tivesse muito o que escolher. Estava mesmo precisando de roupas. Talvez 
conseguisse uma pele ou duas dos animais que matasse naquele dia. Olhou 
novamente a tnica sem mangas e a perneira que ia at a panturrilha, a 
roupa de baixo que Marona lhe dera, e tomou uma deciso. Por que no? 
Tratava-se de uma roupa confortvel, e provavelmente o tempo ficaria 
quente mais tarde.
      Jondalar observou-a vestir a roupa que Marona lhe havia dado, mas 
nada disse. Afinal de contas, tinha sido um presente. Ayla poderia us-la 
para qualquer coisa que desejasse. Ergueu a vista quando viu a me saindo do 
seu lugar de dormir.
      - Espero no ter acordado voc, mame - disse Jondalar.
      - Voc no me acordou. Eu ainda sinto um pouquinho de ansiedade 
antes de uma caada, apesar de no sair h anos para caar - observou 
Marthona. - Creio que  por isso que gosto de me envolver no planejamento 
e nos rituais. Eu vou  cerimnia.
      - Ns dois vamos - anunciou Willamar, saindo de trs do tabique que 
dividia o seu aposento de dormir do resto da habitao.
      nhados surgindo pela beira de sua divisria. Bocejou e esfregou os 
olhos. -S preciso de um tempinho para me vestir. - De repente, seus olhos 
arregalaram-se. - Ayla! Voc vai vestir isso?
      Ayla olhou para baixo, para si mesma, e depois se aprumou.
      - Isto me foi dado de "presente" - lembrou, com um qu de 
beligerncia defensiva - e pretendo us-lo. Alm do mais - acrescentou com 
um sorriso - eu no tenho muitas roupas, e, com esta,  fcil me movimentar. 
Se eu amarrar uma capa ou uma pele em volta de mim, a roupa ficar quente 
durante a friagem da manh, mas depois, quando esquentar, ela se tornar 
fresca e cmoda.  de fato uma vestimenta muito prtica.
      Seguiu-se um momento de silncio constrangido, e ento Willamar deu 
uma risadinha.
      - Sabem, ela tem razo. Eu nunca pensaria em vestir uma roupa de 
baixo de inverno como vestimenta de caa, mas, por que no?
      Marthona examinou Ayla atentamente, depois lanou-lhe um sorriso 
sagaz.
      - Se Ayla vestir essa roupa - disse ela -, as pessoas vo falar. As 
mulheres mais velhas desaprovaro, mas, diante das circunstncias, algumas 
pessoas acha ro justificado, e, ano que vem, por esta poca, a metade das 
jovens vai estar usando a mesma coisa.
      Jondalar se descontraiu visivelmente.
      - Voc acha mesmo, mame?
      Ele no soubera o que dizer, quando a viu colocar a roupa. Marona 
dera a vestimenta a Ayla com o nico propsito de causar-lhe um 
constrangimento, mas ocorreu a Jondalar que, se a me dele estava certa - 
e Marthona raramente se enganava sobre essas coisas - seria Marona que 
no apenas ficaria constrangida, como tambm no conseguiria esquecer 
aquilo. Toda a vez que ela visse algum usar aquele tipo de roupa, lembraria 
de seu truque maldoso que no agradara a ningum.
      Folara parecia perplexa, olhando da me para Ayla, e de volta para 
Marthona.
      -  melhor se apressar, Folara, se quiser ir tambm - repreendeu a 
mulher mais velha. - J vai clarear.
      Enquanto esperavam, Willamar acendeu uma tocha na fogueira da rea 
de cozinhar. Era uma das vrias que haviam acendido aps terem entrado na 
habitao s escuras, na noite em que Ayla lhes ensinara como fazer fogo 
com pedernei ra e pinta-de-ferro. Quando Folara saiu, ainda tentando 
amarrar o cabelo para trs com uma tira de couro, eles afastaram a cortina 
para o lado e saram em silncio. Ayla baixou-se para tocar na cabea de 
Lobo, um sinal dado no escuro para que ele ficasse por perto enquanto 
caminhavam en direo a vrias chamas balouantes na varanda de pedra.
      Um razovel nmero de pessoas j estava reunido na frente da 
salincia, quando os residentes da habitao de Marthona, inclusive o lobo, 
apareceram. Algumas portavam lamparinas de pedra a leo, que lanavam no 
escuro luz suficiente para encontrarem o caminho, mas que queimavam por 
algum tempo; outras segura vam tochas, que forneciam mais luz, porm 
queimavam depressa.
      Eles esperaram um pouco mais, at outras pessoas chegarem, e ento 
o grupo todo seguiu para a extremidade sul da laje. Quando partiram era 
difcil distinguir-se indivduos, ou mesmo enxergar aonde iam. As tochas 
carregadas por alguns iluminavam o espao  sua volta, mas faziam tudo o 
mais, alm da luz, parecer mais escuro ainda.
      Ayla manteve a mo sobre o brao deJondalar enquanto cminhavam 
pela borda da salincia, passando pela parte desabitada da laje suspensa do 
rochedo da Nona Caverna e para a vala que separava a Nona Caverna de Rio 
Abaixo. O pequeno regato que corria pelo fosso - o transbordamentc de uma 
fresca nascente que bro tava do paredo dos fundos - era uma fonte de 
gua acessvel para os artesos quando trabalhavam, e tambm um local a 
mais para a Nona Caverna durante um mau tempo. Os portadores dos 
archotes se posicionaram em ambas as extremidades da ponte que levava 
aos abrigos de pedra de Rio Abaixo. Sob a luz bruxuleante, cada um 
caminhava cautelosamente sobre os troncos que haviam sido amarrados uns 
aos outros e colocados sobre o pequeno fosso. Ayla percebeu que o cu 
comeava a mudar do preto total para o azul-escuro intenso da pr-alvorada, 
o primeiro sinal de que o sol estava prestes a raiar. Mas as estrelas ainda 
recheavam o cu noturno.
      No havia fogueiras queimando nos dois grandes abrigos de Rio
Abaixo. O ltimo dos artesos h muito tinha se retirado para os
alojamentos de dormir. O grupo de caa passou pelos alojamentos e 
continuou descendo o caminho n greme para o Campo de Reunio entre 
Pedra Alta e O Rio. De uma certa distncia, podiam ver a enorme fogueira 
no meio do campo e pessoas em volta. Ao chegarem perto, Ayla notou que, 
assim como as tochas, o fogo iluminava o espao  sua volta, mas tornava 
difcil ver-se alm. Era maravilhoso ter-se um fogo  noite, mas havia 
limitaes.
      Foram recebidos por vrios membros da zelandonia, inclusive Aquela 
Que Era A Primeira Entre Aqueles Que Serviam  Me, a Zelandoni da 
Nona Caverna. A imensa mulher cumprimentou-os e avisou que deveriam 
ficar de p para a Cerimnia. Ao se afastar, sua larga silhueta quase 
bloqueou a luz da fogueira, mas apenas por um instante.
      Mais gente vinha chegando.  luz da fogueira, Ayla reconheceu 
Brameval e deduziu que se tratava de um grupo da Dcima Quarta Caverna. 
Deu uma olhadela para cima e viu que, indiscutivelmente, o cu se tornara 
azul-escuro. Em seguida, apareceu outro grupo de pessoas carregando 
tochas, Kareja e Manvelar entre elas.
      A Dcima Primeira e a Terceira Cavernas haviam chegado. Manvelar 
fez um ges to para Joharran, e logo se aproximou dele.
      - Eu queria lhe dizer que hoje vou atrs dos cervos gigantes, em vez 
dos bises - informou Manvelar. - Quando os olheiros retornaram ontem  
noite, depois ue vocs se foram, disseram que os bises se afastaram muito 
do cercado da armadilha. Agora no ser fcil enxot-los para l.
      Por um instante, Joharran pareceu decepcionado, mas uma caada 
sempre exigia flexibilidade. Animais vagavam para onde queriam, de acordo 
com as suas necessidades, e no segundo a convenincia de um caador. Um 
caador bem- sucedido sabia se adaptar.
      - Est bem, vamos informar  Zelandoni - disse ele.
      A um sinal, todos foram para uma rea entre a fogueira e a parte de 
trs do campo, defronte ao paredo. A proximidade do fogo e da multido 
elevou a temperatura, e Ayla saboreou a calidez. O exerccio de caminhar 
at o Campo de Reunio, a uma boa velocidade a despeito da escurido, 
servira para mant-la aquecida o suficiente, mas, parada ali,  espera, fez 
com que comeasse a sentir a friagem. O lobo pressionou o corpo contra a 
perna dela; ele no estava feliz por haver por perto tanta gente 
desconhecida. Ayla ajoelhou-se para tranqiliz-lo.
      Atrs deles, o reflexo da enorme fogueira danava sobre a spera 
superfcie da rocha. De repente, houve um som agudo lamentoso e um 
martelar de tambor. Em seguida, ela ouviu outro som e sentiu o cabelo da 
nuca se eriar e um arrepio percorrer sua espinha. Ela s tinha ouvido uma 
vez antes esse som... na Congre gao do Cl!
      Jamais esqueceria o som de um zunidor. Era o som que chamava os 
espritos. Ela sabia como o som era produzido. Vinha de um pedao ovalado e 
plano de madeira ou osso, com um buraco numa ponta, no qual era amarrado 
um cordo. Girando-se esse objeto pelo cordo, produzia-se um lamentoso e 
sinistro vagido. O fato de se saber como ele era feito de modo algum 
amenizava o efeito que produzia; um som como esse s podia mesmo vir do 
Mundo dos Espritos. No foi isso, po rm, que lhe deu calafrios, O difcil de 
acreditar era que os Zelandonii tinham uma cerimnia na qual chamavam os 
espritos do mesmo modo que o Cl.
      Ayla chegou bem para perto de Jondalar, querendo a segurana de 
sua pre sena. Nesse momento, sua ateno foi atrada por um movimento no 
reflexo do fogo no paredo, que era mais do que a luz da fogueira. Uma 
sombra, na forma de um cervo gigante com grandes chifres ramificados e 
uma corcova na cernelha tremeluzia na rocha. Ela se voltou e olhou para trs, 
mas nada viu, e ficou pensando se tinha imaginado aquilo. Virou-se para olhar 
o paredo, e o cervo com sua galhada espalmada tornou a tremeluzir nele, e 
depois um biso.
      O som do zunidor acabou, mas outro comeou, a princpio to baixo, 
que mal se percebia. A seguir, a grave e lamentosa cantoria aumentou de 
intensidade e iniciou-se um forte estrondo ritmado. O lamento entremeava-
se em contraponto ao volumoso rudo que reverberava no paredo, ao mesmo 
tempo em que ambos cresciam cada vez mais.
      As tmporas de Ayla latejavam sob o constante tum, tum, tum, e as 
batidas de seu corao ecoavam nos ouvidos num ritmo igual e do mesmo 
modo ruidoso. Parecia que os seus membros tinham virado gelo, e as pernas 
se recusavam a se mexer; estava petrificada. Comeou a suar frio. Ento, 
abruptamente, as pancadas cessaram e o lamento comeou a formar 
palavras.
      -  Esprito do Cervo Gigante. Ns o louvamos.
      - Ns o louvamos... - vozes em volta repetiram a frase, mas no 
exatamente todas ao mesmo tempo.
      O canto ao fundo ficou mais forte.
      - Esprito do Biso, ns o queremos perto. Ns o louvamos.
      - Ns o louvamos. - Dessa vez, os caadores falaram em unssono.
      - Os Filhos da Meo querem aqui. Ns o invocamos.
      - Ns o invocamos.
      - Alma Imortal, nenhuma morte voc teme. Ns a louvamos.
      - Ns a louvamos. - As vozes agora eram mais ruidosas.
      - Suas vidas mortais se aproximam, e ns as invocamos.
      O tom era cada vez mais alto, expectante.
      - Ns as invocamos. - As vozes eram ainda mais fortes.
      - Dem-nas a ns e no derramem lgrimas. Ns a louvamos.
      - Ns a louvamos.
      A Me assim deseja, est ouvindo? Ns as invocamos. Agora j era 
uma exigncia.
      - Ns as invocamos. Ns as invocamos. Ns as invocamos!
      Eles estavam gritando. A voz de Ayla juntou-se s demais, embora ela 
no percebesse. Ento, notou uma grande figura tomar forma no spero 
paredo. Uma figura negra quase invisvel movimentava-se diante do paredo, 
de algum modo fazendo com que a representao do cervo gigante tomasse 
forma. Um macho adulto, com enorme galhada, que, sob a luz da alvorada, 
parecia respirar.
      Os caadores continuaram repetindo, num tom grave, a montona 
ladainha ao ritmo do retumbante tambor:
      - Ns as invocamos. Ns as invocamos. Ns as invocamos. Ns as
invocamos!
      - Entregue-as a ns! No derrame lgrimas!
      - A Me assim deseja. Oua! Oua! Oua! - As vozes eram quase 
gritadas. De repente, uma luz pareceu se acender, e ouviu-se um forte grito 
lamentoso que terminou num estertor.
      - Ela ouve! - exclamou abruptamente a voz montona. Todos os sons 
ces saram subitamente. Ayla olhou para cima, mas o cervo havia sumido. 
Restava somente o primeiro raio de luz da alvorada.
      A princpio, no houve som ou movimento. Ento Ayla inteirou-se de 
rudos de respirao e movimentos de ps se arrastando. Os caadores 
pareciam fascina dos, e olhavam em volta, como se tivessem acabado de 
despertar. Ayla soltou um demorado suspiro, depois ajoelhou-se novamente 
e abraou o lobo. Quando ela ergueu a vista, Proleva estava logo ali, 
entregando-lhe um caneco com ch quente.
      Ayla murmurou um obrigado, e, agradecida, tomou o ch. Estava com 
sede, e, deu-se conta, no sentia mais a nusea do enjo matinal, embora no 
estivesse certa de quando ela havia cessado. Talvez durante a caminhada 
para o Campo de Reunio. Ela e Jondalar, com Lobo por perto, caminharam 
com Joharran e a par ceira dele de volta para a fogueira, onde fora 
preparado o ch quente. A eles se juntaram Marthona, Willamar e Folara.
      - Kareja falou que tem um disfarce para voc, Ayla - avisou Joharran. 
- Podemos apanh-lo quando passarmos pela Dcima Primeira Caverna.
      Ayla concordou com a cabea, sem ter muita certeza de como um 
disfarce seria usado para se caar um cervo gigante.
      Depois olhou em volta para ver quem mais se encontrava no grupo de 
caa. Reconheceu Rushemar e Solaban, e no se surpreendeu. Ela esperava 
ver os conselheiros do lder, os tais a quem Joharran sempre recorria 
quando queria ajuda. Ficou assustada, ao ver Brukeval, e perguntou-se por 
qu. Afinal, ele era um mem bro da Nona Caverna. Por que no deveria caar 
com eles? Ainda mais surpresa ficou ao ver Portula, a amiga de Marona. Mas, 
quando a mulher a viu, encarou a por um instante, e depois virou de costas.
      - Creio que Portula no esperava ver voc usando estas roupas, Ayla - 
comentou baixinho Marthona.
      O sol j se elevava para a grande abbada azul, e os caadores 
partiram rapida mente, deixando para trs aqueles que no participariam da 
caada. Ao rumarem em direo ao Rio, o sol quente dissipou o clima sombrio 
que envolveu a cerim nia, e a conversa, que mais cedo vinha sendo mantida 
em cochichos quase silenciosos, atingiu um tom mais normal. Falavam com 
seriedade, mas confiantes, sobre a caada. A misso deles talvez no 
estivesse assegurada entretanto o costumeiro ritual havia sido endereado 
ao esprito do cervo gigante - e, por via das dvidas, ao biso - e fizera com 
que todos concentrassem a ateno na caada; e a fantasmagrica apario, 
no fundo do paredo do Campo de Reunio, tinha reforado os seus laos 
espirituais com o mundo que existia alm do mundo material.
      Ayla sentiu a umidade do ar proveniente da nvoa matinal que se 
elevava da gua. Olhou para o lado e ficou com a respirao presa diante da 
pura e inespera da beleza de um momentneo fenmeno natural. Galhos e 
folhagens e folhas de relva, realados por um raio de luz, cintilaram com a 
luminosidade de cada cor do arco-ris, produzida pela refrao da luz solar 
nos prismas das gotculas. At a simtrica perfeio de uma teia de aranha, 
cujos filamentos pegajosos so projetados para agarrar a presa dessa 
predadora, em vez disso, haviam capturado, em seus fios longos e delgados, 
gotas da umidade condensada que mais pareciam jias.
      - Jondalar, olhe - disse ela, chamando sua ateno para a cena. Folara 
tam bm parou, e depois Willamar.
      - Vou considerar isso como um sinal favorvel - observou o Mestre 
Comerciante, dando um sorriso largo antes de ir em frente.
      Quando O Rio se alargava, a gua espumava e se revolvia no leito 
recoberto de seixos, mas se separava em volta de pedras maiores, incapaz 
de atra-las para se juntarem  divertida dana da gua escumosa e das 
marolas reluzentes. Os caa dores comearam a atravessar O Rio na parte 
larga mais rasa, pisando de uma pedra para a outra do meio mais fundo. 
Algumas das pedras maiores foram leva das at ali por um caudal mais 
turbulento de uma estao diferente, durante os anos anteriores, e outras, 
mais recentemente, para preencher os espaos deixados pela natureza. 
Enquanto seguia os demais, os pensamentos de Ayla estavam voltados para a 
caada prestes a acontecer. Ento, no instante em que ia fazer a tra vessia, 
ela parou de repente.
      - O que h de errado, Ayla? - indagou Jondalar, com um franzir de 
testa preocupado.
      - No h nada errado - retrucou. - Vou voltar para pegar os cavalos. 
Conseguirei alcanar os caadores antes de chegarem  Pedra dos Dois Rios. 
Mesmo que eu no use os cavalos para caar, eles podero ajudar a carregar 
os animais mortos.
      Jondalar concordou.
      -  uma boa idia. Eu vou com voc - falou, e depois se dirigiu a 
Willamar.
      - Voc pode informar a Joharran que voltamos para pegar os cavalos? 
No vai demorar.
      - Venha, Lobo - chamou Ayla, ao se dirigirem de volta  Nona Caverna. 
Mas o caminho que Jondalar seguiu no foi o mesmo pelo qual tinhamvindo. 
Aps chegar ao Campo de Reunio, em vez de subir a trilha ngreme para Rio
Abaixo e da para a Nona Caverna passando pelas salincias, ele pegou uma 
trilha pouco usada e com mato relativamente alto ao longo da margem 
direita do Rio, defronte aos abrigos de pedra. Dependendo das curvas e 
voltas que dava o curso d'gua atravs de sua plancie aluvial, o caminho 
passava por vezes alm de um campo relvado que ficava entre a salincia do 
rochedo, e por vezes prximo  varanda frontal de pedra.
      Ao longo do caminho, havia vrias trilhas levando acima para os 
abrigos, e Ayla lembrou-se de ter usado uma, quando fora se aliviar depois 
da demorada reunio sobre o Cl. A lembrana a estimulou a usar novamente 
o lugar; como estava grvida, precisava urinar com mais freqncia. Lobo 
farejou o lquido dela; ultimamente, ele parecia mais interessado naquilo, e 
Ayla ficou imaginando se o lobo era capaz de saber que ela estava esperando 
um beb.
      Poucas pessoas notaram que eles estavam voltando, e acenaram ou 
gesticula ram. Jondalar tinha certeza de que elas estavam curiosas, 
querendo saber por que tinham voltado, mas ele no respondeu. Logo 
saberiam o motivo. Ao chegar ao final da fila de rochedos, fizeram a volta 
para o Vale do Bosque, e Ayla assobiou. Lobo correu  frente.
      - Voc acha que ele sabe que estamos indo pegar Huiin e Racer? - per 
guntou Ayla.
      - No duvido nada - respondeu Jondalar. - Sempre me espanta o que 
ele parece saber.
      - A vm eles! - anunciou Ayla, a voz repleta de felicidade. Ela se deu 
con ta de que no via os cavalos h mais de um dia, e estava com saudade 
deles. Ao ver Ayla, Huiin relinchou e seguiu direto para ela com a cabea 
erguida, mas a baixou sobre o ombro da mulher, ao mesmo tempo em que 
esta abraava o seu pescoo. Racer soltou um relincho sonoro e foi 
saltitante em direo a Jondalar, a cauda levantada e o pescoo arqueado, e 
depois exibiu para o homem os locais favoritos onde gostava de ser coado.
      - Senti falta deles, mas acho que tambm sentiram a nossa - 
comentou Ayla. Aps algumas coadas e pancadinhas de saudao, e toque 
de focinhos por parte de Lobo, ela sugeriu que subissem para pegar mantas 
de montar e apanhar os arreios de Huiin para prender o arrastador de carga.
      - Eu apanho - ofereceu-se Jondalar. -  melhor nos apressarmos se 
ain da quisermos caar hoje, e tambm todo mundo vai fazer perguntas. 
Acho melhor eu dizer que estamos com pressa. Se voc falar isso, algum 
pode entender errado, j que as pessoas ainda no a conhecem realmente.
      - E eu no as conheo realmente - rebateu Ayla. -  uma boa idia. 
Vou dar uma olhada nos cavalos, para ver se esto bem mesmo. Traga 
tambm os cestos de viagem e uma tigela de gua para Lobo. E, talvez, os 
rolos de dormir. Sabe-se l onde vamos passar a noite. Talvez seja melhor 
trazer tambm o cabresto de Huiin.
      Alcanaram o grupo de caa no momento em que este chegava  Pedra 
dos Dois Rios. Haviam cavalgado ao longo do Rio e chapinhado pela margem 
es querda aps fazerem a travessia.
      - Eu j estava me perguntando se vocs conseguiriam voltar antes de 
come armos - comentou Kareja. - Dei uma parada, Ayla, para pegar um 
disfarce para voc. - Ayla agradeceu.
      Na confluncia de Dois Rios, o grupo de caa virou para o Vale da 
Relva. Kimeran e um pessoal da Segunda e da Stima Cavernas, que se 
juntariam a eles e no haviam participado da cerimnia no Campo do 
Encontro, estavam  espera rio acima. Quando todos os caadores os 
alcanaram, fizeram uma pau sa para uma reunio de estratgia.
      Ayla e Jondalar desmontaram e se aproximaram para ouvir.
      - Thefona avisou que, dois dias atrs, os bises estavam seguindo 
para o norte - dizia Manvelar. - Aparentemente, estariam hoje em uma boa 
posio, mas mudaram de direo e seguiram para leste, longe do cercado. 
Thefona  um dos nossos melhores membros. Ela consegue enxergar mais 
distante do que qual quer um, e h algum tempo j anda observando essa 
manada. Acredito que, em breve, ela estar numa boa posio para ser 
afugentada em direo  armadilha, mas, provavelmente, hoje no.  por 
isso que achamos que os megceros seriam uma melhor opo. Eles beberam 
gua um pouco mais acima do rio, e agora es to mordiscando as folhas 
verdes perto do capim alto.
      - Quantos so? - quis saber Jondalar.
      - Trs fmeas adultas, um macho de um ano de idade, trs crias e um 
ma cho com uma galhada de bom tamanho - respondeu Thefona. - Um tpico 
rebanho pequeno.
- Eu estava esperando conseguir vrios animais, mas no quero pegar to do 
eles.  por isso que queria os bises. Eles andam em grandes manadas - disse 
Joharran.
      - Exceto pelo gamo gigante e a rena, a maioria dos cervos no anda em 
manadas. Eles gostam de rvores e lugares mais cheios de mata, onde  mais 
fcil se esconder. Voc raramente v mais do que alguns poucos machos, ou 
uma ou duas femeas com suas crias, exceto durante o perodo em que 
machos e fmeas se juntam explicou Thefona.
      Tinha certeza de que Joharran sabia disso, mas Thefona era jovem, e 
orgulhosa do conhecimento que havia adquirido como olheira. Joharran havia
permitido que ela contasse novamente o que descobrira.
      - Creio que devemos deixar o macho adulto e pelo menos uma das 
fmeas, com o seu filho, desde que tenhamos certeza de que  dela - props 
Joharran.
      Ayla achou que era uma boa deciso. Ainda uma vez, descobriu-se 
impressio nada com Joharran e passou a observ-lo mais atentamente. O 
irmo de Jondalar era quase uma cabea menor do que ele, mas a sua 
compleio corpulenta e atar racada no deixava dvida de que se 
equiparava em fora  maioria dos homens. A liderana da maior e s vezes 
indisciplinada Caverna caa bem sobre os seus ombros; ele transmitia 
confiana. Brun, o lder do cl dela, teria reconhecido isso, refletiu Ayla. Ele 
tambm fora um bom lder, diferentemente de Broud.
      A maioria dos lderes Zelandonii que ela havia conhecido parecia 
combinar bem com a sua posio. Geralmente, as Cavernas escolhiam bem os 
seus lderes, mas, se Joharran fosse incapaz de cumprir suas funes, a 
Caverna simplesmente o teria trocado por um lder mais adequado. E sem 
formalidade, pois no havia regras para se depor um lder; ele simplesmente 
perdia os seus seguidores.
      Broud, porm, no fora escolhido, Ayla deu-se conta. Ele foi 
destinado a ser o prximo lder, desde o momento em que nasceu. Como 
Broud nasceu da parceira de um lder, acreditava-se que teria a memria 
para isso. E talvez a tivesse, mas numa proporo diferente. Em Broud, eram 
acentuadas certas qualidades que poderiam contribuir para a liderana, 
como a altivez e a habilidade para mandar e obter respeito. A altivez de 
Brun tivera origem nas conquistas de seu cl, o que tambm fez com que 
merecesse respeito, e ele comandava bem porque escutava os outros e 
depois decidia A altivez de Broud era exagerada a arrogncia; ele gostava 
de dizer s pessoas o que fazer, mas no dava ateno a um conselho 
amadurecido, e queria considerao pelas suas prprias faanhas. Embora 
Brun tivesse tentado ajud-lo, Broud nunca foi o lder que Brun tinha sido.
      Com a reunio aproximando-se do fim, Ayla falou baixinho com 
Jondalar.
      - Eu gostaria de cavalgar a frente, para ver se encontro os bises 
Voc acha que Joharran vai se importar, se eu perguntar a Thefona onde ela 
os viu pela ltima vez?
      - No, no creio, mas por que nao pergunta a ele? - sugeriu Jondalar.
Ambos se aproximaram do lder, e depois que Ayla lhe exps o seu plano, ele 
disse que ia mesmo perguntar a Thefona a mesma coisa.
      - Voc acha que pode localizar os bises? - indagou.
      - No sei, mas eles no parecem estar muito longe, e Huiin pode 
correr muito mais depressa do que qualquer pessoa - lembrou Ayla.
      - Mas pensei que voc tinha dito que queria caar os megceros com a 
gente - argumentou Joharran.
      - Posso ainda me encontrar com vocs a tempo no lugar onde esto os 
cervos - disse ela.
      - Bem, eu no me importaria de saber onde esto os bises - afirmou
Joharran - Vamos perguntar a Thefona onde eles estavam.
      - Acho que vou com Ayla - falou Jondalar - Ela ainda no esta 
familiarizada com a regio Talvez no entenda as direes de Thefona.
      - Pode ir, mas espero que voltem a tempo. Eu gostaria de ver esses 
arremessadores de lana em ao - declarou Joharran - Se fizerem a 
metade do que VocS dizem, isso far uma grande diferena.
      Depois de conversarem com Thefona, Ayla e Jondalar partiram a 
galope, com Lobo correndo atrs, enquanto os demais caadores 
continuaram seguindo correnteza acima o Rio da Relva. A regio campestre 
do territrio dos Zelandonii era uma terra admirvel esculpida em alto-
relevo, com rochedos escarpados, amplos vales fluviais, colinas ondulantes e 
planaltos elevados Os rios por vezes serpenteavam atravs de prados e 
campinas com renques de rvores ao longo de suas margens, e por outras 
escorriam ao lado de altas muralhas rochosas. O povo que ali vivia estava 
acostumado  sua paisagem variada e se movimentava tranqilamente por ela, 
mesmo se precisasse subir uma encosta ngreme ou escalar um rochedo 
quase vertical, saltar sobre pedras escorregadias ou nadar contra a 
corrente rio acima, andar em fila nica entre um paredo de pedra de um 
lado e um rio impetuoso de outro, ou se espalhar em uma plancie a cu 
aberto.
      Os caadores dividiam-se em pequenos grupos ao avanar pelo capim 
quase  altura da cintura, mas ainda verde, da campina a cu aberto do vale. 
Joharran continuava alerta  espera da volta do irmo e sua estranha 
comitiva - a mulher estrangeira, dois cavalos e um lobo -, torcendo para que 
voltassem a tempo a fim de se juntarem  caada, embora soubesse que isso 
no faria muita diferena.
      Com tantos caadores e to poucos animais, no havia dvida de que 
conseguiriam pegar os que quisessem.
      Corria a metade da manh quando, finalmente, o macho com a imensa 
galhada foi avistado, e os caadores pararam para discutir a formao 
daqueles que fariam a perseguio. Joharran ouviu o rudo de tropel e virou-
se. Inadvertidamente, mas com perfeita noo de tempo, Jondalar e Ayla 
haviam retornado.
      - Ns os encontramos! - informou Jondalar com um sussurro empolga
do, ao desmontarem. Ele teria gritado, se no tivesse percebido que o cervo 
gigante estava bem perto. - E mudaram novamente de direo. Os bises 
esto indo para onde est o cercado! Tenho certeza de que conseguiremos 
fazer com que sigam mais depressa naquela direo.
      - Mas, a que distncia se encontram? - quis saber Joharran. - 
Teremos que andar o resto de ns no tem cavalos para cavalgar.
      - No muito distante daqui. Podero chegar l sem muito esforo - 
afirmou Ayla. - Se preferir caar biso, Joharran, poder faz-lo.
      - Alis, irmo mais velho, voc poder caar ambos - garantiu 
Jondalar.
      - Ns estamos aqui agora, e um cervo  mo vale muito mais do que 
dois bises num cercado distante - alegou Joharran. - Mas, se isto aqui no 
demorar muito, talvez depois a gente v atrs dos bises. Querem 
participar desta caada?
      - Sim - afirmou Jondalar.
      - Quero - confirmou Ayla, quase ao mesmo tempo. - Jondalar, vamos 
amarrar os cavalos naquela rvore ali, perto do riacho. Talvez seja melhor 
eu tambm amarrar um freio em Lobo. Ele fica muito animado com uma 
caada, e tal vez queira "ajudar", mas isso poder se tornar um problema 
para os outros caadores, ou ento ficar no caminho, se no souber o que 
fazer.
      Enquanto as decises sobre a ttica eram tomadas, Ayla observou a 
pequena manada, em especial o cervo macho. Ela recordou a primeira vez em 
que viu um megcero macho adulto totalmente desenvolvido. Aquele cervo 
gigante era bem parecido. Um pouco mais alto do que a cernelha de um 
cavalo, mas certamente no to grande quanto um mamute, ele era chamado 
de cervo gigante porque era a mais imponente de todas as variedades de 
cervdeos. Contudo, no era propriamente o tamanho do animal que o tornava 
to impressionante, mas o tamanho de suas galhadas. Cada um dos enormes 
chifres decduos espalmados que emergiam de sua cabea ficavam maiores a 
cada ano e, em um macho adulto, podiam atingir mais de trs metros e meio 
de extenso.
        Ayla calculou o tamanho de um dos chifres igual ao de dois homens da 
altura de Jondalar, um de p sobre os ombros do outro. A extenso das 
galhadas lhe impossibilitava um habitat de densas matas, freqentemente 
preferido por muitos de seus primos; os megceros eram cervdeos de 
campinas a cu aberto. Ainda que comesse capim, principalmente as pontas 
verdes das variedades de capim alto, e pastasse mais do que outros 
cervdeos, ele tambm mordiscava arbustos e rvores jovens e, quando 
podia, plantas folhosas prximas a regatos.
        Depois que o cervo gigante atingia o pleno crescimento, embora os 
seus ossos no aumentassem mais, as enormes galhadas desenvolvidas davam 
a iluso de que o macho megcero aumentava de altura e largura a cada 
estao. Sustentar to imensa armao exigia que o cervo desenvolvesse 
volumosos msculos nas costas e no pescoo, os quais cresciam ligeiramente, 
com o passar do tempo, para acomodar o peso maior das galhadas 
aumentadas, e para desenvolver a corcova caracterstica na cernelha, onde 
msculos, tendes e tecidos de ligao se agrupavam. Tratava-se de uma 
expresso gentica da espcie. At mesmo as fmeas tinham cabea do 
megcero parecer menor, e os machos que ostentavam imensas galhadas 
tinham cabeas que pareciam desproporcionalmente minsculas. Os 
disfarces foram apanhados, enquanto os lderes discutiam as tticas, e 
Joavan e vrios outros passaram adiante bolsas de pele contendo gordura. 
Ayla torceu o nariz com averso ao cheiro.
        - Essa coisa  feita com as glndulas de almscar das pernas do veado, 
e misturadas com a gordura existente logo acima da cauda - explicou-lhe 
Jondalar.
        - Ela disfara o nosso cheiro, no caso de o vento virar de repente.
        Ayla assentiu e passou a lambuzar a mistura gordurosa nos braos, 
axilas, pernas e virilha. Jondalar colocou o seu disfarce, mas Ayla ficou 
pelejando com o dela.
        - Deixe eu lhe mostrar - intercedeu Kareja. Ela j estava com o seu 
disfarce.
        Ayla sorriu agradecida, enquanto a mulher lhe mostrava como vestir a 
pele tipo um manto afixado a uma cabea de veado. Ela apanhou as galhadas 
que estavam presas a um capacete  parte, embora no entendesse para que 
serviam as peas adicionais feitas de madeira.
        - Isto  pesado - exclamou Ayla, surpresa com a sobrecarga, ao 
colocar o capacete com a galhada.
        - E estas galhadas so pequenas, de um macho jovem. No vai querer 
que aquele macho enorme pense que voc  um competidor - observou 
Kareja.
        - Como  que isto fica equilibrado, quando a gente anda? - quis saber 
Ayla, tentando mudar as galhadas para uma posio melhor.
        -  para isso que servem estas coisas - mostrou Kareja, usando os 
supor tes de madeira para apoiar o desajeitado adereo de cabea.
        - No admira os megceros terem um pescoo to grande - comentou 
Ayla. -. Precisam de msculos s para sustentar estas coisas.
        Os caadores se aproximaram com o vento soprando em seus rostos, 
o que afastava o cheiro humano dos sensveis focinhos dos cervos. Eles 
pararam, quan do conseguiram enxergar os animais. O cervo gigante 
mordiscava as folhas jovens e tenras de um arbusto rasteiro.
        - Observem - disse Jondalar baixinho. - Vem como eles comem 
durante Um instante e depois olham para cima? A seguir, do alguns passos 
para a frente e comeam novamente a comer. Ns vamos imitar os 
movimentos deles. Dem uns passos  frente, depois mergulhem a cabea, 
como se vocs fossem um veado que acabou de ver folhas novas e suculentas, 
e parou para dar uma mordiscada Depois, olhem para cima. Fiquem 
totalmente imveis, quando levantarem a cabea. No olhem diretamente 
para ele, mas fiquem de olho no macho grande e no se mexam de jeito 
nenhum se ele estiver olhando para vocs. Quando nos aproximamos deles, 
queremos que pensem que somos apenas um outro rebanho de veados. 
Mantenham o mximo possvel as suas lanas longe de vista. De vem segur-
las levantadas, por trs de suas galhadas, enquanto se moverem, e no se 
movam depressa demais - orientou.
        Ayla escutou atentamente as instrues. Aquilo era interessante. Ela 
havia levado anos observando criaturas selvagens, principalmente carnvoros, 
mas tambm animais que ela caava. Vigiara-os bem de perto e, finalmente, 
aprendera a ca-los, mas nunca fingira antes ser um animal. Primeiro, ela 
observou os caadores, e depois, cuidadosamente, o cervo. O fato de Ayla 
ter sido criada aprendendo a entender os gestos e os movimentos do Cl 
dava-lhe uma vantagem. Ela tinha o olho aguado para detalhes, para os 
menores movimentos feitos pelos animais. Notou como eles sacudiam a 
cabea para se livrar dos insetos zumbidores e rapidamente aprendeu a 
imitar o movimento. Inconscientemente, calculou a durao dos movimentos, 
avaliando quanto tempo mantinham a cabea abaixada e durante quanto 
tempo olhavam em volta. Ficou encantada e ao mesmo tempo intrigada com 
essa nova maneira de caar. Quase se sentia como um cervo, ao avanar com 
os caadores em direo  presa.
        Ayla escolheu o animal em que pretendia mirar e foi lentamente 
seguindo na direo dele. A princpio, achou que devia tentar uma fmea 
gorda, mas resolveu que precisava de galhadas, e mudou de idia e, em vez 
disso, escolheu o jovem macho. Jondalar lhe dissera que a carne era para 
ser dividida entre as pessoas, mas a pele, galhadas, tendes e tudo o mais 
que pudesse ser til pertencia ao caador que matasse o animal.
        Quando os caadores se encontravam quase no meio dos cervos, ela 
viu Joharran dar o sinal predeterminado. Os caadores firmaram a lana na 
mo, preparados; Ayla e Jondalar ajustaram as suas no arremessador. Ela 
sabia que poderia ter disparado a sua lana muito antes, mas a maioria dos 
caadores no tinha arremessadores, e o disparo dela teria afugentado o 
resto dos cervos antes que os demais pudessem estar perto o bastante para 
jogarem as deles.
        Ao ver que todos estavam prontos, Joharran fez um outro rpido 
sinal. Quase que ao mesmo tempo, os caadores arremessaram as suas 
lanas. Vrios dos enormes cervos levantaram a cabea e saram numa fuga 
sobressaltada antes de perceberem que j tinham sido atingidos. O 
orgulhoso macho trombeteou um brado como um sinal para fugir, mas apenas 
uma fmea e sua cria o seguiram. Tudo foi to depressa, to inesperado, que 
o resto cambaleou, no esforo para dar um pas so, e caiu de joelhos ao 
mesmo tempo em que ele saltava para a fuga.
        Os caadores foram conferir o abate, a fim de, piedosamente, 
liquidar qualquer lana de cada um era marcada com enfeites que podiam 
claramente autenticar a quem pertencia. Os caadores, em todo o caso, 
conheciam as suas armas, mas os smbolos diferenciados no deixavam 
dvidas e evitavam disputas. Se as lanas de mais de um caador tivessem 
acertado o alvo, tentavam determinar qual delas havia provocado a morte. 
Se no ficasse bvio, a caa era reivindicada por ambos, e dividida.
        Foi rapidamente reconhecido que a lana menor e mais leve de Ayla 
acertara o jovem macho. Alguns caadores sabiam que o animal estava 
mordiscando um arbusto rasteiro um pouco distante do resto dos cervos e 
do lado oposto quele do qual eles se aproximaram. No era um alvo fcil, e, 
aparentemente, ningum mais havia tentado atingi-lo, ou, pelo menos, 
nenhuma outra lana o havia acertado. As pessoas discutiram no apenas em 
relao  arma de arremesso a longa distncia, mas tambm sobre a 
habilidade de Ayla em dispar-la, e ficaram se perguntando o quanto de 
prtica seria necessrio para algum se igualar a ela. Algumas estavam 
dispostas a tentar, mas outras, em vista da caada bem-sucedida, no 
tinham certeza se precisariam de tanto esforo.
        Manvelar aproximou-se de Joharran e vrios outros da Nona Caverna, 
incluin do Jondalar e Ayla.
        - O que descobriram a respeito dos bises? - indagou.
        O planejamento e os preparativos para a caada haviam criado uma 
vida expectativa, mas rastrear os cervos e mat-los fora to rpido e 
eficiente que isso deixara nos caadores um excesso de energia que 
precisava ser gasta.
        - A manada est indo novamente para o norte, em direo ao cercado 
- reafirmou Jondalar.
        - Voc acha mesmo que podem chegar bem perto dele, para que 
possamos lev-los para o cercado ainda hoje? - perguntou Joharran. - Ainda 
 cedo, e eu no me importaria de pegar alguns desse bises.
        - Podemos fazer com que cheguem - garantiu Jondalar.
        - Como? - quis saber Kareja. Jondalar notou que j no havia tanto 
sarcasmo no seu tom de voz, como no dia anterior.
        - Manvelar, voc sabe onde fica o cercado? E quanto tempo os 
caadores levariam para ir daqui at l? - perguntou Jondalar.
        - Sei, mas Thefona pode lhe dizer melhor do que eu - respondeu 
Manvelar. A moa no era apenas uma boa olheira, mas tambm tima 
caadora. Ela se aproximou quando Manvelar mencionou o seu nome e lhe fez 
um aceno. - A que distncia fica o cercado?
        Ela pensou por um momento, olhou acima, para a posio do sol no cu, 
e falou:
        - Se andarmos depressa, creio que poderemos chegar l no muito 
depois de o sol estar no seu ponto mais alto. Mas, quando os vi pela ltima 
vez, os bises no estavam to perto assim do cercado.
        - Quando ns os encontramos, estavam seguindo nessa direo, e acho 
que poderemos apress-los, com a ajuda dos cavalos e de Lobo - disse 
Jondalar. - Ayla j fez isso antes.
        - E se no conseguirem? E se chegarmos l e no houver bises? - 
interveio Kimeran. Ele no tinha andado por perto de Jondalar, depois de 
seu retorno, nem de Ayla, e, apesar de ter ouvido muitas histrias sobre o 
amigo e a mulher que este trouxera, Kimeran no fora exposto, como a 
maioria, s muitas surpresas que os dois haviam trazido. Somente naquela 
manh ele os tinha visto montarem nos cavalos, e ainda duvidava de muita 
coisa.
        - Ento, o nosso esforo no ter adiantado de nada, mas no ter 
sido a primeira vez - alegou Manvelar.
        Kimeran deu de ombros e sorriu amarelo.
        - Isso  verdade - disse ele.
        - Algum mais tem alguma objeo para no tentarmos os bises? 
Pode mos nos contentar apenas com os veados - sugeriu Joharran. - De 
qualquer modo, precisamos mesmo comear a estrip-los.
        - Isso no ser problema - afirmou Manvelar. -Thefona pode levar 
vocs para o cercado. Ela sabe o caminho. Eu vou voltar para Pedra dos Dois 
Rios, conseguirei algumas pessoas para comear a estripao e mandarei um 
mensageiro a outras Cavernas para virem ajudar. Precisaremos de muita 
ajuda, se tiverem sorte com a caada aos bises.
        - Eu estou pronto para tentar.
        - Eu vou.
        - Contem comigo.
        Vrias pessoas se ofereceram.
        - Muito bem - disse Joharran. - Vocs dois vo na frente, para ver o 
que podem fazer para forar os bises a seguirem em direo ao cercado. O 
resto de ns chegar l o mais depressa possvel.
        Ayla e Jondalar foram pegar os cavalos. Lobo ficou particularmente 
feliz ao v-los se aproximarem. Ele no gostava de ser reprimido 
fisicamente. Poucas vezes Ayla limitava os seus movimentos, e ele no 
estava acostumado a isso. Os cavalos pareciam se adaptar com mais 
facilidade, mas as atividades deles eram controladas mais freqentemente. 
Eles montaram nos cavalos e partiram a galope, o lobo correndo atrs, 
observados pelo pessoal a p, que logo desapareceu  distncia. Era verdade. 
Os cavalos conseguiam certamente viajar mais depressa do que as pessoas.
        Decidiram ir primeiro ao cercado, para poderem avaliar a que 
distncia os bises estavam dele. Ayla ficou fascinada com a armadilha 
circular e levou algum tempo examinando-a. Ela consistia em muitas rvores 
pequenas e troncos, recheados na maior parte com arbustos, mas tambm 
com qualquer coisa que pudesse ser encontrado, como ossos e chifres. O 
cercado fora construdo alguns anos antes, e se deslocara um tanto quanto 
de seu local original. Nenhuma das rvores com as quais fora feito era 
enterrada no cho. Mais exatamente, tinham sido amarradas juntas, fixadas 
firmemente uma nas outras, para que, quando um animal se chocasse contra 
elas, no rompessem. O cercado precisava ceder um pouco, ter alguma 
elasticidade, e, em vez de romper com o choque, ele se movia; s vezes, com 
um empurro extremamente forte, a estrutura inteira se deslocava.
        Foi necessrio um esforo imenso por parte das muitas pessoas, para 
cortar rvores e galhos e transport-los at um local adequado, 
principalmente atravs de uma enorme campina sem rvores, e depois erigir 
uma cerca capaz de resistir  presso de animais pesados dando voltas em 
seu interior e  agresso ocasional de algum deles enlouquecido pelo medo. 
Todos os anos, os pedaos que caam ou apodreciam eram consertados ou 
substitudos. Eles tentavam, durante o mximo de tempo possvel, mant-lo 
em bom estado. Era mais fcil um conserto do que a reconstruo total, 
principalmente porque havia outros, em vrios lugares estratgicos.
        O cercado ficava localizado num estreito vale entre um rochedo de 
calcrio de um lado e colinas ngremes do outro, e era uma rota natural de 
migrao. Outrora, um rio havia seguido por ali, e, ocasionalmente, um 
regato formado por gua da chuva no absorvida pelo solo enchia o leito 
seco. Os caadores o utilizavam apenas esporadicamente; os animais 
pareciam aprender rapidamente se uma rota em particular era tida como 
perigosa e tendiam a evit-la.
        Os que consertaram a armadilha tambm haviam preparado uma cerca 
porttil, feita de placas, que afunilava os animais, impelidos para o interior 
do vale, em direo a uma abertura no cercado. Normalmente, os caadores 
tinham tempo suficiente para colocar vrias pessoas atrs das placas, a fim 
de fustigar de volta em direo da armadilha os animais que tentavam se 
desgarrar. Como se tratava de uma caada no-planejada e um tanto quanto 
espontnea, ainda no havia ningum l. Mas Ayla notou que retalhos de 
couro e tecido, pedaos de cintures tranados e varas de capim, compridos 
feixes de relva amarrados como bastes, estavam enfiados nas armaes 
das placas ou seguros por pedras.
        - Jondalar - chamou ela. Ele se aproximou com a montaria. Ela havia 
apanhado uma vara de capim e um pedao de couro. - Qualquer coisa que se 
agite ou se mexa de um modo inesperado  capaz de assustar os bises, 
principalmente quando esto correndo; pelo menos era isso o que acontecia 
quando conduzamos bises em direo ao cercado do acampamento do leo. 
Estas coisas dever ser agitadas perto dos animais que se dirigem ao cercado
para evitar que se desgarrem. Voc acha que algum vai se importar, se 
pegarmos algumas emprestadas? Elas podem ser teis quando estivermos 
impelindo a manada nesta direo.
        - Tem razo.  para isso que servem - disse Jondalar -, e tenho 
certeza de que ningum vai se importar, se pegarmos algumas emprestadas, 
j que nos ajudaro a trazer os bises para c.
        Deixaram o vale e rumaram para o lugar onde tinham visto o rebanho 
pela ltima vez. Foi fcil achar o rastro pisoteado deixado pelos animais que 
avanavam lentamente, e eles estavam um pouco mais perto do vale do que 
se encontravam anteriormente. Havia ao todo cerca de cinqenta bises, 
entre machos, fmeas e crias. Eles comeavam a se juntar para formar o 
enorme rebanho migratrio que aumentaria posteriormente na estao.
        Em certas pocas do ano, os bises juntavam-se em um nmero to 
grande, que era como se observar um rio sinuoso marrom espetado com 
grandes chifres pretos. Em outras ocasies, dividiam-se em grupos menores, 
s vezes no mais do que uma grande famlia, mas a preferncia deles era a 
de formar manadas de considervel tamanho. Em geral, o nmero oferecia 
segurana. Embora predadores, especialmente lees das cavernas e 
alcatias de lobos, costumassem remover um biso de sua manada, 
geralmente era o mais lento ou fraco, o que permitia a so brevivncia dos 
mais saudveis e fortes.
        Eles se aproximaram lentamente da manada, mas os bises mal os 
perceberam. Cavalos no eram animais que representassem uma ameaa, 
embora tivessem se afastado de Lobo. Estavam cientes da presena dele, 
mas no entraram em pnico; apenas o evitavam, sentindo que um nico lobo 
no seria capaz de derrubar um animal do tamanho de um biso. O biso 
macho tpico media cerca de dois metros at a corcova sobre os seus 
ombros e pesava uma tonelada. Tinha compridos chifres pretos e uma barba 
que se projetava de extensas mandbulas. A fmea era menor, mas ambos 
eram rpidos e geis, capazes de subir ladeiras ngremes e saltar sobre 
obstculos considerveis.
        Eles conseguiam galopar, cauda levantada e cabea abaixada, com 
longas passadas at mesmo atravs de lugares rochosos. O biso no se 
importava com guas, nadava bem, e secava o denso plo rolando sobre areia 
ou terra. Preferia pastar  noite e relaxar durante o dia, quando ruminava. 
Os sentidos da audio e do faro eram aguados. O biso adulto podia ser 
violento e agressivo, e era difcil de ser morto com dentes e garras ou com 
lanas, mas apenas um deles fornecia quase setecentos quilos de carne, alm 
de gordura, ossos, couro, plo e chifres. O biso era conhecido pela sua 
fora e coragem.
        - Qual voc acha o melhor meio para faz-los partir? - perguntou 
Jondalar.
        - Geralmente, os caadores deixam que sigam no prprio passo, e 
tentam gui-los lentamente em direo ao cercado, pelo menos at 
chegarem perto de l.
- Quando cavamos, em nossa Jornada para c, a gente costumava tentar
fazer um animal se afastar da manada. Desta vez, a gente quer que todos 
sigam no mesmo sentido, em direo ao vale - ponderou Ayla. - Acho que 
cavalgar atrs deles e gritar far com que partam, mas, se agitarmos estas 
coisas na direo deles, creio que ajudar, principalmente para o biso que 
tentar sair correndo. No queremos um estouro na direo errada. Lobo 
sempre gostou de persegui-los, e ele  bom em mant-los juntos.
        Ela olhou para o sol e tentou calcular quando poderiam chegar ao 
cercado, e ficou imaginando em que ponto estariam os caadores. Bem, o 
importante  fazer com que sigam em direo  armadilha.
        Eles fizeram a volta para a direo oposta  que desejavam que os 
animais partissem. Depois, olhando um para o outro, sinalizaram com a 
cabea e, com um berro, impeliram os cavalos para a manada. Ayla segurava 
a vara de capim em uma das mos e o retalho de couro na outra, mantendo 
ambas livres porque no usava cabresto ou rdea para dirigir Huiin.
        Tinha sido um gesto inteiramente espontneo, na primeira vez em que 
montou na gua, e ela no fez nenhuma tentativa de gui-la. Simplesmente 
agarrou-se  crina do animal e deixou que ele corresse. Ela teve uma 
sensao de liberdade e arrebatamento, como se estivesse voando, igual ao 
vento. A gua diminuiu a marcha e voltou sozinha para o vale. Era o nico lar 
que ela conhecia. Depois disso, Ayla no parou mais de cavalgar, mas, no 
incio, o treinamento foi inconsciente. Somente depois, percebeu que usava a 
presso e o movimento do corpo para indicar a sua inteno. Na primeira vez 
em que Ayla caou sozinha um animal de grande porte, aps deixar o Cl, 
guiou a manada de cavalos, que usava o vale que ela encontrara, na direo 
de um buraco-armadilha que havia cavado. Ela no sabia que o animal, que 
acabou caindo em sua armadilha, era uma me ainda amamentando, e s se 
deu conta disso quando viu algumas hienas acossando a potra. Usou a funda 
para afugentar as feias criaturas, e resgatou a pequena gua, muito mais 
porque detes tava hienas do que por desejar salvar o animal. Porm, depois 
que a resgatou, sentiu-se obrigada a cuidar dela. Ayla aprendera, anos antes, 
que um beb podia comer o que a me comia, desde que fosse amolecido, e 
preparou um caldo de gros para alimentar a jovem potranca por si mesma. 
Ela vivia sozinha no vale e ficou grata pela companhia de um ser vivo para 
compartilhar a sua vida solitria. No era a sua inteno domar o animal, e 
nunca pensou nele nesses termos. Ela encarava a gua como uma amiga. Mais 
tarde, a gua tornou-se a amiga que permitia que a mulher montasse em seu 
dorso e, por opo, ia aonde ela queria que fosse. Huiin partiu para viver 
durante algum tempo com a manada, quando pela primeira vez entrou no cio, 
mas voltou para Ayla depois que o garanho da manada morreu. A cria dela 
nasceu no muito tempo depois que a mulher encontrou o homem ferido, 
Jondalar. O potro ficou sendo dele, que lhe deu um nome e o treinou a seu 
modo. Ele inventou o cabresto, para ajud-lo a dirigir e controlar o jovem 
garanho. Ayla achou o dispositivo til para usar em Huiin, ao precisar 
mant-la restrita a uma rea especfica, e Jondalar tambm o usava quando 
precisava guiar Huiin. Ele raramente tentava cavalgar a gua, pois no 
entendia direito os sinais que Ayla usava para gui-la, e o animal no 
entendia os dejonclalar. Ayla tinha o mesmo problema em relao a Racer. 
Ayla olhou de relance para Jondalar, que disparava em direo a um biso, 
guiando Racer com facilidade, agitando uma vara de capim diante do rosto 
do jovem bovdeo, para faz-lo debandar junto com os outros. Viu uma 
fmea amedrontada dar uma guinada e foi atrs, mas Lobo chegou primeiro 
e a conduziu de volta. Ela sorriu para o lobo; ele estava se divertindo a valer 
perseguindo os bises. Todos eles - a mulher, o homem, os dois cavalos e o 
lobo - haviam aprendido a agir e caar juntos, durante a Jornada de um ano 
em que seguiram o Rio da Grande Me na travessia das plancies a partir do 
leste.
        Ao se aproximarem do estreito vale, Ayla notou um homem parado em 
um dos lados, acenando para ela, e soltou um suspiro de alvio. Os caadores 
j tinham chegado. Eles manteriam os bises na direo certa, assim que 
penetrassem correndo no vale, mas um casal de bises  frente da manada 
tentava mudar de direo. Ela curvou-se para a frente, um sinal apropriado, 
mas inconsciente, para Huiin ir mais depressa. Como se soubesse o que se 
passava pela cabea da mulher, a gua disparou para interceptar os bises 
que relutavam em entrar na estreita passagem. Quando Huiin se aproximou, 
Ayla soltou um berro e sacudiu a vara de capim, agitou o pedao de couro no 
rosto da velha fmea astuta, e conseguiu fazer com que ela voltasse. O 
outros a seguiram.
        As duas pessoas montadas em cavalos e o lobo mantiveram os bises 
correndo juntos e seguindo na mesma direo, mas o vale se estreitava  
medida que se aproximavam da abertura delimitada do cercado, o que fez 
com que diminussem a velocidade, ao se comprimirem uns contra os outros. 
Ayla notou atrs deles um macho tentando fugir da presso.

        arma atingiu o alvo, mas no foi um ferimento mortal, e o impulso 
manteve o biso adiante. O caador saltou para trs e tentou sair do 
caminho agachando-se atrs da placa, mas se tratava de uma frgil barreira 
diante do poderoso bovino. Enfurecido pela dor do ferimento, o imenso 
animal peludo ignorou a placa e a derrubou para um lado. O homem caiu junto, 
e, na confuso, os bises o pisotearam.
        Ayla olhando horrorizada, j tinha na mo o disparador, e estava para 
pegar uma lana, quando viu uma penetrar ruidosamente no biso. Ela 
tambm arremessou a sua lana, em seguida impeliu Huiin adiante, 
menosprezando o perigo dos outros animais em disparada, e saltou da gua 
antes mesmo que ela parasse. Afastou a placa do caminho e ajoelhou-se ao 
lado do homem que jazia no cho, no muito distante do biso cado. Ela o 
ouviu gemer. Ele estava vivo.
        Huiin cabriolava nervosamente e suava muito, enquanto o resto dos 
bises passava correndo e entrava no cercado. Quando a mulher foi apanhar 
a sua bolsa de remdios em um dos cestos, deu umas palmadinhas na gua 
para a consolar, mas sua mente j estava concentrada no homem e no que 
poderia fazer por ele. Nem mesmo prestou ateno quando o porto do 
cercado foi fechado, prendendo os bises l dentro, ou quando alguns 
caadores comearam, metodicamente, a abater aqueles que desejavam.
        O lobo tinha adorado perseguir os animais, mas, mesmo antes de o 
porto ser fechado, parou repentinamente de correr e comeou a procurar 
por Ayla. Encontrou-a ajoelhada ao lado do ferido. Algumas pessoas 
comearam a formar um crculo em volta dela e do homem cado ao cho, 
porm, com o lobo presen te, mantinham distncia dele. Ayla estava 
desatenta s pessoas que a observavam examinar o ferido. Ele estava 
inconsciente, mas ela pde sentir uma leve pulsao em seu pescoo, abaixo 
do queixo. Ela abriu as roupas dele. No havia sangue, entretanto uma grade 
mancha preta azulada j se formava no peito e no abdomen. Cuidadosamente, 
ela apalpou o peito e a barriga em volta da escura contuso Pressionou-a uma 
vez. Ele se encolheu e soltou um grito de dor, mas no despertou. Ayla ouviu 
a respirao dele, percebeu um leve gorgolejo, em seguida viu que sangue 
escorria pelo lado da boca, e concluiu que se tratava de um ferimento 
interno.
        Ela levantou a vista e viu os penetrantes olhos azuis de Jondalar e o 
costumeiro enrugado de testa de preocupao; em seguida, um segundo 
franzir, quase idn tico, acompanhado de um olhar interrogativo.
        - Lamento - disse ela. - Esse biso pisou nele. - Olhou para o animal 
morto ao lado dele. - As costelas esto quebradas. Furaram o seu pulmo e 
no sei o que mais. Est sangrando por dentro. Temo que nada possa ser 
feito. Se ele tem uma parceira,  melhor mandar cham-la. Receio que ele v 
andar no mundo dos esprito antes de amanhecer.
        - No! - surgiu um grito do meio da multido. Um rapaz abriu o 
caminho adiante aos empurres e atirou-se ao lado do homem. - No  
verdade! No pode ser! Como  que ela sabe? Somente um Zelandoni sabe. 
Ela nem mesmo  uma de ns!
        -  o irmo dele - informou Joharran.
        O rapaz tentou abraar o homem cado ao cho, depois virou a cabea 
do ferido, tentando fazer com que o irmo olhasse para ele. 
        - Acorde, Shevonar! Acorde, por favor! - gemeu o rapaz.
        - Venha, Ranokol. Voc no o est ajudando. - O lder da Nona Caverna 
tentou ajudar o rapaz a se levantar, mas foi rechaado e empurrado para 
longe.
        - Est bem, Joharran. Deixe-o ficar. Um irmo tem o direito de se 
despedir. - disse Ayla, e depois, percebendo que o homem comeava a se 
agitar, acrescentou: - Um irmo talvez consiga acord-lo, mas ele sentir 
muitas dores.
        - Voc no tem casca de salgueiro ou outra coisa para dor em sua 
bolsa de remdios, Ayla? - perguntou Jondalar. Ele sabia que ela nunca 
ficava sem algumas ervas medicinais essenciais. Caar sempre envolvia algum 
perigo, e ela devia ter antecipado isso.
        - Sim,  claro, mas no creio que ele deva ingerir alguma coisa. No 
com graves ferimentos internos. - Ela fez uma pausa, e depois falou: - Mas, 
talvez um cataplasma possa ajud-lo. Vou tentar. Primeiro, devemos coloc-
lo em lugar mais confortvel, e vamos precisar de lenha para uma fogueira e 
de gua para ferver. Ele tem uma parceira, Joharran? - voltou a perguntar. 
O homem fez que sim. - Ento algum deve ir busc-la, e a Zelandoni 
tambm.
        - Claro - concordou Joharran, subitamente atento ao estranho 
sotaque dela, embora no tivesse esquecido dele.
        Manvelar aproximou-se.
        - Vamos chamar umas pessoas e procurar um lugar para levar esse 
homem, onde ele possa ficar mais  vontade, longe deste campo de caa.
        - No haver uma pequena caverna naquele rochedo ali? - aventou 
Thefona.
        - Com certeza deve haver alguma aqui por perto - concedeu Kimeran.
        - Tem razo - concordou Manvelar. - Thefona, retina umas pessoas e 
vo procurar um lugar para lev-lo.
        - Eu vou com ela- ofereceu-se Kimeran, e chamou as pessoas da 
Segunda e Stima Cavernas que haviam participado da caada.
        - Brameval, talvez voc possa organizar um grupo para pegar lenha e 
gua. Enquanto isso, ns teremos que preparar algo para transport-lo. 
Pegaremos alguns rolos de dormir das pessoas que os trouxeram, e tudo o 
mais que for neces srio - prosseguiu Manvelar, e depois gritou para os 
mensageiros: - Precisamos de um mensageiro veloz, para levar uma 
mensagem a Pedra dos Dois Rios.
        - Deixe-me ir - pediu Jondalar. - Eu posso levar a mensagem, e Racer 
 o "mensageiro" mais veloz daqui.
        - Creio que tem razo.
        - E, depois, voc poder ir  Nona Caverna, para trazer Relona, e a 
Zelandoni tambm - sugeriu Joharran. - Conte a Proleva o que aconteceu. Ela 
saber como organizar tudo. A Zelandoni  quem dever contar  parceira 
de Shevonar. Ela tal vez queira que voc explique para Relona o que 
aconteceu, mas deixe isso com ela.
        Joharran virou-se para encarar os caadores que ainda estavam em 
volta do homem ferido, a maioria da Nona Caverna.
        - Rushemar, o sol est alto e muito quente. Ns pagamos muito caro 
por este dia de abate, e no vamos desperdi-lo. Os bises precisam ser 
estripados e esfolados. Kareja e a Dcima Primeira Caverna j comearam, 
mas sei que ela precisa de ajuda. Solaban, talvez voc possa levar algumas 
pessoas e ajudar Brameval a conseguir lenha e gua, e do que mais Ayla 
precisar, e depois que Kimeran e Thefona encontrarem um lugar, poder 
ajudar a transportar Shevonar.
        - Algum deve ir s outras Cavernas e avisar que precisamos de ajuda 
- falou Brameval.
        - Jondalar, pode parar na volta e avisar s Cavernas o que aconteceu? 
- pediu Joharran.
        - Quando voc chegar a Pedra dos Dois Rios, mande acender a 
fogueira sinalizadora - sugeriu Manvelar.
        - Boa idia - concordou Joharran. - Desse modo, as Cavernas sabero
que h algo errado e ficaro esperando um mensageiro. - Depois se dirigiu 
mulher, a estrangeira que provavelmente um dia seria membro de sua 
Caverna, e talvez uma Zelandorii, e que j estava contribuindo de todos os 
modos possveis.
        - Faa o que puder por ele, Ayla. Ns traremos a parceira dele e a 
Zelandoni o mais depressa que pudermos. Se precisar de alguma coisa, pea 
a Solaban. Ele a conseguir para voc.
        - Obrigada, Joharran - retrucou, e depois se voltou para Jondalar. - 
Se voc disser a ela o que aconteceu, estou certa de que a Zelandoni saber 
o que trazer, mas me deixe verificar a minha bolsa. H algumas ervas que eu 
gostaria de saber se ela tem. E leve Huiin. Desse modo, poder usar o 
arrastador de carga para trazer as coisas para c; ela  mais til do que 
Racer. A Zelandoni at mesmo poder montar nela, e a parceira de Shevonar 
poder vir na garupa de Huiin, se elas quiserem.
        - No sei no, Ayla. A Zelandoni  muito pesada - observou Jondalar.
        - Tenho certeza de que Huiin agenta. Voc s ter que arranjar um 
assento confortvel. - Em seguida, olhou para Jondalar com uma expresso 
esquisita.
        - Mas tem razo, a maioria das pessoas no est acostumada a usar 
cavalos para viajar. As mulheres vo preferir andar, mas vamos precisar de 
tendas e suprimentos. O arrastador de carga ser til para isso.
        Ayla retirou os balaios de transporte antes de colocar o cabresto em 
Huiin, e entregou a Jondalar a corda que estava amarrada a ele. Jondalar 
amarrou a ponta na traseira do cabresto de Racer, deixando bastante 
espao para que ela pudesse segui-los, e partiu. A gua, porm, no estava 
acostumada a seguir atrs do garanho que ela havia parido. Era sempre ele 
que a seguia. Embora Jondalar estivesse montado em Racer, conduzindo-o 
com uma rdea presa ao seu cabresto, Huiin mantinha-se ligeiramente 
adiante deles, mas, mesmo assim, parecia sentir aonde o homem queria ir.
        Cavalos so predispostos a cumprir as ordens de seus amigos humanos, 
que isso no perturbe o senso que eles tm da ordem apropriada das coisas, 
pensou Ayla, sorrindo consigo mesma, ao v-los partir. Ao se virar, viu que 
Lobo os observava. Ela lhe dera um sinal para ficar, quando os cavalos 
partiram, e agora ele esperava pacientemente. Seu irnico sorriso interior, 
por causa do comportamento dos cavalos, apagou-se rapidamente ao olhar 
para o homem deitado onde havia cado.
        - Ele precisa ser levado daqui, Joharran - insistiu.
        O lder concordou, e chamou algumas pessoas para ajudar. 
Improvisaram um dispositivo para transporte, primeiramente amarrando 
vrias lanas para fazer duas travessas resistentes, e depois prendendo 
peas de roupas entre elas. Quando Thefona e Kimeran retornaram com a 
notcia de um pequeno abrigo ali perto, o homem foi cuidadosamente 
colocado na maca e ficou pronto para ser carregado. Ayla chamou Lobo para 
perto dela, enquanto quatro homens levantavam cada qual uma extremidade 
da vara.
        Ao chegarem l, Ayla ajudou as pessoas que j haviam comeado a 
limpar a concavidade protegida por um pequeno ressalto, que ficava no nvel 
do solo em um paredo prximo de calcrio. O cho de terra estava atulhado 
de folhas secas e entulho, soprados para l pelo vento, e excrementos 
ressecados de hienas deixa dos h algum tempo pelos carniceiros que 
tinham usado o lugar como toca.
        Ayla ficou contente ao descobrir que havia gua perto. Existia uma 
caverna menor nos fundos da depresso abrigada, e logo na sua entrada 
havia a poa de unma nascente de gua fresca, que escorria para fora por 
uma vala que se formara ao longo da parede do rochedo. Indicou a Solaban 
onde devia instalar a fogueira com a lenha que ele, Brameval e alguns outros 
tinham trazido.
        Quando Ayla pediu, vrias pessoas ofereceram os seus rolos de 
dormir, que foram empilhados um em cima do outro para formar uma cama 
ligeiramente elevada. O ferido despertou quando foi levado para a maca, 
mas tinha voltado a ficar inconsciente ao chegar ao abrigo. Ele gemeu de 
dor, ao ser carregado para a cama, e voltou a despertar, fazendo caretas e 
pelejando para respirar. Ayla dobrou outro rolo de dormir e apoiou o homem 
nele, para deix-lo mais confortvel. Ele tentou sorrir em agradecimento, 
mas, em vez disso, tossiu sangue. Ela limpou-lhe o queixo com um pedao de 
pele macia de coelho, um artigo que sempre mantinha junto com os remdios.
Ayla vasculhou o limitado suprimento de sua bolsa de remdios, e tentou 
imaginar se havia algo que talvez tivesse esquecido e pudesse ajudar a 
mitigar a dor dele. Razes de genciana talvez ajudassem, ou uma tintura de 
arnica. Ambas podiam aliviar os incmodos internos de contuses e outras 
dores, mas no tinha nenhuma das duas. Os finos plos do fruto do lpulo 
podiam ser usados como sedativo, para ajud-lo a relaxar, simplesmente 
deixando-o respirar o ar perto deles, mas no estavam disponveis de 
imediato. Talvez defumar algo ajudasse, j que a ingesto de lquido no era 
possvel. No, isso talvez o fizesse tossir, o que seria pior. Ayla sabia que 
era intil, tratava-se apenas de uma questo de tempo, mas precisava fazer 
alguma coisa, pelo menos para a dor que ele sentia.
        Espere, lembrou. Eu no vi aquela planta da famlia valeriana, a 
caminho daqui? A tal com razes aromticas. A que o Mamuti na Reunio de 
Vero chamou de nardo? No sei o nome dela em Zelandonii. Olhou para as 
pessoas em Volta e viu a moa por quem Manvelar parecia ter muito respeito, 
a olheira da Terceira Caverna, Thefona.
        Thefona ficara para ajudar a limpar o pequeno abrigo que ela havia 
encontra do, e continuava l, observando Ayla. A estrangeira a deixava 
intrigada. Havia algo naquela mulher que fazia com que as pessoas lhe 
prestassem ateno, e ela parecia ter obtido o respeito da Nona Caverna no 
curto espao de tempo de sua Permanncia. Thefona se perguntava o quanto 
a mulher realmente conhecia sobre cura. Ela no tinha qualquer marca 
tatuada como havia na zelandonia, mas o Povo de onde ela viera podia ter 
hbitos diferentes. Algumas pessoas tentavam enganar as outras a respeito 
do que sabiam, mas a estrangeira no parecia tentar impressionar ningum, 
vangloriando-se ou falando de forma arrogante. Ao contrrio, ela fazia 
coisas que eram realmente impressionantes, como usar aquela coisa de 
arremessar lanas. Thefona estava pensando em Ayla, mas ficou surpresa 
quando esta a chamou.
        - Thefona, posso lhe perguntar uma coisa? - quis saber Ayla.
        - Sim - respondeu, e pensou: Ela tem uma maneira esquisita de falar. 
No so as palavras, mas o modo como elas soam. Talvez seja por isso que 
ela no fale muito.
        - Voc conhece bastante sobre plantas?
        - Todo mundo conhece alguma coisa sobre plantas - afirmou Thefona.
        - Estou pensando numa, cujas folhas parecem uma dedaleira, mas tem 
flores amarelas, como dente-de-leo. O nome que conheo  "nardo", mas 
essa  uma palavra Mamuti.
        - Eu conheo algumas plantas alimentcias. No sei muito sobre 
plantas medicinais. Vai precisar da Zelandoni para isso - desculpou-se 
Thefona.
        Ayla fez uma pausa e depois perguntou:
        - Thefona, voc pode ficar olhando Shevonar? Acho que vi um nardo a 
caminho daqui Vou procura-lo, voltando pelo caminho que viemos Se ele 
acordar novamente, ou se houver qualquer mudana, pode mandar algum ir 
me procurar? - pediu Ayla Em seguida, resolveu acrescentar uma explicao, 
embora elucidar os seus atos como curandeira no fosse algo que 
costumasse fazer. - Se isso  o que penso, podera ajudar. Ja usei as raizes 
amassadas, como cataplasma, para me ajudar a emendar ossos fraturados, 
pois e facilmente absorvido e tem poderes sedativos Se eu as misturar com 
um pouco de datura e talvez com folhas pulverizadas de mileflio, acredito 
que pode ajudar a aliviar a dor dele. Quero ver se consigo encontr-la.
        - Sim,  claro que ficarei de olho nele - afirmou Thefona, agradecida 
pela estrangeira, por algum motivo, ter pedido a sua ajuda.
        Joharran e Manvelar conversavam baixinho com Ranokol, mas, a 
despeito de estarem bem a seu lado, Ayla mal conseguia ouvi-los. Ela se 
concentrava no ferido e vigiava a agua esquentar lentamente demais. Lobo 
estava deitado no cho alih perto, com a cabea entre as patas, observando 
cada movimento dela. Quando a gua comeou a fumegar, ela juntou as 
razes de nardo, para amolecerem o suficiente a fim de serem amassadas e 
transformadas em cataplasma. Ela estava contente por tambm ter 
encontrado confrei. Um mido curativo feito com as razes e as folhas 
frescas amassadas tambm era bom para contuses e fraturas, e, apesar de 
no achar que isso fosse remendar as fraturas de Shevonar, Ayla estava 
disposta a tentar qualquer coisa que pudesse amenizar a dor dele.
        Ao ficar pronto, ela espalhou as quentes razes amassadas 
diretamente sobre a contuso quase preta que se espalhava do peito  
barriga. Notou que o abdome dele estava endurecendo. Shevonar abriu os 
olhos, quando Ayla cobria o cataplasma com um pedao de pele para mant-
lo aquecido.
        - Shevonar? - chamou. Os olhos dele pareciam atentos, mas intrigados.
Talvez ele no a reconhecesse, pensou. - O meu nome  Ayla. A sua parceira 
- hesitou, e ento lembrou-se do nome dela - Relona est vindo para c. - Ele 
inspirou fundo e estremeceu de dor. Isso pareceu surpreend-lo.
        - Voc foi ferido, Shevonar, por um biso. A Zelandoni tambm est a 
caminho. Estou tentando ajudar, at ela chegar aqui. Coloquei um cataplasma 
no seu peito, para diminuir um pouco a dor.
        Ele assentiu, mas mesmo isso foi um grande esforo.
        - Voc quer ver o seu irmo? Ele est esperando para v-lo.
        Ele assentiu novamente, e Ayla levantou-se e foi at os homens que 
espera vam ali perto.
        - Shevonar est desperto e gostaria de ver voc - falou para Ranokol. 
        O rapaz levantou-se rapidamente e foi ao leito do irmo. Ayla foi 
atrs, juntamente com Joharran e Manvelar.
        - Como voc se sente? - quis saber Ranokol.
        Shevonar tentou sorrir, mas o sorriso tornou-se um esgar dolorido, ao 
mesmo tempo em que uma tosse inesperada fez brotar uma baba vermelha 
no canto de sua boca. 
        Um ar de pnico encheu os olhos do rapaz, e ento ele percebeu a 
massa no peito do irmo.
        - O que  isso? - indagou Ranokol, quase grunhindo.
        -  um cataplasma, contra a dor. - A voz de Ayla era normalmente um 
tanto grave, e ela pronunciou as palavras lenta e calmamente. Ela entendia o 
p nico e medo do
irmo do homem.
        - Quem mandou voc fazer alguma coisa com ele? Isso pode estar 
fazendo ele piorar. Tire essa coisa dele! - berrou.
        - No, Ranokol - intercedeu Shevonar. A voz do ferido mal podia ser 
ouvida. - No  culpa dela. Isso ajuda. - Ele tentou se sentar, mas despencou,
inconsciente.
        - Shevonar. Acorde, Shevonar! Ele est morto! Oh, Grande Me, ele 
est morto! - chorou Ranokol, desabando ao lado do leito do irmo.
        Ayla verificou o pulso de Shevonar, enquanto Joharran afastava 
Ranokol dali. - No, ele ainda no est morto - constatou. - Mas no tem 
muito tempo. Espero que a parceira dele chegue logo.
        - Ele no est morto, Ranokol, mas j poderia estar - exclamou 
irritado Joharran. - Essa mulher pode no ser uma Zelandoni, mas ela sabe 
como ajudar.  voc quem est fazendo ele piorar. Quem sabe se voltar a 
despertar para dizer as suas ltimas palavras para Relona?
        - Ningum pode faz-lo piorar, Joharran. No h esperanas. Ele pode 
ir a qualquer momento. No culpe um homem que est aflito por causa do 
irmo - disse Ayla, preparando-se para se levantar. - Vou preparar um ch, 
para acalmar todo mundo.
        - No precisa, Ayla. Eu preparo. Apenas me diga o que fazer.
        Ayla olhou para cima, viu Thefona e sorriu.
        - Se voc ferver um pouco de gua, eu buscarei algo para todos ns - 
sugeriu ela. Em seguida, virou-se para examinar Shevonar. Ele se contorcia 
cada vez que respirava, com dificuldade. Ela queria deix-lo mais 
confortvel, mas, ao tentar mov-lo, ele gemeu de dor. Ayla sacudiu a 
cabea, surpresa pelo homem ainda estar vivo, depois foi apanhar a bolsa de 
remdios, a fim de ver o que haveria para fazer um ch. Talvez camomila, 
pensou com flores secas de tlia ou alcauz, para ado-lo.
        A longa tarde se consumia. Pessoas iam e vinham, mas Ayla no as 
percebia. Shevonar recuperou a conscincia e chamou pela parceira, e 
depois, por vrias vezes, retornou ao sono agitado. A barriga estava dilatada 
e dura, e a pele, quase preta. Ela tinha certeza de que o homem estava 
apenas se sustentando para tornar a ver a parceira.
        Algum tempo depois, Ayla foi apanhar a bolsa de gua, para beber um 
pouco, mas viu que estava vazia, colocou-a de lado e esqueceu a sede. Portula 
tinha entrado no pequeno abrigo, para ver como estavam as coisas. Ela ainda 
se sentia acanhada, por ter participado da brincadeira de Marona, e tentava 
se manter fora do caminho, mas viu Ayla pegar a bolsa de gua, sacudi-la e 
verificar que estava vazia. Portula correu at a poa, encheu a prpria bolsa 
e voltou com gua fresca.
        - Quer um gole, Ayla? - ofereceu, segurando a gotejante bolsa de 
gua.
        Ayla ergueu o olhar e surpreendeu-se ao ver a mulher.
        - Obrigada - disse ela, levantando o caneco de gua. - Eu estou com 
um pouco de sede.
        Portula ficou parada ali por um momento, depois que Ayla acabou de 
beber, aparentando constrangimento.
        - Eu quero lhe pedir desculpas - falou, finalmente - Lamento por ter 
deixado Marona me convencer a pregar aquela pea em voc. Foi uma coisa 
desa gradvel. No sei o que dizer.
        - No h nada o que dizer, h, Portula? - amenizouAyla. - E eu ganhei 
uma roupa de caa quente e confortvel. Embora acredite que no fosse 
essa a teno de Marona, eu acabei gostando dela; portanto, vamos 
esquecer o assunto.
        - H alguma coisa que eu possa fazer para ajudar? - perguntou Portula.
        - No h nada que algum possa fazer. Estou surpresa por ele ainda 
estar com a gente. Quando acorda, chama pela parceira. Joharran lhe disse 
que ela est a caminho - contou Ayla. - Creio que ele estava se mantendo 
vivo por causa dela. Eu s gostaria de poder fazer mais para facilitar as 
coisas para ele, mas a maioria dos remdios para aliviar a dor tm que ser 
engolidos. Eu lhe dei uma pele embebida em gua, para umedecer a boca, 
pois, com esse tipo de ferimento, se ele beber qualquer coisa, receio que s 
v piorar as coisas.
        Joharran estava do lado de fora, na frente do abrigo, olhando para o 
sul, a direo que Jondalar seguira, aguardando ansiosamente a volta dele 
com Relona. O sol j estava baixando no ocidente, e logo viria a escurido. 
Ele havia mandado mais gente coletar mais lenha, a fim de fazerem uma 
grande fogueira para ajudar a gui-los; estavam at mesmo pegando alguma 
madeira do cercado. Na ltima vez que Shevonar despertara, os olhos dele 
estavam vidrados, e o lder sabia que a morte estava prxima.
        O jovem homem tinha lutado to bravamente para se agarrar  ltima 
nesga de vida, que Joharran torcia para que a sua parceira chegasse antes 
que ele perdesse a batalha. Finalmente, viu movimentos  distncia; algo se 
aproximava. Correu na direo, e ficou aliviado ao ver um cavalo. Ao se 
aproximarem, ele foi at Relona e conduziu a mulher perturbada ao abrigo 
de pedra onde o seu parceiro jazia moribundo.
        Quando ela chegou perto, Ayla tocou delicadamente no brao do 
homem.
        - Shevonar. Shevonar! Relona est aqui. - Ela voltou a mexer o seu 
brao. Ele abriu os olhos e olhou para Ayla. - Ela est aqui. Relona chegou - 
informou. Shevonar fechou os olhos novamente e sacudiu levemente a 
cabea, tentan do se manter acordado.
        - Shevonar, sou eu. Vim o mais depressa que pude. Fale comigo. Por 
favor, fale comigo. - A voz de Relona falhava em meio aos soluos.
        O ferido abriu os olhos e pelejou para focalizar o rosto curvado sobre 
ele.
        - Relona - falou. Foi quase inaudvel. O comeo de um sorriso foi 
apagado por uma expresso de dor. Ele olhou novamente para a mulher e viu 
os olhos dela cheios de lgrimas. - No chore - sussurrou, depois fechou os 
olhos e pelejou para respirar. 
        Os olhos de Relona eram suplicantes, quando ela ergueu a vista para 
Ayla, que olhou para baixo, depois para cima, e sacudiu a cabea. A mulher 
olhou em volta, em pnico, buscando desesperadamente algum mais que lhe 
desse uma outra resposta, mas ningum retribuiu o seu olhar. Ela voltou a 
dirigir a vista para o homem e ficou observando o esforo dele para respirar, 
e ento viu sangue escorrer pelo canto de sua boca.
        - Shevonar! - gritou, e alcanou a mo dele.
        - Relona... quis ver voc mais uma vez - arquejou, abrindo os olhos. -
Diga adeus, antes de eu andar... no mundo dos espritos. Se Doni permitir... 
eu encontrarei voc l. - Fechou os olhos, e todos ouviram um dbil 
chocalhar, enquanto ele tentava extrair a respirao. Nesse momento, um 
gemido baixo ficou mais alto, e, embora Ayla soubesse que ele tentava 
controlar o rudo, este aumentou. Ele parou e tentou tomar flego. Ento, 
Ayla achou que ouviu um pipocar abafado vindo de dentro de seu corpo, ao 
mesmo tempo em que ele, subitamente, soltava um grito agonizante. Quando 
o som morreu, ele no respirava mais.
        - No, no. Shevonar, Shevonaaar! - berrou Relona. Ela pousou a 
cabea no peito dele e despejou demorados soluos de pesar e dor. Ranokol 
estava de p ao lado dela, com lgrimas escorrendo pelas faces, parecendo 
desnorteado, aturdido, perplexo. No sabia o que fazer.
        De repente, foram sobressaltados por um lgubre uivo ruidoso, vindo 
bem de perto, que fez eriar o cabelo da nuca. Ao mesmo tempo, olharam 
para Lobo. Ele estava de p sobre as quatro patas, com a cabea jogada para 
trs, plangendo uma cano lupina de arrepiar a espinha.
        - O que ele est fazendo? - indagou Ranokol, bastante contrariado.
        - Ele est lastimando pelo seu irmo - respondeu a voz familiar da 
Zelandoni. - Do mesmo modo que a gente.
        Todos ficaram aliviados em v-la. Ela tinha chegado com Relona e 
vrios outros, mas ficara para trs, observando, enquanto a parceira de 
Shevonar corria adiante.
        Os soluos de Relona tornaram-se um gemido lastimoso, o carpir de 
sua dor. A Zelandoni uniu-se a ela em seu aflito lamento, e depois muitos 
outros. Lobo uivava junto.
        Finalmente, Ranokol sucumbiu ao pranto e jogou-se sobre o homem no 
leito. Um instante depois, ele e Relona estavam abraados, sacudindo-se e 
carpindo sua dor.
        Ayla achou que isso era bom para os dois. Para aliviar a dor e a raiva, 
ela sabia que Ranokol precisava soltar o seu pesar, e Relona o ajudara. 
Quando Lobo uivou novamente, ela o acompanhou com um uivo to realista, 
que a princpio muitos pensaram se tratar de outro lobo. Ento, para a 
surpresa daqueles que tinham mantido viglia para o homem no abrigo, 
ouviram um outro lobo uivar a distncia, juntando-se  sofrida cano lupina 
de pesar. Aps alguns instantes, a donier ajudou Relona a se levantar e a 
conduziu a uma pele que tinha sido aberta perto do fogo. Joharran ajudou o 
irmo do homem a ir at um lugar do outro lado da fogueira. A mulher ficou 
sentada ali,
alanandose para a frente e para trs, emitindo um leve gemido, indiferente 
a todos  sua volta. Ranokol ficou apenas olhando fixamente para o fogo.
        O Zelandoni da Terceira falou baixinho com a imensa Zelandoni da 
Nona Caverna, e logo depois voltou com um caneco contendo um lquido 
fumegante em cada mo. A donier da Nona Caverna pegou um dos canecos 
com o da Terceira e o imps a Relona, que o bebeu sem objeo, como se no 
soubesse ou se importasse com o que fazia. O outro caneco do Terceiro foi 
entregue a Ranokol, que ignorou a bebida oferecida, mas, aps alguma 
insistncia, finalmente a ingeriu. Logo, ambos estavam deitados nas peles 
perto do fogo, adormecidos.
        - Que bom que ela se acalmou - observou Joharran -, e ele tambm.
        - Eles precisavam chorar - afirmou Ayla.
        - Sim, mas agora precisam descansar - disse a Zelandoni. - E voc 
tambm, Ayla.
        - Antes, coma alguma coisa - sugeriu Proleva. A parceira de Joharran 
viera com Relona, a Zelandoni e mais alguns outros da Nona Caverna. - Ns 
assamos um pouco de carne de biso, e a Terceira Caverna trouxe outros 
alimentos.
        - No estou com fome - alegou Ayla.
        - Mas deve estar cansada - rebateu Joharran. - Voc mal saiu um 
instante do lado dele.
        - Eu gostaria de poder ter feito mais por ele. No consegui pensar em 
nada que pudesse ajud-lo - lamentou Ayla, sacudindo a cabea e parecendo 
desanimada.
        - Mas voc fez - afirmou o homem mais velho, que era o Zelandoni da 
Terceira. - Voc aliviou a dor dele. Ningum poderia ter feito mais do que 
isso, e ele no teria se agarrado  vida sem a sua ajuda. Eu no teria usado 
um cataplasma desse modo. Para alvio de dores e contuses, sim, mas para 
ferimentos internos? No creio que eu tivesse pensado nisso. Contudo, 
pareceu ajudar.
        - Sim. Foi um modo perspicaz de trat-lo - afirmou a Zelandoni da 
Nona.
        - Voc j tinha feito isso antes?
        - No. E no tinha certeza se ajudaria, mas precisava tentar alguma 
coisa -justificou Ayla.
        - Fez muito bem - expressou a donier. - Mas, agora, precisa comer 
algo e descansar.
        - No, no quero comer nada, mas vou deitar um pouco - disse Ayla. - 
Onde est Jondalar?
        - Ele saiu com Rushemar, Solaban e outros, para pegar mais lenha. 
Alguns foram junto apenas para segurar as tochas, mas Jondalar quer 
garantir madeira suficiente para a fogueira durar a noite toda, e este vale 
no tem muitas rvores. Eles devem voltar logo. Jondalar colocou ali as peles 
de dormir de vocs - avisou Joharran, apontando o local.
        Ayla deitou-se, pensando em descansar um pouco at Jondalar voltar. 
Adormeceu praticamente assim que fechou os olhos. Quando os coletores de 
combustvel voltaram com a lenha, quase todos dormiam. Colocaram uma 
pilha ao lado da fogueira, depois foram para os locais de dormir que haviam 
escolhido. Jondalar notou a vasilha que Ayla costumava carregar para 
esquentar pequenas quantida des de gua com pedras quentes, para chs 
medicinais. Ela tambm havia construdo uma armao improvisada, com 
galhadas de veado cadas na estao anterior, para sustentar uma bolsa de 
gua sobre uma chama. Embora a bexiga de veado contivesse a gua, ela 
vazava um pouco, evitando que pegasse fogo quando era usada para 
esquentar gua ou cozinhar. 
        Joharran parou perto do irmo para conversar por uns momentos.
        - Jondalar, quero aprender mais sobre o arremessador de lanas. Eu 
vi o biso cair com a sua lana, e voc estava mais distante do que a maioria. 
Se todos tivssemos essa arma, no precisaramos chegar to perto, e 
Shevonar talvez no tivesse sido pisoteado.
        - Voc sabe que mostrarei a qualquer um que quiser aprender, mas 
isso requer prtica - disse Jondalar.
        - Quanto tempo voc levou? No pretendo ser to bom quanto voc  
agora, mas quanto tempo leva para se obter a habilidade suficiente para se 
caar com ele? - quis saber Joharran.
        - Ns j usamos o arremessador h alguns anos, mas, no final do 
primeiro vero, j cavamos com ele - esclareceu Jondalar. - Mas somente 
durante a nossa Jornada de volta para c nos tornamos bons em caar 
montados em cavalos. Lobo tambm ajuda.
        - Ainda  difcil me acostumar  idia de usar animais para qualquer 
coisa alm de carne e pele - argumentou Joharran. - Eu no teria acreditado, 
se no tivesse visto com os meus prprios olhos. Mas  sobre o 
arremessador de lanas que quero saber mais. Conversaremos amanh.
        Os irmos despediram-se e Jondalar foi se juntar a Ayla onde ela 
dormia. Lobo olhou para cima. Jondalar observou-a respirar tranqilamente 
sob o brilho das chamas, depois olhou de volta para o lobo; Ainda bem que 
ele est sempre presente, vigiando-a, pensou, depois fez uma festinha no 
animal e deitou-se ao lado dela. Estava  penalizado com a morte de Shevonar, 
no apenas porque era um membro da Nona Caverna, mas porque sabia o 
quanto era difcil para Ayla quando algum morria e ela nada podia fazer. Ela 
era uma curadora, mas havia alguns ferimentos que ningum conseguia curar.
        A Zelandoni passou a manh inteira ocupada, preparando o corpo de 
Shevonar para ser carregado de volta  Nona Caverna. Ficar perto de 
algum cujo esprito deixou o corpo era bastante perturbador para a 
maioria das pessoas, e o enterro de Shevonar compreenderia mais do que o 
ritual de costume.         Era considerada m sorte algum morrer enquanto 
caava. Se o caador estava sozinho, a sua m sorte era bvia, e o infortnio 
fora consumado, mas uma Zelandoni costumava execu tar um ritual de 
purificao a fim de se precaver de quaisquer efeitos futuros. Se dois ou 
trs caadores saam e um deles morria, isso ainda era considerado uma 
questo pessoal, e era adequada uma cerimnia com os sobreviventes e os 
mem bros da famlia. Quando, porm, algum morria numa caada envolvendo 
no apenas uma Caverna, mas toda a comunidade, tratava-se de um assunto 
srio. Alguma coisa tinha de ser feita por toda a comunidade.
        Aquela Que Era A Primeira pensava no que podia ser necessrio, 
talvez fosse inevitvel a proibio da caa ao biso durante o resto da 
estao, para abrandar a m sorte. Ayla a viu relaxando com um caneco de 
ch perto do fogo, sentada sobre uma pilha com vrias grossas almofadas 
estofadas, que foram trazidas para ela no reboque de Huiin. A Zelandoni 
raramente se sentava em almofadas finas, pois era cada vez mais e mais 
difcil e embaraoso levantar-se, visto que, a cada ano, ela se tornava mais 
corpulenta.
        Ayla aproximou-se da donier. - Zelandoni, posso falar com voc?
        - Sim, claro.
        Se estiver ocupada, posso esperar. Eu s queria lhe perguntar uma 
coisa - disse Ayla.
        - Posso dispor de algum tempo - afirmou a Zelandoni. - Pegue um 
caneco de ch e venha para c. - Fez um gesto para Ayla se sentar em uma 
esteira no cho.
        - S queria lhe perguntar se voc sabe de algo mais que eu pudesse 
ter feito por Shevonar. H algum modo de se curar ferimentos internos? 
Quando eu vivia como Cl, houve um homem que foi perfurado 
acidentalmente por uma faca. Um pedao quebrou-se dentro dele, e Iza fez 
um corte e o removeu, mas no creio que houvesse um modo de se cortar e 
cuidar dos ferimentos de Shevonar - disse Ayla.
        Era bvio que perturbava muito a estrangeira o fato de ter sido capaz 
de fazer tao pouco pelo homem, e a Zelandoni comoveu-se com a 
preocupao dela. Tratava do tipo de coisa que um bom aclito sentiria.
        - No h muito o que se possa fazer por algum que foi pisoteado por 
um biso adulto, Ayla - afirmou a Zelandoni. - Alguns caroos e inchaos 
podem ser lancetados para drenar, ou se pode fazer um corte para retirar 
pequenos objetos, como lascas, ou um pedao quebrado de faca, como o tal 
que a mulher do Cl removeu, mas isso foi um ato corajoso da parte dela.  
perigoso cortar dentro do corpo. Voc poder estar criando um ferimento 
que, em geral,  maior do que aquele que tenta consertar. Eu j cortei 
algumas vezes, mas somente quando tinha certeza de que ajudaria e no 
havia outra maneira.
        -  isso que eu acho - concordou Ayla.
        - Tambm  necessrio saber alguma coisa de como  o corpo por 
dentro. H muitas semelhanas entre o interior do corpo humano e o 
interior do corpo de um animal, e eu costumo estripar cuidadosamente um 
animal, para ver como  e de que modo so feitas as ligaes.  fcil ver 
tubos que levam sangue para o corao, e os tendes que movimentam os 
msculos. Essas coisas so muito se-. melhantes em todos os animais, mas 
algumas coisas so diferentes; o estmago de um auroque, por exemplo,  
diferente do de um cavalo, e muitas coisas so dis postas de modo diferente. 
Isso pode ser til e muito interessante.
        - Eu j verifiquei que isso  verdade - concordou Ayla. - J cacei e 
estripei muitos animais, e isso ajuda a entender como so as pessoas. Tenho 
certeza de que as costelas de Shevonar se quebraram, e lascas penetraram 
nos seus... sacos de respirar.
        - Pulmes.
        - Seus pulmes, e acho que, tambm, seus... outros rgos. Em 
Mamuti, eu diria "fgado" e "bao". No sei as palavras em Zelandonii. Eles 
sangram muito, quando danificados. Voc sabe aos quais me refiro? - 
perguntou Ayla.
        - Sim, eu sei - respondeu a Primeira.
        - O sangue no tem para onde ir. Acho que  por isso que ele ficou 
escuro e duro. O sangue o encheu por dentro at alguma coisa estourar - 
sugeriu a jo vem mulher.
        - Eu o examinei e concordo com a sua afirmao. O sangue encheu o 
estmago dele e parte dos intestinos. Creio que parte dos intestinos rompeu 
- aventou a donier.
        - Os intestinos so os tubos compridos que levam para fora?
        - So.
        - Jondalar me ensinou essa palavra. Eles tambm ficaram danificados 
em Shevonar, mas acredito que o sangue que o encheu por dentro foi o que o 
fez morrer.
        - Sim. O pequeno osso na parte de baixo da perna esquerda tambm 
se quebrou, e o pulso direito tambm, mas esses ferimentos no foram 
fatais,  claro - alegou a Zelandoni.
        - No, e eu no me preocupei com essas fraturas. Eu s estava 
querendo saber se voc conhecia alguma outra coisa que eu pudesse ter 
feito por ele - insistiu Ayla, o rosto grave repleto de preocupao. Ayla 
assentiu e baixou a cabea.
        - Voc fez tudo o que pde, Ayla. Algum dia, todos ns andaremos 
pelo mundo dos espritos. Quando Doni nos chama, jovens ou velhos, no 
temos escolha. Nem mesmo um Zelandoni tem o dom suficiente para deter 
isso, ou se quer saber quando acontecer. Trata-se de um segredo que Doni 
no compartilha com ningum. Ela permitiu que o Esprito do Biso levasse 
Shevonar em troca do biso que pegamos.  um sacrifcio que Ela s vezes 
exige. Talvez Ela ache que precisamos nos lembrar que os Seus Dons no so 
de graa. Ns matamos as criaturas Dela, para que possamos viver, mas 
precisamos apreciar o Dom da Vida que Ela nos oferece quando tiramos a 
vida dos Seus animais. A Grande Me nem sempre  gentil. s vezes, Suas 
lies so duras.
        - Sim.  isso o que eu tenho aprendido. No acredito que o Mundo dos 
Espritos seja um lugar agradvel. As lies so duras, mas valiosas - 
afirmou Ayla. 
        A Zelandoni no retrucou. Ela descobriu que geralmente as pessoas 
continuavam falando, para preencher o vazio, se no respondesse 
imediatamente, e ela aprendia muito mais com o silncio do que se fizesse 
perguntas. Depois de algum tempo, Ayla prosseguiu.
        - Eu me lembro de quando Creb me falou que o Esprito do Leo das 
Cavernas havia me escolhido. Ele disse que o Leo das Cavernas era um 
totem poderoso, que oferecia uma firme proteo, mas que  difcil se 
conviver com totens poderosos. Ele falou que, se eu prestasse ateno, o 
meu totem me ajudaria e me deixaria saber quando eu tomasse a deciso 
correta, mas avisou que os totens testam a gente, para saber se voc  
digno, antes de lhe dar alguma coisa. Ele tambm frisou que o Leo das 
Cavernas no teria me escolhido se eu no fosse digna - adiantou Ayla. - 
Talvez ele quisesse dizer capaz de suport-lo.
        A donier ficou surpresa com a profundidade do senso de compreenso 
revelada pelos comentrios de Ayla. Seria o povo que ela chama de Cl 
realmente capaz de tal percepo? Se ela tivesse dito a Grande Me Terra 
em vez de o Esprito do Leo das Cavernas, as palavras poderiam ter sado 
de um Zelandoni.
        Finalmente, Aquela Que Era A Primeira continuou:
        - Nada poderia ser feito por Shevonar, exceto amenizar a sua dor, e 
foi o que voc fez. Utilizar um cataplasma foi um mtodo curioso. Voc 
aprendeu isso com a mulher do Cl?
        - No - disse Ayla, abanando a cabea. - Nunca tinha feito isso antes. 
Mas ele sentia tantas dores, e eu sabia que, com aqueles ferimentos, no 
podia lhe dar nada para beber. Pensei em usar deflimao. J queimei 
verbasco para produzir fumaa que alivia certas tosses, e conheo plantas 
que s vezes so queimadas na Tenda do Suor, mas com os sacos de respirar 
danificados, achei melhor no tentar. Ento, notei o machucado, se bem que 
era mais do que isso. O machucado na pele depois de algum tempo, tornou-se 
quase preto, e eu sabia que certas plantas podem aliviar a dor de 
machucados quando colocadas sobre a pele, e, por acaso, tinha visto algumas, 
quando vim do cercado de caa para c. Ento, voltei para apanhar algumas. 
Isso pareceu ajudar um pouco.
        - Sim, creio que ajudou - concedeu a donier. - Eu mesma teria tentado 
algo assim. Voc parece ter um senso natural, inato, de cura, Ayla. E creio 
que  ele quem est dizendo para voc se sentir mal. Toda boa curadora que 
eu conheo j se aborreceu depois de perder algum. Porm nada mais havia 
que voc pudesse fazer. A Me decidiu cham-lo, e ningum pode frustrar o 
Seu desejo.
        - Voc tem razo,  claro, Zelandoni. No creio que houvesse alguma 
esperana, mas eu queria perguntar assim mesmo. Sei que tem muito a fazer, 
e no quero mais tomar o seu tempo - disse Ayla, ao se levantar para ir 
embora. Obrigada por responder s minhas perguntas.
        A Zelandoni ficou observando a jovem que comeava a se afastar.
        - Ayla - chamou. - Ser que podia fazer uma coisa para mim?
        - Claro, Zelandoni, qualquer coisa - afirmou.
        - Quando voltarmos para a Nona Caverna, voc pode cavar um pouco 
de ocre vermelho? H um terreno plano perto do Rio, junto a uma pedra 
grande. Sabe onde ?
        - Sei, eu vi o ocre quando Jondalar e eu estivemos nadando por l. de 
um vermelho muito brilhante, mais vermelho do que a maioria. Eu apanharei 
um pouco para voc.
        - Eu lhe direi como purificar as mos, e lhe darei um cesto especial 
para ele, quando voltarmos - avisou a Zelandoni.
        Foi um grupo sombrio que voltou  Nona Caverna, no dia seguinte. A 
caada tinha sido um enorme sucesso, mas o preo, alto demais. Assim que 
chegaram, Joharran entregou o corpo de Shevonar  zelandonia, a fim de 
prepar-lo para o enterro. Ele foi levado ao lado mais afastado do abrigo, 
perto da ponte para Rio Abaixo, para ser ritualmente lavado e vestido com 
as roupas cerimoniais e as jias pela Zelandoni, Relona e vrios outros.
        de Marthona. - Ns vamos precisar do ocre vermelho que voc 
prometeu apanhar para mim.
        - Irei imediatamente - prometeu Ayla.
        - Venha comigo. Vou lhe dar um cesto especial e algo para voc cavar - 
disse a mulher. A Zelandoni levou-a at a sua habitao e manteve a cortina 
afastada para Ayla poder entrar. Esta nunca estivera antes na moradia da 
donier, e olhou em volta com interesse. Algo ali lhe lembrava o lar de Iza, 
talvez por causa das muitas folhas secando e outras partes de plantas que 
pendiam de cordes es ticados nos fundos do aposento principal. Havia 
vrios leitos elevados diante das paredes divisrias da parte da frente, 
embora Ayla tivesse certeza de que no era onde a enorme mulher dormia. 
Parecia haver mais dois outros aposentos separa dos por tabiques. Olhando 
pela abertura, ela viu que um deles parecia ser a rea de cozinhar. Sups 
que o outro devia ser o aposento de dormir.
        - Eis o cesto e o escavador para colher a terra vermelha - falou a 
Zelandoni, entregando para ela um resistente recipiente, manchado de 
vermelho pelo uso, e uma ferramenta de cavar, parecida com um enx, presa 
firmemente a um cabo feito de chifre de veado.
        yla deixou a habitao da Zelandoni carregando o cesto e o escavador. 
A Zelandoni a acompanhou at o lado de fora e comeou a se dirigir ao 
extremo sul do abrigo. 
        obo havia encontrado um lugar na varanda de pedra, em que gostava 
de descansar, fora do caminho, mas onde podia observar as atividades. Ao 
ver Ayla, ele imediatamente correu para ela. A donier parou.
         Acho aconselhvel voc manter Lobo longe do corpo de Shevonar - 
afirmou. - Para a prpria proteo do animal. At o homem estar enterrado 
em segurana em solo sagrado, o esprito da vida dele fica flutuando livre e 
muito confuso. Eu sei como proteger pessoas, mas no estou certa de como 
defender um lobo, e estou preocupada com o fato de o el de Shevonar 
querer tentar habitar esse animal. Eu j vi lobos enlouquecerem e 
espumarem pela boca. Acredito que tentavam combater algo, talvez uma 
coisa malfica ou um esprito desnorte ado. A mordida de um animal assim 
mata como um veneno mortal.
         Vou procurar Folara e pedir a ela para vigi-lo enquanto apanho o 
ocre vermelho - prometeu Ayla.
        Lobo seguiu atrs, enquanto Ayla descia a trilha em direo ao local 
onde ela e Jondalar tinham ido nadar e se lavar logo depois de terem 
chegado. Encheu quase todo o cesto, e retornou pelo mesmo caminho. Viu 
Folara conversando com a me, e explicou o pedido da Zelandoni. A moa 
abriu um largo sorriso, contente por ficar com o lobo. A me dela tinha 
acabado de lhe pedir que fosse ajudar a preparar o corpo. No se tratava 
de algo que ela quisesse fazer, e sabia que Marthona no recusaria um 
pedido de Ayla.
        - Talvez seja melhor voc mant-lo no interior da habitao de 
Marthona. Se quiser sair, eu tenho uma corda especial, para colocar no 
pescoo dele, de modo a no sufoc-lo. Lobo no gosta muito, mas deixar 
ficar. Venha comigo, e lhe mostrarei como coloc-la - pediu Ayla.
        Depois, foi at a ponta mais distante da salincia e entregou o ocre 
vermelho para a Primeira. Ela ficou para ajudar a limpar e vestir o corpo de 
Shevonar. A me de Jondalar tambm logo chegou para auxiliar - ela j 
fizera isso muitas vezes antes - e contou a Ayla que Folara tinha convidado 
vrios jovens para ir  sua habitao, e Lobo parecia estar contente entre 
eles.
        Ayla ficou intrigada com a roupa que colocaram no caador morto, 
mas, na ocasio, relutou em demonstrar o seu interesse. A vestimenta 
consistia de uma folgada tnica macia feita com peles de diferentes animais 
e couros tingidos e coloridos em vrios tons, costurados juntos para formar 
um intricado padro, com destaques em contas, conchas e franjas. A tnica 
era cintada, e nos quadris havia um cinturo, uma faixa colorida de pano 
tecido. A perneira, embora menos rebuscada, combinava com a tnica, assim 
como as coberturas dos ps na altura da panturrilha, que tinham franjas e 
bordas feitas de pele presas na parte de cima. Colares de contas, dentes de 
vrios animais e entalhes de marfim foram coloca dos em volta do pescoo e 
engenhosamente arrumados.
        Em seguida, o corpo foi deitado sobre blocos de calcrio, em cima de 
uma grande e flexvel esteira de capim do tamanho de um cobertor, tecida 
com desenhos que foram pintados com ocre vermelho. Compridos cordes 
tinham sido presos em cada ponta, os quais, segundo Marthona explicou a 
Ayla, podiam ser puxados para que a esteira o envolvesse. Os cordes, ento, 
seriam enrolados em volta do corpo amorta lhado e amarrados. Sob a 
esteira, havia um resistente tranado feito com encordoamento de linho, 
que podia ser amarrado em travessas, como uma rede, a fim de que o corpo 
pudesse ser transportado para solo sagrado e baixado para a sepultura.
        Shevonar fora um fabricante de lanas, e suas ferramentas para 
faz-las foram colocadas a seu lado, junto com algumas lanas prontas e 
partes de algumas nas quais ainda estava trabalhando, o que inclua hastes 
de madeira, pontas de mar fim e slex, e os tendes, os cordes e a cola 
usada para fix-los. Os tendes e os cordes eram usados para amarrar as 
pontas nas hastes, e para atar pedaos menores de madeira a fim de fazer 
lanas maiores, as quais eram posteriormente coladas com resina ou cola.
        Relona trouxera os objetos de sua habitao, e soluou de dor ao 
colocar ao alcance de sua mo direita o desempenador de lanas favorito de 
Shevonar. Era feito do tronco de uma galhada de veado-vermelho, pegando 
do chifre central at a da primeira ramificao dos galhos. Cortados os 
galhos, fazia-se um buraco de bom tamanho na larga extremidade onde a 
galhada comeava a se ramificar. Ayla reconheceu a semelhana com a 
ferramenta que Jondalar trouxera de volta na viagem e que pertencera ao 
seu irmo Thonolan. Reprodues de animais, inclusive um carneiro monts
estilizado com chifres enormes, e vrios smbolos, tinham sido entalhados
no instrumento. Ela se lembrou de Jondalar dizer que isso dava potncia ao
desempenador, fazendo com que as lanas feitas com ele voassem retas e 
com preciso, sendo atradas com fora ao animal para o qual eram 
apontadas, realizando um abate correto. Tambm acrescentavam uma 
qualidade esttica agradvel de ser apreciada.
        Enquanto o corpo de Shevonar era preparado sob a superviso da 
Zelandoni, Joharran orientava outros na construo de um abrigo 
temporrio, com uma fina cobertura tipo telhado de sap, sustentada por 
travessas. Quando o corpo ficou pronto, o abrigo foi colocado sobre ele, e 
depois emparedado com placas que podiam ser removidas rapidamente. A 
zelandonia entrou no abrigo para executar o ritual que manteria perto do 
corpo e dentro do abrigo os trs espritos que voavam livres.
        Depois que terminaram, todos os que haviam tocado, manipulado ou 
trabalhado perto do homem cuja fora vital deixara o corpo tiveram de se 
purificar ritualmente. gua era o elemento utilizado, e a gua corrente era 
considerada a melhor para essa purificao em particular. Exigia-se que 
todos imergissem completamente no Rio.
        No importava se estivessem completamente vestidos ou despidos. 
Desceram a trilha para a margem do Rio abaixo do abrigo de pedra. A 
zelandonja invocou a Grande Me, em seguida as mulheres seguiram um 
pouco correnteza acima, e os homens, abaixo. Todas as mulheres tiraram as 
roupas, mas apenas alguns dos homens pularam na gua, com roupa e tudo.
        Jondalar ajudara a construir o abrigo fnebre. Ele e os demais que 
erigiram o abrigo em volta do corpo tambm teriam de se purificar no Rio. 
Depois disso, ele caminhou de volta com Ayla pela trilha. Proleva j tinha 
pronta uma refeio para eles. Marthona sentou-se com Jondalar e Ayla, e a 
Zelandoni juntou-se a eles em seguida, deixando a viva chorosa com sua 
famlia. Willamar veio procurar Marthona, e tambm sentou-se com eles. 
Como estava na companhia de pessoas com quem se sentia  vontade, Ayla 
decidiu que seria um bom momento para indagar a respeito da roupa que 
colocaram no corpo de Shevonar.
        - Todos os que morrem so vestidos com roupas especiais como 
aquelas? perguntou. - Deve ter dado muito trabalho fazer o traje de 
Shevonar.
        - A maioria das pessoas deseja vestir as suas melhores roupas em 
ocasies especiais ou quando so apresentadas a Outras.  por isso que 
possuem vestes cerimoniais. Querem ser reconhecidase causar uma boa 
impresso. Como as pessoas no sabem o que esperar, ao chegarem ao outro 
mundo, elas desejam causar uma boa impresso por l, e querem que, quem 
quer que venha a conhec-las, saiba quem so - explanou Marthona.
        - Eu no acredito que roupas vo para o outro mundo - afirmou Ayla. - 
 o esprito que vai. O corpo continua aqui, no  mesmo?
        - O corpo volta para o ventre da Grande Me Terra - disse a 
Zelandoni - o esprito da vida, o el, retorna ao esprito Dela no outro mundo, 
e tudo tem a sua forma espiritual, as pedras, as rvores, o alimento que 
comemos, at mesmo as roupas que vestimos, O el de uma pessoa no quer 
retornar nu, ou de mos vazias.  por isso que Shevonar foi vestido com as 
suas roupas Cerimonais, e levou junto as ferramentas de seu ofcio e as suas 
armas de caa. Tambm ser dado alimento a ele.
        Ayla aquiesceu. Espetou um pedao relativamente grande de carne, 
prendeu uma ponta nos dentes, segurou a outra extremidade, cortou com a 
faca o pedao que estava na boca e colocou o resto de volta na sua travessa 
de osso de escpula. Mastigou por uns momentos, a expresso pensativa, e 
depois engoliu.
        - As roupas de Shevonar so lindas. Tantas pecinhas foram 
costuradas para formar aquele padro - comentou ela. - Os animais e as 
formas quase parecem contar uma histria.
        - De certo modo, contam - disse Willamar sorrindo. -  assim que as 
pessoas so reconhecidas, distinguem-se umas das outras. Tudo na veste 
Cerimonial significa alguma coisa. Tem que ter o seu eldom e da sua 
parceira, e,  claro, a abel Zelandonii.
        Ayla pareceu intrigada.
        - No entendo essas palavras. O que  eldom? Ou abel Zelandonii? - 
perguntou.
        Todos a olharam surpresos. Tratava-se de termos correntes, e Ayla 
falava to bem Zelandonii que era difcil acreditar que ela no os 
conhecesse.
        Jondalar pareceu um pouco vexado.
        - Acho que nunca pronunciei essas palavras - justificou-se. - Quando 
voc me encontrou, Ayla, eu usava roupas Xaramudi, e elas no demonstram 
do mesmo modo quem uma pessoa . Os Mamuti tm algo semelhante, mas 
no igual. A abel Zelandonii ... bem...  como aquelas tatuagens do lado da 
testa da Zelandoni e de Marthona - tentou explicar.
        Ayla olhou para Marthona e depois para a Zelandoni. Ela sabia que 
todos os membros da zelandonia e os lderes tinham complexas tatuagens 
feitas com quadrados e retngulos de cores diferentes, s vezes adornados 
com linhas e espirais, mas nunca tinha ouvido o nome que davam quilo.

        Zelandoni.
        Jondalar pareceu aliviado.
        - Suponha que iniciemos com "el". Conhece essa palavra?
        - Ouvi voc us-la h pouco - disse Ayla. - Significa algo como esprito 
ou fora vital, acho.
        - Mas tinha aprendido antes essas palavras? - indagou a Zelandoni, 
olhando feio para Jondalar.
        - Jondalar sempre disse "esprito". Isso  errado? - quis saber Ayla.
        - No, no  errado. E creio que a nossa tendncia  maior em usar 
"el" quando h uma morte, ou um nascimento, pois morte  ausncia ou fim 
do el, e nascimento  incio - explicou a donier.
        - Quando uma criana nasce, quando uma nova vida vem para este mun 
do, ela vem repleta de el, a alentadora fora vital - esclareceu Aquela Que 
Era A Primeira. - Depois que a criana recebe um nome, um Zelandoni cria 
uma marca que  o smbolo desse esprito, dessa nova pessoa, e pinta ou 
entalha essa marca em algum objeto... uma pedra, um osso, um pedao de 
madeira. Essa marca  chamada de abel. Cada abel  diferente e  usada 
para designar um indivduo em particular. Pode ser um desenho feito com 
linhas, formas ou pontos, ou a configurao simplificada de um animal. 
Qualquer coisa que lhe venha  mente, quando o Zelandoni medita sobre o 
beb.
        - Era isso que Creb... O Mog-ur... costumava fazer, meditar, para 
decidir qual seria o totem de um novo beb - declarou Ayla, surpresa. Ela 
no estava sozinha.
        - Est se referindo ao homem do Cl que era o... Zelandoni do seu cl? 
- perguntou a donier.
        - Estou! - afirmou Ayla, e confirmou com a cabea.
        - Preciso pensar a respeito disso - falou a enorme mulher, mais 
estarrecida do que pretendia parecer. - Continuando... o Zelandoni medita, 
depois decide a marca. O objeto com a marca, o objeto simblico,  o 
eldom. O Zelandoni o entrega para a me do beb, a fim de mant-lo em 
segurana at a criana crescer. Quando se tornam adultos, a me entrega 
os eldons para os filhos, como parte da cerimnia de chegada  idade. Mas 
a coisa simblica, o eldom,  mais do que um objeto material com desenhos
pintados ou entalhados. Ele  capaz de conter o el, a fora vital, o esprito,
a essncia de cada membro da Caverna, muito mais do modo como uma donii 
contm o esprito da Me. O eldom tem mais poder do que qualquer outro 
objeto pessoal.  to poderoso, que, em mos erradas, pode ser usado 
contra o seu dono. A me  responsvel por guardar os eldons dos filhos 
em um lugar conhecido apenas por ela, e talvez da me dela, ou do parceiro. 
        - Subitamente, Ayla deu-se conta de que seria responsvel pelo 
eldom da criana que carregava.
        A Zelandoni esclareceu que, quando o eldom  entregue a uma 
criana que atingiu a idade adulta, essa pessoa a esconde em um lugar 
conhecido apenas pelo novo adulto, geralmente bem distante. Mas um objeto 
incuo, como uma pedra, pode ser apanhado nas proximidades e servir de 
substituto, para ser entregue ao Zelandoni, que habitualmente o coloca em 
uma fenda na rocha da parede de um local sagrado, talvez uma caverna, 
como uma oferta  Grande Me. Embora a coisa ofertada parea 
insignificante, o seu significado  muito grande.  sabido que Doni  capaz 
de seguir o rastro do objeto usado como substituto, indo de volta at a 
coisa simblica original, e dela at a pessoa a quem pertencia, sem que 
ningum, nem mesmo um Zelandoni, soubesse onde o eldom estaria 
escondido.
        Diplomaticamente, Willamar acrescentou que a zelandonia como um 
todo era altamente respeitada e considerada confivel e benfica.
        - E  muito poderosa - acrescentou. - Para muita gente, um pouco de 
apreenso faz parte do respeito que eles impem, pois qualquer Zelandoni 
individualmente  apenas humano. Sabe-se de poucos que abusaram de seu 
conhecimento e habilidades, e algumas pessoas temem que, havendo a 
oportunidade, um deles talvez seja tentado a usar um objeto poderoso como 
o eldom contra algum de quem desgostem, ou para dar uma lio a algum 
que achem ter feito algo errado. Eu nunca soube de algo assim ter 
acontecido, mas as pessoas gostam de exagerar as histrias.
        - Se algum perturba a coisa simblica de uma pessoa, isso pode 
fazer com que ela adoea, ou mesmo morra. Vou lhe contar uma Lenda dos 
Antigos - props Marthona. 
        - Dizem que, no passado, algumas famlias costumavam colocar juntas, 
num mesmo lugar, todas as suas coisas simblicas. s vezes, at mesmo 
Cavernas inteiras as colocavam num mesmo lugar.
        "Havia uma Caverna que juntava todas as suas coisas simblicas numa 
pequena caverna na encosta de uma colina perto de seu abrigo. Ela era 
considerada um lugar to sagrado, que ningum ousava perturb-lo. Numa 
primavera chuvosa, uma avalanche levou de roldo a encosta, destruindo a 
caverna e tudo o que  havia em seu interior. As pessoas colocaram a culpa 
umas nas outras e deixaram de cooperar entre si. Sem a ajuda comum, a 
vida tornou-se muito difcil. As pessoas se dispersaram, e a Caverna morreu. 
Desse modo, as pessoas aprenderam que, se alguem perturbasse todos os 
eldons, ou mesmo se eles fossem desalojados por deslocamentos naturais 
causados por movimentos da gua, vento ou terra, a fa
onder a sua prpria coisa simblica.
        -  vlido colocar juntas pedras substitutas -acrescentou a Zelandoni. 
        - A Me as aprecia, e  capaz de rastre-las at os objetos originais, 
mas se trata apenas de pequenos smbolos, e no os verdadeiros eldons.
        Ayla ficou maravilhada com a "Lenda". Ela ouvira as pessoas falarem 
das Lendas dos Antigos, mas no se dera conta de que eram histrias 
contadas para ajudar as pessoas a entenderem coisas das quais precisavam 
saber. Elas lhe lembraram as histrias que o velho Dorv costumava contar no 
inverno ao cl de Brun.
        E a donier prosseguiu:
        - O abel  um smbolo, marca ou padro que sempre tem a fora vital 
associada a ele.  usado especificamente para identificar ou particularizar 
algum ou algum grupo. O abel Zelandonii identifica a todos ns, e  o mais 
significativo. Trata-se de um smbolo formado por quadrados e retngulos, 
freqentemente com variaes e adornos. Pode ter cores diferentes ou ser 
feito de diferentes materiais, ou mesmo ter um nmero diferente de 
quadrados, mas precisa ter um formato bsico. Parte disto  um abel 
Zelandonii - sinalizou, apontando para a marca tatuada do lado de sua testa. 
Ayla percebeu que trs filas de trs quadrados faziam parte do desenho.
        "Os quadrados dizem, a todos que os virem, que o meu povo  o 
Zelandonii. Por se poder contar nove deles, a marca tambm me identifica 
como membro da Nona Caverna. H mais coisas nesta tatuagem,  claro - 
continuou. - Ela tambm me identifica como membro da zelandonia e declara 
que sou considerada pelos outros como a Primeira Entre Aqueles Que 
Servem a Grande Me Terra. Embora isso no seja mais to significativo, 
uma parte dela  tambm o meu abel pessoal. Voc vai notar que a 
tatuagem de Marthona  diferente da minha, apesar de algumas partes dela 
serem iguais.
        Ayla virou-se para examinar a tatuagem da ex-lder. Marthona 
inclinou a ca bea para mostr-la melhor.
        - H nove quadrados - contou Ayla -, mas a marca fica do outro lado 
da testa, e existem outros sinais, mais curvos. Agora que os estou 
examinando, um deles parece ter a forma de um cavalo, indo do pescoo, 
passando pelo dorso e descendo para as patas traseiras.
        - Sim - confirmou Marthona. - O artista que fez a tatuagem foi feliz 
e captou a essncia do meu abel. Apesar de bastante estilizado, para poder 
funcionar com o padro como um todo,  bem prximo ao smbolo do meu 
eldom, um cavalo, s que com as formas simplificadas.
        - As nossas tatuagens revelam alguma coisa a nosso respeito - 
explicou a Zelandoni. - Voc sabe que eu Sirvo  Me porque a minha fica do 
lado esquerdo. Voc sabe que Marthona  ou foi lder da Caverna porque a 
dela fica do lado direito da testa. Voc sabe que ambas somos Zelandonii 
por causa dos quadrados, e que pertencemos  Nona Caverna.
        - Creio que a tatuagem de Manvelar tinha trs quadrados, mas no 
recordo se contei quatorze quadrados na testa de Brameval - admitiu Ayla
        - No, no contou - retrucou a Zelandoni -As Cavernas nem sempre 
so identificadas pelo nmero de quadrados, mas a Caverna de uma pessoa  
sempre identificada de alguma forma A tatuagem de Brameval tem quatorze 
pontos numa determinada forma.
        - Nem todo mundo tem tatuagem - frisou Ayla - Willamar tem uma  
pequena no meio da testa, mas Jondalar no tem nenhuma.
        - Somente pessoas que so lideres tm tatuagens na testa - 
esclareceu Jondalar - A Zelandoni  uma lder espiritual, e mame foi lider 
de Caverna Willamar e Mestre Comerciante trata-se de uma posio 
importante, o seu conselho  sempre solicitado, e por isso  considerado um 
lder.
        - Embora muitas pessoas, como Shevonar, prefiram mostrar atravs 
das roupas quem so, algumas tm tatuagens em outras partes, geralmente 
as que no ficam cobertas pelas vestes, como o rosto, o queixo e at as 
mos. No faz muito sentido colocar uma marca de identificao onde 
ningum pode v-la. As outras tatuagens, com freqncia,  mostram algo 
pelo qual uma pessoa deseja ser reco nhecida, e em geral trata-se de uma 
conquista pessoal, e no um importante lao familiar - acrescentou 
Marthona.
        - Entre os Mamuti, os mamutii... a zelandonia deles... tm tatuagens 
nas bochechas, mas no so quadrados. Eles usam divisas - contou Ayla. - 
Elas comeam na forma de diamante, que  como um quadrado virado, com 
uma ponta para cima e a outra para baixo, ou a metade disso, um tringulo.., 
eles gostam particularmente de tringulos apontando para baixo. E repetem 
essa forma pon tuda, com uma ponta encaixada dentro da outra.  vezes, 
fazem ligaes entre elas, criando ziguezagues. Todos esses smbolos 
tambm tm significados. O Mamut estava comeando a me ensinar sobre 
eles no inverno antes de eu ir embora.
        A Zelandoni e Marthona se entreolharam e fizetam um ligeiro sinal de 
concordncia com a cabea A donier havia conversado com a ex-lider sobre 
as habilidades de Ayla e sugerido que ela, talvez, devesse levar em 
considerao se afiliar de algum modo  zelandonia. Ambas concordaram que 
podia ser melhor para  ela e todos os demais.
        -  por isso que a tnica de Shevonar tinha a marca dele, o seu abela, 
e o abel Zelandonii - afirmou Ayla, como se aprendesse maquinalmente uma
lio.
        - Sim. Ele ser reconhecido por todos, inclusive por Doni. A Grande 
Me Terra saber que ele  um dos Seus filhos que vivia na regio sudoeste 
desta terra - confirmou a Zelandoni. - Mas isso  apenas uma parte do 
desenho da tnica Cerimonial de Shevonar. A veste toda tem um significado, 
inclusive os colares. Alm do abel Zelandonii, parte do padro inclui os nove 
quadrados que identificam a sua Caverna, alm de outros padres que 
definem a sua linhagem. H smbolos relativos  mulher com quem se 
acasalou, os abels dos filhos nascidos de sua lareira. O seu ofcio, a 
fabricao de lanas, est representado, e,  claro, o seu smbolo pessoal.
        O abel  de todos o elemento mais pessoal e particularmente mais 
poderoso. A sua roupa Cerimonial, que agora  sua veste fnebre, , posso 
afirmar isso, uma apresentao visual dos seus nomes e laos familiares.
        - A roupa Cerimonial de Shevonar  particularmente bela - garantiu 
Marthona. - Ela foi criada pelo velho fabricante de padres, que j se foi. 
Ele era muito bom.
        Ayla tinha achado muito interessantes as roupas dos Zelandonii, 
algumas bem bonitas - particularmente as de Marthona -, mas no fazia 
idia da complexidade dos significados associados a elas. Algumas pareciam 
enfeitadas demais para o seu gosto. Ela aprendera a apreciar a forma pura e 
a utilidade das coisas que fazia, do mesmo modo que a sua me do Cl. De 
vez em quando, variava o padro de um cesto que tranava ou exibia os veios 
da madeira de uma tigela ou caneco que entalhava e alisava com areia, mas 
nunca havia acrescentado enfeites. S agora comeava a entender de que 
modo as roupas e as jias que as pessoas usavam, como tambm as 
tatuagens faciais, as individualizavam e identificavam. Todo o conjunto de 
Shevonar, se bem que bastante enfeitado, era um daqueles que ela achava 
ter um equilbrio e um padro agradveis. Ayla, porm, ficou surpresa 
quando Marthona contou que fora criado por um velho.
        - As roupas de Shevonar devem ter dado muito trabalho. Por que um 
velho gastaria tanto tempo fazendo roupas? - quis saber Ayla.
Jondalar sorriu.
        - Por que o ofcio dele era criar roupas Cerimoniais e fnebres.  isso 
que faz um fabricante de padres.
        - O velho no fez as roupas Cerimoniais de Shevonar, ele planejou o 
modo pelo qual elas combinariam - explicou Marthona. - Existem muitos 
detalhes a serem includos, e  necessrio uma habilidade especial e um olho 
artstico para combinar de um modo agradvel. Mas ele podia providenciar 
para que as roupas fossem feitas. Muitas pessoas trabalharam intimamente 
ligadas a ele por muitos anos, e essa equipe tinha uma grande demanda. 
Agora, uma delas planeja-as mas no  to boa. Ainda no.
Mas porque o velho, ou qualquer outro, faria isso para Shevonar? cismou 
Ayla.
        - Ele fez uma permuta - justificou Jondalar.
        Ayla franziu a testa. Era bvio que ela ainda no tinha entendido 
direito.
        - Eu pensei que as pessoas permutavam com os outros Acampamentos 
ou Cavernas. No sabia que faziam isso com as pessoas da prpria Caverna.
        - Por que no? - interveio Willamar. - Shevonar era um fabricante de 
lanas. Era conhecido pelas suas lanas bem-feitas, mas no era capaz de 
dispor, do modo que lhe agradasse, todos os elementos e smbolos que 
queria mostrar no seu traje Cerimonial. Portanto, trocou vinte de suas 
melhores lanas pela roupa, e a prezava demais.
        - Foi uma das ltimas que o velho fez - lembrou Marthona. - Depois 
disso, os olhos dele no mais permitiram que executasse o seu ofcio, e 
trocou as lanas de Shevonar, uma a uma, por outras coisas que desejava, 
mas guardou a melhor para si mesmo. Os ossos dele agora esto enterrados 
em solo sagrado, mas levou consigo essa lana para o mundo dos espritos. 
Era a tal que tinha nela os abels dele e de Shevonar.
        - Se ficasse especialmente satisfeito com seu trabalho manual - 
acrescentou Jondalar -, e tambm com o abel da pessoa para quem ele o 
estava executando, um fabricante de lanas s vezes incorporava a marca 
de seu prprio smbolo ao desenho que era entalhado ou pintado nele.
        Ayla descobriu, durante a caada, que eram muito importantes certas 
marcas nas lanas. Sabia que cada lana levava a marca do seu dono, para 
que no houvesse dvida sobre quem havia abatido qual animal. Mas no 
sabia que isso era chamado de um abel, nem que era to importante para os 
Zelandonii. Ela tinha visto uma disputa resolvida por causa das marcas. Duas 
lanas haviam atingido o mesmo animal, mas apenas uma penetrara num 
rgo vital. Embora cada lana levasse a marca simblica do seu dono, ela 
ouvira os caa dores conversarem sobre fabricantes de lanas. Eles sempre 
pareciam saber quem fizera qual lana, se tivesse ou no a marca daquele 
que a tinha feito. O estilo da lana e os enfeites nela revelavam o 
fabricante.
        - Qual  o seu abel, Jondalar? - quis saber ela.
 No  nada especfico, apenas uma marca. Parece com isto - mostrou. Alisou 
a terra seca ali perto e, com o dedo, desenhou uma linha, depois uma 
segunda, que comeava paralela  primeira, mas convergia em um 
determinado ponto na extremidade. Uma pequena linha unia as duas na 
extremidade pontuda. - Eu sempre achei que, quando nasci, a Zelandoni no 
conseguiu pensar em nada naquele dia - falou, depois olhou para a Primeira e 
sorriu. - Ou talvez seja a cauda de um arminho, branca ou com a ponta preta. 
Sempre gostei das caudas dos pequenos arminhos. Voc acha que o meu 
abel pode ser um arminho?
        - Bem, o seu totem  um Leo das Cavernas - disse Ayla -, como o meu. 
Acho que o seu abel pode ser qualquer coisa que voc diga que . Por que 
no um arminho? Os arminhos so pequenas doninhas briguentas, mas muito 
bonitos no inverno, completamente brancos, exceto pelos olhos negros e a 
ponta preta da cauda. Alis, a pelagem castanha de vero deles tambm no 
 nada m. - Pensou por um momento, e em seguida indagou: - Qual  o abel 
de Shevonar?
        - Eu vi uma das lanas dele perto de seu lugar de descanso - lembrou 
Jondalar. - Vou peg-la, para lhe mostrar.
        Rapidamente, apanhou a lana e mostrou-lhe a marca simblica de 
Shevonar. Era a representao estilizada de um muflo, um carneiro 
montanhs com enormes chifres curvos.
        -  melhor eu levar isso comigo - sugeriu a Zelandoni. - Vamos 
precisar, para fazer uma cpia do seu abel.
        - Para que precisam de uma cpia? - perguntou Ayla.
        - O mesmo smbolo contido em suas lanas, roupas e outras posses, vai 
identificar o marco de sua sepultura - explicou Jondalar.
Ao caminharem de volta para as suas habitaes, Ayla meditou sobre a 
conversa e tirou suas prprias concluses. Apesar de ser um objeto 
simblico, o eldom, propriamente dito, ficava escondido, e a marca 
simblica, o abel, que fora feito nele, era conhecido no apenas pela pessoa 
que simbolizava, mas por todos os demais. Ele tinha um certo poder, 
principalmente para a pessoa a quem perten cia, mas no para algum que 
quisesse fazer um mau uso dele. Isso era bem sabi do. O poder verdadeiro 
vinha do desconhecido, do oculto.
        Na manh seguinte, Joharran deu uma pancadinha na coluna ao lado da 
ha bitao de Marthona. Jondalar afastou a cortina para o lado, e 
surpreendeu-se ao ver o irmo.
        - Voc no ia para a reunio esta manh? - indagou.
        - Sim,  claro, mas antes quero falar com voc e Ayla - justificou-se 
Joharran.
        - Ento entre - convidou Jondalar.
        Joharran deu um passo  frente e deixou que a pesada cortina da 
entrada recuasse. Marthona e Willamar saram do aposento de dormir e o 
saudaram calorosamente.
        Ayla estava colocando os restos de alimentos do desjejum numa tigela 
de madeira que ela havia separado para ser a de Lobo. Ergueu o olhar e 
sorriu a


olhando para Ayla.
        - No vou demorar, mas  que estive pensando no arremessador de 
lanas de vocs. Se mais de ns pudssemos arremessar uma lana daquela 
distncia que voc arremessou, Jondalar, talvez tivssemos sido capazes de 
deter o biso antes que ele pisoteasse Shevonar.  tarde demais para 
ajud-lo, mas quero que o resto dos caadores disponha dessa medida de 
segurana. Vocs dois estariam dispostos a mostrar para todos como se faz 
e como se usa um arremessador?
        Jondalar sorriu.
        - Claro que sim. Era o que eu estava querendo o tempo todo. Mal pude 
esperar para mostrar como funciona, para que todos pudessem perceber a 
sua vantagem.
        Todos os residentes da habitao de Marthona, exceto Folara, foram 
com Joharran  rea de reunio perto da ponta sul da enorme lapa. Ao 
chegarem l, j havia um grande nmero de pessoas. Mensageiros tinham 
sido enviados para a zelandonia das Cavernas que participaram da caada, a 
fim de se reunirem e conversarem sobre a cerimnia fnebre. Alm da lder 
espiritual da Nona, estavam presentes a zelandonia da Dcima Quarta, da 
Dcima Primeira, da Terceira, da Segunda e da Stima Cavernas. 
        Tambm apareceram muitos daqueles a quem as pessoas tinham como 
lderes e vrios outros interessados.
        - O Esprito do Biso reivindicou um dos nossos para si prprio - 
declarou a imensa donier. - Trata-se d um sacrifcio que precisamos fazer 
se ele assim o exige. - Olhou para as pessoas, que assentiam em 
concordncia. Sua presena dominadora nunca era to evidente como quando 
estava com outros membros da zelandonia. Ento se tornava evidente por 
que ela era a Primeira Entre Aqueles Que Servem  Me.
        No transcorrer da reunio, dois membros da zelandonia tiveram uma 
opinio discordante sobre um pequeno detalhe, e a Primeira permitiu que a 
discusso seguisse o seu curso. Joharran descobriu que sua mente se 
extraviava da conversa sobre o enterro de Shevonar para refletir sobre 
onde instalar alvos de exerccio. Aps conversar com Ayla e Jondalar, 
Joharran decidiu incentivar os seus caado res a fazerem arremessadores 
de lanas e comearem a praticar antes mesmo de partirem para a Reunio 
de Vero. Queria, o mais rpido possvel, que eles se tornassem experientes 
no uso da nova arma de Jondalar. Mas no naquele dia. Ele sabia que no 
haveria uso de armas naquele dia. Aquele era o dia em que o esprito de 
Shevonar, o seu el, seria guiado para o outro mundo.
        A mente da Zelandoni tambm estava ocupada com outros 
pensamentos embora aparentasse considerar seriamente os pontos de vista 
que lhe eram apresentados. Pensava em procurar o el de Thonolan; que fora 
entregue a pedra com a face opalescente da sepultura dele, no distante 
leste, mas esperava por uma ocasio mais apropriada.
        Ela sabia que Jondalar e Ayla estiveram envolvidos no processo, e 
fazer contato com o outro mundo era temerrio o bastante sob quaisquer 
circunstncias, principalmente para aqueles que no estavam acostumados a 
lidar com ele - poderia ser perigoso at mesmo para quem estava. Era mais 
seguro quando havia muita gente presente durante a cerimnia, para ajudar 
e apoiar aqueles que faziam o contato diretamente.
        Como Shevonar foi morto durante uma caada que envolveu a maioria 
das Cavernas prximas, seu enterro teria de ser uma grande cerimnia que 
incluiria toda a comunidade e invocaria proteo para ela. Essa talvez fosse 
uma boa ocasio para tentar penetrar mais profundamente no mundo 
espiritual em busca da fora vital de Thonolan, sups a Zelandoni. Ela olhou 
de relance para Ayla e perguntou-se como a estrangeira reagiria. Ayla vinha 
continuamente surpreendendo a donier com o seu conhecimento, sua 
competncia, e at mesmo a sua louvvel postura.
        A velha donier ficou lisonjeada quando a jovem lhe perguntara se 
havia mais alguma coisa que pudesse fazer por Shevonar, principalmente por 
causa da habilidade que ela havia demonstrado. E foi surpreendentemente 
apropriado para a jovem sugerir que Jondalar apanhasse uma pedra do local 
onde foi sepultado seu irmo, levando-se em conta o fato de que ela no 
estava familiarizada com as prticas deles, refletiu a Zelandoni. A pedra 
escolhida por ele era certamente incomparvel. Parecia completamente 
comum, at algum vir-la e ver a faceta opalescente azulada, com pontas 
vermelhas cor de fogo. O azul opalescente  indubitavelmente o aspecto da 
clareza, meditou, e o vermelho  a cor da vida, a mais importante das Cinco 
Cores Sagradas da Me. Aquela pedrinha era certamente um objeto de 
poder. Algo teria de ser feito com a pedra depois de lidarmos com ela.
        A Zelandoni mal escutava a discordncia, quando lhe ocorreu que a 
pedra incomum da sepultura de Thonolan era sem dvida um objeto 
substituto. Com ela, a Me poderia localizar o el de Thonolan. O melhor 
lugar e mais seguro para ela seria numa fenda de uma caverna sagrada perto 
das pedras substitutas da famlia dele. Ela sabia onde estavam quase todas 
as pedras substjtutas da Nona Caverna, e muitas das Outras Cavernas. 
Sabia at os esconderijos de alguns eldons, alm do dela mesma. Houvera 
poucas situaes incomuns, que a levaram a intervir, tomar para si os 
deveres de um parente, assumir a responsabilidade pelos eldons de algumas 
crianas e precisar ocultar as coisas simblicas para algumas pessoas 
incapazes, mental e fisicamente de esconderem as suas. Ela nunca falou 
sobre isso, e jamais, por nenhum motivo, tentou tirar vantagem do seu 
conhecimento. Estava, ainda, ciente dos perigos, para si mesma e tambm 
em relao  pessoa representada pelo eldom.
        A mente de Ayla comeou, igualmente, a devanear. No estava 
familiarizada com os costumes fnebres dos Zelandonii, e ficou muito 
interessada, mas a tal discusso, que parecia interminvel, j enchera as 
suas medidas. Ela nem ao menos conhecia algumas palavras hermticas que 
eles usavam. Em vez disso, pensava em algumas das coisas que aprendera 
recentemente.
        Ela tivera conhecimento de que as pessoas eram normalmente 
enterradas em solo sagrado, embora os solos sagrados mudassem aps 
receberem um certo nmero de sepulturas. O fato de espritos demais 
pairarem sobre um mesmo lugar poderia lhes dar muito poder. Os que 
morriam na mesma ocasio, ou aqueles que eram muito chegados, podiam 
ficar juntos, mas no havia um nico cemitrio. Em vez disso, os enterros 
eram feitos em pequenas reas espalhadas por todo o territrio.
        Fosse qual fosse o local escolhido, a rea de enterros era marcada 
por estacas enfiadas no solo, em pequenos intervalos, na cabeceira e em 
volta da sepultura. As estacas eram entalhadas ou pintadas com os abels 
das pessoas que estavam enterradas ali, como smbolos que proclamavam o 
perigo de se entrar na rea. Espritos dos mortos, que no tinham mais 
corpos para habitar, talvez se movessem furtivamente nos confins 
delimitados, mas no conseguiam passar da paliada. A zelandonia fazia a 
cerca exorcstica a fim de que os espritos que no conseguissem encontrar 
o caminho para o mundo espiritual fossem incapazes de atravessar os limites 
e roubar o corpo de algum que ainda vivia neste mundo.
        Sem uma forte proteo, aqueles que entravam na rea cercada 
corriam um grave perigo. Os espritos comeavam a se reunir muito antes de 
um cadver ser colocado para descansar, e sabia-se que tentavam obter a 
posse do corpo de um ser vivo e travar uma batalha pela sua posse com o 
prprio esprito da pessoa. Percebia-se isso por causa de mudanas 
drsticas na pessoa, que podia fazer coisas diferentes de sua personalidade 
ou ver coisas no vistas pelos outros, ou gritar sem qualquer motivo 
aparente, ou se tornar violento, ou ser incapaz de entender o mundo  sua 
volta e recolher-se para dentro de si mesma.
        Aps vrios anos, quando as estacas caam por conta prpria ou 
apodreciam na terra, e a vegetao crescia sobre as sepulturas renovando o 
cemitrio, o solo sagrado deixava de ser considerado assombrado, deixava 
de ser perigoso; os espritos tinham ido embora. Dizia-se que a Grande Me 
Terra os havia chamado para Si e devolvido o lugar aos Seus filhos.
        Ayla e os outros, que estiveram matutando, imediatamente voltaram a 
ateno para a discusso, quando ouviram a voz da Primeira. J que a 
disputa entre os dois membros da zelandonia no pareceu resolver as suas 
diferenas, a pode rosa donier decidiu que estava na hora de intervir. 
Tomou uma deciso que inclua aspectos de todos os pontos de vista, e 
explicou-a de um modo que a fez parecer a nica soluo possvel. Em 
seguida, passaram a debater sobre as salva guardas necessrias queles que 
levariam o corpo de Shevonar para o solo sagra do de sepultamento, a fim 
de que ficassem protegidos das almas perdidas e errantes.
        Haveria um festim para fortalecer a todos, a fim de que o esprito de 
cada pessoa tivesse energia para combater as almas perdidas, e,  claro, 
todos olharam para Proleva, que ia organiz-lo. Alm disso, resolveram que 
alimentos seriam colocados na sepultura, junto com as armas e ferramentas. 
O alimento na sepultura no seria ingerido, mas o esprito da comida iria 
nutrir o esprito que flutuaria livre, com o objetivo de lhe dar foras para 
encontrar o seu caminho. Foi feito todo o possvel para que a alma que 
estava de partida no tivesse motivo para voltar ou se demorar por ali.
        Mais tarde, naquela manh, Ayla saiu com os cavalos, cavalgando Huiin, 
com Racer e Lobo seguindo logo atrs. Depois, ela os escovou, ao mesmo 
tempo em que os examinava, para ver se estava tudo bem. Estava 
acostumada a passar todos os dias com os cavalos, mas desde a sua chegada, 
havia ficado a maior parte do tempo com o povo de Jondalar, e sentia 
saudades dos animais. E sups, pelo modo como a receberam, com tanto 
afeto e entusiasmo, que eles sentiam falta dela, e tambm de Jondalar.
        No caminho de volta, parou na moradia de Joharran e perguntou se 
Proleva sabia onde estava Jondalar.
        - Ele foi com Joharran, Rushemar e Solaban cavar um buraco para 
Shevonar - informou a mulher. Proleva tinha muito o que fazer, mas, naquele 
instante, estava esperando por outras pessoas e lhe restava um pouco de 
tempo. Ela aguardava uma ocasio de conhecer melhor aquela mulher com 
tantos talentos, que em breve se uniria ao irmo de seu parceiro, e 
perguntou: - Voc gostaria de um pouco de ch de camomila?
        Ayla hesitou.
        - Preciso voltar para a habitao de Marthona, mas adoraria tomar um 
ch com voc em outra ocasio.
        Lobo, que gostara daquela sada tanto quanto os cavalos, tinha seguido 
Ayla at o interior da habitao. Jaradal viu o animal e correu na direo 
dele. O lobo cutucou o menino com o focinho, esperando uma festinha. 
Encantado, Jaradal deu uma risadinha e esfregou a cabea de Lobo.
        - Devo lhe confessar, Ayla - disse Proleva -, que fiquei muito preocupa 
da, a princpio, quando Jaradal falou que tinha tocado no seu animal.  difcil 
de acreditar que um animal carnvoro, um caador como esse, possa ser to 
dcil com crianas. Quando Folara o trouxe aqui e vi Marsola rastejar por 
cima dele, no pude acreditar. 
        Ela puxou o plo dele, cutucou os seus olhos, at mesmo segurou a sua 
mandbula e olhou dentro da boca, e Lobo simplesmente ficou deitado ali, 
como se estivesse adorando. Eu fiquei completamente pasmada. At mesmo 
Salova sorriu, embora tenha ficado apavorada quando viu pela primeira vez a
bebezinha dela com o lobo.
        - Lobo tem uma predileo especial por crianas - esclareceu Ayla. - 
Ele cresceu brincando e dormindo com elas na habitao de terra do 
Acampamento do Leo. Elas eram os seus companheiros de ninhada, e lobos 
adultos so protetores e indulgentes com os jovens de sua alcatia.
        Depois, quando Ayla e Lobo seguiam caminho para a habitao de 
Marthona, algo a respeito de Proleva a incomodava no fundo de sua mente. 
Tratava-se do modo como se portava, do modo como andava e do jeito como 
a sua tnica frouxa se ajustava. De repente, deu-se conta, e sorriu. Proleva 
estava grvida!
        Quando Ayla chegou  habitao de Marthona, no havia ningum l. 
Isso a fez desejar ter ficado para tomar o ch com Proleva, mas ficou 
imaginando onde poderia estar a me de Jondalar. Se no estava com 
Proleva, ela devia ter ido falar com a Zelandoni, deduziu Ayla. Elas pareciam 
ntimas, ou, pelo menos, respeitavam uma  outra. Estavam sempre 
conversando ou trocando olhares cmplices. Se fosse l procurar por 
Marthona, isso lhe daria um motivo para visitar a donier, a quem, 
indiscutivelmente, ela queria conhecer melhor.
        Claro que no preciso encontrar Marthona, e neste momento a 
Zelandoni deve estar muito ocupada. Talvez eu no deva importun-la, 
pensou Ayla, mas ela se achava sem serventia e queria algo significativo para 
fazer. Talvez eu pudesse ajudar. Pelo menos poderia me oferecer.
        Ayla foi  habitao da Zelandoni e bateu de leve na placa prxima  
cortina da entrada. A mulher devia estar ali perto. Ela afastou a cortina 
quase num piscar de olhos.
        - Ayla - exclamou, aparentando surpresa ao ver a jovem mulher e o 
lobo.
        - Posso ajud-la em algo?
        - Estou procurando Marthona. Ela no est em casa, e tambm no 
estava com Proleva. Achei que podia estar aqui.
        - No, no est.
        - Bem, lamento t-la incomodado. Sei que est muito ocupada. No 
devia ter tomado o seu tempo - desculpou-se Ayla.
        - No, tudo bem - afirmou a donier, e ento percebeu que a jovem 
parecia tensa, mas vida, e de certo modo esperanosa. - Est procurando 
Marthona por algum motivo em especial?
        - No, estava apenas procurando por ela. Pensei que ela talvez 
precisasse de ajuda em alguma coisa.
        - Se est procurando alguma coisa para fazer, talvez possa me ajudar 
- sugeriu a Zelandoni, mantendo a cortina afastada ao mesmo tempo em que 
recuava. O enorme e agradecido sorriso de Ayla fez a mulher mais velha 
perceber o motivo verdadeiro da visita.
        - Lobo pode entrar? - perguntou Ayla. - Ele no vai perturbar em nada.
        - Eu sei que no. Eu j lhe disse que ns nos entendemos - lembrou a 
donier, mantendo a cortina afastada para que o animal entrasse depois de 
Ayla.
        - O ocre vermelho que colheu para mim precisa ser triturado para 
virar p. Ali est o almofariz - indicou a Zelandoni uma pedra manchada de 
vermelho com uma depresso em forma de pires criada por anos de uso -, e 
aqui est a pedra para triturar. Jonokol chegar em breve, e precisar do 
ocre para me ajudar a fazer uma estaca com o abel de Shevonar. Ele  o 
meu aclito.
        - Eu conheci um homem chamado Jonokol, no banquete de boas-vindas, 
mas ele disse que era um artista -disse Ayla.
        - Jonokol  um artista. E tambm meu aclito. Entretanto, creio que  
mais artista do que aclito. Ele no est interessado em curar, nem mesmo 
encontrar o seu caminho para o mundo dos espritos, mas ainda  muito 
jovem. O tempo dir. Pode ser que ele sinta o chamado. Enquanto isso, 
trata-se de um timo artista e d um excelente aclito - disse a Zelandoni, 
e depois acrescentou: - Muitos artistas tambm fazem parte da zelandonia. 
Jonokol tem sido um artista desde muito jovem, quando comeou a 
demonstrar talento.
        Ayla ficou contente de poder transformar em p o xido de ferro 
vermelho, pois era um modo de ajudar sem ter um treinamento especial, mas 
a repetitiva atividade fsica deixou a sua mente livre para pensar. Pensou na 
zelandonia e por que artistas como Jonokol eram levados para o grupo ainda 
jovens; no havia como eles saberem coisa alguma do que era aquilo ou o que 
significava. Por que artistas precisavam fazer parte da zelandonia?
        Jonokol chegou, enquanto ela estava trabalhando. Ele olhou para Ayla, 
e depois para o lobo, com uma certa surpresa. Lobo levantou a cabea, 
depois olhou para Ayla, o corpo retesado, para se levantar, se ela sinalizasse. 
Ayla fez um gesto significando que o homem era bem-vindo. O lobo relaxou, 
mas continuou alerta. Ayla veio ajudar, Jonokol - avisou a Zelandoni. - Sei 
que j se conheceram.
        - Sim, na noite do dia em que ela chegou. Saudaes, Ayla, 
cumprimentou Jonokol.
        Ayla acabou de transformar em um p fino os pequenos grumos 
vermelhos, e devolveu para a Zelandoni o almofariz, a pedra de triturar e o 
p vermelho, torcendo para que a mulher lhe desse outra coisa para fazer, 
mas logo ficou evidente que ambos estavam esperando que ela se retirasse.
        - H mais alguma coisa que gostaria que eu fizesse? - indagou 
finalmente.
        - No momento, no - respondeu a donier.
        Ayla assentiu, fez um sinal para Lobo e partiram. Marthona ainda no 
havia chegado, quando ela voltou para a habitao, e como Jondalar tambm 
no estava, ela no sabia o que fazer. Eu devia ter ficado para tomar ch 
com Proleva, pensou. Ento, decidiu-se: por que no voltar l? Ayla queria 
conhecer melhor a mulher talentosa e admirada. Afinal, iam ser parentes; 
ela era a parceira do irmo de Jondalar. Talvez eu at pudesse levar um ch 
delicioso, imaginou Ayla, algo com flores secas de tlia, para acrescentar 
uma agradvel fragrncia e um pouco de doura. Ser que existe um p de 
tlia aqui perto?
        O s homens estavam quase terminando de cavar a sepultura, e 
contentes por causa disso. A zelandonia invocara uma forte proteo para 
eles, antes de sarem a fim de preparar o solo para receber o corpo de 
Shevonar, inclusive polvilhara suas mos com ocre vermelho, mas, mesmo 
assim, todos tremeram por dentro ao atravessar a barreira invisvel 
delimitada pelas estacas enta lhadas e pintadas de vermelho.
        Os quatro escavadores vestiam enormes peles de animais sem formas 
e totalmente desprovidas de enfeites, uma espcie de cobertor com um 
buraco no meio para a cabea.
        Usavam um capuz cobrindo o rosto, com buracos recortados para os 
olhos, mas nenhum para boca e narinas - orifcios corporais que eram um 
convite  entrada de um esprito.
        A cobertura tinha por finalidade esconder as suas identidades de 
quaisquer espritos que por acaso estivessem emboscados nas proximidades, 
 espera de um corpo vivo para habitar; no podia haver nenhum abel, 
nenhum smbolo ou desenho de qualquer espcie que anunciasse quem havia 
passado dos limites do solo sagrado para perturbar os espritos. Eles no 
falavam, pois mesmo o som das vozes era fcil de se delegar, e Joharran 
decidira que, como tinha sido o responsvel pela organizao da malfadada 
caada, ele seria um dos escavadores. E, para ajud-lo, escolhera os seus 
dois auxiliares, Solaban e Rushemar, e o irmo Jondalar. Embora os quatro 
homens se conhecessem bem, desejavam ardentemente que nenhum el 
relutante se tornasse aparente para eles.
        Era um trabalho rduo picar o solo duro com picaretas de pedra. O sol 
estava alto, fazia muito calor, e eles suavam. Ficava difcil respirar no 
interior do capuz de couro, mas nenhum dos fortes e destemidos caadores 
admitia a possibilidade de retir-lo. Qualquer um deles seria capaz de 
enfrentar a investida de um rinoceronte e esquivar-se para o lado no ltimo 
momento. Muito mais coragem, porm, era preciso para desafiar os perigos 
invisveis do solo consagrado.
        Nenhum deles queria permanecer mais do que o necessrio no cercado 
as sombrado pelos espritos, e trabalhavam com o mximo de rapidez 
possvel, retirando a terra que era solta pelas picaretas. As ps que 
utilizavam eram feitas de grandes ossos achatados, escpulas ou plvis de 
animais de grande porte, que tinham um dos lados afunilado, e depois alisado 
com um seixo e areia do rio, a fim de criar uma borda acentuada para tornar 
mais fcil a remoo de terra. O lado oposto era preso a um galho comprido. 
A terra era colocada sobre peles de ani mais semelhantes s que eles 
usavam, e puxada para longe da beira do buraco, a fim de deixar espao para 
as pessoas que ali iriam se aglomerar.
        Joharran sinalizou com a cabea para os demais, depois que as ltimas 
pores de terra solta foram retiradas do buraco. Estava suficientemente 
profundo. Juntaram as ferramentas e partiram apressados. Ainda sem se 
falar, rumaram para longe das reas habitadas, at um local que fora 
selecionado anteriormente, um lugar raramente freqentado pelas pessoas.
        Joharran espetou no soio a ponta da picareta, e os escavadores 
fizeram um segundo buraco, menor do que o primeiro, retiraram capuzes e 
coberturas e os jogaram l dentro; em seguida, cuidadosamente, colocaram 
a terra de volta. As ferramentas de escavao voltariam para o lugar 
especial em que eram guardadas, mas os escavadores tomariam cuidado para 
no deixar que qualquer parte delas tocasse em seus corpos nus, alm das 
mos avermelhadas pelo ocre.
        Seguiram diretamente para uma pequena caverna especial, prximo ao 
nvel do vale, nos rochedos de calcrio marcados por cavidades naturais. 
Uma estaca entalhada com o abel dos Zelandonii e outros smbolos estava 
enfiada no solo diante dela. Entraram, devolveram as ferramentas de 
escavar sepulturas e retiraram-se rapidamente; na sada, agarraram com 
ambas as mos a estaca e murmuraram alguns sons a meia-voz, pedindo 
proteo  Grande Me. Depois, seguiram uma trilha sinuosa at uma outra 
caverna na rea montanhosa, que era usada basicamente pela zelandonia 
para cerimnias envolvendo homens e rapazes.
        Os seis membros da zelandonia das Cavernas que haviam participado 
da trgica caada estavam  espera deles do lado de fora da caverna, 
acompanhados de vrios aclitos.
        Eles tinham gua, aquecida quase ao ponto de fervura com pedras 
quentes, e uma grande variedade de plantas produtoras de saponina, 
chamadas comumente de ervas-saboeiras.
        A espuma da esfregao tornou-se vermelha do ocre usado para 
proteger as mos e os ps deles. gua quente, quase ao ponto insuportvel, 
foi despejada nos membros manchados sobre um pequeno buraco cavado no 
cho. A abluo foi executada uma segunda vez, para se certificar de no 
ter restado um nico vestgio de vermelho. Limparam at mesmo sob as 
unhas com pequenas varetas pontudas. Lavaram-se uma terceira vez. Foram 
inspecionados e, se necessrio, lavados novamente, at cada Zelandoni se 
dar por satisfeito.
        Em seguida, cada homem apanhou um cesto impermevel com gua 
morna, e mais erva-saboeira, e lavou o corpo inteiro, inclusive os cabelos. 
Somente depois de serem declarados purificados e terem permisso de 
vestir as prprias roupas, respiraram com mais tranqilidade. Aquela Que 
Era A Primeira deu a cada um deles um caneco de ch quente, de gosto 
amargo, e os instruiu para que primeiro bochechassem e cuspissem em um 
buraco especial, e depois bebessem o restante. Bochecharam e beberam 
rapidamente, e saram s pressas, aliviados por ter acabado aquela parte. 
Nenhum deles gostava de permanecer to perto de uma mgica to 
poderosa.
        Jondalar e os outros homens entraram na habitao de Joharran, 
conversan do baixinho, ainda cientes do contato prximo que tiveram com o 
mundo dos espritos.
        - Ayla esteve aqui  sua procura, Jondalar - informou Proleva. - Ela se 
foi, e depois retornou com um ch delicioso. A gente conversou um pouco, 
mas depois chegaram vrias pessoas para falar sobre o festim do enterro. 
Ela se ofereceu para ajudar, mas lhe falei que ficaria para a prxima vez. 
Estou certa de que a Zelandoni tem outros planos para ela. No faz muito 
tempo que se foi. Eu tambm tenho que ir. H comida e ch quente para 
voc, na rea de cozinhar.
        - Ayla disse aonde ia? - indagou Jondalar.
        - Para a casa de sua me.
        - Obrigado. Vou ver o que ela queria.
        Coma alguma coisa antes. Foi um trabalho duro - comentou Proleva. 
        Ele comeu rapidamente, engoliu um pouco de ch e preparou-se para 
sair.
        - Me avise quando a zelandonia estiver pronta, Joharran - pediu 
Jondalar ao sair.
        Quando ele chegou  habitao de sua me, todos estavam sentados 
em volta da mesa baixa, tomando o vinho de Marthona.
        - Pegue o seu caneco, Jondalar - disse ela. - Vou lhe servir um pouco. 
Este tem sido um dia difcil, e ainda no terminou.  melhor a gente tentar 
descontrair um pouco.
        - Voc parece todo esfregado e limpo - observou Ayla.
        - Sim, e estou contente por ter acabado. Quero fazer a minha parte, 
mas detesto escavar em solo consagrado - frisou Jondalar, e sentiu um 
arrepio.
        - Sei como se sente - disse Willamar.
        - Se estava cavando, por que est to limpo? - quis saber Ayla.
        - Ele estava ajudando a cavar a cova da sepultura - explicou Willamar 
-, e teve que ser completamente purificado, depois de ter escavado em 
terreno sagrado e perturbado os espritos. A zelandonia usa gua quente, 
muita erva-saboeira, e lava vrias vezes.
        - Isso me faz recordar da poa de gua quente dos Losadunai. Lembra, 
Jondalar? - perguntou Ayla. Ela notou que a expresso dele mudou para um 
sorriso sugestivo, e ela rememorou uma agradvel tarde que passou com 
Jondalar na fonte natural de gua quente. - Lembra daquela espuma 
purificadora que eles faziam com gordura derretida e cinzas?
        - Lembro. Fazia mesmo muita espuma e tornava as coisas mais limpas 
do que eu j tinha visto - retrucou. - At mesmo tirava todo o gosto e o 
cheiro. - O sorriso dele aumentou, e Ayla percebeu que estava caoando 
dela com o duplo sentido. Na ocasio, quando eles haviam compartilhado os 
Prazeres, ele dissera que no conseguia sentir o gosto dela. Mas foi uma 
experincia interessante sentir-se to limpa.
        - Eu estive pensando - aventou Ayla, ainda evitando as olhadelas 
amorosas de Jondalar e tentando ficar sria - que essa espuma purificadora 
poderia ser muito til para a purificao. Umas mulheres Losadunai me 
mostraram como faz-la, mas difcil, e nem sempre d certo. Talvez eu deva 
tentar fazer um pouco, para mostrar  Zelandoni.
        - No consigo imaginar de que modo gordura e cinzas conseguem 
deixar algum limpo - cismou Folara.
        - Eu mesmo no acreditaria, se no tivesse visto - frisou Ayla -, mas, 
quando voc mistura as duas coisas, de um certo modo, acontece alguma 
coisa, e no tem gordura nem cinzas, mas uma outra coisa.  preciso 
adicionar gua s cinzas, cozer um pouco, e deixar esfriar antes de coar. 
Fica uma coisa muito forte, e at mesmo causa bolhas, se voc no tomar 
cuidado.  como a parte do fogo que queima a gente, mas sem o calor. Depois, 
voc acrescenta gordura derretida a isso na mesma quantidade do lquido j 
existente, mas tanto a gordura quanto o lquido coado precisam ter a mesma 
temperatura da pele, da parte interna do pulso. Se voc fez tudo certo, ao 
misturar os dois, surge uma espuma capaz de limpar qualquer coisa. Limpa 
at mesmo gordura. 
        - Por que algum resolveria misturar gordura, gua e cinzas? - 
Refletiu Folara.
        - A mulher que me ensinou disse que foi um acidente, na primeira vez 
que fez isso, esclareceu Ayla. Ela estava cozinhando ou derretendo um 
pouco de gordura sobe um fogo num buraco, quando comeou a chover 
grosso. Ela correu para se proteger. Quando voltou, achou que a gordura 
tinha se estragado. Ela havia transbordado para o buraco que estava repleto 
de cinzas e se enchido com gua da chuva. Ento viu a colher de pau que 
estava usando para mexer. Como levara muito tempo para ser entalhada e 
era um de seus utenslios favoritos resolveu recuper-la. afastou uma 
espuma escorregadia, que pensava ser a gordura estragada, para pegar a 
colher, e, ao lavar a espuma, descobriu que no apenas enxaguava com 
facilidade, como deixou limpa a sua mo e o utenslio.
        Ayla no sabia que a lixvia era extrada de cinzas de madeira e, 
quando misturada  gordura numa determinada temperatura, causava uma 
reao qumica que criava sabo. No precisava saber como o processo fazia 
uma espuma purificadora, apenas sabia que fazia. No era a primeira vez 
nem seria a ltima que uma descoberta era feita acidentalmente.
        - Tenho certeza de que a Zeelandoni vai se interessar - garantiu 
Martona. ela tinha ficado de olho no dissimulado jogo de cena entre o seu 
filho e a jovem mulher. Jondalar no foi to sutil quanto pensou, e ela 
tentava ajudar Ayla a manter a conversa nun nvel mais srio. Afinal de 
contas em pouco tempo eles iriam a um funeral. No era momento de se 
pensar em prazeres. - Certa vez eu fiz uma descoberta como essa, quando 
preparava vinho. Depois disso, o meu vinho sempre fica bom. 
        - Voc, finalmente, vai revelar o seu segredo mame? - Provocou 
Jondalar. 
        - Que segredo?
        - Como voc faz  um vinho que sempre fica melhor do que o de 
qualquer um outro, e nunca vira vinagre, afirmou Jondalar com um sorriso. 
        Ela sacudiu a cabea com um ar irritado. - No encaro isso como um 
segredo Jondalar, mas nunca conta a ningum como  que faz. -  porque eu 
no sei se isso far alguma diferena ou se vai funcionar para outra pessoa. 
argumentou Martona. - Mas no sei porque fiz na primeira vez, mas vi a 
Zelandoni fazer algo semelhnate com uma de suas bebidas medicinais, e isso 
pareceu dar a ela uma mgica poderosa. Imaginei que isso tambm podia dar 
alguma magia ao meu vinho, revelou Martona. - Bem, conte para ns, pediu 
Jondalar. Eu sempre soube que voc fazia algo especial.
        - Quando a Zelandoni estava fazendo determinado remdio eu a vi 
mastigar algumas ervas. Ento na vez seguinte eu fui espremer bagas para 
fazer vinho e tambm mastiguei umas ervas e as cuspi no caldo antes de ele 
comear a fermentar.  estranho imaginar que isso faria alguma diferena, 
mas, aparentemente, faz.
        -Iza me ensinou que h alguns remdios e ecertas bebidas especiais 
que para fazer efeito precisam ser mastigadas com a boca, interveio Ayla. 
Talvez misturando as bagas para vinho com um pouco do suco da boca 
acrescente algum ingrediente especial. - Ela nunca tinha pensado nisso antes, 
mas era possvel. 
        - Eu tambm peo a Doni para ajudar a transformar em vinho o suco 
da fruta. Talvez seja esse o verdadeiro segredo, props Martona. Se a 
gente no pede demais s vezes a me nos concede o que desejamos, quando 
era pequeno, Jondalar, isso nunca falhou para voc. Quando pedia uma coisa 
para Doni sempre parecia conseguir o que desejava. Isso ainda  verdade? 
Jondalar enrrubeceu levemente. No se dava conta de que mais algum 
soubesse, mas devia ter adivinhado que Marthona sabia.
        - Geralmente, respondeu, desviando a vista do olhar direto dela.
        - Alguma vez ela no lhe concedeu o que voc pediu? pressionou a me.
        - Uma vez. -  admitiu contorcendo-se diante do incmodo. 
        Ela o fitou e depois assentiu - Sim, imagino que tenha sido de mais at 
mesmo para a grande Me Terra deixar que voc conseguisse. No creio que 
agora esteja arrependido, no  mesmo? 
        Todos pareceram intrigados com a conversa um tanto enigmtica 
entre me e filho. Jondalar estava visivelmente embaraado. Ayla  os 
observava e ento lhe ocorreu subitamente que Martona falava sobre a 
Zelandoni, ou melhor, Zolena, a jovem mulher que ela tinha sido.
        - Voc sabia Ayla, que cavar um solo consagrado  algo que somente 
os homens fazem? - Perguntou Willamar, mudando de assunto para disfarar
aquele momento embaraoso. - Seria perigoso demais expor  foras to 
perigosas as abenoadas de Doni.
        - Ainda bem, disse Folara. - J  ruim o bastante ter de lavar e vestir
uma pessoa cujo esprito se foi. Detesto ter que fazer isto! Fiquei to 
contente hoje pela manh Ayla, quando voc me pediu para cuidar de lobo. 
Convidei todas as minhas amigas e pedi levarem seus irmos e irms 
menores. Lobo conheceu uma poro de gente.
        - No admira que ele esteja to cansado, comentou Marthona, olhando 
na direo do lobo que estava em seu lugar de dormir. Eu mesma dormiria 
depois de um dia como este.
        - No creio que ele esteja dormindo, observou Ayla. Ela sabia a 
diferena entre as suas posies de descansar e dormir, mas voc tem 
razo. Ele est cansado. Lobo adora os pequeninos mas eles o deixam 
esgotado.
        Todos se viraram com um sobressalto ao ouvirem uma leve batida na 
placa ao lado da entrada. Como se estivessem  espera daquilo.
        - A zelandonia est pronta, anunciou a voz de Joharran. Os cinco que 
se encontravam no interior da habitao engoliram rapidamente o resto de 
vinho de seus canecos, e saram. Lobo seguiu-os mas Ayla o tinha amarrado 
com a corda especial auma estaca firmemente plantada no muito distante 
da habitao de Martona para mant-lo afastado da cerimnia do enterro a 
qual todos iriam comparecer.
        Muita gente j estava reunida em volta do abrigo fnebre. Havia um 
leve sussurro de conversa enquanto as pessoas se cumprimentavam e 
falavam, mas em voz baixa.
        As divisrias da parede haviam sido removidas e o corpo de Shevonar 
estava exposto  vista de todos, deitado sobre sua mortalha, a esteira de 
capim e a rede tranada, que depois seria dobrada sobre ele para o 
transporte at o cemitrio. Mas, antes, seria levado ao Campo de Reunio, 
que era grande o suficiente para conter reunidas todas as pessoas das seis 
Cavernas da regio que haviam tomado parte na caada.
        Jondalar saiu com o irmo e vrios outros, logo depois que chegaram 
ao local. Marthona e Willamar sabiam o papel que desempenhariam nos 
rituais que se seguiriam, e se apressaram a tomar os seus lugares. Ayla no 
sabia o que fazer e sentia-se desorientada. Decidiu ficar ao fundo, 
observando, e esperava no fazer nada que pudesse constrang-la ou  
famlia de Jondalar.
        Folara apresentou a estrangeira, que o irmo havia trazido, a vrias 
moas amigas suas, e a dois rapazes. Ayla conversou com eles, ou, pelo 
menos tentou. Eles j tinham ouvido tantas histrias a seu respeito, que 
ficaram assustados, ou com a lngua presa por causa da timidez, ou 
tagarelando excessivamente. A princpio, ela no ouviu o seu nome ser 
chamado.
        - Ayla, acho que esto querendo voc - avisou Folara, ao perceber a 
Zelandoni se aproximar deles.
        - Vocs tero que desculp-la - anunciou a donier aos jovens 
admiradores de Ayla. - Ela precisa ficar l na frente, com a zelandonia. - 
Ayla seguiu a mulher.
        Longe do alcance dos ouvidos dos mais jovens, a mulher falou baixinho 
para Ayla: - A zelandonia no come em um enterro. Voc ir com a gente, 
mas, depois, se juntar a Jondalar e Marthona no incio da fila, para pegar o 
seu alimento para o festim.
        Ayla no questionou o motivo pelo qual teria de ir com a zelandonia 
jejuadora e depois comer com a famlia de Jondalar, deixando para pensar 
nisso depois. Ela no fazia idia do que a esperava. Tudo que pde fazer foi 
segui-los, quando comearam a atravessar a ponte para Rio Abaixo e 
continuaram rumando para o Campo de Reunio.
        A zelandonia no comia porque precisava jejuar para se comunicar 
com o outro mundo, o que seria necessrio durante o enterro. Depois disso, 
a Primeira planejava fazer uma extensa excurso metafsica para contactar 
o el de Thonolan. Era sempre difcil viajar para o outro mundo, mas j 
estava acostumada e sabia o que tinha de fazer. Jejuar fazia parte da vida 
da zelandonia, e ela, s vezes, perguntava-se por que continuava a aumentar 
de tamanho, j que freqentemente deixava de comer.
        Talvez ela compensasse no dia seguinte, mas no lhe parecia que 
comia mais do que os outros. Estava ciente de que muitas pessoas achavam 
que o enorme tamanho contribua para a sua presena e a sua mstica. A 
nica objeo que ela fazia era que comeava a sentir cada vez mais 
dificuldade de se movimentar comodamente. Baixar-se, subir uma ladeira, e 
sentar-se no cho para depois se levantar, era tudo muito difcil, mas a Me 
parecia desej-la substanciosa, e, se era desejo Dela, a donier o concedia de 
boa vontade.
        Pela quantidade de comida espalhada perto do paredo dos fundos, 
distante do local onde o corpo foi colocado, era evidente que muitas pessoas 
haviam trabalhado arduamente para prepar-la. "Isto  como uma pequena 
Reunio de Vero", Ayla ouviu algum comentar, e pensou: se isto  pequeno, 
como ser a grande Reunio de Vero dos Zelandonii? Tinha certeza de que 
no ia se lembrar de todos, pois havia cerca de duzentas pessoas s da Nona 
Caverna, e mais a gente de cinco outras Cavernas, todas elas populosas. Ela 
achava que no havia suficientes palavras de contar para todas elas. S 
conseguia imagin-las como uma espcie de manada de bises, quando eles se 
reuniam para acasalar ou migrar.
        Quando os seis membros da zelandonia e os seis lderes das Cavernas 
se acomodaram em volta do abrigo fnebre, que fora desmontado, 
transportado para o campo e novamente erigido, as pessoas comearam a se 
sentar no cho e a ficar em silncio. Algum havia enchido uma enorme 
travessa com pores selecionadas d banquete, incluindo um pernil inteiro 
de biso. Aquela Que Era A Primeira apanhoua e levantou-a bem alto, para 
todos verem. Em seguida, colocou-a ao lado do corpo de Shevonar.
        - Os Zelandonii realizam este banquete em sua homenagem, Shevonar 
- disse ela, dirigindo-se ao morto. - Por favor, junte-se a ns em esprito, 
para que possamos desejar ao seu el uma Boa Jornada em sua viagem para 
o outro mundo.
        A seguir, todos fizeram uma fila para apanhar as suas pores. Na 
maioria das vezes, quando havia um festim, as pessoas faziam uma fila ao 
acaso, mas aquela era uma ocasio pblica formal, uma das poucas vezes em 
que havia uma ordem especfica. As pessoas formaram uma fila, de acordo 
com a sua posio, para poder ajudar o el de Shevonar a fazer a difcil 
transio, mas raramente demonstrando status para anunciar o seu lugar 
neste mundo aos espritos do outro.
        Relona, a parceira lacrimosa, e os seus dois filhos, foram os primeiros, 
j que era o funeral de Shevonar, seguidos pelo irmo deste, Ranokol. 
Joharran, Proleva e Jaradal vieram a seguir, depois Marthona e Willamar, 
juntamente com Folara, Jondalar - os membros mais proeminentes da Nona 
Caverna - e Ayla.
        Sem o saber, ela causara um problema e tanto. Como estrangeira, a 
sua con dio na Caverna lhe reservava o ltimo lugar. Se ela e Jondalar j 
tivessem sido oficialmente prometidos em uma cerimnia reconhecida, o seu 
lugar facilmente seria entre a proeminente famlia de Jondalar, mas o 
prximo acasalamento deles era apenas um entendimento, e a aceitao dela 
pela Caverna ainda no fora formalmente sancionada. Quando surgiu a 
questo, Jondalar deixou claro que, onde quer que Ayla fosse colocada, ele 
ficaria a seu lado. Se ela fosse para o ltimo lugar da fila, ele tambm iria.
        Originalmente, o status de um homem provinha da me, at ele se 
acasalar. Depois, isso podia mudar. Normalmente, antes de um acasalamento 
ser oficialmente autorizado, as famlias, e s vezes os lderes e a zelandonia, 
ocupavam-se das negociaes do Matrimonial, que envolviam muitos aspectos. 
Por exemplo, eram combinadas trocas de presentes; se o casal ia morar na 
Caverna dele, na dela ou em outra Caverna; e o estabelecimento do preo da 
noiva, visto que o status dela era considerado do mais alto valor. Um dos 
aspectos mais importantes das negociaes era o status do novo casal.
        Marthona estava convencida de que, se Jondalar ficasse no fim da 
fila, isso poderia ser mal interpretado, no s pelos Zelandonii, mas pelos 
espritos do outro mundo, significando que, por algum motivo, ele havia 
perdido o seu status, ou que a posio de Ayla era to baixa que o status 
dele no podia ser negociado em um nvel mais alto. Foi por isso que a 
Zelandoni insistiu para que ela seguisse com a zelandonia para o banquete. 
Mesmo sendo estrangeira, se fosse reconhecida como algum da elite - 
metafisica, isso lhe daria prestgio, por mais ambguo que fosse. E, embora a 
zelandonia no comesse em um banquete fnebre, Ayla poderia ser levada 
para a fila e se juntar a famlia de Jondalar antes que algum pudesse fazer 
alguma objeo.
        Apesar de algumas pessoas terem percebido que foi perpetrado um 
subterfgio, depois de ele ter sido feito, o lugar dela foi proclamado para 
este mundo e o outro, e seria um pouco tarde demais para se mudar isso. A 
prpria Ayla estava completamente alheia  pequena fraude exercida em seu 
nome e de Jondalar, e, de fato, os que nela se envolveram, acharam que se 
tratou de uma pequena transgresso. Marthona e a Zelandoni, por motivos 
diferentes, estavam convencidas de que Ayla era genuinamente uma pessoa 
de alto status. Era apenas uma questo de reconhecimento.
        Enquanto a famlia comia, Laramar aproximou-se e verteu um pouco de 
barma em seus canecos. Ayla lembrou-se dele, da primeira noite. No seu 
entender, se por um lado a beberagem que ele fazia era apreciada, por 
outro, o prprio homem era depreciado, e ela ficou imaginando qual seria o 
motivo. Ayla o observou lespejar o lquido de uma bolsa de gua no caneco de 
Willamar. Notou que sua roupa era decididamente suja e puda, bem gasta 
onde poderia ter sido remendada.
        - Posso lhe servir um pouco? - perguntou a Ayla. Ela permitiu que ele 
enchesse o seu caneco, e, sem o olhar diretamente, observou-o mais de 
perto. Tratava-se de um homem de aparncia comum, com cabelos e barba 
castanho-claro e olhos azuis, nem alto nem baixo, nem gordo nem magro, 
embora tivesse uma barriga e, de um modo geral, a musculatura parecesse 
flcida, no to definida como na maioria dos homens. Depois, viu que seu 
pescoo era escuro de sujeira, e teve a certeza de que raramente ele lavava 
as mos.
        Era muito fcil uma pessoa ficar suja, principalmente no inverno, 
quando a gua freqentemente tinha que ser derretida do gelo ou da neve, e 
nem sempre era aconselhado usar o abastecimento de gua para se lavar. 
Mas, no vero, quando havia gua disponvel e erva-saboeira  vontade, a 
maioria das pessoas que ela conhecia preferia se manter razoavelmente 
limpa. Era incomum ver-se algum assim to sujo.
        Obrigada, Laramar - agradeceu, sorriu e deu um gole, embora olhar 
para a pessoa que fizera a bebida a tornasse menos deliciosa.
        Ele retribuiu o sorriso. Ela teve a sensao de que ele no sorria 
freqentemente e a ntida impresso de que seu sorriso era fingido. Ela 
tambm notou que ele tinha os dentes tortos. Sabia que no era sua culpa. 
Muita gente tinha dentes tortos, mas isso era algo que se somava ao todo de 
sua aparncia desagradvel.
        - Eu estava ansioso por estar em sua companhia - disse Laramar.
        Ayla ficou intrigada.
        - Por que estava esperando ficar em minha companhia?
        - Em um banquete fnebre, os estrangeiros sempre ficam no fim da 
fila, depois de todos que pertencem a uma Caverna. Mas notei que voc 
ficou na frente - Comentou.
        - Isso mesmo, Laramar, ela talvez devesse ficar l atrs, perto de 
voc argumentou a mulher -, mas, como sabe, dentro em breve, Ayla 
pertencer Nona Caverna.
        - Mas ela ainda no  uma Zelandonii - lembrou o homem. -  uma 
estrangeira.
        - Ela  Prometida de Jondalar, e o seu status entre o seu povo  bem 
alto.
        - Ela no disse que foi criada pelos cabeas-chatas? Eu no sabia que 
o status de cabeas-chatas era maior do que o de um Zelandonii - rebateu 
ele.
        - Para os Mamuti, ela era curandeira e filha do Mamut, o Zelandoni 
deles - afirmou Marthona. A ex-lder estava ficando irritada. Ela no 
gostava de ter que dar explicaes ao homem de nvel mais baixo da Caverna. 
Principalmente porque ele estava com a razo.
        - Ela no fez muita coisa para sarar Shevonar, fez? - indagou Laramar.
        - Ningum poderia ter feito mais do que Ayla fez, nem mesmo a 
Primeira - frisou Joharran, indo em sua defesa. - E ela ajudou a aliviar a dor 
dele, para que pudesse agentar at a sua parceira chegar.
        Ayla percebeu que o sorriso de Laramar tornou-se malicioso. Ele 
estava usufruindo um grande prazer em perturbar a famlia de Jondalar, 
colocando-a na defensiva, e isso tinha algo a ver com ela. Ayla gostaria de 
entender o que significava aquilo, e pretendia perguntar a Jondalar quando 
os dois estivessem sozinhos, mas comeava a compreender por que as 
pessoas falavam de Laramar de forma to depreciativa.
        A zelandonia comeava novamente a se reunir em volta do abrigo 
fnebre, e as pessoas estavam levando as suas travessas para o canto mais 
distante do Campo de Reunio e raspando as sobras sobre uma pilha de 
restos. O monte de refugo seria deixado ali, e, tendo as pessoas ido embora, 
a carne e os ossos jogados fora seriam levados por vrios carniceiros, e os 
vegetais apodreceriam e voltariam para o solo. Tratava-se de um mtodo 
comum de descarte. Laramar foi com os familiares de Jondalar at o 
monturo, e Ayla tinha certeza de que isso lhes causaria mais dissabores, 
mas depois ele seguiu o seu prprio caminho com um ntido caminhar 
arrogante.
        Depois que as pessoas voltaram a se agrupar em volta do abrigo 
fnebre, Aquela Que Era A Primeira apanhou o cesto de tranado firme com 
o ocre vermelho que Ayla havia pulverizado.
        - H Cinco Cores Sagradas. Todas as demais so aparncias externas 
dessas cores primrias. A primeira cor  o vermelho - comeou a enorme 
donier. -  a cor do sangue, a cor da vida. Algumas flores e frutas ostentam 
o vermelho verdadeiro, mas elas so efmeras. O vermelho raramente 
permanece verdadeiro por muito tempo. Depois que o o sangue seca, 
escurece, torna-se marrom. Marrom uma aparencia externa que s vezes 
chamado de vermelho envelhecido. Os ocres vermelhos da Terra so o  
sangue seco da Grande Me Terra, e embora alguns sejam to brilhantes 
como vermelho novo, todos sao vermelhos envelhecidos.
        "Coberto com o vermelho do sangue do ventre de sua me, voc veio a
este mundo Shevonar. Coberto com a terra vermelha do ventre da Grande 
Me, voc retornar a ela, e voltar a viver no outro mundo, do mesmo modo 
que nasceu neste - disse a Primeira, enquanto polvilhava generosamente o 
corpo de Shevonar, da cabea aos ps, com o minrio de ferro vermelho.
        "A quinta cor primria  a escura, s vezes chamada de preto - 
prosseguiu a Zelandonie levando Ayla a imaginar quais seriam a segunda, a 
terceira e a quarta Cores Sagradas.
        - A escura  a cor da noite, a cor das cavernas profundas, a cor do 
carvo, depois que o fogo queima e retira a vida da madeira. Alguns dizem 
que o carvo negro , na verdade, o tom mais escuro do vermelho 
envelhecido.  a cor que sobrepuja a cor da vida, quando esta envelhece. 
Assim como a vida torna-se morte, o vermelho torna-se preto, escuro. O 
escuro  a ausncia de vida;  a cor da morte. No tem, sequer, uma vida 
efmera; no existem flores pretas. Caver nas profundas mostram a cor na 
sua verdadeira forma.
        "Shevonar, o corpo que o seu el habitou morreu e ir para o escuro 
sob o cho, retornar para a terra escura da Me, mas o seu el, o seu 
esprito, ir para o mundo dos espritos, retornar para a Me, a Fonte 
Original de Vida. Leve consigo o esprito do alimento que lhe ofertamos, 
para sustentar voc em sua Jornada para o mundo dos espritos. - A grande 
e impressionante mulher apanhou o prato de comida que fora reservado para 
ele, levantou-o para mostrar, em seguida colocou-o ao lado do corpo e o 
salpicou com ocre vermelho.
        "Leve consigo a sua lana favorita, para caar espritos de animais, a 
fim de lhe dar sustento. - A donier colocou a lana ao lado dele e a polvilhou 
com ocre vermelho.
        - Leve consigo as suas ferramentas, para fazer novas lanas para os 
caadores do outro mundo. - Colocou o desempenador de hastes de lanas 
sob a mo dele, rgida devido ao posmortis, e a salpicou com o p vermelho. - 
No esquea as habilidades que aprendeu neste mundo, e faa uso delas no 
outro mundo. No lamente pela sua vida aqui. Esprito de Shevonar, siga 
livre, siga confiante. No olhe para trs. No se retarde. A sua prxima vida 
o espera.
        Os objetos da sepultura foram arrumados em volta dele, e os 
recipientes com comida colocados sobre a barriga; em seguida, o corpo foi 
envolvido pela mortalha de esteira de capim, e os cordes, enfiados pelas 
extremidades onde ficavam a cabea e os ps, foram puxados firmemente, 
fazendo o conjunto parecer um casulo. Os compridos cordes foram ento 
amarrados em volta, o que manteve tudo junto e deu ao corpo e seus 
equipamentos a forma de um caroo. A rede foi esticada e presa a cada 
ponta de um mastro, que fora at recentemente uma rvore jovem e reta. A 
casca, que ainda continuava na rvore, ajudava a evitar que a rede, com o 
seu fardo macabro, escorregasse.
        Ento, os mesmos homens que haviam cavado o buraco em solo 
sagrado levantaram o corpo de Shevonar no meio deles e o carregaram. 
Joharran ia na frente, o mastro pousado sobre o ombro esquerdo, com 
Rushemar logo atrs e do lado oposto, o mastro pousado sobre o seu ombro 
direito. Solaban estava na traseira, do mesmo lado de Joharran, mas o 
mastro pousava sobre uma almofada em seu ombro, j que no era to alto 
quanto Jondalar, localizado atrs dele.
        Aquela Que Era A Primeira ia na frente, em direo ao solo sagrado. 
Os homens carregando o corpo a seguiam, e os demais membros da 
zelandonia se postavam em volta dos carregadores do fretro. Relona, os 
dois filhos e Ranokol caminhavam atrs da rede balouante. O restante 
vinha atrs, na mesma ordem que haviam adotado no banquete.
        Novamente, Ayla seguiu com Marthona, prxima  frente da fila. Ela 
notou que Laramar a observava, enquanto ia com as ltimas pessoas da Nona 
Caverna, o que o deixava  frente dos lderes da Terceira Caverna. Embora 
Manvelar tentasse manter uma ligeira distncia atrs da Nona, para deixar 
um intervalo que separasse as duas Cavernas, Laramar, a sua mulher alta e 
ossuda e a enorme prole retardavam o passo o bastante para que o intervalo 
ficasse diante dele. Ayla convenceu-se de que Laramar fazia isso de 
propsito, para dar a impresso de que era o primeiro da Caverna atrs dele, 
em vez de o ltimo da que ia  frente, embora,  claro, todos conhecessem o
seu status e a qual Caverna pertencia.
        A comprida ala seguiu a trilha em fila nica quando ela se estreitou 
diante da Pedra Grande, e depois usou as poucas pedras achatadas bem 
posicionadas da passadeira para atravessar o Riacho do Peixe, que corria 
pelo meio do Pequeno Vale. Quando o caminho voltou a se estreitar diante da 
Pedra Alta, permanece ram em fila at chegarem  Travessia, mas, em vez 
de continuarem para o sul aps atingirem a margem oposta, como eles 
haviam feito antes de irem para a Pedra dos Dois Rios, viraram  esquerda, 
em direo ao norte, e seguiram por outra trilha.
        No mais limitados por um estreito caminho entre rio e paredo o 
grupo se apartou e seguiu caminhando, com dois ou trs ombro a ombro, 
atraz do terreno plano da plancie aluvial, e depois comearam a subir o 
aclive das colinas ondulantes que Ayla tinha visto do outro lado do Rio. O sol 
baixava para ocidente aproximando-se dos cumes dos rochedos atrs deles, 
quando chegaram a um afloramento de rocha e uma pequena depresso 
isolada e razoavelmente plana. A procisso diminuiu o passo e parou.
        Ayla virou-se, para olhar o caminho pelo qual tinham vindo. A vista 
abrangia, campo com uma fresca grama de vero que parava diante da 
sombra projeta da pelo sol que se punha atrs dos ngremes rochedos. O 
suave amarelo natural do calcrio, listrado com os negros depsitos de 
impurezas filtradas, estava escurecendo e ficando de um roxo-escuro, e 
uma sombria escurido atapetava a gua que escoava ao p dos taludes de 
pedra. Ela se estendia atravs do Rio para amortalhar o renque de arbustos
e rvores que se enfileiravam na ribanceira, ainda que as copas das rvores 
mais altas ainda arremessassem uma breve silhueta alm da rastejante 
escurido.
        Vista dessa perspectiva, a muralha de pedra, orlada de capim e um 
eventual arbusto no cume, exibia um soturno esplendor uniforme que Ayla 
no esperava, e ela tentou identificar os lugares cujos nomes havia 
aprendido. Em direo ao sul, coroando as proximidades da margem da gua, 
as escarpadas muralhas de Pedra Alta e Pedra Grande escarranchavam o 
Pequeno Vale. Os rochedos que recuavam para criar a parede reentrante dos 
fundos do Campo de Reunio levavam ao relevo escultural dos abrigos no 
rochedo de Rio Abaixo, e depois, logo quando O Rio fazia uma curva fechada 
para leste,  imensa pedra saliente que abrigava a Nona Caverna.
        Quando comearam a andar novamente, Ayla notou que vrias pessoas 
carregavam tochas.
        - Eu devia ter trazido uma tocha, Willamar? - indagou ao homem que 
caminhava a seu lado. - Provavelmente vai estar escuro antes de voltarmos.
        -  para estar escuro - afirmou Marthona; ela caminhava do outro 
lado de Willamar, e haver muitas tochas por l. Quando as pessoas deixam 
o cemitrio, acendem tochas para encontrar o caminho, mas nem todas vo 
na mesma direo. Algumas vo por um caminho, e outras por outro; algumas 
descem para O Rio, e outras sobem a colina at um lugar que chamamos de 
Mirante. O cl de Shevonar e de qualquer outro esprito que estiver perto, 
quando nos virem ir embora, pode ser que tentem nos seguir. Precisamos 
confundi-los, pois se por acaso conseguirem ultrapassar os limites, no 
sabero que luzes seguir.
        Quando a procisso se aproximou do cemitrio, Ayla percebeu o 
agitar da luz de uma fogueira bruxuleante atrs do aforamento e um odor 
aromtico perceptvel a uma boa distncia. Deram a volta no obstculo em 
direo a um crculo de tochas acesas que produziam tanto fumaa quanto 
luz. Chegando perto, ela viu um crculo de estacas entalhadas logo depois 
das tochas que envolviam e definia a rea sagrada.
        - Sim. A zelandonia prepara tochas especiais para os enterros. Isso 
mantm os espritos sob controle, para que as pessoas possam entrar no 
cemitrio sem perigo, ou talvez eu devesse dizer sem muito perigo - 
explicou Marthona. - E, como h um cheiro, fica mais fcil de se tolerar as 
tochas.
        Os membros da zelandonia das seis Cavernas colocaram-se em 
intervalos eqidistantes em volta do interior do crculo, formando uma outra 
camada de proteo. Aquela Que Era A Primeira postou-se diante da 
cabeceira da cova, em seguida os quatro carregadores de fretro com o seu 
triste fardo levaram a rede para o interior da rea circundada pela luz das 
tochas. Os dois homens da frente seguiram para a cabeceira do buraco que 
haviam cavado, at encararem a Primeira, e pararam, deixando os outros 
dois ao p dele.
        Os quatro homens esperaram em silncio, mantendo o corpo na rede 
fnebre pendendo sobre a sepultura. Outros membros da famlia e os 
lderes da Caverna de Shevonar preencheram a rea comida no crculo 
iluminado, e o resto se aglo merou em volta do lado de fora do limite criado 
pelas estacas entalhadas.
        Ento, a Zelandoni da Nona Caverna deu um passo  frente. Parou e, 
por um momento, permaneceu imvel. Nenhum som foi emitido pela multido. 
Em meio ao silncio, ouviu-se o rugido distante de um leo das cavernas, 
seguido pelo regougar de uma hiena, o que pareceu estabelecer o clima. O 
som seguinte que ela ouviu foi sinistro e agudo. Ayla ficou atordoada. Sentiu 
um arrepio na nuca; ela no estava sozinha.
        Ela ouvira antes a musica transcendental de uma flauta, mas no por 
muito tempo. Manen tocara o instrumento na Reunio de Vero dos Mamuti. 
Lembrou que ela havia executado os rituais tradicionais de enterro do Cl 
para Rydag, o menino que lhe lembrava seu proprio filho, porque eles no 
permitiram que o filho de espritos misturados que Nezzie adotara tivesse 
um enterro Mamutoi. Mas Manen tocou sua flauta, a despeito deles, 
enquanto Ayla se movimentava na silenciosa e formal linguagem de gestos, 
para implorar, ao Grande Urso das Cavernas e ao espirito do totem dela, que 
levassem Rydag para o outro mundo do Cl.
        Ayla descobriu-se recordando o enterro de Iza, quando o Mog-ur fez 
sobre a sepultura dela aqueles mesmos gestos, adaptados ao jeito dele, com 
uma mo apenas. Em seguida lembrou a morte dele. Ela entrou na caverna 
depois do terremoto e o encontrou o crnio esmagado por pedras que 
haviam desabado, deitado sobre o topo do monte de pedras funerrias de 
Isa. Ela fez os gestos para ele, j que ningum mais ousaria entrar na 
caverna com os abalos posteriores ao terremoto ainda ressoando. Mas a 
flauta evocou outra lembrana. Ela ouvira o instrumento antes de escutar 
Manen tocar a sua flauta. Foi durante o ritual da cerimnia do urso das 
cavernas na congregao do cl. O Mong-ur de outro cl tocou um 
instrumento semelhante, embora o agudo som melodioso que simbolizava a 
voz espiritual de Ursus tivesse uma caracterstica tonal diferente do 
produzido por Menen e daquele que ouvia agora.
        Foi desviada de seus pensamentos pela Primeira, que comeou a falar 
com uma voz cheia e ressonante:
        - Grande Me Terra, Primeira Progenitora, Voc chamou o Seu filho 
de volta para Si. Ele foi chamado em sacrifcio ao Esprito do Biso, e os 
Zelandonii, Seus filhos que habitam o sudoeste desta terra, pedem que essa 
nica vida seja o suficiente. Ele foi um bravo caador, um bom parceiro, um 
fabricante de excelentes lanas.
        Ele honrou Voc muito bem nesta vida. Guie-o de volta a Voc em 
segurana, ns Lhe suplicamos. Sua parceira chora por ele, seus filhos o 
amavam, as pessoas o respeitavam.
        Ele foi chamado para servi-La no auge da vida. Faa com que o 
Esprito do Biso fique satisfeito,  Doni, que este seja suficiente.
        - Que seja suficiente - entoaram os demais membros da zelandonia. E 
isso foi repetido pelas pessoas de todas as Cavernas reunidas, mais ou 
menos em unssono.
        Iniciou-se a batida compassada de algo golpeando alguma coisa. O som 
era ligeiramente confuso - ou, pelo menos, no muito ntido -, pois vrios 
instrumentos eram tocados ao mesmo tempo. Os objetos consistiam de 
peles bem esticadas sobre um dos lados de arcos, com um cabo para segur-
los. O lgubre som da flauta se juntou a eles, entrelaando-se ao som 
constante dos tambores. O tom evocativo pareceu incentivar o alvio 
emocional das lgrimas. Relona comeou a gritar e carpir mais uma vez a sua 
dor e desgraa. Logo, todos estavam ui vando e carpindo, com lgrimas nos 
olhos.
        Ento, uma voz se incorporou, um sonoro canto de contralto sem 
palavras, mas ajustada ao ritmo dos tambores e mesclando-se com a flauta, 
soando quase como um instrumento.
        A primeira vez que Ayla ouviu algum cantar foi quando passou a viver 
com os Mamuti. Quase todos no Acampamento do Leo canta vam, pelo 
menos em grupo. Ela gostou de ouvi-los e tentou se juntar a eles, mas cantar 
era algo que no conseguiria fazer. Era capaz de emitir uma espcie de 
zumbido montono, mas no conseguia produzir uma melodia. Lembrou que 
algumas pessoas eram melhores cantoras do que outras, e as tinha admirado, 
mas nunca antes ouvira uma voz to cheia e vibrante. A voz era da Zelandoni, 
Aquela Que Era A Primeira, e Ayla ficou encantada.
        Os dois homens que seguravam o mastro  frente viraram-se para 
ficar defronte aos homens do lado de trs, em seguida levantaram o mastro 
dos ombros e comearam a baixar a balouante rede funerria. A cova no 
era muito funda e a pequena rvore que servia de mastro no era maior do 
que a sua extenso. Quando ambas as pontas dele tocaram no cho, o corpo 
j tinha pousado no fundo do buraco. Desamarraram as cordas afrouxadas 
da rede e tambm as deixaram cair no buraco.
        Arrastaram de volta para perto do buraco a pele sobre a qual haviam 
empilhado a terra, e enfiaram o mastro na vertical ao p da sepultura, 
usando um pouco da terra solta como apoio. Outro mastro menor, que havia 
sido entalhado e pintado com ocre vermelho na forma do abel de Shevonar, 
foi colocado  cabeceira do homem. Sua marca identificadora indicaria o 
lugar onde foi enterrado e serviria como um aviso de que o seu corpo 
descansava ali e o seu el ainda poderia estar por perto.
        Relona avanou, o corpo retesado, tentando se controlar. Foi at o 
monte e, quase furiosamente, agarrou um pouco de terra em cada mo e 
jogou na sepultura. Duas mulheres mais velhas ajudaram cada um dos dois 
filhos dela a fazer a mesma coisa, depois apanharam os seus punhados e os 
jogaram sobre o corpo empacotado. A seguir, todos se adiantaram, pegaram 
dois punhados de terra e os lanaram dentro da sepultura. Depois que todos 
passaram por ali, jogando terra, o buraco ficou cheio e a terra solta formou 
um pequeno monte.
        Alguns voltaram para acrescentar um pouco mais de terra. Ento, de 
repente, Relona ps-se de joelhos, e com as lgrimas quase a ofuscando, 
jogou-se sobre a terra fofa da sepultura, soltando ruidosos soluos. O filho 
mais velho voltou at onde ela estava e ficou ali, parado e chorando, 
esfregando os olhos com os ns dos dedos para limpar as lgrimas. Em 
seguida, a filha mais jovem, parecendo perdida e desnorteada, correu at a 
sepultura e puxou o brao da me, tentando fazer com que ela se levantasse, 
para a consolar.
        Ayla ficou imaginando onde estariam as duas mulheres mais velhas e 
por que ningum tentava ajudar ou consolar as crianas. Pouco depois, Ayla 
viu a me comear a reagir aos terrveis soluos da criana mais nova. 
Relona afastou-se da sepultura e, sem mesmo se limpar, abraou a filha.
        O mais velho sentou-se e envolveu o pescoo da me com os braos. 
Ela tambem o abraou, e todos os trs ficaram sentados ali, chorando  
juntos, pois no eram tanto de desespero, mas de tristeza e conforto 
mtuos. Ento, a um sinal da Primeira, a zelandonia e vrios outros, inclusive 
Ranokol, o irmo de Shevonar, ajudaram os trs a se levantar e os 
conduziram para longe da sepultura.
        A dor de Ranokol pela perda do irmo era to grande quanto a de 
Relona, mas ele a expressava de modo diferente. Continuava se perguntando 
por que Shevonar, e no ele, tivera de fazer aquele sacrifcio. O seu irmo 
tinha famlia, e ele nem ao menos tinha uma parceira. Ranokol no conseguia 
deixar de pensar nisso, mas no queria falar a respeito. At mesmo teria 
evitado a cerimnia do enterro, se pudesse, e jogar-se sobre a sepultura era 
a ltima coisa que desejaria fazer. Simplesmente queria ir embora o mais 
depressa possvel.
        - Ns devolvemos Shevonar da Nona Caverna dos Zelandonii ao Seu 
seio, Grande Me Terra - entoou a Zelandoni.
        Todos os que estavam reunidos para o enterro de Shevonar 
permaneciam para dos em volta da sepultura, e Ayla teve uma sensao de 
expectativa. Eles aguardavam algo acontecer, e estavam todos concentrados 
na donier. Os tambores e a flauta continuavam tocando, mas o som se 
tornara parte do ambiente, e Ayla s o percebeu quando o tom da msica 
mudou, e a Zelandoni comeou a cantar novamente.
        
        - O caos do tempo. em meio  escurido,
          O redemoinho deu a Me sublime  imensido.
          Sabendo que a vida  valiosa, para Si Mesma Ela acordou
          E o vazio doescuro a Grande Me Terra atormentou.
        As pessoas responderam em unssono, algumas cantando e outras 
apenas pronunciando as palavras.
        
        - Sozinha a Me estava. Somente Ela se encontrava.
        Em seguida, Aquela Que Era a Primeira cantou novamente sozinha.
        - No p do Seu nascimento, Ela viu uma soluo,
           E criou um amigo claro e brilhante, um colega, um irmo.
           Eles cresceram juntos, aprenderam a amar e a cuidar
           E quando Ela estava pronta, eles decidiram se casar
        
        E as pessoas voltaram a responder com o verso seguinte.
        
         - E diante dela ele se curvou, O Seu claro e brilhante amor
        
        Ayla percebeu que se tratava de uma histria familiar e conhecida, 
que todos sabiam e pela qual estavam esperando. Ela j a tinha apreendido e 
queria ouvir mais. Ficou escutando, enquanto a Zelandoni prosseguia 
cantando a primeira parte e  as pessoas respondendo com o ltimo verso.
          
           - No incio, Ela ficou contente com Sua complementao.
             Mas a Me tornou-se intranqila, insegura de Seu corao.
             Ela gostava do Seu louro amigo, o Seu caro amado,
             Mas algo estava faltando, Seu amor era desperdiado.
           - Ela era a Me e amava. De outro ela precisava.
           - O grande vazio, o caos, o escuro Ela enfrentou
              procura da fria morada que a centelha de vida propiciou
             O redemoinho era temvel, a escurido se alastrava.
             O caos era congelante e o Seu calor alcanava.
           - A Me era valente. O perigo era inclemente.
           - Ela extraiu do frio caos a fora criativa total,
             E aps conceber dentro dele, Ela fugiu com afora vital.
             Com a vida que dentro de Si carregava Ela cresceu.
             E amor e orgulho para Si mesma Ela deu.
           - A Me carregava. Sua vida Ela partilhava.
           - A vasta terra estril e o vazio vcuo escuro,
             Com expectativa, aguardavam o futuro.
             A vida bebeu do sangue Dela e dos Seus ossos respirou.
             Fendeu e abriu a Sua pele e as Suas Pedras rachou
           - A Me estava concedendo. Outro estava vivendo.
           - Suas jorrantes guas parturientes encheram rios e mares,
              E inundaram a terra, elevando altas rvores nos ares.
              De cada gota preciosa, mais grama efolhas brotaram,
              E viosas plantas verdejantes toda a terra renovaram.
           - Sua gua flua. O novo verde crescia.
           - Num violento trabalho de parto, vomitando fogo e desprazer 
             Ela pelejou na dor para uma nova vida ver nascer
           Mas a criana radiante que nasceu foi o seu consolo.
        - A Me estava contente. Era o Seu menino reluzente.
        
        A respirao de Ayla ficou presa na garganta, quando ouviu essas 
palavras. pareciam contar a sua histria e de seu filho, Durc. Lembrou que 
se debatera de dor para dar  luz, e como tudo valeu a pena depois. Durc 
fora a sua grande ale gria. A Zelandoni continuou, com a voz magnfica.

        - Montanhas jorraram chamas de seus cumes ondulosos,
          E Ela amamentou o filho com os Seus seios montanhosos.
          Ele sugou com tanta fora, que fascas voaram adante,
          O quente leite da Me estendeu uma trilha no cu distante.
        - A vida Dele comeou. O Seu Filho Ela amamentou.

        Essa histria parecia to familiar, pensou Ayla. Sacudiu a cabea, 
como se tentasse fazer algo entrar no lugar. Jondalar, ele me contou algo 
sobre isso, durante a nossa Jornada para c.

        - Ele sorria e brincava, e se tornou grande e luminoso.
          Acendia a escurido, era da Me o amoroso.
          Ela era generosa com o Seu amor e ele crescia com abastana,
          Mas logo amadureceu, no era mais uma criana.
        - Seu filho logo cresceu. Sua mente s a ele pertenceu.
        - Da fonte retirou a vida que gerado Ela havia.
            Agora o vcuo frio e vazio o Seu filho seduzia.
          A Me dava amor porm o jovem por mais passou a ansiar.
          Queria conhecimento, emoo, viajar explorar
        - O caos era inimigo Seu. E ao desejo do filho no cedeu.

        A mente de Ayla continuava a perturb-la. No se tratava apenas de 
Jondalar, concluiu. Sinto como se conhecesse isso, ou pelo menos a sua 
essncia. Mas onde eu poderia ter aprendido? Ento, algo estalou, O 
Losaduna! Eu memorizei todo tipo de coisa que ele me ensinou! Havia uma 
histria como essa a respeito da Me. Jondalar at mesmo recitou algumas 
partes durante aquela cerimnia. No se tratava exatamente da mesma, e 
era na linguagem deles, mas o Losadunai  parecido com o Zelandonii.  por 
isso que fui capaz de entender das semelhanas e diferenas.
        
        - Ele o furtou do lado Dela, quando a Grande Me dormia,
        Enquanto, no escuro, o vcuo rodopiante agia.
        Com tentadoras indues, a escurido enganou.
        Iludido pelo redemoinho, o caos Seu filho capturou.
        - O escuro o Seu filho levou. O jovem brilhante se apagou.
        - O filho reluzente da Me a princpio se alegrou,
        Mas logo o rido vcuo frio se revelou.
        A Sua cria imprudente, pelo remorso mortificado
        A fora misteriosa no conseguia pr de lado.
        - O caos no o libertava. 
        O temerrio descendente Dela confinava.
        - Mas quando a escurido para o frio o puxou,
        A Me acordou, estendeu a mo e buscou.
        Para ajud-La a recuperar o seu filho radiante,
        A Me apelou para o claro brilhante.
        - A Me com fora o segurou. E  vista o deixou.
        
        Ayla comeou a sorrir, ao antecipar a proxima estrofe, ou pelo menos 
a essncia do seu significado. A Me Terra conta ao seu velho amigo, o astro 
Lua, a histria do que aconteceu a seguir com o filho Dela, antecipou Ayla.
        
        - Ela o acolheu de volta, aquele que fora o Seu amor
        E triste e magoada, Sua histria Ela contou.
        O Seu caro amigo concordou em ajudar,
        E ofilho Dela de seu perigoso apuro salvar
        
        Agora, os ouvintes respondem a sua maneira, disse Ayla a si mesma.  
assim que a histria deve ser contada. Primeiro, o Losaduna ou o Zelandoni a 
narra, e depois os ouvintes respondem ou repetem de outro modo.
        
        - Ela falou de Sua solido. E do escuro redemoinho ladro. Era 
novamente a vez da Zelandoni.
        
        - A Me estava cansada e precisava se recuperar, 
        E o aperto em seu luminoso amante decidiu afrouxar. 
        Enquanto ela dormia a fria fora ele combateu. 
        E por um tempo pra sua fonte a devolveu.
        - O esprito dele era irado. 
        O encontro foi demorado.
        - O louro e brilhante amor Dela pelejou, e fez o possvel
        Mas o conflito era duro, e a batalha, incrvel
        Sua cautela falhou, quando do grande olho se aproximou.
        E sua luz do cu foi roubada, depois que a escurido se insinuou.
        - Seu claro amor estava tentando. Sua luz estava expirando.
        - Quando a escurido ficou tota Ela gritando acordou.
        - O tenebroso vazio a luz do cu ocultou.
        Ela se juntou ao conflito, foi rpida na abertura,
        E afastou para longe de Seu amor a sombra escura.
        - Mas a plida face da noite rondava. E o Seu filho ocultava.
        - Preso no redemoinho, o Seu filho reluzente sucumbido
        No mais sentia calor  ofrio caos havia vencido.
        A frtil vida verde agora em gelo e neve se tornava,
        E um afiado frio cortante continuamente soprava.
        - A terra  despojada estava. Nenhuma planta verde restava.
        - A Me estava exausta, triste e abatida,
        Mas saiu novamente atrs de a quem deu a vida.
        No podia desistir precisava lutar.
        Para fazer a luz gloriosa do Seu filho retornar
        - Ela continuou a lutar Para a luz recuperar.
        - E o Seu amigo luminoso estava preparado para combater
        O ladro que ofilho do seio Dela mantinha em seu poder.
        Juntos lutaram pelo filho que era o Seu bem-querer
        O esforo foi bem-sucedido, e sua luz conseguiu renascer.
        - Sua energia inflamou. O seu brilho voltou.
        
        A Grande Me Terra e a Lua trouxeram oSol de volta, mas no o 
tempo todo; Ayla novamente antecipou.

        - A Me manteve-se na defsa sem querer recuar absolutamente.
        O redemoinho puxava Jhrte. 
        Em se recusar a largar Ela era terminante.
        A Me lutava por uma igualdade com o Seu escuro inimigo rodopiante.
        - Ela acuava a escurido o bastante. 
        Mas o Seu filho estava distante.

        Seria a verso Zelandonii mais longa do que a histria Losadunai? Ou 
ape nas parecia? Talvez, ao se cantar a histria, isso a faa parecer maior, 
mas eu gosto mais assim, cantada. Eu gostaria de entend-la melhor. Creio 
que, s vezes, as msicas mudam, e alguns versos cantados no soam da 
mesma maneira que outros.
        
        - Depois que Ela combateu o redemoinho e fez o caos fugir
        A luz do Seu filho com vitalidade voltou a reluzir.
        Quando a Me se cansou, o rido vcuo oscilante ficou,
        E a escurido ao final do dia retornou.
        - O calor do filho Ela sentiu. Mas para nenhum a vitria sorriu.
        - A Grande Me passou com uma dor em Seu corao a conviver
        De que Ela e o Seu filho separados para sempre iam viver
        Pela criana que Lhe fira negada padecia
        Ento, mais uma vez, a fora vital interna a reanimaria.
        - Ela no se conformava. Com a perda de quem amava.
        - Quando Ela estava pronta, com as Suas guas, que faziam nascer
        De volta para a terra fria e nua, a vida verde Ela fez crescer
        E as lgrimas de Sua perda, vertidas e abundantes
        Produziram o orvalho cintilante e os arco-ris emocionantes.
        - As guas o verde criaram. Mas Suas lgrimas derramaram.
        
        Gosto muito da parte que vem a seguir, mas ser que a Zelandoni vai
cantar, interrogou-se Ayla.
        
        - Com um estrondoso bramido, Suas pedras empedaos separtram,
        E das grandes cavernas que bem abaixo se abriram,
        Ela novamente em seu espao cavernoso fez parir
        Para do Seu ventre mais Filhos da terra sair
        - Da Me em desespero, mais crianas nasceram.
        Uns caminhavam, outros voavam, uns rastejavam e outros nadavam 
tambm. 
        Mas cada forma era perfeita, cada esprito acabado, 
        Cada qual era um exemplar cujo modelo podia ser imitado.
        - A Me produzia. A terra verde se enchia.
        - Todas as aves, peixes e animais gerados,
        No deixariam, desta vez, os olhos da Me inundados.
        Cada espcie viveria perto do lugar de corao.
        E da Grande Me Terra partilharia a imensido.
        - Perto Dela ficariam. Fugir no poderiam.
        - Todos eram Seus Filhos, e lhe davam prazer,
        Mas esgotaram a fora vital do Seu fazer:
        Mas Ela ainda tinha um resto, para uma ltima inovao,
        Uma criana que lembraria Quem fez a criao.
        - Uma criana que respeitaria. E a proteger aprenderia.
        - A primeira Mulher nasceu adulta e querendo vivr;
        E recebeu os Dons de que precisava para sobreviver:
        A Vida foi o Primeiro Dom, e, como a Grande Me  dadivosa,
        Ela acordou para si mesma sabendo que a vida era valiosa.
        - A Primeira Mulher a haver: A primeira a nascer:
        - A seguir; foi o Dom da Percepo, do aprender
        O desejo do discernimento, o Dom do Saber:
         Primeira Mulher foram dados conhecimentos contundentes
        Que a ajudariam a viver; e pass-los aos descendentes.
        - A Primeira Mulher ia saber: Como aprender; como crescer:
        - Com a fora vital quase esgotada, a Me estava consumida,
        E passou para a Vida Espiritual que fora a sua lida.
        Ela fez com que todos os Seus filhos mais uma vez fizessem a criao,
        E a Mulher tambm foi abenoada com a procriao.
        - Mas sozinha a Mulher estava. 
        Somente Ela se encontrava.
        - A Me lembrou a prpra solido que sentiu, 
        O amor do Seu amigo e as demoradas carcias que produziu.
        Para compartilhar a vida com a Mulher o primeiro Homem Ela criou.
        - Mais uma vez Ela dava. Mais uma vez criava.
         Mulher e ao Homem a Me concebeu,
        E depois, para seu lar, Ela o mundo lhes deu,
        A gua, a terra, e toda a Sua criao.
        U com cuidado era deles a obrigao.
        - Era a casa deles para usar Mas no para abusar
        - Para os Filhos da Terra a Me proveu
        O Dom para sobreviver, e ento Ela resolveu
        Dar a eles o Dom do Prazer e do partilhar
        Que honram a Me com a alegria da unio e do se entregar
        - Os Dons so bem merecidos. 
        Quando os sentimentos so retribuidos.
        - A Me ficou contente com o casal criado,
        E o ensinou a amar e a zelar no acasalado.
        Ela incutiu neles o desejo de se manter,
        E foi ofertado pela Me o Dom do Prazer
        - E assim foi encerrando. 
        Os seus filhos tambm estavam amando.
        - Depois os Filhos da Terra abenoar, a Me pde descansar.

        Ayla esperou por mais, porm houve apenas silncio, e ela deu-se 
conta de que a Cano da Me chegara ao fim.
        As pessoas, em duas ou trs, voltaram arrastando os ps para as suas 
Cavernas. Algumas s retornariam s suas moradias no meio da noite; outras 
fizeram planos para ficar com amigos ou parentes. Poucos aclitos e a 
zelandonia permaneceram na rea do cemitrio, finalizando alguns detalhes 
mais esotricos da cerimnia, e s retornariam pela manh.
        Muita gente voltou para casa, com Relona e seus filhos, e pernoitou na 
habitao dela, a maioria dormindo no cho. Achava-se necessrio ter 
muitas pessoas em volta dela. Era sabido que os els dos parceiros falecidos 
tentavam voltar para as suas casas antes de perceberem que no 
pertenciam mais a este mundo. As parceiras lacrimosas eram susceptveis  
invaso dos espritos errantes e precisavam da proteo de muita gente, a 
fim de repelir influncias malignas. Os mais velhos, em particular, s vezes 
eram tentados a seguir os els de seus parceiros para o outro mundo.
        Ayla foi uma das que ficaram com a viva recente, e Relona pareceu 
feliz por isso. Jondalar tambm havia planejado ficar, mas, ao terminar o 
ltimo de seus deveres cerimoniais, j era muito tarde, e, quando olhou no 
interior da habitao, havia tanta gente espalhada pelo cho, que no foi 
capaz de localizar um espao para espremer o seu enorme corpo. Ayla 
acenou-lhe, do outro lado do aposento. Lobo estava com ela, e talvez, por 
causa dele, Ayla tinha um bom espao  sua volta. Quando, porm, Jondalar 
tentou passar por cima das pessoas e chegar at ela, acordou algumas. 
        Marthona, que estava perto da entrada, mandou que ele fosse para 
casa. Ele sentiu-se um pouco culpado, mas agradecido. Viglias noturnas para 
repelir espritos errantes no eram algo de que gostasse. Alm do mais, ele 
j lidara bastante com o mundo dos espritos para um dia, e estava exausto. 
Sentiu falta de Ayla a seu lado, ao rastejar para dentro do seu rolo de 
dormir, mas adormeceu rapidamente.
        Ao retornar  Nona Caverna, Aquela Que Era A Primeira foi 
imediatamente para a sua habitao. Logo ela faria nova Jornada ao outro 
mundo, e desejava meditar, a fim de se preparar para ela. Tirou a placa do 
peito e virou-a para o lado simples, sem enfeites. No queria interrupes. 
No apenas tentaria guiar o esprito de Shevonar para o mundo do alm, 
como tambm planejava procurar o el de Thonolan. Mas, para isso, 
precisaria de Jondalar e Ayla.
        Jondalar acordou com um forte desejo de fazer algumas ferramentas. 
Embora talvez no expressasse a coisa desse modo, ele ainda se sentia 
intranqilo por causa dos acontecimentos misteriosos com os quais estivera 
envolvido recentemente. Lascar slex no era o seu nico ofcio, tratava-se 
de algo de que gostava, e colocar as mos em um pedao macio de pedra 
era um bom modo de esquecer o ambguo, impalpvel e vagamente ameaador 
mundo espiritual.
        Apanhou o pacote de slex que havia extrado de uma pedreira dos 
Lanzadoni. Dalanar havia olhado o material que Jondalar extrara do penedo, 
que continha o slex de qualidade superior pelo qual os Lanzadoni eram 
conhecidos. Ele fez sugestes especficas sobre que pedaos Jondalar devia 
levar e o ajudou a aparar o excesso de material, para que somente 
carregasse pedaos cristalinos e ncleos. Cavalos eram capazes de carregar 
muito mais coisas do que as pessoas, mas slex era pesado. Havia um limite 
de pedra que podia ser apanhado, mas, ao examinar o slex que tinha, avaliou 
novamente o quanto ele era excelente.
        Selecionou duas das pedras aparadas, colocou as outras de volta e 
depois apanhou a sua trouxa de couro com as ferramentas de trabalhar o 
slex. 
        Desatou os cordes e despejou vrios martelos  e retocadores de 
osso e chifre, e os seus martelos de pedra, depois levantou cada ferramenta 
e a inspecionou cuidadosamente. Em seguida, embrulhou-as de volta, 
juntamente com os ncleos de slex. Na metade da manh, j estava pronto 
para encontrar um lugar, um pouco fora do caminho, e trabalhar o slex. 
        Lascas de slex eram muito afiadas e podiam ser bastante errticas 
na direo que tomavam ao voar. Conscienciosos operrios da pedra sempre 
optavam por ficar distante das reas onde as pessoas costumavam andar, 
principalmente longe dos ps descalos das crianas que corriam e mes ou 
amas descuidadas que freqentemente as perseguiam.
        Afastando a cortina da entrada, Jondalar saiu da habitao de sua 
me. Olhando alm na direo da borda, notou que o cu estava carregado e 
cinzento. Um montono chuvisco mantinha quase todo mundo debaixo do 
abrigo de pedra, e a enorme rea desimpedida estava em pleno uso. No 
havia uma ocasio em particular para se dedicar a ofcios e interesses 
individuais, mas se tratava do tipo de dia que muitos escolhiam para 
trabalhar nos seus vrios projetos. Painis protetores, ou couros crus 
esticados por cordas, tinham sido instalados a fim de conter o vento e a 
chuva que poderia ser soprada para dentro, e vrias fogueiras forneciam luz 
e calor adicionais, apesar de rajadas frias tornarem essencial o uso de 
roupas quentes.
        Ele sorriu ao ver Ayla vir em sua direo. Ao se encontrarem, 
Jondalar a cumprimentou com um toque de bochechas e sentiu o cheiro de 
sua feminilidade. Isso o fez lembrar que no havia dormido com ela na noite 
anterior. Sentiu um repentino desejo de lev-la de volta para o leito e fazer 
mais do que dormir.
        - Eu estava mesmo indo at a casa de Marthona  sua procura - disse 
ela.
        - Acordei com vontade de trabalhar a pedra que ganhei da mina de 
slex de Dalanar e fazer novas ferramentas - falou, exibindo a sua 
conhecida trouxa de couro. - Mas parece que todo mundo resolveu trabalhar 
em alguma coisa esta manh. - Olhou na direo do espao apinhado e 
movimentado. - No creio que ficarei aqui.
        - Aonde vai trabalhar? - indagou Ayla. - Pensei em ir ver os cavalos, 
mas vou deixar para dar uma olhada depois.
        - Eu vou para Rio Abaixo. Sempre costuma haver uma poro de 
fabricantes de ferramentas por l - resolveu. Depois, pensando um pouco, 
acrescentou: - Quer que eu lhe ajude com os cavalos?
        - No, a no ser que voc queira - props Ayla. - S vou mesmo dar 
uma olhada neles. No creio que eu v cavalgar, mas talvez leve Folara 
comigo, para ver se ela topa sentar em Huiin. Eu prometi a ela que poderia 
fazer isso algum dia, e ela disse que queria.
        Caminharam juntos at a rea de trabalho, e depois Jondalar rumou 
em direo a Rio Abaixo, enquanto Ayla e o lobo pararam para procurar por 
Folara. O chuvisco transformara-se em uma chuva constante, e, enquanto 
esperava que diminusse, ela se pegou observando primeiro uma pessoa e 
depois outra, enquanto trabalhavam em seus vrios projetos. Ela sempre 
fora fascinada com os diferentes ofcios e aptides e distraiu-se 
facilmente. O ambiente era movimentado mas descontrado. Certos 
aspectos de cada ofcio exigiam intensa concentrao, mas as partes 
repetitivas forneciam tempo para tagarelice e bate-papo. A maioria ficava 
contente em responder s perguntas de Ayla, mostrar-lhe suas tcnicas e 
explicavam os mtodos que utilizava.
        Quando Ayla encontrou Folara, esta estava em meio a um trabalho de 
tecelagem com Marthona e impossibilitada de chegar facilmente a um ponto 
propcio para parar o trabalho, embora ela quisesse ir. Ayla no se 
importaria em esperar para ver o resultado do encordoamento, mas achava 
que os cavalos estavam precisando de ateno. Prometeu a Folara que 
visitariam os cavalos em outra oca sio, e, quando a chuva parou, resolveu ir 
antes que ela recomeasse.
        Huiin e Racer estavam em excelentes condies, e ficaram felizes ao 
v-la e a Lobo, quando foram encontrados, a uma boa distncia depois do 
Vale do Rio do Bosque. Eles haviam descoberto um pequeno prado verde no 
meio de um vale arborizado, com uma lmpida nascente que formara um lago, 
e, quando chovia, fornecia um lugar debaixo de algumas rvores para se 
proteger. Os veados-vermelhos que dividiam o lugar com eles dispararam 
para longe, ao verem a mulher e o lobo, ao mesmo tempo em que os cavalos 
relincharam e correram na direo dos dois.
        Aqueles veados j tinham sido caados, deduziu Ayla. Eles teriam 
parado e observado Lobo, mas era improvvel que um veado adulto em sua 
plenitude fugisse de um nico lobo. O vento est levando o meu cheiro na 
direo deles, e acho que tm mais medo dos caadores humanos.
        O sol tinha sado, e ela encontrou algumas inflorescncias secas de 
cardo penteador do ano anterior e usou a parte superior da erva espinhenta 
para limpar a pelagem dos cavalos. Ao terminar, notou que Lobo rastreava. 
Ela alcanou a funda, que estava enfiada na correia da cintura, e um seixo da 
margem pedregosa do lago, e quando ele afugentou um casal de lebres, Ayla 
acertou um dos lepordeos na primeira tentativa. Deixou que Lobo pegasse o 
outro.
        Uma nuvem fez o sol projetar uma sombra. Ela olhou para cima, viu a 
posio do sol no cu e deu-se conta de que o tempo passara depressa. Os 
dias anteriores tinham sido to agitados, que ela se sentiu bem por no 
haver nada a exigir dela ou de seu tempo. Mas, ao tornar a chuviscar, 
resolveu voltar para a Nona Caverna montada em Huiin. Racer e Lobo 
seguiram atrs. Ela ficou contente pela chuva somente desabar de vez 
depois que chegou ao abrigo. Conduziu os cavalos acima, para a varanda de 
pedra frontal e os levou caminhando pelo local habitado em direo da rea 
menos usada.
        Passou por alguns homens sentados em volta de uma fogueira e, ainda 
que no reconhecesse a brincadeira pelos gestos que faziam, ela adivinhou 
que estavam jogando. Eles pararam e a observaram passar. Ayla achou uma 
grosseria o modo como a fitaram, e fez questo de mostrar que, diferente 
dos jogadores, tinha boas maneiras, evitando olhar para eles. Ela, porm, 
tinha a habilidade das mulheres do Cl de vislumbrar imperceptivelmente, e, 
mesmo assim, captar uma grande quantidade de informaes com rpidas 
olhadelas. Percebeu que faziam comentrios uns para os outros, e achou que 
recendiam a barma.
        Mais alm, viu algumas pessoas em vrios estgios de curtir couros 
crus de bises e veados. Elas tambm devem ter achado a rea de trabalho 
muito apinhada, pensou. 
        Ayla levou os cavalos at quase  extremidade da salincia, perto do 
pequeno riacho que separava a Nona Caverna de Rio Abaixo, e considerou 
que aquele seria um bom local para construir-lhes um abrigo, antes da 
chegada do inverno. Teria que falar com Jondalar a respeito. A seguir, 
mostrou-lhes a trilha que levava abaixo para a margem do Rio e esperou 
para ver o que decidiriam fazer. Lobo resolveu ir com os cavalos, quando 
comearam a descida. Chovendo ou no, eles preferiam pastar perto do Rio a 
ficar ali em cima na rida salincia apenas para se manterem secos.
        Ayla pensou em ir atrs de Jondalar, mas mudou de idia e voltou 
para onde estavam trabalhando o couro. As pessoas ficaram contentes por 
ter uma desculpa para fazer um intervalo, e algumas por poderem falar com 
uma mulher que um lobo seguia e de quem cavalos no fugiam. Ayla notou que 
Portula estava entre elas. A jovem mulher sorriu-lhe, ainda tentando ser 
amigvel. Parecia verdadeiramente arrependida por haver tomado parte na 
brincadeira de Marona.
        Ayla estava querendo fazer algumas roupas para Jondalar, para si e 
para o beb que esperava, e lembrou que havia abatido um jovem cervo 
gigante. Ficou imaginando onde estaria ele, mas, enquanto se encontrava ali, 
resolveu que, pelo menos, poderia esfolar a lebre, que pendia da correia da 
cintura, e fazer algo para o beb.
        - Se houver espao, eu gostaria de esfolar rapidamente esta lebre - 
dirigiu-se ao grupo como um todo.
        - H espao bastante - afirmou Portula. - E terei prazer em deixar 
que use algumas de minhas ferramentas, se precisar.
        - Vou precisar, Portula, e obrigada pela oferta. Eu tenho muitas 
ferramentas; afinal de contas, vivo com Jondalar - insinuou Ayla com um 
sorrisoirnico. Muitas retriburam o sorriso, cientes. - Mas no esto 
comigo.
        Ayla gostou da sensao de ter pessoas por perto, todas ativamente 
ocupadas em tarefas nas quais eram competentes. Que diferena dos dias 
solitrios em sua caverna no vale. Aquilo mais parecia com sua infncia no cl 
de Brun, com todo mundo trabalhando junto.
        Rapidamente estripou e esfolou a lebre, e depois perguntou: - Vocs 
se importam se eu deixar isto aqui por enquanto? Preciso ir a Rio Abaixo. Na 
volta, eu apanho.
        - Eu cuido disso para voc - ofereceu-se Portula. - Se quiser, levarei 
comigo, quando eu for embora, se voc ainda no tiver voltado.
        -  muita bondade de sua parte - agradeceu. Ela estava sendo cordial 
com a jovem mulher, que, obviamente, tentava arduamente ser amigvel. - 
Volto j - disse Ayla, ao sair.
        Aps caminhar pelo tronco que servia de ponte sobre o riacho, ela viu 
Jondalar e vrios outros sob o abrigo do primeiro alapado. O local, 
obviamente, era usado h bastante tempo para lascar slex. O cho tinha 
uma grossa camada de lascas e partculas afiadas deixadas pelo processo de 
lascar o slex. No era prudente caminhar descalo por ali.
        - A est voc - anunciou Jondalar. - Estvamos mesmo nos 
preparando para voltar. Joharran esteve aqui e disse que Proleva organizou 
uma refeio com a carne de um dos bises. Ela faz isso to bem e com 
tanta freqncia, que as pessoas vo acabar se acostumando. Mas como 
todos andaram muito ocupados hoje, ela decidiu que desse modo seria mais 
fcil. Voc pode voltar com a gente, Ayla.
        - No me dei conta de que estava to perto da metade do dia - disse 
ela. Ao rumarem em direo  Nona Caverna, Ayla avistou Joharran  frente 
deles. Ela no percebera que ele viera por aquele caminho. Ele deve ter 
passado por mim, quando conversava com Portula e as outras e esfolava a 
lebre, imaginou. Notou que ele seguia na direo dos homens grosseiros que 
estavam sentados em volta da fogueira.
        Joharran tinha visto Laramar e alguns outros, jogando, quando passou 
apressado para informar aos artesos em Rio Abaixo sobre a refeio 
preparada por Proleva. Lembrou de ter pensado no quanto eram preguiosos, 
por ficar jogando enquanto todos os demais trabalhavam, e provavelmente 
usando lenha que mais algum havia juntado, mas, ao v-los no caminho de 
volta, decidiu que tambm devia informar ao grupo. final, Eles eram 
membros da Nona Caverna, apesar de no contriburem com muita coisa.
Eles estavam jogando e no o viram chegar. Ao se avizinhar, ouviu um deles 
comentar:
        - ...O que se pode esperar de algum que diz ter aprendido como curar 
com os cabeas-chatas? O que aqueles animais podem saber de cura?
        - Essa mulher no  curadora coisa nenhuma. Shevonar morreu, no 
foi? - concordou Laramar.
        - Voc no estava presente, Laramar! - interrompeu Joharran, 
tentando manter a calma. - Como sempre, voc no se importou em 
participar da caada.
        - Eu estava doente - alegou o homem, na defensiva.
        - Doente da sua prpria barma - afirmou Joharran. - Quero lhe dizer 
que ningum seria capaz de salvar Shevonar. Nem mesmo a Zelandoni ou a 
melhor curadora que j existiu. Ele foi pisoteado por um biso. Que homem 
 capaz de suportar todo o peso de um biso? Se no fosse Ayla, duvido que 
ele tivesse sobrevivido at Relona chegar. Ela encontrou um meio de aliviar 
a dor dele. Ayla fez mais do que qualquer um seria capaz. Por que est 
espalhando rumores maliciosos a respeito dela? O que ela fez para voc? - 
Eles pararam de falar, quando Ayla, Jondalar e os outros passaram.
        - Por que voc anda bisbilhotando conversas particulares? - contra-
atacou Laramar, ainda na defensiva.
        - Eu vim aqui para avisar que Proleva e algumas mulheres prepararam 
comida para todos, e que vocs podem compartilhar - rebateu Joharran. -O 
que eu ouvi foi dito em voz alta. Eu no podia simplesmente tapar os ouvidos. 
        - Em seguida, dirigiu os seus comentarios aos demais - A Zelandoni 
esta convencida de que Ayla  uma boa curadora, ento por que no lhe dar 
uma chance? Ns devamos estar contentes por receber uma pessoa com 
tantos talentos, pois nunca se sabe quando se poder precisar deles. Agora, 
por que vocs todos no vo comer? - o lder olhou diretamente para cada 
um deles, fazendo com que soubessem que os tinha reconhecido e se 
lembraria de todos, e depois se afastou.
        - O pequeno grupo se desfez e o seguiu em direo  outra ponta da 
salincia. Alguns concordaram com Joharran, pelo menos no que se referia a 
dar uma chance justa para Ayla comprovar os seus talentos, mas uns poucos 
no quiseram ou no conseguiram superar o preconceito. Laramar, embora 
tivesse concordado com o homem que havia falado em voz alta contra ela, 
no ligava para uma coisa nem para a outra. Sua tendncia era concordar 
com o que quer que fosse mais fcil.
        Enquanto Ayla caminhava com o grupo que vinha de Rio Abaixo e 
seguia em direo  rea de trabalho, permanecendo sob a protetora 
prateleira suspensa, pois gostavam de exercer para se ocupar. Muita gente 
gostava de fazer coisas, embora fosse bastante diversa a escolha dos 
materiais com os quais trabalhavam. Alguns, como Jondalar, gostavam de 
trabalhar com slex, para fazer ferramentas e armas de caa, outros 
preferiam trabalhar com madeira, marfim ou osso, e havia quem trabalhasse 
com fibras ou couro cru. Ocorreu-lhe que alguns, como Jondalar, gostavam 
de trabalhar com gente.
        Ao se aproximarem e o nariz dela farejar excelentes odores de 
comida, Ayla deu-se conta de que cozinhar e trabalhar com comida tambm 
era uma tarefa apreciada por algumas pessoas. O pendor de Proleva para 
organizar reunies comunitrias era obviamente algo de que ela gostava, e 
talvez o motivo para aquele festim improvisado. Ayla pensou em si mesma e 
no que mais gostava. Ela se interessava por muitas coisas e gostava de 
aprender a fazer coisas que nunca tinha feito, porm, mais do que tudo, 
adorava ser uma curandeira, uma curadora.
        A refeio estava sendo servida perto da enorme rea onde as 
pessoas trabalhavam em seus projetos, mas, ao chegarem perto, Ayla 
percebeu que uma rea contgua fora preparada para uma tarefa que podia 
no ser to agradvel, mas era necessria. Vrias redes para secar a carne 
que fora caada tinham sido esticadas entre estacas na vertical, a pouco 
mais de meio metro acima do cho. Havia uma camada de terra sobre a 
superfcie de pedra do abrigo e sua varanda frontal, rasa em algumas partes, 
mas funda o bastante em outras para sustentar as estacas. Algumas ficavam 
permanentemente enfiadas em fendas na pedra ou presas a buracos cavados 
na terra. Pilhas de pedra eram freqentemente adicionadas para uma 
fixao posterior.
        Outras construes semelhantes, feitas obviamente com o mesmo 
propsito, eram simplesmente amarraes sustentadas por cavilhas, uma 
espcie de armao porttil para secagem de alimentos. Elas podiam ser 
levantadas e apoiadas contra a parede dos fundos para ficarem fora do 
caminho quando no estavam em uso. Mas, quando carne ou verduras 
precisavam ser secadas, as armaes portteis podiam ser colocadas em 
qualquer lugar do cho onde quisessem. Normalmente, secava-se a carne 
para conservao perto do local onde era feito o abate, ou nas relvosas 
plancies aluviais abaixo, mas, quando chovia, ou simplesmente porque as 
pessoas queriam trabalhar perto de casa, desenvolviam mtodos de 
sustentar cordas ou redes de secagem.
        Alguns pequenos pedaos de carne em forma de lngua j pendiam das
armaes de secagem, e pequenas fogueiras fumacentas queimavam por 
perto, para afastar os insetos e eventualmente acrescentar sabor  carne. 
Ayla pensou em se oferecer, depois de comer, para ajudar a cortar a carne 
para secar. Ela e Jondalar j haviam se servido e estavam decidindo onde 
comer, quando viram Joharran caminhar na direo deles com rpidas 
passadas largas e uma expresso soturna.
        - Jondalar, Joharran est zangado com voc? - especulou Ayla.
        O homem alto virou-se para olhar o irmo se aproximar.
        - Acho que sim - observou. - O que ter acontecido? - Ele perguntaria 
depois, pensou.
        Os dois entreolharam-se e depois foram se juntar a Joharran, 
        Proleva, o filho dela Jaradal, Marthona e Willamar. Foram recebidos 
calorosamente, e lugares lhes foram cedidos. Era bvio que o lder estava 
descontente com alguma coisa, mas no parecia querer falar no assunto, pelo 
menos no com eles. Todos deram sorrisos de boa acolhida, quando a 
Zelandoni resolveu tambm se juntar ao grupo. Ela passara a manh em sua 
habitao, mas saiu depois que as pessoas comearam a se reunir para 
comer.
        - Quer que eu apanhe algo para voc? - perguntou Proleva.
        - Jejuei e meditei hoje, preparando-me para uma busca, e continuo 
restringindo os alimentos - explicou a Zelandoni, e olhou para Jondalar de 
um jeito que o deixou bastante inquieto. Subitamente, ele temeu que a sua 
associao com o outro mundo ainda no tivesse terminado. - Mejera foi 
apanhar algo para mim. Pedi a Folara para ajud-la. Mejera  uma aclita da 
Zelandoni da Dcima Quarta Caverna, mas no est contente com ela e quer 
ficar aqui, para ser minha aclita. Preciso levar isso em considerao, 
Joharran, e,  claro, saber se voc est disposto a aceit-la na Nona 
Caverna. Ela  muito tmida e retrada, mas tem algumas habilidades. Eu no 
me importaria em trein-la, mas sabe que precisarei ser particularmente 
cautelosa com a Dcima Quarta - comentou a Zelandoni, e olhou para Ayla.
        - A Zelandoni de l esperava ser escolhida como a Primeira - 
esclareceu a donier -, mas, em vez disso, a zelandonia preferiu a mim. Ela 
tentou fazer frente a mim e me forar a renunciar. Foi o meu primeiro 
desafio verdadeiro, e, apesar de ter sido ela quem recuou, no creio que 
tenha realmente aceito a escolha ou me perdoado.
        Voltou a se dirigir a todos:
        - Sei que ela vai me acusar de aliciar a sua melhor aclita, se eu 
aceitar Mejera mas preciso levar em conta o que  bom para todos. Se 
Mejera no est recebendo o treinamento necessario para desenvolver os 
seus talentos, no posso me preocupar em ferir os sentimentos de algum. 
Por outro lado, se algum outro Zelandoni se dispuser a trein-la e formar um 
vnculo com ela, talvez consiga evitar outro confronto com a Decima Quarta. 
Eu gostaria de esperar at depois da Reunio de Vero para tomar uma 
deciso.
        - Isso parece sensato - declarou Marthona, no instante em que 
Mejera e Folara se aproximavam. A jovem aclita trazia duas vasilhas, e a
irm de Jondalar carregava sua tigela e uma bolsa de gua. Ela havia
colocado alguns utenslios de mesa em sua sacola. Mejera entregou uma 
tigela com um caldo transparente  primeira, olhou agradecida para Folara, 
sorriu timidamente para Ayla e Jondalar, e depois baixou a vista para a sua 
comida.
        Seguiu-se um instante de silncio constrangido, e ento a Zelandoni 
falou:
        - No sei quantos daqui voc conhece, Mejera.
        - Eu conheo a sua me e o homem da sua lareira - disse Willamar. - 
Voc tem irmos, no tem?
        - Tenho, um irmo e uma irm - respondeu Mejera.
        - Qual a idade deles?
        - A minha irm  um pouco mais jovem do que eu, e o meu irmo tem 
mais ou menos a idade dele - informou Mejera, apontando para o filho de 
Proleva.
        - O meu nome  Jaradal. Eu sou Jaradal da Nona Caverna dos 
Zelandonii. Quem  voc?
        Ele declarou isso com tal cuidadosa preciso, como se, obviamente, 
tivesse sido ensinado, que todos tiveram que sorrir, inclusive a jovem mulher.
        - Eu sou Mejera da Dcima Quarta Caverna dos Zelandonii. Eu o sado, 
Jaradal da Nona Caverna dos Zelandonii.
        Jaradal sorriu vaidoso. Ela obviamente entende de rapazes da idade 
dele, deduziu Ayla.
        - Ns fomos negligentes. Devamos ter feito todas as apresentaes 
apropriadas - afirmou Willamar. As apresentaes foram feitas, e todos 
saudaram calorosamente a jovem tmida.
        - Voc sabia que o parceiro da sua me queria ser comerciante antes 
de conhec-la, Mejera? - observou Willamar. - Ele fez algumas viagens 
comigo, mas decidiu que no queria passar muito tempo longe dela, ou de 
voc, depois que nasceu.
        - No, eu no sabia disso - confessou, feliz por saber algo sobre a 
me e seu parceiro.
        No admira que ele seja um bom comerciante, pensou Ayla. Tem um 
jeito especial de tratar as pessoas.  capaz de deixar qualquer um  vontade. 
Mejera parecia um pouco 
mais descontrada, porm um tanto vexada por causa de toda a ateno. 
Ayla entendia como ela se sentia.
        - Proleva, eu vi algumas pessoas comearem a secar a carne da caada
- Comeou Ayla. - No sei como a carne  dividida, nem quem deve conserv-
la, mas gostaria de ajudar, se for conveniente.
        A mulher sorriu.
        - Claro que pode ajudar, se quiser.  muito trabalho, e a sua ajuda 
ser bem- vinda.
        - Eu quero - afirmou Ayla. - Pode se tornar um trabalho demorado e 
tedioso, a no ser que muita gente ajude. A, fica divertido.
        - A carne e metade da gordura  para todos usarem, de acordo com a
necessidade - continuou Provela -, mas o resto dos animais, couro, chifres, 
galhadas e tudo o mais pertencem  pessoa que abateu a caa. Acho que 
voc e Jondalar tm um megcero e um biso cada. Jondalar matou o biso 
que sacrificou Shevonar, mas esse foi devolvido  Me. Ns o enterramos 
perto da sepultura dele. Os lderes decidiram dar um outro para voc e 
Jondalar. Os animais so marcados, ao serem esquartejados, geralmente 
com carvo. A propsito, eles no conheciam o seu abel, e como voc estava 
ocupada com Shevonar, algum perguntou ao Zelandoni da Terceira. Ele fez 
um temporrio, para que os seus couros e as outras partes pudessem ser 
marcados.
        Jondalar sorriu.
        - Como se parece? - Ele sempre foi ciente de seu enigmtico abel e 
curioso em relao s marcas que identificavam os outros.
        - Acho que ele viu voc, Ayla, como protetora ou abrigadora - 
comentou Proleva. - Eu vou lhe mostrar. - Apanhou um graveto, alisou a terra 
e desenhou uma reta de cima abaixo. Em seguida, acrescentou outra linha, 
comeando perto da parte de cima e baixando inclinada um pouco para o lado 
de fora, e uma terceira, igual, do lado oposto. - Isso me lembra de uma 
tenda ou algum tipo de abrigo, algo para se proteger quando est chovendo.
        - Creio que tem razo - concordou Jondalar. - No  um abel ruim 
para voc, Ayla. Voc tem tendncia a ser protetora e prestativa, 
principalmente se h algum doente ou ferido.
        - Eu sei desenhar o meu abel - intrometeu-se Jaradal. Todos 
sorriram tolerantes. O graveto foi entregue a ele, e deixaram que fizesse o 
desenho. -Voc tem um? - indagou de Mejera.
        - Claro que tem, Jaradal, e ela certamente ter prazer em lhe 
mostrar. Depois - afirmou Proleva, repreendendo delicadamente o seu filho. 
        Um pouco de ateno era bom, mas ela no queria que ele adquirisse o 
hbito de exigir a ateno dos adultos  sua volta.
        - O que achou do seu abel, Ayla? - quis saber Jondalar. Estava 
curioso de saber a reao dela por ter sido aquinhoada com um smbolo 
Zelandonii.
        - J que, quando nasci, no recebi um eldom com a marca de um abel, 
pelo menos no que eu me lembre - disse Ayla -, essa marca  to boa quanto 
qualquer outra. No me importo em us-la como meu abel.
        - Voc recebeu dos Mamuti algum tipo de marca? - perguntou 
Proleva, imaginando se Ayla j tinha um abel. Sempre era interessante 
saber como outras pessoas faziam as coisas.
        - Quando fui adotada pelos Mamuti, Talut cortou uma marca no meu 
brao, a fim de tirar sangue, para poder fazer um desenho na placa que ele 
usava no peito durante as cerimnias,  contou Ayla.
        - Mas essa no foi uma marca especial? - indagou Joharran.
        - Para mim, foi. Ainda tenho a cicatriz - disse ela, mostrando a marca 
no brao. Em seguida, acrescentou um pensamento que lhe ocorreu: -  
interessante como as pessoas usam modos diferentes de mostrar quem so 
e a quem pertencem. Quando fui adotada pelo Cl, recebi a minha bolsa de 
amuleto com um pedao de ocre vermelho dentro dela, e quando eles do 
nome a uma pessoa, o mog-ur desenha uma linha vermelha que vai da testa  
ponta do nariz.  quando ele diz a todo mundo, principalmente  me, qual  
o totem do beb, fazendo na criana a marca do totem com ungento.
        - Est dizendo que as pessoas do seu Cl tm marcas mostrando quem 
elas so? - perguntou a Zelandoni. - Como abels?
        - Creio que so como abels. Quando um rapaz se torna homem, o 
mogur corta nele a marca do seu totem, depois esfrega uma cinza especial 
para criar uma tatuagem. 
        Meninas no costumam ter a pele cortada, pois, quando crescem, 
sangram por dentro, mas eu fui marcada pelo leo das cavernas, quando ele 
me escolheu. Tenho quatro marcas dele na minha perna. Essa  a marca do 
Cl para um leo das cavernas, e foi por isso que o mog-ur soube qual era o 
meu totem, embora, comumente, no seja uma marca de totem feminina. 
Trata-se de uma marca de homem, que  feita em um menino destinado a 
ser um poderoso caador. Quando fui aceita como a Mulher Que Caa, 
Mogur fez um corte aqui - colocou o dedo na garganta, logo acima do osso 
esterno -, para tirar sangue e passar nas cicatrizes da minha perna. - 
Mostrou as cicatrizes na coxa esquerda.
        - Ento voc j tem um abel. Essa  a sua marca, as quatro linhas - 
deduziu Willamar.
        - Creio que tem razo - disse Ayla. - No sinto nada em relao  
outra marca, talvez porque seja simplesmente algo utilitrio, para que as 
pessoas saibam a quem entregar algumas peles de animais. Apesar de o 
totem do meu Cl no ser um sinal dos Zelandonii, trata-se de uma marca 
especial para mim. Ela quer dizer que fui adotada, que eu pertenci a alguma 
coisa. Eu gostaria de us-la como o meu abel.
        Jondalar refletiu a respeito do que Ayla dissera sobre pertencer. Ela 
havia perdido tudo, no sabia de quem tinha nascido, nem qual era o seu povo. 
Depois foi chamou-se ela mesma como "Ayla de Nenhum Povo". Isso o fez 
perceber o quanto era importante para ela pertencer a alguma coisa.
        
        Ouviram-se insistentes batidas na placa ao lado da cortina de entrada. 
Elas acordaram Jondalar, mas ele permaneceu deitado no seu rolo de dormir, 
perguntando-se por que ningum atendia. Ento deu-se conta de que no 
parecia haver mais ningum em casa alm dele. Levantou-se e gritou, 
enquanto vestia alguma roupa: .
        - Estarei a em um momento. - Ficou surpreso em ver Jonokol, o 
artista que era aclito da Zelandoni, simplesmente porque o jovem 
raramente fazia uma visita sem a sua mentora. - Entre - mandou.
        - A Zelandoni da Nona Caverna disse que o momento chegou - 
informou Jonokol.
        A testa de Jondalar enrugou-se. No gostou de como aquilo soou. No 
estava inteiramente seguro de ter entendido o que Jonokol quis dizer, mas 
fazia uma idia e no ficou nada ansioso em relao a isso. Ele j tivera a 
sua cota do outro mundo. No desejava mesmo ter de lidar novamente com 
aquele lugar.
        - A Zelandoni disse que momento era este? - quis saber Jondalar.
        Jonokol sorriu diante do repentino nervosismo do homem alto.
        - Ela disse que voc saberia.
        - Receio que sim - concedeu Jondalar, resignando-se ao inevitvel. - 
Pode esperar at eu achar algo para comer, Jonokol?
        - A Zelandoni sempre diz que  melhor no comer.
        - Acho que tem razo - concordou Jondalar. - Mas um caneco de ch 
cairia bem, para lavar a boca. Ainda sinto o gosto de sono.
        - Provavelmente, eles tero um ch para voc beber - adiantou 
Jonokol.
        - Acredito que sim, mas no creio que seja de hortel, e  a primeira 
coisa que eu gosto de beber pela manh.
        - Os chs da Zelandoni sempre so temperados com hortel.
        - Podem ser temperados, mas no  o ingrediente principal.
        Jonokol apenas sorriu.
        - Ento espero que ningum se importe se, antes, eu verter gua.
        - No  necessrio conter a sua gua - disse o jovem aclito -, mas 
leve algo quente para vestir.
        Quando Jondalar voltou, ficou agradavelmente surpreso em ver Ayla 
esperando com Jonokol e amarrando as mangas de uma grossa tnica em 
volta da cintura. Jonokol deve ter dito para ela tambm levar algo quente. 
        Observando-a ocorreu-lhe que, na noite anterior  ltima, foi a 
primeira vez que ele no dormiu com Ayla desde que foi capturado pelos 
S'Armunai, durante a Jornada deles, e isso o deixou com uma sensao de 
intranqilidade.
        - Ol, mulher - cochichou no ouvido dela, ao roar a sua bochecha na 
dela, em cumprimento e depois a abraou. - Aonde voc foi esta manh?
        - Despejar o cesto noturno - esclareceu. - Quando voltei, encontrei 
Jonokol, ele informou que a Zelandoni mandou nos chamar, e fui pedir a 
Folara para ficar com Lobo. Ela disse que conseguiria algumas crianas para 
mant-lo ocupado. Mais cedo, desci para dar uma olhada nos cavalos. Ouvi 
outros cavalos nas proximidades. Fiquei pensando se deveramos construir 
algum tipo de cercado para prend-los.
        - Talvez - disse Jondalar. - Principalmente quando chegar a poca dos 
Prazeres de Huiin. Eu detestaria que uma manada tentasse captur-la, pois 
Racer provavelmente tentaria segui-la.
        - Ela primeiro teria a sua cria - afirmou Ayla.
        Jonokol ouvia com interesse a conversa sobre os cavalos. Os dois, 
obviamente, tinham obtido mais conhecimento por causa de sua associao 
com eles. Ayla e Jondalar saram com Jonokol. Ao chegarem  varanda 
frontal de pedra da Nona Caverna, Jondalar notou que o sol j estava bem 
alto.
        - Eu no sabia que era to tarde - declarou. - Por que no me 
acordaram mais cedo?
        - A Zelandoni sugeriu que deixssemos voc dormir, pois  possvel 
que esta noite fique acordado at tarde - revelou Jonokol.
        Jondalar inspirou fundo e soltou o ar pela boca ao mesmo tempo em 
que sacudia a cabea.
        - Aonde estamos indo? - perguntou, enquanto caminhavam ao lado do 
aclito, ao longo da salincia em direo a Rio Abaixo.
        - A Pedras da Fonte - respondeu Jonokol.
        Os olhos de Jondalar arregalaram-se, surpresos. Pedras da Fonte - 
um rochedo que continha duas cavernas e a rea imediatamente  sua volta - 
no era o lar de nenhuma Caverna dos Zelandonii em particular; era algo 
muito mais importante do que isso. Tratava-se de um dos lugares mais 
sagrados de toda a regio. Embora ningum morasse l normalmente, se 
algum grupo pudesse cham-lo de seu lar, esse seria a zelandonia, Aqueles 
Que Serviam, pois se tratava de um local abenoado e santificado pela 
Prpria Grande Me Terra.
        - Vou parar para beber gua - afirmou Jondalar enfaticamente, ao se 
aproximarem da ponte sobre o riacho de gua fresca da nascente que 
separava a Nona Caverna de Rio Abaixo. Ele no deixaria que Jonokol o 
convencesse a no matar a sede, apesar de ter deixado que o homem o 
dissuadisse de tomar o seu caneco matinal de ch de hortel.
        Perto do regato, a alguns metros da ponte, havia uma estaca enfiada 
no cho. Amarrado a ela, um caneco feito de tiras bem tranadas de folhas 
de tabua, para se tornar impermevel; se no ficasse amarrado, geralmente 
se perdia. O caneco era trocado periodicamente, j que se desgastava, e 
sempre tinha havido um ali desde que Jondalar se lembrava. H muito se 
sabia que a viso da reluzente gua fresca, invariavelmente, provocava sede, 
e, em vez de uma pessoa se agachar e peg la com as mos para beber, era 
muito mais fcil ter um caneco por perto.
        Todos beberam e depois prosseguiram pela trilha bastante usada. 
Rodearam O Rio na Travessia, e, na Pedra dos Dois Rios, viraram para o Vale 
da Relva, atravessaram o segundo rio, seguindo depois pelo caminho ao longo 
dele. Ao passarem gente de outras Cavernas acenou e os cumprimentou, mas 
no fez qualquer tentativa de retard-los. 
        Toda a zelandonia da rea, incluindo os aclitos, j tinha ido para 
Pedras da Fonte, e todos faziam uma boa idia de aonde iam as duas pessoas 
com o aclito da Zelandoni.
        Tambm faziam idia do motivo. Naquela comunidade fechada, j 
correra a notcia de que eles haviam trazido algo que talvez ajudasse a 
zelandonia a encontrar o esprito errante de Thonolan, o irmo morto de 
Jondalar. A despeito de saberem que era importante guiar um el recm-
libertado at o seu lugar apropriado no mundo dos espritos, a idia de 
entrar no outro mundo antes de ser chamado pela Me no era algo que a 
maioria desejava fazer. J era bastante assustador pensar em ajudar o el 
de Shevonar, que acabara de falecer e provavelmente estaria por perto, 
mas, procurar o esprito de algum que morrera bem longe e h muito tempo, 
era algo que sequer desejavam considerar.
        No havia muitas pessoas, exceto membros da zelandonia - e nem 
todos eles - que gostariam de trocar de lugar com Jondalar ou Ayla. A 
maioria contentava-se em deixar que Aqueles Que Serviam  Me lidassem 
com o mundo dos espritos. Ningum mais, porm, podia faz-lo; somente os 
dois sabiam onde o irmo de Jondalar havia morrido. 
        At mesmo Aquela Que Era Primeira sabia que aquele seria um dia 
exaustivo, ainda que estivesse desconfiada e em dvida se seriam capazes 
de encontrar o esprito errante de Thonolan.
         medida que Ayla, Jondalar e Jonokol continuavam rio acima, um 
imponente afloramento de rocha assomava adiante,  esquerda. A pedra 
macia elevava-se com tal proeminncia que quase parecia um monlito, mas 
uma olhada de perto revelou que era apenas o primeiro pico de uma sucesso 
de rochedos que recuavam numa fileira em ngulos retos ao Rio da Relva. A 
majestosa pedra no promontrio dos rochedos empinava-se do cho do vale, 
no meio arredondava- se com uma protuberncia, ia estreitando-se at o 
topo, e, ento, expandia-se abruptamente em uma vistosa calota achatada 
no cume.
        Movimentando-se diante dela e olhando diretamente para a pedra que 
se estendia adiante, podia-se, com um pouco de imaginao, visualizar nas 
fendas e formas arredondadas, a calota como um cabelo, uma testa alta 
abaixo da calota, um nariz achatado e dois olhos quase fechados fitando 
enigmaticamente  frente uma ladeira coberta de cascalho e arbustos. Para 
aqueles que sabiam como olhar, a vista frontal sutilmente antropomrfica 
era tida como um rosto oculto da Me, uma de Suas poucas caras que Ela 
mesma optara por mostrar, e, ainda assim, bem disfarada. Ningum podia 
jamais olhar diretamente o rosto da Me, nem algo parecido, e mesmo 
misteriosamente disfarado; Seu rosto continha um poder indizvel.
        A fila de rochedos flanqueava um vale menor com um riacho no meio 
que corria para o Rio da Relva. A fonte do pequeno regato era uma nascente, 
que borbulhava para fora do solo com tal fora, que formava um chafariz, 
com um profundo lago em volta, em meio a um vale arborizado. O nome 
comum era Fonte das Profundezas, e o pequeno curso d'gua que escorria 
dela era chama do de Riacho da Fonte, mas a zelandonia tinha outros nomes 
para eles, os quais a maioria tambm sabia. A nascente e o lago eram as 
guas do Nascimento da Me, e o regato, a gua Abenoada. Era sabido que 
elas tinham grandes poderes de cura e, em particular, se usadas 
corretamente, ajudavam as mulheres a conceberem.
        Um caminho com mais de trezentos e cinqenta metros de extenso 
subia pelo lado do paredo de pedra, passando alm do primeiro pico at 
uma plataforma no muito distante do cume, com uma pequena salincia que 
protegia as entradas de duas cavernas. As numerosas cavidades nessa 
regio de rochedos de calcrio eram, s vezes, chamadas de "cavernas", mas, 
como se tratava de espaos cncavos na rocha, tambm eram 
freqentemente chamadas de "Rasos". Em oposio, cavernas especialmente 
compridas ou profundas eram s vezes chamadas de "Fundos". A abertura  
esquerda na pequena plataforma penetrava pouco mais de cinco metros na 
rocha, e era usada como espao de moradia por aqueles que ali se detinham 
de tempos em tempos, geralmente a zelandonia. Era conhecida como o Raso 
da Fonte, mas tambm chamada de o Raso de Doni.
        A caverna  direita levava a uma funda passagem que penetrava por 
cerca de cento e vinte metros no corao do enorme rochedo, com cmaras,
recessos nichos, e outras passagens levando ao corredor principal. Tratava-
se de um lugar to sagrado, que o seu nome esotrico normalmente sequer 
era enunciado. O local era bem conhecido e to reverenciado, que no se 
precisava declarar a sua santidade e o seu poder para a totalidade mundana. 
No mnimo, aqueles que conheciam o seu verdadeiro significado preferiam 
atenu-lo, no fazendo muito alarde para a existncia corriqueira. Era por 
esse motivo que as pessoas se referiam aos rochedos simplesmente como 
Pedras da Fonte, e a caverna era chamada de A Caverna Funda de Pedras da 
Fonte, ou, s vezes, o Fundo de Doni.
        No se tratava do nico local sagrado na regio. A maioria das 
cavernas tinha um certo grau de santidade ligado a elas, e alguns lugares 
externos a elas tambm eram abenoados, mas a funda caverna em Pedras 
da Fonte era a mais enaltecida. Jondalar conhecia outras que se igualavam a 
Pedras da Fonte, porm nenhuma era mais importante.
         medida que subiam com Jonokol, Jondalar sentia um misto de 
exaltao e pavor, e, ao se aproximarem da plataforma, um arrepio de 
temerosa expectativa. No era algo que queria realmente fazer, mas, por 
causa de toda a sua apreenso, ele se perguntava se a Zelandoni seria capaz 
de encontrar o esprito livre do seu irmo, que se deveria esperar dele e 
como ele se sentia.
        Ao chegar ao alto terrao diante das cavernas, foram recebidos por 
mais dois aclitos, um homem e uma mulher. Estavam  espera logo na parte 
interna da entrada da funda caverna  direita. Ayla parou por um instante e 
virou-se para ver por onde tinha vindo. A elevada varanda de pedra dava 
vista para o Vale do Ria cho da Fonte e parte do Vale da Relva com o seu rio, 
e o panorama era impressionante, mas, de certo modo, ao seguirem pela 
galeria, as vistas mais prximas no interior da escura cavidade ficaram mais 
assustadoras.
        Principalmente durante o dia, entrar numa caverna resultava em uma 
imediata transformao, uma mudana de perspectiva de um ponto de vista 
aberto, amplo, para um corredor estreito e fechado, da luz do sol refletindo 
na pedra para uma inquietante escurido. A mudana ia alm do fsico e do 
externo. Especialmente para aqueles que entendiam e aceitavam o poder 
inerente do lugar, tratava-se de uma metamorfose que ia da tranqila 
familiaridade ao temor apreensivo mas tambm de uma transio para algo 
rico e maravilhoso.
        Somente uma pequena parte interna da abertura podia ser vista do 
lado de fora iluminado, mas, assim que os olhos se acostumavam  luz 
reduzida da entrada, as paredes de pedra da apertada passagem sugeriam o 
caminho para o interior umbroso. Um pequeno vestbulo, logo depois da 
abertura, continha uma lamparina de pedra acesa, pousada sobre uma parte 
saliente da parede, e vrias outras apagadas. Abaixo, em um nicho natural 
da pedra, havia tochas. Jonokol e o outro jovem pegaram uma lamparina, em 
seguida um graveto fino e seco, e o mantiveram na chama da que estava 
acesa, at ele se inflamar. Com isso, cada qual acendeu o pavio de musgo 
ensopado em gordura levemente solidificada, que se encontrava na beira 
cncade uma lamparina do lado oposto  empunhadura. A mulher acendeu 
uma tocha e acenou para eles.
        - Cuidado onde pisam - alertou ela, baixando a tocha para mostrar o 
cho irregular e a argila mida e brilhante que preenchia alguns dos espaos 
entre os ressaltos de pedra. -  muito escorregadio.
        Ao iniciarem o caminho pela passagem, atentos a cada passo sobre o 
cho irregular, ainda restava uma insinuao de luz do exterior. Ela diminua 
rapidamente. Depois de pouco mais de trinta metros, a escurido era total, 
rompida apenas pela fraca incandescncia das pequenas chamas. Um sopro 
de ar, vindo das estalactites suspensas no teto, extraviou-se para baixo, 
provocando um calafrio de medo, ao mesmo tempo que as minsculas chamas 
das lamparinas tremeluziam. Eles sabiam que, uma vez nas profundezas, se o 
fogo apagasse, um negrume mais intenso do que a mais escura das noites iria 
obscurecer totalmente a viso. Apenas mos e ps sobre a rocha fria e 
mida conseguiriam mostrar o caminho, e poderiam levar a uma passagem 
sem sada.
        Uma escurido mais profunda  direita, que no mais refletia as 
pequenas chamas nas midas paredes de pedra, indicava que a distncia 
daquele lado havia aumentado; talvez um nicho ou um corredor. Atrs deles 
e  frente, a tenebrosa obscuridade era palpvel, as densas trevas quase 
sufocantes. A nesga de ar era a nica indicao de um corredor que levava 
de volta ao lado de fora. Ayla desejou poder alcanar a mo de Jondalar.
        Ao seguirem em frente, as candeias carregadas pelos aclitos no 
eram a nica iluminao. Vrias lamparinas de pedra, rasas e bojudas, tinham 
sido instaladas a intervalos no cho, ao longo do escuro corredor, 
projetando uma luz que parecia espantosamente brilhante em meio s trevas 
do interior da caverna. Duas delas, porm, crepitavam. Ou precisavam de 
mais gordura para derreter dentro do bojo ou de um novo pavio de musgo, e 
Ayla ficou torcendo para que algum tomasse logo uma providncia.
        As lamparinas, contudo, davam-lhe uma sinistra sensao de que j 
estivera na quele lugar, e um medo irracional de voltar a estar l. No queria 
seguir a mulher  sua frente. No se considerava uma pessoa que tinha medo 
de cavernas, mas havia algo em relao quela que lhe dava vontade de fazer 
a volta e fugir, ou tocar em Jondalar para se tranqilizar. Viu-se, ento, 
andando pelo corredor escuro de outra caverna, seguindo as pequenas 
chamas de lamparinas e tochas, e observando Creb e os outros mog-urs. 
Estremeceu ante a lembrana e, de repente, percebeu que sentia frio.
        - Talvez seja melhor vocs pararem para colocar as roupas quentes - 
sugeriu a mulher que ia  frente, virando-se e levantando a tocha para Ayla 
e Jondalar.
        - Faz muito frio no fundo de uma caverna, principalmente no vero. 
No inverno, quando neva e tem gelo do lado de fora, at que  bastante 
quente. As cavernas profundas permanecem a mesma coisa o ano inteiro.
        Parar para algo to comum quanto vestir a tnica de mangas 
compridas acalmou Ayla. Embora estivesse pronta para se virar e sair 
correndo da caverna, quando a aclita reiniciou a caminhada, inspirou fundo 
e foi atrs dela.
        Apesar de o longo corredor parecer estreito e a temperatura baixar 
progressivamente, aps uns quinze metros, a passagem rochosa estreitou-se 
ainda mais. Uma maior umidade no ar era visvel por causa do reflexo nas 
paredes molhadas e dos estalactites que se projetavam do teto e seus 
estalagmites que emergiam do cho. Um pouco mais alm de sessenta 
metros no interior da caverna escura, mida e fria, o cho do corredor 
ascendeu, sem bloquear o caminho, mas dificultando o avano. Era tentador 
voltar dali, achar que j se tinha ido longe o bastante, e muitas pessoas de 
corao fraco o teriam feito. Prosseguir alm daquele ponto era um teste 
para a determinao.
        Segurando a tocha, a mulher  frente escalou a inclinao rochosa at 
uma pequena e estreita abertura no alto. Ayla observou a luz ondulante 
enquanto subia, depois inspirou fundo e prosseguiu acima, sobre pedras 
afiadas, at alcanar a mulher. Seguiu-a pelo estreito buraco, pelejando 
sobre mais pedras ainda para passar pela abertura, que descia para o 
corao do rochedo.
        A quase imperceptvel passagem de ar do primeiro compartimento 
agora era perceptvel apenas pela sua falta. Aps a brecha confinada, no 
era possvel detectar nenhum movimento de ar. A primeira indicao de que 
algum passara antes por aquele caminho eram trs pontos vermelhos 
pintados na parede do lado esquerdo. No muito tempo depois, Ayla viu algo 
mais  luz bruxuleante da tocha que ia com a mulher  frente. No conseguia 
acreditar em seus olhos e desejou que a aclita parasse um instante e 
colocasse a luz mais perto da parede esquerda. Parou e esperou que o 
homem alto atrs dela a alcanasse.
        - Jondalar - falou baixinho. - Acho que  um mamute naquela parede!
        - , sim, e mais de um - retrucou Jondalar. - Creio que, se no 
houvesse algo que a Zelandoni achasse mais importante fazer de imediato, 
esta caverna seria mostrada a voc com a cerimnia apropriada. Muitos de 
ns somos trazidos aqui, quando crianas. No muito novos, porm com idade 
suficiente para entender, mas, ainda assim, crianas.  aterrorizante, mas 
formidvel, quando voc v este lugar pela primeira vez, se for feito de 
maneira correta.  emocionante, mesmo sabendo-se que tudo faz parte de 
uma cerimnia.
        - Por que estamos aqui, Jondalar? - quis saber ela. - O que  to 
importante?
        A aclita que ia adiante, virou-se e retornou, ao perceber que no 
estava mais sendo seguida.
        - Ningum lhe falou? - indagou ela.
        - Jonokol disse apenas que a Zelandoni queria Jondalar e a mim - 
respondeu.
        - Eu no tenho muita certeza - observou Jondalar -, mas creio que 
estamos aqui para ajudar a Zelandoni a localizar o esprito de Thonolan, e, 
se for precisos ajud-lo a encontrar o seu caminho. Ns fomos os nicos que 
vimos o lugar onde ele morreu, e, com a pedra que voc quis que eu 
apanhasse... a propsito, a Zelandoni disse que foi uma excelente idia... ela 
acredita que talvez a gente consiga - explicou Jondalar.
        - Que lugar  este? - perguntou Ayla.
        - Ele tem muitos nomes - respondeu a mulher. Jonokol e o outro 
aclito os tinham alcanado. - A maioria se refere a ele como a Caverna 
Funda de Pedras da Fonte, ou, s vezes de Fundo de Doni. A zelandonia sabe 
o seu nome sagrado, e muita gente tambm, mas raramente  mencionado. 
Esta  a entrada para o Ventre da Me, ou uma delas. H varias outras, 
igualmente sagradas.
        - Todos sabem,  claro, que uma entrada implica uma sada - 
acrescentou Jondalar. - Isto significa que a entrada para o ventre  
tambm o canal do nascimento.
        - Portanto, isto quer dizer que este  um dos canais de nascimento da 
Grande Me Terra - concluiu o jovem aclito.
        - Como a cano que Zelandoni cantou no enterro de Shevonar, este 
deve ser um dos lugares por onde a Me fez sair "os Filhos da Terra" - 
deduziu Ayla.
        - Ela entende - exclamou a mulher, gesticulando com a cabea para os 
outros dois aclitos. - Voc deve conhecer muito bem a Cano da Me - 
falou para Ayla.
        - A primeira vez que ela ouviu foi no enterro - comentou Jondalar, 
sorrindo.
        - No  inteiramente verdade - contestou Ayla. - No se lembra? Os 
Losadunai tm algo parecido, s que eles no cantam. Apenas recitam as 
palavras. O Losaduna me ensinou a cano na linguagem deles. No  
exatamente a mesma, mas  semelhante.
        - Talvez porque o Losaduna no  capaz de cantar como a Zelandoni - 
Sups Jondalar.
        - Nem todos ns a cantamos - revelou Jonokol. - Muitos apenas 
pronunciam as palavras. Eu no canto, e se vocs me ouvissem saberiam por 
qu.
        - Uso palavras que no so exatamente as mesmas - esclareceu o 
jovem aclito. Eu estaria interessado, em alguma ocasio, em ouvir a verso 
Losadunai, principalmente se puder traduzi-la para mim, Ayla.
        - Sera um prazer. A linguagem deles  bem proxima da dos Zelandonii. 
Voc seria capaz de entend-la, mesmo sem traduo - afirmou Ayla.
        - Por algum motivo, todos os trs aclitos perceberam subitamente o 
estranho  sotaque dela. A mulher mais velha sempre imaginara os Zelandonii 
- sua lingua e aqueles que a usavam - como algo especial; eles eram o Povo, os 
Filhos da Terra. Era difcil conceber a idia de que aquela mulher acreditava 
que as pessoas que viviam distantes, alm do planalto glacial da regio 
montanhosa para o leste, pudessem ter uma lngua que parecesse 
semelhante a deles. Para pensar desse modo,  a estrangeira deve ter ouvido 
muitas lnguas de pessoas que viviam muito longe e que eram bem diferentes 
das do Zelandonii.
        Ocorreu-lhes o quanto era diferente a sua experincia daquela 
estrangeira, e o quanto ela sabia sobre outros povos que eles desconheciam. 
Jondalar tambm  aprendera muito em sua Jornada. Durante os poucos dias, 
depois de sua volta, ele j havia lhes mostrado muitas coisas. Talvez fosse 
esse o motivo das Jornadas, aprender coisas novas.
        Todos sabiam a respeito das Jornadas. Quase todas as pessoas 
jovens falavam em fazer uma, mas poucas realmente a faziam, e desses, 
menos ainda iam muito longe, pelo menos no os que voltavam. Jondalar, 
entretanto, ficara cinco anos fora. Tinha viajado para longe, tivera muitas 
aventuras, e o mais importante, porm, trouxera conhecimentos que podiam 
beneficiar o seu povo. Trouxera, tambm, idias que podiam mudar as coisas, 
e mudanas nem sempre eram desejadas.
        - No sei se deveria lhe mostrar as paredes pintadas, ao passarmos 
por elas. Isso talvez estragasse a cerimnia especial para voc, mas, como 
veria mesmo pelo menos parte delas, creio que posso levantar a luz para que 
possa enxerg-las um pouco melhor - props a mulher que ia  frente.
        - Gostaria de v-las - pediu Ayla.
        A aclita levantou bem alto a tocha para que a mulher que Jondalar 
trouxe para casa pudesse ver as pinturas nas paredes. A primeira, o mamute, 
estava reproduzida em viso lateral, do modo como eram mostrados os 
animais na maioria dos desenhos que ela tinha visto. A protuberncia na 
cabea, seguida por uma segunda no alto da cernelha, mas baixando 
ligeiramente sobre o dorso inclinado, tornava-o facilmente reconhecvel. 
Essa configurao era a forma caracterstica do grande animal peludo, 
muito mais do que as suas presas recurvadas e a tromba comprida. Estava 
pintado em vermelho, mas com sombreados em marrom. Estava de frente 
para a entrada, e executado com tal perfeio, que quase fazia Ayla esperar 
que o mamute sasse andando da caverna.
        Ayla no entendia direito por que os animais pintados pareciam 
naturais, nem fazia uma idia completa do trabalho que aquilo exigira, mas 
no pde resistir em olhar mais de perto, para ver como fora feito. 
Tratava-se de um tcnica perfeita e elegante. Uma ferramenta de slex 
fora usada para talhar um fino e ntido contorno, com detalhes exatos, na 
parede de calcrio da caverna, paralelamente a uma linha pintada de preto. 
Logo depois da linha talhada, a parede fora raspada para revelar um leve 
marfim castanho amarelado, a cor natural da pedra. Isso realava o 
contorno e contribua para a caracterstica tridimensional da obra.
        Notvel, porm, era a pintura no interior do contorno. Atravs da 
observao e do aprendizado, por parte daqueles que foram os primeiros a 
conceber a idia de pegar um animal vivo e reproduzi-lo em uma superfcie 
bidimensional, os artistas que pintaram as paredes da caverna obtiveram um 
surpreendente e inovador conhecimento da perspectiva. As tcnicas foram 
passadas adiante, e apesar de alguns artistas serem mais habilidosos do que 
outros, a maioria usava o sombreado para transmitir a total sensao de 
naturalidade.
        Ao passar diante do mamute, Ayla teve a arrepiante sensao de que 
o animal tambm se movia. Sentiu-se impelida a estender a mo para o 
animal pintado, tocar a pedra e depois fechar os olhos. Ela era fria, 
levemente mida, com a textura e a sensao de qualquer caverna de 
calcrio, mas, ao abrir os olhos, notou que o artista se aproveitara da 
prpria parede para a sua criao incrivelmente realista. O mamute fora de 
tal modo colocado na parede, que uma parte arredondada da pedra se 
tornara a farta barriga, e uma solidificao de estalactite que aderira  
parede e sugeria uma perna foi pintada como a parte posterior de uma delas.
Sob a luz vacilante das lamparinas a leo, ela percebeu que, quando se movia, 
via o animal de um ngulo ligeiramente diferente, o que mudava o modo como 
aparecia o relevo natural da pedra e lanava sombras sobre uma posio 
levemente distinta. Mesmo parada, observando os reflexos das chamas se 
moverem na pedra, tinha a impresso de que o animal pintado na parede 
respirava. Compreendeu, ento, o motivo por que o mamute parecia mudar de 
posio quando ela se movia, e concluiu que, se no o tivesse examinado com 
cuidado, poderia ter-se convencido de que ele realmente se mexia.
        Lembrou-se de uma ocasio, durante a Congregao do Cl, quando 
precisou preparar para os mog-urs a bebida especial que Iza lhe ensinara. O 
Mog-ur mostrou-lhe como ficar parada na sombra, para no ser notada, e 
ensinou o momento exato de sair de l, para parecer que ela havia surgido 
repentinamente. Havia um mtodo para a mgica daqueles que lidavam com o 
mundo dos espritos, mas tambm havia mgica.
        Ela sentira algo, ao tocar a parede, algo que no conseguia explicar 
direito ou entender. Tratava-se de insinuao daquela certa estranheza que 
vinha sentindo de vez em quando desde que, inadvertidamente, engolira as 
folhas da bebida dos mog-urs e os seguira ao interior da caverna. Desse 
momento em diante, ocasionalmente tinha sonhos perturbadores e, s vezes, 
mesmo acordada, vivenciava uma sensao de intranqilidade.
        Sacudiu a cabea, para se livrar da sensao, ergueu a vista e 
percebeu que os outros a olhavam. Sorrindo timidamente, afastou 
rapidamente a mo da pedra, com receio de ter feito algo errado, e ento 
olhou na direo da mulher que segurava a tocha. A aclita nada disse, ao se 
virar para mostrar o caminho adiante.
        As luzes das pequenas chamas cintilavam tnues nas paredes midas 
com lgubres insinuaes de reflexos, ao avanarem silenciosamente em fila 
nica pelo corredor. Havia no ar uma incmoda sensao de apreenso. Ayla 
tinha certeza de que estavam indo para o prprio corao do ngreme 
rochedo de calcrio, e estava contente por se encontrar na companhia de 
outras pessoas, certa de que se perderia se estivesse sozinha. Tremeu com 
uma sbita descarga de medo e pressentimento, por causa da impresso do 
que seria estar sozinha em uma caverna. Tentou afastar a sensao, mas no 
era fcil livrar-se do calafrio provocado pela caverna escura e fria.
        No muito distante do primeiro, havia mais um mamute, depois outros 
mais, e a seguir dois pequenos cavalos, pintados principalmente em preto. 
Parou para observ-los mais de perto. Novamente, linhas definindo 
perfeitamente as formas de cavalos que tinham sido entalhadas no calcrio. 
No interior delas, os animais estavam pintados de preto, mas, como nas 
outras pinturas, o sombreado lhes dava um surpreendente realismo.
        Ayla percebeu ento que tambm havia pinturas na parede direita da 
passagem, algumas voltadas para o lado de fora, e outras para o de dentro. 
Os mamutes predominavam; aparentemente, uma manada fora pintada nas 
paredes. Usando as palavras de contar, Ayla calculou pelo menos dez em 
ambos os lados da passa gem, e podia haver mais.
        Prosseguindo pelo escuro corredor, olhando as pinturas 
momentaneamente iluminadas  medida que passava, sentiu-se forada a 
parar por causa da impressionante cena do encontro de duas renas na 
parede esquerda. Ela precisava v-las melhor.
        A primeira rena, virada para dentro da caverna, era um macho. Ele 
era pinta do em preto, com a forma e os contornos decisivos do animal 
representados com exatido, inclusive as suas enormes galhadas, se bem 
que fossem mais sugeridas pelas formas arqueadas do que pintadas com 
exatido em todos os pormenores. A abea estava abaixada, e, para 
surpresa e admirao de Ayla, ele lambia delicadamente a testa de uma 
fmea. Ao contrrio da maioria dos cervdeos, a rena fmea tambm tinha 
galhadas, e, na pintura como na vida, as suas eram menores. Ela estava 
pintada em vermelho, e os joelhos se encontravam curvados para poder se 
baixar, a fim de aceitar a terna carcia dele.
        A cena revelava um verdadeiro senso de ternura e zelo, e a fez 
pensar em Jondalar e si mesma. Jamais imaginara que animais ficassem 
apaixonados, mas aqueles pareciam estar. Isso quase a levou s lgrimas, de 
to comovida que ficou. Os aclitos que serviam de guias permitiram-lhe 
demorar algum tempo. Entendiam sua reao; eles tambm ficaram 
comovidos com aquela cena sensvel.
        Jondalar fitava tambm maravilhado as renas pintadas.
        - Essa  nova - disse ele. - Eu achava que havia um mamute aqui.
        - E havia. Se voc olhar a fmea com ateno, ainda conseguir ver 
algo do mamute por baixo dela - explicou o jovem que ia na retaguarda.
        - Foi Jonokol quem fez - revelou a mulher  frente.
        Jondalar e Ayla olharam para o aclito e artista com um respeito 
renovado.
        - Agora entendo por que voc  aclito da Zelandoni - observou 
Jondalar. - Voc  muito talentoso.
        Jonokol assentiu agradecido ao comentrio de Jondalar.
        - Todos ns temos os nossos Dons. Soube que voc  um talentoso 
lascador de slex. Estou ansioso para ver alguns dos seus trabalhos. Alis, h 
uma ferra menta que venho tentando conseguir algum para fazer, mas no 
consigo explicar direito aos fabricantes de ferramentas, de m modo que 
eles entendam. Estava esperando Dalanar chegar para a Reunio de Vero, 
para poder pedir a ele.
        - Ele planeja vir, mas, se quiser, terei prazer em tentar produzir a 
sua ideia - ofereceu-se Jondalar. - Adoro um desafio.
        - Talvez possamos conversar amanh - sugeriu Jonokol.
        - Posso lhe perguntar uma coisa, Jonokol? - pediu Ayla.
        - Claro.
        - Por que pintou os cervos em cima do mamute?
        - Essa parede, esse lugar, me atraiu para ele - revelou Jonokol. - Era 
onde eu precisava colocar as renas. Elas estavam na parede e queriam sair.
        - Trata-se de uma parede especial. Ela nos leva mais alm - afirmou a 
mulher. - Quando a Primeira canta aqui, ou uma flauta  tocada, a parede 
reage. Ela ecoa, ressoa diante do som. s vezes, diz a voc o que ela deseja. 
        - Todas essas paredes dizem a algum para fazer pinturas nelas? - 
perguntou Ayla, indicando as pinturas ao passarem por elas.
         -  um dos motivos porque este Fundo  to sagrado. A maioria das 
paredes fala com voc, se voc souber como escutar; elas levam voc a 
lugares, se estiver disposto a ir - disse a aclita.
        - Nunca ningum me disse isso. No exatamente desse modo. Por que 
est nos dizendo isso agora? - quis saber Jondalar.
        - Porque vocs tero que ouvir, e talvez ir do comeo ao fim, se 
quiserem ajudar a Primeira a encontrar o el do seu irmo, Jondalar - 
respondeu a mulher, e depois acrescentou: - A zelandonia tem tentado 
entender por que Jonokol teve a inspirao de fazer essas figuras aqui. E 
estou comeando a perceber. - Sorriu enigmaticamente para Jondalar e 
Ayla, em seguida virou-se para penetrar ainda mais na caverna.
        - Ah, antes de prosseguir - disse Ayla  mulher, tocando em seu brao 
para det-la. - Eu no sei como me dirigir a voc. Posso perguntar o seu 
nome?
        - O meu nome no  importante - retrucou. - Afinal de contas, quando 
eu me tornar Zelandoni, terei mesmo que desistir dele. Eu sou a Primeira 
Aclita da Zelandoni da Segunda Caverna.
        - Ento, suponho que posso cham-la de Aclita da Segunda - declarou 
Ayla.
        - Sim, pode, embora a Zelandoni da Segunda tenha mais de um aclito. 
Os outros dois no esto aqui. Eles foram na frente, para a Reunio de 
Vero.
        - Que tal, ento, Primeira Aclita da Segunda?
        - Se isso lhe agrada, atenderei a esse nome.
        - Como devo cham-lo? - perguntou Ayla ao jovem que vinha atrs.
        - Sou um aclito apenas desde a ltima Reunio de Vero, e, como 
Jonokol, na maioria das vezes, ainda uso o meu prprio nome. Talvez eu deva 
lhe fazer uma apresentao e saudao formais. - Estendeu ambas as mos. 
        - Eu sou Mikolan da Dcima Quarta Caverna dos Zelandonii, Segundo 
Aclito do Zelandoni da Dcima Quarta Caverna. E eu lhe dou as boas-vindas 
- disse ele.
        Ayla segurou-lhe as mos.
        - Eu o sado, Mikolan da Dcima Quarta Caverna dos Zelandonii. Eu 
sou Ayla dos Mamuti, Membro do Acampamento do Leo, Filha do Lar do 
Mamute, Escolhida pelo Esprito do Leo das Cavernas, Protegida do Urso 
das Cavernas, Amiga dos cavalos Huiin e Racer e do caador Lobo.
        - Creio que ouvi algumas pessoas do leste se referirem 'a zelandonia 
delas como Lar do Mamute - observou a aclita.
        - Est correta - confirmou Jondalar. - Eles so os Mamuti. Ayla e eu 
vivemos com eles durante um ano, mas fico surpreso por algum aqui ter 
ouvido falar neles. Eles vivem muito distante.
        Ela olhou para Ayla.
        - Como voc  filha do Lar do Mamute, isso explica muitas coisas. 
Voc  uma Zelandoni!
        - No, no sou - afirmou Ayla. - Os Mamuti me adotaram no Lar do 
Mamute. No recebi o chamado, mas ele estava comeando a me ensinar 
algumas coisas antes de eu partir com Jondalar.
        A mulher sorriu.
        - Voc no seria adotada, se no estivesse destinada a isso. Tenho 
certeza de que receber o chamado.
        - No creio que eu queira ser chamada rebateu Ayla.
        - Talvez - disse a Primeira Aclita da Segunda, depois virou-se e 
continuou a gui-los para o corao de Pedras da Fonte.
        Adiante, comearam a ver uma incandescncia, que,  medida que se 
aproximavam, tornava-se quase brilhante. Depois da escurido total da 
caverna, com apenas algumas pequenas chamas, seus olhos tinham se 
adaptado, e qualquer iluminao mais intensa tornava-se estonteante. O 
corredor ficou mais amplo e Ayla viu vrias pessoas esperando na rea 
aumentada. Ela parecia praticamente apinhada, e, ao chegar l e reconhecer 
pessoas a quem tinha sido apresentada, perce beu que todos ali, menos 
Jondalar e ela, eram membros da zelandonia.
        A enorme mulher da Nona Caverna estava instalada sobre um assento 
que algum lhe levara. Levantou-se e srriu.
        - Estvamos  espera de vocs - disse a Primeira. Deu um abrao nos 
dois, executado a uma certa distncia, e Ayla logo percebeu que se tratava 
de uma abrao formal, uma saudao que se fazia em pblico a pessoas mais 
prximas.
        Um dos outros membros da zelandonia cumprimentou Ayla com um 
gesto de cabea. Ela respondeu do mesmo modo ao homem baixo e 
ligeiramente corpulento, que ela identificou como o Zelandoni da Dcima 
Primeira, o tal que a deixara impressionada por causa do forte aperto de 
mo e de sua autoconfiana. Um homem mais velho sorriu-lhe, e Ayla 
retribuiu o sorriso do Zelandoni da Terceira, que fora to gentil e lhe dera 
todo o apoio, quando ela tentara ajudar Shevonar. Reconheceu a maioria dos 
demais como gente a quem fora apresentada e havia saudado.
        Uma fogueira tinha sido acesa em cima de algumas pedras levadas 
para l com esse propsito - elas seriam carregadas de volta, quando 
sassem. Uma bolsa de gua parcialmente cheia encontrava-se no cho, ao 
lado de uma vasilha de cozi nhar de bom tamanho, feita de madeira e cheia 
de gua fumegante. Ayla obser Vou uma mulher usar uma pina de madeira 
curvada para pescar duas pedras quentes do fundo da vasilha, e depois 
acrescentar outras que ela retirou da fogueira. O vapor subiu em ondas, 
assim que as pedras quentes tocaram na gua.
        Ayla reconheceu Mejera e sorriu-lhe, quando esta ergueu a vista. 
Ento Aquela Que Era A Primeira juntou algum material retirado de uma 
bolsinha. Ela estava fazendo uma decoco, um cozimento, e no apenas uma 
infuso, percebeu Ayla.
        Provavelmente, havia alguma raiz ou casca de rvore naquela bebida, 
algo forte. Na vez seguinte em que pedras quentes foram acrescentadas, 
ondas de vapor encheram o ar de um intenso aroma. O hortel era fcil 
detectar, mas ela farejou outros odores e condimentos, os quais tentou 
identificar, e desconfiou de que o hortel era para disfarar o gosto de algo 
menos agradvel.
        Duas pessoas estenderam uma grossa cobertura de couro sobre o 
cho mido e rochoso, perto do assento que a Primeira havia ocupado.
        - Ayla, Jondalar, por que no vm para c e ficam  vontade - sugeriu
a grande mulher, indicando o couro. - Eu tenho algo para vocs beberem. - A 
jovem mulher que cuidava da poo na vasilha de cozinhar levou quatro 
coisas para o preparo. -Ainda no est pronta, mas  melhor vocs 
relaxarem um pouco.
        - Ayla adorou as pinturas nas paredes - anunciou Jonokol. - Creio - ela 
gostaria de ver mais. Talvez isso seja mais relaxante do que ficar sentado 
esperando a bebida ficar pronta.
        - Sim, eu gostaria de ver mais - concordou Ayla, prontamente. Ela se 
descobriu repentinamente bastante ansiosa por ter que ingerir uma 
beberagem desconhecida, cuja finalidade, sabia, era ajud-la a encontrar 
um outro mundo. experincia anterior com beberagens semelhantes no 
tinham sido especialmente agradveis.
        A Zelandoni observou-a atentamente por um instante. Ela conhecia 
muito bem Jonokol para entender que ele no teria feito a sugesto sem um 
bom motivo. O aclito teria notado que a jovem se revelava um pouco aflita, 
e parecia mesmo estar agitada.
        - Claro, jonokol. Por que no mostra a ela as paredes pintadas? - 
concedeu a Primeira.
        - Eu gostaria de ir com eles - adiantou-se Jondalar. Ele tambm no 
estava se sentindo muito tranqilo. - E talvez um portador de tocha possa ir
com a gente.
        - Sim, claro - concordou a Primeira Aclita da Segunda, apanhando a 
tocha que havia apagado. - Precisarei acend-la novamente.
        - H algumas obras excelentes na parede atrs dos membros da 
zelandonia mas no quero incomod-los - alegou Jonokol. - Vou lhes mostrar 
algo interessante, mais adiante do corredor.
        Ele os conduziu por um acesso que virava  direita do corredor 
principal. Imediatamente  esquerda, parou diante de outro painel com 
renas e um cavalo.
        - Voc tambm fez esse? - perguntou Ayla.
        - No, foi a minha professora. Ela foi a Zelandoni da Segunda, antes 
da irm de imer. Era uma excelente pintora - sublinhou Jonokol.
        - Ela era boa, mas acho que o aluno superou a professora - afirmou.
        - Bem, para a zelandonia, no  muito a qualidade que importa, apesar 
de ser apreciada.  a experincia. Essas pinturas no so apenas para olhar, 
vocs sabem. - acentuou a Primeira Aclita da Segunda.
        - Tenho certeza de que isso  verdade - concordou Jondalar, com um 
sorriso irnico -, mas, no meu caso, eu prefiro olhar. Devo admitir que no 
estou muito ansioso por essa... cerimnia. Estou disposto a participar,  
claro, e creio que pode ser interessante, mas, de minha parte, prefiro 
deixar que a zelandonia tenha a experincia.
        Jonokol sorriu diante da admisso.
        - Voc no  o nico a sentir isso, jondalar. A maioria prefere se 
manter firmemente neste mundo. Venham, deixe eu lhes mostrar algo mais, 
antes de encararmos coisas mais srias.
        O aclito artista levou-os para um outra rea do lado direito da 
passagem, onde se haviam formado mais estalactites e estalagmites do que 
o normal. A parede estava coberta com as formaes calcrias, mas, sobre 
as solidificaes, haviam sido pintados dois cavalos, que as incorporavam 
para criar o efeito de uma comprida e desgrenhada pelagem de inverno, O 
que se encontrava atrs dava um salto de um jeito bem animado.
        - Esses esto bem lpidos - observou Ayla, um tanto intrigada. Ela j 
vira cavalos se comportarem daquele modo.
        - Quando rapazes os vem pela primeira vez, sempre comentam que o 
de trs est "saltando para o Prazer" lembrou Jondalar.
        - Essa  uma das interpretaes - citou a aclita. - Pode ser um macho 
tentando montar a fmea da frente, mas acredito que isso  
propositadamente ambguo.
        - Foi a sua professora que os pintou, Jonokol? - indagou Ayla.
        - No. No sei quem os fez - respondeu ele. - Ningum sabe. Foram 
feitos h muito tempo, quando os mamutes foram pintados. As pessoas 
dizem que foram feitos pelos ancestrais, os antepassados.
        - H algo que quero lhe mostrar, Ayla - anunciou a mulher.
        - Voc vai lhe mostrar a vulva? - quis saber Jonokol, com uma certa 
surpresa. No  costume mostr-la numa primeira visita.
        - Eu sei, mas creio que devemos abrir uma exeo para ela - justificou 
a utra aclita, levantando o lume e mostrando o caminho para outro lugar 
no distante dos cavalos.
        Quando parou, baixou a tocha para iluminar abaixo uma formao 
rochosa bastante incomum, que se destacava da parede, seguia para ao cho, 
mas dele se elevava. 
        Quando Ayla olhou pela primeira vez, notou uma rea de pedra que 
fora salpicada com vermelho, mas s depois de observar cuidadosamente ela 
percebeu o que era, e, mesmo assim, talvez s porque tinha ajudado a mais 
de uma mulher a dar  luz. Um homem provavelmente reconheceria aquilo 
antes de uma mulher. Por um acidente - ou desgnio sobrenatural - a 
solidificao havia formado naturalmente uma rplica exata do rgo sexual 
feminino. A forma, as dobras, e at mesmo uma depresso que parecia a 
entrada da vagina, estava tudo l. Somente a cor vermelha fora 
acrescentada, a fim de real-la, para que fosse localizada facilmente.
        -  uma mulher! - exclamou Ayla, admirada. -  exatamente como uma 
mulher! Eu nunca tinha visto algo parecido.
        - Entende agora por que esta caverna  to sagrada? A prpria Me 
fez para ns.  a prova de que estava caverna  a Entrada para o Ventre da 
Me atestou a mulher que estava sendo treinada para servir  Grande Me 
Terra.
        - Voc j tinha visto isso antes, Jondalar? - perguntou Ayla.
        - S uma vez. Foi a Zelandoni quem me mostrou - disse ele. -  
extraordinrio. Uma coisa  um artista como Jonokol olhar a parede de uma 
caverna enxergar a figura que est nela e traz-la  superfcie para todos 
verem. Mas estava aqui assim mesmo. A cor acrescentada apenas a torna 
mais fcil de ver.
        - Tem mais um lugar que eu quero lhes mostrar - avisou Jonokol.
        Ele fez de volta o caminho pelo qual tinham ido, e, ao chegarem  rea 
mais larga, onde todos estavam  espera, passou apressado e virou  direita,
retomando ao corredor principal. No que parecia ser a extremidade,  
esquerda, havia um recinto circular e, na parede, viam-se depresses 
cncavas, o inverso de protuberncias arredondadas.
        Em algumas delas, tinham sido pintados mamutes de forma a criar 
uma inusitada iluso.  primeira vista, no pareciam ser depresses, em vez 
disso, assumiam a caracterstica da barriga de um mamute, arredondada 
para o lado de fora. Ayla teve de olhar duas vezes, e depois estender a mo 
para tocar e se convencer de que, na verdade, eram cncavas e no convexas, 
depreses e no protuberncias.
        - So notveis! - espantou-se Ayla. - Foram pintadas para parecerem 
oposto do que so!
        - Isso  novo, no ? No me lembro de ter visto antes - observou 
Jondalar.
        - Foi voc que pintou, Jonokol?
        - No.
        - Todos concordam que ela  excepcional - acrescentou a aclita. - 
Assim como Jonokol,  claro. Temos sorte de contar com dois artistas to 
talentosos.
        - H algumas figuras menores, mais adiante - avisou Jonokol, olhando 
Ayla -, um rinoceronte lanudo, um leo das cavernas, um cavalo entalhado 
mas a passagem  muito estreita e difcil de alcanar. Uma srie de linhas 
cam o final.
        - Eles devem estar  nossa espera. Acho melhor voltarmos - sugeriu a
mulher.
        Ao se virarem para retornar, Ayla olhou para a parede  direita, do 
lado oposto um pouco mais alm do corredor onde ficava o recinto 
semelhante a uma la onde se encontravam os mamutes. Uma estranha 
sensao de inquietude a dominou. Ela temeu o que viria a seguir. J sentira 
isso antes. A primeira vez foi quando fez a bebida com as razes especiais 
para os mog-urs. Iza dissera-lhe que a bebida era sagrada demais para ser 
desperdiada e, por isso, ela no teve permisso para praticar o modo de 
faz-la.
        Ela j havia ficado desorientada, logo ao mastigar as razes, para 
amolec-las, pois por causa de outros preparados que bebeu durante aquela 
noite de cerimnia e comemorao especiais. Ao notar que restara um pouco 
do lquido sagrado na velha tigela, ela o ingeriu, para que no fosse 
desperdiado. A eficaz beberagem tornara-se mais forte por ter ficado 
embebida, e o efeito sobre ela foi assustador. No estado de confuso em 
que ficou, seguiu as luzes das fogueiras s profundezas labirnticas da 
caverna, e, depois de se deparar com Creb e os outros mog-urs, ela no 
conseguiu voltar.
        Creb mudou depois daquela noite, e ela tambm nunca mais foi a 
mesma. Quando comearam os sonhos misteriosos e os momentos de viglia 
com estranhas sensaes e vises enigmticas que a levavam a alguns outros 
lugares e, s vezess, surgiam como avisos. Eles tinham sido mais fortes e 
mais predominantes na Jornada.
        Agora, ao olhar para a parede, a pedra macia subitamente pareceu-
lhe como se conseguisse enxergar atravs dela ou em seu interior. No lugar 
das fogueiras reluzindo fracamente na dura superfcie, a parede era mole, 
funda completamente negra. E ela estava ali, dentro do espao ameaador e 
nebuloso, sem conseguir encontrar a sada. Sentia-se exausta e fraca, e 
doa-lhe bem dentro. o, Lobo apareceu de repente. Ele estava disparando 
atravs do capim alto, saltando para se encontrar com ela, vindo para 
encontr-la.
        - Ayla! Ayla! Voc est bem? - perguntou Jondalar.
        - Ayla! - Jondalar chamou mais alto.
        - O qu? Oh, Jondalar. Eu vi Lobo - revelou, pestanejando e sacudindo 
a cabea, para tentar superar o aturdido estado de confuso em que se 
encontrava e o vago senso de premonio.
        - Como assim, viu Lobo? Ele no veio com a gente. Est lembrada? 
Voc o deixou com Folara - estranhou Jondalar, a testa vincada de temor e 
preocupao.
        - Eu sei, mas ele estava ali - afirmou, apontando para a parede. - Ele 
vem a mim, quando preciso.
        - Ele j fez isso antes - lembrou Jondalar. - Salvou a sua vida mais de 
uma vez. Talvez voc estivesse recordando.
        - Talvez - admitiu Ayla, mas, na verdade, no achava isso.
        - Voc disse que viu um lobo ali, na parede? - indagou Jonokol.
        - No exatamente sobre ela - disse Ayla -, mas Lobo estava l.
        - Creio que precisamos voltar - insistiu a aclita, mas fitava Ayla com 
uma expresso especulativa.
        - A esto vocs - exclamou a Zelandoni da Nona Caverna, quando 
voltaram  rea mais ampla do corredor. - J esto se sentindo mais 
relaxados e prontos para prosseguir? 
        Sorria, mas Ayla teve a ntida impresso de que a enorme mulher 
estava impaciente e no inteiramente satisfeita.
        Aps a intensa lembrana da ocasio em que tomou um lquido que 
alterou a sua percepo, e o momento de transferncia quando viu Lobo na 
parede, Ayla estava, no mnimo, se sentindo menos disposta a ingerir alguma 
beberagem que a colocasse em qualquer outro tipo de realidade, ou no outro 
mundo; no acredita va, porm, que tivesse alguma escolha.
        - No  fcil se sentir relaxada numa caverna como esta - alegou Ayla, 
- e me amedronta s de pensar em tomar esse ch, mas, se voc acha que  
necessrio, estou disposta a fazer o que deseja.
        A Primeira sorriu novamente, e dessa vez pareceu sincera.
        - A sua honestidade  revigorante, Ayla. Claro que no  fcil relaxar 
aqui. No  a inteno deste lugar, e talvez esteja certa em ter algum temor 
desse ch. Ele  muito poderoso. Eu ia mesmo lhe explicar que, depois de 
tom-lo, se sentir esquisita, e os efeitos dele no so inteiramente 
previsveis. Os efeitos costumam desaparecer depois de mais ou menos um 
dia, e no sei de ningum que tenha sido prejudicado por eles, mas, se no 
quiser tom-lo, ningum ir for-la.
        Ayla franziu a testa, perguntando-se se deveria recusar, mas 
contentou-se por lhe ter sido dada uma opo, j que isso tornaria mais 
difcil dizer no.
        - Se quer que eu tome, estou disposta - concedeu.
        - Tenho certeza de que a sua participao ser til, Ayla - rebateu a 
donier.
        - Assim como a sua, Jondalar. Mas espero que entenda que tambm 
tem o direi to de se recusar.
        - Voc sabe que sempre me senti desconfortvel em relao ao mundo
dos espritos, Zelandoni - disse Jondalar -, e, nos ltimos dois dias, cavando
sepulturas e tudo o mais, estive muito mais perto desse lugar do que
gostaria antes de a Me me chamar. Mas fui eu quem pedi a voc para
ajudar Thonolan, e o mnimo que posso fazer  ajud-la no que puder. Alis, 
ficarei contente em resolver logo isso.
        - Ento, por que vocs dois no vm at aqui e se sentam neste couro 
acolchoado, para prosseguirmos? - ofereceu a Primeira Entre Aqueles Que 
Serviam  Grande Me Terra.
        Aps se sentarem, a jovem mulher colocou com uma concha o ch nos 
canecos. Ayla olhou para Mejera e sorriu. Esta retribuiu o sorriso, 
timidamente, e Ayla percebeu que ela era muito jovem. Mejera parecia 
nervosa, e Ayla perguntou-se se aquela no seria a primeira vez que ela 
participava daquele tipo de cerimnia. A zelandonia, provavelmente, estava 
usando aquela ocasio como prtica de ensino.
        - No se apressem - observou o Zelandoni da Terceira, que ajudava a 
aclita a lhes entregar os canecos. - Tem um gosto forte, mas, com o 
hortel, at que no  nada mau.
        Ayla tomou um gole e ponderou que "nada mau" era uma questo de 
opinio. Em qualquer outra circunstncia, ela teria cuspido fora. O fogo na 
lareira apagara, mas a beberagem estava bem quente, e ela concluiu que, 
fosse o que fosse que houvesse no preparado, fazia o hortel ficar com um 
gosto horrvel. Alm disso, aquilo no era realmente um ch. Tinha fervido, 
em vez de ser feita infuso, e a fervura no extraa as melhores qualidades 
da hortel. Ficou imaginando se no haveria outras ervas curativas mais 
compatveis, ou incuas, que pudessem ser misturadas aos ingredientes 
principais de uma maneira mais agradvel. Raiz de glicnia, talvez, ou flores 
de tlia acrescentadas posteriormente, aps o cozimento. Em todo caso, no 
era um gosto para se saborear, e ela, finalmente, engoliu tudo de uma vez.
        Viu que Jondalar fez a mesma coisa, assim como a Primeira. Em 
seguida, notou que Mejera, que havia fervido a gua e servido a beberagem, 
tambm tinha tomado um caneco.
        - Jondalar, esta  a pedra que voc trouxe da sepultura de Thonolan? 
- indagou a Primeira, mostrando-lhe a pequena pedra cinzenta de borda 
afiada e aparncia comum, com uma face azul opalina iridescente.
        - Sim,  - confirmou. Ele reconheceria aquela pedra em qualquer lugar.
        - timo. Trata-se de uma pedra incomum, e estou certa de que 
carrega um vestgio do el do seu irmo. Segure-a, Jondalar, e depois d a 
mo para Ayla, a fim de que a pedra seja segurada por vocs dois. 
Aproxime-se do meu assento, e, com a mo livre, segure a minha. Agora, 
Mejera, chegue para perto de mim e segure a minha mo, e, Ayla, se voc se 
aproximar mais, poder dar a outra mo para Mejera.
        Mejera devia ser uma nova aclta, pensou Ayla. Ser que  a primeira 
vez que ela faz algo parecido?  a minha primeira vez com os Zelandonii, se 
bem que aquela vez, com Creb, na Congregao do Cl, tenha sido 
provavelmente semelhante, e,  claro, o que fiz com o Mamut foi. Ela viu-se 
recordando a ltima experincia com o velho do Acampamento do Leo, que 
intercedia com o mundo dos espritos, e isso no a fez se sentir melhor. 
Quando o Mamut descobriu que ela tinha um pouco das razes especiais do 
Cl usadas pelos mog-urs, ele quis experiment-las mas desconhecia as suas 
propriedades, e elas eram mais fortes do que havia imaginado. Os dois quase 
se perderam no vcuo profundo, e o Mamut a alertou para que nunca mais as 
usasse. Embora Ayla tivesse mais dessas razes consigo, no planejava 
ingeri-las.
        Os quatro que haviam consumido a bebida estavam agora de mos 
dadas e encarando uns aos outros, a Primeira sentada num banquinho baixo 
acolchoado, e o resto sentado sobre a esteira de couro estendida no cho. O 
Zelandoni da Dcima Primeira trouxe uma lamparina e a colocou no meio 
deles. Ayla j tinha visto lamparinas semelhantes, mas ficou bastante 
intrigada com aquela. Ela j comeava a sentir algum efeito da bebida, 
enquanto fitava a pedra que continha a chama. 
        A lamparina era feita de calcrio. A forma, no geral, incluindo a parte 
bojuda e a extenso da asa, tinha sido moldada com uma pedra muito mais 
dura, como granito. Depois, foi alisada com uma pedra de arenito e decorada 
com marcas simblicas gravadas com um buril de slex. Trs pavios 
apoiavam-se de um lado da concavidade oposto  asa, em diferentes ngulos, 
cada qual com uma ponta salientando-se da gordura lquida, e o resto do 
material absorvente encharcado nela. Um deles era de lquen de 
acendimento rpido e ardente, que derretia a gordura; o segundo, de musgo 
seco retorcido numa espcie de corda que fornecia uma boa luminosidade; e 
o terceiro, feito de uma tira seca de um fungo poroso, que absorvia to bem 
a gordura liqefeita, que permanecia queimando mesmo depois de o leo 
acabar. A gordura animal usada como combustvel era derretida em gua 
fervente, a fim de que as impurezas cassem para o fundo, deixando apenas 
o sebo branco e puro flutuando na parte de cima, depois que a gua esfriava. 
A chama queimava limpa, sem fumaa ou fuligem visveis.
        Ayla olhou em volta e notou, para seu desalento, que um Zelandoni 
apagava uma lamparina, e depois viu que outra era apagada. Logo, todas as 
lamparinas estavam apagadas, exceto a que se encontrava no centro. Como 
se desafiasse o seu tamanho diminuto, a luz da nica lamparina propagou-se 
e iluminou, com um plido brilho dourado, os rostos das quatro pessoas de 
mos dadas. Alm do cr culo, porm, a total e profunda escurido preenchia 
cada fissura, cada fenda e cavidade, com um negror to completo, que 
parecia densa e sufocante. 
        Ayla comeou a se sentir apreensiva, e ento virou a cabea e captou 
o despojado lampejo de uma incandescncia que vinha do comprido corredor. 
Algumas das luzes que guiaram o caminho deles ainda deviam estar acesas, 
deduziu, e soltou a respira o que ela no percebia estar prendendo. 
Sentia-se muito estranha. A decoco rapidamente fazia efeito. Era como 
se as coisas  sua volta diminussem a velocidade, ou ela estivesse indo mais 
depressa.
        Olhou para Jondalar, viu que a encarava, e teve a estranha sensao 
de quase saber o que ele estava pensando. A seguir, olhou para a Zelandoni e 
Mejera, e tambm sentiu algo, mas no era to forte quanto o que sentia em 
relao a Jondalar, e perguntou-se se no estaria imaginando aquilo. Teve 
conscincia de ouvir msica, flautas, tambores e pessoas cantando, mas no 
com palavras. No estava bem certa de quando ou mesmo de onde ela se 
originava.
        Cada cantor mantinha uma nica nota, ou uma srie de notas repetidas, 
at perder a respirao, em seguida tomar flego e recomear. A maioria 
dos cantores e tocadores de tambor repetiam a mesma coisa, sem parar, 
mas alguns cantores excepcionais variavam a sua cano, do mesmo modo 
que a maioria dos flautistas. Como comeava e terminava de acordo com a 
vontade de cada um, no havia mais do que duas pessoas comeando ou 
parando ao mesmo tempo. O efeito era um som contnuo de tons 
entremeados, que mudava  medida que novas vozes comeavam e outras 
terminavam, com um revestimento de melodias divergentes. s vezes, era 
atonal, s vezes rigorosamente harmnico, mas, no todo, uma fuga 
estranhamente maravilhosa, bela e poderosa.
        As outras trs pessoas do crculo tambm cantavam. A Primeira, com 
a sua bela e intensa voz de contralto, era uma das que variavam o tom de 
uma forma meldica. Mejera tinha uma voz pura, aguda, e uma srie simples 
e repetitiva de tons. Jondalar tambm entoava uma repetio de tons, um 
canto que ele obviamente havia aprimorado e com o qual se sentia feliz. Ayla 
nunca o ouvira cantar antes, mas a voz dele era cheia e correta, e ela 
gostava do efeito. Surpreendeu-se por ele no cantar mais vezes.
        Ayla sentia que devia acompanh-lo, mas ela tentara cantar quando 
vivia com os  Mamuti, e sabia que simplesmente no sabia como entoar uma 
melodia. No aprendera quando criana, e agora era tarde demais para isso. 
Ento, ouviu um dos homens ali perto, que comeara a trautear em tom 
montono. Aquilo lhe lembrou de quando vivia sozinha em seu vale, e  noite 
costumava murmurar um canto monotnico e se embalar para dormir, a capa 
de pele, que usara para manter o filho preso ao quadril, amassada em forma 
de bola e mantida perto da barriga.
        Suavemente, comeou a murmurar o seu canto grave e monotnico, e 
descobriu-se embalando-se muito ligeiramente. Havia algo tranqilizante na 
msica. O seu prprio murmurar a deixava relaxada, e os sons emitidos pelos 
outros lhe davam uma sensao reconfortante e protetora, como se eles a 
protegessem e es tivessem ali  sua disposio, se ela precisasse. Isso lhe 
tornou mais fcil ceder aos efeitos da bebida, que j exercia uma forte 
influncia sobre ela.
        Teve o senso aguado das mos que segurava.  esquerda, a mo da 
jovem estava fria, mida, e to docilmente mole, que o aperto era frouxo. 
Ayla comprimiu a mo de Mejera, mas no sentiu praticamente nenhuma 
presso em resposta; at mesmo o seu aperto de mo era imaturo e tmido. 
Em contraste, a mo  direita era quente, seca e ligeiramente calosa pelo 
uso. Jondalar mantinha a mo de Ayla com um firme aperto, e, enquanto a 
segurava, ela tinha a forte conscincia da pedra dura entre as duas, o que 
era ligeiramente embaraoso, mas a mo de Jondalar fazia com que se 
sentisse segura. Ainda que no pudesse v-la, tinha certeza de que o lado 
opalino da pedra se encontrava contra a palma de sua mo, o que significava 
que a aresta triangular do lado oposto estava contra a dele. Ao se 
concentrar na pedra, esta parecia esquentar, igualando-se  temperatura 
dos seus corpos, combinando-se com eles, parecendo como se tornasse uma 
parte deles ou eles uma parte dela. Ayla lembrou do calafrio que sentira 
logo ao entrar na caverna, e que o frio se intensificava  medida que 
penetravam cada vez mais em suas profundezas, mas, naquele momento, 
sentada no couro acolchoado e usando as roupas quentes, ela no sentia frio 
algum.
        Sua ateno foi atrada pela chama na lamparina; isso a fez pensar no 
agradvel calor do fogo em uma lareira. Fitou a pequena chama vacilante, 
fixando-se na poro incandescente e excluindo tudo o mais. Observava a 
pequena luz amarela enquanto ela se agitava e estremecia. Com cada 
respirao, Ayla parecia controlar a chama.
        Ao observar atentamente, percebeu que a luz no era inteiramente 
amarela. Prendeu a respirao, para mant-la imvel enquanto a examinava. 
A pequena chama era arredondada no centro, com a parte amarela mais 
brilhante comean do na extremidade do pavio e afunilando para um ponto. 
Dentro do amarelo, em forma de cone, ao se elevar no interior da poro de 
fogo. Abaixo do amarelo, no fundo, onde comeava a chama, o fogo tinha um 
leve azulado.
        Ela jamais olhara a chama de uma lamparina com tal intensidade. Ao 
voltar a respirar novamente, o fogo tremulante parecia brincar com a 
lamparina, movimentando-se ao ritmo da msica. Ao danar sobre a 
superfcie lustrosa do sebo derretido, sua luz refletindo no combustvel, a 
chama aumentava o fulgor. Encheu os seus olhos com a suave luminescncia 
ardente, at ela no conseguir enxergar nada mais.
        Isso a fez se sentir etrea, leve, despreocupada, como se pudesse 
flutuar sobre a calidez da luz. Tudo era fcil, sem esforo. Sorriu, 
gargalhou baixinho, e depois descobriu-se olhando para Jondalar. Pensou na 
vida que comeara a crescer dentro dela, e uma inundao de amor intenso 
por ele originou-se e transbordou. Jondalar nada pde fazer alm de 
retribuir o reluzente sorriso dela; vendo-o comear a sorrir de volta, Ayla 
sentiu-se feliz, amada. A vida era cheia de alegria e ela queria reparti-la.
        Sorriu exultante para Mejera e foi recompensada com um hesitante 
sorriso, depois voltou-se para a Zelandoni e a acolheu na proteo de sua 
felicidade. Em um canto imparcial de sua mente, que parecia ter-se 
distanciado dela, Ayla parecia observar tudo com uma estranha clareza.
        - Estou pronta para chamar o el de Shevonar e orient-lo para o 
mundo dos espritos - anunciou Aquela Que Era A Primeira, interrompendo o 
seu canto. Sua voz soou distante, mesmo para os prprios ouvidos. - Depois 
de ajud-lo, tentarei achar o el de Thonolan. Jondalar e Ayla tero que me 
ajudar. Pensem em como ele morreu e onde descansam os seus ossos.
        Para Ayla, o som das palavras dela estava repleto de uma msica que 
aumentava de intensidade e ficava cada vez mais complexa. Ouviu sons que 
ressoavam das paredes a sua volta, e ficou observando enquanto a enorme 
donier parecia tornar-se parte do canto reverberante que voltou a entoar, 
uma parte da prpria caverna. Viu os olhos da mulher se fecharem. Quando 
voltou a abri-los, ela pareceu enxergar algo que se encontrava bem distante. 
Em seguida, seus olhos se reviraram, exibindo apenas os brancos, e voltaram 
a se fechar, quando ela caiu para a frente do assento.
        A jovem cuja mo Ayla segurava tremia. Ficou imaginando se era de 
medo, ou se Mejera estava apenas emocionada. Virou-se para olhar 
novamente para Jondalar. Ele parecia olhar para ela, Ayla comeou a sorrir, 
e ento percebeu que ele, tambm, olhava fixo para o espao, no a via, mas 
sim algo bem distante dentro de sua mente. De repente, ela se viu 
novamente de volta s proximidades do seu vale.
        Ayla escutou algo que lhe gelou o sangue e fez o corao disparar: o 
retumbante rugido de um leo das cavernas - e um grito humano. Jondalar 
estava l com ela, dentro dela, ao que parecia; ela sentiu a dor de uma perna 
sendo mordida pelo leo, e depois ele perdeu a conscincia. Ayla parou, o 
sangue latejando nos ouvidos. J se passara muito tempo desde que ouvira 
um som humano, contudo sabia que era humano, e algo mais. Sabia que era a 
sua espcie de humano. Ficou to atordoada, que no conseguia pensar. O 
grito a deixara abalada - fora um grito de socorro.
        Com a presena de Jondalar inconsciente, no mais dominante, ela 
pde sentir os outros ali. Sublinhando tudo, havia a msica, vozes e flautas, 
tnues, mas protetoras reconfortantes, e os tambores, profundos e 
retumbantes.
        Ela ouviu o rugido do leo das cavernas e viu a sua juba avermelhada. 
Ento, percebeu que Huiin no ficara nervosa, e deduziu por qu... " 
Nenm! Huiin,  Nenm!"
        Havia dois homens. Afastou para o lado o leo que ela havia criado e 
ajoelhou-se para examin-los. A preocupao principal dela era como 
curadora, mas tambm estava aturdida e curiosa. Sabia que eram homens, 
embora fossem os primeiros dos Outros que ela se lembrava de ter visto.
        Percebeu de imediato que o homem com cabelo mais escuro no tinha 
salvao. Ele jazia em uma posio anormal, o pescoo quebrado. As marcas 
de dentes em sua garganta revelavam o motivo. Apesar de nunca t-lo visto 
antes, sua morte deixou-a transtornada. Lgrimas de dor inundaram os seus 
olhos. No que ela o amasse, mas sentia como se tivesse perdido uma coisa 
muito valiosa, antes de ter tido uma chance de apreci-la. Ficou arrasada, 
pois, pela primeira vez em que via pessoas de sua prpria espcie, uma delas 
estava morta.
        Desejou reconhecer a humanidade dele, honr-lo com um enterro, mas 
um exame mais atento do outro homem fez com que ela percebesse que 
seria impossvel. O homem de cabelos louros ainda respirava" entretanto a 
vida se esvaa dele atravs de um rasgo na perna. Sua nica chance estaria 
em ser levado para a caverna o mais depressa possvel para que ela pudesse 
trat-lo. No havia tempo para um enterro.
        Ela no sabia o que fazer. No queria deixar o homem ali, para os 
nimais. Notou que as pedras soltas nos fundos da garganta sem sado 
pareciam bastante instveis - a maior parte formava uma pilha por trs de 
uma pedra maior, que tambm no se encontrava muito estvel. Arrastou o 
morto para o fundo da garganta sem sada,perto do deslizamento de pedras 
soltas. 
        Depois que, finalmente colocou o outro homem agasalhado no 
arrastador de carga, voltou para a salincia de pedra levando uma comprida 
e resistente lana do Cl.
        Baixou a vsta para o homem morto e sentiu-se penalizada pela sua 
morte. Com os movimentos formais e silenciosos do Cl ela se dirigiu ao 
Mundo dos Espritos.
        Ela tinha vsto Creb, o velho Mog-Ur encomendar o esprito de Iza 
para o outro mundo com os seus movimentos abundantes e eloqentes. Ela 
havia repetido os mesmos gestos, quando encontrara o corpo de Creb na 
caverna, depois do terremoto, apesar de no saber o significado total dos 
gestos corporais. Isso no era importante - ela sabia qual era a inteno.
        Utilizando aforte lana como alavanca, do mesmo modo como teria 
usado uma vara de cavar para deslocar um tronco ou extrair uma raiz, soltou 
a enorme pedra e deu um salto para trs, saindo do caminho, enquanto uma 
cascata de pedras soltas cobria o morto.
        Ao chegarem a uma clareira entre paredes de rochas pontudas, Ayla 
desmontou e examinou o solo. Ele no tinha nenhuma pegada fresca de 
animais. Agora no havia mais dor. Tratava-se de uma ocasio diferente, 
muito tempo depois. A perna havia sarado, uma enorme cicatriz fora tudo 
que restara do ferimento. Os dois cavalgavam Huiin. Jondalar desmontou e 
seguiu Ayla, mas ela sabia que ele no queria realmente estar ali.
        Ela guiou o caminho para o interior de uma garganta sem sada, e 
depois subiu em uma pedra que havia se descolado doparedo. Caminhou at 
um deslizamento de pedras ao fundo.
        -  este o lugar, Jondalar - anunciou ela, e, retirando um bolsinha da 
tnica, entregou-a a ele. Jondalar conhecia aquele lugar.
        - O que  isto? -perguntou ele, segurando o pequeno recipiente de 
couro.
        - Terra vermelha, Jondalar. Para a sepultura dele.
        Ele assentiu, incapaz de falar. Sentiu apresso das lgrimas e no fez 
esforo para as refrear.
        Ayla despejou o ocre vermelho na mo e o disseminou pelas pedras e 
cascalho, e depois espalhou um segundo punhado. Ayla esperou enquanto 
Jondalar fitava com os olhos midos o aclive rochoso, e, quando ele se virou 
para ir embora, ela fez um gesto em direo ao tmulo de Thonolan.
        Chegaram  entrada da garganta com enormes pedras angulosas e 
aguadas, e olharam para o interior dela, atraidos pelo aclive coberto de 
cascalho no lado mais afastado, tempo havia passado novamente. Agora, 
estavam vivendo com os mamutoi e o Acampamento do Leo ia adot-la. Eles 
tinham retornado ao vale, Para Ayla apanhar algumas das coisas que havia 
feito a fim de presentear o seu novo povo, e estavam voltando. Jondalar 
parou no aclive, desejando que houvesse que pudesse reconhecer o lugar 
onde o irmao fora enterrado. Talvez sabia que a Zelandoni tentaria 
encontrar aquele lugar de descanso do esprito de Thonolan e, se pudesse, 
ajudar a gui-lo para o mundo dos espfritos. Mas como poderia contar-lhe 
onde ficava aquele lugar? Ele no teria sequer conseguido encontr-lo sem a 
ajuda deAyla.
        Notou que Ayla tinha uma bolsinha de couro na mo, semelhante  que 
usava em volta do pescoo.
        - Voc me disse que o esprito dele precisava retomar para Doni - 
disse ela. - No conheo os costumes da Grande Me Terra, sei apenas do 
Mundo dos Espritos dos totens do Cl. Pedi ao meu Leo das Cavernas para 
gui-lo at l. Talvez seja o mesmo lugar, ou talvez a sua Grande Me 
conhea esse lugar, mas o Leo das Cavernas  um totem poderoso, e o seu 
irmo no est sem proteo.
        Ela levantou a bolsinha.
        - Eu fiz um amuleto para voc. Voc, tambm, foi escolhido pelo Leo 
das Cavernas. No precisar us-lo, mas deve guarda-lo com voc. Coloquei 
dentro um pedao de ocre vermelho, para que ele possa conter um pedao 
do seu esprito e um pedao do seu totem, mas acredito que o seu amuleto 
deva conter mais uma coisa.
        Jondalar franziu a testa. Ele no queria ofend-la, mas no tinha 
certeza se queria aquele amuleto totem do Cl.
        - Creio que devia pegar uma pedra do tmulo do seu irmo. Um pedao 
do esprito dele talvez esteja nela, e poder lev-lo de volta para o seu povo, 
em seu amuleto.
        Os vnculos da consternao na testa dele se aprofundaram, e ento, 
de repente, se desfizeram. Claro! Isso talvez ajudasse a Zelandoni, num 
transe, a encontrar este lugar. Talvez houvesse mais coisas nos totens do 
Cl do que ele imaginava. Afinal, Doni no criou os espritos de todos os 
animais?
        - Sim, vou guardar a bolsa e colocar nela uma pedra da sepultura de 
Thonolan - resolveu.
        Ele olhou novamente para o aclive pontudo com pedras soltas que se 
apoiava no paredo com um frgil equilbrio. De repente, uma pedra, cedendo 
 fora csmica da gravidade, rolou para baixo, ficando no meio das outras, 
e pousou aos seus ps. Ele a apanhou.  primeira vista, parecia igual a todos 
os demais pedacinhos incuos de granito fragmentado e rocha sedimentria. 
Mas, ao vir-la, surpreendeu-se ao ver uma brilhante opalescncia onde a 
pedra havia se quebrado. Luzes vermelhas abrasadoras lampejavam no 
centro da pedra branca leitosa, e listras tremeluzentes azuis e verdes 
danavam e faiscavam sob o sol quando ele a virava para l e para c.
        - Ayla, olhe isto - exclamou, mostrando-lhe a faceta opalescente da 
pequena pedra que havia recolhido. - No dava para adivinhar vendo-a pelo 
outro lado.
        -  escura do lado de dentro, e parecia uma pedra comum, mas olhe 
aqui, onde se quebrou. As cores parecem vir l de dentro, e so to 
brilhantes que parecem quase vivas.
        - Talvez seja isso, talvez seja um pedao do esprito do seu irmo - 
disse ela.
        Ayla estava ciente da mo quente de Jondalar e da pedra 
pressionando contra a sua palma. O calor havia aumentado, no o bastante 
para causar incmodo, mas o suficiente para fazer com que ela o sentisse. 
Seria o esprito de Thonolan tentando se fazer notar? Ela desejou ter tido 
uma chance de conhecer esse homem. Desde que chegou, as coisas que ouviu 
a seu respeito indicavam que fora muito amado. Foi uma pena ter morrido 
to jovem. Jondalar sempre afirmou que foi Thonolan quem quis viajar. Ele 
seguiu na Jornada somente porque o seu irmo estava indo, e porque no 
queria mesmo se acasalar com Marona.
        -  Doni, Grande Me, ajude-nos a encontrar o caminho para o outro 
lado, para o seu mundo, para o lugar alm, mas ainda dentro dos espaos 
invisveis deste mundo. Do mesmo modo que a moribunda lua velha abriga a 
nova em seus braos delgados, o mundo dos espritos, do desconhecido, 
abriga este mundo do palpvel, da carne e do osso, da grama e do capim, em 
seu alcance invisvel. Mas, com a sua ajuda, ele pode ser visto, pode ser 
conhecido.
        Ayla ouviu a splica, entoada em um estranho canto em surdina pela 
enorme mulher. Percebeu que estava ficando tonta, apesar de no haver uma 
palavra exata para descrever as suas sensaes. Fechou os olhos e sentiu 
como se casse. Ao abri-los novamente, luzes lampejavam do interior de seus 
olhos. Embora no tivesse prestado muita ateno nelas, quando olhava os 
animais, percebia agora que vira outras coisas, sinais e smbolos marcados 
nas paredes da caverna, alguns iguais s vises em seus olhos. Agora no 
parecia importar se os seus olhos estivessem abertos ou fechados. Sentiu 
que estava caindo num buraco profundo, um tnel comprido e escuro, e 
resistiu  sensao, tentou manter o controle.
        - No reaja a isso, Ayla. Entregue-se - ordenou a grande donier. - 
Estamos todos aqui com voc. Ns lhe daremos apoio, Doni a proteger. 
Deixe que Ela leve voc aonde Ela deseja. Oua a msica, deixe que ela a 
ajude, diga-nos o que v.
        Ayla mergulhou no tnel, de cabea, como se estivesse nadando 
debaixo d'gua. As paredes do tnel, da caverna, comearam a tremeluzir, e 
ento pareceram se dissolver.
        Ela enxergava atravs delas, via dentro delas, uma relva alm delas, e, 
 distncia, muitos bises.
        - Vejo bises, grandes manadas de bises numa imensa plancie a cu 
aberto - disse Ayla. - Por um momento, as paredes voltaram a se solidificar, 
mas os bises permaneceram. Eles cobriram as paredes onde estiveram os 
mamutes. - Eles esto nas paredes, pintados nas paredes, pintados em 
vermelho e preto, e moldados para se encaixar. Eles so lindos, perfeitos 
to cheios de vida, do modo como Jonokol os faz. No os esto vendo? 
Olhem, bem ali.
        As paredes voltaram a se derreter. Ela podia v-los dentro delas, 
atravs delas.
        - Esto novamente no campo, uma manada deles. Seguindo em direo 
ao cercado. - De repente Ayla gritou. - No, Shevonar! No! No v para l, 
 perigoso. Ento, com pesar e resignao: -  tarde demais. Lamento, eu fiz 
tudo o que podia, Shevonar.
        - Ela queria um sacrifcio, para mostrar respeito, para as pessoas 
saberem que s vezes, tambm devem ceder um dos seus - falou a Primeira. 
Ela estava ali com Ayla.
        - No pode mais permanecer aqui, Shevonar. Precisa voltar agora para 
Ela. Eu vou ajud-lo. Ns vamos ajud-lo. Ns lhe mostraremos o caminho. 
Venha conosco, Shevonar... Sim,  escuro, mas est vendo a luz adiante? A 
luz intensa e brilhante? Siga por esse caminho.  l que Ela est  sua 
espera.
        Ayla segurava a mo quente de Jondalar. Ela podia sentir a forte 
presena da Zelandoni com eles, e uma quarta companhia a jovem com a mo 
frouxa, Mejera, mas ela era ambgua inconsistente. De vez em quando, ela 
se manifestava com muita fora, e depois murchava com incerteza.
        - Chegou o momento. V para o seu irmo, Jondalar - manifestou-se a 
grande mulher. - Ayla pode ajud-lo. Ela conhece o caminho.
        Ayla sentiu a pedra que os dois seguravam e pensou na bela superfcie 
leitosa de tonalidade azul com os abrasadores realces vermelhos. Ela se 
expandiu preenchendo o espao em volta de Ayla at ela mergulhar naquilo. 
Estava nadando, no na superfcie mas atravs da gua, sob a gua, to 
depressa que parecia estar voando. Ela voava, velozmente sobre a paisagem 
vendo prados e montanhas, florestas e rios, grandes mares internos e 
vastas estepes com capim e a profuso de animais que esses habitats 
sustentavam.
        Os outros estavam com ela, deixando que seguisse  frente. Jondalar 
era o mais prximo e ela o sentia mais fortemente, mas tambm percebia a 
proximidade da poderosa donier. A presena da outra mulher parecia to 
tnue, que mal era notada. Ayla levou-os diretamente para o desfiladeiro 
sem sada nas acidentadas estepes do distante leste.
        - Este  o lugar em que eu o vi. No sei para onde ir daqui - alertou ela.
        - Pense em Thonolan, chame o esprito dele, Jondalar - pediu a 
Zelandoni.
        - Alcance o el do seu irmo.
        - Thonolan! Thonolan! Eu posso senti-lo - afirmou Jondalar. - No sei 
onde est, mas posso senti-lo. - Ayla teve a percepo de Jondalar com mais 
algum, embora no conseguisse distinguir quem era. Ento, sentiu outras 
presenas, a princpio apenas poucas e depois muitas, chamando-os. Do meio 
da multido, duas pessoas se destacaram... no, trs. Uma delas carregava 
um beb.
        - Voc ainda est viajando, ainda explorando, Thonolan? - perguntou 
Jondalar.
        Ayla no ouviu nenhuma resposta, mas percebeu uma risada. Ento, 
teve a sensao de uma infinidade de espao para viajar e lugares para ir.
        - Jetamio est com voc? E o filho dela? - indagou Jondalar.
        Novamente, Ayla no percebeu palavra alguma, mas sentiu uma onda 
de amor irradiando da coisa amorfa.
        - Thonolan, sei do seu amor por viagem e aventura. - Dessa vez foi a 
Primeira quem falou com os seus pensamentos para o el do homem. - Mas a 
mulher que est com voc deseja retornar para a Me. Ela o seguiu apenas 
por causa do amor, mas est pronta para ir. Se voc a ama, deve deix-la ir 
e lev-la com voc, juntamente com o filho dela. A ocasio chegou, Thonolan. 
A Grande Me Terra quer voc.
        Ayla distinguiu confuso, uma sensao de estar perdida.
        - Eu lhe mostro o caminho - avisou a donier. - Siga-me.
        Ayla distinguiu-se sendo arrastada junto com o resto, seguindo 
velozmente sobre uma paisagem, que poderia ser familiar, se os detalhes 
no estivessem to embaados e se no estivesse ficando to escuro. 
        Apertou a mo quente  sua direita e sentiu a esquerda ser 
fervorosamente agarrada. Uma brilhante claridade surgiu diante deles  
distncia, que era como uma enorme fogueira, mas diferente. Tornava-se 
mais intensa  medida que se aproximavam.
        Foram mais devagar.
        - Voc consegue achar o caminho a partir daqui - anunciou a Zelandoni.
        Ayla sentiu-se livre dos els, e depois aliviada pela separao. Uma 
intensa escurido os engoliu, e, junto com a ausncia total de luz, um silncio 
abissal e absoluto os envolveu. 
        Ento, debilmente, em meio  sobrenatural quietude, ela ouviu msica: 
uma flutuante fuga de flautas, vozes e tambores. Teve a sensao de 
movimento. Eles aceleravam a um ritmo extraordinrio, mas, dessa vez, 
parecia vir da mo  esquerda. Mejera apertava com fora, medrosa, 
determinada a voltar o mais depressa possvel e arrastar juntos todos os 
demais no seu curso.
        Quando pararam, Ayla sentiu ambas as mos segurando as suas. Eles 
estavam diante da presena prxima da msica, de volta  caverna. Ayla 
abriu os olhos, viu Jondalar, a Zelandoni e Mejera. A lamparina no meio 
deles crepitava, o leo quase esgotado e apenas um pavio queimando. Nas 
trevas alm, ela viu a pequena chama de uma lamparina se mover, 
aparentemente por si mesma, e sentiu um arrepio. Outra lamparina foi 
trazida e trocada pela luz moribunda ao centro.
        Eles se largaram as mos, embora Ayla e Jondalar permanecessem de 
mos dadas um ou dois instantes a mais do que os outros, e comearam a 
mudar de posio. Aquela Que Era A Primeira juntou-se aos cantores e 
encaminhou a fuga para o seu final. Mais lamparinas foram acesas, e as 
pessoas passaram a se movimentar pelo local. Algumas se levantaram e 
bateram os ps.
        - Eu quero lhe perguntar uma coisa, Ayla - falou a grande mulher.
Ayla olhou para ela, na expectativa.
        - Voc disse que viu bises na parede?
        - Sim, os mamutes tinham sido cobertos e transformados em bises, 
com a forma da cabea e da protuberncia preenchida de cor, parecendo 
com a grande corcunda na cernelha do biso, depois as paredes pareceram 
sumir e se tornaram bises de verdade. Havia alguns outros animais, os 
cavalos e as renas se encarando, mas vi este lugar como uma caverna de 
bises - declarou Ayla.
        - Creio que a sua viso foi causada pela recente caada de bises e a 
tragdia que a envolveu. Voc participou dela e cuidou de Shevonar - 
justificou a Primeira. - Mas acredito que, alm disso, h um significado para 
as vises que teve. Elas lhe surgiram em grande nmero, neste lugar. Talvez 
o Esprito do Biso esteja dizendo aos Zelandonii que tem havido muita caa 
aos bises e precisamos suspender essas caadas, pelo resto do ano, para 
compensar, superar a m sorte.
        Seguiram-se murmrios concordantes. Isso fez a zelandonia se sentir 
melhor, ao pensar que podiam fazer algo para aplacar o Esprito do Biso e 
afastar a sorte desfavorvel do inesperado pressgio de morte. Eles 
informariam a suas Cavernas sobre a proibio da caa ao biso, e estavam 
quase agradecidos por terem uma mensagem para levar a todos.
        Os aclitos juntaram as coisas que haviam trazido para a caverna, 
depois reacenderam as lamparinas e as usaram para iluminar o caminho de 
sada. A zelandonia deixou o aposento seguindo-lhes os passos. Ao chegarem 
ao ressalto do lado de fora da caverna, o sol estava se pondo no ocidente, 
em meio a uma brilhante exibio de vermelhos abrasadores, dourados e 
amarelos. No caminho de volta a Pedras da Fonte, ningum parecia disposto 
a falar muita coisa sobre as suas experincias na caverna profunda.
        Enquanto os vrios membros da zelandonia deixavam o grupo para 
voltar s suas respectivas cavernas, Ayla imaginava o que os outros teriam 
sentido e se foi a mesma coisa que ela, mas relutava em se expressar. 
Apesar de ter muitas indagaes, no tinha certeza se era apropriado 
perguntar, ou se queria realmente saber as respostas.
        A Zelandoni perguntou a Jondalar se ele estava satisfeito por terem 
encontrado o esprito do irmo e ajudado o seu el a achar o caminho.
        Jondalar respondeu que acreditava que Thonol ficara contente e 
portanto ele tambm ficou. Mas, para Ayla, ele havia ficado mais do que 
aliviado. Ele fez o que pde, e, apesar de no ter sido fcil, agora o fardo da 
preocupao tinha sido aliviado.
        Quando Ayla, Jondalar, a Zelandoni e Jonokol chegaram  Nona 
Caverna, havia somente as solitrias luzes bruxuleantes do cu noturno, as 
pequenas luzes das lamparinas de pedra e as tochas para iluminar o caminho 
deles.
        Ayla e Jondalar sentiam-se exaustos, ao chegarem  habitao de 
Marthona. Lobo estava nervoso e ficou muito feliz em ver Ayla. Depois de 
consolar o animal e trocarem cumprimentos, fizeram uma refeio leve, e 
no demoraram muito para ir dormir. Aqueles poucos dias tinham sido 
difceis.
        - Posso ajud-la a cozinhar esta manh, Marthona? ofereceu-se Ayla. 
Elas foram as primeiras a acordar e desfrutavam juntas um tranqilo caneco 
de ch, enquanto todos os demais ainda dormiam. - Eu gostaria de aprender 
como voc gosta que a comida seja preparada, e onde guarda as coisas.
        - Seria um prazer contar com a sua ajuda, Ayla, mas esta manh 
fomos todos convidados a compartilhar uma refeio matinal com Joharran 
e Proleva. A Zelandoni tambm foi convidada. Proleva freqentemente 
cozinha para ela, e creio que Joharran acha que no teve muito tempo para 
conversar com o irmo desde o seu retorno. Ele parece particularmente 
interessado em aprender mais sobre a nova arma, o arremessador de lanas 
- explicou Marthona.
        Jondalar acordou lembrando-se da conversa sobre abels e o quanto 
foi importante para Ayla sentir que pertencia a alguma coisa. Era 
compreensvel, uma vez que ela no se lembrava do prprio povo, e no tinha 
mais qualquer vnculo com o povo que a criara. At mesmo deixara para trs 
os Mamuti, que a haviam tornado uma deles, a fim de seguir para casa com 
Jondalar. O pensamento assaltou a sua mente durante a refeio com a 
famlia de Joharran. Todos ali pertenciam aos Zelandonii, eram a sua famlia, 
a sua Caverna, o seu povo. Menos Ayla. Era verdade que eles se acasalariam 
em breve, mas ela continuaria sendo "Ayla dos Mamuti, acasalada com 
Jondalar dos Zelandonii".
        Depois da discusso com Joharran sobre o arremessador de lanas, 
da troca de anedotas com Willamar sobre viagem, e de conversas genricas 
com todos sobre a Reunio de Vero, o assunto concentrou-se no 
acasalamento de Jondalar e Ayla durante o Primeiro Matrimonial. Marthona 
explicou a Ayla que havia duas cerimnias de acasalamento a cada vero. A 
primeira, e geralmente a maior, realizava-se to cedo quanto razoavelmente 
possvel. A maioria das pessoas que 
        um pouco antes da partida deles e geralmente acasalava aqueles que 
decidiram amarrar o n durante o vero. Havia tambm duas cerimnisas de 
feminilidade, uma logo aps a chegada, e a segunda um pouco antes de se 
encerrar a Reunio de Vero.
        Impulsivamente, Jondalar interrompeu as explicaes dela.
        - Eu gostaria que Ayla pertencesse a alguma coisa, se tornasse uma 
de ns. Depois de nos acasalarmos, gostaria que ela fosse "Ayla da Nona 
Caverna dos Zelandonii", e no "Ayla dos Mamuti". Eu sei que normalmente 
 uma deciso que a me de uma pessoa, ou o homem da sua lareira, toma 
juntamente com os lderes e a zelandonia, quando essa pessoa deseja trocar 
a afiliao, mas o Mamut deu essa opo a Ayla, quando ela partiu. Se ela 
estiver disposta, posso ter a sua concordncia, mame?
        Marthona surpreendeu-se com o pedido repentino, e foi apanhada 
desprevenida.
        - Eu no a negaria a voc, Jondalar - disse ela, sentindo que o filho a 
deixara em uma posio insustentvel, ao perguntar algo assim, de repente e 
em pblico. - Mas no depende somente de mim. Tenho prazer em acolher 
Ayla na Nona Caverna dos Zelandonii, mas so o seu irmo, a Zelandoni e 
outros, incluindo a prpria Ayla, que devem ter uma palavra nessa deciso.
        Folara forou um sorriso, sabedora de que a me no gostava de ser 
apanhada de surpresa daquele modo. Teria preferido que Jondalar no a 
apanhasse desprevenida, mas teve que admitir: Marthona saiu-se muito bem.
        - Bom, eu sou um que no hesitaria em aceit-la - admitiu Willamar. - 
Eu at mesmo a adotaria, mas, como sou acasalado com a sua me, Jondalar, 
receio que isso tornaria Ayla sua irm, como Folara, ou seja, uma mulher com 
quem voc no poderia se acasalar. No acredito que queira isso.
        - No, mas agradeo a inteno - retrucou Jondalar.
        - Por que levantou esse assunto logo agora? - quis saber Marthona, 
ainda um pouco amuada.
        - Me pareceu um momento to bom quanto outro qualquer - justificou- 
se Jondalar. - Partiremos em breve para a Reunio de Vero, e gostaria de 
resolver isso antes de irmos. Eu sei que no estamos aqui h muito tempo, 
mas a maioria j conhece bem Ayla. Creio que ela seria um valioso acrscimo 
 Nona Caverna.
        Ayla, tambm, ficou mais do que surpresa, mas nada disse. Quero ser 
adotada pelos Zelandonii? perguntou-se. Isso importa? Se Jondalar e eu 
vamos acasalar, eu serei a mesma coisa que qualquer um deles, tenha esse 
nome ou no. Ele parece desejar isso. No sei por que, mas talvez ele tenha 
um bom motivo. Jondalar conhece seu povo melhor do que eu.
        - Acredito que, para aqueles de ns que a conhecem, Ayla seria um 
acrscimo mais do que satisfatrio  nossa Caverna, mas nem todos acham 
isso. No caminho de volta de Rio Abaixo, resolvi avisar a Laramar e alguns 
outros sobre o banquete de biso, e, ao me aproximar, ouvi a conversa deles. 
Faziam comentrios depreciativos em particular sobre as habilidades de 
cura de Ayla e o tratamento dado a Shevonar. Eles parecem acreditar que, 
quem aprendeu a curar com... o Cl, no deve saber muita coisa. Receio que 
esse seja o pensamento preconceituoso desse pessoal. Eu lhes disse que 
ningum, nem mesmo a Zelandoni, poderia ter feito mais do que Ayla, e devo 
admitir que me deixaram irritados. Essa, nem sempre,  uma boa ocasio 
para se insistir.
        Ento  por isso que ele estava to zangado, deduziu Ayla. Ao se dar 
conta disso, ela sentiu um misto de emoes. Ficou contrariada pelo que os
homens disseram sobre as habilidades de Iza, mas contente por Joharran
t-la defendido.
        -  mais um motivo para torn-la uma de ns - insistiu Jondalar. -
Vocs conhecem esses homens. No fazem nada alm de jogar e beber a 
barma de Laramar. Nem mesmo se importaram em aprender um ofcio ou 
desenvolver uma habilidade, a no ser que considerem jogar uma habilidade. 
Nem ao menos so caadores decentes. Eles so homens preguiosos e 
inteis, que em nada contribuem, a no ser que sejam levados pela vergonha, 
s que no tm muito esse sentimento. So capazes de tudo para evitar 
fazer um esforo para ajudar a Caverna, e todo mundo sabe disso. Ningum 
vai ligar para o que eles falam, se as pessoas de respeito se dispuserem a 
aceitar Ayla e torn-la uma Zelandonii.- Ele estava obviamente transtornado. 
        Queria que Ayla fosse aceita por si mesma, e isso dava um aspecto 
diferente  questo.
        - Isso sobre Laramar no  inteiramente verdade - observou Proleva. 
- Ele pode ser preguioso em relao  maioria das coisas, e no creio que 
goste muito de caar, mas Laramar tem uma habilidade. Ele  capaz de 
tornar bebvel qualquer beberagem feita com qualquer coisa que fermente. 
Soube que usa gros, frutas, mel, seiva de btula e at algumas razes, e 
transforma isso em bebidas apreciadas pela maioria das pessoas, e ele as 
prepara para quase todas as ocasies em que a gente se rene. 
         verdade que h quem exagere na bebida, mas ele  apenas o 
provedor.
        - Eu gostaria que ele fosse mesmo um provedor - comentou Marthona, 
com algum desdm. - Talvez, ento, as crianas da lareira dele no 
precisassem mendigar por tudo de que necessitam. Me diga uma coisa, 
Joharran, com que freqncia ele est "doente" demais, pela manh, para 
participar de um grupo de caa?
        - Eu achava que a comida era para todos, de acordo com a 
necessidade - observou Ayla.
        - A comida . As crianas no passam fome, mas, para todo o resto, 
elas tm que depender da boa vontade e generosidade dos outros - afirmou 
a Primeira.
        - Mas, como disse Proleva, se ele tem a habilidade de fazer uma 
excelente bebida apreciada por todos, no poderia troc-la pelas coisas de 
que a sua famlia necessita? - indagou Ayla.
        - Sim, poderia, mas no o faz - garantiu Proleva.
        - E a parceira dele? No poderia convenc-lo a contribuir com a 
famlia?
        - perguntou Ayla.
        - Tremeda? Ela  pior do que Laramar. Tudo o que ela faz  beber a 
barma dele e produzir mais filhos dos quais no cuida - rebateu Marthona.
        - O que Laramar faz com toda a bebida que produz, se no a troca por 
coisas para a sua famlia? - quis saber Ayla.
        - No sei - disse Willamar. - Mas deve trocar alguma coisa pelos 
ingredientes de que precisa para fazer mais.
        -  verdade, ele sempre consegue troc-la pelo que quer, mas nunca 
tem o suficiente para a parceira e os filhos - afirmou Proleva. - Ainda bem 
que Tremeda no parece se importar em pedir s pessoas coisas para as 
suas "pobres crianas".
        - E ele  quem toma a maior parte - explicou Joharran. - Tremeda 
tambm. Acredito que ele d uma boa quantidade. H sempre uma turma em 
volta dele, pedindo um gole. E acho que gosta de ter esse pessoal por perto. 
Provavelmente, acredita que so seus amigos, mas gostaria de saber quanto 
tempo ficariam com ele, se deixasse de lhes dar barma.
        - No muito, creio eu - arriscou Willamar. - Mas no acho que Laramar 
e seus amigos sejam as pessoas indicadas para decidir se Ayla deve se 
tornar uma Zelandonii.
        - Tem razo, Mestre Comerciante. Acredito que no h dvidas em 
relao a termos que aceitar Ayla, mas talvez devssemos deixar que ela 
decida - sugeriu a Zelandoni. - Ningum perguntou a ela se quer ser uma 
mulher Zelandonii.
        Todas as cabeas se voltaram para olh-la. E foi a sua vez de sentir-
se constrangida. Estava demorando para dizer alguma coisa, o que deixava 
Jondalar um pouco nervoso. Talvez ele a tivesse julgado mal. Talvez ela no 
quisesse se tornar uma Zelandonii. Talvez ele devesse primeiro ter 
perguntado a ela, antes de comear aquilo, mas, com toda aquela conversa 
sobre Matrimoniais, aquele lhe pareceu o momento apropriado. Finalmente, 
Ayla falou.
        - Quando decidi deixar os Mamuti e vir com Jondalar para a casa 
dele, eu sabia o que os Zelandonii achavam do Cl, o povo que me criou, e 
sabia que vocs talvez no me quisessem. Admito que fiquei um pouco 
temerosa de conhecer a famlia dele,o povo dele. - Parou por um momento, 
tentando ordenar os pensamentos e encontrar as palavras certas para 
transmitir o que sentia.
        - Eu sou uma estranha para vocs, uma estrangeira, com idias e 
costumes estranhos. Trouxe animais que vivem comigo e pedi que os 
aceitassem. Cavalos so animais que geralmente se caa, e quis que 
arrumassem um lugar para eles. Ainda hoje estive pensando em fazer um 
abrigo coberto para eles, na extremidade sul da Nona Caverna, no muito 
distante de Rio Abaixo. Durante o inverno, os cavalos costumam ter um 
refgio protegido do tempo. Tambm trouxe um lobo, um caador carnvoro. 
Sabe-se que alguns de sua espcie atacam pessoas, e pedi permisso a vocs 
para lev-lo para dentro, para dormir na mesma habitao em que eu dormia. 
        - Sorriu para a me de Jondalar.
        - Voc no hesitou, Marthona. Convidou a mim e ao Lobo para 
compartilhar a sua moradia. E, Joharran, voc permitiu que os cavalos 
ficassem nas proximidades, deixando que os leve pela salincia defronte s 
suas habitaes. Brun, o lder do meu cl, no teria permitido. Todos vocs 
escutaram quando expliquei sobre o Cl, e no me contestaram. Vocs se 
dispuseram a levar em considerao que aqueles a quem chamam de cabeas-
chatas podem ser gente, talvez um tipo diferente de gente, mas no animais. 
No esperava que fossem to solcitos, e sou grata por isso. 
         verdade que nem todos tm sido gentis, porm muitos de vocs me 
defenderam, apesar de mal me conhecerem. Estou aqui h pouco tempo. 
Talvez isso seja por causa de Jondalar, por confiarem que ele no traria 
algum que tentasse magoar o povo dele ou que no conseguissem aceitar. - 
Fez uma pausa, fechou os olhos por um instante, e depois continuou.
        "Apesar de todos os temores que eu tinha, ao partir, de conhecer a 
famlia de Jondalar e o povo, os Zelandonii, eu sabia que no haveria volta. 
No sabia o que iam achar de mim, mas isso no importava. Eu amo Jondalar. 
Queria passar a minha vida com ele. Estava disposta a fazer o que fosse 
necessrio, tolerar o que fosse preciso, para ficar com ele. Mas vocs me 
acolheram muito bem, e agora me perguntam se quero me tornar uma 
Zelandonii. - Fechou os olhos, para manter o controle e tentar engolir um n 
na garganta.
        "Eu tenho desejado isso desde que vi Jondalar pela primeira vez, e 
nem ao menos tinha certeza de que ele sobreviveria. Lastimei pelo seu irmo, 
no porque eu o conhecia, mas porque o reconheci. Perturbava-me o fato de 
nunca ter tido a oportunidade de conhecer algum do primeiro povo da 
minha espcie que eu lembrava ter visto. No sei que lngua eu falava, 
quando o Cl me achou e me adotou. Aprendi a me comunicar ao modo do Cl, 
mas a primeira lngua de que me lembro falar  o ZelandonIi.
        Mesmo sem a falar direito, penso nela como a minha lngua. Mas, antes 
at que pudssemos falar um com o outro, desejei ser do povo de Jondalar, 
para ser aceita por ele e que, algum dia, talvez me levasse em considerao 
para ser a sua parceira. Mesmo que eu fosse a sua segunda ou terceira 
mulher, isso me satisfaria.
        "Vocs me perguntam se quero ser uma mulher Zelandonii? Ah, sim, 
eu quero ser uma mulher Zelandonii. De todo o corao, desejo ser uma 
mulher Zelan donii. Desejo isso mais do que desejei qualquer coisa em minha 
vida - afirmou, os olhos cintilantes de lgrimas.
        Seguiu-se um silncio atordoante. Sem mesmo perceber como havia 
chegado l, Jondalar dera alguns passos para se aproximar dela e tom-la 
nos braos. Ele gostava tanto dela, que no havia palavras para expressar 
isso. Achava espantoso que ela pudesse ser to forte e, contudo, to 
vulnervel. No havia ningum ali que no estivesse comovido. At mesmo 
Jaradal tinha entendido algo do que ela dissera. As faces de Folara estavam 
umedecidas pelas lgrimas, e muitos outros chegaram perto disso. Marthona 
foi a primeira a recuperar a compostura.
        - Eu, por mim, estou feliz em lhe dar as boas-vindas  Nona Caverna 
dos Zelandonii - falou, abraando-a num gesto espontneo. - E ficarei feliz 
em ver Jondalar se juntar com voc, embora existam muitas mulheres que 
gostariam do contrrio. As mulheres sempre o amaram, mas, s vezes, eu 
duvidava que ele encontrasse uma mulher a quem conseguisse amar. Eu 
achava que, talvez, ele no escolhesse algum de seu povo, mas no 
imaginava que fosse viajar to longe para isso. Agora eu sei que deve ter 
havido algum motivo para ele fazer o que fez, e entendo por que ele ama 
voc. Voc  uma mulher rara, Ayla.
        Eles voltaram a conversar sobre a Reunio de Vero, e, quando o 
grupo ia se desfazer, a Zelandoni lembrou que ainda havia tempo para 
fazerem uma pequena cerimnia de aceitao de Ayla na Nona Caverna e 
torn-la uma mulher Zelandonii.
        Nisso, ouviu-se uma insistente batida na placa ao lado da entrada, mas 
antes que algum pudesse atender, uma menina irrompeu e correu em 
direo  Zelandoni, obviamente bastante aflita. Ayla imaginou que ela 
poderia ter talvez uns dez anos, mas ficou surpresa com o quanto as suas 
roupas eram andrajosas, manchadas e sujas.
        - Zelandoni - disse ela -, me disseram que estava aqui. No consigo 
fazer Bologan levantar.
        - Ele est doente? Ele se machucou? - indagou a Zelandoni.
        - No sei.
        - Ayla, por que no vem comigo? Esta  Lanoga, filha de Tremeda. 
Bologan  o seu irmo mais velho - explicou a Zelandoni.
        - Tremeda no  a parceira de Laramar? - perguntou Ayla.
        -  - respondeu a Zelandoni, ao sarem juntas, apressadas.
        Ao se aproximarem da habitao de Laramar e Tremeda, Ayla 
percebeu que havia passado diversas vezes por ela, mas no prestara 
ateno. O abrigo de pedra do povo de Jondalar era to grande, acolhia 
tanta gente, e tanta coisa tinha acontecido desde a chegada deles, que era 
difcil absorver tudo de uma s vez. Talvez fosse normal, por haver muitas 
pessoas, e levaria algum tempo para ela se acostumar quilo.
        A moradia ficava na extremidade da rea de habitao, afastada dos 
vizinhos, e mais distante ainda da maioria das atividades da Caverna. A 
construo habitvel propriamente dita no era grande, mas a famlia 
ocupava um pedao considervel da rea em torno ao espalhar 
negligentemente por ela uma quantidade de coisas, embora fosse difcil 
distinguir entre pertences pessoais e lixo. A alguma distncia da habitao, 
ficava o espao do qual Laramar se apropriou para fazer a sua bebida 
fermentada, que podia mudar de sabor dependendo dos ingredientes, mas 
com a qual sempre se podia contar.
        - Lanoga, onde est Bologan? - perguntou a Zelandoni.
        - L dentro. Ele no se mexe - respondeu Lanoga.
        - Cad a sua me? - quis saber a donier.
        - No sei.
        Quando afastaram a cortina da entrada, um terrvel cheiro ftido as 
agrediu. Exceto por uma pequena lamparina, a nica iluminao era a natural, 
obscurecida, que refletia da grande pedra suspensa do abrigo acima da 
habitao sem teto, e estava escuro no interior.
        - Vocs no tm mais lamparinas, Lanoga? - indagou a Zelandoni.
        - Temos, mas no temos leo - explicou a garota.
        - Podemos prender a cortina com a ala, por enquanto. Ela est bem 
aqui, logo depois da entrada, no meio do caminho - avisou a Zelandoni.
        Ayla encontrou a ala afixada  cortina e a prendeu na coluna. Ao 
olhar para o interior, ficou horrorizada com a sujeira. No havia pedras de 
pavimentao, e o cho imundo estava enlameado nos lugares onde um tipo 
de lquido havia encontrado o seu caminho para descer. Pelo fedor, ela 
deduziu que parte dele devia ser urina. 
        Parecia que cada pea de acessrios caseiros estava espalhada pelo 
cho, esteiras e cestos em farrapos, almofadas sem metade do enchimento, 
pilhas de peles e material tecido que deviam ter sido roupas. Ossos com a 
maior parte da carne arrancada apareciam dispersos aqui e ali. Moscas 
voavam em volta de sobras de comida podre, que ela no conseguia calcular 
de quantos dias, deixadas sobre pratos feitos de pedaos de madeira to 
toscos, que eram cheios de farpas. Sob a luz, ela viu um ninho de ratos, 
perto da entrada, contendo vrios recm-nascidos vermelhos e sem plo, 
contorcendo-se, os olhos ainda fechados.
        Logo depois da entrada, um rapaz magricela estava estatelado no 
cho. Ela o havia visto antes, brevemente, mas agora o olhava com mais 
ateno. Ele devia ter, talvez, doze anos, pensou Ayla, e o seu cinto indicava 
que alcanara a idade madura, porm era mais menino do que homem. Era 
bastante bvio o que acontecera. Bologan fora espancado e ferido, e a sua 
cabea estava coberta com sangue coagulado.
        - Ele andou brigando - concluiu a Zelandoni. - Algum o arrastou para 
casa e o deixou a.
        Ayla curvou-se, para averiguar o seu estado. Verificou a pulsao no 
pescoo e notou mais sangue, a seguir colocou a face diante da boca do 
rapaz. No apenas sentiu a sua respirao, mas tambm o cheiro.
        - Ainda respira - informou  Zelandoni -, embora esteja seriamente 
ferido, e a pulsao  fraca. A cabea est ferida, e ele perdeu muito 
sangue, mas no sei se o osso est fraturado. Algum o atingiu, ou ele deve 
ter cado sobre algo duro. Talvez seja por isso que ele no acorda, mas 
tambm est cheirando a barma.
        - E no sei se pode ser removido, mas no posso trat-lo aqui - alegou 
a Zelandoni.
        A garota aproximou-se da entrada, carregando no quadril uma criana 
franzina e letrgica, com cerca de seis meses e que parecia no tomar 
banho desde que nasceu. 
        Um beb com o nariz escorrendo e que ainda mal andava vinha 
pendurada na perna dela. Ayla achou ter visto outra criana atrs de Lanoga, 
mas no tinha certeza. 
        Ela devia ser mais me do que a me deles, pensou Ayla.
        - Bologan est bem? - quis saber Lanoga, com um ar preocupado.
        - Ele est vivo, mas ferido. Voc fez muito bem em me chamar - 
respondeu a donier. A Zelandoni sacudiu a cabea, raivosa e irritada com 
Tremeda e Laramar. - Terei que cuidar dele em minha moradia - anunciou.
        Normalmente, apenas as enfermidades mais srias eram tratadas na 
habitao de uma donier; em uma Caverna to grande quanto a Nona, no 
havia espao suficiente para serem levadas para l todos os que adoeciam ou 
se feriam ao mesmo tempo. Uma pessoa com os ferimentos to graves 
quanto os de Bologan era cuidada em sua prpria casa, com a Zelandoni indo 
a domiclio para cuidar dela. Mas no havia ningum naquela habitao para 
cuidar do garoto, e a Zelandoni no tolerava a idia de entrar naquele lugar, 
quanto mais passar algum tempo l.
        - Voc sabe onde est a sua me, Lanoga? - Aonde ela foi? - insistiu a 
Zelandoni, refazendo a pergunta.
        - Ao enterro - disse Lanoga.
        - Quem est tomando conta das crianas?
        - Eu.
        - Mas voc no  capaz de alimentar essa bebezinha - afirmou Ayla, 
chocada. - No tem leite para dar de mamar.
        - Eu posso alimentar ela - refutou Lanoga, um tom defensivo na voz. - 
Ela come comida. O leite secou.
        - O que significa que Tremeda ter outro beb dentro de um ano - 
comentou a Zelandoni a meia-voz.
        - Eu sei que bebs com essa idade so capazes de comer comida, se 
for preciso - salientou Ayla, compreensiva, sentindo a pontada de uma 
dolorosa lem brana. - Com que voc o alimenta, Lanoga?
        - Mingau de razes - disse ela.
        - Ayla, pode informar a Joharran o que aconteceu, e dizer a ele para 
vir aqui com algo para transportar Bologan para a minha habitao? E 
tambm gente para carreg-lo? - pediu a Zelandoni.
        - Sim,  claro. Volto j - prometeu Ayla, saindo apressada.
        J era noitinha quando Ayla deixou a habitao da Zelandoni e partiu 
apressada em direo  habitao do lder. Ela estivera ajudando a curadora 
da Nona Caverna e ia comunicar a Joharran que Bologan estava desperto e 
parecia falar de forma bastante coerente.
        Joharran estava  sua espera. Antes de ele sair, Proleva perguntou: - 
Querem alguma coisa para comer? Vocs passaram a tarde toda com a 
Zelandoni. 
        Ayla sacudiu a cabea e preparou-se para sair. Ela abriu a boca para 
dar uma justificativa, mas Proleva acrescentou rapidamente: - Ou, quem 
sabe, um caneco de ch? Tenho um ch pronto.  de camomila, alfazema e 
flor de tlia.
        - Bem, talvez um caneco, mas preciso voltar logo - justificou-se Ayla. 
Ao pegar o seu caneco, ela refletiu se a mistura fora sugerida pela 
Zelandoni ou se Proleva deduziu que se tratava de uma boa bebida para uma 
mulher grvida. Era incua, com um leve efeito calmante. Ela deu um gole no 
ch quente que a mulher havia despejado em seu caneco e provou. Tinha um 
sabor agradvel e qualquer um podia tom-lo, e no apenas mulheres 
grvidas.
        - Como est Bologan? - perguntou a mulher do lder, ao se sentar 
perto de Ayla com o seu caneco.
        - Acho que ele vai ficar bem. Levou uma pancada feia na cabea e 
sangrou bastante. Eu receava que o osso estivesse fraturado, mas 
ferimentos na cabea sempre parecem piores que so. No tem qualquer 
sinal de fratura, mas ele esta com um grande calombo na cabea e outros 
ferimentos. Precisa de descanso e cuidados imediatos. Parece bvio que ele 
andou brigando, e tambm bebeu barma.
        -  sobre isso que Joharran quer conversar com ele - adiantou Proleva.
        - O que me deixa mais preocupada  aquela criancinha - declarou Ayla.
        - Ela precisa ser amamentada. Outras mes, que esto amamentando, 
podiam dar a ela um pouco do seu leite. As Mulheres do Cl fizeram isso 
quando... - hesitou por um momento -.. . uma mulher ficou muito cedo sem 
leite. Ela estava cuidando de sua me, e ficou muito penalizada quando ela 
morreu. - Ayla resolveu no mencionar que foi ela a mulher que perdeu o 
leite; ainda no contara a ningum que tivera um filho enquanto vivia com o 
Cl. - Perguntei a Lanoga com o que ela alimentava o beb. Disse que era com 
mingau de razes. Eu sei que crianas bem novas podem comer comida, mas 
todos os bebs tambm precisam de leite. Aquela criancinha no vai crescer 
direito sem ele.
        - Tem razo, Ayla. Bebs precisam de leite. Receio que ningum tenha 
ligado para Tremeda e sua famlia. Ns sabemos que as crianas no so bem 
cuidadas, mas so filhos de Tremeda, e as pessoas no gostam de se meter 
na vida dos outros.  difcil a gente saber o que fazer, e portanto a maioria 
de ns simplesmente os ignora. Eu nem mesmo sabia que ela tinha perdido o 
leite - explicou Proleva.
        - Por que Laramar no falou nada? - questionou Ayla.
        - Duvido que ele ao menos tenha notado. Laramar no liga a mnima 
para os filhos, exceto Bologan, de vez em quando. No estou segura se ele 
ao menos sabe quantos so - comentou Proleva. - Ele s vai l para comer e 
dormir, e s vezes nem mesmo para isso, o que talvez seja at melhor. 
Quando esto juntos, Laramar e Tremeda discutem o tempo todo. Em geral, 
isso acaba em brigas, nas quais, invariavelmente, ela leva a pior.
        - Por que ela continua com ele? - inquietou-se Ayla. - Se Tremeda 
quisesse, poderia deix-lo, no?
        - Aonde ela iria? A me de Tremeda morreu, e, como no acasalou, 
nunca houve um homem na famlia dela. Ela tem um irmo mais velho, mas, 
antes de Tremeda crescer, ele mudou-se para longe, primeiro para uma 
outra Caverna, e depois para mais distante ainda. H anos que ningum tem 
notcias dele - contou Proleva.
        - Ela no poderia arranjar outro homem? - sugeriu Ayla.
        - Quem ia querer Tremeda?  verdade que ela consegue encontrar 
algum, homem, para honrar a Me, num Festival da Me, geralmente algum 
que ingeriu muita barma, ou cogumelos do prado, ou qualquer outra coisa, 
mas Tremeda no  exatamente um encanto. E tem seis filhos que precisam 
ser sustentados.
        - Quantos anos eles devem ter?
        - Bologan  o mais velho. Deve ter doze anos - arriscou Proleva.
        - Foi o que eu deduzi - concordou Ayla.
        - Lanoga deve estar com dez anos - continuou Proleva. - Depois, tem 
um de oito, um de seis, um de dois e o beb. Ela tem apenas algumas luas, 
talvez metade de um ano. Tremeda teve outro filho, que completou quatro 
anos, mas morreu.
        - Temo que esse beb v morrer. Eu a examinei, ela no  saudvel. 
Voc me disse que a comida  dividida, mas, e os bebs que necessitam de 
leite? As mulheres Zelandonii se dispem a dividir o seu leite? - quis saber 
Ayla.
        - Se fosse para qualquer outra, alm de Tremeda, eu no hesitaria em 
dizer que sim - afirmou Proleva.
        - Aquele beb no  Tremeda - frisou Ayla. - No passa de uma 
criana indefesa. Se eu j tivesse tido o meu beb, no hesitaria em 
repartir o meu leite com ela, mas, quando o meu nascer, ela provavelmente 
j estar morta. Mesmo quando o seu nascer, talvez j seja tarde demais.
        Proleva baixou a cabea e sorriu acanhada.
        - Como  que voc sabe? Eu ainda no contei para ningum.
        Foi a vez de Ayla ficar acanhada. Ela no pretendeu tomar a liberdade. 
Geralmente era prerrogativa da me anunciar que estava esperando um filho.
        - Eu sou uma curandeira, uma curadora - explicou. - J ajudei 
mulheres a dar  luz e conheo os indcios da gravidez. No pretendia 
mencionar isso antes de voc estar pronta para anunciar. Eu apenas fiquei 
preocupada com o beb de Tremeda.
        - Eu sei. No tem importncia, Ayla. Eu j estava mesmo disposta a 
contar para todos - condescendeu Proleva -, mas no sabia que voc estava 
esperando. Isso quer dizer que os nossos bebs nascero quase ao mesmo 
tempo. Que bom. - Fez uma pequena pausa, para pensar: - Vou lhe dizer o 
que acho que devemos fazer. Deixe que eu rena as mulheres com filhos 
pequenos ou prestes a dar  luz. So elas cujo leite ainda no se ajustou s 
necessidades de seus bebs, e tm um pouco de sobra. Ns duas poderemos 
convenc-las a ajudar a alimentar o beb de Tremeda.
        - Se vrias colaborarem, no ser preciso tirar muito de cada uma 
delas - deduziu Ayla e, em seguida, franziu a testa. - O problema  que o 
beb precisa de mais do que leite. Ela precisa ser mais bem cuidada. Como 
pode Tremeda deixar uma criancinha por tanto tempo aos cuidados de uma 
menina que deve contar apenas dez anos? - admirou-se Ayla. - Sem falar nas 
outras crianas.  esperar demais de quem tem apenas dez anos.
        -Talvez elas recebam um cuidado melhor de Lanoga do que de Tremeda 
sups Proleva.
        - Mas isso no quer dizer que algum to jovem precise fazer isso - 
alegou Ayla. - O que h de errado com Laramar? Por que no faz alguma 
coisa para ajudar? Tremeda  a parceira dele, no ? Eles so filhos da 
lareira dele, no so?
        - Essas so as perguntas que muitos de ns fazemos - salientou 
Proleva. - Mas no temos as respostas. Muita gente tem falado com Laramar, 
inclusive Joharran e Marthona.  E isso no faz nenhuma diferena. Laramar 
no liga para o que dizem. Ele sabe que, faa o que fizer, as pessoas vo 
querer a bebida que prepara. E Tremeda tambm  m  sua maneira. Ela 
vive freqentemente em estado de estupor, por causa da barma dele, e mal 
sabe o que acontece  sua volta. Nenhum dos dois parece ligar para as 
crianas, e no entendo por que a Grande Me Terra continua dando mais 
outras para eles. Ningum sabe realmente o que fazer. - Havia frustrao e 
tristeza na voz da mulher alta e bonita que era a parceira do lder.
        Ayla no tinha uma resposta, mas sabia que precisava fazer alguma 
coisa.
        - Bem, tem uma coisa que podemos fazer: falar com as mulheres para 
ver se conseguimos um pouco de leite para o beb. J  um comeo. -Colocou 
o caneco de volta em seu bornal e levantou-se. - Agora preciso voltar.
        Aps deixar a moradia de Proleva, Ayla no voltou direto para a 
habitao da Zelandoni. Ela estava preocupada com Lobo, e quis passar 
antes na casa de Marthona. Ao entrar, viu que a famlia toda estava l, 
inclusive Lobo. Ele correu para ela, to contente em rev-la, que Ayla quase 
foi derrubada quando o lobo saltou sobre as pernas flexveis e pousou com 
as patas diante dos seus ombros. Mas Ayla havia percebido o movimento 
dele e conseguiu se equilibrar. Deixou que ele lhe fizesse a saudao  lder 
da alcatia, lambendo-lhe o pescoo e enfiando delicadamente seu queixo 
entre os dentes. Em seguida, ela manteve a cabea do lobo entre as mos, 
segurando-a pelo grosso plo do pescoo e mordeu-lhe delcadamente a 
mandbula. Olhou bem dentro de seus adorveis olhos e enfiou a cabea em 
seu plo. Ela tambm estava contente em v-la.
        - Eu levo um susto, quando ele faz isso com voc, Ayla - disse 
Willamar, ao se levantar de uma almofada no cho.
        - Tambm costumava me assustar - comentou Jondalar. - Mas agora 
confio nele, e no temo mais por Ayla. Sei que ele no vai machuc-la, e j vi 
o que  capaz de fazer com algum que tente fazer isso, mas admito que, s 
vezes, essa saudao especial dele me surpreende.
        Quando Willamar se aproximou, eles se cumprimentaram com um leve 
toque da bochecha direita. Ayla j havia aprendido que aquele era o habitual 
cumprimento informal entre membros da famlia ou amigos muito ntimos.
        - Lamento no ter podido ir com voc ver os cavalos, Ayla - escusou-
se Folara, quando as duas se cumprimentaram do mesmo modo.
        - Haver tempo para voc conhecer os cavalos - afirmou ela, e depois 
tocou a bochecha de Marthona com a sua. O cumprimento de Jondalar foi 
semelhante, porm mais demorado e mais prximo. Quase um abrao.
        - Preciso voltar para ajudar a Zelandoni - informou Ayla -, mas estava 
um pouco preocupada com Lobo. Alegro-me por ele ter voltado para c. Isso 
significa que ele sente que esta  casa dele, mesmo eu no estando aqui.
        - Como est Bologan? - quis saber Marthona.
        - Finalmente, despertou e j consegue falar. S vim avisar a Joharran. 
- Ayla perguntou-se se devia falar de sua preocupao com o beb de 
Tremeda. Ela ainda era uma estranha, e talvez no fosse apropriado 
levantar a questo. Poderia ser uma crtica construtiva  Nona Caverna, 
porm ningum mais sabia da situao, e, se ela no comentasse, quem o 
faria? - Falei com Proleva sobre outra coisa que me perturba - acrescentou.
Surgiram olhares interessados na famlia de Jondalar. 
        - O que ? - indagou Marthona.
        - Vocs sabiam que o leite de Tremeda secou? Ela no voltou para 
casa desde o enterro de Shevonar, e deixou o beb e o resto dos filhos para 
Lanoga cuidar e alimentar. Essa menina deve contar apenas dez anos, e no 
d de mamar. Tudo o que o beb est comendo  mingau de razes. Ela 
precisa de leite. Como pode um beb crescer sem leite? E onde est 
Laramar? Ele no liga para nada? - exps Ayla num mpeto, despejando tudo 
de uma vez.
        Jondalar olhou em volta, para todos. Folara estava horrorizada; 
Willamar parecia meio atordoado; e Marthona fora apanhada desprevenida, 
coisa que no lhe agradava nem um pouco. Jondalar teve que conter um 
sorriso diante da expresso dos seus rostos. Ele no ficou surpreso com a 
reao de Ayla a algum que precisava de ajuda, mas Laramar, Tremeda e 
famlia h muito vinham sendo um motivo de constrangimento para a Nona 
Caverna. A maioria das pessoas no comentava a respeito e Ayla tinha 
acabado de trazer  tona toda aquela situao.
        - Proleva disse que no sabia que o leite de Tremeda havia secado - 
prosseguiu Ayla. - Ela vai reunir as mulheres que podem ajudar, vamos falar 
com elas, explicar a necessidade do beb e pedir para que dividam o seu 
leite. Proleva acha que deve pedir s mes recentes e s que esto para dar 
 luz. Esta  uma Caverna grande, e deve haver muitas mulheres capazes de 
alimentar aquele beb.
        Jondalar sabia que elas poderiam, mas duvidava se ajudariam, e 
especulou sobre quem tivera a idia; ele achava que sabia. Tinha 
conhecimento de que mulheres s vezes amamentavam crianas que no 
eram suas, mas, geralmente, eram bebs de uma irm ou de uma amiga 
ntima com quem estavam dispostas a dividir o seu leite.
        - Essa me parece uma idia admirvel - exclamou Willamar.
        - Se elas se dispuserem - observou Marthona.
        - E por que no o fariam? - perguntou Ayla. - Mulheres Zelandonii 
deixariam um beb morrer de fome por falta de um pouco de leite? Eu falei 
para Lanoga que iria l, amanh de manh, para ensin-la a fazer mais do que 
mingau de razes para o beb.
        - Com que mais um beb pode se alimentar, alm de leite? - quis saber 
Folara.
        - Com muitas coisas - declarou Ayla. - Se voc raspar carne cozida, 
consegue uma substncia mole que bebs conseguem comer, e tambm 
podem beber o lquido que sobra depois que a carne  cozida. Amndoas 
modas reduzidas a Papa e misturadas com algum lquido, e gros bem 
triturados e cozidos, tambm fazem bem para eles. Qualquer verdura pode 
ser cozida at ficar bem mole, e algumas frutas s precisam ser amassadas, 
mas as sementes devem ser coadas. Eu sempre despejo suco de frutas num 
feixe de aparina recm-colhida. Ela  cheia de espinhos muito unidos e 
prende facilmente as sementes. Bebs podem comer quase tudo o que as 
mes comem, desde que seja amassado e bem fino.
        - Como sabe tanto sobre comidas que bebs podem comer? - indagou 
Folara.
        Ayla parou e enrubesceu, aflita. No esperava por essa pergunta. Ela 
sabia que bebs no se limitavam a mamar do peito, porque Iza lhe ensinou a 
preparar comida para Uba, quando ficou doente e perdeu o leite. Mas o 
conhecimento de Ayla multiplicou-se depois que Iza morreu, pois ficou to 
arrasada com a perda da nica me que conheceu, que o seu leite secou. 
Embora outras mulheres do pequeno cl de Brun que estavam amamentando 
alimentassem Durc, ela precisava suplementar a alimentao dele com 
comidas normais, para mant-lo satisfeito e saudvel. Mas ela ainda no 
estava pronta para contar aos familiares de Jondalar sobre o seu filho. 
        Recentemente, eles haviam dito que queriam aceit-la entre os 
Zelandonii, torn-la uma deles, mesmo sabendo que fora criada pelo povo 
que chamavam de cabeas-chatas e a quem consideravam animais. Ayla 
nunca esqueceria a dor que sentiu por causa da reao inicial de Jondalar, 
quando lhe contou que tivera um filho que era uma mistura de ambos, de 
espritos misturados. Porque o esprito de uma dessas pessoas que ele 
acreditava serem animais havia se misturado com o seu, para iniciar uma 
nova vida que cresceu dentro dela, Jondalar olhou Ayla como se ela fosse 
uma hiena suja e a chamou de abominao. Ela era pior do que a criana pois 
a havia produzido. Desde ento, Jondalar havia aprendido mais sobre o Cl, 
e deixara de pensar daquela maneira, mas, e o povo dele, a sua famlia? 
        Seus pensamentos dispararam. Que diria a me dele, se soubesse que 
o filho queria acasalar com uma mulher que era uma abominao? Ou 
Willamar, ou Folara, ou o resto da famlia dele? Ayla olhou para Jonclalar e, 
embora sempre conseguisse perceber o que ele sentia e saber o que estava 
pensando, interpretando sua expresso ou sua postura, dessa vez ela no 
conseguiu. No sabia o que ele queria que ela dissesse.
        Ayla foi criada com o conceito de que devia responder a uma pergunta 
direta com uma resposta precisa. H muito tempo, aprendera que, 
diferentemente do Cl, os Outros e a gente dele era capaz de dizer coisas 
que no eram verdade. Tinham, inclusive, uma palavra para isso. Chamava-se 
mentira. Por um momento, levou em considerao contar uma mentira, mas, o 
que poderia dizer? Tinha certeza de que eles saberiam, se ela tentasse; ela 
no sabia mentir. No mximo, conseguia abster-se de mencionar uma coisa, 
mas era difcil no responder a uma pergunta direta.
        Ayla sempre sups que, em algum momento, o povo dele acabaria 
descobrindo a respeito de Durc. Ele vivia nos pensamentos dela, e sabia que 
chegaria um momento em que esqueceria ou resolveria no se abster de 
mencion-lo. No queria evitar, para sempre, mencionar Durc. Ele era seu 
filho. Mas aquele no era o momento.
        - Eu sei sobre comida de beb, Folara, porque, depois que Uba nasceu, 
Iza perdeu o leite muito cedo, e ela me ensinou a preparar comidas que Uba 
podia comer. Um beb pode comer tudo que a me come, desde que seja 
mole e fcil de engolir - elucidou Ayla. Era a verdade, mas no toda a 
verdade. Ela se abstivera de mencionar o seu filho.
        
        - Voc faz assim, Lanoga - mostrou Ayla. - Puxe o raspador sobre a 
carne. Ele retira a essncia e deixa para trs a parte fibrosa. Est vendo? 
Agora, expe rimente.
        - O que est fazendo aqui?
        Ayla pulou com um sobressalto, ao ouvir a voz, e depois virou-se para 
encarar Laramar.
        Estou ensinando Lanoga a preparar comida que o beb pode comer, j 
que a me dela no tem mais leite - explicou. Tinha certeza de ter 
detectado um ar surpreso percorrer o rosto dele. Ele no sabia, deduziu ela.
        - E por que voc se incomodaria? Duvido que algum se importe - 
afirmou Laramar.
        Nem mesmo voc, pensou ela, mas conteve a lngua.
        - As pessoas se importam. Elas apenas no sabiam - retrucou. - Ns s 
descobrimos depois que Lanoga foi chamar a Zelandoni porque Bologan se 
feriu.
        - Bologan est ferido? O que aconteceu?
        Dessa vez, houve um tom de preocupao em sua voz. Proleva tinha 
razo, Pensou Ayla. Ele tem algum sentimento em relao ao mais velho.
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        - Bebeu a minha barma! Cad ele? Vou dar uma lio a esse garoto, 
para ele no mexer na minha barma! - estourou Laramar.
        - No ser preciso - alertou Ayla. - Algum j fez isso. Bologan se 
envolveu numa briga, levou uma pancada, ou caiu e bateu com a cabea numa 
pedra. Algum o trouxe e o largou aqui. Lanoga o encontrou inconsciente e 
foi chamar a Zelandoni.  com ela que ele est agora. Ficou gravemente 
ferido e perdeu muito sangue, mas, com descanso e cuidados, ficar bem. 
Mas ele no disse a Joharran quem o atingiu.
        - Eu cuidarei disso, sei como arrancar a informao dele - garantiu 
Laramar.
        - No vivo h muito tempo com esta Caverna, e no  da minha conta, 
mas creio que deve falar primeiro com Joharran. Ele est muito zangado e 
quer saber quem fez isso e por qu. Bologan teve sorte. Poderia ter sido 
muito pior - opinou Ayla.
        - Tem razo. No  da sua conta - rebateu Laramar. - Prefiro eu 
mesmo cuidar disso.
        Ayla nada disse. No havia nada que pudesse fazer, exceto contar a 
Joharran. Virou-se para a garota.
        - Venha, Lanoga. Pegue Lorala e vamos embora - falou, apanhando o 
seu bornal Mamuti.
        - Aonde vocs vo? - perguntou Laramar.
        - Vamos nadar e nos limpar, antes de irmos falar com algumas 
mulheres que esto amamentando, ou logo estaro, para pedir a elas que 
dividam um pouco de seu leite com Lorala - explicou Ayla. - Voc sabe onde 
est Tremeda? Ela tambm devia ir a essa reunio.
        - Ela no est aqui? - surpreendeu-se Laramar.
        - No. Deixou as crianas com Lanoga, e no voltou desde que foi ao 
enterro de Shevonar - informou Ayla. - Para o caso de estar interessado, as 
outras crianas esto, neste momento, com Ramara, Salova e Proleva. - Foi 
Proleva quem sugeriu que ela levasse Lanoga e o beb para se limparem um 
pouco. Mulheres com crianas pequenas talvez no quisessem segurar um 
beb to imundo, com medo de que sujasse seus prprios filhos.
        Depois que Lanoga apanhou o beb, Ayla fez um sinal para Lobo, que 
estivera o tempo todo deitado, parcialmente oculto por um tronco, 
observando as atividades. Laramar no tinha visto o animal e, quando Lobo 
se levantou, seus olhos arregalaram-se surpresos, ao perceber o quanto o 
carnvoro era de fato grande e forte, O homem retrocedeu alguns passos, e 
a seguir lanou um sorriso insincero para a mulher.
        -  um animal enorme. Voc tem certeza de que  seguro deix-lo 
perto das pessoas, principalmente de crianas? - indagou.
        Laramar no liga para as crianas, pensou Ayla, lendo a sua sutil 
linguagem corporal, querendo ocultar o prprio medo ele fala em crianas 
pressupondo que eu possa fazer algo para machucar algum. Outras pessoas 
expressaram a mesma preocupao sem ofend-la, mas ela desaprovava 
Laramar porque ele no tinha a mnima preocupao com as crianas por 
quem deveria ser responsvel. Ela no gostava daquele homem, e as 
objees dele provocavam nela uma reao negativa.
        - Lobo nunca ameaou uma criana. A nica pessoa que ele j 
machucou foi uma mulher que me atacou - advertiu Ayla, olhando 
diretamente nos olhos dele.
        Entre as pessoas do Cl, um olhar fixo como aquele era interpretado 
como uma ameaa e transmitia o sentido subliminar do que era comunicado. - 
Lobo matou a mulher - acrescentou. Laramar deu outro passo para trs, 
sorrindo nervosamente.
        No foi algo inteligente de se dizer, pensou Ayla, ao caminhar em 
direo ao ptio frontal com Lanoga, o beb e Lobo. Por que ela disse aquilo? 
Baixou a vista para o animal que marchava confiante a seu lado. Eu agi 
praticamente como um lder de alcatia, menosprezando um membro menos 
graduado. Mas esta no  uma alcatia, e no sou uma lder. Laramar j 
andava falando contra mim, e talvez eu tenha criado mais problemas.
        Ao iniciarem a descida da trilha para a parte mais baixa do final do 
terrao, Ayla se ofereceu para carregar um pouco o beb, mas Lanoga 
recusou-se e mudou Lorala de posio, montando-a em seu quadril. Lobo 
farejou o cho e Ayla notou marcas de cascos. Os cavalos tinham passado 
por ali. Ela ia apont-los para a garota, mas mudou de idia. Lanoga no era 
muito de falar, e Ayla no queria pression-la para entabular uma conversa 
constrangida.
        Chegaram  margem do Rio, e, enquanto seguiam pela ribanceira do 
curso d'gua, Ayla parava de vez em quando para examinar uma planta. Com 
o graveto de cavucar que carregava enfiado na correia da cintura, removeu 
vrias plantas com as razes. A garota a observava, e Ayla pensou em lhe 
mostrar as caractersticas particulares da vegetao, para que ela mesma 
pudesse fazer a coleta, mas decidiu esperar at depois que Lanoga 
entendesse como utilizar as plantas.
        O riacho alimentado pela fonte, que separava a Nona Caverna de Rio 
Abaixo, descia pela varanda de pedra, formava uma estreita queda-d'gua e 
depois se tornava um pequeno afluente do Rio. Ayla parou quando chegaram 
 gua que flua do sulco que ela desgastara no calcrio e escorria pela aba 
em uma cascata de lquido gorgolejante e espumante. De alguma maneira, 
alm das quedas, grandes pedras tinham rompido e se soltado do paredo de 
calcrio e criado uma espcie de represa com um pequeno lago atrs delas. 
Uma das pedras formava uma bacia natural com a gua coberta por plantas 
aquticas tipo musgo.
        A gua que a enchia proviriha principalmente da chuva e dos borrifos 
que a queda-d'gua salpicava para trs. No vero, quando havia menos chuva, 
o nvel de gua da bacia era mais baixo, e Ayla achava que o sol devia 
aquec-la. Enfiou a mo na gua. Como esperava, estava tpida, um pouco 
fria, porm mais quente do que a do lago, e as plantas aquticas tornavam 
mais macio o fundo da bacia.
        Ayla pousou sua sacola no cho.
        - Eu trouxe comida, voc quer alimentar Lorala agora ou mais tarde? 
perguntou.
        - Agora - respondeu Lanoga.
        - Muito bem, ento vamos comer - anunciou Ayla. - Tenho gros 
cozidos, e aquela carne que raspamos para Lorala. Trouxe comida suficiente 
para todos ns. At mesmo ossos com pedaos de carne para Lobo. O que 
voc usa para dar de comer ao beb?
        - Minha mo - disse ela.
        Ayla olhou para as mos imundas dela. No importava. Ela j tinha 
alimentado Lorala antes com aquelas mos sujas, mas a mulher resolveu 
ensinar  garota assim mesmo. 
        Mostrou-lhe as plantas que havia colhido no caminho.
        - Lanoga, vou lhe mostrar para que servem estas plantas - disse Ayla. 
A garota olhou para elas. - Isto  chamado de erva-saboeira. Existem vrios 
tipos diferentes, e alguns funcionam melhor do que outros. Primeiro, quero 
que lave a terra delas no regato - explicou, mostrando a Lanoga como limp-
las. Depois, procurou em volta um seixo e um local plano em uma das grandes 
pedras que haviam cado perto da bacia. - Agora, precisa esmagar as razes. 
Isso vai funcionar, se voc apenas esmagar, mas se molhar, vai fazer com 
que saia mais suco escorregadio. - A garota observava atentamente, mas 
sem nada dizer.
        Ayla pegou na bolsa, que carregava a tiracolo, um pequeno cesto 
impermevel fortemente tecido e foi at a bacia.
        - Apenas gua nem sempre tira bem a sujeira. A erva-saboeira torna 
isso mais fcil. A gua nessa bacia  um pouco mais quente do que a gua do 
regato. Quer experimentar? - perguntou.
        - No sei - respondeu a garota, como se no tivesse entendido direito.
        - Lanoga, venha c e coloque a mo na gua - ordenou Ayla.
        Ela se aproximou e enfiou na gua a mo que no estava segurando o 
beb.
        -  mais quente, no ? Gostou da sensao? - quis saber Ayla.
        - No sei - respondeu Lanoga.
        Ayla colocou um pouco de gua no cesto, acrescentou a erva-saboeira 
amassada, e mexeu com a mo. Em seguida, retirou um pouco da planta 
amassada e esfregou as mos.
        - Lanoga, coloque o beb no cho, pegue um pouco da erva-saboeira e 
faa o que estou fazendo - sugeriu a mulher.
        A garota observou-a, tirou a criana do quadril, colocou-a sobre a 
terra perto de seus ps e depois alcanou a erva-saboeira. Mergulhou a 
planta na gua e esfregou as mos. Um pouco de espuma comeou a se 
formar, e uma leve expresso interessada percorreu o seu rosto. As razes 
repletas de saponina no criaram uma espuma abundante, mas foi o 
suficiente para limpar-lhe as mos.
        - Uma boa erva-saboeira tem que ser escorregadia e fazer alguma 
espuma - ensinou Ayla. - Agora, enxge, assim. Veja como as suas mos 
ficam mais limpas. - A garota mergulhou as mos na gua e depois olhou para 
elas. Novamente, uma expresso interessada percorreu seu rosto. - Agora, 
vamos comer.
        Ayla voltou para onde estava o bornal e retirou alguns pacotes. Um 
deles era uma tigela de madeira entalhada, com tampa, com cordes 
amarrados em volta. Desamarrou os cordes, retirou a tampa e tocou 
levemente na superfcie do contedo.
        - Ainda est ligeiramente quente - disse ela, mostrando  garota a 
massa coagulada de gros variados bem triturados e cozidos. - Juntei estes 
gros no outono passado, durante a Jornada que fiz com Jondalar. H 
algumas sementes de centeio, trigo e aveia. Enquanto cozinhavam, 
acrescentei um pouco de sal. As sementinhas pretas so de uma planta que 
chamo de anserina, mas deve ter um nome diferente em Zelandonii. As 
folhas tambm so boas para se comer. Preparei este cereal para Lorala. H 
bastante tambm para ns duas, mas vejamos primeiro se ela gosta da carne 
raspada.
        A carne fora envolvida em grandes folhas de tanchagem. Ayla 
entregou-a a Lanoga para ver o que ela faria. A garota abriu o embrulho, 
pegou com os dedos um pouco da substncia mole e colocou na boca do beb, 
que estava montado em seu quadril. A criana prontamente abriu a boca 
para a irm, mas, ao sentir o gosto, pareceu surpresa. Movimentou a 
substncia pela boca, examinando o sabor e a textura, e depois que, 
finalmente, engoliu, abriu a boca pedindo mais. Para Ayla, ela lembrou um 
passarinho.
        Lanoga sorriu, e Ayla deu-se conta de que era a primeira vez que via a 
garota sorrir. Lanoga alimentou a irm com o resto da carne, e depois passou 
para o cereal. Antes, provou primeiro, e em seguida colocou um pouco na 
boca do beb. As duas ficaram observando a reao dela ao novo sabor. Com 
uma expresso de intensa concentrao, a criana examinou-o com a boca, 
at mesmo mastigando a mistura um tanto quanto grudenta. Ela pareceu 
meditar por um momento sobre aquilo, depois engoliu e abriu a boca 
querendo mais. Ayla ficou pasmada com a quantidade que o beb era capaz 
de comer, mas s depois que, finalmente, ela parou de abrir a boca, Lanoga 
colocou um outro bocado na sua.
        - Se voc lhe d algo para segurar, Lorala coloca na boca? - quis saber 
Ayla. 
        - Sim - respondeu a garota.
        - Eu trouxe um pedao de osso com tutano. Conheci um menino que 
adorava isso, quando beb - comentou Ayla, com um sorriso de saudosa 
lembrana e pesar.
        - D para ela, e vejamos se gosta. 
        Entregou-lhe um pequeno pedao de osso de pernil de veado, com um 
buraco no centro repleto de nutritivo tutano. Assim que Lanoga entregou o 
osso, o beb o colocou na boca. Novamente, seguiu-se um olhar abismado, 
quando ela parou para sentir o gosto, mas logo passaram a ouvir a criana 
produzir rudos de chupar.
        - Coloque-a no cho e coma alguma coisa, Lanoga.
        Lobo tinha estado de olho no beb, do lugar em que Ayla lhe indicara 
para ficar, a poucos metros de distncia. Produzindo leves ganidos ansiosos, 
ele rastejou lentamente em direo  criana, enquanto ela permanecia 
sentada sobre um tufo de grama. Lanoga observou-o por um momento, 
depois virou-se na direo de Ayla com um olhar preocupado. 
        Ela nem mesmo tinha percebido anteriormente a presena do animal.
        - Lobo adora crianas - tranqilizou-a Ayla. - Ele quer brincar com ela, 
mas acho que o osso com tutano talvez o distraia um pouco. Se Lorala o 
deixar cair, ele vai pensar que ela est lhe dando e vai apanh-lo. Eu trouxe 
para ele um osso com um pouco de carne. Vou deixar para ele, perto do Rio, 
para Lobo com-lo enquanto fazemos a nossa refeio.
        Ayla retirou do bornal um grande embrulho de pele, abriu-o e 
surgiram algumas partes de carne de biso cozida e um osso cru de bom 
tamanho, do qual pendiam pedaos duros e ressecados de carne escura. 
Levantou-se, fez um sinal para Lobo segui-la, caminhou em direo ao grande 
caudal, e ento lhe deu o osso. O animal pareceu contente em se instalar ali 
com ele.
        Ao retornar, Ayla passou a tirar muitas outras coisas da bolsa. Ela 
trouxera uma variedade de alimentos. Alm da carne e do cereal, restara 
muita coisa da sua Jornada. Havia pedaos secos de uma raiz contendo 
amido; algumas pinhas assadas de pinheiro-manso; avels nas cascas; e 
fatias secas e saborosas de pequenas mas cidas. Enquanto comiam, Ayla 
falava com a garota:
        - Lanoga, eu lhe disse que amos nadar e nos lavar um pouco, antes de 
irmos falar com as mulheres, mas acho que devo lhe contar o motivo. Sei que 
est cuidando o melhor que pode de Lorala, mas ela precisa mais do que 
mingau de razes para ser saudvel e crescer de maneira adequada. Eu lhe 
mostrei como preparar outras coisas para aliment-la, como raspar a carne 
para que ela consiga comer, embora ainda nem tenha dentes. Mas  de leite 
que ela precisa principalmente, pelo menos um pouco. - A garota a observava, 
enquanto comia, mas no dizia nada.
        "Onde eu cresci, as mulheres sempre alimentavam os bebs umas das 
outras, e se o leite de uma das mes secava, as outras se revezavam para 
alimentar o filho dela. Proleva me contou que as Zelandonii tambm 
alimentam outros bebs, mas, em geral, apenas da famlia ou de parentes 
prximos. A sua me no tem irms ou primas que estejam amamentando, e  
por isso que vou perguntar s mulheres que esto amamentando, ou que logo 
estaro, se podem ajudar. Mas as mes so muito protetoras em relao aos 
seus bebs. Elas podem no querer segurar uma criana que no esteja limpa 
e no cheire bem, para depois pegar as delas no colo."
        "Ns precisamos limpar Lorala, para que ela fique com uma boa 
aparncia e parea atraente para as outras mes. Vamos utilizar a erva-
saboeira que usamos em nossas mos. Eu vou lhe mostrar como dar banho 
nela, porque ter que mant la limpa, e como provavelmente ser voc quem 
a levar para as mulheres amamentarem, tambm ter que tomar banho. Eu 
trouxe algo para voc vestir. Foi Proleva quem conseguiu.  uma roupa usada, 
mas est limpa. A moa que a vestiu ficou grande demais para ela. - Lanoga 
no respondeu, e Ayla ficou imaginando por que ela falava to pouco. - Voc 
entendeu? - perguntou.
        Lanoga fez que sim com a cabea e continuou comendo, olhando de vez 
em quando para a irm, que continuava atacando o osso com tutano. Ayla 
deduziu que o beb estava faminto por alimentos que forneciam alguns dos 
nutrientes de que ela carecia. Razes cozidas contendo amido no eram o 
suficiente para um beb que estava se desenvolvendo. 
        Quando Lanoga se fartou, a nenm pareceu estar sonolenta, e Ayla 
achou que deviam dar logo banho nela e deixar que dormisse depois. Afastou 
os recipientes, levantou-se e ento notou um cheiro caracterstico. A garota 
tambm percebeu.
        - Ela se sujou - avisou Lanoga.
        - Tem um pouco de musgo no regato. Vamos limp-la antes de lhe dar 
um banho - sugeriu Ayla. A garota apenas a olhava. A mulher carregou o 
beb. A irm pareceu surpresa, mas no se ops. Ayla levou-o para o regato 
transbordante, arrancou um punhado de musgo que crescia nas pedras ali 
perto, mergulhou-os na gua e, segurando o beb sobre um dos braos, usou 
a planta para limpar o traseiro dela. Repetiu a dose com um segundo punhado. 
Quando o examinava, para ver se estava limpo, o beb soltou uma descarga 
de lquido morno. Ayla pousou-o no cho, at terminar, limpou-o novamente 
com musgo e depois entregou-o a Lanoga.
        - Leve-a para a bacia, Lanoga. Est na hora de lav-la. Que tal colocar 
Lorala aqui? - props Ayla, indicando a depresso na pedra repleta de gua.
        A garota deu-lhe um olhar intrigado, mas no se mexeu. Sua testa 
ficou vincada pelo pensamento. Ayla examinou-a. No achava que faltasse 
inteligncia  menina, embora ela mal falasse, mas, alm disso, ela no
parecia saber o que fazer. De repente, Ayla lembrou-se de uma poca,
quando comeou a viver com o Cl e no sabia o que fazer, e isso a fez 
pensar. Ela havia percebido que a garota parecia reagir melhor a uma ordem 
direta, uma afirmao, quase uma ordem.
        Lanoga aproximou-se lentamente da bacia de pedra, comeou a 
levantar a criana de seu quadril, mas pareceu um pouco relutante em se 
afastar da irm. Ayla pegou Lorala por trs, segurou-a pelas axilas, fazendo 
com que encarasse Lanoga, deixou os ps dela balanando no ar e, 
lentamente, baixou-a para sent-la no meio da gua da depresso na pedra.
        A gua tpida foi uma nova sensao para a criana e a induziu a 
explorar os seus arredores. Enfiou a mo na gua, tirou-a e ficou olhando-a. 
Voltou a experi mentar, dessa vez acidentalmente chapinhando um pouco a 
gua, o que a fez voltar a olhar, em seguida puxou a mo e enfiou o polegar 
na boca. Bem, ela no chorou, pensou Ayla.  um bom comeo.
        - Enfie a mo no cesto, Lanoga, e sinta como a gua est escorregadia, 
por causa da erva-saboeira. - A garota fez o que lhe foi ordenado. - Agora, 
deixe um pouco na mo e vamos esfreg-la em Lorala.
        Enquanto os dois pares de mos esfregavam o lquido escorregadio 
com pedaos de planta no beb, esta permanecia sentada sem se mexer, mas 
com um leve franzido no rosto. Tratava-se de uma sensao nova, mas no 
totalmente desagradvel.
        - Agora, precisamos lavar os cabelos dela - informou Ayla, 
acreditando que isso seria mais difcil. -Vamos comear esfregando um 
pouco de erva-saboeira na nuca. Voc tambm pode lavar as orelhas e o 
pescoo.
        Ficou observando a garota, e percebeu que ela manuseava o beb com 
segurana e tranqilidade e parecia sentir-se mais  vontade com o 
andamento do banho. Ayla parou por um momento, ao se dar conta 
subitamente de uma coisa. Eu no era mais velha do que Lanoga quando tive 
Durc! Talvez eu tivesse um ou dois anos a mais, apenas isso. Claro, eu tive 
Iza para me ensinar a cuidar dele, mas aprendi.
        - Agora, coloque-a deitada de costas, segure-a com uma das mos, no 
deixe que o rosto dela entre na gua, e lave a parte de cima da cabea com a 
outra mo - ensinou Ayla. Ela ajudou Lanoga a deitar o beb de costas. 
Lorala resistiu um pouco, mas agora as mos da garota eram seguras, e a 
criana no fez objeo, ao ser mergulhada na gua aquecida, pois sentia-se 
segura nos braos da irm. Ayla ajudou-a a lavar os cabelos dela, e depois, 
com as mos ainda ensaboadas, lavou as pernas e o traseiro do beb. Eles 
tinham ficado imersos na gua, que, por si s, j estava ficando um pouco 
escorregadia.
        - Agora, lave o rosto dela, com todo o cuidado, usando apenas as mos 
e gua. No deixe que nada caia nos olhos dela. No vai doer, mas pode 
incomod-la - alertou Ayla.
        Tirou da bolsa uma pele amarelada flexvel e muito macia, estendeu-a 
no cho, levantou o beb da gua e o embrulhou nela. Entregou a criana 
para Lanoga.
        - A est ela, limpa e fresquinha. - Notou a garota alisar o macio couro 
felpudo do cobertor de secar. -  agradvel e macio, no ?
        -  - respondeu Lanoga, erguendo a vista para a mulher.
        - Isto foi um presente que recebi de umas pessoas que encontrei 
durante a nossa Jornada. Chamavam-se Xaramudi, e eram conhecidos por
fazerem peles de camura macias como essa. Camuras so animais que
vivem nas montanhas perto de onde eles moram. Parecem um pouco com 
cabras-montesas, mas so menores do que o bex. Sabe se h camuras por 
aqui, Lanoga?
        - Sei - afirmou a garota. Ayla esperou, incentivando-a com um sorriso. 
Ela havia descoberto que Lanoga respondia a perguntas ou a ordens diretas, 
mas no parecia saber como estabelecer uma conversa. Ayla continuou 
sorrindo,  espera. Lanoga franziu a testa e, finalmente, disse: - Uns 
caadores trouxeram uma.
        Ela consegue conversar! Fez uma afirmao espontnea, pensou Ayla, 
sentindo-se contente. Ela precisa apenas de algum incentivo. - Voc pode 
ficar com essa pele, se quiser - ofereceu.
        O rosto de Lanoga revelou uma srie de expresses que a mulher no 
esperava. Primeiro, seus olhos se iluminaram, em seguida revelaram dvida, e 
depois medo. Ento, franziu a testa e sacudiu a cabea.
        - No. No posso.
        - Voc quer a pele?
        A garota baixou os olhos.
        - Quero.
        - Ento, por que no fica com ela?
        - No posso ficar - afirmou a garota, e depois hesitou. - No vo 
deixar. Algum vai tomar.
        Ayla comeou a entender.
        - Est bem, vamos fazer assim: voc guarda ela para mim. Desse modo, 
vai estar com voc, quando precisar dela.
        - Algum vai tomar - repetiu Lanoga.
        - Se algum tomar, voc me fala, e eu pego de volta - props Ayla.
        Lanoga comeou a sorrir, depois enrugou a testa e voltou a sacudir a 
cabea.
        - Algum vai ficar zangado.
        Ayla assentiu.
        - Eu entendo. Vou ficar com ela, mas lembre-se que, toda vez que 
quiser usar a pele, em Lorala ou em voc, pode ir peg-la. Se algum quiser 
tomar, diga que  minha.
        Lanoga desembrulhou o beb e o colocou sobre um tufo de grama. 
        Entregou a pele  mulher.
        - Ela vai sujar - alegou.
        - Isso no seria to ruim. S teramos que lav-la. Vamos coloc-la de 
volta na pele.  mais macia do que a grama - sugeriu Ayla. Estendeu-a e 
colocou o beb sobre ela, percebendo que a pele ainda guardava um leve mas 
agradvel odor de fumaa.
        Depois de limpo e raspado, o couro era processado, freqentemente 
com os miolos do animal, e depois trabalhado e esticado para secar e ficar
com um lindo acabamento macio e felpudo. O couro quase branco era ento
curtido sobre uma fogueira fumacenta. A madeira e outros combustveis 
queimados determinavam a cor da pele, geralmente bronzeada com um matiz 
amarronzado ou amarelado. O couro no era curtido principalmente para lhe 
dar cor, mas para manter a sua elasticidade. Embora uma pele pudesse ser 
macia antes do curtimento, se ela molhasse e no voltasse a ser trabalhada 
e esticada, ficava dura e rija, ao secar. Mas, assim que a fumaa revestia o 
colgeno das fibras, ocorria uma transformao que mantinha a pele macia, 
mesmo aps lavada. O curtimento com fumaa era o que tornava 
verdadeiramente usveis as peles dos animais.
        Ayla percebeu que os olhos de Lorala estavam se fechando. Lobo 
tinha terminado com o osso dele e se aproximara, enquanto as duas davam 
banho na criana, curioso demais para ficar distante. Ayla havia erguido a 
vista de relance e visto o animal. Ento, fez um sinal para que chegasse mais 
perto, e ele correu na direo delas.
        -  a nossa vez de tomar banho - anunciou Ayla. Olhou para o animal. - 
Lobo, vigie Lorala, vigie o beb. - Seus sinais com as mos lhe disseram a 
mesma coisa. No era a primeira vez que o lobo vigiava uma criana 
adormecida.         Lanoga franziu a testa levemente, preocupada. - Ele vai ficar 
aqui mesmo, cuidando para que nada acontea com Lorala, e avisar se ela 
acordar. Ns estaremos bem ali, naquele lago atrs da represa de pedra. 
Voc poder v-los. Ns vamos nos lavar do mesmo modo que lavamos Lorala, 
mas a nossa gua estar mais fria. - acrescentou Ayla com um sorriso.
        A caminho do lago, a mulher apanhou o bornal e o cesto de umedecer a 
erva saboeira. Despiu-se e entrou primeiro. Demonstrou como se limpar e 
ajudou Lanoga a lavar os cabelos, depois retirou mais dois pedaos da pele 
atoalhada, e um pente feito com dentes compridos, que havia ganho de 
Marthona. Depois que se secaram, ela desembaraou o emaranhado dos 
cabelos de Lanoga, e, com um segundo pente, penteou-se. Em seguida, do 
fundo da bolsa, retirou uma tnica. Apesar de usada, no estava gasta. 
Parecia nova e tinha um enfeite simples de franjas e a aplicao de algumas 
contas. Lanoga olhou ansiosa para a roupa e depois sentiu a sua maciez. 
Sorriu quando Ayla mandou que a vestisse.
        - Quero que voc vista isto, quando formos falar com as mulheres - 
explicou Ayla. Lanoga no objetou, no disse nada, alis, e no hesitou em 
coloc-la. - Precisamos ir agora. Est ficando tarde. J devem estar  nossa 
espera.
        Subiram a trilha de volta para o terrao de pedra e tomaram a 
direo da rea de moradia e da habitao de Proleva. Lobo ficou para trs, 
e, quando Ayla se virou para procur-lo, notou que ele olhava de volta, para o 
caminho por onde tinham ido. Ela seguiu seu olhar e viu uma mulher e um 
homem a alguma distncia mais recuada. 
        A mulher acenava e cambaleava ao caminhar. O homem permanecia 
atrs dela, mas no muito perto, embora uma vez a tenha segurado quando 
quase caiu ao cho. Depois que a mulher virou na direo do espao de 
habitao de Laramar, Ayla deu-se conta de que era Tremeda, a me de 
Lanoga e Lorala.
        Por um instante, Ayla perguntou-se se devia tentar lev-la para a 
reunio com as mulheres, mas decidiu que no. Era provvel que as mulheres 
fossem muito mais solidrias com uma menina bonita carregando um beb 
limpo do que se levassem junto uma mulher que talvez tivesse bebido barma 
demais. Ayla ia continuar andando, porm os seus olhos foram atrados pelo 
homem. Ele no virou para acompanhar a mulher, mas continuou seguindo em 
frente.
        Havia algo na forma dele e no modo como caminhava que lhe pareceu 
familiar. Ele a tinha visto e continuava olhando para ela enquanto avanava. 
Ao se aproximar, Ayla identificou o homem e, observando-o, subitamente 
percebeu o que havia reconhecido. O homem era Brukeval, e, apesar de no 
gostar daquilo, o que ela viu foi a forma corpulenta e confiante e os 
movimentos desembaraados de um homem do Cl.
        Brukeval sorriu para ela, como se estivesse verdadeiramente 
contente em v-la, e Ayla retribuiu o sorriso antes de fazer meia-volta e 
levar apressadamente Lanoga e o beb em direo da habitao de Proleva. 
        Por um instante, deu uma olhadela para trs e percebeu que o sorriso 
dele havia se transformado em uma expresso de clera, como se ela 
tivesse feito algo que o desagradou, e ficou imaginando o que teria sido.
        Ela notou a minha aproximao e me deu as costas, pensou Brukeval. 
Nem mesmo esperou para uma troca de cumprimentos. Eu pensava que ela 
era diferente.
        - Ela est chegando - anunciou Proleva. 
        Esta tinha ido ao lado de fora  de sua habitao, para procurar por 
Ayla, e ficou contente em v-la. Temia que as mulheres, que ela havia 
convidado, ficassem entediadas e passassem a dar desculpas para ir embora, 
por mais curiosas que fossem. Proleva lhes dissera apenas que Ayla queria 
conversar com elas. O fato de a parceira do lder t-las convidado para irem 
 sua casa foi um incentivo a mais. Proleva manteve a cortina aberta e 
acenou para que Ayla e as crianas entrassem; Ayla fez um gesto para Lobo 
ir para casa e mandou que Lanoga entrasse primeiro com o beb.
        Havia nove mulheres no interior, fazendo a habitao parecer 
bastante pequena e apinhada. Seis delas tinham crianas no colo, todas 
recm-nascidas ou s um pouco mais velhas, trs encontravam-se nos 
ultimos estagios da gravidez. Alm disso, duas crianas, que mal caminhavam, 
brincavam no cho Todas se conheciam mais ou menos, algumas s de vista, 
apesar de duas serem irms, mas a conversa corria fcil. Comparavam os 
bebs e discutiam as intimidades do parto, da amamentao e de aprender a 
viver em suas habitaes com um novo e quase sempre exigente indivduo. 
Pararam de falar e ergueram a vista para as recm-chegadas, revelando 
variadas expresses de surpresa.
        - Todas vocs sabem quem  Ayla, portanto, no farei uma demorada 
apresentao formal - disse Proleva - Vocs podero se apresentar depois - 
        - Quem  a garota? - quis saber uma mulher. Era a mais velha de 
todas, e uma das crianas que estava no cho levantou-se e foi na direo da 
voz dela.
        - E o beb? - perguntou uma outra.
        Proleva olhou para Ayla, que se sentira um pouco vexada diante de 
todas aquelas mes quando entrou, e ficara bvio que elas no eram tmidas, 
mas a perguntas lhe forneceram uma maneira de comear.
        - Esta  Lanoga, a filha mais velha de Tremeda. O beb  Lorala, a 
irm mais nova dela - anunciou Ayla, certa de que algumas delas deviam 
conhecer as crianas.
        - Tremeda! - exclamou a mulher mais velha. - So filhas de Tremeda?
        - Sim, so. Vocs no as reconhecem? Elas pertencem  Nona Caverna 
lembrou Ayla. Seguiram-se murmrios entre as mulheres, enquanto falavam 
umas com as outras a meia-voz.
        Ayla captou comentrios sobre o seu sotaque incomum e sobre as 
crianas.
        - Lanoga  a segunda dos filhos dela, Stelona - informou Proleva. - 
Deve se lembrar de quando ela nasceu, pois voc a ajudou. Lanoga, por que 
no traz Lorala e se senta aqui, perto de mim? - A mulher observou a garota 
levantar o beb do quadril, caminhar na direo da parceira do Lider e 
sentar-se com Lorala no coro. No olhou para as outras mulheres, apenas 
para Ayla, que sorriu para ela.
        - Lanoga foi chamar a Zelandoni, porque Bologan tinha se ferido. Ele 
se envolveu em uma briga e machucou a cabea - comeou Ayla. - Foi s 
ento que descobrimos um problema mais srio. Esse beb deve contar 
apenas poucas luas, e o leite da me dela secou. Lanoga tem cuidado dela, 
mas s sabe aliment la com mingau de razes. Creio que todas sabem que 
nenhum beb  capaz de sobreviver ou de se desenvolver comendo apenas 
razes cozidas. - Ayla notou que as mulheres abraaram mais apertado os 
seus filhos, levando-os mais para perto de si. Tratava-se de uma reao que 
qualquer um podia interpretar, e agora elas estavam comeando a fazer uma 
idia de onde Ayla queria chegar.
        - Eu vim de um lugar distante da terra dos Zelandonii, mas no 
importa onde ou com quem fomos criados, h uma coisa que todo mundo 
sabe: um beb precisa de leite. Entre o povo que me criou, quando uma 
mulher perdia o leite, outra mulher a ajudava a alimentar o filho dela. - 
        Todas sabiam que Ayla se re feria aos tais que chamavam de cabeas-
chatas, considerados animais pela maioria dos Zelandonii. - Mesmo aquelas 
com filhos mais velhos, que j no tinham muito leite, de vez em quando se 
ofereciam para amamentar o beb. Certa vez, quando uma mulher jovem 
perdeu o seu leite, uma outra, que tinha mais do que o suficiente para o 
prprio filho, cuidou desse filho como se fosse seu, e alimentou ambos como 
se fossem dois que tivessem nascido juntos - narrou Ayla.
        - E o prprio beb da mulher? E se ela no tivesse leite suficiente 
para ele? - quis saber uma das mulheres grvidas. Ela era bem jovem, e 
aquele provavelmente seria o seu primeiro filho.
        Ayla sorriu-lhe, depois olhou para as outras mulheres e falou a todas:
        - No  maravilhoso o fato de o leite de uma mulher aumentar de 
acordo com as suas necessidades? Quanto mais amamenta, mais leite ela 
produz.
        - Isso  inteiramente verdade, principalmente no comeo - constatou 
uma voz vindo da entrada, que Ayla reconheceu. Virou-se e sorriu para a 
mulher alta e rotunda que vinha entrando. - Desculpe, Proleva, mas no 
consegui chegar mais cedo. Laramar foi ver Bologan e comeou a interrog-
lo. No aprovei os seus mtodos, fui chamar Joharran, e os dois, finalmente, 
conseguiram algumas respostas do rapaz sobre o que aconteceu.
        As mulheres iniciaram uma animada conversa murmurada entre elas. 
Estavam curiosas e esperavam que a Zelandoni contasse mais, porm sabiam 
que no adiantaria perguntar. 
        Proleva tirou de cima de um bloco de pedra um alto cesto impermevel, 
meio cheio de ch, e colocou uma almofada sobre ela; tratava-se do assento 
permanente da Zelandoni na habitao do lder, que tinha outras utilidades 
quando ela no se encontrava presente. Depois que a donier se sentou, foi-
lhe entregue um caneco da bebida. Ela o tomou e sorriu para todas.
        Se antes o lugar parecia apinhado, ficou parecendo completamente 
abarrotado com o acrscimo da grande mulher, mas ningum parecia se 
importar. Participar de uma reunio, ao mesmo tempo, com a parceira de um 
lder e a Primeira Entre Aqueles Que Serviam  Me fazia as mulheres se 
sentirem importantes. Ayla percebeu a emoo que elas sentiam, mas ainda 
no tinha vivido muito tempo com aquelas pessoas para entender em sua 
totalidade o sentido daquela ocasio para as mulheres. Ela via Proleva e a 
Zelandoni como uma parente e uma amiga de Jondalar. A donier olhou para 
Ayla, encorajando-a a prosseguir.
        - Proleva me contou que, entre os Zelandonii, toda a comida  dividida. 
E eu perguntei para ela se as mulheres Zelandonii estariam dispostas a 
dividir o seu leite. Ela me respondeu que costumam fazer isso com 
familiares e amigas ntimas, mas Tremeda no tem nenhum parente que se 
saiba, e certamente nenhuma irm ou prima que esteja amamentando - 
frisou Ayla, sem mesmo mencionar amigas ntimas. Gesticulou para Lanoga, 
que se levantou e foi lentamente em sua direo, carregando o beb.
        - Embora uma menina de dez anos possa cuidar de um beb, no  
capaz de amament-la. Eu comecei a mostrar para Lanoga como preparar 
outros alimentos que o beb pode comer, alm de mingau de razes. Ela  
suficientemente capaz, s precisa de algum que a ensine, mas isso no  o 
bastante. - Fez uma pausa e olhou para cada uma das mulheres.
        - Foi voc tambm quem limpou as duas? - perguntou Stelona, a mais 
velha.
        - Fui. Ns fomos at O Rio e nos banhamos, como vocs fazem - disse 
Ayla, e em seguida acrescentou: - Eu soube que Tremeda no gosta de 
receber favores, e talvez tenha razo, mas esse beb no  Tremeda.  
apenas uma criana que precisa de leite, pelo menos um pouco.
        - Vou lhe falar francamente - interrompeu Stelona. Ela se tornara, na 
verdade, a porta-voz do grupo. - Eu no me importaria de amament-la de 
vez em quando, mas no quero entrar naquela habitao e no estou nem um 
pouco interessada em visitar Tremeda.
        Proleva virou-se de lado, para disfarar um sorriso. Ayla conseguiu, 
pensou ela. Obteve pelo menos um compromisso, e as outras a seguiro, ou, 
pelo menos, a maioria.
        - Vocs no precisaro de nenhum esforo a mais. J conversei com 
Lanoga. Ela levar a irm at vocs, e poderemos fixar uma rotina. Com 
muitas para ajudar, no ser extrado muito leite de uma s mulher - 
salientou Ayla.
        - Bem, traga ela aqui - ordenou a mulher. - Vejamos se ela ainda sabe 
mamar. J faz quanto tempo?
        - Desde a primavera - informou Ayla. - Lanoga, leve o beb at 
Stelona.
        Lanoga evitou olhar diretamente para as demais, ao seguir em direo 
 mulher mais velha, que havia entregue, para a mulher grvida a seu lado, o 
beb adormecido que estava em seu colo. Com experiente desenvoltura, 
Stelona colocou o seio diante do beb. Ela fuou por uns instantes ao redor 
dele, ansiosa, no mais parecendo familiarizada com a posio, mas, quando 
Lorala abriu a boca, a mulher colocou o mamilo dentro dela. O beb o 
abocanhou por um instante, e ento, finalmente, comeou a sugar.
        - Bem, ela segurou firme - exclamou Stelona. Suspiros de alvio e 
sorrisos generalizados tomaram conta do grupo.
        - Obrigada, Stelona - agradeceu Ayla.
        - Creio que  o mnimo que algum pode fazer. Ela, afinal de contas, 
pertence  Nona Caverna - afirmou Stelona.
        

        - Ayla no fez exatamente as mulheres passarem vergonha - explicou 
Proleva -, mas fez com que elas sentissem que, se no ajudassem, seriam 
piores do que os cabeas-chatas. Agora, todas elas podem se sentir 
virtuosas por fazer o que  correto.
        Joharran apoiou-se em um dos cotovelos para erguer o corpo e olhar 
para a parceira. 
        - Voc amamentaria o beb de Tremeda? - perguntou.
        Proleva rolou para o lado dela e puxou a coberta at os ombros.
        - Claro que amamentaria - afirmou -, se algum me pedisse, mas talvez 
no pensasse em estabelecer uma rotina para dividir a tarefa, e me sinto 
envergonhada por no saber que o leite de Tremeda tinha secado. Ayla disse 
que Lanoga era capacitada e s precisa de algum para ensin-la. Ela tem 
razo, a menina  capacitada. Manteve vivo o beb, e  mais para o resto 
daquelas crianas do que a prpria me deles, mas uma menina que deve 
contar apenas dez anos no devia ser uma me para aquela prole. Nem ainda 
fez os Primeiros Ritos. O melhor seria se algum adotasse o beb. E talvez 
alguns dos mais novos, tambm - confessou Proleva.
        - Talvez voc consiga algum que os leve para a Reunio de Vero - 
sugeriu Joharran.
        - Vou tentar, mas no creio que Tremeda pare de ter bebs. A Me 
tende a dar mais s mulheres que j tiveram filhos, mas Ela costuma 
esperar at a mulher deixar de amamentar um para lhe dar outro. Como ela 
no est mais amamentando, a Zelandoni diz que Tremeda certamente 
voltar a ficar grvida dentro de um ano.
        - Por falar em grvida, como voc est se sentindo? - quis saber Joha 
sorrindo-lhe com amor e um ar encantado.
        - Bem - disse ela. - Parece que os enjos passaram, e no ficarei 
gorda demais durante o calor do vero. Acho que devo comear a contar 
para as pessoas, Ayla j percebeu.
        - Eu ainda no vejo nenhum sinal, exceto que est mais bonita - 
afirmou Joharran -, se  que isso  possvel.
        Proleva sorriu afetuosamente para o parceiro.
        - Ayla desculpou-se por ter mencionado a minha gravidez antes de eu 
estar pronta para anunci-la... foi apenas um deslize. Ela disse que conhecia 
os sinais  porque  uma curandeira, que  como ela s vezes se refere a 
quem cura. Ela pode ser uma curadora, e  difcil acreditar que tenha 
aprendido tanto com...
        - Eu sei - interrompeu Joharran. - Ser que aqueles que a criaram so 
iguais aos que se encontram aqui perto? Se so, isso me preocupa. Eles no 
tm sido bem tratados, e fico imaginando: por que no retaliaram? E o que 
aconteceria se, um dia, resolvessem contra-atacar?
        - No creio que seja algo com que devemos nos preocupar no momento 
observou Proleva -, e tenho certeza de que aprenderemos mais sobre 
passarmos a conhecer Ayla melhor.
        - Fez uma pausa, virou a cabea em direo ao local de dormir de 
Jaradal, e ficou atenta. Ela tinha ouvido um rudo, agora ele estava quieto. 
Talvez estivesse sonhando, pensou, e virou-se de volta para o parceiro. - 
Voc sabe que querem torn-la uma mulher Zelandonii, antes de partirmos, 
para que isso seja feito antes de ela e Jondalar se acasalarem.
        - Sim, eu sei. Voc no acha que  um pouco cedo demais? Parece que 
a conhecemos h bastante tempo, mas eles s chegaram aqui h pouco - 
lembrou Joharran. - Eu no costumo me preocupar com o que a minha me 
sugere. Por mais que ela continue sendo uma mulher poderosa, no faz 
sugesto com frequncia, e, quando faz,  sobre algo em que eu no tinha 
pensado a esse respeito. Faz sentido. Quando a liderana foi passada para 
mim, fiquei imaginancdo se  mame seria mesmo capaz de abrir mo dela, 
mas estava querendo de verdade que eu assumisse, tanto quanto os outros, 
e sempre tomou cuidado para no interferir. Mas no vejo motivo para 
reconhecer Ayla assim to depressa. De qualquer modo, ela ser 
considerada uma de ns, depois que se acasalar com  Jondalar.
        - Mas no por seu prprio direito, apenas como parceira de Jondalar  
assinalou Proleva. - A sua me, Joharran, est preocupada com a posio 
dela. Se lembra do enterro de Shevonar? Como estrangeira, Ayla deveria 
ficar atrs da fila, mas Jondalar insistiu que caminharia a seu lado, aonde 
quer que ela fosse. E a sua me no quis que o filho ficasse atrs de 
Laramar. Isso daria sinal de que a mulher com quem ele vai se acasalar tem 
pouco status. Zelandoni alegou que ela pertencia ao grupo daqueles que 
curam, e, por isso ela ficar na frente, mas Laramar no gostou e 
constrangeu Marthona.
        - Eu nao sabia disso - surpreendeu-se Joharran.
        - O problema e que no sabemos como julgar a condio social de Ayla 
- ou Prol - Aparentemente, ela foi adotada por um Mamuti de alto escalo 
mas quanto sabemos a respeito deles? No  como se fossem Lanzadonii, ou 
at mesmo Losadunai. Eu nunca tinha ouvido falar neles antes, apesar de 
algumas pessoas afirmarem que j ouviram. E ela foi criada pelos cabeas-
chatas! Que tipo de poso isso d a ela? Se no for reconhecida uma alta 
posio para ela, isso pode reduzir o status de Jondalar e afetar todos os 
nossos nomes e laos familares, de Marthona, os seus, os meus, de todos os 
parentes dele.
        - Eu no tinha pensado nisso - admitiu Joharran.
        - A Zelandoni tambem esta pressionando para que ela seja 
reconhecida. Trata-a como se ela fizesse parte da zelandonia, uma 
semelhante. No sei ao certo quais so os seus motivos, mas ela tambm 
parece determinada a fazer com que Ayla seja vista como uma mulher de 
alta posio social. - Proleva virou novamente a cabea na direo do filho, 
por causa de um rudo emitido por ele. Tratava-se de uma reao automtica, 
que ela mal percebia. Ele deve estar tendo sonhos realistas, deduziu.
        Joharran pensava nos comentrios feitos por ela, sentindo-se 
bastante feliz por aquela mulher ser igualmente perfeita e astuta. Era uma 
verdadeira ajuda para ele e apreciava os talentos dela. No momento, o que 
ele apreciava era o talento dela em esclarecer os motivos de sua me. Ele 
era um bom ouvinte e,  sua maneira um bom comunicador, um dos motivos 
pelos quais era um bom lder. Mas no tinha o senso inato dela para as 
repercusses e ambiguidades de uma situao.
        - Ser o suficiente apenas ns declararmos a aceitao? - perguntou 
Marthona, inclinando..se para a frente.
        Joharran  lder, voc  ex-lder e conselheira, Willamar  Mestre 
Comerciante...
        E voc  a Primeira - completou Marthona - mas, a despeito da 
posio social, somos todos parentes, exceto voc, Zelandoni, e todo mundo
sabe que  nossa amiga.
        - Quem se oporia?
        - Laramar
        Marthona ainda estava aborrecida e de certa forma constrangedora 
de Laramar t-la apanhado em uma quebra da etiqueta, e seu rosto revelava 
essa irritao. 
        - Ele discordaria, s para criar problema. J fez isso no enterro - 
adiantou.
        - Eu no soube disso. O que ele fez? - quis saber a grande mulher. - 
As duas mulheres estavam na habitao dela, tomando ch e conversando 
calmamente. A donier estava feliz por, enfim, o seu ltimo paciente ter ido 
para casa, devolvendo-lhe a privacidade de sua moradia, onde poderia 
meditar na solido e falar reservadamente.
        - Ele levou ao meu conhecimento que Ayla deveria ficar no final do 
cortejo.
        - Mas ela  uma curadora e pertence  zelandonia - justificou a donier.
        - Talvez seja uma curadora, mas no  uma Zelandoni, pertena ou no 
 zelandonia, e ele sabe disso.
        - Mas o que ele pode fazer?
        - Levantar essa questo, ele  um membro da Nona Caverna. Pode 
haver outros que pensem como ele, mas hesitariam em mencionar. Se ele 
fizer isso, os outros podem aderir. Acho que precisamos de mais gente que 
concorde em aceit-la - sugeriu Marthona, com um tom fatalista.
        - Talvez esteja com a razo. Quem voc sugere? - perguntou a 
Zelandoni. Deu um gole no ch e franziu a testa, pensando.
        - Stelona e a famlia dela podem ser uma boa possibilidade - lembrou 
a ex-lder. - De acordo com Proleva, ela foi a primeira a concordar em 
amamentar o beb de Tremeda. Ela  respeitada, as pessoas gostam dela, e 
no  nossa parenta.
        - Quem pedir a ela?
        - Joharran poder fazer isso, ou talvez eu. De mulher para mulher. O 
que voc acha? - indagou Marthona.
        A Zelandoni pousou o caneco e as rugas da testa se aprofundaram.
        - Creio que voc devia conversar primeiro com ela, sentir sua reao - 
sugeriu. - Depois, se ela parecer disposta, Joharran poder fazer o pedido, 
mas como membro da famlia, e no como lder. Desse modo, no ficar 
parecendo um pedido oficial no qual estar contida a presso da liderana. 
Ser mais como se ele estivesse lhe pedindo um favor...
        - E estar mesmo - garantiu Marthona.
        - Claro. Mas s o fato de o lder fazer o pedido vai forar a posio 
dele. Todos ns conhecemos o seu status. No precisar ser mencionado. E 
ela pode considerar uma gentileza o fato de ele lhe fazer o pedido. Voc a 
conhece bem? - indagou a Primeira.
        - Eu a conheo,  claro. Stelona  de uma famlia digna de confiana, 
mas no tivemos uma oportunidade de nos relacionar pessoalmente. Proleva 
a conhece melhor Foi ela quem a convidou, quando Ayla quis conversar sobre 
o beb de Tremeda. Sei que ela participa ativamente quando h reunies a 
se organizar, ou comida a ser preparada, e eu sempre a vejo ajudando, 
quando h um trabalho a ser feito - observou a mulher mais velha.
        - Ento deve incluir Proleva, e lev-la junto quando for falar com 
Stelona - sugeriu a Zelandoni. - Descubra o que Proleva considera como a 
melhor maneira de abordar Stelona. Se ela gosta de colaborar, e se dispe a 
ajudar, talvez seja melhor apelar para esse seu lado.
        As duas mulheres ficaram em silncio por um instante, tomando ch e 
pensando. Ento, Marthona perguntou:
        - Voc quer manter uma forma mais simples para a cerimnia de 
aceitao ou fazer algo mais espetacular?
        A Zelandoni olhou-a e deduziu que a mulher tinha um motivo para 
levantar a questo. - Por que pergunta? - quis saber.
        - Ayla me mostrou algo que, acredito, poder causar um grande 
impacto, se lidarmos com isso adequadamente - presumiu Marthona.
        - O que foi que ela lhe mostrou?
        - Voc j a viu fazer fogo?
        A grande mulher hesitou apenas um instante, em seguida recostou-se 
e sorriu.
        - S na vez em que acendeu uma fogueira, para ferver gua e fazer 
um ch calmante para Willamar, quando ele voltou para casa e soube a 
respeito de Thonolan. Ela prometeu que ia me mostrar como fez aquilo to 
depressa, mas acabei esquecendo, por causa do enterro, dos preparativos 
para a Reunio de Vero e de tudo o mais que anda acontecendo.
        - A fogueira tinha apagado, quando chegamos em casa,  noite, e ela e 
jondalar nos mostraram. Desde ento, Willamar, Folara e eu temos feito 
fogo  maneira dela. 
         preciso uma coisa que ela chama de pedra-de-fogo, e, 
aparentemente, pode ser encontrada aqui perto. No sei quantas existem, 
mas h o suficiente para dividir com os outros - explanou Marthona. - Por 
que no vai em casa esta noite? Eu sei que eles planejam mostrar a voc, e 
podero aproveitar a ocasio. Alis, por que no Vai comer com a gente? 
Ainda resta um pouco daquela ltima fabricao de vinho.
        - Eu adoraria. Sim, eu irei.
        
        - Como sempre, Marthona, estava excelente - afirmou a Zelandoni, ao 
Pousar um caneco vazio ao lado de uma tigela com um resto de comida. Eles 
estavam sentados sobre almofadas e acolchoados em volta da mesa baixa. 
        Durante a refeio, Jondalar tinha olhado de relance e sorrido para 
todos, como se antecipasse algo especialmente delicioso. A donier admitiu 
para si mesma que aquilo a deixara curiosa, embora no tivesse inteno de 
demonstr-lo.
        Ela comeu lentamente a refeio, brindando os presentes com 
histrias e anedotas, incentivando Ayla e Jondalar a falarem sobre a sua 
Jornada, e induzindo Willamar a contar sobre suas aventuras de viagem. 
Vinha sendo uma noite perfeita e agradvel para todos, a no ser para 
Folara, que parecia a ponto de estourar de tanta expectativa, e Jondalar 
estava to presunoso e satisfeito consigo mesmo, que a mulher desejou 
sorrir.
        Willamar e Marthona estavam mais acostumados a esperar at o 
momento certo; tratava-se de uma ttica usada freqentemente em 
negociaes comerciais com outras Cavernas. 
        Ayla tambm parecia contente em esperar, mas era difcil para 
Aquela Que Era A Primeira sondar os seus verdadeiros sentimentos. Ela 
ainda no conhecia suficientemente bem a mulher estrangeira, que era um 
enigma, mas aquilo a deixava intrigada.
        - Se vocs j terminaram, gostaramos que fossem para perto da 
lareira - props Jondalar com um vido sorriso.
        A enorme mulher iou o corpo da pilha de almofadas sobre a qual 
estava sentada e seguiu em direo ao braseiro da rea de cozinhar. 
Jondalar apressou-se em pegar as almofadas e coloc-las perto da lareira, 
mas a Zelandoni permaneceu de p.
        -  melhor voc se sentar, Zelandoni - sugeriu Jondalar. - Ns vamos 
apagar todos os fogos, e vai ficar escuro como numa caverna.
        - Se prefere assim - disse ela, sentando-se na pilha de almofadas.
        Marthona e Willamar levaram as suas almofadas e tambm se 
sentaram, en quanto os mais jovens juntavam todas as lamparinas e as 
colocavam em volta da lareira, inclusive - a Zelandoni notou um pouco 
surpresa - a que estava diante da donii no nicho. S o fato de juntarem 
todas elas fez o resto da habitao ficar bastante escura.
        - Esto todos prontos? - perguntou Jondalar, e, quando os trs que 
esperavam fizeram que sim, os outros passaram a soprar as pequenas 
chamas. Ningum falou enquanto cada uma era apagada. As sombras 
aprofundaram-se, at que as trevas furtivas alcanassem cada lampejo de 
luz e permeassem todos os espaos, crian do uma sinistra sensao de densa 
opresso impenetrvel no ar intangvel. Estava to escuro quanto numa 
caverna, mas, na habitao, que momentos antes estivera repleta de um 
brilho dourado e clido, o efeito era lgubre, enervante, e, curiosamente, 
mais apavorante do que num frio Fundo. A escurido era esperada ali. No 
que todas as chamas no interior de uma habitao jamais se apagassem, mas 
nunca se apagava a iluminao toda intencionalmente. Era como se eles 
estivessem arriscando a sorte. O misterioso impacto no passou 
desapercebido para a Primeira.
        Com o passar do tempo, porm, e a adaptao da vista ao escuro, a 
Zelandoni notou que era ligeiramente menor a intensidade das trevas. Ela 
ainda conseguia ver a forma da prpria mo diante dos olhos, pois acima da 
habitao sem teto, na parte inferior da prateleira suspensa, a luz de 
outras fogueiras refletia-se tenuamente nos espaos adjacentes. No era 
muita coisa, mas no estava to escuro quanto numa caverna. Ela teria que 
se lembrar disso, pensou.
        Seus pensamentos foram distrados por uma luz prxima, 
espantosamente brilhante aos olhos j acostumados  escurido profunda. 
Manteve-se por um demorado instante, realando o rosto de Ayla, e se 
apagou, mas, um momento depois, iniciou-se uma pequena chama que logo 
resplandecia.
        - Como fez isso? - perguntou ela.
        - O qu? retrucou Jondalar, com um largo sorriso.
        - Iniciou esse fogo to depressa. - Agora a Zelandoni podia enxergar 
que todos estavam rindo.
        -  a pedra-de-fogo! - exclamou Jondalar, e segurou uma no alto para 
lhe mostrar. - Quando voc bate nela com slex, produz uma fasca 
duradoura e muito quente, e, mirando na direo de uma boa isca seca, ela a 
apanha e produz uma chama. Vou lhe mostrar como funciona.
        Ele formou um feixe de iscas com palha felpuda e algumas lascas de 
madeira en voltas em capim seco. A Primeira levantou-se do assento 
acolchoado e sentou-se no cho perto da lareira. Ela preferia se acomodar 
em assentos mais altos ou cadeiras, pois era mais fcil de se levantar, mas 
isso no queria dizer que no podia se abaixar, se quisesse, ou se achasse 
que estava diante de algo muito importante. E aquele truque de fazer fogo o 
era. Jondalar fez a demonstrao e depois lhe entregou as pedras. Ela 
tentou algumas vezes, sem sucesso, franzindo cada vez mais a testa a cada 
tentativa.
        - Voc vai aprender a tcnica - incentivou Marthona. - Ayla, por que 
no mostra a ela?
        Ayla pegou o slex e a pinta-de-ferro, ajeitou um pouco o feixe da 
fogueira e, cuidadosamente, mostrou  mulher a posio das mos. Em 
seguida, com uma pancada, produziu uma fasca que foi pousar na isca. Isto 
provocou um fiozinho de fumaa, que ela apagou; a seguir, devolveu as 
pedras  Zelandoni. A mulher segurou-as diante de si e comeou a bater, 
mas Ayla a deteve e trocou a posio das suas mos. Ela tentou novamente. 
Viu uma quente centelha pousar perto da isca, mudou ligeiramente a posio 
das mos, e deu uma pancada. Desta vez, a fasca encontrou a isca. Ela sabia 
o que fazer em seguida. Juntou o feixe, aproximou-o do rosto e soprou. O 
pequenino comeo ficou de um vermelho brilhante. O segundo sopro 
transformou a erva abaixo numa pequena chama, e o terceiro incendiou as 
lascas de madeira. A donier colocou o feixe no cho e comeou a aliment-lo 
com gravetos pequenos e, depois, com os maiores. Entretanto recostou-se e 
sorriu, satisfeita com a faanha.
        Todos os demais tambem sorriram e fizeram ao mesmo tempo 
comentrios apreciativos. 
        - Voc pegou o jeito depressa - observou Folara. 
        - Eu sabia que ia conseguir - disse Jondalar. 
        - Eu falei que era apenas uma questo de tcnica - comentou 
Marthona. 
        - Muito bem! - exclamou Willamar. 
        -Agora, tente novamente - sugeriu Ayla. 
        - Sim,  uma boa idia - concordou Marthona.
        Obedientemente, Aquela Que Era A Primeira Entre Os Que Serviam 
 Me fez o que lhe foi pedido. Produziu fogo uma segunda vez, mas teve 
problemas na terceira, at Ayla lhe mostrar porque no estava obtendo uma 
boa fasca e como chocar as pedras num ngulo diferente. Aps a terceira 
tentativa bem-sucedida, ela parou, levantou-se, voltou a se instalar no 
assento acolchoado e olhou para Ayla.
        - Vou praticar mais em casa - disse ela. - Na primeira vez em que eu 
fizer isso em pblico, quero estar to confiante quanto voc. Mas, me diga: 
onde aprendeu a fazer isso?
        Ayla contou que, sem querer, apanhou uma pedra em uma praia 
rochosa do vale onde vivia, para usar como martelo, no lugar do que vinha 
utilizando, a fim de fazer uma nova ferramenta para substituir a que havia 
se quebrado. Como a sua fogueira se apagara, a fasca e a fumaa 
produzidas deram-lhe a idia de tentar reacend-la daquela maneira. Para 
sua surpresa, deu certo.
        - E  verdade que h algumas dessas pedra-de-fogo por aqui? - 
indagou a donier.
        -  - confirmou Jondalar, empolgado. - Ns havamos juntado, no vale
dela, todas as que conseguimos encontrar e espervamos encontrar mais
durante a nossa Jornada. No conseguimos, mas Ayla fez uma pausa, para
beber gua, no pequeno regato do Vale do Bosque, e encontrou algumas por 
l. No muitas, mas, se havia algumas, deve haver mais.
        - Parece lgico. Espero que tenha razo - concedeu a Zelandoni.
        - Sero excepcionais para se fazer trocas - frisou Willamar.
        A Zelandoni franziu levemente a testa. Ela estava pensando mais em 
dar um aspecto dramtico s cerimnias, o que significava que as pedras 
permaneceriam inacessveis a todos, com exceo da zelandonia, mas j era 
tarde demais para isso.
        - Creio que tem razo, Mestre Comerciante, mas, talvez, no 
imediatamente - props ela. - Prefiro que a descoberta dessas pedras 
permanea em segredo.
        - Por qu? - quis saber Ayla.
        - Elas podem ser teis em determinadas cerimnias - explicou a 
Zelandoni.
        De repente, Ayla lembrou da ocasio em que Talut convocou uma 
reunio para propor a idia de os Mamuti a adotarem. Para a surpresa de 
Talut e Tulie, o irmo e a irm que dividiam a liderana do Acampamento do 
Leo, j que ambos apadrinhavam a proposio, um homem foi contra. 
Somente depois de fazerem uma demonstrao improvisada, mas 
espetacular, de se produzir fogo com uma pedra de fogo e prometerem lhe 
dar uma, Frebec cedeu.
        - Tambm acho - concordou ela.
        - Mas posso mostrar para as minhas amigas? - implorou Folara. - 
Mame me fez prometer no contar para ningum, ainda, mas estou louca 
para mostrar a elas.
        - Sua me  sensata - disse a Zelandoni. - Eu prometo que ter uma 
chance de mostrar a elas, mas no por enquanto. Isso  importante demais e 
precisa ser apresentado de maneira adequada. Eu gostaria muito que 
esperasse. Voc far isso?
        -  claro, j que deseja que eu faa isso, Zelandoni - cedeu Folara.
        

        - Parece que, desde que eles chegaram, tem havido mais banquetes, 
cerimnias e reunies nos ltimos dias, do que em todo o inverno passado - 
comentou Solaban.
        - Proleva me pediu para ajudar, e voc sabe que nada recuso a ela - 
afirmou Ramara - assim como voc no se recusaria a Joharran. De qualquer 
modo, Jaradal sempre brinca com Robenan, e no me importo de tomar 
conta dele.
        - Partiremos para a Reunio de Vero, dentro de um ou dois dias; por 
que isso no poderia esperar at chegarmos l? - queixou-se o parceiro dela. 
Ele tinha uma poro de objetos espalhados pelo cho de sua habitao, e 
tentava decidir o que levar. Solaban no apreciava a tarefa. A parte de ir 
para a Reunio de Vero era aquela que ele sempre adiava at o ltimo 
momento, e agora que, final mente, havia se dedicado a ela, queria concluir 
aquilo sem ter crianas brincando por perto e mexendo nas coisas.
        - Acredito que tem a ver com o acasalamento deles - salientou Ramara. 
Ela lembrou do prprio Matrimonial e olhou para o parceiro de cabelos 
negros. Os cabelos dele eram provavelmente mais escuros do que os de 
qualquer um da Nona Caverna, e, quando ela o conheceu, gostou do contraste 
que fazia com a cor loura clara dos dela. Os cabelos de Solaban eram quase 
negros, embora os seus olhos fossem azuis, e a pele to branca, que 
freqentemente se queimava com o sol, principalmente no comeo do vero. 
Ela tambm o achava o homem mais bonito de todos da Caverna, mesmo em 
comparao com Jondalar. Sabia da atrao exercida pelo louro alto com 
extraordinrios olhos azuis, e, quando era jovem, tambm se apaixonara por 
ele, como todas as mulheres. Mas descobriu o que era o amor quando 
conheceu Solaban. Desde a sua volta, Jondalar no lhe parecia to atraente, 
talvez por dedicar toda a sua ateno a Ayla. Alm disso, ela gostava muito 
daquela mulher.
        - Por que eles no podem se acasalar como todo mundo? - perguntou 
Solaban, obviamente mal-humorado.
        - Ora, eles no so como todo mundo. Jondalar acaba de retornar de 
uma longa Jornada da qual ningum esperava que ele voltasse, e Ayla nem 
mesmo  uma Zelandonii. Mas deseja muito ser. Pelo menos foi o que eu 
soube - comentou Ramara.
        - De qualquer modo, quando ela se acasalar com ele, ser o mesmo que 
uma Zelandonii - frisou Solaban. - Por que se dar ao trabalho de fazer uma 
cerimnia de aceitao para ela?
        - No  a mesma coisa. Ela no seria uma Zelandonii, mas "Ayla dos 
Mamuti, acasalada com Jondalar dos Zelandonii". Sempre que fosse 
apresentada, todos saberiam que  uma estrangeira - lembrou.
        - Ela s precisa mesmo abrir a boca para todos saberem que  uma 
estrangeira - rebateu ele. - Torn-la uma Zelandonii no vai mudar isso.
        - Vai, sim. Ayla poder falar como uma estrangeira, mas, quando as 
pessoas forem apresentadas a ela, sabero que no  mais - salientou 
Ramara. Ela olhou para as ferramentas, armas e roupas que cobriam cada 
superfcie plana. Conhecia o parceiro e entendia o verdadeiro motivo de sua 
irritao, e no tinha nada a ver com Ayla ou Jondalar. Sorriu consigo 
mesma e falou:
        - Se no estivesse chovendo, eu levaria os meninos ao Vale do Rio do 
Bosque, para verem os cavalos. Todas as crianas gostam de fazer isso. No 
 sempre que tm uma chance de ver animais to de perto.
        O enrugado da testa de Solaban se aprofundou
        - Isso significa que eles tero que ficar aqui dentro, suponho.
        Ramara exibiu um largo sorriso.
        - No, no creio. Pensei em ir  outra ponta do abrigo, onde todos 
esto: cozinhando e preparando as coisas, e ajudar as mulheres que esto
cuidando das crianas para que as suas mes possam trabalhar. Os meninos
podero brincar com os outros da idade deles. Quando Proleva me pediu 
para cuidar de Jaradal ela quis dizer para ficar particularmente atenta a 
ele. Todas as mes fazem isso pois as mulheres que cuidam de crianas 
precisam saber por quem so responsveis, principalmente quando se trata 
de crianas da idade de Robenan. Elas se acham mais independentes e, s 
vezes, tentam sair por a sozinhas - comentou Ramara, vendo do que se 
atenuava o franzido da testa do parceiro. - Mas voc dever ter acabado 
antes da cerimnia. Talvez eu tenha que trazer os meninos para c, mais 
tarde.
        Solaban olhou em volta, para a variedade de suas coisas pessoais 
caprichosamente organizadas, e as fileiras de galhadas, ossos e pedaos de 
marfim aparado mais ou menos do mesmo tamanho, e depois balanou a 
cabea. Ele ainda no sabia exatamente o que levar consigo, mas era assim 
todos os anos.
        - Certo - concordou -, assim que eu arrumar isto, para ver o que quero
levar para a Reunio de Vero para mim mesmo, e o que quero levar para 
trocar.
        - Alm de ser um dos auxiliares mais prximos de Joharran, Solaban 
era um fabricante de empunhaduras, em especial de cabos de facas.
        - Acho que todos esto aqui - informou Proleva -, e parou de chover. 
        Joharran concordou com a cabea, saiu de debaixo da aba, que os 
havia protegido do aguaceiro, e saltou para cima da plataforma de pedra na 
extremidade do abrigo. Olhou as pessoas que comeavam a se reunir em 
volta, e depois sorriu para Ayla.
        Ayla retribuiu o sorriso, mas se sentia nervosa. Olhou de relance para 
Jondalar, que observava a multido se formar em torno da grande pedra 
elevada.
        - J no estivemos aqui no faz muito tempo? - comentou Joharran, 
com um sorriso irnico. - Quando eu a apresentei para vocs, no sabamos 
muita coisa a respeito de Ayla, exceto que havia viajado para c, com o meu 
irmo Jondalar, e tinha um certo jeito incomum com os animais. No pouco 
tempo em que est aqui, aprendemos muito mais sobre Ayla dos Mamuti.
        - Acredito que todos suspeitamos que Jondalar planejava se acasalar 
com a mulher que ele trouxe para casa, e estvamos certos. Eles se uniro
no Primeiro Matrimonial da Reunio de Vero. Depois que se acasalarem,
passaro a viver com a gente, aqui na Nona Caverna, e quero ser o primeiro a
lhes dar as boas- vindas.
        Houve vrios comentrios concordantes na assemblia.
        - Mas Ayla no  uma Zelandonii. Toda vez que um Zelandonii se 
acasala com algum que no  um de ns, costuma haver negociaes e 
alguns costumes que precisam ser providenciados entre ns e o outro povo. 
No caso de Ayla, entretanto, os Mamuti vivem to distante, que 
precisaramos viajar durante um ano para encontr-los, e estou ficando 
velho demais para fazer uma Jornada to longa.
        Risos e comentrios foram ao encontro de sua afirmao. J se sente 
um ancio, Joharran? - gritou um jovem.
        - Espere at voc viver a quantidade de anos que eu vivi. A saber o 
que  ser velho - exclamou um homem de cabelos brancos.
        Quando o povo sossegou, Joharran prosseguiu:
        - Depois que eles se acasalarem, a maioria das pessoas vai v-la como 
Ayla, acasalada com Jondalar da Nona Caverna dos Zelandonii, mas Jondalar 
sugeriu que a Nona Caverna a aceite como uma Zelandonii antes do 
Matrimonial. Alis, ele pediu que ns a adotemos. Isso tornar mais fceis e 
menos confusas as cerimnias do matrimonial, e no precisaremos de 
dispensas especiais para todos na Reunio de Vero, se fizermos isso antes 
de partirmos.
        - O que ela quer? - perguntou uma mulher.
        Todos se viraram para olh-la. Ayla engoliu em seco, e ento, 
concentrando-se em pronunciar as palavras da forma mais correta possvel, 
afirmou:
        - Mais do que tudo neste mundo, eu quero ser uma mulher Zelandonji 
e me acasalar com Jondalar.
        Por mais que tenha tentado, no conseguiu evitar o timbre incomum 
de seu jeito de falar, e ningum que a ouviu se deixaria enganar em relao 
 sua origem estrangeira; porm a simples afirmao, dita com tal sincera 
convico, conquistou a maioria das pessoas.
        "Ela percorreu um longo caminho para chegar aqui." "De qualquer 
modo, ela ser o mesmo que uma Zelandonii."
        - Mas qual ser o status dela? - quis saber Laramar.
        - Ela ter o mesmo status de Jondalar - disse Marthona. Ela j 
esperava que ele causasse problema, e, dessa vez, estava preparada. 
        - Jondalar tem uma alta posio na Nona Caverna porque voc  me 
dele, mas no sabemos nada a respeito dela, exceto que foi criada pelos 
cabeas-chatas - expressou-se Laramar ruidosamente.
        - Ela tambm foi adotada pelo Mamut da mais alta posio, que  
como eles chamam um Zelandoni. Ela seria adotada pelo lder, se o Mamut 
no a tivesse escolhido - frisou Marthona.
        - Por que sempre parece haver algum que se ope? - comentou Ayla 
para Jondalar, em Mamuti. - Ns teremos que fazer uma fogueira com a 
pedra-de- fogo, para convenc-lo, do mesmo modo como a Frebec, no 
Acampamento do Leo?
        - Frebec acabou se tornando um bom homem; no sei por que, mas no 
creio que isso venha a acontecer com Laramar - murmurou Jondalar em 
resposta.
        - Isso  o que ela diz. Como vamos saber ao certo? - alegou Laramar, 
continuando com a sua oposio em voz alta.
        - Porque o meu filho esteve l, e diz a mesma coisa - retrucou 
Marthona.
        - Joharran, o lder, no duvida deles.
        - Joharran  da famlia.  claro que o irmo de Jondalar no ia 
duvidar dela. Ela vai fazer parte da sua famlia, e todos vocs querem que 
tenha uma alta posio social - refutou Laramar.
        - No sei por que est se opondo - expressou uma voz do outro lado. 
        As pessoas viraram-se e ficaram surpresas ao ver que se tratava de 
Stelona. 
        - Se no fosse Ayla, a filha mais nova da sua parceira provavelmente 
morreria de fome. Voc no falou que o leite de Tremeda tinha secado, nem 
que Lanoga tentava manter o beb vivo alimentando-o de mingau de razes. 
Mas Ayla soube. E duvido que voc soubesse. Os Zelandonii no deixam um 
Zelandonii passar fome. Vrias de nossas mes esto alimentando o beb, e 
Lorala j est ficando mais forte. Eu estaria mais do que disposta a 
apadrinhar Ayla, se ela precisasse. Ela  uma mulher que os Zelandonii 
deveriam se orgulhar de reivindicar como sua.
        Vrias outras mulheres se manifestaram, defendendo Ayla, todas elas 
mes que amamentavam e tinham os seus filhos nos braos. A histria de 
Ayla e o beb de Tremeda comeara a se espalhar, mas nem todos sabiam, 
ou conheciam totalmente os fatos. A maioria tinha conhecimento da 
"doena" de Tremeda, mas, em todo o caso, o leite dela havia acabado, e as 
pessoas ficaram contentes pelo beb estar sendo alimentado.
        - Tem mais alguma objeo a fazer, Laramar? - perguntou Joharran.
         O homem sacudiu a cabea e recuou para longe. - Mais algum tem 
alguma objeo contra aceitarmos Ayla na Nona Caverna dos Zelandonii? - 
Um murmrio per correu a multido, mas ningum se manifestou. Ele se 
esticou para baixo, deu a mo para ajudar Ayla a subir na pedra alta e 
depois virou-se para encarar a multi do. - J que muitas pessoas esto 
dispostas a apadrinh-la e no h objees, quero lhes apresentar Ayla da 
Nona Caverna dos Zelandonii, um antigo Membro do Acampamento do Leo 
dos Mamuti, Filha do Lar do Mamute, Escolhida pelo Esprito da Caverna do 
Leo, Protegida pelo Urso das Cavernas, Amiga dos cavalos Huiin e Racer, e 
de Lobo, o caador de quatro patas. - Falaria na direo de Jondalar, para 
ter certeza de que o irmo ouviria bem os nomes e os laos dela, e os 
memorizaria. - E, em breve, parceira de Jondalar - acrescentou. - Agora, 
vamos comer!
        Ambos desceram da Pedra do Pronunciamento, e, enquanto seguiam 
em direo  comida, foram parados por pessoas que se apresentaram 
novamente, comentaram sobre o beb de Tremeda e, na maior parte, deram 
a ela as boas-vindas.
        Uma pessoa, porm, no pretendia lhe dar as boas-vindas. Laramar 
no era um homem que se constrangia facilmente, mas fora suficientemente 
repreendido e no estava nada feliz por causa disso. Antes de deixar o 
grupo, Laramar fitou Ayla com um olhar to cheio de ira, que a deixou 
arrepiada. Ele no percebeu que a Zelandoni tambm viu aquilo. Ao chegarem 
ao local onde serviam a comida, notaram que estava sendo oferecida a barma 
de Laramar, mas quem a distribua era Bologan, o filho mais velho da 
parceira dele.
        Quando as pessoas comearam a comer, voltou a chover. Elas 
procuraram locais sob a enorme prateleira saliente para desfrutar os 
alimentos, algumas sentando-se no cho, e outras em troncos ou blocos de 
pedra, que haviam sido levados para l em outras ocasies e deixados para 
uma utilizao futura. A Zelandoni aproximou-se de Ayla quando esta 
caminhava em direo  famlia de Jondalar.
        - Receio que voc tenha tornado Laramar um inimigo - comentou ela.
        - Eu lamento - disse Ayla. - No pretendi causar problemas para ele.
        - Voc no causou os problemas dele. Foi ele quem tentou causar 
problemas para voc, ou melhor, tentou humilhar Marthona e a famlia dela, 
mas, em vez disso, causou problemas para si mesmo. Mas, agora, creio que 
ele vai culpar voc - alertou a Zelandoni.
        - Por que ele ia querer causar problemas para Marthona?
        - Porque ele  o membro de mais baixa condio social da Nona 
Caverna, ela e Joharran so os que tm a mais alta e, outro dia, Laramar 
conseguiu pegar Marthona cometendo um pequeno erro. Como j deve saber, 
isso  muito difcil. Acredito que isso lhe deu uma iluso temporria de 
triunfo, e ele gostou tanto, que tentou repetir a dose - disse a donier.
        As rugas da testa de Ayla aprofundaram-se diante da explicao da 
Zelandoni.
        - Talvez ele no queira levar vantagem apenas sobre Marthona - 
aventou Ayla. - Creio que, outro dia, eu tambm cometi um erro.
        - Como assim?
        - No dia em que fui mostrar a Lanoga como preparar comida para o 
beb e lhe dar banho, e tambm como se limpar, Laramar chegou em casa. 
Tenho certeza de que no sabia que o beb no tinha leite, e nem mesmo 
sobre os ferimentos de Bologan. Isso me deixou furiosa; eu no gosto dele. 
Lobo estava comigo, e percebi que, quando Laramar o viu, ficou com medo. 
Ele tentou disfarar o medo, e eu me senti como a lder de uma alcatia 
desejando mostrar o seu lugar a um lobo menos graduado. Eu sabia que no 
devia ter feito aquilo. Apenas serviu para ele ficar com um mau sentimento 
em relao a mim.
        - Lderes de alcatias mostram a lobos menos graduados qual  o seu 
lugar? - estranhou a Zelandoni. - Como  que voc sabe?
        - Antes de aprender a caar comida, eu aprendi a caar animais 
carnvoros - explicou Ayla. - Passava dias inteiros observando-os. Talvez 
seja por isso que Lobo  capaz de viver com as pessoas. Os hbitos deles 
no so muito diferentes dos nossos.
        - Que espantoso! - exclamou a Zelandoni. - E receio que tenha razo, 
Voc criou um mau sentimento, mas no foi inteiramente culpa sua. No 
enterro, voc ficou entre os de maior posio social da Nona Caverna, o que, 
segundo eu achava, era o seu lugar; Marthona e eu concordamos. Mas 
Laramar queria que voc ficasse no lugar onde acreditava ser o correto, ou 
seja, atrs dele. De acordo com a tradio, ele estava certo.
        Num enterro, todos os membros de uma Caverna devem ir antes de 
qualquer um que esteja visitando. Mas voc no era exatamente uma 
visitante. Em primeiro lugar,  voc estava com a zelandonia, pois  uma 
pessoa que cura, e sempre vo  frente. Em segundo lugar, estava com 
Jondalar e sua famlia,  qual voc pertence, como todo mundo concordou no 
dia de hoje. Mas, no enterro, Laramar lembrou a tradio para Marthona e a 
apanhou desprevenida.  por isso que ele achou ter triunfado. Depois disso, 
sem saber, voc o colocou em seu lugar. Laramar achou que poderia se vingar 
de vocs duas atravs de Marthona, mas ele a subestimou seriamente.
        - A esto vocs - disse Jondalar. - Ns estvamos falando sobre 
Laramar.
        - E ns tambm - contou Ayla, mas duvidava que a conversa deles 
tivesse originado o mesmo tipo de percepo. Principalmente, por um lado, 
pelas suas prprias aes, e por outro, por ter feito um inimigo devido a 
circunstncias das quais no estava ciente. Mais um, deu-se conta. Ela no 
queria criar maus sentimentos em ningum do povo de Jondalar, mas, no 
curto espao de tempo em que se encontrava ali, fizera duas pessoas 
ficarem com raiva dela. Marona tambm a odiava. Ayla percebeu que no via 
a mulher fazia tempo, e ficou imaginando onde ela estaria.
        Desde a volta da anterior, o povo da Nona Caverna fazia preparativos 
de sua caminhada anual para a Reunio de Vero dos Zelandonii, mas, com a 
proximidade da partida, as atividades e a expectativa tornavam-se mais 
intensas. Havia decises sobre o que levar e o que deixar para trs, 
entretanto o processo de fechar as habitaes durante o vero era o que 
sempre fazia com que tomassem consciencia de que partiriam e no 
voltariam at soprarem os ventos frios.
        Alguns ficariam para trs, por um ou outro motivo: uma doena 
temporria ou mais grave, para finalizar um projeto, para esperar por 
algum. Outros voltariam eventualmente para o seu lar de inverno, mas a 
maioria permaneceria fora por todo vero. Durante toda a estao quente, 
algumas pessoas ficariam nas proximidades do local que fora escolhido para 
a Reunio de Vero, mas muitas viajariam para lugares diferentes.
        Haveria viagens de caa, caminhadas para colheitas, visitas a 
parentes, estadas para reunies de grupo com outros Zelandonii, e viagens 
at povos vizinhos.
        Alguns jovens se aventurariam mais alm dos caminhos e fariam 
Jornadas. O retorno de Jondalar, com novas descobertas e invenes, uma 
bela e extica mulher com raros talentos, e histrias emocionantes, servira 
de incentivo queles que pensavam em fazer as suas prprias Jornadas, e 
algumas mes, que sabiam que o irmo dele havia morrido muito distante, 
ficaram infelizes por Jondalar ter voltado e causado tanto rebulio.
        Na noite anterior ao dia em que planejavam partir, toda a Nona 
Caverna se encontrava ansiosa e insone. Quando Ayla pensava na Reunio de 
Vero, na qual ela e Jondalar iam se acasalar, mal podia acreditar que era 
realmente verdade. s vezes, acordava e ficava quase com medo de abrir os 
olhos, por temer que pudesse ser um sonho maravilhoso, e que ela se 
encontraria de volta  pequena caverna em seu vale solitrio. Pensava 
freqentemente em Iza, desejando que, de algum modo, a mulher que tinha 
como me pudesse saber que ela logo teria um parcei ro, e que, finalmente, 
havia encontrado o seu povo, pelo menos aquele que ela escolhera para ser o 
seu.
        H muito Ayla aceitara o fato de que jamais conheceria o povo do qual 
nascera, ou mesmo quem era ele, e deu-se conta de que isso no importava. 
Quando vivia com o Cl, desejou ser um deles, uma mulher do Cl, pois o seu 
cl no era importante. Mas quando, finalmente, entendeu que no era uma 
Cl e nunca seria, a nica diferena importante passou a ser o fato de que 
ela era uma dos Outros, uma consangnea de todos os Outros, segundo a 
idia que fazia. Sentira-se feliz em ser Mamuti, o povo que a adotara, e 
teria ficado contente em ser Xaramudi, o povo que pedira a ela e a 
Jondalar que ficassem e vivessem com ele. Ayla queria ser uma Zelandonii s 
porque se tratava do povo de Jondalar, e no porque era melhor, ou mesmo 
muito diferente dos Outros.
        Durante o longo inverno, quando a maioria ficava encerrada na Nona 
Caverna, muitos passavam o tempo fazendo presentes, que ofereceriam s 
pessoas, quan do as encontrassem novamente na prxima Reunio de Vero. 
Ao ouvir falar nos presentes, Ayla resolveu tambm fazer alguns. Embora 
tivesse pouco tempo para isso, fabricou pequenas lembranas que planejava 
dar s pessoas que tinham sido especialmente gentis com ela e que sabia 
iriam ofertar presentes a ela e a Jondalar pelo seu Matrimonial. Tambm 
tinha uma surpresa para Jondalar. Ela a trouxera na viagem de volta da 
Reunio de Vero dos Mamuti. Tratava-se de algo que havia insistido em 
carregar consigo, apesar de todas as adversidades e privaes da Jornada 
dos dois.
        Jondalar tambm tinha uma surpresa planejada. Ele conversara com 
Joharran sobre o melhor local para montar uma habitao para o casal sob o 
alapado da Nona Caverna dos Zelandonii, e queria que estivesse pronta para 
Ayla, quando eles voltassem, no outono. E j havia tomado as providencias 
para isso. Conversou com os fabricantes de paredes divisrias externas, 
com as pessoas que eram as melhores na construo de paredes baixas de 
pedra, com os mais habilidosos em pavimentao de pedra, com aqueles que 
faziam divisrias internas, e com os especialistas em pro duzir todos os 
componentes necessrios para se edificar uma habitao.
        Planejar o futuro lar dos dois envolvia algumas complicadas trocas e 
pechinchas. Primeiro, Jondalar prometeu trocar, com vrias pessoas, 
excelentes facas de pedra por couros frescos, a maioria obtida nas 
recentes caadas a megceros e bises. As lminas das facas seriam 
lascadas por ele, mas seriam encaixadas nas excelentes empunhaduras 
fabricadas por Solaban, por cujo trabalho Jondalar tinha particular 
admirao. Em troca dos cabos, Jondalar concordara em produzir vrios 
buris - ferramentas de slex tipo cinzel - para as exigncias especficas do 
fabricante de empunhaduras. Demora das conversas entre os dois homens, 
que incluram desenhos feitos com carvo sobre casca de btula, criaram o 
entendimento do que era desejado.
        Algumas das peles obtidas por Jondalar seriam usadas para fazer as 
placas de couro cru de que ele precisava para sua habitao, e outras 
compensariam Shevola, a fabricante de placas, pelo seu tempo e esforo. 
Ele prometeu, tambm, fazer-lhe um par de facas especiais para cortar 
couro, alguns raspadores para couro cru e ferramentas para talhar madeira.
Fez acordos semelhantes com o aclito da Zelandoni, o artista Jonokol, para 
a pintura das placas, as quais iriam incorporar idias deste sobre projeto e 
composio, com a utilizao de smbolos bsicos e animais, que se esperava 
que todos os Zelandonii usassem, juntamente com alguns desejados por 
Jondalar. Jonokol tambm queria algumas ferramentas especiais. Ele 
pretendia esculpir calcrio em alto-relevo, mas carecia da habilidade de 
lascar o slex para obter um tipo especial de buril com a ponta recurvada, a 
fim de concretizar as idias que imaginava. Em todo o caso, buris e 
ferramentas especficas de slex eram difceis de se fazer. Era necessrio 
um lascador de slex experiente e habilidoso para faz-las corretamente. 
        Assim que os materiais e os vrios componentes ficavam prontos, 
levava-se relativamente pouco tempo para a construo de uma habitao. 
Jondalar j havia convencido vrios parentes e amigos a fazerem com ele 
uma caminhada de volta at a Nona Caverna, durante a Reunio de Vero, e 
tambm alguns operrios habilidosos - mas sem Ayla - para ajud-lo na 
construo. Ele sorria consigo mesmo todas as vezes que imaginava o quanto 
ela ficaria feliz, quando retornassem, no outono, e descobrisse que tinha 
uma casa toda sua.
        Ainda que custasse longas tardes a Jondalar para permutar sua 
habilidade em fazer ferramentas de slex com todas as outras pessoas que 
podiam fazer artigos necessrios para ele construir um lugar onde pudesse 
viver, as pechinchas geral mente eram agradveis. Em geral, comeavam com 
gracejos, depois seguiam-se discusses afveis, que s vezes soavam como 
calorosas batalhas ou comentrios insultuosos, mas costumavam terminar 
com risadas diante de um caneco de ch, ou barma, ou vinho, ou mesmo uma 
refeio. Jondalar tomava cuidado para que Ayla no se encontrasse 
presente quando pechinchava para a habitao, mas isso no significava que 
ela no tivesse observado aquele costume.
        Na primeira vez que ouviu pessoas pechinchando, no entendeu aquela 
ruidosa, pitoresca e caluniosa troca de palavras. Foi entre Proleva e Salova, 
a parceira de Rushemar, que fazia cestos. Ayla pensou que estavam furiosas 
de verdade, e correu para chamar Jondalar, esperando que ele pudesse 
fazer algo para parar com aquilo.
        - Voc disse que Proleva e Salova esto tendo um terrvel desacordo? 
O que elas estavam dizendo? - quis saber Jondalar.
        - Proleva disse que os cestos de Salova so feios e malfeitos, mas no 
 verdade. Os cestos dela so lindos, e Proleva tambm deve achar isso. J 
vi vrios na habitao dela. Por que est dizendo essas coisas para ela? - 
surpreendeu-se Ayla. - Voc no pode fazer alguma coisa, para elas pararem 
de brigar?
        Jondalar entendeu a legtima preocupao dela, mas estava tendo 
problemas para conter o riso. Finalmente, no conseguiu agentar mais e 
soltou uma ruidosa gargalhada. 
        - Ayla, Ayla. Elas no esto brigando, esto se divertindo. Proleva 
quer alguns cestos de Salova, e  assim que se faz. Elas chegaro a um 
acordo, e ambas ficaro contentes. Isso se chama pechinchar, e no posso 
me meter. Se eu fizesse isso, elas se sentiriam lesadas em sua diverso. Por 
que no volta l e fica observando as duas? Voc ver. Daqui a pouco, 
estaro sorrindo, cada qual achando que fez um bom negcio.
        - Tem certeza, Jondalar? Elas parecem to zangadas - insistiu Ayla. 
Ela mal podia acreditar que Proleva queria apenas alguns dos cestos de 
Salova, e que aquele era o modo de se fazer uma troca. Voltou e encontrou 
um local por perto para observar e ouvir. Se era assim que se faziam as 
coisas entre o povo de Jondalar, ela tambm queria ser capaz de pechinchar.
        Aps alguns momentos, notou que outras pessoas observavam o 
confronto, sorrindo e gesticulando umas para as outras com a cabea. Logo 
percebeu que as duas mulheres no estavam zangadas de verdade, mas 
duvidou que fosse capaz de dizer que uma coisa era horrvel, se achasse 
realmente que era bonita. Sacudiu a cabea, espantada. Que modo estranho 
de se comportar! Concluda a pechincha, ela foi procurar Jondalar.
        - Por que as pessoas se divertem em dizer coisas terrveis, se no  
verdade? No sei se algum dia aprenderei a "pechinchar" dessa maneira.
        - Ayla, tanto Proleva quanto Salova sabiam que cada uma no queria 
dizer de verdade aquilo que estava dizendo. Estavam fazendo um jogo. Como 
as duas sabiam que se tratava de um jogo, no houve nenhum dano - explicou 
Jondalar.
        Ayla pensou sobre o caso. Havia mais coisas naquilo do que aparentava,
concluiu, s que ela no conseguia saber direito o que era.
        Na noite anterior  partida, depois de fazerem as trouxas, 
verificarem e consertarem as tendas, e aprontarem o equipamento de 
viagem, todos na habitao de Marthona estavam to animados que ningum 
queria ir dormir. Proleva passou com Jaradal para ver se precisavam de 
alguma ajuda. Marthona convidou-os para entrar e ficar um pouco, e Ayla se 
ofereceu para fazer um delicioso ch. Aps uma segunda batida na entrada, 
Folara fez entrar Joharran e a Zelandoni. Chegaram juntos vindo de 
direes diferentes, ambos com ofertas e perguntas, mas, na verdade, 
querendo fazer uma visita para conversar. Ayla acrescentou mais gua e 
ervas para o ch.
        - A tenda de viagem precisa de consertos? - perguntou Proleva.
        - No muitos - respondeu Marthona. - Ayla ajudou Folara a faz-los. 
Elas usaram o novo puxador de linha de Ayla.
        As barracas de viagem, que seriam armadas todas as noites, eram 
grandes o bastante para acomodar vrias pessoas, e a tenda dos familiares 
de Marthona seria dividida por todos eles: Marthona, Willamar e Folara; 
Joharran, Proleva e Jaradal; e Jondalar e Ayla. Ayla ficou contente em 
saber que a Zelandoni tambm viajaria com eles.
        Ela mais parecia um membro da famlia, como uma tia sem um parceiro. 
A tenda tambm teria um outro ocupante, o caador de quatro patas Lobo, e 
os dois cavalos ficariam nas proximidades.
        - Vocs tiveram algum problema para conseguir varas? - quis saber 
Joharran.
        - Quebrei um machado, derrubando uma delas - respondeu Willamar.
        - D para consertar? - indagou Joharran. Embora rvores altas e 
retas tives sem sido cortadas para servir de varas para a barraca, eles 
ainda precisariam de madeira para fogueiras, durante o caminho e depois de 
chegarem ao local da Reunio de Vero, apesar de machados de pedra 
rombudos ainda poderem ser usados.
        - Ele se espatifou. No deu para amolar, e nem mesmo consegui obter 
uma lmina dele - explicou Willamar.
        - Era feito de um pssimo pedao de slex - comentou Jondalar. - 
Cheio de pequenas incluses.
        Jondalar fez um machado novo e afiou os outros - contou Willamar. - 
 bom t-lo de volta.
        - S que, agora, precisamos novamente ter cuidado com fragmentos 
perdidos pelo cho - observou Marthona. 
        Ayla percebeu que ela sorria e entendeu que Marthona no estava 
reclamando de verdade. Tambm estava feliz por Jondalar estar em casa. - 
Ele limpou as lascas que deixou cair, ao afiar os machados. No  mais 
quando era menino. No vi um nico estilhao de pedra no cho. Mas  claro 
que no os enxergo mais.
        - O ch est pronto - anunciou Ayla. - Algum precisa de caneco?
        - Jaradal est sem. Voc devia sempre lembrar de carregar o seu 
caneco, Jaradal - lembrou Proleva ao seu jovem filho.
        - Eu no preciso trazer o meu caneco para c. A vov tem um para 
mim guardado aqui - avisou Jaradal.
        - Ele tem razo - confirmou Marthona. -Voc lembra onde est, 
Jaradal?
        - Lembro, Thona - disse ele, ao se levantar, e correu at uma 
prateleira baixa, retornando com um pequeno caneco moldado e escavado de 
um pedao de pau. - Aqui est ele. - Levantou-o bem alto, para mostrar a 
todos, motivando sorrisos satisfeitos por parte do grupo. Ayla notou que 
Lobo tinha sado de seu lugar perto da entrada e, sorrateiramente, se 
arrastava de barriga na direo do menino, cada movimento do corpo 
expressando a ansiedade de alcanar o objeto de seu desejo. O menino 
espreitou o animal, tomou o seu ch em poucas goladas, e em seguida 
anunciou, ao mesmo tempo em que observava Ayla, para ver qual seria a sua 
reao: - Agora, eu vou brincar com Lobo.
        Jaradal lembrava-lhe tanto Durc, que ela no pde evitar um sorriso. 
O menino seguiu na direo do animal, que emitiu um ganido, quando se 
levantou para ir ao seu encontro, e em seguida passou a lamber o rosto de 
Jaradal. Ayla podia afirmar que Lobo comeava a se sentir  vontade com a 
sua nova, se bem que enorme, alcatia, principalmente em relao s 
crianas da grande famlia e seus amigos. Quase chegou a sentir pena de 
Lobo, por terem que partir em breve. Ela sabia que seria difcil para ele 
enfrentar tanta gente nova que iriam conhecer. Seria difcil para ela 
tambm. Sua animao em relao  Reunio de Vero tinha um qu de 
apreenso.
        - Que ch delicioso, Ayla - afirmou a Zelandoni. - Voc o adoou com 
raiz de alcauz, no foi? 
        Ayla sorriu. - Foi.  calmante para o estmago. Esto todos to 
nervosos com a partida, que resolvi fazer algo calmante.
        - E tem timo sabor. - A Zelandoni parou, pensando no que ia falar. - 
J que estamos todos aqui, ocorreu-me que talvez voc devesse mostrar a 
Joharran e Proleva o seu mtodo de fazer fogo. Sei que pedi a todos para 
ainda no contarem aos outros, mas, como vamos viajar juntos, os dois vo 
ver de qualquer maneira.
        O irmo de Jondalar e sua parceira encararam os demais com um 
olhar interrogativo, e depois um ao outro.
        Folara sorriu.
        - Devo apagar o fogo?
        - Sim, faa isso - ordenou a donier. - Na primeira vez,  mais 
impressionante ver desse modo.
        - No estou entendendo. Que histria  essa de fogo? - questionou 
Joharran.
        - Ayla descobriu uma nova maneira de fazer fogo - explicou Jondalar 
-, mas  mais fcil mostrar do que falar.
        - Por que no mostra a eles, Jondalar? - sugeriu Ayla.
        Jondalar pediu ao irmo e Proleva que fossem at o braseiro da rea 
de cozinhar, e, aps Folara abafar o fogo, e os demais apagarem as 
lamparinas que se encontravam perto deles, Jondalar usou a pedra-de-fogo 
e o slex, e logo deu incio a uma pequena fogueira.
        - Como fez isso? - surpreendeu-se o lder. - Nunca vi nada parecido.
        Jondalar levantou a pedra-de-fogo. - Ayla descobriu a mgica nestas 
pedras - indicou. - Eu pretendia lhes mostrar antes, mas andou acontecendo 
muita coisa, e no tive oportunidade. Ns mostramos h pouco  Zelandoni e, 
no faz muito tempo, a Marthona, Willamar e Folara.
        - Est dizendo que qualquer um consegue fazer isso? - duvidou 
Proleva.
        - Sim, com prtica, qualquer um consegue - afirmou Marthona.
        - Isso mesmo, vou lhes mostrar como as pedras funcionam - disse 
Jondalar. Executou todo o processo, e Joharran e Proleva ficaram pasmados.
        - Uma das pedras  slex, e a outra, o que ? E de onde ela vem? - quis 
saber Proleva.
        - Ayla a chama de pedra-de-fogo - respondeu Jondalar, e explicou 
como ela descobriu, por acaso, as suas propriedades. - Ns procuramos, mas 
no encontramos nenhuma em nosso caminho de volta. Estava comeando a 
pensar que elas s existiam no leste, mas Ayla achou algumas no muito 
longe daqui. Se h alguma por perto, deve haver mais. Continuaremos 
procurando. Temos o suficiente para todos ns, mas elas podem ser 
presentes importantes, e Willamar acredita que seriam boas para permutas.
        - Jondalar, acho que precisamos ter uma longa conversa. Imagino o 
que ainda no me contou. Voc partiu numa Jornada, e voltou com cavalos 
que o carregam nas costas, um lobo que deixa crianas puxarem o seu plo, 
uma nova e poderosa arma de arremesso, pedras mgicas que produzem fogo 
instantneo, histrias sobre cabeas-chatas inteligentes, e uma bela mulher 
que conhece a linguagem deles e aprendeu a curar com eles. Tem certeza de 
que no h mais nada que esqueceu de me contar? - reclamou Joharran.
        - No que eu me lembre no momento - retrucou. - Juntando tudo, 
desse modo, creio que soa um tanto inacreditvel.
        - "Um tanto inacreditvel"? Escutem o que ele est dizendo! - 
exclamou Joharran. - Jondalar, tenho a impresso de que a sua Jornada "um 
tanto inacreditvel" ser comentada por muitos anos.
        - Ele tem histrias interessantes para contar - admitiu Willamar.
        - A culpa  toda sua, Willamar - acusou Jondalar com um sorriso, e de 
pois olhou para o irmo. - Joharran, voc no se lembra de ficar acordado 
at tarde, ouvindo-o contar histrias sobre as suas viagens e aventuras? Eu 
sempre o achei muito melhor do que muitos viajantes Contadores de 
Histrias. Mame, j mostrou a Joharran o presente que eu lhe trouxe?
        - No, Joharran e Proleva ainda no o viram - disse Marthona. - Vou 
peg-lo. - Foi ao seu aposento de dormir e retornou com um pedao plano de 
galhada espalmada e o entregou a Joharran. Nele havia entalhados dois 
animais aerodinmicos aparentemente nadando. Eram como peixes, mas no 
eram peixes. - O que disse mesmo que eram, Willamar?
        - So chamados de focas - explicou ele. - Vivem na gua, mas respiram 
ar, e vo  praia para dar  luz.
        - Isso  espantoso - exclamou Proleva.
        - , no  mesmo? - concordou Marthona.
        - Ns vimos animais como esses em nossa Jornada. Eles vivem num 
mar interior para as bandas do leste - informou Jondalar.
        - Algumas pessoas acreditam que so espritos da gua - acrescentou 
Ayla.
        - Eu vi outra criatura, que vive tias Grandes guas do Oeste, que o 
povo de l acredita ser um esprito especial ajudante da Me - contou 
Willamar. - Parecem ainda mais com peixes do que as focas. Do  luz no mar, 
mas dizem que respiram ar e amamentam os filhos. Conseguem ficar de p 
em cima da gua, apoiados na cauda... eu vi um fazer isso... e dizem que falam 
uma linguagem prpria. As pessoas que vivem por l os chamam de golfinhos, 
e algumas afirmam que so capazes de falar a lngua deles. Para me mostrar 
como era, emitiram uns guinchos.
        Contam muitas histrias e lendas sobre eles - continuou Willamar. - 
Dizem que ajudam os pescadores, empurrando os peixes para as redes, e j 
salvaram pessoas, cujas embarcaes viraram longe da margem, e teriam se 
afogado se no fossem eles. As Lendas dos Antigos deles dizem que, 
antigamente, todas as pessoas viviam no mar. Algumas seguiram para a terra, 
e as que ficaram para trs se tornaram golfinhos. Tem gente que os chama 
de primos, e a Zelandoni deles veneram o golfinho tanto quanto a Me. Cada 
familia tem uma doni, mas todo  mundo tambm tem algum objeto com um 
golfinho, entalhado como este, ou uma parte do animal, um osso ou um dente. 
Dizem que traz muita sorte.
        - E voc disse que era eu quem tinha histrias interessantes para 
contar, Willamar - comentou Jondalar. - Peixe que respira ar e fica de p na 
gua sobre a cauda. Estou quase querendo ir com voc.
        - Talvez possa ir ano que vem, quando eu for fazer trocas por sal. No 
 um longa Jornada, principalmente se comparada com a que voc fez - 
destacou Willamar.
        - Pensei que voc tivesse dito que no queria viajar novamente, 
Jondalar - observou Marthona -, e a est voc, h apenas pouco tempo em 
casa e j planejando outra viagem. Ser que criou uma necessidade de 
viajar? Como Willamar?
        - Ora, misses de comrcio no so exatamente Jornadas - alegou 
Jondalar - e, no momento, no estou pronto para fazer uma viagem, a no 
ser para a Reunio de Vero, mas daqui a um ano  muito tempo.
        Folara e Jaradal, aninhados com Lobo no leito da moa, tentavam se 
manter acordados. No queriam perder nada, mas, com o lobo entre os dois, 
e ouvindo as histrias e o suave burburinho das conversas, acabaram 
adormecendo.
        O dia seguinte amanheceu cinzento e chuviscando, mas a chuva de 
vero no desalentou o entusiasmo da Caverna para a iminente caminhada. A 
despeito de terem ficado acordados at tarde na noite anterior, os 
membros da famlia de Marthona j cedo estavam de p. Fizeram uma 
refeio matinal com os alimentos que haviam preparado na noite anterior e 
depois terminaram de acondicionar as coisas. A chuva diminuiu, e o sol 
tentou consumir as nuvens, mas a umidade da noite acumulada em folhas e 
poas tornava o ar brumoso, frio e aquoso.
        Depois que todos os que iam viajar se reuniram no terrao frontal, 
iniciou-se a partida. Com Joharran  frente do caminho, rumaram para o 
norte, descendo da varanda para o Vale do Rio do Bosque. Era um grupo 
enorme, muito maior, observou Ayla, do que o do Acampamento do Leo, 
quando foram para a Reunio de Vero dos Mamuti. 
        Ainda havia muita gente que Ayla no conhecia muito bem, mas agora 
pelo menos ela sabia o nome de quase todo mundo.
        Ela estava curiosa com o caminho que Joharran seguiria. Por causa do 
passeio que eles tinham feito a cavalo, Ayla sabia que, no incio, o vale de 
plancie aluvial na margem direita do Rio - o lado da Nona Caverna - era largo. 
Se seguissem correnteza acima, ao longo do Rio, em sua sinuosa mas 
generosa direo nordes te, as rvores ficariam perto da gua e uma ampla 
extenso de campina ervosa 
nhosa num aclive gradual. Contudo, aps uma curta distncia, a gua 
abraava rochedos ngremes do outro lado,  margem esquerda, que ficava 
do lado da mo direita quando se viajava em direo  nascente. "Margem 
esquerda" e "margem direita" eram termos que sempre se referiam aos 
lados de cursos de gua, quando se seguia rio abaixo, na direo da 
correnteza. Eles estavam viajando rio acima.
        Jondalar dissera-lhe que a comunidade mais prxima dos Zelandonii 
ficava a poucos quilmetros de distncia, mas precisariam de uma balsa para 
completar a viagem, se permanecessem perto do Rio, pois o curso d'gua 
mudava. Mais alm, correnteza acima, ele fazia uma curva em direo mais 
ao norte, e a posio da terra forava a gua contra a parede do rochedo  
margem direita, o lado deles, sem nenhum espao at mesmo para uma trilha 
estreita, aps virar para o norte, e, finalmente, outra vez para leste, antes 
de ser alcanado o abrigo de pedra se guinte. A gente da Nona Caverna 
normalmente pegava uma rota por terra para visitar os vizinhos mais 
prximos do norte.
        O lder virou para o caminho perto do afluente Rio do Bosque at a 
travessia rasa, e depois cortou diretamente atravs do Vale do Rio do 
Bosque. Ayla notou que no seguiam a rota que ela e Jondalar haviam tomado 
com os cavalos pouco depois de terem chegado. Em vez de seguir atravs do 
estreito vale com o ngreme leito seco do riacho, Joharran pegou uma trilha 
paralela ao Rio, que levava s planas terras baixas da margem direita. 
Viraram  esquerda atravs de capim e arbustos, e iniciaram a subida 
gradual da ladeira, depois foram ziguezagueando pela face montanhosa 
acima.
        Com o canto do olho, Ayla vigiava Lobo, enquanto ele corria  frente, 
seguindo o seu faro. Ela reconheceu a maioria das plantas que viu e 
registrou na mente seu uso e onde cresciam. H um renque de btula, perto 
do Rio, lembrou, cuja casca pode evitar aborto, e ali um tipo de junco que 
pode provocar um. E sempre  bom saber onde cresce um salgueiro; uma 
fervura com a casca  boa para dor de cabea, dores nos ossos dos ancios 
e outros padecimentos. No sei se h manjerona por aqui. Ela d um 
excelente ch, acrescenta um timo sabor  carne, tambm  boa para dor 
de cabea, e ajuda nas clicas de um beb. Terei que me lembrar disso 
depois. Durc no sofreu muito de clicas, mas alguns bebs tm muitas.
        A trilha foi ficando mais ngreme  medida que se aproximavam da 
brusca inclinao perto do cume, e depois se abriu para o campo em plano 
elevado. Quando chegaram ao planalto ventoso, ela caminhou um pouco mais 
adiante, at a beira, e ento parou para descansar e esperar por Jondalar, 
que estava tendo um pouco de problema para levar Racer e seu arrastador 
de carga pela trilha. Enquanto esperavam ajustou o alforge que Huiin 
transportava nas costas, em cestos de vime, e depois fez uma festinha e 
conversou com ela na linguagem especial dos cavalos. Olhou para baixo, em 
direo ao Rio e sua plancie aluvial, e a longa fila de pessoas, jovens e 
velhos, pelejando trilha acima, e em seguida para mais alm.
        O elevado planalto oferecia um amplo panorama da regio campestre 
em volta, e uma ilusria cena enevoada abaixo. Fragmentos de neblina ainda 
se emaranha vam nas 
rvores prximas  gua, e um macio manto branco ocultava O Rio em alguns 
lugares, mas o vu estava sendo erguido, revelando raios de luz do cu 
brilhante que cintilavam na corrente ondulante. Mais  distncia, a neblina 
tornava- se mais densa, e as colinas de calcrio sumiam em meio ao cu cinza 
esbranquiado.
        Quando Jondalar chegou com Racer, seguiram juntos pelo plat. Ayla 
sentia-se eufrica, ao caminhar ao lado do homem alto com quem viajara por 
tanto tempo, com o lobo em seus calcanhares e os cavalos mais atrs, 
puxando os arrastadores de carga. Ela estava com aqueles a quem mais 
amava, e mal podia acreditar que o homem a seu lado logo se tornaria o seu 
parceiro. Lembrava muito bem de seus sentimentos, durante caminhada 
semelhante que fizeram com o Acampamento do Leo. Na ocasio, ela sentiu 
que cada passo que dava a levava para mais perto de um destino que no 
desejava. Fora prometida como parceira a um homem de quem gostava de 
verdade, e talvez fosse feliz com ele, se no tivesse conhecido e amado 
primeiro Jondalar. Jondalar, porm, tornara-se distante, no parecia mais 
am-la, e no havia dvida de que Ranec no s a amava como a desejava 
desesperadamente.
        Ayla j no tinha esses sentimentos adversos. Estava to repleta de 
felicidade, que a sentia transbordar e espalhar-se pelo ar  sua volta, 
penetrando no solo sobre o qual caminhava. Jondalar tambm se lembrava da 
viagem para a Reunio de Vero dos Mamuti. O problema tinha sido o cime 
e o medo de enfrentar o seu povo com uma mulher que talvez no fosse 
aceitvel. Ele resolvera os seus problemas e no estava menos repleto de 
alegria do que ela. Na ocasio, tivera a certeza de ter perdido Ayla para 
sempre, mas ali estava ela, a seu lado, e todas as vezes que a olhava, ela o 
fitava de volta com os olhos cheios de amor.
        Seguiram a trilha atravs da plana regio montanhosa, que os levou a 
um outro ponto de vista a partir da beira do rochedo, onde haviam parado 
quando estive ram sozinhos. Antes de atravessarem o pequeno regato, 
fizeram uma pausa para observar a tnue queda-d'gua que descia pela 
borda e caa no Rio diretamente abaixo. As pessoas da Caverna haviam se 
espalhado pelo campo elevado, algumas fazendo o seu prprio caminho. Os 
caminhantes levavam consigo apenas o que pegar um segundo carregamento, 
normalmente composto de objetos que deseja vam trocar.
        Ayla e Jondalar haviam conversado com joharran e oferecido o 
servio de transporte dos dois cavalos. O lder falou com vrias pessoas, 
mas resolveu carregar os cavalos com a carne das recentes caadas aos 
cervos e bises. Quando ele planejou a caada, esperava que vrias pessoas 
teriam de fazer uma viagem a mais de volta  Nona Caverna, a fim de 
levarem toda a carne para o local da Reunio de Vero. A utilizao dos 
cavalos poupou-lhes o problema, e pela primeira vez Joharran deu-se conta 
de que cavalos treinados podiam ser algo mais que uma simples novidade. 
Podiam ser teis. Mesmo a ajuda que eles deram durante a caada, e a 
rpida viagem que Jondalar fez at a Nona Caverna para avisar  Zelandoni 
e  parceira de Shevonar sobre o tragico acidente, no lhe tinham dado a 
compreenso total do benefcio em potencial dos cavalos, S entendeu 
direito depois que ele e vrios outros pouparam uma caminhada de volta at 
a Nona Caverna, mas, com os cavalos viajando to perto, Joharran tambem 
se deu conta de que animais exigem um esforo extra.
        Huiin estava acostumada com o arrastador de carga, pois havia 
puxado um durante a maior parte da Jornada. Racer estava menos 
acostumado a puxar uma carga e era menos manejvel. Joharran viu o 
trabalho que o irmo tinha com o cavalo, especialmente para fazer uma 
curva na trilha, onde as travessas do rebo que restringiam os seus 
movimentos. Era necessrio pacincia para manter calmo o jovem garanho e 
lev-lo a contornar obstculos, mantendo ao mesmo tempo a carga intacta. 
        Na Nona Caverna, Ayla e Jondalar tinham sado  frente do grupo, 
mas, depois que atravessaram o riacho e rumaram novamente para noroeste, 
eles j estavam pelo meio. Chegaram ao lugar de onde Ayla e Jondalar 
tinham retornado antes, onde o caminho comeava a descer. Dessa vez, 
foram em frente, enquanto ele se torcia e fazia uma curva ao longo do 
declive mais suave, enroscando-se entre arbustos, capinzal a cu aberto e 
rvores de uma depresso abrigada. Alcanaram um abrigo de pedra, que 
ficava to prximo da gua que parte do ressalto se estendia so bre ela. 
        Eles tinham percorrido, na realidade, pouco mais de dois quilmetros 
distncia, embora as subidas ngremes fizessem a viagem parecer mais longa.
O abrigo tinha uma varanda frontal, que ficava to perto da beira do io que 
era possvel mergulhar dali. Era chamado de Dianteira do Rio e dava frente 
para o sul. Estendia-se o caminho todo, do oeste para leste, at um meandro 
do Rio em direo ao sul, que girava de volta sobre si mesmo e to perto, 
que poderia voltar a se juntar no gargalo do arco que formava, se no fosse 
pelo dedo de mofl ali, se bem que viajantes, principalmente os que usavam 
balsa, de quando em quando l fizessem uma parada. A gua ficava perto 
demais, e s vezes inundava o abrigo quando O Rio enchia.
        A Nona Caverna no parou na Dianteira do Rio, mas continuou subindo 
o rochedo por trs do abrigo. A trilha prosseguia para o norte, depois fazia 
uma curva em direo a leste. Pouco mais de meio quilmetro aps deixar a 
Dianteira do Rio, a trilha seguia para baixo, num declive bastante ngreme, 
at um vale com um pequeno riacho, que costumava secar durante o vero. 
Aps atravessar o leito lamacento, Joharran parou e todos descansaram um 
pouco, enquanto ele espera va por Ayla e Jondalar. 
        Vrias pessoas fizeram pequenas fogueiras a fim de ferver gua para 
um ch quente. Algumas pegaram a comida de viagem, principalmente quem 
tinha crianas, e fizeram uma boquinha.
        - Precisamos fazer uma opo aqui, Jondalar - anunciou Joharran. - 
Que caminho voc acha que devemos tomar?
        Porque O Rio serpeava pelo seu vale, comprimindo as paredes dos 
rochedos, primeiro de um lado, e depois do outro, s vezes era mais fcil 
viajar entre as Cavernas atravs da regio montanhosa. Para atingir o local 
seguinte, entretanto, havia uma outra possibilidade.
        - Daqui, h dois caminhos que podemos fazer - explicou Jondalar. - Se 
seguirmos esta trilha atravs dos cumes dos rochedos, teremos que subir 
esta ladeira, atravessar as terras altas por cerca da metade da distncia 
que j percorremos, e depois descer novamente at chegarmos a um outro 
pequeno riacho. Ele costuma ter gua, mas  raso e fcil de atravessar. 
Depois, teremos outra subida ngreme, que percorre a frente do rochedo 
que se eleva acima do Rio, e descer novamente. Ali, O Rio corre pelo meio de 
uma larga campina, a plancie aluvial. Poderemos parar l e visitar a Vigsima 
Nona Caverna, e talvez pernoitar.
        - Mas h outro caminho a seguir - retrucou Joharran. A Vigsima 
Nona Caverna  chamada de Trs Pedras porque tem trs abrigos, no 
juntos uns dos outros, mas espacejados em volta do Rio e da larga plancie 
aluvial. Dois deles ficam deste lado, e o terceiro do outro lado do Rio. - 
Joharran apontou para a ladeira adiante. - Em vez de escalar isso, podemos 
virar para leste do Rio. Adiante, ele vira Para o norte, e teremos que 
atravessar para o outro lado, pois, deste lado, a gua segue bem perto dos 
rochedos, mas h um comprido trecho raso fcil de se atra vessar. E a 
Vigsima Nona Caverna mantm passadeiras por l, como fazemos na 
Travessia. Seguimos um pouco pelo outro lado, depois O Rio vira novamente 
Para leste e comprime os rochedos do outro lado, e temos que atravess-lo 
de volta, mas a ele se espalha, volta a ficar raso e tambm h passadeiras. 
Podemos parar nos dois abrigos deste lado, para fazer uma visita, mas 
temos que atravessar novamente, para alcanar o terceiro e maior de todos, 
porque talvez seja l que iremos ficar, principalmente se chover.
        - Se formos por aquele caminho, teremos que escalar; se formos por 
este, teremos que atravessar gua corrente - terminou por ele Jondalar. - 
Qual voc acha seria o melhor caminho, com os cavalos e os arrastadores de 
carga?
        -  fcil atravessar os rios com os cavalos, mas, se forem muito 
fundos, a carne nos reboques poder se molhar, o que significa que vai se 
estragar, se no secar novamente - lembrou Ayla. - Em nossa Jornada, 
tivemos que amarrar as travessas ao barco-vasilha, e o arrastador flutuava 
quando precisvamos atravessar rios. Mas voc no disse que, de qualquer 
modo, precisaremos atravessar O Rio pelo menos uma vez?
        Jondalar foi para trs do arrastador de Racer.
        - Joharran, estive pensando uma coisa. Se conseguirmos duas pessoas 
para caminhar atrs dos cavalos, e levantarem as travessas o suficiente 
para mant-las acima da gua, creio que poderemos fazer a travessia sem 
molhar nada.
        - Estou certo de que conseguiremos gente para fazer isso. De 
qualquer modo, sempre h alguns jovens que gostam de chapinhar na gua, 
toda vez que fazemos uma travessia. 
        Vou perguntar ao pessoal - disse Joharran. - Acredito que a maioria 
prefere no ter que escalar mais do que j escalamos, por causa da carga 
que todos esto transportando.
        Depois que Joharran se foi, Jondalar resolveu conferir o cabresto de 
Racer. Alisou o cavalo e deu-lhe alguns gros que tinha em uma bolsa. Ayla 
sorriu-lhe; ela estava prestando ateno em Lobo, que veio ver por que 
haviam parado. Sen tiu o vnculo especial que formara com Jondalar em sua 
Jornada. Ocorreu-lhe, ento, que os dois tinham um ao outro. Eles eram os 
nicos seres que entendiam a ligao que podia se desenvolver entre uma 
pessoa e um animal.
        - H outro jeito de se seguir rio acima... bem, mais dois - exps 
Jondalar, enquanto esperavam. - Um deles  numa balsa impulsionada por 
vara, mas no creio que funcione muito bem com os cavalos. O outro  seguir 
junto ao cume dos rochedos do outro lado do Rio. Teremos que pegar a 
Travessia, e  realmente mais fcil seguir todo o caminho at a Terceira 
Caverna e comear de l. Eles tm um bom caminho at o alto da Pedra dos 
Dois Rios, que continua como uma trilha atravs da regio montanhosa.  
mais plana do que este lado, com apenas algumas pequenas depresses. No 
h tantos afluentes naquele lado do Rio, mas, se planejarmos parar na 
Vigsima Nona Caverna, teremos que descer e voltar a atravessar o Rio.  
por isso que Joharran decidiu permanecer deste lado.
        Enquanto descansavam, Ayla perguntou sobre as pessoas que iam 
visitar. Jondalar descreveu a incomum organizao do povo da Vigsima 
Nona Caverna dos Zelandonii. 
        Trs Pedras consistia de trs povoamentos, separados, de abrigos de 
pedra em trs rochedos diversos, que formavam um tringulo em volta da 
plancie aluvial do rio sinuoso, todos dentro de uma rea de dois quilmetros 
e meio um do outro.
        - As Histrias contam que eram Cavernas separadas, numeradas com 
pala vras antigas de numerao, e eram mais de trs - explicou Jondalar -, 
mas todos tinham que 
compartilhar os mesmos campo e rios, e sempre estavam disputando direitos, 
discutindo sobre qual Caverna podia usar o qu e quando. Acho que a coisa 
ficou feia, e alguns homens comearam a brigar. Ento, os Zelandonii da 
Face Sul tiveram a idia de se juntar numa s Caverna, trabalhar junto e 
dividir tudo. Se uma manada de auroques migrasse por l, no eram 
caadores de todas as Cavernas diferentes que iam atrs deles 
separadamente, mas formavam um grupo de caa, com todas as Cavernas 
trabalhando em conjunto.
        Ayla pensou por um momento.
        - Mas a Nona Caverna trabalha em conjunto com as Cavernas vizinhas. 
Na ltima caada, os caadores da Dcima Primeira, da Dcima Quarta, da 
Terceira, da Segunda e algumas pessoas da Stima caaram juntos, e todos 
dividiram a comida.
        -  verdade, mas todas as nossas Cavernas no precisam compartilhar 
tudo - informou Jondalar. - A Nona Caverna tem o Vale do Rio do Bosque, e 
os animais, s vezes, seguem ao longo do Rio bem diante da varanda; a 
Dcima Quarta tem o Pequeno Vale; a Dcima Primeira  capaz de seguir de 
balsa at uma grande campina logo depois de atravessado O Rio; a Terceira 
tem o Vale da Relva; e a Segunda e a Stima dividem o Vale Suave.., quando 
voltarmos, iremos l visit los. Todos ns podemos trabalhar juntos quando 
queremos, mas no precisamos fazer isso. Todas as Cavernas que se 
juntaram para formar a Vigsima Nona tiveram que compartilhar a mesma 
rea de caa. Agora a chamam de Vale das Trs Pedras, mas  parte do Vale 
do Rio e do Vale do Norte d Rio.
        Ele explicou que O Rio fazia uma curva para leste, cortava ao meio a 
vasta e arborizada plancie aluvial. Juntava-se ao norte a um caudaloso 
afluente e seu vale. 
        dos povoados ficavam na margem direita do Rio, o situado a oeste e 
que podia ser alcanado por terra pela Frente do Rio, e o outro ao norte. Um 
terceiro imponente rochedo, com vrios pavimentos de abrigos de pedra 
ficava ao sul, atravessandose O Rio, na margem esquerda. Era um dos poucos 
abrigos de pedra habitados que davam frente para o norte.
        O povoamento ocidental, ou Poro Oeste da Vigsima Nona Caverna 
dos Zelandonii, consistia de vrios pequenos abrigos de pedra na face de 
uma colina. Jondalar contou que tambm mantinham um acampamento mais 
ou menos permanente com telhados de meia-gua, braseiros e armaes 
para secagem, e, no vero, tendas e outros abrigos temporrios perto da 
Poro oeste. Ficava na clareira de um vale abrigado de pinheiro-mansos 
cujas pinhas cnicas eram uma fonte de um leo vegetal to magnfico que 
podia queimar em lamparinas, mas, por serem muito deliciosas, raramente 
eram usadas com esse objetivo.
        Gente de toda a comunidade de Trs Pedras, e outros que eram 
convidados para ajudar em troca de uma parte, se reuniam para a coleta das 
pinhas. Esse era o motivo principal do acampamento ao ar livre, mas tambm 
se tratava de um timo lugar para a pesca, por se prestar a armadilhas e 
tapagens. Era igualmente utilizado com bastante freqncia pela 
comunidade ao longo da poca mais quente do ano, e geralmente s se 
fechava quando o congelamento imobilizava O Rio no inverno Embora as 
pessoas vivessem nos varios abrigos de pedra da Poro Oeste durante o 
ano todo, e a coleta de amndoas, o motivo principal pelo qual o 
acampamento fora criado, ocorresse no outono, as primeiras tendas eram 
montadas ao se iniciar a estao quente, a fim de trabalharem nas 
armadilhas para peixes, e todos sempre falavam em ir para o "acampamento 
de vero". Assim, o povoamento ocidental ficou conhecido como 
Acampamento de Vero.
        - A Zelandoni deles  uma excelente artista - comentou Jondalar. - 
um dos abrigos, ela entalhou animais nas paredes; talvez a gente tenha 
tempo visit-la. Ela tambm faz pequenos entalhes para se carregar. De 
qualquer modo ns voltaremos aqui para a coleta das amndoas.
        Joharran retornou com trs rapazes e uma moa, dos que se 
ofereceram pai ir atrs dos arrastadores de carga e levantar as travessas 
acima da gua, durante travessia dos rios. Todos pareciam bastante 
contentes por terem sido escolhidO para realizar a tarefa. Joharran no 
tivera problemas em conseguir gente dispost a dificuldade foi fazer a 
seleo. Muita gente queria ficar mais perto dos cavalos do lobo, e conhecer 
melhor a estrangeira. Isso lhes daria algo mais interessante para conversar
durante a Reunio de Vero.
        Em terreno mais plano, exceto durante as travessias aquticas, 
Jondalar e Ayla conseguiam caminhar lado a lado, conduzindo os cavalos. 
Lobo, como sempre no os seguia Lobo to de perto. Quando viajava, ele 
gostava de fazer exploraes, correndo adiante ou ficando para trs, 
acompanhando a sua curiosidade e o detectado pelo seu sensvel focinho. 
Jondalar aproveitava a oportunidade para contar mais a Ayla sobre o 
territrio e o povo com o qual se hospedariam.
        Ele falou sobre o grande afluente que descia do norte, chamado de 
Rio Norte, e se juntava ao Rio na margem direita. O lado setentrional da 
praia aluvial era ampliado pelo vale do Rio do Norte, assim como pelo vale do 
prprio que continuamente se expandia correnteza acima. Salientando-se 
entre os vales do tributrio e do principal, ficava o mais antigo local de 
habitao da comunidade, o povoamento setentrional, formalmente a Poro 
Norte da Vigsima Nona Caverna dos Zelandonii, mas chamada de Face Sul. 
Jondalar contou-lhe que para atingi-la, a partir do Acampamento de Vero, 
eles usavam uma trilha que levava s passadeiras atravs do afluente, mas 
agora estavam se aproximando dela ao longo do Rio.
      Adiante, em uma colina que dava vista para a paisagem a cu aberto, 
ficava um rochedo de formato triangular contendo trs terraos voltados 
para o sul, dispostos como degraus, um sobre o outro. Embora ficasse 
dentro da rea de dois quilmetros e meio de todas as reas habitadas da 
comunidade de Trs Pedras, vrios locais suplementares se encontravam 
mais prximos e atualmente eram considerados parte da Poro Norte da 
Vigsima Nona Caverna.
      Ele explicou que uma trilha bastante utilizada percorria facilmente a 
encosta acima em dois trechos em ziguezague at o nvel do meio, que era o 
local principal de habitao da Face Sul. O pequeno abrigo acima, que 
fornecia uma maior viso do imenso vale, era usado como mirante e 
geralmente se referiam a ele como Mirante da Face Sul, ou simplesmente 
Mirante. O nvel mais baixo era semi-subterr neo e mais usado para 
armazenagem do que para moradia. Entre outros alimentos e suprimentos, 
era ali que se guardavam as nozes coletadas no Acampamento de Vero. 
Alguns dos outros abrigos, que faziam parte do povoamento do complexo da 
Face Sul, tinham os seus prprios nomes para descrev-los, tais como Pedra 
Comprida, Margem Funda e Boa Fonte, referindo-se  fonte natural que 
brotava nas proximidades.
      - At mesmo a rea de armazenagem tem um nome - explicou ele. - 
Chama-se Pedra Vazia. Os mais velhos narram a histria que lhes foi 
contada quando eram jovens. Faz parte das Histrias. Fala sobre um inverno 
muito rigo roso e uma primavera fria e mida, quando ficaram sem a comida 
armazenada e a rea rochosa mais baixa virou Pedra Vazia. Ento um ltimo 
resto de inverno Uivou com uma forte tempestade de neve. Todos ficaram 
famintos por um tem po. A nica coisa que os salvou da inanio foi uma 
grande quantidade de pinhas escondidas, que haviam sido estocadas por 
esquilos no abrigo de pedra inferior, e encontradas por acaso por uma 
menina.  espantoso o quanto esses pequeninos caadores de amndoas 
conseguem armazenar.
      "Mas, mesmo depois que o tempo melhorou o suficiente para se caar, 
os veados e cavalos que conseguiram matar tambm tinham passado fome - 
continuou Jondalar. - A carne era magra e dura, e levou algum tempo para 
nascerem as primeiras  verduras  e razes da primavera. No outono seguinte, 
a comunidade juntou uma quantidade muito maior de amndoas dos pinheiros,
para se precaver contra futuros invernos rigorosos e primaveras famintas
e deram incio  tradio de colet-las.
      Os jovens, que os ajudaram a manter a comida seca durante as 
travessias dos rios, se aglomeraram ali perto para ouvirem Jondalar falar 
sobre os vizinhos mais prximos do norte. Eles tambm no sabiam muita 
coisa a seu respeito, e escutaram com interesse.
      Cerca de dois quilmetros e meio de distncia e do outro lado do Rio, 
eles puderam ver a Poro Sul da Vigsima Nona Caverna dos Zelandonii, o 
maior e mais incomum rochedo da regio. Apesar de lugares que davam para 
o norte serem raramente utilizados como locais de moradia, esse, do lado 
sul do Rio, era convidativo demais para ser ignorado. A face do rochedo, 
com cerca de oitocentos metros de largura, elevava-se verticalmente por 
oitenta metros e cinco nveis acima do Rio e continha perto de uma centena 
de cavernas e cavidades, alm de abrigos de pedra salientes e terraos.
      Paisagens formidveis do vale podiam ser vistas de todos os terraos, 
e, portanto, no era necessrio um abrigo ou caverna especficos para serem 
usados como mirante. Mas o rochedo fornecia uma vista diferente e nica. 
Em uma parte de um terrao inferior, que se projetava sobre um tranqilo 
remanso de um riacho corrente, era possvel olhar para baixo e ver o 
prprio reflexo na gua parada.
      - Ela no recebeu o nome por causa de seu tamanho, como se poderia 
pensar - comentou Jondalar -, mas por causa do incomum de sua vista. 
Chama-se Pedra do Reflexo.
      O rochedo era to imenso, que a maioria dos locais de habitao nem 
mesmo era habitada - se fosse, ele ficaria to apinhado como uma toca de 
marmotas. Os recursos naturais da rea em torno no sustentariam tanta 
gente. Eles teriam de liquidar manadas e desnudar de vegetao toda a 
paisagem. O imenso rochedo, contudo, era um lugar excepcional, e os que 
viviam ali sabiam que a simples viso de seu lar deixava boquiabertos de 
admirao os estranhos e aqueles que os visitavam pela primeira vez. Podia, 
inclusive, deslumbrar aqueles que j o conheciam, percebeu Jondalar, ao 
olhar para a extraordinria formao natural. A Nona Caverna, com a sua 
magnfica pedra suspensa abrigando uma rea espaosa e confortvel, era 
certamente notvel e, em muitos aspectos, oferecia mais habitabilidade s o 
fato de ficar voltada para o sul era uma extraordinria vantagem -, mas ele 
tinha de admitir que o extenso e imponente rochedo adiante era 
impressionante.
      As outras pessoas tambm se encontravam, elas mesmas, um 
pouquinho admiradas diante da viso que se aproximava. O gesto de boas-
vindas da mulher que estava um pouco mais  frente dos outros era mais 
hesitante do que o habitual. Ela mantinha a mo levantada, encarando a 
palma, mas o seu gesto de aceno no era to vigoroso. Ouvira falar da volta 
do filho errante de Marthona e da estrangeira que ele trouxera. E at 
mesmo soubera que tinham trazido cavalos e um lobo, mas ouvir dizer no 
era o mesmo que ver, e avistar dois cavalos caminhando calmamente entre o 
povo da Nona Caverna, atris de um lobo - um lobo enorme -, uma 
desconhecida mulher alta e loura e o homem que ela conhecia como Jondalar 
era, no mnimo, amedrontador.
      Joharran virou o rosto, para ocultar um sorriso que no conseguiu 
evitar ao ver a expresso da mulher, embora entendesse perfeitamente 
como ela se sentia. No fazia muito tempo que ele sentira o mesmo arrepio 
de temor, diante da mes ma fantstica viso. Ao se lembrar, ficou 
impressionado com a rapidez com que se acostumara quilo. To 
rapidamente que no chegou a antecipar a reao de seus vizinhos, e 
concluiu que deveria ter feito isso. Ficou contente por terem parado ali. 
Isso lhe deu a indicao do efeito que certamente causariam nas pessoas, 
quando chegassem  Reunio de Vero.
      - Se Joharran no tivesse resolvido armar a tenda no campo, eu 
ficaria de qualquer modo do lado de fora - afirmou Ayla. - Quero ficar perto 
de Huiin e Racer, enquanto viajamos, e no pretendo lev-los para o alto 
desse rochedo. Eles no gostariam.
      - Tambm acho que Denanna no gostaria - frisou Jondalar. - Ela 
pareceu extremamente nervosa diante dos animais.
      Eles estavam atravessando o vale, correnteza acima do afluente 
chamado Rio do Norte, dando aos animais, e a si mesmos, um descanso da 
proximidade que tiveram com tanta gente. Haviam passado pela formalidade 
de apresentao a todos os lderes, e Ayla ainda tentava lembrar quem era 
quem. Denanna, que chefiava a Pedra do Reflexo, a Poro Sul, era a lder 
reconhecida da Vigsima Nona Caverna, mas o Acampamento de Vero, a 
Face Sul e as Pores Oeste e Norte tambm tinham os seus lderes. 
Sempre que havia uma deciso a tomar relacionada com as Trs Pedras, os 
trs lderes agiam juntos para chegar a um consenso, mas ele era anunciado 
por Denanna, pois os demais lderes Zelandonii insistiam que, para a 
Vigsima Nona ser vista como uma Caverna, ela deveria ter apenas um lder 
para falar por todos.
      A zelandonia obedecia a uma srie de requisitos ligeiramente 
diferentes. As Pores Oeste, Norte e Sul tinham, cada qual, o seu prprio 
Zelandoni, contudo os membros da zelandonia das trs pores eram 
assistentes de um quarto donier, que era o Zelandoni da Vigsima Nona. Por 
haver uma grande distncia entre as pores, era razovel que cada qual 
quisesse ter o seu prprio Zelandoni, e um que fosse bom curativo, 
principalmente durante as estaes de tempo frio e tempestuoso, mas o 
relacionamento principal de qualquer Zelandoni, individualmente, era com a 
zelandonia como um todo, mesmo que a Caverna  qual servia fosse de 
importncia quase igual ou, em alguns casos, maior.
      O Zelandoni da Pedra do Reflexo era um curador to bom, que mesmo 
as mulheres durante o parto queriam que ele as assistisse. A Zelandoni da 
Vigsima Nona, que tambm vivia na Pedra do Reflexo, para ficar perto da 
lder nomeada, no era uma curadora particularmente boa, mas se tratava 
de uma boa mediadora, capaz de agir diplomaticamente com os outros trs 
da zelandonia e os trs lideres, e abrandar o temperamento por vezes 
irritadio de todos eles. Havia quem pensasse que, se no fosse pela 
Zelandoni da Vigsima Nona, todo o complexo chamado de Vigsima Nona 
Caverna no se manteria junto.
      Ayla ficou contente por ter a desculpa de os cavalos necessitarem de 
cuidado e ateno, para se manter afastada do resto das apresentaes 
formais, banquete e outros rituais. Ela havia falado com Joharran e Proleva, 
antes de ser apresentada aos vizinhos da Caverna seguinte ao norte, e 
salientado que era essencial, para o bem-estar de Huiin e Racer, que ela e 
Jondalar cuidassem deles. O lder disse que apresentaria a desculpas dos 
dois, e a parceira do lder prometeu guardar alguma comida para eles.
      Ayla estava ciente de que era observada, enquanto eles desatrelavam 
o arrastador de carga e removiam o restante do carregamento, e quando ela 
examinou cuidadosamente os dois cavalos, para verificar se no tinham 
sofrido algum dano ou ferimento. Eles esfregaram e escovaram ambos os 
animais, e depois Jondalar sugeriu que levassem Huiin e Racer para fora dali, 
e os deixassem correr, depois daquele dia de caminhada lenta e cuidadosa. 
O belo sorriso de gratido de Ayla o deixou contente por ter feito a 
sugesto. Lobo saltou  frente, quando viu os dois se afastarem; ele tambm 
pareceu contente.
      Joharran estava entre aqueles que os observavam cuidar dos cavalos. 
Ele j vira fazerem a mesma coisa antes, mas, dessa vez, entendeu aquilo 
como mais um elemento dos cuidados de que eles necessitavam. Obviamente, 
cavalos no precisavam daquele tipo de ateno, quando viviam com as suas 
manadas, mas talvez precisassem quando faziam o servio exigido pelas 
pessoas. Sim, estava ali o benefcio em potencial de utilizar cavalos para 
auxiliar de diversas maneiras, mas valeria a pena todo o trabalho que 
davam? Era a questo que avaliava ao observar Ayla e o irmo cavalgarem 
para longe.
      Ayla sentiu-se relaxada praticamente assim que partiram. Havia uma 
sensao de desembarao, de liberdade, quando cavalgavam daquele modo, 
sozinhos. Eles haviam se acostumado a viajar juntos, tendo apenas os 
animais como companhia, em sua longa Jornada, e se sentiram aliviados em 
retornar ao hbito. Ao alcanarem o do Rio do Norte e enxergarem adiante 
a imensa campina a cu aberto, entre olharam-se simultaneamente, sorriram, 
e depois incitaram os cavalos, at estarem galopando a toda velocidade 
atravs do campo. Nem notaram, ao passar por duas pessoas que voltavam 
para a Vigsima Nona Caverna aps uma rpida viagem at o local da Reunio 
de Vero, mas eles foram notados. As duas fitaram, boquiabertas, uma cena 
nunca vista antes, e no tinham certeza de que queriam v-la novamente. 
Gente montada em lombo de cavalo as deixava intranqilas.
      Ayla parou perto de um regato, e Jondalar se deteve mais adiante. 
Com um acordo tcito, os dois retornaram e seguiram o curso d'gua. A 
fonte era um lago alimentado por uma nascente, com um enorme salgueiro 
pairando sobre ele, e, como se protegesse o direito de nascena da prpria 
gua e de sua descendncia, uma srie de salgueiros menores se aglomerava 
nas proximidades da larga e transbordante bacia. Desmontaram, tiraram as 
mantas de montar dos cavalos e as estenderam no cho. Os cavalos beberam 
do regato, e em seguida ambos decidiram que era um bom momento para 
rolar no cho. O jovem casal no pde deixar de rir dos animais se 
contorcendo sobre o dorso, as patas para o alto, se sentindo  vontade e 
seguros o bastante para desfrutar uma boa coada nas costas.
      De repente, Ayla alcanou a funda presa em volta da cabea, 
desenrolou-a rapidamente, e olhou para o cho, na direo do lago,  procura 
de pedras. Apanhou dois seixos, encaixou um deles na bolsa da arma de 
arremesso, e o fez voar. Sem olhar, voltou a segurar a tira de couro, 
percorreu-a com a mo at a extremidade, Juntou as duas pontas, e estava 
com a segunda pedra prestes a ser lanada, quando uma segunda ave alava 
vo. Abateu-a, e depois foi apanhar as duas ptrmigas. 
      - Se estivssemos s ns dois, e fssemos montar acampamento aqui, 
j teramos a nossa refeio noturna -  afirmou Ayla, levantando os seus 
dois trofus.
      - Mas no somos s ns dois; portanto, o que vamos fazer com elas? - 
indagou Jondalar.
      - Bem, penas de ptrmiga so as mais quentes e macias, e as pintas 
delas so bem bonitas nesta poca do ano. Eu poderia fazer algo para o beb 
- sugeriu ela. - Mas terei tempo depois, para fazer coisas para ele. Acho que 
vou d-las para Denanna. Este  o seu territrio, e parece to nervosa com 
Huiin, Racer e Lobo que chego a pensar que ela no queria que tivssemos 
vindo. Talvez um presente faa com que ela se sinta melhor.
      - Onde aprendeu a ser to sbia, Ayla? - perguntou Jondalar, 
olhando-a com amor e afeio.
      - No se trata de sabedoria, Jondalar, mas de bom senso. - Ergueu a 
vista e sentiu-se perdida na magia dos olhos dele. O nico lugar onde j vira 
antes aquele azul to intenso fora nos profundos lagos glaciais, mas os olhos 
dele no eram glidos. Eram calorosos e repletos de amor.
      Ele colocou os braos em volta dela, e Ayla largou o par de aves para 
se esticar e beij-lo. Parecia como se muito tempo houvesse passado desde 
que ele a abraara daquele jeito, e se deu conta de que fazia muito tempo. 
No desde que ele a beijara, mas desde que os dois estiveram sozinhos em 
campo aberto, com os cavalos pastando alegremente e Lobo cutucando com o 
focinho inquiridor cada arbusto e buraco no cho, e ningum mais por perto. 
Logo teriam que retornar e prosseguir a caminhada para a Reunio de Vero, 
e quem sabe quando eles voltariam a ter novamente um momento como 
aquele? Quando Jondalar comeou a fuar o seu pescoo, Ayla reagiu com 
avidez.
      Sua morna respirao e a lngua mida provocaram frmitos pelo 
corpo dela, e cedeu a eles, deixando que a sensao a dominasse. Ele soprou 
na orelha dela e mordiscou o lobo, em seguida estendeu as mos  frente 
para segurar os seus seios abundantes. Agora ainda mais cheios, notou, o 
que o fez lembrar que ela carregava uma nova vida dentro de si, uma nova 
vida que Ayla disse ser tanto dele quanto dela. Pelo menos a vida teria de 
ser do esprito dele, disso tinha certeza. Pois, durante quase toda a Jornada, 
ele fora o nico homem presente de quem a Me poderia ter tirado o el.
      Ela desatou a correia da cintura, da qual pendiam vrios objetos e 
bolsinhas fixadas a alas ou cordes, e a pousou ao lado da manta de montar, 
cuidando para que todas as coisas presas a ela permanecessem no lugar. Ele 
se sentou na beira da cobertura de couro, que tinha um cheiro forte mas 
no desagradvel, de cavalo. Era um cheiro a que estava acostumado e ao 
qual fazia agradveis associaes. Rapidamente, ele passou a desatar e 
desenrolar das pernas as correias das coberturas dos ps, depois ergueu-se, 
desamarrou a faixa de cintura que mantinha presa a parte frontal 
superposta das perneiras, e retirou-as.
      Ao levantar a vista, viu que ela fizera o mesmo. Olhou-a e gostou do 
que viu. As suas formas eram mais cheias, no apenas nos seios, mas na 
barriga, que estava mais redonda, comeando a revelar o crescimento da 
nova vida. Sentiu a sua masculinidade responder, arrancou a tnica, e depois 
ajudou Ayla a tirar a dela. Sentiu uma brisa fresca na pele nua, viu a dela se 
arrepiar de frio, e a tomou nos braos, sentindo a sua calidez e tentando 
mant-la assim.
      - Vou me lavar no lago - disse ela.
      Ele sorriu, percebendo que se tratava de um convite para ter 
Prazeres com ela do jeito que ele gostava.
      - No precisa - alegou.
      - Eu sei, mas eu quero. Todas essas caminhadas e subidas me fizeram 
suar. - justificou-se, caminhando na direo do lago.
      Fazia frio, mas ela costumava se banhar em gua fria e, na maioria da 
vezes, achava estimulante a glida sensao formigante. Pela manh, isso a 
despertava. O lago era raso, exceto na ponta perto da nascente. Ali, viu que 
ele afundava rapidamente, at os seus ps no mais tocarem o fundo 
rochoso e lodoso. Deleitou-se com a gua, indo para a parte funda e voltando 
na direo da margem pedregosa.
      Jondalar seguiu-a, embora gostasse muito menos de gua fria do que 
ela. A gua estava pelas suas coxas, e, ao se aproximar, salpicou uma poro 
em Ayla. Ela deu um gritinho, agitou a gua  sua volta, enchendo-a de 
sedimentos, e, com ambas as mos, forou uma onda na direo dele, que o 
atingiu no rosto e o ensopou dos ombros para baixo.
      - Eu no estava pronto para isso - reclamou, engrolando por causa de 
um sbito calafrio, e levantou gua de volta para ela. Os cavalos observavam 
a confuso que faziam no lago. Ela sorriu para Jondalar, ele se aproximou 
dela, e a ruidosa brincadeira na gua chegou ao fim, ao permanecerem 
juntos com os braos entrelaados e os lbios colados.
      Talvez eu deva ajud-la a se lavar - murmurou em seu ouvido, ao 
mesmo tempo em que alcanava entre as pernas dela e sentia a si mesmo 
reagir.
      - Talvez eu deva ajud-lo - cochichou ela, segurando o seu membro 
duro e ereto, e, com a gua, esfregou a mo para cima e para baixo, 
descobrindo o prepcio e expondo a cabea. O lquido gelado deveria esfriar 
o seu ardor, imaginou ele, mas a mo fria dela no seu rgo morno era 
estranha e intensamente estimulante. Ento, ela se ajoelhou, e, ao enfiar na 
boca a cabea de sua masculinidade, sentiu-a quente. Jondalar gemia, 
enquanto ela se movia para a frente e para trs, agitando a lngua em volta 
da cabea, e ele sentiu uma tal premncia, que isso o apanhou de surpresa. 
De repente, antes que pudesse controlar, sentiu o ardor crescer e irromper 
para fora, ao mesmo tempo em que ondas de alvio se propagavam pelo seu 
corpo.
        Ele a empurrou para trs.
        Vamos sair desta gua fria - props. - Ela cuspiu a sua essncia, 
enxaguou a boca, e depois sorriu para ele. Segurando-lhe a mo, ele levou-a 
para fora. Ao chegarem  manta de montar, sentaram-se, depois ele a 
colocou de costas e deitou-se a seu lado, apoiado sobre um brao, para olhar 
para ela. - Voc me pegou de surpresa - disse ele, sentindo-se relaxado, mas 
ligeiramente aturdido. Aquilo no sara do jeito que havia planejado.
        Ela sorriu; no era freqentemente que Jondalar cedia a sua essncia 
com tanta rapidez, era sempre ele quem gostava de manter o controle. A 
feliz expresso dela tornou-se um sorriso largo de contentamento.
        - Voc devia estar mais disposto do que imaginava - comentou.
        - Voc no devia parecer to contente consigo mesma - falou.
        - No  sempre que consigo surpreender voc - afirmou ela.  - quem 
me conhece to bem, me surpreende, e sempre me faz sentir to Prazerosa.
Jondalar no pde evitar de sorrir diante da alegria de Ayla. Inclinou-se 
beij-la, e ela abriu a boca ligeiramente, acolhendo-o. Ele adorava toc-la, 
abra la, beij-la, de qualquer maneira. Jondalar sondou o interior de sua 
boca, delicadamente, experimentando, e ela fez o mesmo. Ento, ele sentiu 
apenas a insinuao de uma nsia comear novamente a se avolumar, e 
animou-se. Talvez ainda no estivesse totalmente esgotado, e no havia 
pressa para recomear.
        Jondalar demorou-se em apenas beij-la, depois percorreu a lngua 
pelos lbios dela. Encontrou o pescoo e a garganta, mordiscando-os e 
beijando-os. Fazia ccegas, e Ayla teve que se controlar para no se afastar. 
Ela j estava excitada, e o fato de se conter aumentava a sensao. Quando 
ele comeou a baixar, beijando o ombro, passando pela axila e seguindo para 
o cotovelo, ela mal conseguiu agentar, mas, ao mesmo tempo, queria mais. 
Sem que notasse, sua respirao aumentou de intensidade, o que o 
encorajou. Ento, de repente, ele tomou um mamilo em sua boca, e ela arfou 
enquanto riscas de fogo lampejavam dentro de sua parte ntima.
        A virilidade dele crescia novamente. Jondalar sentiu a circunferncia 
do seio dela, em seguida enfiou na boca o mamilo teso, aprumado, do outro 
seio e sugou forte. 
        Alcanou com a mo o outro mamilo e o apertou e manipulou entre 
dedos. Ela pressionou o corpo contra o dele, sentindo a intensidade e 
querendo mais. Ayla no ouvia a brisa nos salgueiros nem sentia a friagem do 
ar, toda a sua ateno estava concentrada em seu interior, nas sensaes 
que ele provocava nela.
        Jondalar tambm sentia o calor aumentar dentro de si e sua 
tumescente masculinidade. Ele baixou ainda mais, instalando-se entre as 
coxas dela, e, abrindo suas dobras, curvou-se para dar a primeira prova. Ela 
ainda estava molhada pela gua, e Jondalar se deliciou com o frio e o 
molhado e o quente e o salgado e o sabor familiar de Ayla, a sua Ayla. Ele a 
desejava inteira, toda de uma s vez, e alcanou acima os seus mamilos, ao 
mesmo tempo em que encontrava o seu ndulo duro e latejante.
        Ayla gemeu e gritou, curvando o corpo para Jondalar, enquanto ele a 
sugava e a manipulava com a lngua. Ela no pensava, apenas sentia. Ento, 
antes mesmo de perceber chegou ao mximo, sentindo a onda crescer e se 
expandir, at se derramar sobre ela, ao mesmo tempo em que ele sentia a 
sua umidade. Em seguida, ela o procurou emitindo gritinhos de necessidade, 
desejando senti-lo dentro de si.
        Jondalar ergueu-se, achou a abertura dela e a penetrou, depois 
retirou a sua virilidade e enfiou novamente. Ela o acompanhava, 
encontrando-o, empurrando e puxando para perto, arqueando e girando o 
corpo, para senti-lo exatamente onde o desejava. A excitao dele estava 
presente, mas no to carente quanto o era s vezes. Em vez de assumir o 
controle, deixou que a coisa aumentasse de intensidade, embalando-se com 
ela, movendo-se com ela, sentindo crescer a tenso, mergulhando 
profundamente com prazer e abandono. Ela o chamava, e seus rudos sem 
palavras progrediam em tom e intensidade. Ento, aquilo atingiu o auge, e 
com palavras e rudos crescentes, eles sentiram um grande prazer se 
avolumar e jorrar. Eles se agarraram por um instante, depois empurraram e 
puxaram mais algumas vezes, e ento permaneceram deitados, imveis e 
ofegantes, tentando recuperar o flego.
        Ao ficar deitada ali com os olhos fechados, Ayla ouviu o vento 
farfalhar por entre as rvores e uma ave piar pelo parceiro, sentiu a brisa 
fresca e a deliciosa sensao do peso dele em cima dela, o cheiro de cavalo 
da manta e o odor de seus Prazeres, e lembrou do gosto da pele e dos beijos 
dele.         Quando Jondalar, finalmente, se ergueu e olhou para ela, Ayla estava 
sorrindo, um indistinto sorriso clido e devaneador de contentamento.
      Depois que, finalmente, se levantaram, Ayla voltou ao lago para se 
limpar, como Iza a havia ensinado muito tempo atrs. Jondalar tambm fez 
o mesmo. No seu entender, se ela o fazia, ele tambm devia faz-lo, embora 
no fosse seu hbito at conhec-la. Ele no gostava da gua fria. Ao se 
lavar, entretanto, achou que, se houvesse mais dias como aquele, at poderia 
aprender a gostar.
      No caminho de volta para a Poro Sul da Vigsima Nona Caverna, 
Ayla deu- se conta de que no estava desejosa de encontrar os vizinhos, que 
lhe pareciam de certa 
forma hostis. Apesar de ter sido aceita pelos parentes de Jondalar e os 
habi tantes da Nona Caverna, percebeu que tampouco estava ansiosa para 
encontr loa. Por mais que tivesse desejado que a Jornada deles chegasse 
ao fim, para estar na companhia de outras pessoas, Ayla se acostumara aos 
padres estabelecidos por ela e Jondalar durante a viagem, e sentia falta 
deles. Quando estavam com a famlia dele eram gratos quela aconchegante 
afetividade das pessoas, mas, s vezes, jovens amantes queriam ficar 
sozinhos.
      Naquela noite, na barraca, em seus familiares rolos de dormir, com 
todo mundo muito mais junto, Ayla lembrou-se da arrumao para dormir 
que era feita no interior da habitao de terra dos Mamuti, e se descobriu 
pensando nela. Quando a viu pela primeira vez, ficou admirada com a casa 
longa semi-subterrnea o Acampamento do Leo construra. Usaram ossos 
de mamute para sustentar a grossas paredes de torres de relva e colmo, 
cobertas de argila, o que mantinha do lado de fora os intensos vento e frio 
do inverno das regies periglaciais centro continentais. Lembrou ter 
pensado que era como se eles tivessem construdo sua prpria caverna. De 
certo modo, tinham, j que no havia cavernas habitveis na regio, e ela 
teve razo em se admirar; tratava-se de um feito notvel.
      Embora as famlias que viviam na habitao de terra do Acampamento 
do Leo tivessem reas de moradia separadas em volta das lareiras 
alinhadas em uma fila no centro, e cortinas para fecharem suas plataformas 
de dormir, todas compartilhavam o mesmo abrigo. Viviam a uma distncia, da 
famlia vizinha, menor do que a um brao e, para ir e vir, precisavam passar 
pelos espaos de moradias uns dos outros. Para poderem viver num espao 
to confinado, praticavam uma tcita cortesia que lhes permitia privacidade, 
e ela era aprendida enquanto cresciam. Quando vi via ali, Ayla no achava a 
habitao de terra to pequena, s vindo a perceber isso depois que passou 
a dormir no imenso abrigo da Nona Caverna. Lembrou que cada familia do Cl 
tambem tinha a sua propria lareira, mas no havia paredes, a algumas pedras
para indicar os limites As pessoas do Cl tambem aprendiam cedo a evitar 
olhar para o interior do espao de moradia de outra famlia. Para elas, 
privacidade era uma questo de conveno e considerao.
      Ainda que as habitaes dos Zelandonii tivessem paredes, estas no 
detinham os sons externos,  claro. Os seus lares no precisavam ser 
construdos com a solidez das habitaes de terra dos Mamuti; os seus 
abrigos naturais de pedra protegiam da maioria dos elementos. As 
estruturas dos Zelandonii conservavam, principalmente, o calor interno e 
bloqueavam os ventos que se extraviavam sob aba saliente do rochedo. 
Caminhando-se atravs da rea de moradia sob a podiam-se ouvir trechos de 
conversas vindos do interior de cada habitao,  os Zelandonii aprendiam a 
ignorar as vozes dos vizinhos. O que se assemelhava s pessoas do Cl, que 
aprendiam a no espiar o interior da lareira adjacente, e  indizvel cortesia 
dos Mamuti. Pensando nisso, Ayla verificou que, no curto espao de tempo 
em que ali vivia, j tinha aprendido a no ouvir mais as pessoas das 
habitaes vizinhas.., na maioria das vezes comentrios vindo de outros 
rolos de dormir, Ayla comentou:
      - Eu gosto do costume Zelandonii de fazer habitaes divididas para 
cada famlia, Jondalar, de ter um lar separado dos outros.
      - Alegro-me por voc achar isso - afirmou, sentindo-se ainda mais 
contente consigo mesmo por haver tomado providncias a fim de ter um lar 
pronto para ela, quando voltassem da Reunio de Vero, e por manter isso 
em segredo de modo a poder surpreend-la.
      Ao fechar os olhos, Ayla pensava em ter, algum dia, sua prpria 
habitao, com paredes. Para ela, as paredes das habitaes dos Zelandonii 
propiciavam um certo grau de privacidade desconhecido pelo Cl, ou mesmo 
pelos Mamuti. As divisrias internas aumentavam essa privacidade. Apesar 
de ter-se sentido solitria, Ayla aprendera a gostar de sua solido no vale, e 
viajar sozinha com Jondalar reforara o desejo de colocar algo entre ela e 
as outras pessoas. A proximidade das habitaes, porm dava-lhe a 
segurana de saber que sempre havia algum por perto. Se ela quisesse, 
ainda poderia ouvir os reconfortantes rudos das pessoas se acomodando 
para passar a noite, sons que ela ouvira toda a sua vida: vozes falando 
baixinho, o choro de um beb, um casal fazendo amor. Quando vivia sozinha, 
tinha desejado ardentemente esses sons, contudo, na Nona Caverna, sempre 
havia um lugar para se ir e ficar s. Uma vez no interior das finas divisrias 
de cada habitao, era fcil esquecer que havia mais algum por perto, mas 
os contnuos rudos de fundo davam-lhe a essencial sensao de segurana. 
Concluiu que o modo como os Zelandonii viviam era simplesmente o correto.
      Quando partiram, na manh seguinte, Ayla percebeu que a quantidade 
de gente tinha aumentado. Muitas pessoas da Vigsima Nona Caverna haviam 
se juntado a eles, mas nenhuma, notou, da Pedra do Reflexo, ou pelo menos 
algum que ela reconhecesse. Ao comentar o crescimento com Joharran, 
este informou que a maioria do Acampamento de Vero, quase a metade da 
Face Sul e alguns poucos da Pedra do Reflexo estavam viajando com eles. O 
resto partiria no dia seguinte ou no outro. Ela lembrou que Jondalar havia 
mencionado algo sobre voltar ao Acampamento de Vero para ajudar na 
coleta das pinhas, e teve a impresso de que a Nona Caverna possua laos 
mais prximos com a Poro Oeste do que com as outras Pores da 
Vigsima Nona.
      Da Pedra do Reflexo, se eles acompanhassem O Rio correnteza acima,
rumariam primeiro direto para o norte no incio da larga curva que virava 
para o leste, depois para o sul e novamente para leste, fazendo uma segunda 
grande volta que acabava novamente indo para o norte, formando uma 
extensa curva em S.
      Havia alguns pequenos abrigos de pedra, na ponta setentrional da 
primeira curva, que eram usados como paradas temporrias quando as 
pessoas viajavam ou caavam, mas o povoamento seguinte ficava na 
extremidade mais meridional da segunda volta, onde um pequeno riacho se 
juntava ao Rio atravs do Vale Antigo, o lar da Quinta Caverna dos 
Zelandonii.
      A no ser que estivessem viajando de balsa, o que exigiria impelir a 
embarcao com uma vara correnteza acima por mais de quinze quilmetros, 
era mais fcil atingir o Vale Antigo, a partir da Pedra do Reflexo, 
atravessando-se diretamente a regio campestre, em vez de seguir O Rio 
com as suas generosas curvas de ida e volta para o norte. Por terra, a 
morada da Quinta Caverna ficava pouco menos de cinco quilmetros a leste 
e um tanto para o norte, embora a trilha, pegando-se o caminho mais fcil 
atravs do terreno montanhoso, no fosse assim to direta.
      Quando Joharran chegou ao incio da trilha claramente assinalada, 
desviou- se do Rio e iniciou a subida por um caminho que percorria a encosta 
de uma serra, depois contornou um cume arredondado, onde a trilha se 
juntava a uma outra mais alta, que descia da Terceira Caverna na Pedra dos 
Dois Rios, e conti nuava para baixo, do outro lado, at novamente o nvel do 
Rio. Enquanto cami nhavam, Ayla se interessou em saber mais sobre a 
Quinta Caverna e resolveu incentivar Jondalar a falar sobre ela.
      - Se a Terceira Caverna  conhecida pelos seus caadores, e os 
habitantes da Dcima Quarta Caverna so tidos como bons pescadores, pelo 
que  conhecida a Quinta Caverna, Jondalar? - perguntou ela.
      - Eu diria que as pessoas da Quinta Caverna so reconhecidas por 
serem auto-suficientes - respondeu.
      Ayla notou que os quatro jovens que, no dia anterior, haviam se 
oferecido para levantar o arrastador de carga durante a travessia do Rio, 
ainda viajavam junto deles, e se aproximaram mais, ao ouvirem a pergunta 
dela. Embora tivessem passado toda a vida na Nona Caverna e conhecessem 
as vrias Cavernas Zelandonii vizinhas, nunca tinham ouvido uma descrio a 
seu respeito de modo a ser entendido por um estrangeiro. E estavam muito 
interessados nas observaes de Jondalar.
      - Eles se orgulham de ter caadores e pescadores habilidosos, e 
especialistas em cada ofcio - comeou Jondalar. - At mesmo fazem suas 
prprias balsas, e dizem que foi a primeira Caverna a faz-las, apesar de a 
Dcima Primeira Caverna desaprovar essa reivindicao. A zelandonia e os 
artistas dela sempre foram muito respeitados. H profundos entalhes nas 
paredes de vrios de seus abrigos, outras tm placas de pedras pintadas ou 
entalhadas, a maioria com bises e cavalos, pois a Quinta Caverna tem uma 
ligao especial com esses animais.
      - Porque  chamado de Vale Antigo, perguntou Ayla. 
      - Porque as pessoas tm vivido l a mais tempo do que as da maioria 
dos outros povoamentos. O prprio nmero de contar dela revela a sua idade. 
Somente a segunda e a Terceira Cavernas so mais velhas do que a Quinta. 
A maioria dos entalhes nas paredes deles so to antigos que ningum sabe 
realmente quem os fez. Um deles  de cinco animais que foram gravados h 
tanto tempo por um ancestral, que  mencionado nas Lendas dos Antigos, e  
um smbolo do nmero deles - contou Jondalar -, e a zelandonia diz que cinco 
 um nmero muito sagrado.
      - Como assim, sagrado?
      - Ele tem um significado especial para a Me. Algum dia, pea  
Zelandoni para lhe falar sobre o nmero cinco - props Jondalar.
      - O que aconteceu com a Primeira - Ayla fez uma pausa, para 
percorrer mentalmente as palavras de contar - e a Quarta Caverna?
 H muita coisa sobre a Primeira Caverna nas Histrias e nas Lendas dos 
Antigos, e voc dever ouvir mais sobre ela na Reunio de Vero, mas 
ningum sabe o que aconteceu com a Quarta. Muita gente acredita que 
aconteceu algum tipo de tragdia. Alguns acham que um inimigo usou um 
Zelandoni mau para provocar uma doena que fez com que todos morressem. 
Outros acreditam que talvez tenha havido apenas uma discusso com um 
pssimo lder, o que fez a maioria das pessoas decidir partir e se juntar a 
uma outra Caverna. Mas, quando um novo povo se junta a uma Caverna, isso 
costuma fazer parte da Histria dela, e nenhuma Histria de Caverna faz 
qualquer meno  Quarta, pelo menos que algum vivo atualmente saiba - 
explicou Jondalar. - Tem gente que acha que o nmero quatro traz m sorte, 
mas a Primeira diz que no  o nmero, mas apenas algumas associaes a ele 
que so azaradas.
      Aps uma distncia de caminhada equivalente a pouco mais de seis 
quilmetros, escalaram uma ltima elevao e se aproximaram de um vale 
estreito com um gil riacho correndo pelo centro e altos rochedos elevando-
se em ambos os lados, o que oferecia oito abrigos sob rochas de vrios 
tamanhos. Quando a grande procisso, com Joharran  frente, comeou a 
descer uma trilha para o incio do Vale Antigo, dois homens e uma mulher 
surgiram subindo pela mesma trilha para receb-los. Aps a formalidade das 
saudaes, disseram aos visitantes que a maioria da Quinta Caverna j havia 
partido para a Reunio de Vero.
      - Vocs so bem-vindos para permanecer aqui,  claro, mas, como o 
dia est apenas na metade, acreditamos que devem querer prosseguir - 
disse a mulher.
      - Quem est aqui? - indagou Joharran.
      - Dois idosos que no podem fazer a viagem.., um mal consegue se 
levantar do leito... e uma mulher que est perto de dar  luz. A Zelandoni 
no acha seguro ela viajar, pois j teve problemas antes. E,  claro, estes 
dois caadores. Eles permanecero at a lua ficar nova.
      - Voc  a Primeira Aclita da Zelandoni da Quinta, creio eu - 
observou Aquela Que Era A Primeira.
      - Sim, sou. Fiquei para ajudar no parto.
        - Achei que a tinha reconhecido. H alguma coisa que possamos fazer 
para ajudar?
      - No creio. Ela ainda no est pronta. Ainda deve demorar vrios 
dias, e a me e a tia dela tambm ficaram. Ela estar bem.
      Joharran consultou as pessoas da Nona Caverna, como tambm as das 
outras Cavernas que haviam se juntado a eles.
      - Os melhores lugares para se montar um acampamento talvez j 
tenham sido tomados - disse. - Creio que devemos prosseguir, em vez de 
fazer uma parada aqui. - Os demais rapidamente concordaram, e decidiram 
seguir adiante.
      O curso do Rio seguia em linha reta um pouco depois da grande curva 
em S, ao se desviar na direo nordeste. Ao longo do trecho seguinte do rio, 
havia vrios abrigos, que eram habitaes de pequenas Cavernas. Todas, 
menos uma, j havi am partido para a Reunio de Vero, e esta se juntou a 
eles, colocando-se atrs do grupo de viajantes.
      Joharran ficou ainda mais preocupado em conseguir um local 
apropriado para instalar a sua enorme Caverna durante o vero.
      Ayla ficou surpresa por haver tantas pessoas na regio, e muito 
juntas umas das outras. Assim como os Zelandonii, o povo com o qual 
crescera tambm esquadrinhava a regio para suprir todas as suas 
necessidades. Eles coletavam, caavam e pescavam, para comer e se vestir, 
utilizavam os abrigos naturais que encontravam, ou, com os materiais 
disponveis, manufaturavam proteo contra os elementos, juntamente com 
ferramentas e armas de caa. Em um nvel intuitivo, ela sabia que no 
haveria o suficiente para todos, se, numa regio, vivesse mais gente do que 
os seus recursos fossem capazes de sustentar. Alguns teriam de se mudar 
ou ficar sem nada. Tinha conscincia de que a terra dos Zelandonii era 
extremamente rica para prover a tantos, mas, em um canto analtico de sua 
mente, no podia deixar de imaginar o que aconteceria s pessoas, se as 
coisas mudassem.
      Era esse motivo pelo qual a Reunio de Vero se realizava a cada ano 
em lugar diferente. Uma concentrao to grande de pessoas esgotava os 
recursos da rea em volta e eram necessrios muitos anos para ela se 
recuperar. A reunio daquele ano no ficava muito longe do abrigo da Nona 
Caverna, talvez um pouco mais de trinta quilmetros correnteza acima, 
acompanhando O Rio, mas eles tinham diminudo um pouco essa distncia, 
seguindo mais diretamente, atravessando a regio campestre entre a 
Vigsima Nona e a Quinta Cavernas.
      O lugar ao qual se dirigiam ficava cerca de dezesseis quilmetros do 
Vale Antigo, e Joharran decidiu percorr-los sem parar para pernoitar. 
Pensou em convocar uma reunio, a fim de discutir o assunto e ver se seria 
capaz de incentivar as pessoas a se apressarem, mas eram muitas, de 
diferentes idades e capacidade, e, inevitavelmente, a velocidade delas seria 
o mais depressa que as mais lentas con seguiam avanar. Uma reunio 
serviria apenas para retard-las ainda mais. Em vez disso, pensou em tentar 
forar o passo um pouco mais do que o habitual, sem dizer nada. Se as 
pessoas comeassem a reclamar, s ento ele se preocuparia em parar. 
Fizeram uma pausa para a refeio do meio do dia, porm, quando Joharran 
reiniciou a marcha, as pessoas foram atrs dele.
      Ainda no estava escuro, mas o sol j tinha se posto totalmente, 
quando O Rio desviou para a direita, perto de uma encosta escarpada na 
margem esquerda. Seguiram pelo interior, longe da gua, e subiram uma 
colina razovel ao longo de uma trilha bastante utilizada.  medida que 
subiam, a vista da regio campestre do entorno abria-se, revelando um 
amplo panorama durante uma boa distncia.
Ao chegarem ao cume, porm, Ayla ficou com a respirao presa diante de 
uma vista diferente: uma imensa horda de pessoas no vale abaixo. Ela sabia 
que ali j havia mais Zelandonii do que o nmero total de pessoas que 
comparecera  Reunio de Vero dos Mamuti, e nem todos tinham chegado 
ainda. Mesmo se contasse cada um que j houvesse conhecido, tinha certeza 
de que nunca vira tanta gente, muito menos todos em um s lugar. Ainda que 
no se comparasse em quantidade, para ela a nica viso que se aproximava 
daquela eram as imensas manadas de bises e renas que, a cada ano, se 
reuniam aos milhares. Aquela no entanto, era uma abundante e fervilhante 
manada de seres humanos.
      O grupo que partira da Nona Caverna tinha aumentado 
consideravelmente, mas os que se haviam juntado a eles ao longo do caminho 
se dispersaram rapida mente,  procura de amigos e parentes e de um lugar 
para montar acampamento. A Zelandoni seguiu para a rea principal do 
acampamento, onde a zelandonia tinha o seu alojamento especial no centro 
de tudo. Os seus membros sempre de sempenhavam o papel mais importante 
na Reunio de Vero. Ayla torcia para que a Nona Caverna conseguisse um 
lugar de certo modo distante das atividades principais. Seria mais fcil 
levar os animais para se exercitarem, se no tivessem que ser conduzidos 
atravs de multides de curiosos.
      Jondalar j tinha falado com o irmo sobre as necessidades dos 
animais e do estado de nervosismo em que ficavam com muita gente por 
perto. Joharran havia concordado e dito que levaria isso em considerao, 
mas, intimamente, achava que as necessidades das pessoas da Nona Caverna 
eram mais importantes do que dos animais. Ele queria ficar perto do centro 
das atividades, e esperava encontrar um lugar prximo de um rio, porque era 
um problema carregar gua talvez perto de uma ou duas rvores, por causa 
da sombra, e no muito distante da rea arborizada que fornecia lenha para 
fogueira. Sabia, contudo, que os grandes bosques perto do acampamento 
ficariam devastados antes do final da estao. Todo o mundo precisava de 
lenha. Quando, porm, comeou a procurar com Solaban e Rushemar, 
Joharran rapidamente deu-se conta de que os bons locais perto das matas e 
do rio j haviam sido ocupados.
      A Nona era uma Caverna de bom tamanho, com mais gente do que as 
outras, precisava de mais espao para o seu acampamento, e ele queria 
encontrar um lugar antes que ficasse muito escuro. Isso o forou a 
inspecionar a periferia da rea da Reunio de Vero. O grande curso d'gua 
estreitara-se depois de virar na ltima curva, e ele notou que as ribanceiras 
eram mais ngremes correnteza abaixo do lado em que ficava o 
acampamento, o que tornava mais dificil alcanar a gua.
      Os trs homens voltaram para O Rio e comearam a caminhar 
correnteza acima. Aps uma curta distncia, deram com um pequeno arroio 
que escorria por um prado e desaguava no rio principal, fizeram a volta e 
seguiram o seu curso. Um pouco atrs do Rio, notaram um renque de rvores 
a cu aberto. Ao se aproximarem, viram que o bosque era uma galeria 
arborizada que revestia ambas as margens do pequeno arroio. Penetraram 
na mata. Caminhando ao longo do arroio, Joharran percebeu que ele 
contornava a base de uma colina, e a mata tornava-se mais densa, 
transformando-se em uma verdadeira floresta, maior e mais profunda do 
que parecia a princpio.
      Aps algum tempo, chegaram  fonte do arroio, uma pequena nascente 
que borbulhava do solo sobre o qual pendiam galhos de salgueiros 
emoldurados por betulas, espruces e alguns lanos Um profundo lago 
alimentado pela mesma nascente ficava do outro lado da fonte. Toda a 
regio era repleta de fontes naturais, e, como muitas outras, aquela 
formava um pequeno afluente que desembo cava no Rio. Por trs das rvores, 
do outro lado do lago, ficava uma ngreme ladeira rochosa alastrada de 
pedras de todos os tamanhos, desde pequenos seixos a slidos pedregulhos. 
Defronte ao lago, havia um estreito vale isolado em que abundava o capim e 
levava a uma pequena praia a cu aberto, com areia fina e macia e  pedras 
arredondas pela gua, com uma densa cortina de arbustos ao longo do , lado 
mais prximo do lago.
      Tratava-se de um lugar agradvel, e Joharran pensou que, se 
estivesse sozinho ou com poucas pessoas, instalaria bem ali o acampamento, 
mas, com toda a Caverna, no s precisariam de mais espao, como tambm 
ficar mais perto do acampamento.
      Ao chegarem ao prado ao lado do Rio, Joharran parou.
      - O que vocs acham? - perguntou. - Fica um pouco longe de tudo.
      Rushemar mergulhou a mo no arroio e provou a gua. Era fria e 
fresca.
      - Ele vai ter gua boa durante todo o vero. Voc sabe que, perto do 
final da estao, tanto o riacho, que passa pelo acampamento principal, 
quanto O Rio defronte a ele e correnteza abaixo, no estaro mais to 
frescos e claros.
      - E todos tero usado os grandes bosques para tirar lenha - afirmou 
Solaban. - Esta rea no ser to utilizada assim, e h mais aqui do que 
aparenta. A Nona Caverna instalou o seu acampamento na parte nivelada e 
gramada do prado, entre o bosque e O Rio, perto do pequeno arroio. A 
maioria concordou que era um local bom o bastante para acampar. No era 
provvel que outra Caverna se instalasse correnteza acima deles e 
enlameasse a gua, e o local ficava bem longe do centro das atividades. A 
gua deles permaneceria limpa para que pudessem nadar, se banhar e lavar 
roupas. O arroio alimentado pela nascente lhes forneceria gua limpa para 
beber, no importava o quanto O Rio ficasse imundo aps centenas de 
pessoas o usarem para as suas necessidades.
      O bosque oferecia sombra e lenha, e, como parecia pequeno, no 
atrairia tanta gente em busca dos mesmos recursos, pelo menos no durante 
algum tempo. A maioria ia seguir para a enorme mata repleta de rvores, um 
pouco mais correnteza abaixo. O bosque, juntamente com o prado, tambm 
fornecia plantas silvestres - bagas, amndoas, razes, folhas - e caa de 
pequeno porte. Peixes abundavam no Rio, bem como moluscos de gua doce. 
O local escolhido tinha muitas vantagens.
      Sua maior desvantagem era a distncia que as pessoas precisariam 
percorrer para chegar  rea onde se realizaria a maior parte das 
atividades. Alguns achavam que ficava muito longe, principalmente os que 
tinham parentes ou amigos em outras Cavernas que j se haviam instalado 
em locais considerados mais desejveis. Vrios desses resolveram acampar 
com outros. Por um lado, Jondalar ficou contente. Com isso, haveria mais 
lugar para Dalanar e os Lanzadonii quando chegassem, se no se 
importassem em ficar um pouco fora de mo.
      Para Ayla, era perfeito. Os animais teriam um lugar longe do 
aglomerado das multides, com um prado para pastar. Eles j eram objeto 
de uma crescente ateno, o que significava,  claro, que Ayla tambm o era. 
Ela lembrou o quanto Huiin, Racer e Lobo ficaram ariscos, ao chegarem  
reunio dos Mamuti, embora, atualmente, j parecessem aceitar mais 
facilmente grupos maiores de pesso as, talvez at mesmo melhor do que ela. 
As pessoas falavam abertamente, e Ayla no podia evitar de ouvir. Elas 
pareciam especialmente admiradas pelo modo como os cavalos e o lobo se 
davam to bem - na verdade, pareciam ser amigos - e como reagiam s 
ordens da estrangeira e do filho de Marthona.
      Ela e Jondalar cavalgaram arroio acima e encontraram o idlico vale 
isolado com o seu lago. Era exatamente o tipo de lugar que adoravam. To 
perfeito para os dois, que sentiam como se fosse deles, se bem que,  claro, 
qualquer um pudes se us-lo, mas Jondalar duvidava que seria muito 
utilizado. A maioria ia  Reu nio de Vero para as atividades de grupo, e 
tinha menos necessidade de momentos de solido do que Ayla, ou os animais, 
ou, precisava admitir, ele mesmo. Ela ficou encantada ao descobrir que as 
moitas cerradas, na maior parte, eram ps de avel, um dos seus alimentos 
favoritos. As amndoas ainda no estavam maduras, mas, aparentemente, 
iam dar uma boa colheita, e Jondalar j planejava voltar para ver se alguma 
das rochas e pedras da ladeira do outro lado do lago era slex.
      Depois que as pessoas se instalaram e passaram a inspecionar a 
localizao, a maioria concluiu que se tratava de um timo lugar. Joharran 
ficou feliz por ter chegado cedo o bastante para reivindic-lo. Ele achava 
que, se tivesse sido escolhido antes, no haveria um segundo afluente de 
certo modo to largo que corresse sinuosamente pelo meio do enorme campo 
que abarcava a Reunio de Vero. A maioria das Cavernas que chegou mais 
cedo havia se acomodado ao longo das margens daquele riacho, sabendo que, 
em pouco tempo, as guas do Rio ficariam poludas pelo excesso de uso. Foi a 
rea que Joharran tentou em primeiro lugar, mas agora estava contente por 
ter ido procurar mais afastado dali.
      Para Jondalar, foi a conversa com o irmo que o fizera pensar em 
procurar um lugar mais confortvel para os cavalos, e agradeceu a ele. 
Joharran no o contradisse. 
        Ele sabia que a sua principal preocupaao fora com o conforto das 
pessoas, mas talvez a conversa sobre os animais tivesse ficado no fundo de 
sua mente e o tivesse ajudado a encontrar o local. No podia afirmar que 
no era verdade, e no se importava se isso fazia o irmo sentir-se em 
dbito com ele. Era muito difcil comandar uma Caverna to grande como 
aquela, e no sabia quando poderia ter de recorrer  ajuda de Jondalar.
      Como era muito tarde, decidiram esperar o amanhecer para erguer os 
seus abrigos de vero, e usaram as tendas de viagem naquela noite. Depois 
que o acampamento foi delimitado, algumas pessoas foram ate a area 
principal, a procura de amigos ou parentes que no viam desde a ltima 
Reunio de Vero, e para saber o que se planejara para o dia seguinte; a 
maioria, porm, estava cansada e resolveu ficar por ali mesmo. Muitos 
examinaram a rea, para decidir exatamente onde queriam instalar os seus 
acampamentos e abrigos individuais, alm de localizar onde cresciam os 
vrios tipos de vegetao, principalmente os que forneciam os materiais 
necessrios para construir as residncias de vero.
        Ayla e Jondalar amarraram os cavalos perto do bosque e do arroio, 
achando que seria melhor mant-los presos, mais para proteg-los das 
pessoas do que para refre-los. 
        Gostariam de lhes dar mais liberdade, mas, talvez, s os deixariam 
vagar  vontade, como faziam perto da Nona Caverna, depois que todo o 
acampamento estivesse familiarizado com eles e no fosse tentado a ca-
los.
        Pela manh, aps se certificarem de que os cavalos estavam 
sossegados, Jondalar e Ayla acompanharam Joharran at a rea principal da 
Reunio de Vero,  procura dos outros lderes. Havia necessidade de se 
tomarem decises sobre caa, coleta de alimentos e a diviso dos produtos 
depois das incurses, e o planejamento de atividades e cerimnias, inclusive 
do primeiro Matrimonial do vero. Lobo seguia ao lado de Ayla. Todos tinham 
ouvido falar da mulher que possua um misterioso controle sobre animais, 
mas ouvir no era o mesmo que ver. Ao percorrerem o caminho entre os 
locais de acampamentos, foram seguidos por olhares consternados, e se, por 
acaso, uma pessoa no os visse se aproximar e se defrontasse subitamente 
com a viso, a primeira reao era de susto e medo. Mesmo os que 
conheciam Joharran e Jondalar engoliam em seco em vez de exclamar uma 
saudao.
        Caminhavam por trs de uns arbustos baixos, que escondiam o lobo,
quando um homem se aproximou.
        - Jondalar, soube que retornou de sua Jornada e trouxe uma mulher -
gritou, correndo para encontr-los. Gostaria de conhec-la. - Sua fala tinha
um estranho defeito, que Ayla no conseguia identificar exatamente, e 
ento se deu conta de que ele falava como criana, mas com voz de homem. 
        Ele ciciava.
        Jondalar ergueu a vista e franziu a testa. O homem no era 
exatamente algum que o deixava particularmente feliz por encontrar. Alis, 
tratava-se da nica pessoa entre todos os Zelandonii a quem no esperava 
ver, e no gostava da pretensa amizade, mas sentiu que no tinha outra 
escolha, a no ser apresent-la.
        - Ayla dos Mamuti, este  Ladroman da Nona Caverna - comeou, 
sem perceber que a tinha apresentado com o seu antigo status. Sua voz era 
a mais neutra possvel, mas Ayla notou de imediato o plido tom reprovador, 
e olhou para ele. A tenso de sua mandbula revelava que ele estava quase 
para trincar os dentes, e a postura rgida e de rejeio deu a ela mais pistas 
de que aquela no era uma pessoa que Jondalar tinha prazer em ver.
        Ao se aproximar dela, o homem estendeu ambas as mos e sorriu, 
revelando a falta dos dois dentes incisivos centrais. Ela desconfiava quem
era ele, e o espao vazio frontal confirmou a suspeita. Tratava-se do homem
com quem Jondalar havia brigado; ele o tinha atingido e quebrado os seus
dois dentes centrais. Como resultado, Jondalar teve de deixar a Nona
Caverna e foi viver um tempo com Dalanar, o que acabou sendo,
provavelmente, a melhor coisa que poderia ter acontecido.
        Isso lhe deu a chance de conhecer o homem de sua lareira e de 
aprender a habilidade, que depois veio a amar - lascar slex -, com algum 
que era reconhecidamente o melhor.
        Ayla j aprendera o suficiente sobre os sinais de tatuagens faciais 
para saber que o homem era um aclito, treinando para ser um Zelandoni. 
Ento, para sua surpresa, sentiu que Lobo roava a sua perna, ao avanar 
para se posicionar entre ela e o estranho, e ouviu o seu leve rosnado de 
alerta. As nicas vezes em que o lobo fazia aquilo era quando pressentia que 
Ayla estava ameaada. Talvez ele tivesse sentido a rigidez e a rejeio de 
Jondalar, pensou ela, mas, por algum motivo, Lobo tambm no gostava 
daquele homem. O sujeito hesitou, deu um passo para trs, os olhos 
arregalados de medo.
        - Lobo! Para trs - disse ela em Mamuti, ao avanar para responder  
saudao formal. - Eu o cumprrrimento, Ladrrroman da Nona Caverrrna. -
Tomou as duas mos dele. Estavam midas.
        - No  mais Ladroman da Nona Caverna. Eu agora sou Madroman da 
Quinta Caverna dos Zelandonii, e aclito da zelandonia. Voc  bem-vinda 
aqui, Ayla dos... como  mesmo o nome? Muh... Mutoni? - perguntou, olhando 
para o lobo, cujo rosnado aumentara de volume. Imediatamente, largou as 
mos dela. Ele havia percebido o sotaque dela, mas o lobo o deixara to 
embaraado, que mal prestou ateno.
        - E ela no  mais Ayla dos Mamuti, Madroman - corrigiu Joharran. - 
Ela agora  Ayla da Nona Caverna dos Zelandonii.
        - Voc j foi aceita pelos Zelandonii? Ora, Mamuti ou Zelandonii, eu 
me alegro por termos nos encontrado por acaso, mas preciso ir agora... para 
uma reunio - alegou, recuando o mais depressa possvel. Deu meia-volta e 
quase voltou correndo pelo caminho por onde tinha vindo. Ayla olhou para os 
dois irmos. Eles tinham os dentes arreganhados, com sorrisos quase 
idnticos.
        Joharran avistou um grupo de pessoas por quem procurava. A 
Zelandoni estava entre elas. Fez um sinal para os trs se aproximarem, mas 
foi o quarto, Lobo, quem conseguiu grande parte da ateno. Ayla gesticulou 
para ele ficar atrs, enquanto eram feitas as apresentaes. Ela no sabia 
se ele ia reagir a mais algum do mesmo modo que a Madroman. Muita gente 
ficou surpresa quando a estrangeira com o sotaque esquisito foi 
apresentada como uma Zelandonii, ex-Mamuti, mas foi explicado que a 
Nona Caverna j a tinha aceito, pois no havia dvida de onde ela iria viver, 
aps se acasalar com Jondalar.
        A deciso mais importante, alm da de se acasalar, era se o homem 
viveria com o povo da mulher, ou se a mulher viveria com o dele. Em qualquer 
caso, era necessria a aceitao de ambas as Cavernas, porm muito mais 
pelo povo que teria um novo membro vivendo com ele. Por saberem onde 
Jondalar e Ayla viveriam, a aceitao dela por parte da Nona Caverna 
resolveu a questo.
        Ayla manteve o lobo perto de si, enquanto ela e Jondalar ouviam os 
lderes seculares e espirituais discutirem o planejamento. Foi decidida a 
realizao de uma cerimnia na noite seguinte, para se saber qual a melhor 
direo a seguir para a primeira caada. Se tudo corresse bem, o Primeiro 
Matrimonial seria realizado no muito tempo depois. Ayla soubera que 
sempre havia dois Matrimoniais em cada vero. O primeiro era para unir os 
casais, geralmente da mesma regio, que haviam resolvido se acasalar 
durante o inverno anterior. O segundo era realizado no outono, pouco antes 
de partirem. A maioria dos casais deste era de Cavernas mais dispersas, 
pessoas que haviam tomado a deciso durante a Reunio de Vero, talvez 
at se conhecido naquele ano, ou uma ou duas estaes antes.
        - Por falar em Matrimonial - anunciou Jondalar -, gostaria de fazer 
um pedido. J que Dalanar  o homem da minha lareira e est planejando vir, 
eu queria perguntar se a primeira cerimnia poderia ser retardada at a 
chegada dele. Gostaria de t-lo aqui para o meu acasalamento.
        - Eu no faria objeo em retard-la por uns poucos dias, mas e se 
Dalanar s vier muito depois? - quis saber a Zelandoni.
        - Eu preferia me acasalar durante a primeira cerimnia, mas, se 
Dalanar demorar demais, estou disposto a esperar pela segunda. Eu gostaria 
que ele estivesse presente quando ns dois nos unirmos - afirmou Jondalar.
        - Isto  aceitvel - concordou a Zelandoni Que Era A Primeira -, mas 
antes temos que decidir por quanto tempo poderemos retardar o Primeiro 
Matrimonial, e isso vai depender dos outros que esto querendo se acasalar 
agora.
        Uma mulher mais velha, com marcas de Zelandoni no rosto, chegou 
apressada para se juntar a eles.
        Eu soube que Dalanar e os Lanzadonii viro nesta estao - disse ela a 
Joharran. - Ele enviou uma mensagem para a Zelandoni da Dcima Nona 
Caverna, que fica mais perto da rea da Reunio de Vero, para que fosse 
avisado a todos. A filha da parceira dele vai se unir neste vero, e quer um 
Matrimonial completo para ela. Eu soube que ele est querendo encontrar 
um donier para o seu povo. Essa pode ser uma boa oportunidade para um 
aclito experiente ou um jovem Zelandoni.
        Jondalar nos contou, Zelandoni da Dcima Quarta - disse Joharran.
        - Esse  um dos motivos por que ele est trazendo para c os seus 
Lanzadonii este ano - explicou Jondalar. - Eles no tm uma pessoa que cura, 
embora Jerika tenha algum conhecimento, e nem algum para executar as 
suas cerimnias. Ele no acredita que possa realizar um Matrimonial 
adequado enquanto no tiverem um donier prprio. Ns o visitamos, a 
caminho daqui. Joplaya foi prometida enquanto estvamos l. Ela vai se 
acasalar com Echozar...
        - Dalanar vai permitir que Joplaya se acasale com um homem cuja me 
era uma cabea-chata? Um homem de espritos misturados? - interrompeu a 
Zelandoni da Dcima Quarta. 
        - Como ele pde fazer isso? A sua nica filha! Eu sei que Dalanar tem 
aceito algumas pessoas incomuns na Caverna dele, mas como receber esses 
animais?
        - Eles no so animais! - exclamou Ayla, enrugando a testa, com raiva 
da mulher.
        A mulher virou-se para olhar para Ayla, surpresa com o fato de a 
recm-chegada ter-se manifestado, e muito mais por contradiz-la to 
descaradamente.
        - Este no  lugar para voc se pronunciar - afirmou ela. - No diz 
respeito o que dizemos nesta reunio. Voc  uma visitante, nem mesmo uma 
Zelandonii. - Ela sabia que a estrangeira ia se tornar parceira de Jondalar 
mas, aparentemente, precisava ser corrigida e aprender a se comportar 
adequadamente.
        - Perdoe-me, Zelandoni da Dcima Quarta - interveio Aquela Que era 
A Primeira. - Ayla foi apresentada aos demais, e eu deveria t-la 
apresentado a voc, assim que chegou. De fato, Ayla  uma Zelandonii. A 
Nona Caverna a aceitou antes de partirmos.
        A mulher virou-se para a Primeira, e sua hostilidade parecia quase 
palpvel.
        Ayla percebeu que a animosidade era de longa data, e lembrou algo 
sobre a Zelandoni que esperava ser nomeada como Primeira, mas foi 
derrotada em Favor da Zelandoni da Nona Caverna. Deduziu que aquela era a 
tal.
        - Ayla e Jondalar nos informaram que os cabeas-chatas so gentes e 
no animais. Creio que  algo sobre o que precisamos conversar, e eu planejo 
levantar  o assunto - explicou Joharran, dando um passo  frente e tentando
acalmar a situao. - Mas no creio que esta seja a melhor ocasio, pois 
temos outras coisas para discutir antes.
        - No sei por que, de modo algum, tenhamos que conversar a respeito 
deles - retrucou a mulher.
        - Eu acho que  importante para a nossa prpria segurana - frisou 
Joharran.
        - Se so pessoas inteligentes.., e Ayla e Jondalar quase me 
convenceram de que so... e ns as temos tratado como animais, por que elas 
no se opem a isso?
        - Provavelmente porque so animais - insistiu a mulher.
        - Ayla afirma que  porque optaram por nos evitar - rebateu Joharran 
-, e quase sempre ns os evitamos. Mas, se os vemos apenas como animais, 
no os caando talvez, mas reivindicando toda a terra como sendo nossa, 
como territrio Zelandonii... reas de caa, campos de coleta, tudo... o que 
acontecer, se eles comearem a reagir?
        E o que deveremos fazer, se resolverem mudar e passar a reivindicar 
alguma terra? Acho que precisamos estar preparados; pelo menos devemos 
conversar sobre essa possibilidade.
        - Penso que est exagerando, Joharran. Se cabeas-chatas no 
reivindicaram antes nenhum territrio, por que fariam isso agora? - 
assinalou a Zelandoni da Dcima Quarta, rejeitando totalmente a idia.
        - Mas reivindicam territrios - alegou Jondalar. - Do outro lado da 
geleira, os Losadunai sabem que a terra ao norte do Rio da Me  territrio 
cabea chata. Eles permanecem no sul, exceto por alguns jovens rufies que 
andam criando problemas, e receio que o Cl no v se manter muito mais 
tempo por l, principalmente os mais jovens.
        - Por que diz isso? - indagou Joharran. -Voc no mencionou isso 
antes. Pouco depois de nossa partida, quando Thonolan e eu descemos para o 
outro lado da geleira alm das terras altas do leste, encontramos um grupo 
de cabeas...homens do Cl.., provavelmente um grupo de caa - contou 
Jondalar -, e tivemos um pequeno confronto.
        - Que tipo de confronto? - quis saber Joharran. Todos os demais 
tambm estavam prestando ateno.
        - Um jovem jogou uma pedra na gente, creio que porque estvamos do 
lado do rio, no territrio deles. Thonolan reagiu, disparando uma lana, ao 
ver se mexendo na mata onde eles estavam escondidos. De repente, todos 
se juntaram e se mostraram. Ns dois contra vrios deles era muita 
desvantagem.
        Para lhes dizer a verdade, mesmo sendo um contra um, tambm 
estaramos em desvantagem. Eles so baixos, mas muito fortes. Eu no sabia 
como me livrar e foi o lder deles quem resolveu a situao.
        Como soube que tinham um lder? E, mesmo que tivessem, como saber 
se no.
        Passavam de uma matilha, como lobos? - perguntou um outro homem.
Eu achava que o reconhecia, mas no tinha certeza. Afinal, ele havia ficado 
l fora.
        Agora eu sei com certeza pois encontrei outros depois disso, mas, 
mesmo na ocasio, pareceu bvio. Ele falou para o jovem que atirou a pedra 
para devolver a lana de Thonolan e pegar a pedra de volta; em seguida, 
sumiram na mata - contou Jondalar. - Ele deixou tudo de novo como estava 
antes, e creio que, com isso, resolveu a questo. Como ningum se machucou, 
acho que resolveu mesmo.
        - Falou para o jovem? Cabeas-chatas no falam! - exclamou o homem.
        - Falam sim - rebateu Jondalar. - S no falam como ns. Usam sinais, 
na maior parte das vezes, e eu me comuniquei com eles, mas Ayla  muito 
melhor nisso. Ela conhece a linguagem deles.
        - Acho isso muito difcil de acreditar - desdenhou a Zelandoni da 
Dcima Quarta.
        Jondalar sorriu.
        - Eu tambm achei, no incio - disse ele. -Antes desse encontro, eu 
nunca tinha visto um de perto. Voc j viu?
        - No, no posso dizer que sim, e no tenho nenhum desejo de ver - 
retrucou a mulher. - S sei que eles se parecem com ursos.
        - Eles no se parecem com ursos mais do que ns. Tm aparncia de 
gente, um tipo diferente de gente, mas no h como confundi-los. O tal 
grupo de caa portava lanas e vestia roupas. J viu ursos fazerem isso? - 
perguntou Jondalar.
        - Ento so ursos inteligentes - replicou ela.
        - No devemos subestim-los. Eles no so ursos, nem qualquer outro 
tipo de animal. So gente, gente inteligente - teimou Jondalar.
        - Voc disse que se comunicou com eles? Quando? - quis saber o 
homem que Jondalar no conseguia reconhecer.
        - Certa vez, quando estvamos hospedados com os Xaramudi, 
enfrentmos um problema no Rio da Grande Me. Os Xaramudi vivem ao 
lado dele, no muito distante do seu final, quando desgua no Mar de Beran. 
        Quando desce da geleira, o Me  apenas um arroio, mas, onde eles 
vivem,  imenso, to largo em alguns lugares, que quase parece um lago. Mas, 
se pode ser plcido e suave, s vezes ele tem uma profundidade enganadora 
e uma corrente rpida e forte.
        Quando  visto da terra dos Xaramudi, muitos outros rios, grandes e 
pequenos, j se juntaram a ele, e se percebe por que  chamado de Rio da 
Grande Me. - Jondalai falava  maneira de um Contador de Histrias, e as 
pessoas o ouviam com uma embevecida ateno.
        - Os Xaramudi fazem excelentes embarcaes a partir de enormes 
troncos, que so escavados e ficam com a forma de uma concha com 
extremidades alongadas. Eu estava praticando para controlar uma pequena 
canoa, usando um remo, quando perdi o controle. -Jondalar deu um sorriso 
depreciativo, demonstrando a vexao. - Para falar a verdade, eu estava me 
exibindo um pouco. O tempo todo, em suas embarcaes,  eles costumam 
manter uma linha, com uma ponta amarrada ao barco e a outra em um anzol 
com isca, e eu quis provar que conseguia pegar um peixe. 
        O problema  que peixe, num rio to grande como aquele, rivaliza com 
o seu tamanho, principalmente o esturjo. Os Homens do Rio no chamam de 
pescar, quando esto atrs dos grandes; dizem que esto caando esturjo.
        - Certa vez, vi um salmo quase do tamanho de um homem - comentou 
algum.
        - Perto do final do Rio da Grande Me, alguns esturjes so maiores 
do que o comprimento de trs homens altos - observou Jondalar. - Ao ver o 
equipamento de pesca, joguei a linha, mas no tive sorte. Apanhei um! Ou 
melhor, um enorme esturjo me apanhou. Porque a linha estava amarrada  
canoa, e quando o peixe comeou a nadar, me levou junto com ele. Perdi os 
remos e fiquei sem controle. Peguei a faca, para cortar a linha, mas a canoa 
bateu em alguma coisa e a derrubou da minha mo. O peixe era forte e veloz. 
Ele tentou mergulhar, e quase me fez mergulhar umas duas vezes. Tudo o 
que podia fazer era me segurar, en quanto o peixe me puxava rio acima.
        "O que voc fez?" "At onde foi?" "Como conseguiu parar?", 
indagaram algumas vozes.
        - Acontece que o anzol machucou o peixe, e fazia com que ele 
sangrasse. Finalmente, cansou, mas j tinha me arrastado por grande parte 
do rio e bem longe correnteza acima. Quando ele desistiu de lutar, ns 
estvamos num brao que formava um remanso com um banco de areia. 
Saltei e nadei para a terra, agradecido por sentir algo slido sob os meus 
ps...
        -  uma boa histria, Jondalar, mas o que isso tem a ver com os 
cabeas chatas? - quis saber a Zelandoni da Dcima Quarta.
Ele sorriu para ela, dando-lhe toda a ateno.
        - Eu j vou chegar l. Eu estava em terra, mas molhado e tremendo de 
frio. No tinha faca para cortar lenha, nada para fazer uma fogueira, a 
maior parte da vegetao do solo era mida, e eu j estava gelando. De 
repente, parado  minha frente, estava o tal cabea-chata. Ele tinha um 
incio de barba, e por isso pude perceber que no podia ser muito velho. Ele 
fez um sinal para segui-lo, embora, a princpio, eu no tivesse certeza de sua 
inteno. Ento, notei fumaa na direo em que ele estava indo, eu o segui 
e ele me conduziu a uma fogueira - narrou Jondalar.
        - No teve medo de ir com ele? Voc no sabia o que ele queria - 
observou uma outra voz. Jondalar percebeu que mais gente havia se juntado 
ao grupo. Ayla tambm estava ciente da crescente multido.
        - Como eu estava com frio, no liguei. Tudo o que eu queria era aquele 
fogo. Eu me agachei, ficando o mais perto possvel dele, e ento senti uma 
pele. Uma fmea apareceu, ela me viu, esquivou-se para trs de um arbusto, 
escondeu-se, e por mais que eu tentasse, no consegui enxerg-la direito. 
Pelo que consegui vislumbrar, acho que ela era mais velha, talvez a me do 
jovem.
        - Depois que, finalmente, me aqueci - prosseguiu Jondalar -, ele me 
conduziu de volta ao barco e ao peixe, de barriga para cima perto da 
ribanceira. No se tratava do maior esturjo que eu j tinha visto, mas no 
era pequeno, tinha altura de pelo menos dois homens. O jovem do Cl pegou 
uma faca e cortou o peixe ao meio, ao comprido. Fez uns gestos para mim, 
que no entendi na ocasio, em seguida envolveu uma metade do peixe numa 
pele de animal, arremessou-a para cima dos ombros, e a levou embora. Nesse 
momento, Thonolan e alguns Homens do Rio chegaram remando contra a 
correnteza e me encontraram.
        Eles me tinham visto ser levado rio acima, e foram  minha procura. 
Quando lhe contei sobre o jovem cabea-chata, exatamente como voc, 
Zelandoni da Dcima Quarta, eles no quiseram acreditar, mas, ento, viram 
a metade do peixe que tinha deixado. Eles no pararam de caoar de mim, 
por eu ir pescar e consegui apenas a metade de um peixe, mas foram 
necessrios trs deles para arrastar essa metade at o barco, coisa que 
aquele cabea-chata conseguiu carregar sozinho.
        - Bem,  uma tima histria de pescador, Jondalar - comentou a 
Zelandoni da Dcima Quarta.
        Jondalar encarou-a com toda a intensidade de seus impressionantes 
olhos azuis.
        - Eu sei que parece histria de pescador, mas garanto que  
verdadeira. Cada palavra dela - afirmou com sincera convico, em seguida 
deu de ombros e acrescentou:
        - Mas no posso culpar voc por duvidar dela.
        - Eu peguei um srio resfriado, depois daquele banho - continuou-, 
enquanto me encontrava no leito, aquecido por uma fogueira, tive tempo de 
pensar nos cabeas-chatas.
        Aquele jovem salvou a minha vida. Pelo menos ele sabia que eu estava 
gelado e precisava me aquecer. Talvez estivesse com tanto medo de mim 
quanto eu estava dele, mas me deu o que eu precisava e, em troca, tirou 
metade do meu peixe. Na primeira vez em que vi cabeas-chatas, fiquei 
surpreso por usarem lanas e vestirem roupas. Depois do encontro com 
aquele jovem descobri que usavam fogo e facas afiadas... e eram muito 
fortes... porm, mais que isso, ele era inteligente. Entendeu que eu estava 
com frio, me ajudou, e, isso, achou que tinha direito a uma parte da minha 
presa. Eu teria lhe dado o peixe, e creio que conseguiria carreg-lo inteiro, 
mas no ficou com todo, fez uma diviso.
        - Interessante - observou a mulher, sorrindo para Jondalar.
        O encanto involuntrio e o carisma do homem indiscutivelmente belo 
contagiou aquela Que Era A Primeira. No futuro, lembraria disso. Ela no 
hesitaria, se pudesse utilizar Jondalar para facilitar o seu relacionamento 
com a Zelandoni da Dcima Quarta. A mulher vinha sendo como uma moita 
de espinhos afiados, desde que ela fora escolhida como Primeira, 
atrapalhando cada deciso e obstruindo as normas que tentava introduzir.
- Eu posso lhes falar a respeito do rapaz de espritos misturados que foi 
adotado pela parceira do Mamuti chefe do Acampamento do Leo, pois foi 
quando aprendi alguns dos sinais deles - prosseguiu Jondalar -, mas acho que 
 mais significativo contar sobre o homem e a mulher, que encontramos 
pouco antes de atravessar a geleira, pois eles vivem perto de...
        -  melhor esperar para contar essa histria depois, Jondalar - 
sugeriu Marthona, que havia se juntado a eles. - Ela deve ser contada para 
mais gente, e esta reunio  para tomar decises sobre o Matrimonial, isto , 
se ningum fizer objeo - acrescentou, olhando diretamente para a 
Zelandoni da Dcima Quarta Caverna e sorrindo docemente. Ela, tambm, 
percebera o efeito que o seu filho cativante causara na mulher mais velha, e 
estava mais do que ciente dos problemas que a Dcima Quarta vinha 
causando  Primeira. Ela mesma fora uma lder, e entendia isso.
        - A no ser que estejam realmente interessados em ouvir toda a 
discusso e os detalhes - disse Joharran para Jondalar e Ayla -, esta pode 
ser uma excelente ocasio para demonstrarem o seu arremessador de 
lanas. Eu gostaria que fizessem isso antes da primeira caada.
Ayla no teria se importado em ficar. Desejava aprender o mximo possvel 
sobre o povo de Jondalar - e, agora, tambm seu -, mas ele ficou ansioso em 
acatar a sugesto. Queria partilhar com todos os Zelandonii a sua arma de 
caa. Eles exploraram o local do acampamento da Reunio de Vero, 
Jondalar saudou amigos e apresentou Ayla.
        Viram-se objeto de ateno, por causa de Lobo, mas j esperavam por 
isso. Ayla queria superar o mais cedo possivel a inquietao inicial. Quanto 
mais cedo as pessoas comeassem a se acostumar em ver os animais, mais 
cedo passariam a aceit-los sem problemas.
        Decidiram-se por uma rea que acharam que serviria para a 
demonstrao do arremessador de lanas, e ento viram um dos jovens que 
haviam ajudado a levantar o arrastador de carga, para manter secas as 
mercadorias que transportavam durante a travessia de rios. Ele era de Tres 
Pedras, a Parte Oeste da Vigsima Nona Caverna dos Zelandonii, tambm 
conhecida como Acampamento de Vero, e tinha viajado com eles o resto do 
caminho. Conversaram um pouco, depois a sua me apareceu e os convidou 
para fazerem uma refeio com eles. O sol j estava e como Ayla e Jondalar 
no haviam comido desde manh cedo, aceitaram com prazer. At mesmo 
Lobo ganhou um osso com um pedao de carne. O convite especial aos dois 
foi estendido para ajudarem na colheita das pinhas durante o outono.
        No caminho de volta ao acampamento deles, passaram pelo grande 
alojamento  da zelandonia. A Primeira estava acabando de sair de l, e parou 
para lhes contar at ento, todos os envolvidos com o Primeiro Matrimonial 
com quem ela havia con versado estavam dispostos a retardar a cerimnia 
at a chegada da Dalanar e os Larjzadonii.
        Os dois foram apresentados a vrios outros membros da zelandonia, e 
o pessoal da Nona Caverna ficou observando com interesse as diferentes 
reaes ao lobo.
        Quando reiniciaram o caminho de volta ao acampamento da Nona 
Caverna, o sol j ia caindo no horizonte com um abrasador dourado 
coruscante em raios
        Resplandecentes atravs das nuvens vermelhas. Ao chegarem  
margem do Rio, que seguia mansamente com poucas marolas naquele ponto, 
prosseguiram correnteza acima at atravessarem o pequeno arroio que se 
juntava a ele. Pararam por um instante, para observar o cu da tardinha se 
transformar em uma ostentao de deslumbrante fulgor, enquanto o 
dourado se transmudava em tons de escarlate que se desvaneciam num roxo 
tremeluzente, e depois se escureciam num azul intenso, ao surgirem os 
primeiros fogos reluzentes no cu. Logo a noite de um preto retinto tornou-
se o pano de fundo para a multido de luzinhas chamejantes que recheavam 
o cu de vero, como um amontoamento concentrado seguindo o seu caminho 
por uma espcie de trilha atravs da abbada acima. Ayla lembrou um verso 
da Cano da Me: "O quente leite da Me estendeu uma trilha no cu 
distante." Era assim que era feito?, perguntou-se, ao virarem na direo das 
bem vindas fogueiras do seu acampamento ali perto.
        Quando Ayla acordou, na manh seguinte, todos os demais pareciam 
j e levantado e sado, e ela sentiu-se incomumente preguiosa. Seus olhos 
estavam acostumados  luz mortia do interior da habitao, e permaneceu 
deitada no rolo de dormir, olhando os smbolos entalhados e pintados na 
slida estaca central de madeira e as manchas de fuligem que j enegreciam 
as beiras do buraco de sada da fumaa, at sentir vontade de verter gua - 
recentemente, sentia a necessidade com mais freqncia.
No sabia onde tinham sido cavadas as fossas de dejetos da comunidade, e 
usou o cesto noturno. Notou que no fora a nica a., utiliz-lo. Eu o 
esvaziarei depois, pensou. Tratava-se de uma das tarefas desagradveis, 
repartida por aqueles que a consideravam um dever, e por quem achava uma 
vergonha se algum percebesse que isso no fora feito recentemente.
        Ao caminhar de volta para o seu rolo de dormir, a fim de sacudi-lo, 
olhou mais atentamente em volta do interior do abrigo do acampamento de 
vero. Surpreendeu-se com o fato de as estruturas terem sido feitas 
enquanto ela e Jondalar estiveram fazendo uma visita, no dia anterior. 
Apesar de ter visto os alojamentos das pessoas que haviam acampado perto 
da rea principal, ela ainda esperava ver tendas de viagem, mas, num 
acampamento de uma Reunio de Vero, a maioria no usava as tendas com 
as quais viajava. Durante a estao quente as tendas de viagem seriam 
usadas por vrias pessoas, nas caminhadas temporrias para caa, para 
juntar produtos, ou acolher visitantes que passassem pelo seu territrio. O 
alojamento de vero era uma estrutura mais permanente, uma habitao 
bastante slida, de formato circular e com os lados na vertical. Embora 
construdos de forma diferente, Ayla percebeu que tinham um propsito 
semelhante aos aloja mentos usados pelos Mamuti em suas Reunies de 
Vero.
        Apesar de estar escuro no interior - a nica iluminao vinha da 
entrada aberta e de uma ocasional rstia de luz solar que encontrava o seu 
caminho atravs das brechas na parede, onde as peas se juntavam - Ayla 
verificou que, alm da estaca central de pinho, a habitao tinha uma parede 
interna feita com placas tranadas com caules planos de junco e pintadas 
com smbo los e animais. Elas eram presas s estacas internas que 
circundavam a central e forneciam um espao cercado relativamente 
grandes que podia ser deixado aberto ou dividido em reas menores com 
divisrias mveis. O cho era coberto por esteiras, feitas de vime, 
compridas varas de junco, folhas de tabua, ou capim, e rolos de dormir 
ficavam espalhados em volta de uma lareira ligeiramente afastada do centro. 
        A fumaa escapava por um buraco acima dela, perto da estaca central. 
        Uma cobertura podia ser ajustada ao buraco, usando- se varas curtas 
presas a ela.
        Ayla ficou curiosa em saber como era feito o restante da estrutura, e 
saiu. Primeiro, olhou em volta da rea de acampamento, composta de vrios 
grandes alojamentos circulares que rodeavam uma lareira central, e depois 
caminhou em Volta da parte externa da habitao. Estacas haviam sido 
atadas juntas, de um modo semelhante ao cercado que fora levantado para 
capturar animais, mas, em vez da construo solta e flexvel capaz de ceder 
quando um animal colidia com ela ou lhe dava marradas, a cerca do 
alojamento de vero era amarrada a bem espacejadas estacas de 
sustentao, feitas de amieiro, fincadas no solo.
        Uma parede de slidas placas verticais feitas de folhas superpostas 
de tabua, que evitavam a chuva, estava presa do lado de fora das estacas, 
deixando um espao arejado entre as paredes externa e interna, para um 
isolamento a mais, tornan do a habitao mais fresca nos dias quentes e, 
com uma fogueira l dentro, mais quente nas noites frias. Isso tambm 
evitava acmulo de condensao de umida de no interior, quando fazia frio 
do lado de fora. O telhado era de sap bastante o era particularmente bem 
feito, mas mantinha a chuva do lado de fora e era necessrio por apenas 
uma estao.
        Partes dos alojamentos tinham sido trazidos com eles, principalmente 
esteiras tranadas, placas, paredes internas e algumas das estacas. Em 
geral, cada pessoa que compartilhava de uma habitao carregava alguns 
pedaos ou peas, mas, a cada ano, a maioria do material era colhido fresco 
na rea circundante. Quando voltavam para casa, no outono, as estruturas 
eram parcialmente desmontadas, para se recuperar as peas reutilizveis, 
mas deixadas de p. Elas raramente resistiam s fortes neves e ventos do 
inverno, e, no vero seguinte, no passavam de runas desmoronadas, que se 
desintegravam e retornavam ao ambiente antes que o mesmo local fosse 
usado novamente para uma Reunio de Vero.
        Ayla lembrou que os Mamuti tinham nomes diferentes para os seus 
acampamentos de vero e para as habitaes de inverno, O Acampamento do 
Leo, por exemplo, era Acampamento de Tabua da Reunio de Vero, mas a 
mesma gente que vivia no Acampamento do Leo vivia l. Perguntou a 
Jondalar se a Nona Caverna tinha um nome diferente para o vero. Ele 
explicou que o local deles era chamado apenas de acampamento da Nona 
Caverna, mas a organizao da Reu nio de Vero dos Zelandonii no era 
exatamente a mesma que havia nos abrigos de pedra, durante o inverno.
        Cada habitao de vero acomodava mais pessoas do que as que 
normalmen te dividiam o amplo espao das estruturas mais permanentes sob 
a enorme laje da Nona Caverna.
        Geralmente, membros da famlia, inclusive aqueles que tinham 
habitaes separadas durante o inverno, compartilhavam um alojamento, 
mas algumas pessoas sequer ficavam no mesmo acampamento. Em vez disso, 
no era incomum algumas passarem o vero com outros parentes ou amigos. 
Por exem plo, jovens mulheres casadas que haviam se mudado para as 
Cavernas de seus parceiros, frequentemente preferiam levar os filhos e 
passar o vero com as mes, irmos ou amigos de infncia, e os seus 
parceiros costumavam acompanh-las.
        Alm disso, mulheres jovens, que teriam os seus Primeiros Ritos 
naquele ano, moravam juntas em uma habitao separada, perto da grande 
habitao central da zelandonia, pelo menos durante a primeira parte do 
vero. Outra habitao prxima era erguida para aquelas que, naquele ano, 
optaram por ser donii-mu lheres, tornando-se disponveis para os rapazes 
que se aproximavam da puberdade.
        A maioria dos jovens que haviam passado da puberdade - e alguns 
homens no to jovens assim - costumavam se juntar em grupos, separados 
dos acampa mentos de suas famlias, e montar alojamentos prprios. Exigia-
se que ficassem na periferia do acampamento, o mais longe possvel das 
muito desejadas jovens que se preparavam para os primeiros ritos. Em 
grande parte os homens no se importavam. Eles gostariam de lanar 
olhares desejosos para as mulheres, mas preferiam a privacidade de ficar 
por conta prpria, para que ningum pudesse reclamar se fossem um pouco 
ruidosos ou arruaceiros. Por causa disso, essas habitaes eram chamadas 
de "alojamentos longes", geralmente abreviados para "alonjamentos". Os 
homens que l ficavam geralmente no tinham parceiras ou estavam entre 
acasalamentos - ou desejavam estar.
        Como Lobo no correu ao seu encontro, quando ela saiu, Ayla sups 
que ele estivesse com Jondalar. No havia muita gente do lado de fora, a 
maioria provavelmente se encontrava em alguma parte da rea central, o 
ponto convergente da Reunio de Vero, mas ela encontrou um resto de ch 
perto da lareira do acampa mento. Percebeu que a lareira no era 
estruturada como uma grande fogueira redonda, porm mais como uma vala. 
Na noite anterior, ela comprovara que mais gente podia se aproximar da 
fogueira, se ela fosse extensa, e toras e galhos mais compridos, cortados ou 
cados, podiam ser usados sem se ter que cort-los em pedaos menores. 
        Enquanto tomava o ch, Salova, a parceira de Rushemar, saiu do 
alojamento dela, trazendo no colo a sua filhinha.
        - Saudaes, Ayla - cumprimentou-a, colocando o beb sobre uma 
esteira.
        - Saudaes, Salova - retribuiu Ayla, aproximando-se para ver a 
criana. Esticou um dedo, para o beb segurar, e sorriu para ele.
        Salova olhou para Ayla, hesitou, e ento perguntou:
        - Voc se importaria de cuidar de Marsola por um instante? Juntei 
material para fazer cestos, e parte dele est de molho no riacho. Eu queria 
apanh-lo e coloc-lo em ordem. Prometi fazer uns cestos para algumas 
pessoas.
        - Eu adoraria cuidar de Marsola - concordou Ayla, sorrindo para ela e 
em seguida virando-se para o beb.
        Salova sentia-se um pouco inquieta perto da estrangeira e desatou 
numa taga relice nervosa.
        - Acabei de aliment-la; portanto, no haver problema. Eu tenho 
muito leite. Dar um pouco para Lorala no  problema nenhum. Lanoga a 
trouxe, on tem  noite. Ela est ficando bonita e rechonchuda, e j sorri. Ela 
no costumava sorrir. Ah, voc ainda no comeu, no  mesmo? Tenho uma 
sobra de sopa de ontem  noite, com timos pedaos de carne de veado. 
Est  sua disposio, se quiser. Foi o que comi esta manh, e ainda deve 
estar quente.
        - Obrigada. Acho que vou tomar um pouco da sopa - disse Ayla.
        - Eu volto j - prometeu ela, e se afastou apressada.
        Ayla encontrou a sopa num enorme recipiente feito de estmago de 
auroque, que fora montado numa armao de madeira e colocado para ferver 
sobre algumas brasas na beira da comprida lareira comunal - as brasas j 
estavam quase se extinguindo, mas a sopa continuava quente. Havia perto 
uma pilha de tigelas de tipos diferentes, algumas com um tranado bem 
apertado, outras de madeira  entalhada, e ainda duas outras mais rasas 
feitas de grandes ossos. Umas  usadas estavam espalhadas onde
as pessoas
as tinham largado. Ayla colheu um pouco de sopa com uma concha feita de 
um chifre curvo de carneiro, e
depois pegou a sua faca de comer. Viu que tambm havia legumes
dentro da sopa bem que j bastante amolecidos.
Sentou-se na esteira ao lado do beb, que estava deitado de costas,
chutando o ar. Alguns dedos rudimentares de veado tinham sido amarrados 
a um dos
tornozelos, e chocalhavam sempre que ela dava pontaps. Ayla terminou a 
sopa,
depois levantou o beb
e, apoiando sua cabea, segurou-o de modo a encar-lo. Quando Salova 
voltou, com um largo cesto achatado cheio de vrias plantas fibrosas,
encontrouAyla falando com o seu beb
e fazendo-o sorrir. Isso sensibilizou a:
jovem me e a fez sentir-se mais descontrada na presena da estrangeira.
- Eu agradeo demais por voc ter cuidado dela, Ayla. Isso me deu uma 
chance de preparar esta coisa - disse Salova.
- O prazer foi meu, Salova. Marsola  um beb adorvel.
- Voc sabia que Levela, a irm mais nova de Proleva, vai se acasalar
no  Primeiro Matrimonial, assim como voc? Ns sempre criamos um vnculo
especial com as pessoas
que se acasalam no mesmo Matrimonial que a gente - acrescentou Salova. - 
Proleva pediu que eu fizesse alguns cestos especiais para a
irmcomo parte de seu presente Matrimonial.
- Voc se importaria se eu ficasse observando voc um pouquinho?  Sei
fazer cestos, mas gostaria de saber como voc os faz - pediu Ayla.
- No me importo, de modo algum. Vou adorar a companhia, e talvez voc 
possa me mostrar como faz cestos. Sempre gosto de aprender novos 
mtodos - concedeu Salova.
As duas jovens mulheres sentaram-se juntas, conversando e comparando
tcnicas de fabricao de cestos, enquanto o beb dormia ao lado. Ayla
gostou do modo como Salova
usava materiais de cores diferentes, e at tranava figurasd de animais e 
vrios desenhos em seus recipientes. Salova achou que as tcnicas de Ayla, 
em criar texturas
diferentes, davam uma magnfica elegncia aos seus cestos aparentemente 
simples. Cada qual sentiu o apreo pela habilidade da outra, e uma pela outra.
Depois de algum tempo, Ayla levantou-se.
- Preciso usar as fossas. Sabe me informar onde elas ficam? Tambm
tenho que esvaziar o cesto noturno. E acho melhor eu lavar essas tigelas - 
acrescento
olhend0 as usadas, que estavam espalhadas. - Depois, vou dar uma olhada 
pos cavalos.
- As fossas ficam para L - informou Salova, apontando na direo alm
do riacho e do acampamento -' e temos lavado os utenslios de cozinhar e de 
comer no final
do riacho, onde ele desgua no Rio. Perto, h areia limpa, para arear. No 
preciso lhe dizer onde esto os cavalos. - Sorriu, ao falar isso. - Ontem, fui 
com Rushemar
olhar os cavalos. A princpio, me deixaram nervosa, mas parecem dceis e 
satisfeitos. A gua comeu grama da minha mo. - Sorriso se tornou um esgar 
e depois um preocupado
franzido de testa. - Espero que esteja tudo bem. Rushemar disse que 
Jondalar lhe falou que estava.
- Claro que est tudo bem. Vai deix-los mais  vontade, se conhecerem as 
pessoas com quem convivem - afirmou Ayla.
Ela no  to estranha, pensou Salova, ao ver Ayla partir. Fala um pouco es 
quisito, mas  muito gentil. O que ser que a fez pensar que poderia levar 
aqueles animais
a fazerem o que ela queria? Nunca imaginei que, um dia, eu pudesse ali 
mentar um cavalo com grama em minha prpria mo.
Aps lavar as tigelas e empilh-las perto da vala com fogo, Ayla achou que 
seria melhor ir nadar e se lavar um pouco. Seguiu de volta para o alojamento, 
sorriu para
Salova e o beb, e entrou. Tirou a macia pele de enxugar do balaio de viagem, 
e depois escolheu uma roupa. No tinha muitas, mas eram mais do que 
aquelas com as
quais havia chegado. Embora as tivesse lavado, no queria vestir, a no ser 
para trabalho, as roupas gastas e manchadas que usara na longa Jornada.
As roupas que vestira, na recente caminhada at a Reunio de Vero, eram 
aquelas que havia guardado para usar quando conhecesse o povo de Jondalar, 
mas mesmo essas
j eram bem gastas e tinham a sua quota de manchas. Tambm havia a roupa 
de baixo de inverno de rapaz, que Marona e as amigas haviam lhe dado, mas 
ela sabia que
no seria adequada. Claro que tinha a sua veste Matrimonial, mas essa seria 
guardada, como tambm a linda roupa para ocasies especiais, que lhe fora 
presenteada
por Marthona. Restavam algumas poucas coisas que Marthona e Folara 
haviam lhe dado. Eram estranhas para ela, mas achava que deviam ser 
adequadas.
Antes de deixar o alojamento, percebeu a sua manta de montar dobrada ao 
lado do rolo de dormir, e tambm decidiu lev-la. Saiu em seguida para ver 
os Cavalos. Huiin
e Racer ficaram contentes em v-la e se comprimiram mais perto dela, para 
conseguir a sua ateno. Ambos usavam cabrestos com uma longa trela 
amarrada a uma slida
rvore; ela os retirou e os colocou na bolsa, depois amar rou a manta em 
Hujin, montou-a e rumou correnteza acima.
Os cavalos estavam animados e partiram a galope, contentes com a 
liberdade. O sentimento deles foi comunicado a Ayla, que os deixou 
seguirem no seu prprio
ritmo. Ela ficou particularmente contente ao chegar ao prado prximo ao 
lago e ver Lobo correr na direo deles. Isso queria dizer que Jondalar 
estava por perto.
Pouco depois de Ayla ter sado, Joharran chegou ao acampamento e pergun 
tou a Salova se a tinha visto'.
- Ns estivemos fazendo cestos juntas - informou. - Quando a vi pela ltima 
vez, estava indo na direo dos cavalos. Disse que precisava dar uma olha da 
neles.
- Vou atrs dela, mas, se voc a encontrar, pode dizer que a Zelandoni quer 
falar com ela?
- Claro - concordou Salova, tentando imaginar o que a donier queria. De pois, 
deu de ombros. Ningum seria capaz de lhe dizer o que a Primeira queria.
Ayla viu Jondalar sair de trs de alguns arbustos, com um sorriso de 
surpresa no rosto. Ela estacou, escorregou para o cho e correu para os 
braos dele.
- O que faz aqui? - quis saber ele, depois do abrao afetuoso. - No dis se a 
ningum que viria para c. Vim caminhando riacho acima, e, ao chegar aqui, 
lembrei
da rampa coberta de pedras soltas atrs do lago, e resolvi dar uma olhada, 
para ver se tinha slex.
- E tem?
- Tem. No  da melhor qualidade, mas  aproveitvel. O que a fez resolver 
vir at aqui?
- Acordei me sentindo preguiosa. No havia quase ningum por perto, 
exceto Salova e o beb. Ela me pediu para cuidar de Marsola enquanto ia 
pegar material para
fazer cestos. Que beb maravilhoso, Jondalar. Ns conversamos um pouco e 
tranamos alguns cestos, depois resolvi vir nadar e levar os cavalos para 
passear. E encontrei
voc. Que agradvel surpresa - exultou, sorrindo.
- Uma agradvel surpresa para mim tambm. Vou nadar com voc. Estou 
cheio de poeira, de ficar arrastando pedras, mas, antes, preciso recolher as 
pedras que achei
e traz-las para c. Depois, veremos - manifestou-se, com um sorriso 
convidativo Deu-lhe um lento e prolongado beijo - Talvez seja melhor eu me 
preocupar com as
pedras depois.
- V logo apanh-las, para no ter que se livrar da poeira duas vezes. Eu 
pretendia mesmo lavar os cabelos. Foi uma longa e poeirenta caminhada at 
che garmos
aqui - lembrou Ayla.
Quando Joharran chegou ao local onde os cavalos tinham estado, ficou bvio 
que haviam sido levados. Os dois devem ter ido fazer uma de suas 
demoradas  cavalgadas,
pensou ele, e a Zelandoni precisa muito falar com Ayla. Willamar tambm 
queria falar com eles. Jondalar sabe que tero muito tempo sozinhos, 1 
depois do Matrimonial,
e ele devia se dar conta de que h muitas questes impor
tantes a serem resolvidas no incio de uma Reunio de Vero, pensou 
Joharran, um pouco irritado por no encontr-los. E no ficou nada contente 
quando a donier o
viu por acaso, ao procurar algum para ir cham-los. Afinal de contas, ele 
tinha coisas mais importantes para fazer do que ficar atrs do seu irmo, 
mas achou que
no podia exatamente recusar um pedido da Zelandoni.
Olhou para baixo e viu os rastros frescos dos cavalos. Ele era um 
rastreador experiente para no perceber a direo que haviam tomado, e 
sabia que no teriam se
afastado muito do acampamento. Aparentemente, tinham seguido riacho aci 
ma. Lembrou do pequeno vale agradvel na cabeceira do pequeno arroio, com 
o lago alimentado
pela nascente e o prado verdejante. Provavelmente, foram para l, deduziu, 
sorrindo consigo mesmo. Como fora enviado em uma misso para en contr-
los, no voltaria
sem eles.
Seguiu o riacho, conferindo os rastros enquanto avanava, para ter certeza 
de que no haviam mudado de direo, e quando viu os cavalos adiante, 
pastando contentes,
soube que os encontrara. Ao atingir a moita de ps de avel, alguns com a 
altura de rvores, olhou atravs deles e, vendo apenas Ayla, ficou imagi 
nando onde estaria
o seu irmo. Quando chegou  margem arenosa, Ayla tinha acabado de 
mergulhar, e ele a chamou quando ela emergiu para respirar.
- Ayla, eu estava  procura de vocs.
Ayla jogou os cabelos para trs e esfregou os olhos.
- Oh, Joharran,  voc - falou com um tom de voz que ele no soube iden 
tificar direito.
- Voc sabe onde est Jondalar?
- Sei, ele andou procurando slex no monte de pedras atrs do lago, e foi 
buscar as pedras que encontrou. Depois, viria tomar banho comigo - respon 
deu, um pouco
embaraada.
A Zelandoni est  sua procura e Willamar quer falar com vocs dois - 
avisou Joharran.
- Ah - fez ela, parecendo um pouco decepcionada.
Joharran estava acostumado a ver mulheres sem roupas. A maioria delas ba 
nhava-se no Rio todas as manhs de vero, e ali se lavavam durante o inverno. 
A nudez em
si no era considerada especialmente sugestiva. As mulheres usavam roupas 
ou acessrios especiais, com a inteno de serem convidativos, quando 
queriam mostrar interesse
por um homem, ou ento se comportavam de certa maneira, principalmente 
em um festival para honrar a Me. Quando, porm, Ayla Comeou a sair da 
gua, ocorreu a Joharran
que ela e o seu irmo deviam ter ou tros planos, que ele interrompeu. O 
pensamento fez com que prestasse ateno no seu corpo, quando saiu da 
gua e se aproximou
dele.
 425
Os grandes seios ainda tinham a firmeza dos de uma jovem, e ele sempre 
achou atra ente uma mulher com a barriga ligeiramente arredondada. 
Marona sempre
fra considerada
a Beldade do Bando, pensou ele, e no admirava que tivesse antipa tizado 
com Ayla desde o incio. Ela ficou com uma tima aparncia, naquela rou pa 
de baixo de inverno
que foi levada a vestir, mas aquilo era nada comparado a v-la como 
realmente era. Marona no se comparava a Ayla. O meu irmo 
um homem de sorte, pensou. Ayla
 uma mulher atraente, vai concentrar as atenes nos Festivais da Me e 
no sei como Jondalar vai encarar isso.
Ayla olhou-o com uma expresso intrigada, o que o fez dar-se conta de que 
a' estava examinando. Enrubesceu levemente, desviou a vista e viu o irmo 
que che gava 
com uma pesada carga de pedras. Aproximou-se para ajud-lo.
- O que faz aqui? - indagou Jondalar.
- A Zelandoni quer falar com Ayla, e Willamar deseja conversar com vocs 
dois - explicou Joharran.
- O que a Zelandoni deseja? Isso no pode esperar? - quis saber Jondalar.
- Ela no parece pensar assim. E tambm no foi o modo como
passar o meu dia, procurando o meu irmo e a sua Prometida. No se 
preocupe, Jondalar - disse Joharran com um sorriso cmplice. - Voc s 
ter que esperar um pouco. 
E vale a pena esperar por ela, no  mesmo?
Jondalar comeou a protestar e negar as insinuaes dele, mas depois 
relaxou e sorriu.
- Eu esperei muito tempo para encontr-la - disse ele. - Bem, j que est 
aqui, poder me ajudar a levar essas pedras Mas quero dar um mergulho e 
me limpar um pouco.
- Por que no deixa as pedras aqui, por enquanto? Elas no vo fugir, e com 
isso ter uma desculpa para voltar depois - sugeriu Joharran. - E estou 
certo de que 
tero tempo para nadar... se isso  tudo o que vocs fazem.
Era quase metade do dia quando Ayla, Jondalar e Lobo chegaram  rea prin 
cipal do acampamento, e, pela aparncia de descontrada satisfao dos dois, 
Joharran desconfiou 
que, aps ter ido embora, eles haviam encontrado tempo para algo mais do 
que um rpido mergulho. Ele informou  Zelandoni que os havia encontrado, 
dado o recado 
dela e dito ao irmo para se apressar. No era culpa dele, se Jondalar andou 
vadiando, nem podia censur-lo por isso.
Vrias pessoas da Nona Caverna haviam se reunido em volta do comprido 
braseiro de cozinhar, perto do alojamento da zelandonia, e assim que Ayla 
se apro ximou da 
entrada, fazendo ver  donier que ela tinha chegado, a grande mulher
tocou a testa as tatuagens caractersticas Daqueles Que Serviam A Me.
- A est voc, Ayla - exclamou a Zelandoni ao v-la. - Passei a manh
inteira  sua espera.
- Ns estvamos riacho acima do acampamento, quando Joharran nos encon 
trou. Eu queria levar os cavalos para passear e dar uma escovada na pelagem 
deles. Eles ficam
nervosos com muitas pessoas por perto, at se acostumarem a elas, e se 
acal mam ao serem escovados, e eu tambm queria nadar e me limpar um 
pouco, depois ja caminhada
que fizemos at aqui - explicou Ayla. Tudo o que ela disse era a pura 
verdade, embora no tivesse includo todas as suas outras atividades.
A donier comprovou que ela estava limpa e vestida com as roupas Zelandonii 
que Marthona lhe dera; em seguida, olhou para Jondalar, que tambm 
parecia re ftescado
e limpo, e levantou as sobrancelhas, com um olhar sabedor. Joharran ob 
servava Aquela Que Era A Primeira e a mulher que o irmo trouxera consigo, 
e percebeu que
a Zelandoni fazia uma boa idia do que os retardara, e que Ayla no 
aparentava se importar por no ter se apressado. A grande mulher tinha um 
porte autoritrio,
e ele sabia que ela intimidava, mas no parecia atemorizar a estrangeira.
- Estamos fazendo uma pausa para uma refeio - falou a Zelandoni, cami 
nhando em direo ao grande braseiro de cozinhar, forando Ayla a acompa 
nh-la. - Foi Proleva
quem fez os preparativos, e acaba de nos informar que tudo est pronto. 
Talvez queira se juntar a ns. Isso me dar uma chance de conversar com 
voc. Est com uma
de suas pedras-de-fogo?
- Estou. Sempre carrego comigo apetrechos para fazer fogo - disse Ayla.
- Eu gostaria que voc demonstrasse para a zelandonia a sua nova tcnica de
fazer fogo. Creio que deve ser apresentada s pessoas, mas  importante
que seja mostrada
da maneira certa, com os rituais apropriados.
- No precisei de nenhum ritual para mostrar a Marthona ou a voc. No  
difcil, depois que se aprende como se faz - alegou Ayla.
- No, no  difcil, mas se trata de uma nova e poderosa tcnica, e isso 
pode ser perturbador, principalmente para as pessoas que no aceitam 
facilmente uma mudana
e resistem a ela - justificou a donier. - Voc deve conhecer gente assim.
Ayla lembrou do Cl, com sua vida baseada na tradio, a relutncia em 
mudar, e a inabilidade para lidar com idias novas.
- Sim, conheo gente assim - confirmou. - Mas as pessoas que conheci 
recentemente parecem gostar de aprender coisas novas.
Todos os Outros que Ayla conheceu pareciam se adaptar facilmente a mu 
danas em suas vidas, a prosperar com as inovaes. Ela no se dera conta 
de que podia haver
quem no ficasse  vontade com modos diferentes de se fazerem as
426
 427
coisas, que realmente resistia a eles. Isso lhe deu um estalo repentino e 
franziu a testa ao meditar sobre aquilo. Podia explicar certas atitudes e 
incidentes que
a haviam intrigado, do tipo por que algumas pessoas pareciam to relutantes 
em aceitar a idia de que o Cl era gente. Como a tal Zelandoni da Dcima 
Quarta Caverna, 
que continuava a cham-los de animais. Mesmo depois das explicaes de 
Jondalar, ela agiu como se no acreditasse nele. Acho que ela no quer 
mudar de opinio.
-  verdade. A maioria gosta de aprender uma maneira melhor ou mais 
rpida de fazer uma coisa, mas, s vezes, depende de como isso  
apresentado - argumentou a Primeira. 
- Por exemplo, Jondalar ficou fora um longo tempo. Ele amadureceu, 
enquanto esteve longe e aprendeu muitas coisas novas, mas as pessoas que 
ele conhece no estavam 
presentes para ver isso; portanto, algumas ainda pensam nele do modo como 
era, quando partiu. Agora que retornou, est vido para compartilhar o que 
aprendeu e descobriu, 
o que  louvvel, mas ele no aprendeu tudo de uma s vez. Mesmo a nova 
arma dele, uma valiosa ferra menta de caa, requer prtica para ser usada. 
Aqueles que tm 
sido bem-sucedi dos com as armas que conhecem talvez no estejam 
dispostos a fazer o esforo necessrio para aprender a usar uma nova, 
embora no haja dvidas de 
que, al gum dia, ela ser usada por todos os caadores.
- Sim, o arremessador de lanas requer prtica - concordou Ayla. - Ns 
sabemos disso agora, mas, no incio, tambm tivemos que nos esforar.
- E isso  apenas uma coisa - continuou a donier, ao apanhar um prato, 1 
feito com a escpula de um veado, e colocar nele algumas fatias de carne. - 
Que tipo de 
carne  essa? - perguntou a uma mulher parada ali perto.
-  de mamute. Uns caadores da Dcima Nona Caverna foram ao norte, 
numa viagem de caa, e pegaram um mamute. Eles resolveram repartir um 
pou co. Eu soube que eles 
tambm pegaram um rinoceronte lanudo.
- H muito tempo que no como mamute - comentou a Zelandoni. - Vou 
apreciar bastante.
- J provou mamute? - perguntou a mulher a Ayla.
- J - respondeu. - Os Mamuti, o povo com quem vivi antes, eram
conhecidos como caadores de mamutes, embora caassem outros animais. 
Mas j faz algum tempo que 
no como. Eu, tambm, vou rue deleitar.
A Zelandoni pensou em apresentar Ayla  mulher, mas, quando comeava, 
no parava mais, e ainda queria falar sobre a cerimnia de uso da pedra-de-
fogo. Virou-se para 
Ayla, enquanto acrescentava ao prato pores de cenoura brava e vagens, 
alm de uma verdura cozida, urtiga, deduziu ela, misturada com esponjo sos 
pedaos de chapu 
marrom de cogumelo boleto.
- Jondalar tambm trouxe voc e seus animais, Ayla. Deve perceber o 
quanto isso  espantoso. As pessoas tm caado cavalos e os tm observado 
com outros cavalos, 
mas nunca viram cavalos se comportarem como os seus. No incio, d medo 
ver esses cavalos irem aonde voc quer, ou o seu lobo atravessar um acam 
pamento cheio de 
gente e fazer o que voc manda - disse ela, admitindo especi ficamente a 
presena de Lobo, pela primeira vez, ainda que certamente j o tivesse 
Visto por ali. Ele 
emitiu um pequeno latido, quando ela o olhou.
Tratava-se de um costume que o lobo e a mulher haviam desenvolvido e que 
muito surpreendia Ayla. Nem sempre a Zelandoni tomava conhecimento de 
Lobo, quando o via, 
e ele tambm a ignorava. Entretanto, quando ela admitia sua pre sena, o 
animal reagia com um latido curto. Ela no o tocava freqentemente, exceto, 
de vez em quando, 
por uma festinha na cabea, mas, em raras ocasies, Lobo colocava a sua
mo entre os dentes, nunca deixando qualquer marca. Ela sempre permitia
isso, dizendo apenas 
que os dois se entendjam. Para Ayla, pare cia que sim, ao modo deles.
- Sei que voc afirma que qualquer um  capaz de fazer isso, desde que crie 
um animal desde filhote, e pode ser verdade, mas as pessoas no sabem 
disso. S conseguem 
ver isso como algo que no  natural neste mundo. Estou realmente surpresa 
pelo modo como elas tm aceito to bem os animais, mas se trata de uma 
aceitao desconfortvel. 
Isso leva tempo. E, agora, queremos mostrar a elas algo mais que vocs 
trouxeram e que ningum viu antes. As pessoas ainda no a conhe cem, Ayla. 
Tenho certeza de 
que vo querer usar a pedra-de-fogo, assim que virem como ela funciona, 
mas podem ficar com medo. Acredito que isso deve ser encara do como um 
Dom da Me, algo que 
pode ser feito, se primeiro for entendido e aceito pela zelandonia, e 
apresentado com o ritual apropriado - falou a donier.
O jeito como ela explicou parecia inteiramente lgico, mas, num canto 
secreto de sua mente, Ayla percebeu o quanto a Zelandoni era persuasiva.
Explicando desse modo, eu entendo - concedeu Ayla. -  claro que VOU 
mostrar para a zelandonia como funciona a pedra-de-fogo, e ajudar voc em 
qualquer ritual que 
ache necessrio.
Juntaram-se  famlia de Jondalar e a algumas das pessoas da Nona Caverna 
que estavam sentadas com gente de outras Cavernas. Depois da refeio, a 
Zelandoni levou 
Ayla para um canto.
- Voc pode deixar o lobo do lado de fora do alojamento por uns momen 
tOs? Acho importante a concentrao no ato de fazer fogo, e receio que 
Lobo possa ser uma distrao 
- justificou.
- Estou certa de que Jondalar no vai se importar em ficar com ele - con 
cedeu Ayla, virando-se para olh-lo. Jondalar fez que sim, e, quando ela se 
levan
r
tou para sair, mandou que Lobo ficasse com ele, fazendo tambm sinais com 
as mos, embora no fossem percebidos pela maioria das pessoas. O sol da 
metade do dia
era brilhante, o que fez o interior do alojamento da zelandonia parecer 
escuro, apesar de haver muitas lamparinas acesas. Os olhos dela se 
adaptaram ra pidamente,
mas, quando a Primeira se levantou para comear a falar, a Zelandonj da 
Dcima Quarta Caverna objetou.
- Por que ela est presente? - quis saber a da Dcima Quarta. - Ela pode ser 
uma mulher Zelandonii, mas no  membro da zelandonia. Trata-se de uma 
forasteira, e
no pertence a esta reunio.
24
Aquela Que Era A Primeira Entre Aqueles Que Serviam  Me reprimiu um
suspiro de frustrao. No iria demonstrar qualquer sinal bvio de sua
irritao e fazer com que a alta
e magra Zelandoni da Dcima Quarta tivesse a
satisfao de saber o quanto a irritava. Mas a questo provocou franzidos 
de testa olhares de desaprovao em alguns dos outros membros da 
zelandonia, e um so riso
afetado do aclito da Quinta Caverna, sem os incisivos centrais.
- Tem razo, Zelandoni da Dcima Quarta - concordou a Primeira. 
Forasteiros, aqueles que no fazem parte da zelandonia, no costumam ser 
conV dados para esses encontros.
Esta  uma reunio daqueles que tm tido alguma experincia com o mundo 
dos espritos, daqueles que foram chamados, e
aclitos, que se revelaram promissores e esto em treinamento. Foi por isso
que  convidei Ayla. Vocs sabem que ela  uma pessoa que cura. E foi de 
grande
ajuda para Shevonar,
o homem que foi pisoteado por um biso em disparada, durante a ltima 
caada da comunidade - afirmou a donier.
- Shevonar morreu, e no sei o quanto ela o ajudou, pois no o examinei.
- alegou a da Dcima Quarta. - H muita gente que possui algum
conhecimento  sobre certos remdios. Quase todo mundo sabe, por exemplo,
auso  da casca de salgueiro
e sua habilidade em deter as dores de um leve padecimento
- Eu lhe garanto que ela sabe muito mais do que o uso da casca de
salgueiro,
- retrucou Aquela Que Era A Primeira. - Um dos nomes e laos do povc nor 
dela  Filha do Lar do Mamute. O Lar do Mamute dos Mamuti  i zelandonia, 
eles so Os Que
Servem  Me.
- Est dizendo que ela  uma Zelandoni dos Mamuti? Cad a tatUagem
dela? - a questo foi levantada por uma mulher mais velha, com cabelos 
brancos e olhos inteligentes.
- A tatuagem dela, Zelandoni da"Dcima Nona? , perguntou a grande mulher, 
e pensou: o que a da Dcima Nona
sabia que ela no sabia? Ela era uma Zelandofli experiente
e confivel, que aprendera bastante em sua longa vida. Era uma pena que 
viesse tendo tantos problemas com a artrite nos ltimos anos. Aproximava-
se a poca em que
ela no mais Conseguiria andar at as Reunies de Vero. Se naquele ano a 
reunio no fosse to perto da Dcima Nona, talvez no tivesse podido 
comparecer.
- Eu sei a respeito dos Mamuti. Jerika dos Lanzadonii viveu com eles por 
uns tempos, quando era jovem e ainda viajava com a me dela e o homem da 
sua lareira na
longa jornada deles. Num vero, muitos anos atrs, quando ela estava 
grvida de Joplaya, teve um problema e eu a atendi. Ela me contou sobre os 
Mamuti. Os doniers
deles tambm so marcados com tatuagens no rosto, em bora no muito 
parecidas com as nossas. Portanto, se Ayla  a mesma coisa que uma 
Zelandoni, onde est a sua
tatuagem?
- Ela estava em treinamento, mas no o completou, quando partiu de l para 
vir com Jondalar. Ela no  o mesmo que uma Zelandoni,  mais do que uma 
aclita, porm
com mais conhecimento sobre cura do que a maioria. Alm do mais, ela foi 
adotada pelo Lar do Mamute, pelo Mamut Que Era Primeiro, porque ele viu o 
seu potencial
- elucidou a Primeira.
- Voc a est apadrinhando para se tornar uma aclita da zelandonia? - quis 
saber a da Dcima Nona. Embora raramente se pronunciassem, surgiram 
alguns murmrios
abafados entre os aclitos presentes.
Ainda no Ainda no perguntei a ela se deseja prosseguir em seu treina 
mento respondeu a Primeira
Ayla sentiu uma pontada de consternao. Apesar de no se importar em 
Conversar sobre cura com alguns deles, ela no desejava se tornar uma 
Zelandoni. Queria apenas
se acasalar com Jondalar e ter filhos, e percebeu que poucas mulheres que 
faziam parte da zelandonja tinham parceiros ou filhos. No que no
Pudessem se acasalar, se quisessem, mas, ao que parecia, havia tantas 
outras coisas aexigir seu tempo e ateno, quando se encontravam a servio 
da Grande Me
, que no tinham tempo para ser mes.
Ento, por que ela est aqui? - insistiu a da Dcima Quarta. Um punhado de 
cabelos grisalhos soltara-se do pequeno coque atrs da cabea, mais para
do  que para o outro, dando-lhe uma aparncia descuidada e desgrenhada.
Uma Pessoa gentil teria, com todo o tato, sugerido que ela arrumasse o 
cabelo
antes de Sair, mas
a Primeira nem sonharia em fazer isso. A beligerante Zelandoni entendia 
como crtica tudo o que ela dizia.
- Eu a convidei porque quero que ela lhes mostre algo que vo achar muito
interessante.
-  sobre os animais que ela controla? - indagou outro donier.
A Primeira sorriu. Pelo menos algum se dispunha a admitir que Ayla tinha 
algumas habilidades incomuns que poderiam ser teis  zelandonia.
- No, Zelandoni da Poro Sul da Vigsima Nona Caverna. Isso talvez 
pudesse motivar uma outra reunio, mas, desta vez, ela tem algo para vocs 
ve rem. - Embora
o Zelandoni da Poro Sul da Vigsima Nona fosse um assisten te do 
Zelandoni principal da Vigsima Nona, ele s no poderia falar por toda Trs 
Pedras. Tratava-se
de um Zelandoni habilitado, em seu pleno direito, e a Primeira sabia que ele 
era um bom curador. Tinha o mesmo direito de falar que qualquer outro 
donier.
Ayla notou que Aquela Que Era A Primeira se dirigia aos membros da 
zelandonia usando todos os seus ttulos, o que, s vezes, era algo muito 
demorado, pois eles
incluam as palavras de contar de suas Cavernas, e isso soava muito formal e 
importante. Ocorreu-lhe, ento, que o nico modo de diferenciar um do 
outro era atravs
das palavras de contar. Eles tinham renunciado aos seus no mes, e todos se 
chamavam "Zelandoni". Ayla concluiu que eles haviam
trocado os seus nomes por palavras de
contar.
Quando vivia em seu vale, ela fazia uma marca em uma vara para cada dia 
que passava ali. Por ocasio da chegada de Jondalar, Ayla tinha um feixe de 
varas cheias
de marcas. Quando ele usou as palavras de contar para calcular as marcas 
cortadas e poder dizer a ela h quanto tempo estava vivendo no vale, aquilo 
lhe pareceu
uma mgica to poderosa, que chegava a ser amedrontadora. Depois que ele 
lhe ensinou as palavras de contar, ela se deu conta de que eram muito 
importantes e de
e de grande valor para os Zelandonii. Agora, percebia que, pelo menos entre 
Aqueles Que Serviam  Me, elas eram mais importantes do que nomes, e 
sua utilizao pelos
mem bros da zelandonia fornecia-lhes a essncia daqueles poderosos 
smbolos.
A Primeira fez um gesto na direo de Jonokol.
- Primeiro Aclito da Nona Caverna, poderia usar areia para apagar a 
fogueira? E, Primeiro Aclito da Segunda Caverna, poderia apagar todas as
lamparinas?
Ayla reconheceu os dois aclitos a quem a Primeira pediu ajuda. Eles haviam 
servido de guias, quando ela visitou a caverna profunda com os animais 
pintados nas paredes,
em Pedras da Fonte. Ouviu comentrios e indagaes de curiosidade 
partirem do grupo, que sabia que a Primeira os preparava para algo 
espetacular. A maioria dos mais
velhos e mais experientes dispunha-se a criticar. Eles conheciam
e    entendiam as tcnicas e o impacto de apresentaes espetaculares, e 
estavam resolvidos
a no
se deixar iludir facilmente por truques ou simulaes.
Apagadas todas as chamas, ainda havia luz suficiente para se enxergar, por 
causa dos ocasionais raios de sol que se infiltravam aqui e ali. O alojamento 
no estava
totalmente s escuras. Ayla olhou ao redor e percebeu que penetrava luz, 
principalmente em volta do contorno da entrada, apesar de estar fechada, e 
em torno de outro
acesso menos bvio, quase diretamente do lado oposto a ela. Mais tarde, 
pensou, caminharia
em volta da parte externa do espaoso alojamento da zelandonia, para ver
se conseguia descobrir a segunda entrada.
A Primeira sabia que essa demonstrao seria muito mais impressionante  
noite, quando a
escurido era total, mas isso no faria muita diferena para aqueles que ali
se encontravam.  Eles entenderiam imediatamente as possibilidades.
- Algum gostaria de vir at aqui, e verificar que o fogo da lareira est com 
pletamente extinto? - sugeriu ela.
A da Dcima Quarta rapidamente se ofereceu. Manipulou cuidadosamente a 
areia e enfiou os
deddos nos poucos lugares ainda quentes, e depois levantou-se para 
anunciar:
- A areia est seca em alguns lugares, mas o fogo est extinto e no
h brasas.
- Ayla, pode me dizer do que precisa para acender uma fogueira? - pediu a 
Primeira.
- Tenho quase tudo aqui - afirmou retirando o estojo de fazer fogo que 
usara frequentemente em sua
Jornada Mas  preciso uma isca; serve quase tudo que pega fogo
rapidamente: por exemplo palha felpuda, ou madeira podre de um tronco 
velho, desde que esteja seca e principalmente, seja resinosa. Depois,  bom 
ter por perto pequenas
lascas e,  Llaro, pedaos maiores de madeira.
Seguiu-se um burburinho, e a Primmeira captou algumas palavras irritadas. 
Eles no precisavam de uma lio de
comofazer fogo, diziam. Desde criana, todo mundo sabia como
fazer fogo. timo, pensou ela, sentindo-se muito contente. Que 
resmunguem. Eles apenas pensam que sabe a respeito de se fazer fogo.
Vai acender uma fogueira para ns, Ayla? - falou   a Zelandoni lder.
Ayla afofara um pequeno monte de talos de palha lpuda, para servir de isca, 
e tinha um pedao de pinta na mo esquerda, e, na dijeita, um riscador de 
slex, mas
eles no eram visveis. Golpeou a pedra-de-fog viu uma boa fasca pousar na 
palha, soprou-a para lhe dar vida, e
acrescentou algumas lascas. Em menos tempo do que ela
levaria para explicar aquilo, a fogueira estava acesa.
Seguiram uns oohs involuntrios e comentrios do tipo "Como ela fez isso?", 
e ento, Zelandonj da Terceira Caverna pediu:
- Voc pode repetir isso?
Ayla sorriu-lhe. O velho homem fora to gentil e dera-lhe todo o apoio,

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durante a tentativa de ajudar Shevonar, que ela ficou contente ao v-lo.
Esperou um pouco, acendeu outra fogueira, ao lado da primeira e no interior 
do circulo de pedras que definia a lareira, e, sem que tivessem pedido, 
acendeu uma terceira.
- Muito bem, como ela faz isso? - perguntou um homem  Primeira. Ayla 
nunca o tinha visto.
- Zelandoni da Quinta Caverna, j que foi ela quem descobriu, ela explicar 
isso - props a Primeira.
Ayla deu-se conta de que era o Zelandoni da Quinta Caverna, que j havia 
partido para a Reunio de Vero quando pararam no Vale Antigo. Ele era 
mais novo, um homem 
de
meia-idade com cabeklos castanhos e rosto redondo, o que tambm definia o 
seu corpo. Tudo nele era de tini suave arredondado, e o rosto carnudo fazia 
com que os 
olhos
parecessem pequenos mas ela sentiu neles uma astuta inteligncia. Ele podia 
ver que talvez houvesse
um benefcio em sua tc nica de fazer fogo, e no era orgulhoso demais
para perder. Ela ento lembrou que o aclito sem os incisivos centrais, de 
quem Jondalar
no gostava e fora amea ado por Lobo, tambm era da Quinta Caverna.
- Primeiro Aclito da Segunda, poderia acender novamente as lamparinas,
e,  Ayla, poderia demonstrar para a zelandonia como se faz fogo? - a grande 
mulher, pelejando
para no demonstrar auto-satisfao Percebeu que Jonokol, o seu aclito, 
sorria encantado. Ele adorava ver a sua mentora tripudiar' o resto da 
zelandonia sbia, 
astuta,
inteligente, resoluta e, por vezes, arrogante.
- Eu utilizo uma pedra-de-fogo, e bato nela com um pedao de slex. Ayla 
levantou ambas as mos e mostrou a pinta-de-ferro numa e o slex na
outra.
- Eu j vi esse tipo de pedra - afirmou a Zelandoni da Dcima Quarta, ' 
apontando para a mo que segurava a pinta.
- Espero que consiga se lembrar onde - observou a Primeira. - Ainda no 
sabemos se so raras ou se h bastante por aqui.
- Onde encontrou esse tipo de pedra? - perguntou o da Quinta a Ayla.
- Encontrei as primeiras num vale muito distante, para o leste. Jondalar e eu 
procuramos mais, a caminho daqui Talvez no houvesse onde procuramos, 
mas s viemos
encontrar mais depois que chegamos aqui. H poucos dias, achei algumas, 
perto da Nona Caverna - explicou Ayla.
- E vai nos mostrar como funcionam? - quis saber uma loura alta
- Foi isso o que ela veio fazer aqui, Zelandoni da Segunda Caverna - fri sou a 
Primeira.
Ayla sabia que no fora apresentada quela Que Servia  Me da Segunda 
Caverna, mas havia nela algo familiar. Lembrou-se, ento, do amigo de 
Jondalar, Kimeran, o
companheiro de longa data com quem ele mantinha uma semelhana
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superficial, por causa da altura e da cor dos cabelos. Kimeran era o
lder da segunda caverna, e, apesar de a mulher parecer um pouco mais
velha, Ayla conseguia ver a
 semelhana com ele. Com o irmo como lder, e a irm como guia espiritual, 
a combina lembrava o costume de liderana
irmo-irm dos Mamuti - ela sorriu ao
recordar -, s que, no caso destes, a liderana era compartilhada, e o Mamut 
era o guia espiritual.
- Tenho comigo apenas duas pedras-de-fogo - informou Ayla -, mas
temos mais, no acampamento. Se Jondalar estiver por perto, talvez possa 
trazer
outras, para que mais pessoas possam tentar ao mesmo tempo. - A grande 
mu
lher concordou com a cabea, e Ayla continuou. - No  difcil, mas requer 
um
pouco de prtica para se pegar o jeito. Primeiro, precisam ter perto uma boa 
isca.
Depois, se baterem as pedras de forma adequada, conseguiro obter uma 
fasca
de longa durao, que podero soprar e transformar em chama.
Enquanto ela demonstrava como usar as pedras-de-fogo ao grupo reunido 
sua volta, Aquela Que Era A Primeira mandou Mikolan, o Segundo Aclito da
Dcima Quarta Caverna, procurar Jondalar. Ao mesmo tempo, a lder da 
zelan
donia observou que ningum se absteve. No havia mais dvidas ou 
discusses.
A nova tcnica de fazer fogo no era um truque, tratava-se de uma nova e 
legtima
maneira de acender rapidamente uma fogueira, e todos estavam ansiosos 
para
aprender, como ela sabia que ficariam. O fogo era importante demais para 
eles
no saberem tudo o que podiam a seu respeito.
Para as pessoas que viviam naquela regio periglacial antiga e fria, o fogo 
era
essencial; constitua a diferena entre vida e morte. Precisavam saber como 
acend
lo, como mant-lo aceso e como lev-lo de um lugar para outro. Ainda que pu
desse ser intensamente fria, a grande poro de territrio, que cercava os 
enormes
lenis de gelo glacial e se estendia para o distante sul das regies polares, 
era rica
de vida. As condies de frio brutal e inverno seco inibiam o crescimento de 
r
vores. Contudo, nas latitudes mdias, o clima era sempre sazonal. Havia at 
mesmo a possibilidade de fazer calor durante
o vero, o que proporcionava extensos relvados
para alim tar enormes manadas de uma grande variedade de animais de 
pasto e or scadores de folhas. Estes, por sua vez, forneciam
alimento alta mente energtico a
animais carnvoros e onvoros.
Todos os animais que viviam nas proximidades do gelo tinham se adaptado ao 
frio, desenvolvendo densas e quentes pelagens
- exceto um. O animal huma tio, de pele
nua e sem plo, era uma criatura tropical, que, sem ajuda, no conse guia 
sobreviver no frio. Os seres humanos vieram posteriormente,
atrados pela grande oferta
de alimento, mas s depois de aprenderem a controlar o fogo. Usando a pele 
dos animais que matavam para comer, conseguiam
sobreviver por um tem

436
po expostos aos elementos, mas para viver, precisavam de fogo, para se 
manter aquecidos, enquanto descansavam ou dormiam, e cozinhar a sua 
comida, tanto vegetal
quanto animal, a fim de torn-la mais digervel. Quando havia dispon veis 
materiais para queimar, costumavam encarar o fogo como um privilgio, sem 
jamais esquecer
o quanto era indispensvel, e quando escasseava o combustvel, ou chovia ou 
nevava, eles sabiam o quanto dele dependiam.
Aps vrias pessoas terem usado uma das duas pedras-de-fogo, para fazer 
fogo, passando-a  seguinte que aguardava a vez de experimentar, Jondalar 
chegou com outras
mais. A Primeira, pessoalmente, apanhou com ele as pedras, na entrada, 
contou-as e levou-as para Ayla. Depois disso, a sesso de treinamento foi 
mais rpida. Tendo
cada membro da zelandonia feito pelo menos uma fogueira, os aclitos 
foram convidados a aprender a tcnica, e os doniers mais confiantes aju 
daram Ayla a ensin-la
aos seus aprendizes. A Zelandoni da Dcima Quarta fez,
ento, a pergunta que todos queriam fazer.
O que voc planeja fazer com todas essas pedras-de-fogo? - indagou.
 Desde o incio, Jondalar falou em dividi-las com o seu povo - comeou Ayla. 
Willamar tambm falou em us-las para trocas. Mas isso vai depender
da quantidade que encontrarmos.
No creio que caiba a mim sozinha decidir.
- Claro que   todos poderemos procurar por mais, mas voc acha que h 
bastante para que
cada caverna apresente a esta Reunio de Vero possa ter pelo menos uma? 
- quis saber
a primeira  Zelandoni. Ela havia contado as pedras. sabia a resposta.
- No sei quantas Cavernas hna  Reunio de Vero, mas acredito que deve 
haver o suficiente - observou
Ayla.
- Se h apenas uma para cada Caverna, creio que deve ser confiada a 
Zelandoni dessa Caverna - props a da  Quarta.
- Concordo, e acho que devemos manter entre ns o mtodo de fazer fogo 
com as pedras-de-fogo. Se apenas ns
puderrmos fazer fogo desse modo, imagi- nem o quanto isso ser
admirado. Imaginem reagir uma Caverna, ao ve um fogo instantneo criado 
por um Zeland, principalmente se estiver
escuro,
- sugeriu o Zelandoni da Quinta Caverna. Seus olhos estavam repletos de 
entu siasmo. - Poderamos infundir
muita  autoridade, e esse poderia ser um  modo muito eficaz
de tornar as cerimnias mais significativas.
- Tem razo, Zelandoni da Quinta - disse a da Dcima Quarta, acres 
centando: -  uma boa idia.
- Ou, talvez, deva ser confiado conjunramente ao Zelandoni e ao lder - 
props o da Dcima Primeira -, para se evitar qualquer possvel conflito. Eu
sei que Kareja
no vai gostar, se ela no tiver algum controle sobre essa nova
tcnica. -
Ayla sorriu para o pequeno homem esguio de quem lembrava ter um forte 
aperto de mo e modos confiantes. Ele era leal  lder de sua Caverna, o que 
ela achava louvvel.
- Essas pedras-de-fogo seriam teis demais a uma Caverna, para serem 
mantidas em segredo - justificou a Primeira. - Nos estamos aqui para Servir 
 Me. Desistimos
de nossos nomes para nos tornarmos uma unidade com o nosso povo. 
Devemos sempre pensar primeiro no interesse de nossas Cavernas. Talvez 
fosse estimulante para ns,
se pudssemos ficar com a pedra-de-fogo, mas o benefcio de todos os 
Zelandonii  mais importante do que os nossos desejos. As pedras da terra 
so os ossos da
Grande Me Terra. Trata-se de um Dom Dela que no podemos reter.
Aquela Que Era A Primeira fez uma pausa e olhou atentamente cada mem 
bro da zelandonia presente. Ela sabia que as pedras-de-fogo jamais 
poderiam ser mantidas em
segredo, mesmo que ainda no tivessem sido compartilhadas. No tou algumas 
bvias decepes e talvez um pouco de resistncia por parte de doniers de 
algumas Cavernas.
Ela estava certa de que a da Dcima Quarta estava prestes a fazer uma 
objeo.
- No podem tornar isso um segredo - disse Ayla com um enrugar de testa.
- Por que no? - retrucou a da Dcima Quarta. - Creio que essa deve ser uma 
deciso da zelandonia.
- Eu j dei algumas pedras  famlia de Jondalar - informou Ayla.
- Isso  mau - afirmou o da Quinta, sacudindo a cabea, reconhecendo de 
imediato a inutilidade de insistir -, mas o que est feito est feito.
- Ns temos autoridade suficiente sem as pedras - alegou a Zelandoni Que 
Era A Primeira -, e ainda podemos us-las ao nosso modo. Por exemplo, pode 
mos realizar
uma cerimnia impressionante quando apresentarmos as pedras. E creio que 
ser mais eficaz, se Ayla acender o fogo cerimonial, amanh.
Mas estar escuro o bastante, no incio da noite, para se ver a fasca? Seria 
melhor deixar o fogo apagar e mandar que ela o acenda novamente - sugeriu 
o Zelandonj
da Terceira.
Sendo assim, como as pessoas vo saber se foi aceso com uma pedra-de- 
fogo e no como uma brasa viva? - ponderou um homem mais velho de 
cabelos claros, embora Ayla
no estivesse certa se eram louros ou brancos. - No, creio que precisamos 
de uma nova lareira, uma que no tivesse sido acesa, mas voc tem razo a 
respeito do
escuro. H muita distrao no crepsculo, quando  ace so fogo cerimonial. 
S com a escurido total podemos atrair a ateno de todos para onde 
desejamos, quando
no se consegue enxergar nada alm do que quere mos que as pessoas 
enxerguem.
Ayla reparou que ele estava sentado ao lado da loura alta da Segunda caver 
na, e havia uma grande semelhana entre os dois. Ele poderia ser o ancio da 
la reira
dela, talvez o parceiro de sua av ou grande senhora. Recordou que Jondalar 
lhe contara que a Stima e a Segunda Cavernas eram aparentadas e se 
localizavam em lados
opostos do Rio da Relva e sua plancie aluvial. Lembrava bem, porque a 
Segunda Caverna era o Lar Mais Antigo, e a Stima, a Pedra Cabea de 
Cavalo, e ele prometera
lev-la at l, no outono, quando voltassem, para uma visita e para lhe 
mostrar o cavalo na pedra.
- Podemos iniciar a cerimnia, sem fogo e iluminao da lareira, depois que 
escurecer - props a Zelandoni da Vigsima Nona Caverna. Era uma mu lher 
de aparncia
agradvel, com um sorriso conciliador, mas a habilidade de Ayla de ler a 
linguagem corporal detectou uma implcita fora de carter e po der de 
persuaso. Ela havia
se encontrado brevemente com a mulher. Era ela, segundo Ayla ouvira dizer, 
que mantinha unidas as Trs Pedras da Vigsima Nona Caverna.
- Mas, Zelandoni da Vigsima Nona, as pessoas vo achar estranho, se no 
houver uma fogueira cerimonial no incio - ops-se o Zelandoni da Terceira. - 
Talvez fosse
melhor retardar o incio at ficar escuro.
- H mais alguma outra coisa que possa ser feita antes? Algumas pessoas 
comeam a chegar muito cedo. Vo ficar inquietas, se retardarmos por 
muito tem po - acrescentou
outra. Tratava-se de uma mulher de meia-idade, quase to gor da quanto 
Aquela Que Era A Primeira, mas no to alta; era bem baixa. Enquanto o 
corpo da Primeira,
tanto em tamanho quanto em peso, lhe dava uma presena autoritria, a 
outra mulher parecia afetuosa e maternal.
- Que tal contar histrias, Zelandoni da Poro Oeste? Os Contadores de 
Histria esto aqui - sugeriu um homem jovem sentado a seu lado.
- Histrias podero depreciar a seriedade da cerimnia, Zelandoni da Por 
o Norte - aventou a Zelandoni da Vigsima Nona.
- Claro que tem razo, Zelandoni de Trs Pedras - concordou rapidamente o 
jovem. Ele parecia ter uma grande deferncia em relao  principal 
Zelandoni da Vigsima
Nona Caverna. Ayla percebeu que os quatro da zelandonia da Vig sima Nona 
se referiam uns aos outros pelos nomes de seus respectivos locais, em vez 
de usarem as
palavras de contar relativas a eles. Isso fazia sentido, j que todos eram 
Zelandonis da Vigsima Nona Caverna. Que situao confusa, pensou ela, 
mas eles parecem
se entender.
- Ento mandaremos algum falar sobre um assunto srio - expressou o 
Zelandoni da Poro Sul.
Foi ele quem havia perguntado  primeira se Ayla estava ali por causa
dos animais, e a poro Sul era a pedra do Reflexo, que abrigava a
caverna liderada por Denanna. Esta era a tal que, Ayla achou, a vira, ou 
talvez aos cavalos ou ao lobo, com certa animosidade, mas o tom do homem 
no parecia inamistoso. Ela ia esperar
para ver.
- Joharran quer que voc levante a questo dos cabeas-chatas, e se eles 
so
ou no gente - declarou o Zelandoni da Dcima Primeira. - Trata-se de um 
assuntO muito srio.
- Mas algumas pessoas no gostariam de ouvir idias como essa, e isso pode 
levar a discusses acaloradas. No queremos iniciar esta Reunio de Vero 
com sentimentos 
litigiosos - argumentou a Zelandoni Que Era A Primeira. - Preci samos criar 
um clima receptivo antes de introduzir novas idias a respeito dos 
cabeaschata
Ayla perguntou-se se seria apropriado que ela fizesse um comentrio.
- Zelandoni - disse, finalmente -, posso fazer uma sugesto? - Todos se 
viraram para olhar, e ela percebeu que a zelandonia no ficou satisfeita.
- Claro que pode, Ayla - afirmou a Zelandoni Que Era A Primeira.
- A caminho daqui, Jondalar e eu visitamos os Losadunai. Ns demos ao 
Losaduna e  sua parceira umas pedras-de-fogo... para toda a Caverna.., eles 
fo ram to gentis 
e prestativos... - Ayla hesitou.
- Sim? - incentivou a Zelandoni.
- Quando realizaram a cerimnia para apresentar as pedras, fizeram duas 
lareiras - continuou Ayla. - Uma estava toda pronta para ser acesa, mas 
apaga da. A outra 
queimava. E apagaram esta completamente. De repente, ficou to escuro, 
que no se enxergava a pessoa sentada ao lado, e era fcil de perceber que 
nem um s carvo 
da primeira lareira emitia sequer uma nesga de brilho. Ento, eu acendi o 
fogo da segunda.
Houve apenas um momento de silncio.
- Obrigada, Ayla - disse a Zelandoni. - Acho que  uma boa idia. Talvez 
possamos fazer algo parecido. Pode ser uma demonstrao bem 
impressionante.
- Sim, eu gostei - afirmou o Zelandoni da Terceira. - Desse modo, tere mos 
desde o incio uma fogueira cerimonial.
- E uma lareira apagada, pronta para ser acesa, deixaria as pessoas curiosas. 
Elas vo se perguntar para que serve, e isso criaria uma expectativa - 
concordou a 
Zelandoni da Poro Oeste.
- E como apagaramos o fogo? Encharcar de gua e fazer uma poro de 
Vapor? perguntou o da Dcima Primeira. - Ou jogar areia e fazer o fogo apa 
gar instantaneamente?
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- Ou jogar lama - sugeriu um dos outros, a quem Ayla no tinha sido 
apresentada. - Isso produz pouco vapor, mas extingue as brasas.
- Eu gosto da idia de usar gua e fazer uma poro de vapor - disse outro 
que Ayla no conhecia. - Seria mais impressionante.
- No, eu acho que apagar o fogo instantaneamente seria mais impressio 
nante. Luz num momento, escurido no outro.
Ela no conhecia todos os Zelandonis presentes, e,  medida que a discusso 
se tornava mais animada, eles nem sempre se dirigiam uns aos outros to 
formal- mente, 
e Ayla no era capaz de identific-los. Ela no fazia idia do quanto de 
planejamento e consultas era necessrio para uma cerimnia. Sempre achou 
que
as coisas apenas aconteciam espontaneamente, que a zelandonia e os demais 
que li- davam com o mundo dos espiritos eram meros agentes dessas foras 
invisveis Eles 
falavam abertamente, e ela passou a entender por que alguns foram contra 
sua presena ali. Entretanto, enquanto discutiam cada pequeno detalhe, seu 
pen samento comeou 
a vagar.
imaginando se os mog-urs do Cl planejavam as suas cerimnias to 
detalhadamente, e concluiu que talvez o fizessem, mas elas certamente no 
eram iguais. As cerimnias 
do Cl eram antigas, e feitas sempre da mesma maneira que sempre foram 
realizadas, ou o mais prximo possvel. Ela agora entendia um pouco mais o 
dilema, quando 
Creb, O Mog-ur, quis que ela exercesse uma parte signifi cativa de uma de 
suas mais sagradas cerimnias.
Ayla olhou em volta do amplo e redondo alojamento da zelandonia. A cons 
truo circular de paredes duplas de placas verticais, que limitavam o 
espao, era semelhante 
aos abrigos de dormir do acampamento da Nona Caverna, porm maior. As 
divisrias mveis internas, que repartiam o interior em reas separadas, 
tinham sido fixadas 
entre os espaos de dormir, prximos s paredes externas, restando um 
grande e nico aposento. Reparou que os locais de dormir estavam 
agrupados em uma s localizao,
todos elevados, e lembrou que, na Nona Ca verna, o lugar de dormir tambm 
era mais alto na habitao da Zelandoni. Per guntou-se por qu; deduziu, 
ento, que
seria mais fcil, desse modo, cuidar dos pacientes que porventura fossem 
levados para o alojamento da zelandonia.
O cho estava coberto com esteiras, muitas tranadas com belos e 
intrincados padres, e vrias almofadas e travesseiros, e cepos usados para 
se sentar estavam es 
palhados nas proximidades de algumas mesas baixas de diferentes 
tamanhos. Mui tas delas eram decoradas com lamparinas a leo, a maior 
parte feita de arenito ou calcrio, 
vrias com mltiplos pavios, que, habitualmente, ficavam acesas dia e noi te 
no interior do abrigo sem janelas. A maioria das lamparinas era 
cuidadosamente entalhada, 
desbastada e decorada. No entanto, como as que havia na habitao de
Marthona, algumas eram pedras brutas naturalmente formadas ou com 
depresses toscamente escavadas para o sebo derretido. Perto das muitas 
lamparinas, ela viu pequenas
esculturas de mulheres enfiadas em vasilhas tranadas cheias de areia. 
Eram todas semelhantes, mas diferentes. Ela j havia visto vrias, e sabia 
que se tratava 
de representaes da Grande Me Terra, as quais Jondalar chamava de 
donii.
As donii variavam em tamanho de dez a vinte centmetros, mas cada qual 
podia ser segurada com uma das mos. Havia alguma abstrao e exagero. 
Braos e mos mal eram 
sugeridos, e as pernas sem ps se afunilavam, para que a figura feminina 
pudesse ser enfiada no cho, ou numa vasilha com areia, e mantida na 
posio ver tical. 
No era a representao de uma pessoa em particular, j que no havia 
feies para lhe dar uma identidade, embora o corpo pudesse ser sugerido 
por uma mulher conhecida 
do artista. No se tratava de uma jovem, de seios empinados, nbil, no j de 
sua vida adulta, nem a figura magra de uma mulher que caminhava todos os 
dias, uma nmade 
peripattica constantemente catando comida.
Uma donii era a imagem de uma mulher magnificamente obesa com alguma
experincia na vida. No estava grvida, mas j estivera. As largas ndegas
s se com paravam
aos imensos seios, cados sobre a enorme e por vezes pendente barriga de
uma mulher que j havia dado  luz e amamentado muitos filhos. Tinha a
abun dante aparncia
de uma mulher mais velha e experiente, uma me, mas sua forma sugeria
muito mais do que a fertilidade da procriao. Para uma mulher ser gorda, a
comida precisaria 
ser farta e ela teria que levar uma vida bastante sedentria. A pequena 
figura esculpida pretendia parecer uma me bem alimentada e bem-suce 
dida, que provia aos 
seus filhos; era um smbolo de fartura e generosidade.
A realidade no era assim to distante. Alguns anos eram piores do que ou 
tros, mas, quase todo o tempo, os Zelandonii se saam razoavelmente bem. 
Havia mulheres 
gordas na comunidade; o escultor precisava saber como era uma mu lher 
gorda, para poder represent-la com detalhes to fiis. O incio da 
primavera podia ser uma 
poca de escassez, quando a comida estocada para o inverno j quase 
acabava e as novas plantas mal desabrochavam. O mesmo era verdade para 
os animais; na primavera, 
estavam esquelticos e franzinos, e sua carne era fibrosa e dura, com pouca 
gordura, e at mesmo o tutano dos seus ossos se esgotava. Nessas ocasies, 
as pessoas 
talvez tivessem que se virar sem certos alimentos, mas no passavam fome, 
pelo menos no habitualmente.
Para aqueles que viviam da terra, caando e coletando tudo de que necessita 
vam para sobreviver, o solo era como uma grande me que alimentava os 
seus
filhos. Ela lhes
dava tudo de que precisavam. Eles no plantavam sementes, no Cultivavam, 
no lavravam nem regavam a terra, como tambm no arrebanhavam animais, 
nem os protegiam
dos predadores, ou guardavam forragem para eles
 440
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durante o inverno. Tudo era deles, bastando apenas apanhar, desde que 
soubes sem onde procurar e como colher. No podiam, porm, ter tudo como 
certo, pois, s vezes, 
isso lhes era negado.
Cada donii que esculpiam era um receptculo para o esprito da Grande Me 
Terra, e uma demonstrao expressa para informar s foras invisveis, que 
con trolavam 
as suas vidas, que eles precisavam sobreviver. Tratava-se de uma mgica 
benfica, com a inteno de mostrar  Me o que eles queriam e, portanto, 
extra lo Dela. 
A donii era uma representao da esperana de que as plantas comest veis 
fossem copiosas e fceis de encontrar e colher, que os animais fossem 
abundantes e fceis 
de se caar. Era um smbolo da terra e um apelo para que ela fosse generosa, 
uma terra que fosse rica, uma comida que fosse farta, e uma vida que fosse 
boa. A donii 
era uma figura idealizada, uma evocao das condies que eles desejavam 
sinceramente.
- Eu queria agradecer a Ayla...
Ela sobressaltou-se, emergindo do devaneio, quando ouviu o som do seu nome. 
Nem mesmo conseguia lembrar sobre o que estava pensando.
- . . .pela sua boa vontade em demonstrar a toda a zelandonia esse novo m 
todo de fazer fogo - declarou Aquela Que Era A Primeira.
Ouviram-se vrias vozes concordantes, e at a Zelandoni da Dcima Quarta 
parecia sincera em seu apreo. Em seguida, passaram a discutir os detalhes 
do restante da 
cerimnia que daria incio  Reunio de Vero daquele ano, e outras ocasies 
cerimoniais posteriores, em particular a do acasalamento, conhecida como 
Matrimonial. 
Ayla queria que eles comentassem mais sobre esta ltima, mas fala ram 
principalmente sobre quando voltariam a se reunir para debater melhor o 
assunto. A seguir, 
o foco da reunio voltou-se para os aclitos.
A Zelandoni Que Era A Primeira levantou-se.
-  a zelandonia que guarda a Histria de seu povo. - Olhou para os 
Zelandonis em treinamento, os aclitos, mas Ayla sentiu que ela pareceu 
fazer questo de inclu-la.
"Parte do treinamento de um aclito constitui-se da memorizao das 
Lendas e das Histrias Antigas. Elas explicam quem so os Zelandonii e de 
onde veio o Povo. Memorizar 
tambm o ajuda a aprender, e h muita coisa que um aclito precisa 
aprender. Vamos encerrar esta reunio com a Lenda Dela, a Cano da Me.
Fez uma pausa, e seus olhos pareceram olhar para dentro, extraindo de um 
recanto da mente uma histria que h muito tempo ela confiara  memria. 
Tra tava-se da 
mais importante de todas as Lendas Antigas, pois era a que narrava o 
princpio. A fim de torn-la fcil de lembrar, a lenda era contada em rimas e 
mtrica, e, para
facilitar ainda mais a memorizao das histrias exigidas para serem lem
 442 / JEAN M. AUEL
bradas, aqueles que tinham talento para a msica costumavam acrescentar 
uma melodia, que as outras pessoas gostavam de aprender. Algumas das 
msicas eram to antigas
e familiares, que freqentemente o som da melodia era o suficiente para 
contar a histria.
A Zelandoni Que Era A Primeira, contudo, havia criado uma melodia de sua 
prpria composio para a Cano da Me, e muita gente estava comeando 
a aprend-la. Ela 
passou a cantar, a capella, com uma pura, forte e linda voz.
- O caos do tempo, em meio  escurido,
O redemoinho deu a Me sublime  imensido.
Sabendo que a vd4  valiosa, para Si Mesma Ela acordou
E o vazio vcuo escuro a Grande Me Terra atormentou.
- Sozinha a Me estava. Somente Ela se encontrava.
Ayla sentiu um calafrio, ao reconhec-la, assim que a Primeira iniciou, e jun 
tou-se ao resto, para cantar o ltimo verso em unssono com Aquela Que Era 
A Primeira.
- Nop do Seu nascimento, Ela viu uma soluo,
E criou um amigo claro e brilhante, um colega, um irmo.
Eles cresceram juntos. aprenderam a amar e a cuidar,
E quando Ela estava pronta, eles decidiram casar.
- E diante dela ele se curvou. O Seu claro e brilhante amor.
Ayla tambm lembrou do ltimo verso da segunda estrofe, e o recitou junta 
mente com os demais, e depois prestou ateno em vrios outros versos, 
tentando ouvir as 
palavras, pronunciando a meia-voz o que lembrava. Queria memoriz las 
exatamente, pois adorava aquela histria e o modo como a Primeira a 
cantava. Apenas o som da 
voz dela quase levava lgrimas aos seus olhos. Embora soubesse que nunca 
aprenderia a cant-la, queria aprender a letra. Durante a Jornada, ti nha 
conhecido a verso 
Losadunai, mas a lngua, a mtrica e parte da histria eram diferentes. 
Queria aprender a histria em Zelandonii, e ouvia atentamente.
- A vasta Terra estril e o vazio vcuo escuro,
Com expectativa, aguardavam o futuro.
A vida bebeu do sangue Dela e dos Seus ossos respirou.
Fendeu e abriu a Sua pele e as Suas Pedras rachou
- A Me estava concedendo. Outro estava vivendo.
 443

Durante a viagem, Jondalar repetiu-lhe alguns versos, mas Ayla jamais 
ouvira nada igual  ressonncia e toda a fora dramtica emprestadas a eles 
pela Primeira Entre
Aqueles Que Serviam  Me. As palavras dele tambm no tinham sido 
exatamente as mesmas.
- Suas jorrantes guas parturientes encheram rios e mares,
E inundaram a terra, elevando altas rvores nos ares.
De cada gota preciosa, mais grama efolhas brotaram,
E vi osas plantas verdejantes toda a Terra renovaram.
- Sua gua flua. O novo verde crescia.
- Num violento trabalho de parto, vomitando fogo e desprazer,
Ela pelejou na dor para uma nova vida ver nascer.
Seu sangue coagulado e seco tornou ocre vermelho o solo,
Mas a criana radiante que nasceu foi o seu consolo.
- A Me estava contente. Era o Seu menino reluzente.
- Montanhas jorraram chamas de seus cumes ondulosos,
E Ela amamentou ofilho com os Seus seios montanhosos.
Ele sugou com tanta fora, que fascas voaram adiante,
O quente leite da Me estendeu uma trilha no cu distante.
- A vida Dele comeou. O Seu Filho Ela amamentou.
Esta era uma das partes de que ela gostava em especial. Lembrava-lhe a sua 
prpria experincia, principalmente o trecho sobre a criana ser o seu 
consolo, por ter 
sido motivo de seu grande contentamento, o seu maravilhoso menino.
- Ele o furtou do lado Dela, quando a Grande Me dormia,
Enquanto, no escuro, o vcuo rodopiante agia.
Com tentadoras indues, a escurido enganou.
iludido pelo redemoinho, o caos Seu filho capturou.
- O escuro o Seu filho levou. O jovem brilhante se apagou.
Exatamente como Broud levara o filho dela. A Zelandoni contava a histria 
to bem, que Ayla se sentia aflita tanto pela Me quanto pelo seu prprio 
filho. Ela estava 
inclinada para a frente, sem querer perder uma s palavra.
- E o Seu amigo luminoso estava preparado para combater O ladro que 
ofilho do seio Dela mantinha em seu poder.
Juntos lutaram pelo filho que era o Seu bem-querer.
O esforo foi bem-sucedido, e sua luz se fez renascer.
- Sua energia inflamou. O seu brilho voltou.
Ayla suspirou profundamente e olhou em volta. Ela no era a nica que 
estava cativada pela histria. Toda a embevecida ateno se concentrava na 
grande mulher.
- A Grande Me passou com uma dor em Seu corao a conviver,
De que Ela e o Seu filho separados para sempre iam viver.
Pela criana que Lhe fora negada padecia
Ento, mais uma vez, a fora vital interna a reanimaria.
- Ela no se conformava. Com a perda de quem amava.
Lgrimas escorriam pelo rosto de Ayla, que sentiu uma repentina dor aperta 
da pelo filho que fora forada a deixar para trs, com o Cl, e um profundo 
pesar compassivo 
pela Me.
- Quando Ela estava pronta, com as Suas guas, que faziam nascer,
De volta para a Terra fria e nua, a vida verde Ela fez crescer.
E as lgrimas de Sua perda, vertidas e abundantes
Produziram o orvalho cintilante e arco-ris emocionantes.
- As guas o verde criaram. Mas Suas lgrimas derramaram.
Ayla tinha certeza de que jamais poderia pensar no orvalho matinal ou em 
arco-ris do mesmo modo que antes. Daquele dia em diante, eles sempre lhe 
lem brariam as 
lgrimas da Me.
- Com um estrondoso bramido, Suas pedras em pedaos se partiram,
E das grandes cavernas que bem abaixo se abriram,
Ela novamente em seu espao cavernoso fez pari r,
Para do Seu ventre mais Filhos da Terra sair.
- Da Me em desespero, mais crianas nasceram.
A parte seguinte no era to triste, mas era interessante. Explicava como 
as Coisas so agora, e por qu.
- Todos eram Seus Filhos, e lhe davam prazer, Mas esgotaram afora vital 
do Seu fazer.
444
 445
Mas Ela ainda tinha um resto, para uma ltima inovao, Uma criana que 
lembraria Quem fez a criao.
- Uma criana que respeitaria. E a proteger aprenderia.
- A primeira Mulher nasceu adulta e querendo viver,
E recebeu os Dons de que precisava para sobreviver.
A Vida foi o Primeiro Dom, e, como a Grande Me Terra dadivosa,
Ela acordou para si mesma sabendo que a vida era valiosa.
- A Primeira Mulher a haver. A primeira a nascer.
Ayla ergueu a vista e notou que a Zelandoni a observava. Olhou as pessoas 
em volta e, quando a fitou novamente, o olhar da Zelandoni mudara de 
direo.
- A Me lembrou a prpria solido que sentiu,
O amor do Seu amigo e as demoradas carcias que produziu.
Com a ltima centelha que restava, a Sua tarefa iniciou,
Para compartilhar a vida com a Mulher, o Primeiro Homem Ela criou.
- Mais uma vez Ela dava. Mais uma vez criava.
-  Mulher e ao Homem a Me concebeu,
E depois, para seu lar, Ela o mundo lhes deu,
A guas a terra, e toda a Sua criao.
Us-los com cuidado era deles a obrigao.
- Era a casa deles para usar. Mas no para abusar.
- Para os Filhos da Terra a Me proveu
O Dom para sobreviver, e ento Ela resolveu
Dar a eles o Dom do Prazer e do partilha?
Que honram a Me com a alegria da unio e do se entregar.
- Os Dons so bem merecidos. Quando os sentimentos so retribuidos.
- A Me ficou contente com o casal criado,
E o ensinou a amar e a zelar no acasalado.
Ela incutiu neles o desejo de se manter,
Efoi ofertado pela Me o Dom do Prazer.
- E assim foi encerrando. Os seus filhos tambm estavam amando.
- Depois de os Filhos da Terra abenoar, a Me pde descansar.
Ayla ficou um pouco confusa por causa dos dois versos finais. Isso rompia o 
padro estabelecido, e perguntou-se se havia algo errado ou faltando. 
Quando olhou para 
a Zelandoni, a mulher a estava encarando, o que a fez se sentir constrangida. 
Baixou a vista, mas, quando a levantou novamente, a Zelandoni continuava 
olhando para 
ela.
Encerrada a reunio, a Zelandoni foi para o lado de Ayla, com passadas 
largas
- Preciso ir ao acampamento da Nona Caverna. Voc se importa se eu ca 
minhar a seu lado? - perguntou.
- No, claro que no - afirmou Ayla.
A princpio, seguiram juntas em meio a um silncio amistoso. Ayla ainda se 
sentia arrasada, por causa da lenda, e a Zelandoni esperava para ver o que 
ela iria falar.
- Foi lindo, Zelandoni - disse Ayla, finalmente. - Quando eu vivia no 
Acampamento do Leo, s vezes todos faziam msica, e cantavam ou 
danavam juntos, e alguns 
at que tinham uma bela voz, mas no to bonita quanto a sua.
-  um Dom da Me. No fiz nada para isso, eu nasci com essa coisa. A Lenda 
da Me  chamada de Cano da Me, porque tem gente que gosta de cant 
la - explicou 
a Zelandoni.
- Jondalar me contou um pouco da Cano da Me, durante a nossa Jor nada. 
Ele disse que no conseguia lembrar de tudo, mas algumas das palavras dele 
no foram exatamente 
como as suas.
- Isso no  incomum. Existem verses ligeiramente diferentes. Ele a apren 
deu da antiga Zelandoni, e eu memorizei a cano do meu mentor. Alguns da 
zelandonia fazem 
ligeiras revises. Isso  perfeitamente correto, desde que no mudem o 
sentido e mantenham ritmo e rima. Se ficam boas, as pessoas tendem a 
adot-las. Caso contrrio, 
so esquecidas. Eu fiz a minha prpria melodia, pois isso me agradou, mas h 
outros modos de cant-la.
Creio que a maioria das pessoas canta com a mesma msica sua, mas o que 
significa "ritmo e rima"? No creio que Jondalar tenha me explicado isso - 
Comentou Ayla.
- Suponho que no. Cantar e Contar Histrias no so os seus maiores ta 
lentos, embora tenha inelhorado muito em contar suas aventuras.
- Tambm no so os meus. Consigo lembrar uma histria, mas no sei fltar. 
Porm, eu adoro ouvir algum cantar - salientou Ayla.
Ritmo e rima ajudam as pessoas a lembrar. Ritmo o senso de movimento. 
Ele leva voc
juntto, como se estivesse andando num passo constante. Rimas
so palavras que tm o som parecido. Elas contribuem para o ritmo, mas
tambmajudam
 a lembrar as p seguintes.
446
 447
- Os Losadunai tm uma Lenda da Me parecidas mas, quando a memori zei, 
ela no me fez sentir da mesma maneira - mencionou Ayla.
A Zelandoni parou e olhou-a.
- Voc a memorizou? Losadunai  uma lngua diferente.
- Sim, mas  semelhante ao Zelandonji, no  difcil de aprender.
-  semelhante, mas no  a mesma coisa, e tem gente que acha muito di fcil. 
Quanto tempo voc passou com eles? - quis saber a Zelandoni.
- No muito, menos de uma lua. Jondalar estava com pressa para atraves sar 
a geleira antes de o degelo da primavera torn-la mais perigosa. Mas 
acontece que no ltimo 
dia, chegou o vento quente, e tivemos alguns problemas - expli cou Ayla.
- Voc aprendeu a lngua deles em menos de uma lua?
- Mas no com perfeio. Ainda cometo muitos erros, mas memorizei al 
gumas das lendas do Losaduna. Estive tentando aprender a Lenda da Me, 
do modo como  apresentada 
na Cano da Me, para diz-la da maneira como voc a canta.
A Zelandoni encarou-a por um longo momento, e depois recomeou a andar 
na direo do acampamento.
- Terei prazer em ajud-la nisso - disse ela.
Enquanto prosseguiam, Ayla pensava na lenda, principalmente sobre o tre 
cho que a lembrava de Durc e de si mesma. Tinha certeza de que entendia 
como a Grande Me 
se sentiu quando teve de aceitar que o Seu filho fora para longe Dela, para 
sempre. Ayla tambm padecia s vezes por no ter o filho a seu lado, e 
esperava com ansiedade 
o nascimento da sua nova criana, a criana de Jondalar. Lembrou de alguns 
versos que acabara de ouvir, e passou a caminhar no tempo e no ritmo, 
enquanto os recitava 
para si mesma.
A Zelandoni percebeu uma ligeira mudana em seus passos. Havia neles uma 
sensao familiar. Olhou de relance para Ayla e notou uma expresso de 
intensa concentrao. 
Aquela jovem pertencia  zelandonia, disse a si mesma.
Assim que chegaram ao local do acampamentO Ayla parou e fez uma per 
gunta.
- Por que h dois versos finais, em vez de um s?
A mulher estudou-a por um momento, antes de responder.
- Trata-se de uma questo que surge de vez em quando - ponderou. - Eu no 
sei a resposta.  assim que sempre foi. Muitas pessoas acham que  para dar 
 lenda um 
final definitivo, uma vez para a estrofe, e outra para toda a histria.
Ayla assentiu. A Zelandoni no sabia se o seu gesto com a cabea significava 
aceitao da explicao ou a simples compreenso da afirmao. A maioria 
dos
aclitos nem ao menos discute os pontos mais sutis da Cano da Me, 
pensou ela. Esta jovem, certamente, pertence  zelandonia.
Caminharam um pouco mais adiante. Ayla percebeu que o sol baixava em 
direo ao horizonte ocidental. Logo estaria escuro.
- Acho que a reunio foi boa - comentou a Zelandoni. - A zelandonia ficou 
impressionada com o seu mtodo de fazer fogo, e agradeo a sua boa vonta 
de em mostr-lo 
a todos. Se conseguirmos encontrar pedras-de-fogo suficientes, em pouco 
tempo todos estaro fazendo fogo desse modo. Se no encontrarmos 
muitas... no sei. Seria
melhor se fossem utilizadas apenas para acender fogueiras de cerimnias 
especiais.
Ayla franziu a testa.
- E as pessoas que j tm uma pedra de fogo, ou aquelas que podero en 
contrar uma? Vai dizer a elas que no podero us-la? - questionou.
A Zelandoni parou e olhou-a fixamente. Em seguida, suspirou.
- No. Posso pedir s pessoas, mas voc tem razo. No posso for-las, e 
sempre haver aqueles que, em todo caso, faro o que quiserem. Creio que 
eu estava pensando 
alto sobre uma situao ideal, mas, realmente, isso no iria fun cionar, no 
depois que todos souberem como fazer fogo desse modo. - Fez uma 
expresso de desagrado. 
- Quando a Quinta e a Dcima Quarta falaram em manter tudo em segredo 
entre a zelandonia, elas apenas expressaram em voz alta o que eu acredito 
ser o desejo da maioria, 
e eu simplesmente tive que concordar. Essa seria uma ferramenta 
impressionante para ns, mas no podemos escond-la das pessoas. - 
Recomeou a caminhada.
- Ns s vamos planejar o Matrimonial depois da primeira caada. Todas as 
Cavernas vo participar - esclareceu a Zelandoni. - As pessoas ficam muito 
ansiosas em 
relao a ela. Acreditam que, se a primeira caada for bem-sucedida,  um 
bom pressgio para o ano todo, mas, se no for,  um mau agouro. A 
zelandonia vai fazer 
uma Explorao por caa. s vezes, isso ajuda. Se houver manadas por perto, 
um bom Explorador pode ajudar a localiz-las, mas nem mesmo o melhor 
Explorador  capaz 
de encontrar caa, se no houver nenhuma para ser encontrada.
- Eu ajudei o Mamut em uma Explorao. Na primeira vez, foi uma sur presa 
para mim, mas parecamos ter uma afinidade, e eu fui envolvida em sua 
Busca - lembrou Ayla.
- Voc fez Explorao com o seu Mamut? - surpreendeu-se a Zelandoni.
Como  que foi?
-  difcil de explicar, mas foi algo como uma ave voando sobre a terra, s 
que no havia vento - disse Ayla -, e a terra no parecia exatamente a 
mesma.
- Voc estaria disposta a ajudar a zelandonia? Ns temos alguns Explora 
dores, mas sempre  bom ter mais - props a donier. Ela pareceu ver algum 
relutncia.
- Eu gostaria de ajudar... mas... eu no desejo ser uma Zelandoni.
Quero apenas me acasalar com Jondalar e ter filhos - alegou Ayla.
- Se no quiser, no ter que ser. Ningum pode forar voc, Ayla, mas, uma 
Explorao levar a uma caada bem-sucedida, o Matrimonial ser feliz, se 
gundo o que 
se acredita, e produzir longas parcerias e lares bem-sucedidos. Fa mlias - 
afirmou a Primeira.
- Est bem, creio que posso tentar ajudar, mas no sei se conseguirei - 
concedeu Ayla.
- No se preocupe. Ningum nunca tem certeza. Tudo o que se pode fazer  
tentar. - A Zelandoni sentiu-se contente consigo mesma. Era bvia a relutt 
cia de Ayla, 
ela
resistiria em fazer parte da zelandonia, e essa seria uma maneira
de inici-la. Ela tem de fazer parte da zelandonia, pensou a Primeira. Ela 
tem
muitos talentos, muitas habilidades e faz perguntas muito inteligentes. Ela 
precisa
ser
levada para o grupo, ou poder criar desavenas fora dele.
25
Quando se aproximaram do acampamento, Lobo correu para receb-las. Ayla 
viu-o se aproximar e preparou-se, para o caso de, em seu
entusiasmo, ele pular sobre ela, mas
fez um sinal para o animal permanecerno  cho. Ele parou, embora parecesse 
que foi tudo que conseguiu fazer para se
controlar. Ela se acocorou at a altura dele e permitiu
que a lambesse, ao mesmo tempo  em que o mantinha preso ao cho at que o 
lobo se recompusesse.
Depois levantou-se. Ele ergueu a vista para Ayla, com o que pareceu ser
uma expresso ardente desejo e ansiedade, ela fez que sim com a cabea e 
deu um tapinha dia do prprio ombro. Lobo saltou e colocou as patas onde 
ela havia mostrado,
com um suave grunhido, tomou o queixo de Ayla entre os dentes. Ela
retribuiu o gesto e depois segurou entre as mos sua magnfica cabea e 
encarou os seus
olhos pigmentados
de dourado.
- Eu tambm amo voc, Lobo, mas, s vezes, me pergunto por que me ama 
tanto. Ser apenas porque me tornei a lder da sua alcatia, ou ser algo 
mais? - d Ayla, ao
tocar a sua testa na dele, fazendo, depois, um sinal para o animal baixar.
- Voc tem o poder do amor, Ayla - comentou a Primeira -, e o amor que voc 
domina no pode ser negado.
Ayla olhou para ela, achando estranho o comentrio. - Eu no tenho o po der 
de nada - refutou.
- Voc tem o poder sobre esse lobo. Ele  motivado a lhe agradar pelo amor 
que sente por voc. No que tente iludir ou aliciar, mas voc atrai o amor 
para si. E
aqueles que a amam o fazem intensamente. Vejo isso nos seus amimais. Vejo 
isso em Jondalar. Ele nunca amou ningum como ama voc, e nunca vai amar. 
Talvez seja porque
se entrega to completamente e to abertamente, ou talvez seja um Dom da 
Me, que faz voc inspirar amor. Sempre ser amada com grande fervor, 
mas  preciso ter
cuidado com os Dons da Me.
- Por que as pessoas dizem isso, Zelandoni? - indagou Ayla. - Por que  
preciso se preocupar com um Dom da Me? Os Dons Dela no so uma coisa 
boa?
- Talvez seja porque os Dons Dela so bons demais. Ou porque so 
poderosos demais.
- Iza me ensinou que um dom gera uma obrigao. Voc precisa retribuir 
com algo de igual valor - declarou Ayla.
- Quanto mais sei sobre as pessoas que a criaram, mais eu as respeito - ob 
servou Aquela Que Era A Primeira. - Quando a Grande Me Terra concede 
um Dom, provavelmente
Ela espera algo em troca, algo de igual valor. Quando muito  ofertado, 
muito pode ser esperado de volta, mas como algum pode saber a quan 
tidade at chegar o momento?
Por isso, as pessoas desconfiam. Os Dons Dela so demasiados, mais do que 
as pessoas desejam, mas elas no podem devolv-los. Coisas demais no 
produzem necessariamente
mais felicidade do que o bastante.
- Mesmo amor demais? - perguntou Ayla.
- O melhor exemplo para responder a isso  Jondalar. Ele certamente foi 
favorecido pela Me - explicou a mulher que outrora se chamou Zolena foi 
favorecido demais,
recebeu demais. Ele  to extraordinariamente belo e bem for mado, que 
no pode evitar de atrair a ateno. At mesmo os seus olhos tm uma cor 
to excepcional,
que mal se pode deixar de fit-los. Jondalar tem um encanto natural, e as 
pessoas sentem-se atradas por ele, mas as mulheres em particular. No 
creio que exista
uma mulher viva que recusasse qualquer coisa que ele pedis se, nem mesmo a 
Prpria Me.., e Jondalar adora agradar as mulheres.  inteli gente e 
habilidoso em lascar
slex, e, alm de tudo isso, ele recebeu um corao atencioso, mas  zeloso 
demais. Tem muito amor para dar.
Mesmo o seu amor em trabalhar a pedra, para fazer ferramentas,  para ele 
uma verdadeira paixo. Mas a intensidade dos seus sentimentos, por seja o 
que for que ele
ame,  to forte, que pode arras-lo e queles de quem gosta. Ele
luta para manter isso sob controle, mas, ocasionalmente, lhe escapa. Ayla, 
no sei se entende o quanto os sentimentos dele so poderosos. E todos os 
seus Dons no
o fazem feliz, pelo menos no at agora, e eles freqentemente originam
mais inveja do que amor.
Ayla concordou com a cabea e um pensativo enrugar de testa.
- Ouvi vrias pessoas dizerem que Thonolan, o irmo de Jondalar, era um
favorito da Me, e foi por isso que ele foi levado ainda to jovem -
comentou Ayla. - Ele
era belo e recebeu muitos Dons?
- Ele era um favorito de todos, no apenas da Me. Thonolan era um homem 
bonito, mas no tinha a arrasadora... sou tentada dizer beleza... seguramen 
te a beleza
masculina.., de Jondalar, mas tinha um temperamento to aberto e caloroso, 
que, aonde quer que fosse, as pessoas o adoravam, homens e mulheres 
igualmente. Fazia
amigos, fcil e naturalmente, e ningum se ressentia ou tinha inveja dele - 
disse a mulher.
Elas estavam paradas, conversando, com o lobo enroscado aos ps de Ayla. 
Ao voltarem a caminhar na direo do acampamento, Ayla ainda mantinha a 
tes ta franzida,
meditando sobre as palavras da donier.
- Agora que Jondalar trouxe voc para casa, muitos homens se sentem ain 
da mais invejosos, e muitas mulheres tm cimes de voc, porque ele a ama - 
continuou a Zelandoni.
- Foi por isso que Marona tentou fazer voc parecer 1 uma tola. Tinha 
cimes, inveja de vocs dois, creio eu, porque encontraram a
felicidade um no outro. H quem acredite que muito foi dado a Marona, mas 
tudo o que ela j teve foi uma beleza incomum, e a beleza, apenas,  o mais 
ilus rio dos
Dons. Isso no dura. Ela  uma mulher desagradvel, que parece pensar em 
pouca coisa mais alm de si mesma, tem poucas amigas e nenhum talento 
verdadeiro. Quando
a beleza de Marona acabar, receio que ela no ter nada, nem mesmo filhos, 
ao que parece.
Andaram juntas um pouco mais, e ento Ayla parou e virou-se para a mulher.
- No tenho visto Marona ultimamente. Eu a vi muitos dias antes de par 
tirmos, e no a vi na caminhada at aqui.
- Ela voltou para a Quinta Caverna, com a amiga dela, e veio para c com o 
grupo. Est no acampamento da Quinta - informou a donier.
- No gosto de Marona, mas tenho pena dela, por no poder ter filhos. Iza 
conhecia algumas coisas que podem ser feitas para tornar uma mulher mais 
re ceptiva ao
esprito fecundador - revelou Ayla.
- Eu tambm conheo algumas, mas ela no pediu ajuda, e se  mesmo capaz 
de conceber, nada ir ajud-la - afirmou a mulher.
Ayla percebeu um tom de pesar em sua voz. Ela tambm se sentiria pesarosa,
se no pudesse ter filhos. Ento, o enrugado da testa foi substitudo por um 
sor riso radiante.
- Voc sabia que eu vou ter um filho? - perguntou.
A Zelandoni retribuiu o sorriso. Sua especulao sobre Ayla foi confirmada.
- Estou muito feliz por voc, Ayla. Jondalar sabe que a parceria de vocs foi 
confirmada?
- Sabe. J contei para ele. Ficou muito contente.
- E deveria mesmo ficar. J contou para mais algum?
- Somente para Marthona e Proleva, e agora voc.
- Se no for do conhecimento geral e voc desejar, poderemos surpreender 
a todos dando a boa notcia em seu Matrimonial - sugeriu a Zelandoni. - H 
umas palavras
especiais, que podem fazer parte da cerimnia, se uma mulher j foi 
Abenoada.
- Creio que vou gostar disso - concordou Ayla. - Deixei de marcar as minhas 
luas, desde que o sangramento parou, mas no sei se devo comear ncva 
mente a marcar
os dias, para acompanh-los at o meu beb nascer. Jondalar me ensinou as 
palavras de contar, mas no sei contar tanta coisa assim.
- Voc acha difceis as palavras de contar, Ayla?
- Ah, no. Eu gosto de usar as palavras de contar - afirmou. - Mas Jondalar 
me surpreendeu, na primeira vez em que as usou. S pelas marcas que todas 
as noites eu
fazia nas minhas varas, ele soube quanto tempo eu vivi no vale. Ele disse que 
foi mais fcil, porque eu cortava uma linha a mais em cima das marcas, para 
registrar
quando comeava a minha lua, a fim de me preparar para ela. Eu parecia ter 
mais problemas para caar, quando estava sangrando. Achava que os animais 
conseguiam me
farejar. Aps algum tempo, percebi que o meu sangra mento vinha sempre 
quando a lua minguante ficava com o mesmo formato, e, portanto, no 
precisava mais fazer as
marcas, mas continuei fazendo assim mes mo. Nem sempre se consegue 
enxergar a lua, quando chove ou est nublado.
A Zelandoni achou que j estava se acostumando s surpresas reveladas por 
Ayla daquele modo to natural, como se elas nada significassem. Mas, fazer 
mar cas de contar
quando ela sangrava, e depois associar isso s fases da lua, era algo or 
demais impressionante para algum deduzir por si mesmo.
- Ayla, voc gostaria de aprender mais palavras de contar, e modos diferen 
tes de us-las? - ofereceu a mulher. - Elas podem ser usadas, por exemplo, 
para Se saber
quando as estaes esto prestes a mudar, antes que as mudanas se tor 
nem aparentes, ou para contar os dias at o seu beb nascer.
- Sim, eu gostaria - aceitou Ayla, com um sorriso largo. - Aprendi com Creb 
a fazer marcas, mas acho que ele ficou nervoso, depois que aprendi. Com
tar alm de trs. Greb sabia fazer marcas de contar, porque era O Mog-ur, 
mas ele no tinha palavras de contar.
- Eu vou lhe mostrar como contar nmeros maiores - prometeu a Primeira. - 
Acho melhor voc ter os seus filhos agora, enquanto  jovem. No vai querer 
se preocupar
em cuidar de crianas pequenas, quando for mais velha. No d para saber o 
que talvez venha a fazer.
- No sou to jovem assim, Zelandoni. Eu devo contar dezenove anos, se Iza 
estava certa sobre quantos eu tinha, quando ela me encontrou - retrucou 
Ayla.
- Voc certamente aparenta ser mais nova do que . - Uma ruga fugaz 
atravessou a testa da Zelandoni. - Mas isso no importa. Voc j tem uma 
dian teira - disse ela,
praticamente para si mesma, e terminou a frase no pensamento:
Ela j  uma habilidosa curadora, e no ter que aprender isso antes de se 
tornar uma Zelandoni.
- Uma dianteira em qu? - indagou Ayla, intrigada.
- H.. Tem uma dianteira na sua famlia, pois a vida j comeou em voc
- justificou a Zelandoni. - Mas espero que no tenha muitos filhos. Voc 
goza de boa sade, mas filhos demais podem consumir uma mulher, 
envelhec-la mais rapidamente.
Ayla teve a ntida impresso de que a Zelandoni no queria que ela soubesse 
o que estava pensando, e rapidamente falou outra coisa, pois queria evitar 
dizer aquilo
a ela.  direito dela, pensou Ayla.
O crepsculo j havia iniciado, quando se aproximaram da fogueira do acam 
pamento, e j estava difcil enxergar. Ao chegarem  vala com fogo, as 
pessoas as saudaram
e lhes ofereceram comida. Ayla percebeu que estava com fome; fora uma 
tarde cheia e movimentada. A Zelandoni comeu com eles, resolveu dormir 
aquela noite no acampamento
da Nona Caverna, e de imediato passou a conver sar com Marthona e 
Joharran sobre a caada prxima e a Explorao que a zelandonia ia fazer. 
Mencionou que Ayla se
juntaria ao grupo, o que os dois acha ram totalmente apropriado, mas fez 
com que Ayla se sentisse desconfortvel. Ela no queria se tornar Uma Que 
Servia  Me,
mas as circunstncias pareciam pux la nessa direo, e no estava nada 
contente.
- Temos que chegar l mais cedo. Preciso montar alguns alvos e medir as 
distncias - avisou Jondalar, ao sarem do alojamento, na manh seguinte. 
Ele segurava um
caneco com ch de hortel, que Ayla havia preparado, e comeava a mastigar 
a ponta de um graveto de guakria, do qual ela tinha tirado a casca re 
centemente, a fim
de prepar-lo para ele limpar os dentes.
 encontro voc depois - props Ayla.
- No demore muito. O pessoal vai se reunir cedo, e quero mostrar a eles do 
que voc  capaz. Uma coisa  um homem como eu arremessar uma lana a 
longa distncia,
mas, quando virem que uma mulher, usando o arremessador, pode atirar uma 
lana mais distante do que qualquer um dos homens, isso os deixar mais 
interessados - previu
Jondalar.
- Estarei l assim que puder, mas quero escovar os cavalos e ver o olho de 
Racer. Ele parece vermelho, como se tivesse algo dentro. Talvez eu tenha 
que trat lo
- ponderou Ayla.
- Voc acha que ele est bem? Devo ir com voc? - indagou, preocupado.
- No parece to ruim assim. Tenho certeza de que ele est bem. V na 
frente, eu no demoro - prometeu.
Jondalar fez que sim, enquanto esfregava os dentes, e depois bochechou 
com ch de hortel. Bebeu o resto e sorriu. - Isto sempre me faz sentir 
melhor - disse ele.
- Faz a boca parecer limpa, e deixa a pessoa desperta - afirmou Ayla. Pou co 
depois de se encontrar com Jondalar, ela vinha preparando praticamente 
todas as manhs
o ch e o graveto dele, e acompanhando o seu ritual matinal. - Eu percebi 
isso, mais especialmente, quando enjoava pela manh.
- Ainda sente enjos matinais? - quis saber ele.
- No, no sinto mais, mas tenho notado que a minha barriga est ficando 
maior - frisou.
Ele sorriu.
- Eu gosto da sua barriga maior - afirmou, e depois se aproximou e colo cou 
um brao em volta dos ombros de Ayla, e a outra mo sobre a sua barriga. - 
Eu gosto principalmente
do que est dentro dela.
Ayla retribuiu o sorriso.
- Eu tambm - concordou.
Ele a beijou com afeto e sentimento.
- A coisa de que mais sinto falta da viagem era que podamos parar sempre 
que desejvamos e compartilhar Prazeres. - Fuou o pescoo dela, sentiu a 
abun dncia de
seus seios e voltou a beij-la. - Talvez eu no tenha que chegar to cedo 
assim ao campo onde faremos os arremessos - acrescentou, com uma rou 
quido na voz.
- Tem sim - repreendeu-o, com uma risada. - Mas, se quiser ficar...
- No, tem razo, mas irei procurar voc mais tarde.
454
 455
Jondalar seguiu para o acampamento central, e Ayla voltou para o alojamen 
to. Quando ela saiu, vinha carregando o bornal, o que tinha alas para as 
lanas e o arremessador,
dentro da qual colocou algumas coisas. Assobiou para Lobo, e rumou 
correnteza acima ao longo do pequeno riacho. Os cavalos sabiam que ela viria 
e haviam forado
as correias na direo dela o mximo que conseguiram. Ayla reparou que as 
cordas tinham ficado presas em parte da vegetao. Alm do capim alto que 
se enroscou nas
duas correias, Huiin estava com uma moita seca inteira emaranhada em su 
corda, e Racer tinha arrancado do cho um vioso arbusto, com raiz e tudo. 
Talvez um cercado
fosse melhor do que prend-los com correias, pensou ela.
Retirou os cabrestos e as correias dos dois, e, enquanto o fazia, conferiu o 
olho de Racer. Estava um pouco vermelho, mas, fora isso, parecia em boas 
condi es.
Racer e Lobo esfregaram os focinhos, e depois, feliz por estar livre da 
correia que o limitava, o cavalo comeou a correr, descrevendo um grande 
crculo, - - - o
lobo o perseguindo. Ayla foi escovar Huiin e, quando olhou para cima, P 
estava perseguindo Lobo. Na vez seguinte em que olhou, Lobo novamente 
perse guia Racer. Ela
parou de escovar por um instante, a fim de observ-los. Quando:
Lobo se aproximava de Racer, o jovem garanho diminua um pouco a 
velocida de at o lobo passar por ele e correr adiante. Depois que 
descreveram um
completo, Lobo diminuiu a velocidade e deixou Racer passar por ele.
A princpio, Ayla pensou que fosse imaginao sua eles estarem fazendo 
aquP lo de propsito, mas, continuando a observao, logo se tornou bvio 
que se
rtra
tava de uma brincadeira que faziam um com o outro, e estavam adorando. 
dois jovens animais machos, to cheios de vida e energia, haviam encontrado
uma maneira de gastar
um pouco desta e, ao mesmo tempo, se divertir. Ayla
sacudiu a cabea, desejando que Jondalar estivesse ali para desfrutar com 
ela  farra dos dois, e voltou a escovar a gua. Huiin, tambm, comeava a 
exibir a s:
gravidez e parecia gozar de boa sade.
Quando Ayla terminou com a gua, viu que Racer pastava tranqilamente, 
Lobo tinha sumido de vista. Foi fazer alguma explorao, deduziu ela.
Assobiou
no tom particular que Jondalar havia inventado para chamar o seu cavalo.
Raser  ergueu a vista e partiu na direo dela. Mal a tinha alcanado, quando 
se ouvi um outro
assobio, repetindo exatamente o mesmo tom. Ambos olharam na direo de 
onde viera o assobio. Ayla pensou que fosse Jondalar, voltando por algul 
motivo, mas, quando
olhou para cima, viu um menino vindo na direo deles.
No era conhecido dela, e Ayla ficou imaginando o que ele queria e
porque tinha imitado aquele assobio exclusivo. Quando o menino se 
aproximou, ela
achou que ele
talvez devesse contar uns nove ou dez anos, e ento notou que um de set
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- Ns chegamos recentemente. H quanto tempo est aqui?
- Eu nasci aqui.
- Ah, ento voc  da Dcima Nona Caverna.
- Sou. Por que fala esquisito?
ra0S era um pouco atrofiado, mais curto do que o outro, e pendia um tanto 
desajeitado, como se o garoto no tivesse controle 
sobre ele, O menino lembrou lhe Creb,
cujo brao, quando criana, fora amputado no cotovelo, e Ayla sentiu de 
imediato um afeto por ele.
- Foi voc quem assobiou?
- Foi.
- Por que assobiou como eu assobiei? - perguntou Ayla.
- Eu nunca tinha ouvido um assobio como esse. Quis ver se conseguia as 
sobiar igual - explicou.
- E assobiou - afirmou ela. - Voc est procurando algum?
- No - respondeu.
- O que est fazendo aqui?
- Estou s olhando. Me disseram que havia cavalos por aqui, mas eu no sabia 
que algum tinha montado acampamento. No me
disseram isso. Todo o resto do pessoal
est em Riacho do Meio - disse ele.
- Eu no nasci aqui. Vim de muito longe. Eu era Ayla do Acampamento do 
Leo dos Mamuti, e agora sou Ayla da Nona Caverna dos Zelandonii - apre 
sentou-se, e deu
um passo  frente, as mos levantadas  maneira de um cumpri mento formal.
Ele enrubesceu um pouco, pois no podia alcan-la direito, por causa do 
brao parcialmente paralisado. Ayla esticou-se um pouco mais para o 
membro aleijado e segurou
as mos dele nas suas, como se fosse algo perfeitamente nor mal, mas notou 
que a sua mo era menor e deformada, e que o dedo mnimo era grudado com 
o do lado. Segurou
as mos dele por um momento, e sorriu.
Depois, como se tivesse acabado de lembrar, o garoto disse:
- Eu sou Lanidar da Dcima Nona Caverna dos Zelandonii. - Estava para 
Soltar as mos, mas acrescentou: - A Dcima Nona Caverna lhe d as boas-
vin das 'a Reunio
de Vero, Ayla da Nona Caverna dos Zelandonii.
Voc assobia muito bem. O seu assobio foi uma cpia muito boa do meu.
Voc gosta de assobiar? - perguntou, soltando as mos.
Acho que sim.
Posso pedir para no fazer esse assobio novamente? - pediu ela.
Por qu? - quis saber ele.
- Eu uso esse som para chamar o cavalo, este aqui, o garanho. Se voc asso
biar, etc vai pensar que o est chamando, e isso vai confundi-lo - explicou 
Ayla. - Se voc gosta de assobiar, posso lhe ensinar outros sons de assobios.
- Como assim?
Ayla olhou em volta e viu um pssaro empoleirado no galho de uma rvore 
prxima, emitindo um canto "tic-a-di-di" caracterstico. Escutou por um 
instan te, e depois
repetiu o som. O menino pareceu pasmado, e o pssaro parou de cantar por 
um momento, e ento recomeou. Ayla repetiu o som. A ave de cabea negra 
cantou novamente,
olhando em volta.
- Como voc faz isso? - indagou o garoto.
- Eu posso lhe ensinar, se quiser. Voc pode aprender, pois  um bom 
assobiador - disse ela.
- Voc tambm pode assobiar como os outros pssaros? - perguntou.
- Posso.
- Quais?
- Qualquer um que voc quiser.
- Que tal uma cotovia?
Ayla fechou os olhos por um instante, e depois assobiou uma srie de tons 
que soavam exatamente como uma cotovia que estivesse pairando nos ares a 
grande altura
e descesse rapidamente, emitindo a sua esplndida melodia.
- Pode mesmo me ensinar a fazer isso? - pediu o menino, fitando-a com os 
olhos maravilhados.
- Se voc quiser mesmo aprender - salientou Ayla.
- Como voc aprendeu?
- Praticando. Se tiver pacincia, s vezes o pssaro pode vir at voc, quan 
do assobiar o canto dele - retrucou a mulher. Ayla lembrou de quando vivia 
sozinha no
seu vale e ensinou a si mesma a assobiar e a imitar os sons das aves. Depois 
que passou a aliment-las, vrias delas sempre respondiam ao seu canto e 
vinham comer
na sua mo.
- Voc sabe assobiar outras coisas? - quis saber Lanidar, completamente 
intrigado com a estranha mulher que falava esquisito e assobiava to bem.
Ayla pensou por um momento, e ento, talvez porque o menino a fazia tem- 1 
brar de Creb, comeou a assobiar uma sinistra melodia que soava como uma 
flau ta. Ele
j tinha ouvido vrias vezes o som de uma flauta, mas nunca algo como aquilo. 
A msica sombria era totalmente desconhecida dele. Tratava-se do som da 
flauta tocada
pelo mog-ur durante a Congregao do Cl,  qual Ayla tinha ido com o cl de 
Brun, quando ainda vivia com eles. Lanidar escutou at ela parar.
- Eu nunca ouvi um assobio como esse - observou.
- Voc gostou? - perguntou ela.
- Gostei, mas tambm d um pouco de medo. Como se viesse de um lugar
muito longe - comentou Lanidar.
- E veio - afirmou Ayla, depois sorriu e rasgou o ar com um trinado agu do e 
autoritrio. Sem demora, Lobo surgiu saltitando do meio do capim alto do 
campo.
-  um lobo! - gritou de medo o menino.
- Est tudo bem - tranqilizou Ayla, mantendo Lobo perto de si. O lobo  
meu amigo. Ontem, eu atravessei o acampamento principal com ele. Pen sei 
que voc soubesse
que ele estava aqui, junto com os cavalos.
O garoto se acalmou, mas continuava encarando Lobo com enormes olhos 
redondos repletos de apreenso.
- Ontem, eu fui colher framboesas com minhame Ningum nem mes mo me 
disse que voc estava aqui. Apenas me dis que havia uns cavalos no Prado 
Superior - justificou-se
Lanidar. - Todo mundo s falava numa espcie de coisa de arremessar lanas 
que um hon/m queria mostrar. Eu no sou bom em arremessar lanas, e por 
isso resolvi
dar uma
olhada nos cavalos.
Ayla ficou imaginando se a omissso no fora proposital, se algum no quis 
engan-lo, como Marona tentou
fazer com ela. Deu-se conta, ento, de que um menino da idade
dele, que ia colher framboesas com a me, devia levar uma vida bastante 
solitria. Intuiu que o
garoto com um brao aleijado, incapaz de arre messar uma lana, no
devia ter muitos amigos, e que os outros garotos faziam troa dele e 
tentavam lhe pregar pea Mas ele tinha um brao bom. Podia apren der a 
atirar uma lana, principalment
utilizando o arremessador.
Por que voc no  bom em arremessador de lana? - perguntou ela.
No est vendo? respondeu, es o brao malformado e olhan do para ele com 
desprezo.
- Mas o seu outro brao  perfeito frisou Ayla.
- Todo mundo sempre segura com a outra mo a serem usadas. Alm disso, 
nunca ningum quis me ensinar. Dizem que
 nunca conseguiria acertar um alvo alegou o menino.
- E o homem da sua lareira? - quis saber ela.
- Eu vivo com a minha me e a me dela. Acho que j houve, certa vez um 
homem da lareira, a minha me me apontou ele, mas ele foi embora h
muito tempo e no quer nada
comigo. Ele no gostou, quando tentei visit-lo. Pareceu envergonhado  
vezes, vem um homem e mora com a gente por uns
tempo s nenhum deles liga muito para mim - queixou-se
o menino.
- Voc gostaria de ver um arremessador de lanas? Eu tenho um comigo 
ofereceu Ayla.
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- Onde voc conseguiu? - surpreendeu-se Lanidar.
- Eu conheo o homem que o fez. o homem com quem vou me acasalar. 
Assim que acabar aqui com os cavalos, vou ajud-lo a demonstrar o 
arremessador.
- Acho que posso dar uma olhada - concedeu o garoto.
O bornal dela estava ali perto, no cho. Apanhou o arremessador e algumas 
lanas, e retornou.
-  assim que funciona - mostrou, pegando uma lana e colocando-a na  parte 
de cima do instrumento de estranha aparncia. Cuidou para que o
bordo entalhado na extremidade
mais grossa da lana encaixasse no pequeno, das costas da estreita tbua 
com o sulco no meio, em seguida enfiou
os ddedos nas alas presas  ponta da frente. Mirou adiante
do campo, e disparou/a lana.
- A lana foi muito longe! - exclamou Lanidar. - Nunca vi um homem atirar 
uma lana a essa distncia.
- Talvez no.  isso que torna o arremessador uma excelente arma de caa. 
Creio que voc  capaz de atirar uma lana com isto. Venha c, votl lhe como 
se segura.
Ayla percebeu que o seu arremessador no foi feito para algum 
dodktamanho. de Lanidar, mas era bom o bastante para demonstrar o 
princpio da ala em! que era baseado.
O brao deformado do garoto era o direito, o que o fe c desenvolver o 
esquerdo. No importava se ele tivesse sido naturalmente
canhoto no caso de o seu brao direito ter-se
desenvolvido adequadamente. Ele ag en canhoto, e tinha fora do lado 
esquerdo. momento, Ayla no se im?brta' com a mira, mas em lhe mostrar 
como armar e rremessar
a lana. Depois, armou o instrumento e deixou que ele experimentasse, voou 
alto e esgarrada mas bem longe, e o sorriso no rosto de Lanidar foi de 
xtase.
- Eu atirei essa lana. Olhe como foi longe! - praticamente gritou. - gente  
mesmo capaz de acertar uma coisa com isso?
- Se praticar - ressaltou ela, sorrindo. Olhou em volta do campo, mas nada 
viu. Dirigiu-se a Lobo, que se mantivera deitado de barriga, a cabea 
levantada observando
tudo. - Lobo, v procurar uma coisa para mim - falou, mas o sinal que fez 
com a mo disse mais.
Ele deu um salto e correu pelo prado com capim alto maduro, mudando c 
verde para dourado. Ayla seguiu-o, lentamente, e o menino veio logo atrs.
Logo ela percebeu
um movimento no capim adiante, e a seguir avistou uma lebre parar para 
longe do lobo. Ayla tinha a arma aprumada e vigiava atentamente,
 quando viu a direo
provvel que a lebre tomaria em seguida, disparou a pe na lana. Acertou-a 
em cheio, e, quando se aproximou, o lobo estava
aguardando ao lado animal, olhando para
ela.
- Eu vou querer essa, Lobo. Agora pode ir pegar uma para voc - disse ela ao 
carnvoro, novamente, fazendo sinais ao mesmo tempo. Mas o garoto no viu 
os gestos,
e ficou completamente pasmado pelo modo como o enorme lobo en tendia a 
mulher. Ela recolheu a lebre e rumou de volta na direo dos cavalos.
- Voc devia ir ver o homem demonstrar o arremessador de lanas que ele 
fez. Creio que achar interessante, Lanidar, e no far diferena o fato de 
voc osabpmo 
atirar uma lana. Em todo caso, ningum mais sabe como usar
arremessa dos vo aprender desde o incio. Se quiser esperar um pou co, eu 
vou com voc - Ayla.
Lanidar observou-a e o jovem garanho.
- Eu nunca tinha vis um cavalo marrom como esse. A maioria dos cava los se 
parecem com a gua.
- Eu sei - confirmot Ayla -, mas, no distante leste, alm do fim do io da 
Grande Me, que comea do outro lado da geleira, alguns cavalos so as 
marrons.  de l 
que vm os cavalos.
Aps um instante, o lobo retornou. Escolheu um lugar, circundou-o algumas 
vezes, e depois baixou-se sobre a barriga, arfando e vigiando.
- Por que esses animais ficam perto de voc, deixam que os toque, e fazem o 
que manda? - indagou Lanidar. - Eu nunca tinha visto animais fazerem isso.
- Eles so meus amigos. Eu estava caando, e a me da gua caiu no
buraco da minha armadilha. S percebi que ela estava amamentando quando 
vi sua cria. Um bando de hienas
tambm tinha visto a cria. No sei por que eu a afu gentei. A cria no 
conseguiria sobreviver sozinha, e, como eu a salvei, resolv cri la. Acho que 
ela cresceu
pensando que eu era sua me. Depois, nos torrnamos amigas, e aprendemos a 
nos entender. A gua faz o que eu lhe peo porque ela quer. Eu lhe dei o 
nome de Huiin 
- contou
Ayla, mas o modo como pronun ciou o nome foi uma cpia perfeita do 
relincho de um cavalo. No campo, gua amarelo ergueu a cabea e olhou na 
direo dela.
Isso foi voc! Como faz isso? - surpreendeu-se Lanidar.
Prestou ateno e praticou. Um relincho  o nome verdadeiro dela. Para a 
maioria das pessoas costumo dizer que  "Huiin", pois, desse modo, 
entendem melhor, mas 
no
foi assim que o pronunciei, quando lhe deio nome. O garanho  filho dela. Eu 
estava presente, quando ele nasceu. E Jondalar tambm. Foi ele quem deu o 
nome de Racer 
ao cavalo, mas isso foi depois - explicou Ayla.
- Racer pode significar algum que gosta de correr, ou que gosta de seguir 
na frente de todo mundo - falou o menino.
- Foi isso que Jondalar disse. Ele lhe deu esse nome porque Racer adora 
Correr, e gosta de se manter  frente, exceto quando coloco uma corda nele. 
A, ele
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segue atrs da me - disse Ayla, e voltou a tratar do cavalo. J estava quase 
termi nando.
- E o lobo? - perguntou Lanidar.
- Foi quase a mesma coisa. Eu criei Lobo desde beb. Matei a me dele, 
porque estava roubando arminhos de umas armadilhas que eu tinha feito. 
No sabia que estava 
amamentando. Era inverno, o cho estava coberto de neve, e ela tinha dado 
cria antes da estao. Segui as pegadas dela, de volta at oca.
era, uma loba solitria, sem outros lobos para ajud-la, odos os seus filhotes 
tinham morrido, com exceo de um. Tirei Lobo toca quando os seus olhos 
mal tinham 
aberto. Ele cresceu com as crianas,,) e acha que as pessoas so a sua 
alcatia - comentou. //
- Como  mesmo o nome que vocdeu  ele? - quis saber Lanidar.
- Lobo.  uma palavra, em Mamu i, que significa lobo - esclareceu Ayla.
- Quer ser apresentado a ele?
- Como assim ser "apresentado' a ele? Como algum pode ser apresentado a 
um lobo?
- Venha aqui, que lhe mostro chamou. Ele se aproximou cauteloso. - Me d a 
sua mo, para eu deixar Lob farej-la, ele ficar acostumado com o seu 
cheiro, e ento
poder alisar o seu plo
 hesitou um pouco em colocar a mo boa to perto da boca do lobo,  mas a 
estendeu lentamente. Ayla
colocou-a no focinho de Lobo. Ele a farejou e depois a lambeu.
Isso faz ccegas! - exclamou o menino, com um ris inho nervoso.
Pode passar a mo na cabea, ele gosta de ser coado - sugeriu Ayla, 
mostrando a
como fazer. Ao tocar no animal, o menino abriu um largo sorriso de 
contentamento,
mas ergueu a vista quando o jovem garanho relin chou. . Acho que Racer 
tambm quer ateno. Voc quer fazer festinha nele?
- Posso? - encantou-se Lanidar.
- Racer, venha c - ordenou ela, fazendo-lhe um sinal, ao mesmo tempo em 
que' falava. O garanho marrom-escuro, com cor preta na crina, cauda e 
parte inferior das
pernas, relinchou novamente, deu alguns passos na direo da mu lher e do 
garoto, e baixou a cabea na direo dele, fazendo com que o menino se 
afastasse do animal.
Ele podia no ser um carnvoro com a boca repleta de dentes afiados, mas 
isso no significava que no soubesse se defender. Ayla vasculhou o interior 
do bornal a
seus ps.
- Aproxime-se lentamente, e deixe tambm que ele sinta o seu cheiro.  
assim que os animais se acostumam com as pessoas, e depois voc poder 
alisar 1 focinho dele
ou o lado do rosto - orientou Ayla.
O menino fezo que ela mandou.
- O focinho dele  to macio! - maravilhou-se Lanidar. De repente, como se 
surgida do nada, Huiin estava ali, empurrando Racer para o lado, O menino 
sobressaltouse.
Ayla tinha visto Huiin se aproximar pelo campo, querendo saber o que estava 
acontecendo.
- Huiin tambm gosta de ateno - afirmou Ayla. - Cavalos so muito
curiosos, e gostam de ser notados. Voc quer dar comida a eles? - o garoto 
fez que sim. Ayla abriu a mo e mostrou-lhe dois pedaos de uma raiz, 
cenoura brava fresca,
que ela sabia, os cavalos gostavam. - A sua mo direita tem fora su ficiente 
para segurar alguma coisa?
- Tem - confirmou ele.
- Ento, pode alimentar os dois ao mesmo tempo - disse ela, colocando um 
pedao de raiz em cada uma de suas mos. - Coloque uma mo aberta, com a 
comida, perto de
cada cavalo, para que eles possam peg-la - ensinou. - Eles ficaro com 
cimes, se alimentar um e no o outro, e Huiin vai empurrar Racer para o 
lado. Ela  a me,
e manda nele.
- Mesmo mes de cavalos fazem isso? - duvidou.
- Sim, mesmo mes de cavalos. - Ela se levantou e pegou as cordas que 
estavam amarradas aos cabrestos. - Acho que est na hora de irmos, 
Lanidar. Jondalar est me
esperando. Vou ter que colocar as cordas de volta. Eu preferia no fazer 
isso, mas  para a prpria segurana deles. No quero que fiquem  sol ta, 
vagando por a,
enquanto todos na Reunio de Vero souberem que estes ca valos no so 
para serem caados. Estava pensando que um cercado seria um lugar melhor 
para eles, em vez
de usar cordas que se enroscam em arbustos e no capim.
O arbusto que se prendeu  corda de Racer estava to emaranhado, que ela 
desistiu de desenrosc-lo, e foi apanhar o bornal. Achava que tinha trazido 
o pe queno machado
que Jondalar fizera para ela, embora, quando viajava, costumas se us-lo 
com a empunhadura enfiada em uma ala da cintura. Seria mais fcil soltar a 
corda, se primeiro
cortasse o arbusto lenhoso. Procurou no fundo da sa cola e o encontrou. 
Aps limpar as cordas de toda a sujeira agarrada a elas, colo cou de volta 
nos cavalos, e
recolheu o bornal e a lebre, para d-la a quem estivesse trabalhando nas 
proximidades do acampamento da Nona Caverna. Em seguida,
para o menino.
- Se eu lhe ensinar como assobiar como pssaros e outras coisas, voc faz 
lima coisa para mim, Laniclar?
- O qu?
- s vezes, eu preciso ficar fora quase o dia inteiro. Quando eu no estives 
se por aqui, voc poderia vir, de vez em quando, dar uma olhada nos cavalos. 
Se
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car se as cordas se enroscaram e dar um pouco de ateno a eles. Os 
cavalos gos
tam de companhia. Se houver qualquer problema, voc me procura. Acha que 

capaz de fazer isso?
O menino mal conseguiu acreditar no que ela estava pedindo. Nunca sonharia 
que
ela  lhe pediria para fazer algo como aquilo.
- Tambm posso dar comida a eles? Eu gostei, quando comeram das mi nhas 
duas mos.
- Claro. Pode colher uma grama fresca, Gostam muito de cenoura- brava e 
de outras razes,
Preciso ir Quer ir comigo, ver Jondalar mostrar o arremessador
- Quero - disse ele.
Ayla canminhou com o garoto de volta ao acampamento,  dando alguns 
assobios de v durante o caminho.
/Quando Ayla, Lobo e Lanidar chegaram ao local da demonstrao  do
arremessador de lanas, ela ficou surpresa em ver mais vrios outros 
apetrechos de caa perto de Jondalar. Algumas
pessoas, que tinham visto a apresentao an
 terior que fizeram para as Cavernas, perto da rea em que se localizavam, 
haviam / produzido suas prprias verses da arma, e demonstravam o seu 
funcionamento,
com graus variados de sucesso. Jondalar viu Ayla se aproximar e respirou 
alivia do. Apressou-se em receber o grupo.
- Por que demorou tanto? - foi logo dizendo. - Muita gente tentou fazer 
arremessadores, depois de nossa demonstrao, mas voc sabe o quanto  
prec de prtica para
se obter eficincia. At agora, fui o nico a acertar no que receio que as 
pessoas comecem a pensar que a minha pontaria  apenas sorte,. ningum 
mais ser capaz
de acertar nada com o arremessador. No quis falar nada a seu respeito. 
Mas creio que, se demonstrar a sua habilidade, isso causar uma impresso 
melhor. Que bom
que, finalmente, voc chegou.
- Escovei os cavalos.., o olho de Racer est bem... e deixei que corressen um 
pouco - explicou ela. - Precisamos pensar em algo mais, alm de c que 
prendem em arbustos
e outras coisas. Talvez a gente possa construir um cercado ou coisa assim. 
Pedi a Lanidar para cuidar dos cavalos, quando estivermos longe do 
acampamento. J conheceu
os cavalos, e os dois gostaram dele.
- Quem  Lanidar? - perguntou Jondalar, um tanto impaciente.
Ayla apontou para o menino a seu lado, que tentava se esconder atrs dela,
olhando para o homem alto parecendo zangado, o que o deixava um pouco 
temeroso.
- Este  Lanidar da Dcima Nona, Jondalar. Disseram a ele que havia cava 
los no campo onde estamos acampados, e ele foi v-los.
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Viu que no estava indo to bem quanto esperava, mas notou o brao 
deformado e uma ruga de preocupao no rosto de Ayla. Ela tentava lhe 
dizer algo, e provavel mente
tinha a ver com o garoto.
- Acho que ele pode ser uma grande ajuda - observou ela. - At mesmo j 
aprendeu o assobio que usamos para chamar os cavalos, mas ele prometeu 
no us-lo sem um
bom motivo.
- Alegro-me em ouvir isso - comentou Jondalar, dirigindo a sua ateno para 
a criana -, e estou certo de que a ajuda ser bem-vinda. - Lanidar 
descontraiu um pouco, 
e Ayla sorriu para Jondalar.
- Lanidar tambm veio ver a demonstrao. Que tipo de alvo voc mon tou? - 
Ayla fez a pergunta enquanto caminhavam de volta em direo  multi do, 
formada por homens 
em sua maioria, que estava de olho neles. Alguns j pareciam dispostos a ir 
embora.
- Desenhos de um veado num couro amarrado a um feixe de capim - disse ele.
Ao se aproximarem, Ayla apanhou uma lana e o seu arremessador, e, assim 
que viu os alvos, mirou e disparou. Um tum consistente pegou muitos de 
surpre sa, pois no 
esperavam que a mulher fizesse um arremesso to depressa. Ela fez mais 
algumas demonstraes, porm alvos imveis ficaram parecendo uma coisa 
banal, e, apesar de 
a lana voar mais longe do que qualquer um j vira uma mu lher conseguir, 
eles j tinham visto Jondalar fazer o mesmo vrias vezes. J no era mais 
excepcional.
O menino pareceu entender isso. Ele se mantivera ao lado de Ayla, pois no 
sabia se ela queria que ele fosse embora ou ficasse, e deu-lhe uma cutucada.
- Por que no manda Lobo encontrar um coelho ou coisa assim? - suge riu 
Lanidar.
A mulher sorriu-lhe, e em seguida fez um sinal silencioso para o lobo. A rea 
fora pisoteada pelas muitas pessoas que por ali se movimentavam, e no era 
provvel 
que restassem muitos animais, mas, se havia algum para ser encontrado, 
Lobo o encontraria. Com um pouco de apreenso, algumas pessoas notaram 
que ele dis parou para 
longe de Ayla. Elas j comeavam a se acostumar a ver o carnvoro com a 
mulher. Correndo solto, porm, era bern diferente.
Antes da chegada de Ayla, um homem perguntara a Jondalar quo longe ele 
poderia atirar uma lana com o arremessador, mas este alegou que havia 
usado todas elas e 
precisava apaiih-las antes de fazer novos disparos. Tinha ido apanh-las 
com alguns homens, quando Ayla avistou Lobo em uma posi o que lhe 
revelava ter ele localizado 
algo. Subitamente, uma ruidosa tetraz
O ABRIGO DE PEDRA / 465
1
da rea de alvos. Ayla estivera esperando com uma lana de peso leve no 
arremessador, uma das tais que Jondalar tinha comeado a usar para aves e 
animais de pequeno
porte.
Ela disparou a arma com uma velocidade e presteza quase instintivas. A ave 
esganiou, ao ser atingida, levando vrias pessoas a olhar. Viram-na cair do 
cu. De repente,
houve um renovado interesse pela arma de caa.
- At onde ela consegue arremessar? - quis saber o homem que havia 
perguntado
pela distncia.
- Pergunte Jondalar.
/ - Apenas arremessar o alvo? - perguntou Ayla.
- As duas coisas - responda homem.
- Se voc quer ver a distnciaem  que uma lana pode ser atirada, usando- 
se o arremessador, eu tenho uma idiamelhor - adiantou ela, e depois se 
dirigiu ao menino.
- Lanidar, pode mostrar a eles a distncia em que voc consegue arremessar 
uma lana?
O garoto olhou em volta, um tanto acanhado. Ayla, porm, sabia que Lanidar 
no hesitara em falar ou responder a uma pergunta, quando conversaram 
pela primeira vez,
e achava que ele no se importaria com a ateno. O menino olhou para ela e 
fez que sim.
- Voc se lembra de como arremessou a lana antes? - indagou ela.
Ele novamente fez que sim.
Ayla deu-lhe o arremessador e um projtil, outro dardo para aves - s lhe 
restavam duas lanas de peso leve. Ele foi meio desajeitado, ao encaixar a 
lana no arremessador,
por causa do brao mais curto, mas o fez sozinho. Ento, seguiu para o meio 
da rea de treinamento, recuou o brao bom e disparou a lana do mesmo 
modo como havia
feito anteriormente, deixando a parte traseira levantar, acrescentando o 
efeito alavanca, o que daria a ela mais distncia. A lana percor reu menos 
da metade do
caminho daquelas disparadas por Ayla ou Jondalar, con tudo, ainda assim, foi 
muito mais longe do que qualquer um poderia esperar de um menino, 
principalmente com
aquele problema fsico.
Mais pessoas comearam a aglomerar-se em volta, e agora j ningum 
parecia interessado em ir embora. O homem que pedira a demonstrao se 
aproximou. Olhou para o
garoto, reparou nos adornos de sua tnica e no pequeno colar em volta de 
seu pescoo, e pareceu surpreso.
- Este menino no  da Nona Caverna,  da Dcima Nona. Vocs acaba ram 
de chegar. Quando ele aprendeu a usar essa coisa?
- Esta manh - respondeu Ayla.
Admirou-se o homem.
Ayla confirmou.
- Sim.  claro que ele ainda no aprendeu a acertar um alvo, mas isso vir
com o tempo e a prtica. - Olhou de relance para a criana.
O sorriso de Lanidar era to cheio de orgulho que Ayla tambm teve que 
sorrir. Ele devolveu o arremessador, ela escolheu uma lana de peso leve, 
encaixou-a no lanador
e a disparou com toda a sua fora. As pessoas viram-na voar bem alto e pou 
sar bem alm dos alvos que Jondalar havia instalado. Todos ficaram to 
entretidos em observar
a lana, que poucos notaram que Ayla apanhou uma segunda lana e a arre 
messou. Esta pousou em um dos alvos, com um grande rudo, e vrias pessoas 
vira ram a cabea
para ver a comprida lana enfiada no pescoo do veado pintado.
A algazarra de vozes cresceu, e, quando Ayla olhou para Jondalar, o largo 
sor riso dele era do tamanho do de Lanidar. As pessoas juntaram-se em 
volta dos dois, querendo
ver melhor os apetrechos, e muitos quiseram experiment-los. Quan do, 
porm, pediram para usar os dela, Ayla mandou que fossem falar com 
Jondalar, dando a desculpa
de que precisava procurar Lobo. Ela deu-se conta de que, se por um lado no 
se importava em deixar que algum usasse as suas armas, por outro no 
gostava que as
pessoas lhe pedissem para us-las, e ficou surpresa com a sua reao. Ayla 
jamais possura algo que pensasse ser s dela.
Como estava preocupada com o paradeiro de Lobo, foi procur-lo. Viu-o 
sentado perto de Folara e Marthona, ao p da ladeira. A jovem percebeu 
que ela olhava na sua
direo, e levantou a tetraz. Ayla partiu ao encontro deles.
Quando deixou a rea dos alvos, uma mulher aproximou-se, e Ayla viu que 
estava acompanhada por Lanidar, que vinha um pouco mais atrs.
- Eu sou Mardena da Dcima Nona Caverna dos Zelandonii - apresen tou-se a 
mulher, estendendo ambas as mos em cumprimento. - Ns somos os 
anfitries este ano. Em
nome da Me, eu lhe dou as boas-vindas a esta Reunio de Vero. - Ela era 
pequena e magra. Ayla notou a semelhana com Lanidar.
Eu sou Ayla da Nona Caverna dos Zelandonii, outrora do Acampamento do 
Leo dos Marnuti. Em nome de Doni, a Grande Me Terra, tambm conhe 
cida por Mut, eu a sado
- respondeu.
- Eu sou a me de Lanidar - informou Mardena.
- Achei que era. H uma semelhana - afirmou Ayla.
Ela percebeu o estranho sotaque de Ayla, e ficou um pouco desconcertada.
- Eu queria saber como conhece o meu filho. Perguntei a ele, mas, s vezes, 
crianas so muito fechadas - reclamou a me, aparentando um pouco de 
irritao.
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26.
- Meninos so assim mesmo - comentou Ayla com um sorriso. - Disseram a 
ele que havia cavalos perto do nosso acampamento. Ele foi conferir. Eu 
estava l, por acaso.
- Espero que no tenha incomodado voc - falou Mardena.
- No, de modo algum. Alis, ele pode at me ajudar. Estou tentando manter 
os cavalos fora do caminho, para a sua prpria segurana, at todos se
acostumarem a
eles e saberem que no so cavalos para se caar. Pretendo fazer um 
cercado para eles, mas ainda no tive tempo, e os mantenho com cordas 
compridas amar radas a
uma rvore. As cordas se arrastam no cho e ficam presas em capim e 
arbustos, e os cavalos no conseguem se movimentar  vontade. Pedi a 
Lanidar para da uma olhada
neles, quando eu tiver que me afastar por algum tempo, e ir me a se houver 
qualquer problema. S quero me certificar de que estejam bem
- explicou Ayla.
- Ele  apenas um menino, e cavalos so bem grandes, no  mesmo? - 
contraps a me do garoto.
- Sim, e s vezes ficam com medo, se so pressionados ou se encontram em 
sima situao desconhecida. Podem empinar ou dar coices, mas aceitaram 
Lanidar muito bem.
So muito dceis com crianas e pessoas que conhecem. Voc  bem- vinda 
para ver por si mesma. Mas, se isso a preocupa, posso procurar outra pessoa 
para cuidar deles
- admitiu Ayla.
- No diga no, mame! - implorou Lanidar, precipitando-se  frente. - Eu 
quero cuidar deles. Ela me deixou tocar nos cavalos, e eles comeram das mi 
nhas mos, das
duas mos! E Ayla me mostrou como atirar uma lana com o arremessador. 
Todos os meninos atiram lanas, e eu nunca atirei uma
lana.
Mardena sabia que o filho ansiava ser como os outros garotos, mas achava 
que ele precisava aprender que nunca o seria. Doeu muito, quando o homem 
que era o seu parceiro
foi embora, depois que Lanidar nasceu. Tinha certeza de qu ele se 
envergonhava da criana, e achava que todo mundo sentia a mesma coisa. 
Alm do defeito fsico,
Lanidar era pequeno para a idade que tinha, e ela tentava proteg-lo. 
Arremessar lanas no significava nada para Mardena. Ela fora ver a 
demonstrao porque todo
mundo tinha ido, e achava que Lanidar ia gostar de assistir. Entretanto, ao 
procurar por ele, no o encontrou. Ningum ficou
mais surpreso do que a me de Lanidar,
quando a estrangeira o chamou para demons trar a nova arma, e quis saber 
como ela viera a conhec-lo.
Ayla viu a hesitao dela.
- Se no estiver ocupada, por que no vai, amanh de manh, com Lanidar ao 
acampamento da Nona Caverna? - sugeriu.
- Mame, eu consigo fazer isso. Eu sei que consigo - suplicou Lanidar.
Vou pensar - prometeu Mardena. - O meu filho no  como os outros 
meninos. No consegue fazer as mesmas coisas que eles fa zem.
Ayla encarou a mulher.
- No estou entendendo.
- Certamente  capaz de perceber que o brao dele o limita - retrucou a
mulher.
- De certa forma, mas muita gente aprende a superar esse tipo de limitao
- replicou Ayla.
- O quanto ele  capaz de superar? Voc deve saber que ele nunca ser um 
caador, e no  capaz de fazer coisas com as mos. Com isso, no resta 
muita coisa - lamentou-se
Mardena.
- Por que ele no pode ser um caador ou aprender a fazer coisas? - refu 
tou Ayla. - Ele  inteligente. Enxerga muito bem. Tem um brao perfeito, e 
pode usar o outro
para algumas coisas. Ele consegue andar e at mesmo correr. J vi 
problemas piores serem superados. Ele s precisa que algum lhe ensine.
- E quem vai ensinar a ele? - duvidou Mardena. - Nem mesmo o homem da 
lareira dele quis fazer isso.
Ayla achou que comeava a entender.
- Eu teria prazer em ensinar a ele, e creio que Jondalar estaria disposto a 
ajudar. O brao esquerdo de Lanidar  forte. Ele pode aprender a 
compensar o direito,
obter um equilbrio para a pontaria, e estou certa de que  capaz de 
aprender a atirar uma lana, principalmente com o arremessador.
Por que voc se incomodaria? No vivemos na sua Caverna. Nem mesmo o 
conhece direito - desconfiou a mulher.
Ayla no achava que a mulher acreditaria nela, se dissesse que faria isso por 
ter gostado do menino, embora tivesse acabado de conhec-lo.
- Creio que todos ns temos a obrigao de ensinar s crianas tudo o que 
sabemos - afirmou ela -, e eu acabo de me tornar uma Zelandonii. Preciso 
Contribuir para
o meu novo povo, para mostrar que sou merecedora. Alm do mais, se 
Lanidar me ajudar com os cavalos, ficarei devendo a ele, e gostaria de lhe 
dar em troca algo no
mesmo valor. Foi isso que me ensinaram, quando eu era Criana.
- Mas, e se tentar ensin-lo e ele no aprender a caar? Detesto lhe dar fal 
Sas esperanas - confessou a me do menino.
- Ele precisa desenvolver algumas habilidades, Mardena. O que ele far, 
quando crescer e voc for velha demais para proteg-lo? No va querer que 
ele seja um fardo
para os Zelandonii. Nem eu vou querer, no importa onde ele viva. +
- Ele sabe como colher alimentos com as mulheres - alegou Mardena.
- Sim, e  uma contribuio valiosa, mas Lanidar precisa aprender outras 
coisas. Pelo menos, devia tentar - insistiu Ayla.
- Creio que tem razo, mas o que ele pode fazer? No estou certa de que 
conseguir caar - admitiu a me de Lanidar.
- Voc o viu atirar uma lana, no viu? Mesmo que no se torne um exce 
lente caador... embora eu ache que  capaz... se ele aprender a caar, isso
pode levar a outras
coisas.
- Como assim?
Ayla tentou pensar rapidamente em alguma coisa.
- Ele assobia muito bem, Mardena. Eu ouvi - disse ela. - Algum - sabe 
assobiar pode aprender a imitar os sons dos animais. Se ele conseguir, poder 
aprender e se
tornar um Chamador, e atrair os animais para onde os caadore esto 
esperando. No se precisa de braos para isso, ele s vai precisar estar ond 
os animais se encontram,
para poder ouvi-los e aprender os sons deles.
-  verdade, ele  um bom assobiador - concordou Mardena, refletindo 
sobre algo em que no havia pensado. -Acha mesmo que ele pode fazer
alguma coisa com isso?
Lanidar estivera ouvindo a conversa com grande interesse.
- Ela assobia, mame. Ela  capaz de assobiar como os pssaros - aparteou
- E assobia para chamar os cavalos dela, mas tambm consegue imitar um
cavalo, e faz o som igual ao de um deles.
-  verdade? Voc imita o som de um cavalo? - perguntou a me.
- Por que voc e Lanidar no vo visitar o acampamento da Nona Caverna 
amanh de manh, Mardena? - props Ayla. Estava certa de que a mulher 
pedir para ela fazer 
uma

demonstrao, e no estava disposta a relinchar coni um cavalo com tanta 
gente por perto. Todos se virariam para olhar.
- Posso levar a minha me? - quis saber Mardena. - Tenho certeza que ela 
vai querer ir.
- Claro. Por que no vo todos e compartilham uma refeio com a gente?
- Est bem. Iremos amanh de manh - prometeu Mardena.
Ayla ficou olhando o menino e a me se afastarem. Antes de se virar para 
encontrar as mulheres e Lobo, viu Lanidar olhar para trs, para ela, com um 
cero sorriso
de gratido.
- Aqui est a sua ave - anunciou Folara, quando ela se aproximou, m trando a 
tetraz com a pequena lana ainda enfiada. - O que vai fazer com
ela?
- Bem, j que convidei algumas pessoas para uma refeio, amanh de
manh, acho que vou acabar tendo que cozinhar para elas - disse Ayla.
- Quem voc convidou? - quis saber Marthona.
- Aquela mulher com que eu estava falando - respondeu Ayla.
- Mardena? - exclamou Folara, surpresa.
- E o filho e a me dela.
- Ningum nunca os convida, exceto para banquetes comunitrios,  claro
- admirou-se Folara.
- Por que no? - indagou Ayla.
- Agora que pensei nisso, no sei por qu - respondeu Folara. - Mardena  
muito fechada. Acho que ela se culpa, ou acha que as pessoas a culpam, pelo 
brao do filho.
- Algumas pessoas tambm - completou Marthona -, e o menino talvez 
enfrente problemas para conseguir uma parceira. As mes tero medo que 
leve consigo espritos
aleijados para um acasalamento.
- E ela sempre arrasta o filho com ela, aonde quer que v - observou Folara.
- Acho que  por temor que os outros meninos impliquem com ele, se deix-
lo ir a qualquer lugar sozinho. E talvez impliquem. No acho que ele tenha 
amigos. Ela no 
lhe d oportunidade.
- Foi o que imaginei - deduziu Ayla. - Ela parece muito protetora dele. 
Demais, creio eu. Acha que o brao aleijado limita as habilidades dele, mas 
acre dito que 
a sua maior limitao no o brao, mas a me. Ela tem medo de deix lo 
tentar, mas ele vai ter que crescer.
- Por que voc o escolheu para arremessar uma lana, Ayla? Aparentemen te, 
jo conhecia - perguntou Marthona.
- Algum disse a ele que havia cavalos onde acampamos... Prado Superior, 
como o chamou.., e foi v-los. Por acaso, eu estava l quando ele chegou. 
Acho que queria 
ficar longe da multido, ou da me, mas quem lhe falou dos cavalos no disse 
que estvamos acampados ali. Sei que Jondalar e Joharran tm avisado s 
pessoas para 
se manterem longe dos cavalos. Talvez o "algum" que falou dos cavalos para 
Lanidar achasse que ele ia se meter em encrenca, se fosse procurar por eles. 
Mas no 
me impor to se as pessoas quiserem olhar os cavalos, s no quero que 
pensem em ca-los. Eles CStao acostumados s pessoas. No saberiam 
fugir explicou Ayla.
Ento,  claro, voc deixou Lanidar tocar nos cavalos, e ele ficou encanta 
como todo mundo - concluiu Folara, sorrindo.
Ayla retribuiu o sorriso
Bem, talvez nem todo mundo, mas acho que, se as pessoas tiverem a chance
de Conhec-los sabero que so especiais e no ficaro tentadas a ca-los.
- Talvez tenha razo - concedeu Marthona.
- Os cavalos pareceram aceit-lo, e Lanidar aprendeu de imediato o assobio 
que uso para eles; por isso lhe perguntei se poderia dar uma olhada neles, 
quando eu no 
estivesse por perto. No achava que sua me ia se opor - alegou Ayla.
- Muitas mes no fariam objees em deixar um filho, que logo vai contar 
doze anos, aprender mais sobre cavalos ou qualquer outro animal - garantiu 
Marthona.
- Tantos anos assim? Eu pensei que ele tinha nove, ou talvez dez anos. Ele 
falou sobre a demonstrao de Jondalar do arremessador de lanas, mas 
disse que no queria 
ir porque no conseguia atirar uma lana. Parecia pensar que estava alm 
dele, mas no h nada de errado com o brao esquerdo de Lanidar, e como 
eu estava com o 
meu arremessador, mostrei a ele como se usava. Depois de con versar com 
Mardena, percebi de onde ele tirou essa idia, mas, com a idade que tem, 
devia estar aprendendo 
alguma habilidade, alm de colher bagas com a me.
- Ayla olhou para as duas mulheres. - H gente demais aqui, e no h como 
conhecerem todas elas. Como conheciam Lanidar e a me dele?
- Sempre que nasce um beb com algo errado, como o que aconteceu com ele, 
todo mundo fica sabendo - esclareceu Marthona -, e se comenta a respei to. 
No necessariamente 
de forma negativa. As pessoas apenas se perguntam por que aquilo 
aconteceu, e torcem para que nada semelhante jamais ocorra com & seus 
filhos. Por isso,  claro, 
todos souberam quando o homem da lareira dela foi embora. A maioria 
pensou que foi porque ele ficava constrangido em chamar Lanidar o filho de 
sua lareira, mas acredito 
que parte da culpa foi de Mardena. Ela no queria que ningum visse o beb, 
nem mesmo o seu parceiro. Tentou escond-lo, mantinha o brao dele 
coberto e tornou-se 
muito protetora.
- Esse  o problema, pois ela continua sendo. Quando lhe disse que pedi 
Lanidar para olhar os cavalos quando eu no estivesse l, Mardena no quis 
dei xar. Eu no 
pedi nada que ele no pudesse fazer. S queria ter algum para ver se 
estavam bem, e me avisar, se houvesse um problema - justificou-se Ayla. -1 
por isso que elavai 
nos visitar amanh, para eu tentar convenc-la de que os cava los no vo 
machucar o garoto. E prometi ensin-lo a caar, ou pelo menos a a remessar 
uma lana. No 
sei como isso aconteceu, mas, quanto mais ela era contra o fato de ele ao 
menos tentar, mais determinada eu me tornei em ensin-lo.
Ambas as mulheres sorriram e assentiram compreensivas.
- Podem avisar a Proleva que teremos visitas pela manh? - pediu AyI
- E que eu vou cozinhar essa tetraz?
- No esquea a lebre - lembrou Marthona. - Salova me contou que pegou 
uma esta manh. Quer ajuda no preparo?
- S se voc achar que mais gente vai resolver se juntar a ns - ponderou 
Ayla. - Acho que vou cavar um forno no cho, colocar algumas pedras 
quentes dentro dele, 
e cozinhar a tetraz e a lebre ao mesmo tempo, durante a noite. Talvez 
acrescente algumas ervas e verduras.
- Um banquete matinal sado de um forno de cho.., a comida fica sempre
tenra, quando  cozida desse modo - observou Folara. - Mal posso esperar.
- Folara, acho melhor planejarmos uma ajuda - sugeriu Marthona. - Se Ayla 
vai cozinhar, acho que todo mundo vai ficar curioso e querer uma prova. Ah, 
quase ia esquecendo. 
Mandaram que eu lhe avisasse, Ayla, que vai haver uma reunio, amanh  
tarde, com todas as mulheres que vo se acasalar e suas mes, no 
alojamento da zelandonia.
- No tenho me para levar - lembrou Ayla, franzindo a testa. Ela no queria 
ser a nica sem me.
- Geralmente, no  o lugar aonde deve ir a me do homem, mas, j que a 
mulher de quem voc nasceu no pode estar presente, irei de bom grado no 
lugar dela, se voc 
quiser - props a me de Jondalar.
- Faria mesmo isso? - animou-se Ayla, sentindo-se encantada com a ofer ta. 
- Eu serei muito grata.
Uma reunio de mulheres que em breve se acasalariam, pensou Ayla. Em bre 
ve, serei a parceira de Jondalar. Como eu queria que Iza estivesse aqui. Era 
ela a me que 
deveria ir comigo, e no a mulher de quem nasci. Como as duas esto 
andando no outro mundo, alegro-me por Marthona se dispor a ir comigo, mas 
Iza ficaria to feliz. 
Ela temia que eu jamais conseguisse um parceiro, e no teria conseguido, se 
permanecesse no Cl. Ela teve razo em dizer para eu ir embora e procurar 
o meu prprio 
povo, encontrar o meu parceiro, mas sinto falta dela, e de Creb, e de Durc. 
Preciso deixar de pensar neles.
J que vo voltar para o acampamento, podiam levar a tetraz? - pediu Ayla. - 
Por enquanto, vou procurar mais alguma coisa para cozinhar para a re feio 
da manh.
Por trs e  direita da rea do acampamento principal da Reunio de Vero, 
as Colinas de calcrio, de um modo geral, tinham a forma de uma enorme 
tigela rasa escavada, 
curvando-se dos lados, mas aberta na parte da frente. A base de eleva es 
curvas convergia para um pequeno campo relativamente plano, nivelado com 
pedras e terra 
comprimida pelos muitos anos em que o local vinha sendo usado Para 
reunies. As encostas cobertas de vegetao, no interior da depresso da 
meia- tigela, erguiam-se 
em aclives graduais e irregulares, com buracos e montculos, Com reas 
menos ngremes, tornadas mais planas, a fim de fornecer lugares para
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grupos familiares ou mesmo Cavernas inteiras se sentarem juntas, tendo 
uma boa viso do espao a cu aberto abaixo. A rea inclinada era 
suficientemente grande para
conter todos os mais de dois mil participantes da Reunio de Vero.
Em um arvoredo perto da crista irregular da elevao, brotava uma 
nascente que alimentava um pequeno lago, depois se derramava pelo meio da 
inclinao em forma de 
tigela, atravs da rea plana da parte inferior, e despejava-se, enfim, no 
riacho maior do acampamento. O regato alimentado pela nascente era to 
pequeno, que as 
pessoas passavam facilmente a p por ele, mas o lago de gua clara e fresca 
no topo era uma fonte constante de gua limpa e potvel.
Ayla caminhou colina acima, na direo das rvores, ao longo de uma trilha 
ao lado do raso regato, que pintava com o brilho da gua um leito de pedras 
arre dondadas. 
Ela parou para beber gua da fonte, e retornou. Seus olhos foram atra dos 
pelo regato tremeluzente que escorria colina abaixo. Observou-o escoar at 
o riacho que 
corria, atravs do apinhado acampamento, para O Rio e o vale alm dele. Era 
uma paisagem contornada pelo profundo relevo de altos rochedos, pe 
nhascos de calcrio 
e vales cortados por rios.
Chamou-lhe a ateno o rumor que subia pela inclinao redonda, vindo do 
acampamento. Tratava-se de um rudo diferente de tudo que j tinha 
ouvido:
combinao de vozes de um enorme acampamento repleto de gente, a 
conversar, canalizado em um nico som. A mistura da tagarelice das vozes 
era como um rugi do silencioso 
pontilhado por gritos, brados e algazarra ocasionais. No era a mesma coisa, 
mas lembrava uma grande colmia de abelhas ou uma ruidosa manada de 
auroques  distncia, 
e ela ficou muito feliz de estar sozinha por um momento.
Bem, no inteiramente sozinha. Observou Lobo fuar cada fresta e fissura, 
sorriu. Ficou contente por ele estar com ela. Ainda que estivesse 
desacostumada
tanta gente, principalmente agrupada em um s lugar, no queria realmente 
ficar sozinha. J tivera a sua quota no vale que havia encontrado aps 
deixar o Cl, e 
no tinha certeza de que teria agentado, se no tivesse Huiin e, depois 
Nenm por companhia. Mesmo com eles, houvera muita solido, porm ela 
sabia
como obter 
comida, fazer as coisas de que precisava, e descobriu a alegria da
liberdade
total - e suas conseqncias. Pela primeira vez, pde fazer o que queria, at
mesmo adotar um filhote de cavalo ou de leo. Viver sozinha, dependendo 
totalmente
de
si mesma, ensinou-lhe que uma pessoa podia sobreviver, por uns tempos, se 
fosse jovem, saudvel e forte. Somente quando ficou seriamente doente 
deu-se conta do quanto
era vulnervel.
Foi quando Ayla entendeu plenamente que no teria sobrevivido, se o Cll 
no tivesse permitido que uma menininha fraca e ferida, que ficara rf 
depois
um terremoto, vivesse com eles, apesar de ter nascido daqueles que 
conhecia
como os Outros. Depois, quando ela e Jondalar moraram com os Mamuti, 
per cebeu que viver com um grupo, qualquer um, mesmo o que acreditasse 
que as aspiraes e 
os desejos dos indivduos eram importantes, limitava a liberdade in dividual, 
porque as necessidades da comunidade eram igualmente importantes. A 
sobrevivncia dependia 
da unio cooperativa, de um Cl, Acampamento ou Caverna, de um grupo que 
trabalhasse junto e um ajudasse o outro. Sempre havia a luta entre o 
indivduo e o grupo, 
e encontrar um equilbrio vivel era um desa fio constante, mas no sem 
benefcios.
A cooperao do grupo fornecia mais do que o essencial aos indivduos. Tam 
bm proporcionava tempo disponvel para dedicao a tarefas mais 
agradveis, o que, entre 
os Outros, permitiu o florescimento de um senso esttico. A arte que 
criaram no era tanto a arte por si mesma, mas uma parte inerente do viver, 
uma poro de sua 
existncia diria. Quase todo membro de uma Caverna Zelandonii tinha 
orgulho de seu artesanato e, em graus variados, apreciava o resultado das 
habilidades dos demais. 
Desde novas, as crianas tinham permisso para experi mentar, a fim de 
descobrir a rea na qual sobressaam, e a atividade prtica no era 
considerada mais importante 
do que o talento artstico.
Ayla lembrou que Shevonar, o homem que morreu na caada aos bises, fora 
um fabricante de lanas. Ele no era o nico na Nona Caverna capaz de 
fazer uma lana, mas 
a especializao em um ofcio desenvolvia uma grande habilidade, o que dava 
status ao indivduo que a tinha, geralmente status econmico. Entre os 
Zelandonii e a 
maior parte das pessoas que ela conhecera ou com quem tinha vivido, a 
comida era repartida, embora o caador ou o coletor que a conseguia 
obtivesse renome por seu 
fornecimento. Um homem ou uma mulher podiam sobreviver sem nunca ter 
catado comida, mas, sem algum ofcio especializado ou talento especial que 
davam prestgio a 
uma pessoa, ningum conseguia viver bem.
A despeito de ainda ser um conceito difcil para ela, Ayla vinha aprendendo 
como mercadorias e servios eram permutados pelos Zelandonii. Quase tudo 
que era feito 
ou produzido tinha valor, ainda que a sua utilizao prtica nem sempre 
fosse bvia. Normalmente, o valor era acordado por consenso ou barganha in 
dividual. Como 
resultado, o excelente artesanato tinha uma maior recompensa do que o 
comum, em parte porque as pessoas o preferiam, o que criava a deman da, e 
em parte porque geralmente 
parecia levar mais tempo para se fazer ou pro duzir to bem uma 
determinada coisa. Talento e habilidade eram altamente Valorizados, e a 
maioria dos membros de uma 
Caverna, dentro de seus prprios Padres, tinham um senso esttico 
altamente desenvolvido.
Uma lana bem-feita e lindamente decorada tinha mais valor do que uma 
lana lgualme bem-feita que fosse apenas utilitria, porm era infinitamente 
mais
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valorizada do que uma malfeita. Um cesto pessimamente tranado talvez 
tivesse a mesma utilidade de um que fosse fabricado com todo o esmero e 
texturas e pa dres
sutis, ou colorido com vrias tonalidades, mas nem de perto era to deseja 
do. Os apenas teis podiam ser usados para razes recm-arrancadas do solo, 
mas, depois 
que elas eram lavadas ou secas, um cesto mais bonito tinha a preferncia 
para estoc-las. Ferramentas e objetos prticos, que serviam para uma 
utilizao imediata, 
com freqncia eram feitos e logo descartados, ao passo que os mais 
bonitos e mais bem-feitos costumavam ser guardados.
No s as habilidades manuais eram valorizadas. O entretenimento era con 
siderado essencial. Invernos demorados e frios geralmente mantinham as 
pessoas confinadas 
em suas habitaes no interior dos abrigos, durante longos perodos de 
tempo, e elas precisavam de meios para aliviar a presso do recolhimento 
for ado. Danar 
e cantar eram apreciados igualmente como um empenho indivi dual e uma 
participao comunitria, e quem conseguia tocar bem uma flauta era to 
altamente valorizado 
quanto aqueles que faziam lanas ou cestos. Ayla j apren dera que 
Contadores de Histrias eram especialmente apreciados. Ela lembrou que 
at mesmo o Cl tinha contadores 
de histrias. Eles sentiam um prazer espe cial em recontar as histrias que 
conheciam.
Os Outros gostavam, igualmente, de ouvir recontar histrias, mas tambm 
apreciavam novidades. Enigmas e jogos de palavras eram uma atividade 
desfruta da com entusiasmo 
tanto por jovens como velhos. Visitantes eram bem-vindos, no mnimo porque 
costumavam trazer novas histrias. Eram estimulados a con tar sobre suas 
vidas e aventuras, 
tivessem ou no a habilidade da narrao dram tica, pois isso acrescentava 
um grau de interesse e dava s pessoas algo para debater durante as longas 
horas em que
passavam sentadas em volta das fogueiras de in verno. Apesar de a maioria 
ser capaz de urdir uma histria interessante, aqueles que revelavam um 
verdadeiro talento
para isso eram incitados, coagidos e adula dos para fazer visitas s 
Cavernas vizinhas, o que deu impulso ao crescimento dos Contadores de 
Histrias viajantes. Alguns 
passavam a vida, ou pelo menos vrios anos, viajando de Caverna a Caverna, 
transmitindo notcias, levando mensagens e narrando histrias. Ningum era 
mais bem recebido.
A maioria das pessoas podia ser rapidamente identificada pelos desenhos 
em suas roupas, colares e outros adornos que usava, mas, atravs do tempo, 
os Con tadores 
de Histrias tinham adotado um estilo caracterstico de roupas e dese nhos 
que anunciavam a sua profisso. At as crianas pequenas sabiam quando 
eles chegavam, 
e quase todas as demais atividades paravam quando um ou mais artistas 
viajantes do entretenimento faziam uma apresentao. Mesmo viagens de 
caa j planejadas eram 
canceladas. Era uma ocasio para festins espontneos e,
embora muitos fossem capazes, nenhum Contador de Histrias jamais 
precisava caar ou catar alimentos para sobreviver. Eles sempre recebiam 
presentes, como um incentivo 
para voltarem, e depois que ficavam velhos demais ou cansados de viajar 
podiam se instalar em qualquer Caverna que escolhessem.
s vezes, vrios Contadores de Histrias viajavam juntos, geralmente com 
as famlias. Grupos particularmente talentosos podiam incluir canto e dana 
ou a exe cuo 
de instrumentos: vrios tipos de objetos de percusso, chocalhos, reco-
recos, flautas e, ocasionalmente, cordas esticadas, que eram batidas ou 
dedilhadas. Msi cos, 
cantores e danarmos da prpria Caverna, e aqueles que tinham histrias 
para contar e gostavam de cont-las, tambm costumavam participar. Em 
geral, os con tos eram 
dramatizados, bem como narrados, mas a histria e quem a contava eram 
sempre o ponto central, no importava o modo como eram expressados.
Os contos podiam ser sobre qualquer coisa: mitos, lendas, histrias, aventu 
ras pessoais, ou descries imaginrias de locais longnquos, ou de pessoas 
ou animais. 
Uma parte do repertrio de cada Contador de Histrias, por causa da 
grande demanda, eram acontecimentos ocorridos com pessoas de Cavernas 
vizi nhas, mexericos, fossem 
eles engraados, srios, tristes, verdadeiros ou inventa dos. Tudo e 
qualquer coisa era vlida, desde que bem narrada. Os Contadores de 
Histrias viajantes portavam, 
tambm, mensagens particulares, de uma pessoa para um amigo ou parente, 
de lder para lder, de um Zelandoni para outro, embora tal comunicao 
privada pudesse ser 
sigilosa. Um Contador de Histrias tinha de provar que era bastante 
confivel, antes de ser incumbido de mensagens confi denciais ou 
hermticas entre lderes ou 
a zelandonia, e nem todos o eram.
Mais adiante da crista, que, por uma boa distncia, era o ponto culminante 
da rea em volta, a terra descia e depois ficava nivelada. Ayla subiu pelo 
topo do espinhao, 
e passou a descer, percorrendo uma superficial trilha perpendicular a ele, 
que fora aberta recentemente atravs da encosta com parreiras de amora-
preta e alguns 
poucos pinheiros enfezados. Desviou-se do caminho, ao p da elevao, onde 
o matagal vertente de amoras dava lugar a um capim ralo. Em um antigo leito 
seco de riacho, 
cujas pedras comprimidas deixavam pouco espao para no Vas brotaes, ela 
fez a volta e o acompanhou colina acima.
Lobo parecia especialmente curioso. Tratava-se de um territrio igualmente 
flO para ele, e distraa-se com cada monte de terra e cavidade que 
ofereciam um flOVo 
odor ao seu focinho. Continuaram subindo o leito rochoso que havia corta do 
atravs do calcrio, na poca em que gua corria por ele, e ento Lobo saltou 
adiante 
e desapareceu atrs de um monte de pedregulhos. Ayla esperou que ele 
reaparecesse a qualquer momento, mas, depois do que pareceu ser um tempo
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olhou em volta e, finalmente, emitiu o assobio agudo de tons caractersticos 
que 1 havia criado especificamente para chamar o lobo. E esperou. Passou-se 
algum tempo
at que ela visse enormes parreiras de amora moverem-se atrs do monte e 
ouviu-o pelejar para sair de baixo da urze espinhenta.
- Por onde voc andou, Lobo? - perguntou, ao se abaixar para olhar nos olhos 
dele. - O que h debaixo dessas trepadeiras para voc ter levado tanto 
tempo para chegar 
at aqui?
Ela decidiu descobrir, e pegou o bornal para tirar o pequeno machado que 
Jondalar fizera para ela. Encontrou-o no fundo da bolsa. No era o 
instrumentG mais eficaz 
para cortar os compridos caules repletos de espinhos, porm ela, con seguiu 
fazer uma abertura que lhe permitiu enxergar, no o cho, como esperava 
mas um escuro
espao vazio. Agora, era ela quem estava curiosa.
Cortou mais um pouco a trepadeira e aumentou a abertura o suficiente par 
forar caminho atravs dela, sofrendo apenas alguns arranhes. O cho 
descia pari o que 
era obviamente uma caverna, com uma entrada satisfatoriamente larga. Con 
a luz do sol penetrando pelo buraco que ela tinha feito, Ayla continuou 
descei do, usando 
as palavras de contar para marcar os passos. Quando chegou a tri e um, 
sentiu que o declive ficou plano e o corredor alargou-se. Uma mortia lu 
solar ainda se filtrava 
para o interior da caverna e, com os olhos adaptados  quai escurido, ela 
verificou que tinha penetrado numa rea muitssimo maior. Olho em torno, 
tomou uma deciso 
e rumou de volta para fora.
- Quantas pessoas devem saber dessa caverna, Lobo?
Usou o machado para ampliar um pouco mais a abertura, e a seguir foi ex 
minar a rea ao redor. A pouca distncia dali, mas cercado por espinhentas 
pa reiras de amora, 
havia um pinheiro com as agulhas marrons. Parecia morto. Com o pequeno 
machado de pedra, abriu um curto caminho pela dura trepade lenhosa, e 
depois testou um galho
baixo do pinheiro para ver se era quebradio bastante para ceder. S 
pressionando sobre ele todo o seu peso, conseguiu,
final mente, quebrar um pedao do galho. Sua
mo pareceu grudenta, e ela sorriu olhar para o galho e notar algumas 
manchas escuras de resina, O galho resino ao ser aceso, daria uma tocha 
muito boa, sem haver 
a necessidade de mates adicionais.
1
Ela recolheu alguns gravetos secos e casca do pinheiro morto, em seguida 1 
para o meio do leito seco rochoso. Retirou do bornal o estojo de fazer fogo 
usando a casca 
esmagada e gravetos, como isca, a pedra-de-fogo e o slex, em pou tempo 
estava com uma pequena fogueira acesa. Com ela, acendeu o galho
do pinheiro e fez uma tocha.
Lobo a observava, e quando a viu seguir de volta
478
seguiu adiante, como na primeira vez, por baixo do buraco que Ayla havia 
aberto entre a trepadeira de amoras-pretas. Muito tempo antes, quando o 
leito seco fora 
o rio que
criou a caverna, o teto se estendera por uma longa distncia, mas, desde en 
to, havia desabado e formado a pilha de pedregulhos que se encontrava 
diante da abertura
atual do lado da colina.
Ela escalou o monte de pedras e passou com facilidade pela abertura que 
tinha feito. Com a luz bruxuleante da tocha, continuou descendo a ladeira de 
solo de barro 
arenoso um tanto escorregadia, novamente marcando os passos com as 
palavras de contar. Dessa vez, levou apenas vinte e oito passos at o cho 
ficar nivelado; com 
uma tocha mostrando o caminho, suas passadas foram maiores. A ampla 
galeria de entrada abriu-se para um gtande aposento arredon dado em 
forma de U. Ela ergueu a 
tocha bem alto, olhou para cima, e prendeu a respirao.
As paredes, reluzindo com a calcita cristalizada, eram quase brancas, uma 
superfcie pura, limpa, resplandecente.  medida que avanava lentamente 
pela caverna, 
a tocha tremeluzente projetava sombras animadas do relevo natural, uma 
perseguindo a outra pelas paredes, como se estivessem vivas e respirassem. 
Ayla aproximou-se 
das paredes brancas, que comeavam um pouco mais abaixo de seu queixo - 
cerca de metro e meio acima do nvel do cho - com uma salincia 
arredondada de pedra acastanhada, 
e estendiam-se acima em uma curva que abobadava para a parte interna do 
teto. Ela nem teria pensado nisso, antes da vi sita que fizera  caverna 
profunda de Pedras 
da Fonte, mas pde imaginar o que um artista como Jonokol faria com uma 
caverna como aquela.
Caminhou em volta do aposento, junto  parede, com muito cuidado. O cho 
era lamacento e irregular, e escorregadio. No fundo do U, onde a parede se 
curva va, havia 
uma estreita entrada para outra galeria. Ayla levantou a tocha e espiou l 
dentro. As paredes superiores eram brancas e curvas, mas a rea inferior 
era um corredor 
estreito e tortuoso, e ela resolveu no entrar. Continuou dando a volta, e,  
direita da entrada para a galeria ao fundo, havia outro acesso, mas ela 
apenas olhou 
para dentro. J tinha decidido que precisaria contar a Jondalar e alguns 
outros, e traz-los at aquela caverna.
Ayla tinha visto muitas cavernas, a maioria repleta de belos pingentes de pe 
'ira suspensos do teto, ou cortinas de estalactites pendendo das paredes e 
os dep Sitos 
equivalentes de estalagmites elevando-se do solo para encontr-los. Nunca,
Porm, vira uma caverna como aquela. Embora fosse uma caverna de calcrio, 
formara_se uma camada de marga impermevel, que bloqueava as gotas 
d'gua Com clcio saturado 
de carbonato e evitava que se filtrassem para formar estalactites
 479
que se desenvolviam muito lentamente, deixando grandes painis de cor 
branca cobrindo os calombos e depresses do relevo natural da pedra. Era 
um local raro e belo,
a mais linda caverna que ela jamais tinha visto.
Reparou que a luz diminua. A tocha estava criando um acmulo de carvo 
perto da extremidade, abafando a chama. Na maioria das cavernas, Ayla a 
teria simplesmente
esfregado em qualquer parede, para se livrar da madeira queimada e 
reanimar o fogo, mas isso costumava deixar uma marca preta. Naquele lugar, 
sentia-se obrigada
a ser cuidadosa; no podia simplesmente livrar-se do carvo e danificar as 
imaculadas paredes brancas. Escolheu um lugar na rea mais escura da 
pedra, mais abaixo.
Parte do carvo caiu no cho, quando a tocha foi
na pedra, e ela sentiu uma necessidade momentnea de limpar aquilo. Havia 
uma caracterstica sagrada naquele local; parecia espiritual, transcendental, 
e no que
ria de modo algum profan-lo.
Em seguida, sacudiu a cabea. Era apenas uma caverna, pensou, apesar de 
especial. Um pouco de carvo no cho no lhe faria mal algum. Alm do mais, 
ela percebeu
que o lobo no hesitou em marcar o local. A cada metro, havia levanta do a 
perna e proclamado com o seu odor que aquele era territrio dele. As 
marcas com o seu
odor, no entanto, no alcanavam as paredes brancas.
Ayla caminhou de volta para o acampamento da Nona Caverna o mais rpi do 
possvel, ansiosa para contar s pessoas sobre a caverna. Somente ao chegar, 
percebendo
vrias pessoas iando terra de um forno de cho recm-cavado e v outras 
preparando comida para colocar em seu interior, lembrou-se de que havia 
convidado algumas
pessoas para uma refeio na manh seguinte. Ela planejara catar comida 
para cozinhar, procurar um animal para caar ou alguma planta comestvel, e 
esquecera completamente
de tudo por causa de seu entusiasmo com a caverna. Reparou que Marthona, 
Folara e Proleva haviam retirado, do buraco frio de armazenagem, uma anca 
inteira de biso.
No primeiro dia de sua chegada, a maioria da Nona Caverna abrira o enorme 
buraco at o nvel onde o subsolo era permanentemente congelado, a fim de 
con servar parte
da carne dos animais que haviam caado antes de partirem e que no tinha 
sido seca. A terra dos Zelandonii era bastante prxima da geleira setentrio 
nal para preponderarem
as condies de congelamento, o que no significava,; contudo, que o solo se 
mantinha permanentemente congelado durante o ano in teiro. No inverno, 
ele ficava to
duro quanto gelo at a superfcie, mas, no vero, uma camada da parte 
superior do solo derretia, com variadas profundidades, indo 1 de alguns 
centmetros a muitos
metros, dependendo da cobertura da superfcie e  da quantidade de sol e de 
sombra que recebia. Estocar carne em um buraco cava
do at o gelo a mantinha fresca por mais tempo, apesar de a maioria no
se importar se ela maturasse um pouco, e algumas pessoas at preferiam o
sabor de
carne decomposta.
- Marthona, eu lamento - desculpou-se Ayla, ao chegar  lareira princi pal. - 
Fui procurar comida para a refeio de amanh, mas descobri uma caver na 
nas proximidades
e esqueci completamente.  a mais linda caverna que eu j vi, e queria 
mostr-la a voc e a todo mundo.
- Nunca ouvi falar de cavernas aqui perto - estranhou Folara. - E, certa 
mente, nenhuma bonita. A que distncia fica ela?
- Logo depois da descida da colina, que fica nos fundos do acampamento 
principal - explicou Ayla.
-  l que vamos colher amoras-pretas, no fim do vero - observou Proleva.
- No tem caverna nenhuma ali. - Vrias outras pessoas tinham ouvido Ayla e 
se reunido em volta dela, inclusive Jondalar e Joharran.
- Ela tem razo - afirmou Joharran. - Eu nunca ouvi falar em uma ca verna 
ali.
- Estava escondida pelo matagal e por uma enorme pilha de pedregulhos na 
frente dela - contou Ayla. - Na verdade, foi Lobo quem a descobriu. Ele 
estava farejando 
por baixo das amoreiras, e desapareceu. Depois que assobiei para cham-lo, 
demorou muito para voltar, e fiquei imaginando aonde ele teria ido. Cortei o 
mato, para 
abrir caminho, e descobri uma caverna.
- No deve ser grande, no ? - arriscou Jondalar.
- Fica no interior da colina, e  enorme, Jondalar, e bastante incomum.
- Pode nos mostrar? - perguntou ele.
- Claro. Foi isso que vim fazer, mas agora acho que preciso ajudar a prepa 
rar a comida para a refeio de amanh - alegou Ayla.
- Ns acabamos de acender o fogo do forno de cho - informou Proleva
-, e empilhamos uma poro de lenha nele. Vai levar algum tempo para quei 
mar e esquentar as fileiras de pedras. Ns s amos colocar mais tarde a 
carne na cremalheira 
mais alta, portanto no h motivo para no irmos agora.
- Convido as pessoas para compartilhar uma refeio, e os outros  que 
fazem todo o trabalho - protestou Ayla, sentindo-se constrangida. No seu 
entender, parecia 
que estava querendo se esquivar do trabalho pesado.
- No se preocupe, Ayla. Ns amos, de qualquer maneira, cavar um forno
- tranqilizou-a Proleva. - E a maioria ainda estava aqui. Muitos j foram 
para
o acampamento principal mas  sempre mais fcil quando todos trabalham 
juntos. Isso apenas nos deu um motivo.
- Vamos ver a sua caverna - props Jondalar.
 481
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Sabem se formos todos juntos para l, todo acampamento vai nos seguir - 
alertou Willamar.
- Podemos ir separadamente e nos encontrar na nascente - sugeriu 
Rushemar. Ele foi um dos que ajudaram a cavar o buraco de assar, e 
esperava que Salova acabasse
de alimentar Marsola para ir ao acampamento principal. Salova, que estava 
nas proximidades, sorriu para ele. O parceiro dela no era de falar muito, 
mas, quando 
o fazia, costumava demonstrar a sua inteligncia, pensou. Ela olhou em volta 
por Marsola, que estava sentada no cho ali perto. Salova teria que pegar a 
capa de 
carregar o beb, se quisesse fazer a caminhada com eles, mas aquilo parecia 
interessante.
-  uma boa idia, Rushemar, mas acho que tenho uma melhor - anun ciou 
Jondalar. - Podemos chegar do outro lado da colina, subindo o nosso pe- : 
queno arroio e dando 
a volta por trs. Aquela ladeira de pedregulhos atrs do lago no fica muito 
longe de l. Eu fui at o topo, para ver se encontrava algum sflex no monte 
de pedras, 
e dei uma boa olhada naquele trecho de terra.
- Perfeito! Vamos embora - exclamou Folara.
- Eu gostaria de mostrar tambm para a Zelandoni eJonokol - salientou Ayla.
- E j que este  territrio deles, creio que seria apropriado chamar 
Tormaden, o lder da Dcima Nona Caverna, para ir junto - acrescentou 
Marthona.
- Tem razo,  claro, mame. Com todo o direito, eles deveriam ser os 
primeiros a explorar a caverna - concordou Joharran. - Mas, como no a 
desco briram, durante
todo esse tempo em que vivem aqui, acho que poderemos nos associar na 
aventura. Vou chamar Tormaden para ir com a gente. - Em seguida, o lder 
sorriu. - Mas no 
lhe contarei o motivo. Direi apenas que Ayla descobriu uma coisa e quer nos 
mostrar.
- Que tal eu ir com voc, Joharran, e passarmos no alojamento da e chamar 
a Zelandoni e Jonokol para ir junto? - sugeriu Ayla.
- Quantos vo querer ir? - quis saber Joharran. Todos os presentes revela 
ram interesse, mas, como a maioria das cerca de duzentas pessoas 
pertencentes Nona Caverna 
estava no acampamento principal, no seria uma multido. Usan do as 
palavras de contar, ele calculou cerca de vinte e cinco pessoas, e conclu
que um grupo desse tamanho seria fcil de ser conduzido, principalmente 
por- que iriam na outra direo. - Muito bem, eu vou com Ayla ao 
acampamento' principal. 
Jondalar, voc leva os demais pelo outro caminho, e encontraremos vocs no 
p da elevao atrs da nascente.
- Leve alguma coisa para abrir caminho pelos caules espinhentos, Jondalar,i 
e tambm algumas tochas e o seu estojo de fazer fogo - recomendou Ayla. - 
F
s fui at o primeiro aposento, o maior, mas vi alguns acessos saindo dele.
482
estavam em meio ao processo de preparao da reunio com as mulheres
que  iam se acasalar; Aquela Que Era A Primeira vivia ocupada durante uma 
Reunio de Vero. Quando, porm, Ayla pediu para lhe falar em particular, 
ela sentiu, pelo 
aspecto
da jovem, que podia ser importante. Ayla contou sobre a caverna e men 
cionou que vrias pessoas da Nona estavam indo se encontrar atrs da 
nascente, para depois
irem v-la. Quando a mulher hesitou, Ayla insistiu que, se ningum mais 
fosse, pelo menos Jonokol deveria ir. Isso aguou a curiosidade da Primeira, 
e ela decidiu
que deveria ir, afinal de contas.
- Zelandoni da Dcima Quarta, poderia se encarregar da reunio? - pe diu a 
Primeira Donier quela que sempre desejou ser a Primeira. - Preciso cui dar 
de assunto
da Nona Caverna.
- Claro - concordou a mulher mais velha. Ela ficou curiosa - todos fica ram - 
sobre o que poderia ser to importante para a Primeira sair no meio de uma 
importante
reunio, mas tambm ficou contente por ter sido convocada para substitu-
la. Talvez a Primeira estivesse comeando a gostar dela.
- Jonokol, venha comigo - ordenou a Zelandoni da Nona ao seu Primeiro 
Aclito. Isso aumentou ainda mais a curiosidade, mas ningum sonharia em 
perguntar nada, nem
mesmo Jonokol.
Joharran teve um pouco de dificuldade para encontrar Tormaden, e depois 
para convenc-lo a largar tudo e ir com ele, principalmente porque o lder da 
Nona no lhe
disse do que se tratava.
- Ayla descobriu uma coisa que, ns achamos, voc deve saber, j que se 
encon tra em seu territrio - disse-lhe Joharran. - Muita gente da Nona 
Caverna j est a
par... ficaram sabendo, quando ela me contou... mas acho que voc precisa 
saber antes de todos na Reunio de Vero. Voc sabe como as notcias 
correm rpido.
- Voc acha mesmo que  importante? - perguntou Tormaden.
- Eu no o chamaria, se no fosse - respondeu Joharran.
Ver a caverna encontrada por Ayla tornara-se uma aventura da Nona Caver 
na, e alguns queriam levar comida ou cestos de coleta, alm de tochas, e 
fazer daquilo uma 
excurso. A maioria sentia-se contente por ainda se achar no acam pamento, 
quando Ayla chegou e contou sobre a descoberta, estando, portanto, 
Capacitada para dar 
uma primeira olhada na nova caverna que a interessante mulher, trazida por 
Jondalar, afirmava ser to bonita. Supunham que a beleza estaria nas 
formaes de estalactites, 
e seria outra caverna parecida com a chamada de Raso que ficava perto da 
Nona Caverna.
 483
Somente algum tempo depois todos, finalmente, encontraram-se. Joharran e 
Tormaden foram os ltimos a chegar, mas os que chegaram primeiro, o 
grupo da Nona Caverna,
ficaram esperando atrs de uma crista, abaixo da ladeira. Um ajun tamento 
de pessoas parado no topo dela seria percebido do acampamento princi pal, 
e ningum queriam,
chamar ateno. Um pouco de sigilo aumentava a emoo, porm, de vez em 
quando, algum subia at a fonte e, protegendo-se atrs das rvores, olhava 
para ver se Ayla
e os dois da zelandonia, ou Joharran e o lder da 1 Dcima Nona, estavam 
vindo.
Aps uma rpida troca de cumprimentos - Ayla fora apresentada formal 
mente a Tormaden e  Dcima Nona Caverna logo aps a sua chegada -, ela
e Lobo desceram a
trilha da encosta com as parreiras de amoras-pretas repletas . bagas 
maduras, ela liderando o grupo e o lobo em seus calcanhares. Ayla havia 
sinalizado para que
o animal ficasse perto, e ele parecia preferir assim. Com tanta gente, Lobo 
sentia-se protetor de Ayla, e ela no queria que o grande carnvoro 
assustasse algum,
embora a maioria da Nona Caverna j estivesse se acostumando a ele. Os 
dois adoravam a reao que o lobo tinha causado no resto das pe presentes 
 Reunio e a
inevitvel ateno que recebiam por causa dele.
No p da colina, ela virou na direo do leito seco. Ao chegarem, viram 
primeiro o resto da fogueira que ela fizera, mas logo notaram o buraco 
aberto na extensa
parreira densa e lenhosa. Imediatamente, Rushemar, Solaban e Tormaden 
ocuparam-se em alargar a abertura, enquanto Jondalar rapidamente fazia 
uma fogueira. Todos
iam ficando cada vez mais curiosos com a caverna, Jondalar em particular. 
Assim que acenderam algumas tochas, avanaram todos em direo
ao buraco escuro que surgiu
atravs da vegetao ceifada.
Tormaden ficou muito surpreso. Podia ver que se tratava de uma caverna 
mas no fazia idia de que estava ali. Eles s usavam o outro lado da encosta
quando as amoras
estavam maduras. Tratava-se de um extenso terreno com amoras silvestres 
que cobria toda a colina e ali se encontrava desde que as pessoas se
lembravam. Apenas a coleta
das amoras do caminho, que se renovava a cada ano, e as suas margens, 
fornecia mais frutas do que todos eram capazes de apanhar,
mesmo durante uma Reunio de Vero.
Ningum nunca se preocupou em abrir caminhc para mais longe, nem cortar a 
vegetao e descobrir uma caverna.
- Por que voc resolveu cortar aqui atravs das amoreiras, Ayla? - indago 
Tormaden quando penetraram no buraco escuro.
- Foi Lobo - respondeu ela, baixando a vista para o animal. - Foi ele
que encontrou. Eu estava  procura de algo para a refeio de amanh, 
talvez
uma lebre ou uma
tetraz. Lobo sempre me ajuda a caar, pois tem um timo faro. Ele 
desapareceu atrs desse monte de pedregulhos e por baixo das parreiras, e 
demo
rou muito a sair. Fiquei curiosa com o que havia ali. Cortei um pouco e 
descobri que era uma caverna, depois sa, acendi uma tocha e voltei.
- Eu pensei que tivesse havido um motivo - disse ele, atento igualmente a ela 
e ao seu modo incomum de falar. Ayla era uma mulher linda, principalmente 
quando sorria.
Com Ayla e o lobo na dianteira, e Tormaden atrs dela, cada um levando uma 
tocha, penetraram pela abertura um de cada vez. A Zelandoni e Jonokol 
vinham logo atrs,
seguidos por Joharran, Marthona e Jondalar. Ayla deu-se conta de que as 
pessoas, intuitivamente, haviam se colocado em uma fila, na ordem que costu 
mavam manter
durante ocasies muito especiais ou formais, como um funeral, exceto pelo 
fato de ela ir  frente, o que a deixava um pouco desconfortvel. No 
achava que merecia
ser a primeira naquela fila.
Esperou at que todos se encontrassem no interior da caverna. A ltima foi 
Lanoga carregando Lorala, filhas de Tremeda, a parceira de Laramar, a 
famlia que sempre
era a ltima. Ela sorriu para as duas e recebeu em retribuio um aca nhado 
sorriso de Lanoga. Ayla ficou contente por ela ter resolvido ir. Lorala co 
meava a ficar
com a aparncia rechonchuda que um beb da idade dela devia ter, e j se 
tornava um peso maior do que a sua me substituta era capaz de suportar. 
Esta, no entanto,
parecia bastante contente com aquilo. Ela havia comeado a fazer 
companhia s jovens mes da Caverna, e, ao ouvi-las se gabarem de seus 
bebs, passara, tambm, a
falar um pouco sobre as faanhas de Lorala.
- O cho  escorregadio, tomem cuidado - alertou Ayla, ao comear a 
conduzir o grupo pelo subterrneo. Com vrias tochas, era mais fcil ver que 
a galeria de entrada
se alargava  medida que o solo pendia. Ela estava ciente da fria umidade da 
caverna, do cheiro terroso da argila molhada, do som abafado de gua 
pingando, e da
respirao das pessoas atrs de si, mas ningum falava realmente. A 
caverna parecia induzir ao silncio, e at mesmo dos bebs vinha uma 
quietude expectante.
Ao sentir o solo se nivelar, Ayla diminuiu o passo e baixou a tocha. Os outros 
fizeram o mesmo, observando pelos ps dela aonde estavam indo. Quando 
che garam todos
 rea plana, ela levantou a tocha e a manteve bem alto. Depois que todos 
fizeram o mesmo, surgiram primeiro sons involuntrios de surpresa, ooohs e 
aaah e, ento,
um silncio abissal, as pessoas subjugadas pelas esplndidas pa redes 
brancas de calcita cristalizada, moldada no formato da rocha, tremeluzindo 
Viva  luz das tochas.
A beleza da caverna nada tinha a ver com estalactites, que ela flo tinha 
quase nenhuma, mas era linda, e, mais do que isso, estava repleta de
uma poderosa aura
mgica, sobrenatural e espiritual.
 Grande Me Terra! - exclamou a Zelandonj Que Era A Primeira. -
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avvoz, fortee viDrante:
- A Me produzia. A terra verde se enchia.
- O caos do tempo, em meio  escurido,
O redemoinho deu a Me sublime  imensido.
Sabendo que a vida  valiosa, para Si Mesma Ela acordou
E o vazio vcuo escuro a Grande Me Terra atormentou.
- Sozinha a Me estava. Somente Ela se encontrava.
As paredes ressonaram com a sua voz, criando uma sensao de
acompanhamento. Nesse momento, algum comeou a tocar uma flauta,
acompanhando-a. Ayla olhou para
ver quem era. Um jovem desconhecido produzia a msica. Embora parecesse 
vagamente familiar, ela sabia que ele no era da Nona Caverna. Pelas roupas, 
reconheceu
que era da Terceira Caverna, e ento se deu conta por que ele se 
assemelhava a algum que ela conhecia. Ele parecia com Manvelar,
o lder da Terceira Caverna. Tentou
lembrar se fora apresentada a ele, e o nom Morizan surgiu em sua mente. 
Ele estava ao lado de Ramila, a atraente joveni gorducha de cabelos 
castanhos, que era uma
das amigas de Folara. Ele devia estar visitando o acampamento deles, e veio 
junto.
As pessoas acompanhavam a Cano da Me, e j haviam chegado  paru que 
parecia especialmente profunda:
- Quando Ela estava pronta, com as Suas guas que fazam nascer,
De volta para a Terra fria e nua, a vida verde Ela fez crescer.
E as lgrimas de Sua perda, vertidas e abundantes
Produziram o orvalho cintilante e os arco-ris emocionantes.
- As guas o verde criaram. Mas Suas lgrimas derramaram.
- Com um estrondoso bramido, Suas pedras em pedaos se partiram,
E das grandes cavernas que bem abaixo se abriram,
Ela novamente em seu espao cavernoso fez parir,
Para do Seu ventre mais Filhos da Terra sair.
- Da Me em desespero, mais crianas nasceram.
- Cada filho era d havia grandes e pequenos tambm, Uns caminhavam, 
outros voavam, uns rastejavam e outros nadavam bem. Mas cada forma era 
perfeita, cada esprito 
acabado,
Subitamente, Ayla percebeu uma sensao que j tivera antes, mas no por 
um longo tempo: uma sensao de pressentimento a dominou. Desde a 
Congregao do Cl, quando 
Creb descobriu de certa forma inexplicvel que ela era diferente, Ayla 
sentia s vezes esse temor peculiar, esse estranho senso de desorientao, 
como se ele a tivesse 
mudado. Sentiu um formigamento, uma comicho, uma nusea e uma 
fraqueza de arrepiar a pele, e sentiu um calafrio ao se tornar real a sua 
memria de uma escurido 
mais profunda do que a de qualquer caverna.
Um raivoso rugido quebrou o silncio, e as pessoas que assistiam saltaram 
para trs, assustadas. O imenso urso das cavernas empurrou o porto da 
jaula e o mandou 
em pedaos para o cho. O urso enlouquecido estava  sofra! Broud 
encontrava-se de p sobre os seus ombros; dois outros homens, agarrados 
ao seu plo. De repente, 
um se vu nas monstruosas garras do animal, mas seu grito agoniado foi logo 
interrompido quando um forte abrao de urso quebrou-lhe a espinha. Os 
mog-urs recolheram 
o cor po e, com solene dignidade, levaram-no para uma caverna. Creb, com a 
sua capa de pele de urso, cambaleava  frente.
Ayla fitou um lquido branco a derramar de uma tigela de madeira quebrada. 
Sentiu-se preocupada, aflita, ela fizera algo errado. No era para ter 
restado nenhum 
lquido na tigela. Levou-a aos lbios e a esvaziou. Sua perspectiva mudou, 
uma luz branca estava em seu interior, e ela parecia estar crescendo e 
olhando para baixo, 
l de cima, as estrelas queimando o caminho. As estrelas tornaram-se luzes 
tremeluzentes seguindo atravs de uma longa e interminvel caverna. Ento, 
uma luz vermelha 
ao final ficou maior, enchendo a sua vista, e, com uma nauseante sensao 
de afunda mento, ela viu os mog-urs sentados em crculo, semi-ocultos por 
colunas de estalagmites.
Ela mergulhava mais fundo no abismo escuro, petr de medo. De repente, 
Creb estava ali, com a luz que corria por dentro dela, ajudando-a, 
tranqilizando-a, aliviando 
os seus medos. Ele a conduziu em uma estranha viagem de volta aos inicios 
mtuos dos dois, atravs de gua salgada e dolorosos goles de ar, de terra 
margosa e arvores 
altas. Em seguida, estavam no cho, caminhando reto sobre dois ps, perco r 
rendo uma grande distncia, rumando para oeste, na direo de um grande 
mar sal gado. 
Chegaram a um ngreme paredo, vofrado para um rio e uma plancie 
achatada, Com uma profunda reentrncia sob uma enorme poro saliente; 
era a caverna de um antigo 
ancestral dele. Mas, ao se aproximarem da caverna, Creb comeou a
desaparecer deixando-a.
O cenrio tornou-se enevoado, Creb desaparecia mais depressa, tinha 
sumido quase
totalmente. Ela sondou a paisagem, procurando-o desesperadamente. Viu-o, 
ento,
no
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cume do rochedo, acima da caverna do seu ancestral, perto de uma grande 
rocha, uma coluna de pedra comprida e ligeiramente achatada que pendia 
alm da borda, como
se tivesse sido congelada naquele lugar quando estava para cair. Ela o 
chamou, mas ele havia sumido dentro da rocha. Ayla sentiu-se desolada; 
Creb tinha desaparecido,
e ela estava sozinha. Ento, Jondalar apareceu no lugar dele.
Ela sentiu-se mover com grande velocidade, acima de estranhos mundos, e 
voi tou a vivenciar o negro vazio, mas, dessa vez, era diferente. Ela o 
compartilhava:
com o Mamut, e o terror dominou os dois. Ento, debilmente, de muito distai 
ela ouviu a voz de Jondalar, repleta de temor agonizante e amor, chamando-
a, pu xando-a
de volta, e tambm o Mamut, com a simples fora de seu amor e de su 
necessidade. Num instante, ela estava de volta, sentindo um calafrio at os 
ossos.
- Voc est bem? - perguntou a Zelandoni. - Est tremendo.
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E stou bem - respondeu Ayla. -  que faz frio aqui dentro. Eu devia
 ter vestido algo mais quente. - Lobo, que andara explorando a nova
caverna, havia surgido ao seu lado e pressionava-lhe a perna. -
esticou a mo, sentiu a sua cabea, depois ajoelhou-se e o abraou.
- Faz frio, e voc est grvida. Sente mais as coisas - insinuou a Zelandoft 
porm ela sabia que era muito mais do que Ayla estava dizendo. - Est
sabendo sobre a reunio
de amanh, no est?
- Estou, Marthona me contou. Ela ir comigo, pois no tenho uma me para 
levar - explicou Ayla.
- Voc quer que ela v?
- Ah, sim. Estou grata por ela ter-se oferecido. No quero ser a nica mui 
presente sem uma me, pelo menos algum que  como uma me - disse Ayla.
A Primeira assentiu.
- timo.
As pessoas estavam superando as primeiras sensaes de espanto com a
nova caverna e comeavam a se movimentar em seu interior. Ayla viu 
Jondalar
caminhar pela extenso
do grande aposento, com largas passadas intencionais, e sa riu. Ela sabia que 
ele usava o corpo para medir, j o tinha visto fazer aquil anteriormente. A 
largura
de seu punho fechado era uma medida, e o tamanho
da sua mo, outra. Utilizava os braos abertos para avaliar espaos, e 
costumava per correr as distncias marcando os passos com as palavras de 
contar. Foi por isso
que ela passou a fazer a mesma coisa. Ele olhou para o interior da galeria 
dos fun dos, levantando a tocha, mas no entrou.
Uma poro de gente o observava. Tormaden, o lder da Dcima Nona Ca 
verna, conversava com Morizan, o jovem da Terceira Caverna. Willamar, 
Marthona e Folara estavam
parados perto de Proleva e Joharran com os seus conselheiros mais 
prximos e as parceiras deles. O moreno Solaban e Ramara, a sua parceira 
loura clara, falavam com
Rushemar e Salova, que sustentava a pequena Marsola no quadril. Ayla notou 
que nem Jaradal, o filho de Proleva, nem Robenan, o filho de Ramara, 
estavam com elas,
e deduziu que os dois meninos, que costumavam brincar juntos, tinham ido 
fazer alguma coisa no acampamento principal. Jonokol riu para Ayla, quando 
ela foi em sua
direo, com a Zelandoni e o lobo. Jondalar voltou e se juntou ao grupo.
- Eu diria que este aposento tem o comprimento de trs homens altos at o 
teto - calculou -, e a mesma coisa ou um pouco mais de lado a lado, cerca de 
seis de minhas
passadas. Talvez a profundidade seja pouco menos de trs vezes isso, uns 
dezesseis passos, mas eu tenho passadas largas. A pedra mais escura da 
parte de baixo das
paredes vem at aqui levantou a mo at a altura do meio do peito. - Isso  
mais ou menos cinco dos meus ps, um na frente do outro.
Jondalar avaliara muito bem as distncias. Ele tinha um metro e noventa e 
oito de altura, e as paredes brancas comeavam no meio de seu peito, a 
cerca de metro e
meio do cho, e seguiam todo o caminho at o teto, com quase seis metros 
de altura. O aposento tinha cerca de sete metros de largura e dezessete de 
profun didade,
com um pouco de gua empoada no meio. O espao no era grande o 
bastante para conter todos os presentes  Reunio de Vero, porm mais do 
que o suficiente para
a abrigar uma Caverna inteira, exceto, talvez, a Nona, e certamen te de bom 
tamanho para toda a zelandonia.
Jonokol foi at o meio do aposento e olhou para acima, para as paredes e o 
teto, com um largo sorriso extasiado. Ele estava em seu elemento, perdido 
na imaginao.
Sabia que aquelas lindas paredes brancas ocultavam algo espetacular que 
queria se mostrar. Ele no tinha pressa. O que quer que fosse feito com elas 
teria de ser
exatamente correto. J comeava a ter algumas idias, mas precisava 
Consultar a Primeira, planejar com a zelandonia, para penetrar naqueles 
espaos e encontrar a
impresso do outro mundo que a Me deixara ali. Ela teria de lhe dizero que 
havia ali.
Devemos explorar os dois acessos agora, ou voltar mais tarde, Tormaden? 
indagou Joharran. Ele queria ir mais adiante, naquele momento, mas achava
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- Estou certo de que o pessoal da Nona gostaria de ver esta caverna e 
explor la mais a fundo. Provavelmente a nossa Zelandoni no  capaz de 
fazer algo to rduo,
mas tenho certeza de que o seu Primeiro Aclito gostaria de estar envolvido. 
A linhagem de sua afinidade tem o signo do lobo, e como foi um lobo que 
descobriu
a caverna, ele ficar muito interessado - observou Tormaden.
- Sim, o lobo a descobriu, mas, se Ayla no tivesse sido curiosa o bastante 
para ver onde ele havia estado, continuarfamos sem saber da existncia da 
caverna
- ponderou Joharran.
- Em todo caso, estou certa de que ele ficar interessado - afirmou a 
Zelandoni. -Todos ns ficamos, e todos os Zelandonii ficaro. Trata-se de 
uma caverna rara
e sagrada. Aqui, o outro mundo est mais prximo. Sei que todos sentimos 
isso. A Dcima Nona  uma felizarda por esta caverna estar to prximo a 
ela, mas acredito
que isto significa que recebero muito mais membros da zelandonia, e 
outras pessoas,  claro, que desejaro fazer uma romaria a este local 
sagrado - disse a Primeira.
Ela estava deixando claro que nenhuma Caverna poderia reivindicar uma 
descoberta to especial, ainda que estivesse em seu terri trio. Aquele 
lugar
pertencia a todos
os Filhos da Terra. Sua guarda apenas seria confiada pelas demais  Dcima 
Nona Caverna dos Zelandonii.
- Acho que  necessria uma olhada mais cuidadosa, mas no h pressa - 
comentou Jonokol. - Agora que sabemos onde est, ela no ir embora. 
gum sabe o quanto h aqui nem a profundidade da caverna. Qualquer 
explora o precisa ser cuidadosamente planejada, ou poderemos esperar 
at que algum seja chamado 
por ela.
A Zelandoni assentiu ligeiramente para si prpria. Ela sabia, mais do que ele 
mesmo, que o seu Primeiro Aclito, que queria apenas ser um artista e no 
ligava para 
o fato de jamais se tornar um Zelandoni, encontrara um motivo para se com 
prometer. Ele queria aquela caverna. Ele a reivindicava. Queria conhec-la, 
explor la, 
ser chamado por ela, e, principalmente, pint-la. Daria um jeito de se mudar 
para a Dcima Nona Caverna, para ficar perto dela, no que realmente 
planejas se, mas 
trabalharia para isso, pois, dali em diante, todos os seus sonhos e pensa 
mentos estariam voltados para aquela caverna.
Em seguida, outro pensamento cruzou a mente dela. Ayla sabia! No momen 
to em que viu a caverna, ela soube que pertencia a Jonokol. Foi por isso que 
insis tiu, afirmando 
que ele precisava vir v-la, mesmo se eu no quisesse vir. Ela sabia que era 
mais importante para ele do que para qualquer outro. Ayla era uma Zelandoni, 
quer ela 
soubesse ou no, quer ela quisesse ou no. O velho Mamut
tinha  reconhecido. Ela no podia evitar, nasceu com isso. E ela poder 
substituir jonokol como minha aclita. Mas, como ele diz, no h pressa. Que 
ela se acasale 
e
tenha o beb, e ento poder comear o seu treinamento.
- Claro que seria necessrio um planejamento para a explorar inteiramen te, 
mas eu gostaria de olhar mais de perto aquele acesso nos fundos - comentou 
jondalar. 
- Voc no gostaria, Tormaden? Alguns de ns poderiam ir l para ver
at aonde vai.
- E tem gente querendo ir embora - avisou Marthona. - Faz frio aqui dentro, 
e ningum trouxe roupas quentes. Vou pegar uma tocha e sair, mas, cer 
tamente, vou querer 
voltar.
- Eu vou tambm - disse a Zelandoni. - E Ayla, h pouco, estava tremendo de 
frio.
- J estou bem - afirmou Ayla. - Eu gostaria de ver o que h l atrs.
No final das contas, Jondalar, Joharran, Tormaden, Jonokol, Morizan e Ayla, 
seis ao todo - e Lobo - permaneceram para penetrar um pouco mais fundo na 
nova e maravilhosa 
caverna.
O corredor no fundo do aposento principal da caverna ficava quase defronte 
ao eixo do corredor de entrada e adiante dele. A entrada da galeria axial 
era razo avelmente 
simtrica, mais larga e arredondada no topo, estreitando-se na parte 
inferior. Para Ayla, que havia feito partos e examinado muitas mulheres, a 
abertu ra era feminina, 
maternal, uma extraordinria evocao do rgo feminino. Apesar de ambos
serem a mesma coisa, a mente dela no via tanto uma vagina, mas a parte
superior arredondada
lhe sugeria o canal do nascimento, estreitando-se para a extenso abaixo da
regio anal. Entendeu exatamente o que a Zelandoni quis dizer quando falou
que se tratava
do ventre da Me, apesar de todas as cavernas serem consideradas uma
entrada para o Seu ventre.
Assim que entraram, a passagem sinuosa continuava a se estreitar,
dificultan do o avano, embora as brancas paredes superiores se alargassem
formando uma ampla arcada
abobadada. No era muito comprida, tinha quase a mesma exten so da
galeria de entrada. Ao chegarem ao fim, as paredes se abriram em volta de 
uma coluna de pedra 
que dava a falsa impresso de sustentar algo acima, porm, de fato, faltava 
mais de meio metro para ela atingir o cho. A passagem seguia em Volta da 
enorme haste 
de pedra, pelo lado direito, fazia uma curva fechada para a esquerda e 
serpenteava mais alguns metros at acabar.
No lugar onde contornava a coluna, a superfcie do solo descaa cerca de um 
metro, mas se tratava de uma ampla extenso horizontal que se prolongava 
por mais de 
trs metros, criando um dos poucos espaos realmente confortveis para
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se sentar e relaxar. Ayla aproveitou a chance para ver como tudo parecia
daquela posio. Reparou que algo poderia facilmente ser escondido debaixo 
da haste d pedra,
ficando fora de vista. Percebeu, tambm um buraco na parede oposta a pilar, 
no qual algum poderia colocar coisas midas, para voltarem a ser encoi, 
tradas com facilidade.
Pensou que, quando voltasse ali, deveria trazer algo para sentar, e at 
mesmo um feixe de capim a protegeria do cho frio.
Aps voltarem da galeria, foram ver a entrada do outro acesso, que ficava 
direita, mas se tratava de um tnel menor. Seria necessrio rastejar por ele 
sob mos e 
joelhos, e havia poas de gua no cho. Resolveram deixar para explorar 
esse local numa outra ocasio.
Enquanto saam da caverna, Lobo seguia na frente com Jondalar e os dois 
lderes, Joharran e Tormaden. Jonokol caminhava ao lado de Ayla, e a 
deteve co uma pergunta.
- Voc pediu  Zelandoni que me convidasse para vir aqui?
- Depois de ver o que fez dentro de Pedras da Fonte, achei que
voctinha  que ver esta caverna - disse ela -, ou devo cham-la de um fundo?
- Qualquer um dos dois. Quando receber um nome, ela ser chamada fundo, 
mas continuar sendo uma caverna. Obrigado por me trazer aqui, A-' Eu 
nunca vi uma caverna 
mais bonita. Estou encantado - agradeceu JonoL
- Eu tambm. Mas estou curiosa em relao ao nome que ela vai receber. 
Quem vai lhe dar um nome? - quis saber Ayla.
- A prpria caverna. As pessoas comearo a se referir a ela com nomes a 
descrevem melhor ou que achem mais apropriados Como voc a chamaria 
quisesse falar sobre 
a caverna com uma pessoa? - perguntou Jonokol.
- No sei, talvez a caverna com paredes brancas - respondeu Ayla.
- O nome vai acabar sendo algo parecido com isso, pelo menos nomes, mas
ainda no sabemos muito sobre ela, e a zelandonia vai ter o seu prio nome
para a caverna
- explicou Jonokol.
Ayla e Jonokol foram os ltimos a deixar a caverna. Ao chegarem 
entrada o  sol parecia especialmente brilhante, depois da caverna escura 
iluminada
apnas por algumas tochas.
Aps seus olhos se adaptarem, Ayla ficou surpresa ao ver Marthona  
espera, junto a Jondalar e Lobo.
- Tormaden nos convidou para uma refeio - anunciou Marthomna, Ele foi 
na frente, para avisar a todos que nos esperassem. Na verdade, conV voc, 
mas, depois, pediu
que eu fosse tambm, e todos os demais  que se  encontravam na caverna. 
Inclusive voc, Jonokol. Todos os outros tinham
algo a fazer, pois a maioria anda ocupada com a
Reunio de Vero.
- Eu sei que Joharran est fazendo uma reunio, no nosso acamento
com gente de todas as outras Cavernas, para planejar a caada - informou 
jondalar. - Alis, Tormaden tambm ir, depois de apresentar voc ao 
acampamento dele.
Eu tambm vou participar, mas ela ainda estar acontecendo depois da 
refeio, e irei mais tarde. No que eu costumasse ser includo no 
planejamento dessas coisas,
mas, desde que voltamos, Joharran tem me envol vido com elas.
- Por que no vamos todos para o nosso acampamento? - props Ayla. - Ainda 
h uma refeio especial para amanh de manh a ser preparada, e at ago
ra no ajudei
em nada.
- Pelo simples fato de que, quando o lder da Caverna anfitri de uma
Reunio de Vero convida voc para uma refeio,  uma questo de cortesia 
comparecer.
- Por que ele me convidaria?
- No  todo dia que se descobre uma caverna como essa, Ayla. Todos ns 
fica mos entusiasmados com ela - retrucou Marthona -, e fica perto da 
Dcima Nona, no territrio
dela. Provavelmente, agora ir se tornar uma Caverna mais importante.
- E voc tambm receber muita ateno - frisou jondalar.
- Eu j recebo ateno suficiente - ponderou ela. - No quero toda essa 
ateno. Tudo o que quero  me acasalar, ter um beb e ser como todo 
mundo.
Jondalar sorriu-lhe e a envolveu com um brao.
- Deixe passar o tempo - falou. - Voc ainda  novidade. Depois que as 
pessoas se acostumarem a voc, as coisas vo se acalmar.
-  verdade que as coisas vo se acalmar, mas voc sabe que nunca ser 
como todo mundo. Pelo simples fato de todo mundo no ter cavalos e um lobo 
- observou Marthona,
com um sorriso irnico e baixando a vista para o carnvoro.
- Voc tem certeza de que eles sabem que vamos, Mardena? - perguntou a 
mulher mais velha, atravessando a p com todo o cuidado o pequeno riacho 
que desaguava no
Rio.
Ela nos convidou, mame. Falou para irmos e compartilhar uma refeio 
matinal com eles. No foi, Lanidar?
- Foi, vov, ela falou - confirmou o menino.
Por que eles foram acampar to longe? - perguntou a av.
No sei, mame. Por que no pergunta para eles, quando chegarmos? - 8 
Mardena
Bem, eles formam a maior Caverna e precisam de muito espao - deduziu a 
mulher - Muita gente j se encontrava aqui e tinha montado os seus
acampamentos.
Acho que  por causa dos cavalos - arriscou Lanidar. - Ela os mantm
num lugar especial, que  para ningum pensar que so cavalos comuns e 
resolver ca-los. Eles seriam fceis de caar. No fogem.
- Todo mundo est falando neles, mas estvamos fora, quando chegaram.  
verdade que os cavalos deixam as pessoas sentarem em cima deles? - 
indagou a mulher mais
velha. - Por que algum ia querer sentar em cima de um cavalo?
- Eu no vi isso, mas no duvido - retrucou Lanidar. - Os cavalos deixa ram
que eu tocasse neles. Eu toquei no jovem garanho, e a gua se aproximou e 
quis que eu
tambm tocasse nela. Eles comeram das minhas mos, das duas. Ela disse 
que eu devia alimentar os dois ao mesmo tempo, para no ficarem com ci 
mes. Ela contou que
a gua  a me do garanho, e diz a ele o que fazer.
Mardena diminuiu o passo e franziu a testa, ao se aproximarem do acampa 
mento, e ficou observando as pessoas a conversar e sorrir em volta da 
comprida vala com fogo.
Parecia haver muita gente. Talvez ela estivesse enganada, talvez eles no 
estivessem sendo esperados.
A esto vocs! Estvamos  sua espera.
As duas mulheres e o menino viraram-se, ao ouvirem a voz, e viram uma jo 
vem alta e atraente.
- Vocs no devem se lembrar de mim. Sou Folara, filha de Marthona.
- Sim, voc se aparece com ela - afirmou a mulher mais velha.
- Creio que eu devo fazer a saudao formal, j que fihi a primeira e 
encontr los. - Ela estendeu ambas as mos para a mulher mais velha. 
Mardena ficou olhan do
enquanto a sua me dava um passo  frente e segurava as mos da jovem. - 
Eu sou Folara da Nona Caverna dos Zelandonii, Abenoada por Doni, Filha de 
Marthona, antiga
Lder da Nona Caverna dos Zelandonii, Filha da lareira de Willamar, Mestre 
Comerciante dos Zelandonii, Irm dejoharran, o Lder da Nona Caverna dos 
Zelandonii, Irm
de Jondalar da Nona Caverna dos Zelandonii, Mestre Lascador e Viajante 
Retornado, que em breve vai se acasalar com Ayla
da Nona Caverna dos Zelandonii. Ela tem
uma poro de nomes e laos, mas do que eu gosto mais  "Amiga de cavalos
e Lobo". Em nome da Grande Me Terra,, Doni, vocs so bem-vindos ao
acampamento da Nona
Caverna.
- Em nome de Doni, a Grande Me Terra, eu a sado, Folara da Nona Caver
na dos Zelandonii. Eu sou Denoda, da Dcima Nona Caverna dos Zelandonii
Me de Mardena da
Dcima Nona Caverna e Av de Lanidar da Dcima Nona Caverna, outrora 
acasalada com...
Folara tinha uma poro de nomes e laos importantes, pensou Mardena, 
quando a sua me comeou a relacionar os seus. Ela ainda no se acasalou. 
Qual ser o signo
de sua afinidade? Ento, como se a me soubesse o que ela estava pensando, 
a mulher perguntou, ao terminar os seus nomes e laos:
- 'Willamar, o homem da sua lareira, no pertenceu outrora  Dcima Nona 
Caverna? Eu creio que compartilhamos um signo de afinidade. Eu sou Biso.
- Sim, Willamar  Biso. Mame  Cavalo. E eu tambm,  claro.
Muita gente havia se aproximado, durante a seqncia de saudaes formais. 
Ayla deu um passo  frente e cumprimentou Mardena e Lanidar, e depois 
Willamar saudou
Denoda em nome de toda a Nona Caverna. Nomes e laos familiares 
poderiam levar um dia inteiro, se algum no os resumisse. Ele encerrou 
dizendo:
- Eu me lembro de voc, Denoda. Era amiga de minha irm mais velha,
- Sim - respondeu ela sorrindo. - Voc a tem visto? Eu no a vejo h anos, 
desde que se mudou para longe.
- s vezes, visito a Caverna dela, quando vou  costa das Grandes guas do 
Oeste para comercializar sal. Ela  av. A filha dela tem trs filhos, e 
tambm j  av.
A parceira do filho dela tem um menino.
Um movimento em volta das pernas de Ayla chamou a ateno de Mardena.
- Esse  o lobo? - perguntou, quase gritando de medo.
- Ele no vai machucar voc, mame - afirmou Lanidar, tentando acalm-la.
Ayla abaixou-se e colocou o brao em volta dele.
- No, ele no vai machuc-la, eu prometo - garantiu. Ela podia ver o medo 
nos olhos da mulher.
Marthona aproximou-se e cumprimentou Denoda, com muito mais informa 
lidade, e depois comentou:
- O lobo vive com a gente, em nosso alojamento, e ele tambm gosta de ser 
cumprimentado. Quer ser apresentada a um lobo, Denoda? - Tinha 
percebido que a mulher mais
velha havia demonstrado mais interesse do que medo. Marthona pegou-a 
pela mo e levou-a na direo de Ayla e Lobo. - Ayla, por que no o 
apresenta aos nossos convidados?
- Lobos tm excelente viso, mas aprendem a reconhecer as pessoas com o 
focinho. Se lhe der uma chance de farejar a sua mo, ele lembrar de voc 
poste riormente.
 assim a apresentao formal dele - explicou Ayla. A mulher esten deu a 
mo e deixou que o lobo a cheirasse. - Se quiser cumpriment-lo, ele gosta 
que alisem a
sua cabea.
Lobo ergueu a vista para Denoda, enquanto ela alisava levemente sua cabea, 
mantendo a boca aberta e a lngua pendendo para um lado. Ela sorriu para 
ele.
 quente, um animal vivo - disse ela. Virou-se para a filha. - Venha, Mardena. 
Tambm precisa ser apresentada a ele. Muito pouca gente j conheceu Um 
lobo e saiu
depois para contar.
Preciso mesmo? - hesitou Mardena.
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Era evidente que Mardena estava amedrontada, e Ayla sabia que Lobo 
fareja va isso. Segurou-o com firmeza. Ele nem sempre reagia bem a um 
medo to bvio.
- J que esto oferecendo,  a coisa educada a se fazer, Mardena. E, se no 
fizer isso, nunca mais poder visit-los. Ficar temerosa demais. No 
precisa te mer
esse lobo. Como pode ver, ningum mais teme, nem mesmo eu. Por que voc 
deveria tem-lo? - alegou Denoda.
Mardena olhou em volta e viu a grande aglomerao observando-a. Achou 
que devia ser a Nona Caverna inteira, e ninguem ah parecia ter medo Sentiu 
como se estivesse
sendo posta  prova, e estava certa de que ficaria humilhada demais para 
voltar a encarar qualquer um deles, se no se aproximasse daquele lobo. 
Olhou para o filho,
o menino por quem sempre tivera sentimentos conflitantes. Ela
amava mais do que tudo na vida, e, ao mesmo tempo, envergonhava-se de t-
h dado  luz.
- V em frente, mame - animou-a. - Eu j fui apresentado a ele.
Finalmente, Mardena colocou um p na direo da mulher e do lobo, e depois 
outro. Quando chegou perto, Ayla pegou-lhe a mo e, segurando-a com a sua, 
levou a at
o focinho do lobo. Ela podia quase cheirar o medo, mas a mulher o superou
e encarou o animal. Ayla achou que Lobo farejara mais sua mo do que a de 
Mardenz Em seguida,
tirou a mo e deixou que ela tocasse o plo da cabea dele.
- O plo de um lobo pode ser bastante spero, mas vai notar que  muii 
macio na cabea - disse Ayla, ao recolher sua mo. Mardena a manteve ali uj 
momento a mais
antes de retir-la.
- Viu? No foi to ruim - comentou Denoda. - s vezes, Mardena, preciso 
fazer mais coisas do que o necessrio.
- Venham tomar um ch quente, uma mistura que Ayla prepara, e  muito
boa - convidou Marthona. - Decidimos tornar um acontecimento a visita
de  vocs, e cozinhamos tudo no buraco de assar. A comida est quase 
pronta para
tirada.
Ayla caminhava com Mardena e Lanidar.
- Vocs tiveram muito trabalho para preparar uma refeio matinal 
observou Mardena. Ela no estava acostumada a ser tratada com tanta
generosidade.
- Todos trabalharam para isso - disse Ayla. - Quando falei que tinha
convidado vocs e sugeri cavar um forno, eles acharam que seria uma tima
ocasio para fazer um enorme buraco de assar. Disseram que planejavam fa
zer isso, mas vocs lhes deram a motivao. Cozinhei algumas coisas do
jeitoque
aprendi quando era criana. Experimentem a tetraz, a tal que abati ontem
com o
arremessador de lanas, mas, se no gostarem do sabor, por favor, no
hesitem em
comer outra coisa em vez dela. Na nossa Jornada, aprendi que h muitas 
manei ras de se cozinhar as coisas, e nem todo mundo gosta de todas elas.
- Bem-vinda  Nona Caverna, Mardena.
Era a Primeira Entre Aqueles Que Serviam  Me! Mardena no achava que 
alguma vez j tivesse falado com ela, exceto em unssono durante uma 
cerimnia.
- Saudaes, Zelandoni Que  A Primeira - cumprimentou Mardena, 
sentindo-se um pouco nervosa por falar com a enorme mulher que estava 
sentada em um banco mais elevado.
Este, semelhante ao que usava no alojamento da zelandonia, ficava no 
acampamento para quando ela quisesse passar um tempo com sua Caverna.
- E seja bem-vindo tambm, Lanidar - saudou a Primeira. Havia um tom 
afetuoso na voz da donier, quando ela falou com o seu filho, que Mardena 
nunca tinha ouvido
a poderosa mulher expressar. - Soube que esteve aqui, ontem.
- Foi - confirmou ele. - Ayla me mostrou os cavalos.
- Ela me contou que voc assobia muito bem - comentou a Zelandoni.
- Ela me ensinou o canto de alguns pssaros.
- Gostaria de me mostrar?
- Se quiser. Eu andei praticando o da cotovia - disse ele, e passou a imitar o 
belo som. Todos se viraram para olhar, inclusive a me e a av.
- Muito bom, rapaz - exclamou Jondalar, sorrindo exultante para o me nino. 
-  quase to bom quanto o da cotovia de Ayla.
Est pronto - chamou Prleva. - Venham comer.
Ayla conduziu primeiro os convidados at a pilha de pratos de osso e 
madeira e insistiu para que provassem de tudo. Depois, todos os demais 
formaram uma fila. Normalmente,
os que dividiam um alojamento faziam juntos a refeio ma tinal. Aquela, 
entretanto, se tornou a primeira das muitas refeies que seriam 
compartilhadas, no apenas
por membros da prpria Caverna, mas com outros amigos e parentes. 
Haveria at mesmo algumas ocasies em que toda a Reunio de Vero 
participaria de um banquete,
mas isso envolveria um grande esforo de Organizao e planejamento. Uma 
delas seria o Banquete
Matrimonial.
Depois que todos acabaram de comer, as pessoas comearam a sair para
exeCutar vrias outras atividades. A maioria porm, fazia uma pausa para 
trocar
algumas palavras com os seus convidados. Mardena sentia-se enrubescer um 
pouco, Por
causa de toda a ateno, mas tambm pelo ardor da cordialidade. No se 
lem fava de alguma vez ter sido tratada to bem. Proleva foi falar com eles, 
trocou
 palavras com Mardena e Denoda, e em seguida dirigiu-se a Ayla.
J terminamos aqui, Ayla. Acho que tem algo a conversar com Mardena 
disse ela.
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- sim, tenho.
-  Mardena, gostaria de dar um passeio comigo, junto con Lanidar e Denoda, 
se eles quiserem?
- Aonde vamos? - perguntou Mardena, com um qu de nervosismo.
- Posso ir tambm? - pediu Folara. - Se no quiser que eu v, no tefl Np 
mas j faz algum tempo que no vejo os cavalos.
Ayla sorriu.
- Claro que pode - confirmou. Talvez a presena de algum to sem medo  
dos cavalos torne mais fcil que Mardena concorde em deixar q Lanidar 
cuide deles. Virou-se 
para
o menino e o viu sentado ao lado de Lanoga que segurava Lorala, e os dois 
pareciam conversar com desenvoltura. O filho
de dois anos de Tremeda estava sentado no cho
ali perto.
Ao seguirem na direo deles, Mardena perguntou:
- Quem  essa moa? Ou ela  uma mulher? Parece muito nova para ter tu 
beb dessa idade.
- Nova demais. Nem mesmo fez os seus Primeiros Ritos - disse Ayla. A 
criana  irm dela, e a outra, de dois anos,  o seu irmo, mas, no que 
respeito aos dois,
Lanoga  a me deles.
- No entendi - retrucou Mardena.
- Estou certa de que j ouviu falar de Laramar O tal que faz a barma -
- Ento devem ter ouvido falar em Tremeda, a parceira dele. Ela no faz 
nada, alm de tomar a barma que ele fabrica e ter filhos dos quais no cuida
parceiro? O lar de Laramar eTremeda  o que temos como ltimo nvel em 
nossa Caver na. Quem estaria disposto a se acasalar com a filha desse lar?
Mardena e Denoda olharam para a moa faladeira. A maioria das pessoas 
gostava de fofocar, mas no costumava ser to franca em relao queles 
que eram um constrangimento
para as suas Cavernas. O nvel social de Denoda havia bai xado desde que a 
filha dera  luz a Lanidar, e o parceiro desta cortara o n. O nvel deles no 
era o mais
baixo, mas no estava longe disso. A Caverna deles, porm era muito menor. 
Ser o ltimo de uma Caverna to grande era um nvel baixssimO. Mas, ainda 
que Lanidar
tivesse um nvel social alto, teria problemas em conseguir uma parceira, por 
causa de seu defeito fsico, pensou Denoda.
- Quer ver os cavalos, Lanidar? - perguntou Ayla, quando eles se aproxi 
maram. - Venha tambm, Lanoga.
- No, no posso.  a vez de Stelona amamentar Lorala, e ela est ficando 
com fome. No quis dar muita comida para ela, antes do momento de mamar.
- Fica para outra vez - props Ayla, sorrindo afetuosamente. - Est
pronto?
- Estou - disse ele, e depois dirigiu-se  garota: - Preciso ir, Lanoga. - Sorriu 
timidamente para o menino, e ele retribuiu o sorriso.
Ao passarem pelo seu alojamento, Ayla pediu:
- Lanidar, pode pegar aquela tigela ali? Ela tem um pouco de comida para ca 
valo, como pedaos de cenoura brava e alguns gros. - Ele correu para 
apanh-la.
Ayla reparou que ele carregava a tigela do lado direito, apoiada contra o cor 
po, usando o brao aleijado, e teve uma inesperada lembrana de Creb, 
carregan do uma
vasilha com massa de ocre vermelho contra o corpo, utilizando o brao que 
fora amputado at o cotovelo, pouco antes de ele dar o nome ao filho dela e 
aceit-lo no
cl. Isso lhe provocou um sorriso de alegria e de dor. Mardena a ob servava, 
e ficou curiosa. Denoda tambm notara a sua expresso, e no se aca nhou 
em mencionar
isso.
- Voc olhou para Lanidar com um sorriso estranho - admirou-se.
Ele me lembra algum que conheci - revelou Ayla. - Um homem que flo tinha 
a metade de baixo do brao. Quando criana, foi atacado por um urso
das cavernas. A av dele era curandeira, e teve que cortar o pedao do 
brao fora, Porque estava envenenando o corpo do menino. Ele teria morrido, 
se no fosse isso.
- Que coisa terrvel! - exclamou Denoda.
Sim, foi. Ele tambm ficou cego de um olho, por causa do ataque, e a sua 
Perna foi afetada. Desde ento, s andava com a ajuda de uma bengala.
- Pobre menino. Suponho que tiveram que cuidar dele durante o resto de
Vida comentou Marderia.
 499
- No - retrucou Ayla. - Ele deu uma valiosa contribuio para o seu povo.
- Como conseguiu? O que ele fez?
- Tornou-se um grande homem, um mog-ur... algo parecido com um 
Zelandoni... e foi reconhecido como o Primeiro. Foram ele e a irm que cuida 
ram de mim, depois que
a minha famlia morreu. Era o homem da minha lareira, j e eu o amava muito 
- disse Ayla.
Mardena a olhava boquiaberta, os olhos arregalados. Mal podia acreditar
na mulher, mas por que algum mentiria sobre algo assim?
Enquanto Ayla falava, Denoda teve a clara noo do seu sotaque incomum, 
mas a histria a fez entender por que ela parecia ter criado um vnculo com 
La Depois que
ela se acasalasse, seria aparentada de gente muito poderosa, e, como 
gostava dele, poderia ajud-lo bastante. Essa mulher pode ter sido a melhor 
coisa que aconteceu
ao menino, deduziu ela.
Lanidar tambm estivera ouvindo. Talvez eu consiga aprender a caar, pen 
sou ele, mesmo tendo apenas um brao bom. Talvez eu aprenda a fazer algo
mais alm de colher
bagas.
Aproximavam-se de uma construo que era como um cercado, s que no 
parecia particularmente to resistente. Era feito com varas compridas, 
finas e
feitas de amieiro
e salgueiro, atadas na horizontal, na parte de cima, por outras em forma de 
X, e presas a estacas mais curtas e robustas enfiadas no cho. Arbustos, 
galhos de rvores,
j secando, preenchiam frouxamente os espaos entre elas. uma manada de 
bises, por exemplo, ou mesmo um macho dos grandes - cerca de dois 
metros at o topo de sua
corcova e compridos chifres pretos - tentasse fugir, o cercado no 
resistiria. Era provvel, inclusive, que os cavalos
conseguissem derrub-lo, se estivessem determinados.
- Lanidar, voc se lembra do assobio para chamar Racer? - perguntou
Ayla.
- Sim, acho que sim - disse ele.
- Por que no o chama, para ver se ele vem? - sugeriu ela.
O garoto assobiou o chamado alto e penetrante. Pouco depois, os dois
cavalos, a gua seguindo o jovem garanho, surgiram de trs de umas 
rvores enfileira ao longo
do pequeno curso de gua, e vieram trotando na direo deles. Pararam no 
cercado e ficaram observando os humanos se aproximarem. Huiin Racer 
relinchou para eles. 
Ayla
respondeu com o relincho caracterstico, que era o  som com o qual havia 
designado a gua, e ambos os cavalos relincharam de
volta.
- Ela sabe fazer o som igual ao de um cavalo - comentou Mardena.
- Eu lhe disse que ela sabia, mame - afirmou Lanidar.
Lobo correu  frente, passando facilmente por baixo da cerca. Sentou-se
perto da gua, enquanto ela baixava a cabea no que parecia ser um gesto 
de ,
        500
respeito.. Em seguida, Lobo aproximou-se do jovem garanho, baixou-se 
sobre o peito e as patas dianteiras, o traseiro para o ar numa pose 
brincalhona, e latiu para
Racer. O garanho rinchou em resposta, e ambos tocaram os focinhos. Ayla 
sor riu para eles, ao mesmo tempo em que mergulhava por baixo da cerca. 
Abraou a gua pelo
pescoo, depois virou-se e fez festinha no garanho, que a comprimia atrs, 
tambm querendo ateno.
- Espero que vocs prefiram este cercado a ter de usar, o tempo todo, ca 
brestos e cordas. Gostaria de deix-los correr livremente, mas no acho que 
seja seguro
enquanto houver tanta gente caando por a. Hoje, eu trouxe algumas visitas, 
e  importante que vocs cooperem e sejam gentis. Quero que o menino que 
assobia d
uma olhada em vocs por mim, mas a me dele  muito protetora e se sente 
nervosa em relao a vocs - disse ela, na linguagem que inventara quando 
vivia sozinha
no vale.
Esta inclua certos sons e gestos do Cl, alguns rudos sem sentido que Ayla 
e o filho faziam um para o outro, quando ele era beb e os dois ficavam 
sozinhos, e
certas onomatopias que ela passara a fazer, imitando os animais  sua volta, 
in clusive bufos e relinchos de cavalos. Somente ela sabia o seu significado, 
mas sempre
usava essa lngua inventada, ao falar com os cavalos. Duvidava que eles a 
entendessem completamente, embora certos sons e gestos tivessem 
significado para os cavalos,
j que ela os usava como sinais e orientaes, mas os animais sabiam que era 
o modo de sua dona se dirigir a eles, e reagiam prestando ateno.
O que ela est fazendo? - perguntou Mardena a Folara.
Est falando com os cavalos - respondeu Folara. - Ela costuma falar com 
eles dessa maneira.
O que est dizendo para eles? - quis saber Mardena. Ter que perguntar a 
ela - ponderou Folara.
- Ser que eles sabem o que ela est dizendo? No faz nenhum sentido para 
mim afirmou Denoda.
- No sei, mas eles parecem escutar - salientou Folara.
Lanidar tinha chegado perto da cerca e observava Ayla atentamente. Ela, re 
alnlente, os tratava como amigos, na verdade, mais como familiares, pensou, 
e eles a tratam 
da mesma maneira. Mas o menino ficou imaginando como tinha sUrgido 
aquele
cercado. Ele No estava ali, no dia antrior.
Depois que Ayla parou de falar com os cavalos e virou-se para ficar de 
frente Para as pessoas Lanidar perguntou-lhe:
De onde veio este cercado? No estava aqui ontem.
Ela sorriu.
Muita gente se reuniu e o construiu, ontem  tarde - respondeu.
-
Joharran, depois da reunio dele, que desejava construir um cercado para 
os cava- los, e explicou o motivo. Joharran ficou de p no banco da 
Zelandoni e falou sobre 
o desejo de Ayla de construir um lugar seguro para os cavalos. A maioria dos 
participantes da reunio ainda se encontrava presente, assim como muita 
gente da Nona 
Caverna. Fizeram muitas perguntas, inclusive em relao  resistncia, do 
cercado, e tambm vrias sugestes. Em pouco tempo, muitos foram para
o prado e se dedicaram
ao trabalho de construir o curral. Os que no eram da Nona Caverna 
estavam mesmo curiosos a respeito dos cavalos, e a maioria dos que
eram no queria ver os cavalos
feridos acidentalmente ou mortos. Os animais eram una novidade que dava 
distino  Caverna deles.
Ayla ficou to grata, que no soube o que dizer. Agradeceu-lhes, mas no
achava que fosse o suficiente, e sentia-se em dbito com os Zelandonii, sem 
saber
como recompens-los.
Trabalhar em grupo aproximava as pessoas, e ela concluiu quc precisava 
conhecer melhor algumas pessoas. Joharran havia mencionado o
descejo de incluir os cavalos na
caada, que estavatava planejada para a manh seguinte. Ayla e Joharran
cavalgaram os cavalos e demonstraram o controle que tinham eles, o que
tornou as sugestes
de
Joharran mais aceitveis. Se a caada fosse berr sucedida, o Matrimonial
ocorreria normalmente no dia seguinte, mas com Dalanar e os Lanzadonii
ainda no haviam
chegado, eles estavam dispostos a perar alguns dias, apesar da ansiedade de
alguns.
Ayla colocou cabrestos nos cavalos e levou-os para fora do cercado por
um  porto inventado por Tormaden da Dcima Nona Caverna. Ele cavou um
buraco, ao lado de uma
das varas de apoio, para a base de uma estaca  qual o porto foi preso, e 
usou uma ala feita de corda para deslizar pela parte de cima. Alas cordas 
tambm serviam
como dobradias. Ayla estava comeando a se sentir m prxima da Dcima 
Nona Caverna. Quando ela levou os cavalos para fora cerca, Mardena recuou 
rapidamente. De
perto, eles pareciam bem maiores. ime diatamente, Folara foi para o lugar 
onde ela estava.
- No tenho visto os cavalos com a freqncia que desejava - alegou alisando 
o rosto de Huiin. - Todo mundo andou ocupado demais com a
caa aos bises, na qual Shevonar
morreu, o enterro e os preparativos para vir para c.  Voc disse, certa vez, 
que me deixaria montar num cavalo.
- Voc gostaria de fazer isso agora?
- Posso? - admirou-se, os olhos brilhando de prazer.
- Deixe eu pegar um cobertor de montar para Huwin - disse Ayla  Enquanto 
vou busc-lo, voc e Lanidar gostariam de dar algo para eles
comerem?  Lanidar tem comida de
que eles gostam, na tigela.

- Ele j est perto, Mardena - ressaltou Denoda.
- Mas ela estava l...
- Mame, eu j alimentei os cavalos uma vez. Eles me conhecem, e pode ver 
que tambm conhecem Folara - ressaltou Lanidar.
- Eles no vo machuc-lo - garantiu Ayla -, e eu s vou at ali.
Ela apontou para uma pilha de pedras perto do porto. Tratava-se de um 
marco de viajante que Kareja havia feito para ela. Ayla precisou apenas 
remover algumas pedras
para alcanar o espao interno onde podia guardar algumas coisas, como um 
cobertor de couro de montar. As pedras eram superpostas de tal maneira 
que a gua da chuva
escorria do topo e no se infiltrava para a parte de dentro. A lder da 
Dcima Primeira Caverna mostrara-lhe como colocar as pedras de volta, a 
fim de manter o interior
seco. Havia marcos de pedra semelhantes, dispostos por rotas muito 
utilizadas, que continham materiais de emergncia para se fazer fogo e 
geralmente um manto para
o frio. Outros marcos guardavam alimentos secos. Ocasionalmente, ambas as 
coisas, no entanto marcos com alimentos costuma vam ser destrudos, e 
ursos, carcajus
ou texugos, os vj mais freqentes, destruam e espalhavam tudo.
Ayla deixou-os com os cavalos. Ao se aproximar do marco, deu uma olhadela 
para trs, sem chamar ateno. Folara e Lanidar deixavam que os grandes 
herb voros comessem
de suas mos, enquanto Mardena permanecia recuada, compor tando-se 
nervosamente e parecendo preocupada, e Denoda observava. Ayla retornou, 
e calmamente amarrou o
cobertor no dorso de Huiin. Em seguida, le vou a gua at uma pedra.
- Suba na pedra, Folara, depois passe a perna por cima dela e tente achar 
uma posio confortvel para se sentar. Voc pode se agarrar na crina dela. 
Vou segurar
Huiin, para ela no se mexer.
Folara achou-se um tanto desajeitada, principalmente por se lembrar da 
facili dade com que Ayla montava na gua, mas conseguiu subir, e sentou-se 
sorridente.
- Estou sentada sobre um cavalo! - exultou, sentindo-se bastante orgu lhosa 
de si mesma.
Ayla percebeu que Lanidar a observava com um olhar pido. Depois, pensou 
ela. No vamos assustar demais a sua me, ainda.
- Est pronta? - perguntou.
Sim, acho que sim - respondeu Folara.
Apenas relaxe, e poder segurar na crina dela, se quiser, mas no ser pre
cisO - orientou Ayla, e saiu andando, levando a gua pelo cabresto, embora 
sou
besse que Huiin a seguiria mesmo sem ele.
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1
1
fazer iSSO.
A princpio, Folara foi segurando a crina e sentada toda tesa, quicando a 
cada passo dado pelo animal. Aps um tempo, porm, acomodou-se, passou a 
anteci par a marcha 
e ficou mais  vontade. Em seguida, largou a crina.
- Quer tentar sozinha? Vou lhe dar o cabresto.
- Acha que eu consigo?
- Pode tentar, e se quiser sair, me, avise. Quando quiser que Huiin v mais 
depressa, curve o corpo para a frente explicou Ayla -, abraando o pescoo 
dela, se desejar. 
Quando quiser que v mais devagar, sente-se ereta.
- Est bem. Vou tentar - disse Folara.
Mardena pareceu totalmente petrific quando Ayla colocou o cabresto na 
mo de Folara.
- V em frente, Huiin - ordenou yla, fazendo um sinal para ela ir
devagar.
A gua comeou a caminhar pelo prado. Ela j havia levado muita gente
para passear, e sabia como ir com calma, principalmente na primeira vez. 
Quando Folarai baixou
um pouquinho para a frente, Huijn aumentou o passo, mas no muito. Ela 
baixou um pouco mais, e Huiin mudc a marcha para um trote. A gua era.. 
uma montaria com um 
cavalgar suave, mas o trote sacudia Folara um pouco mais do que ela 
esperava. Rapidamente, colocou o corpo para trs, e Huiin diminui o passo. 
Aps se afastarem 
um pouco, Ayla assobiou para cham-la de volta. FoI tomou coragem e voltou 
a curvar o corpo para a frente, e dessa vez manteve o trote at retornarem 
e pararem. 
Ayla conduziu a gua at a pedra e segurou-a en quanto Folara descia.
- Foi maravilhoso! - exclamou Folara, o rosto corado de entusiasma Lanidar 
sorria para ela simplesmente porque parecia to contente.
- Viu, mame? - comentou o rapaz. - A gente pode andar nas c desses 
cavalos.
- Ayla, por que no faz para Mardena e Denoda uma demonstrao do qu4 
eles so capazes de fazer realmente? - sugeriu Folara.
Ela concordou e em seguida, rpida e facilmente, saltou para cima da gua, 
conduziu-a at o meio do prado num trote rpido, com Racer e Lobo em seu 
calcanhares. 
Sinalizou um galope, e a gua correu a toda velocidade atravs ti campo. 
Ayla fez um amplo crculo, depois retornou, diminuindo a velocidade a se 
aproximarem, parou,
jogou a perna por cima do cavalo, e saltou. As duas mlheres e o menino 
tinham os olhos arregalados.
- Bem, agora eu sei por que tem gente que quer passear nas costas de tu 
cavalo - observou Denoda. - Se eu fosse mais jovem, gostaria de 
experimenta
- Como consegue tanto controle sobre esse animal? - quis saber Mardena.
-  alguma espcie de mgica?
- No, de modo algum, Mardena. Com prtica, qualquer um  capaz de
fazer.
- O que fez voc resolver montar num cavalo? Como isso comeou? - indagou 
Denoda.
- Eu matei a me de Huiin, para comer, e s depois descobri que ela estava 
amamentando uma jovem potranca - comeou Ayla. - Quando hienas foram 
atrs da cria, no 
pude deixar que elas a levassem... detesto esses animais imun dos... ento, 
eu as afugentei, e depois percebi que precisava cuidar dela. - Ayla contou 
como tinha 
salvo a cria das hienas e a criara, e, por t-lo feito, elas passa ram a 
conhecer muito bem uma a outra. - Certo dia, eu subi nas costas dela, e 
quando Huiin comeou 
a correr, me segurei. Era tudo o que podia fazer. Depois que, finalmente, ela 
diminuiu a marcha e eu saltei, mal pude acreditar no que tinha feito. Foi 
como voar, 
com o vento batendo no meu rosto. No pude deixar de fazer isso 
novamente, e embora, no incio, no tivesse nenhum controle, aos poucos fui 
aprendendo a conduzi-la. 
Huiin vai aonde eu quero porque ela quer.  minha amiga, e acho que fica 
feliz em deixar que eu cavalgue nela.
- Mesmo assim,  algo incomum de se fazer. Ningum nunca se ops? - 
perguntou Mardena.
- No havia ningum para se opor. Na ocasio, eu vivia sozinha - disse Ayla.
- Eu teria medo de viver sozinha, sem outras pessoas - admitiu Mardena. Ela 
estava muito curiosa e queria fazer mais perguntas, porm, antes que 
tivesse tal chance, 
ouviram o chamado, voltaram-se, e viram Jondalar se aproximando.
Eles esto aqui! - gritou ele. - Dalanar e os Lanzadonii chegaram! Que 
maravilha! - exultou Folara. - Mal posso esperar para v-los.
Ayla sorriu contente.
Tambm estou ansiosa para v-los. - Virou-se para os visitantes. - Te mos 
que voltar ao acampamento. O homem da lareira de Jondalar chegou, e a 
tempo para o nosso 
Matrimonial.
- Claro - concordou Mardena. - Vamos embora agora mesmo.
- Bem, eu no me importaria em saudar Dalanar, antes de irmos embora, 
Mardena - props Denoda. - Eu conheo ele.
- Deve mesmo fazer isso - afirmou Jondalar. - Tenho certeza de que fi ar 
contente em v-la.
- E, antes de ir, Mardena, quero perguntar se permite que Lanidar venha 
'uma olhada nos cavalos para mim, quando eu estiver ocupada - disse Ayla 
Ele no ter que 
fazer nada, s verificar se esto bem, e ir me avisar se notar guina coisa 
errada. Eu gostaria muito. Isso seria um grande alvio para mim,
no  teria que me preocupar com eles.
504
Quando se viraram para olhar, o menino estava acariciando o jovem 
garanho e alimentando-o com pedaos de cenoura brava.
- Como pode ver, eles no vo machuc-lo - frisou Ayla.
- Bem, acho que ele pode - concedeu Mardena.
- Oh, mame, obrigado - disse Lanidar com um largo sorriso. Mardena nunca 
tinha visto em seu rosto uma expresso como aquela, de contentamento 
felicidade.
28
Cad aquele seu filho, Marthona? O tal que dizem se parecer
comi        go... bem, talvez um pouco mais jovem - quis saber o homem
de
longos cabelos louros amarrados em um basto atrs da cabea. L
estendeu ambas as mos e sorriu afetuosamente em cumprimento. Os dois 
se co nheciam demasiadamente para haver muita formalidade.
- Quando ele viu voc chegando, correu para chamar Ayla - informou 
Marthona, pegando as mos dele nas suas e inclinando-se adiante para
esfrega rem as faces. Ele
pode estar velho, pensou ela, mas continua bonito e encantador como 
sempre. - Eles logo estaro aqui, Dalanar, pode ter certeza. Jondalar anc 
esperando por voc
desde
que chegamos.
- E onde est Willamar? Fiquei muito triste, ao saber sobre Thonolan. - 
gostava do rapaz. Quero expressar a minha tristeza a vocs dois - falou.
- Obrigada, Dalanar - disse Marthona. - Willamar est no acampa to 
principal, conversando com um pessoal sobre uma misso de comrcio. A
notccia sobre Thonolan foi
especialmente dura para ele. Sempre acreditou que o filho da  lareira dele 
retornaria. Com toda a franqueza, eu achava que nenhum dos dois
voltaria. Assim que vi Jondalar,
por um momento, pensei que fosse voc. Mal pude acreditar que o meu filho 
tivesse voltado para casa. E que surpresas ele
trouxe! nem de longe poderamos esperar Ayla
e seus animais.
- Sim, eles so um espanto. Sabia que, a caminho daqui, pararam para
nos visitar? - comentou a mulher que estava ao lado de Dalanar.
Marthona virou-se para ela. A parceira de Dalanar era a pessoa mais 
incomum que Marthona, ou qualquer um dos Zelandonii, j tinha visto.  
pequenina, principalmente
em comparao ao parceiro - se ele esticasse o brao ela podia passar por 
baixo sem se abaixar. Seu cabelo longo e liso,
repuxao
para trs formando um coque, era lustroso e negro como a asa de um corvo, 
embora riscas grisalhas clareassem as tmporas. O rosto, porm, era o 
aspecto mais impressionante.
Era redondo com um narizinho arrebitado, altos e largos malares, e olhos 
negros que pareciam olhar de esguelha por causa do entrpio das plpebras. 
Sua pele era
clara, talvez um tom mais escuro do que a do parcei ro, embora, com a 
progresso do vero, ambos os rostos escurecessem pelo sol.
- Sim, eles nos contaram que vocs planejavam vir para a Reunio de Vero
- confirmou Marthona, aps ter saudado a mulher. - Soube que Joplaya tam 
bm vai se acasalar. Vocs chegaram bem a tempo, Jerika. Todas as 
mulheres que vo se acasalar,
juntamente com as suas mes, tm um encontro com a zelandonia esta tarde. 
Vou acompanhar Ayla, j que a sua me no est aqui para ir com ela. Se no 
estiverem muito
cansadas, voc e Joplaya devero ir.
- Creio que conseguiremos ir, Marthona - prometeu Jerika. - Dar tempo 
para instalarmos antes o nosso alojamento?
- No vejo por que no. Todos ajudaro - afirmou Joharran -, se no se 
importarem em se instalar aqui ao nosso lado.
- E no precisam cozinhar. Tivemos convidados para a refeio matinal, e 
sobrou muita comida - acrescentou Proleva.
- Ser um prazer acampar ao lado da Nona Caverna - concordou Dala nar -, 
mas por que se decidiram por este lugar? Normalmente, voc gosta de ficar 
no meio da agitao,
Joharran.
- Quando chegamos, todos os melhores lugares no acampamento princi pal j 
estavam tomados, principalmente para uma Caverna to grande quanto a 
nossa, e no queramos
ficar apertados. Procuramos em volta, descobrimos isto, e eu gostei muito - 
explicou Joharran. - Est vendo aquelas rvores?  apenas o comeo de um 
bosque de bom
tamanho, com muita lenha para fogueira. Esse arroio tambm nasce por l, 
numa fonte de guas claras. Muito depois de a gua do outros ficar turva e 
enlameada, a
nossa ainda estar boa, e ainda h um belo lago. Jondalar e Ayla tambm 
gostam daqui, pois l h espao para os cavalos. Preparamos um lugar para 
eles riacho acima.
Foi para l que Ayla se dirigiu com as suas visitas. Ela mesma as convidou.
Quem so eles? - quis saber Dalanar. No pde evitar de ficar curioso em 
relao a quem Ayla convidaria.
- Voc se lembra daquela mulher da Dcima Nona Caverna, que deu  luz Uni 
menino com um brao deformado? Mardena? A me dela  Denoda - escla 
teceu Marthona.
- Sim, me lembro - disse Dalanar.
- O menino, Lanidar, deve contar agora quase doze anos - comentou ela.
Ainda no sei bem como aconteceu, mas creio que ele foi at l para se
livrar
das pessoas e talvez da zombaria dos outros meninos. Acho que algum lhe 
falou que havia cavalos por l. Todos esto interessados neles,  claro, e o 
menino no
 exceo. De algum modo, Ayla o conheceu e resolveu pedir a ele para ficar 
de olho nos cavalos. Ela est preocupada com o fato de haver muita gente 
aqui, e algum,
sem saber o quanto eles so especiais, resolver ca-los. Seria muito fcil, 
pois eles no fogem.
- Isso  verdade - confirmou Dalanar. -  pena que a gente no consiga 
tornar todos os animais to dceis assim.
- Ayla achava que a me do menino no ia se opor, mas ela parece mui 
protetora dele - continuou Marthona. - Ela nem mesmo o deixa aprender
caar, ou acredita que ele no seja capaz. Por isso, Ayla convidou o menino, a
me e a av para irem ver os cavalos e tentar convenc-las de que no vo 
machuc-lo.
E, com um brao apenas ou no, tambm decidiu que vai ensin-lo a usar o 
novo arremessador de lanas de Jondalar.
- Ela  muito decidida - afirmou Jerika. - Eu percebi isso, mas ela no 
indelicada.
- No, no  mesmo, e ela no tem medo de enfrentar qualquer coisa, nem de 
tomar o partido de outros - admitiu Proleva.
- A vm eles - anunciou Joharran.
Viram um grupo de pessoas e um lobo vindo na direo deles, Jondalar 
frente 
e sua irm logo atrs. Todos caminhavam no passo do mais lento, mas, 
quandc viram Dalanar e os demais, Jondalar adiantou-se. O homem da 
lareira dele foi en sua direo.
Agarraram as mos e depois se abraaram. O mais velho envolvL com o 
brao os ombros do mais jovem, ao caminharem de volta, lado a lado.
A semelhana entre os dois era impressionante; poderiam muito bem ser o 
mesmo homem em duas fases diferentes da vida, O mais velho era um pouco
grosso na cintura, tinha o cabelo mais ralo em cima da cabea, mas o rosto 
era
o mesmo, embora a testa do mais novo no fosse to vincada, e a papada do 
ma velho
estivesse amolecendo. Tinham a mesma altura, caminhavam com a mesma 
passada e movimentavam-se do mesmo jeito; at mesmo os olhos de ambos t 
nham o mesmo tom de
um intenso azul glacial.
- No h dvida de qual homem foi escolhido o esprito, quando a Me criou - 
segredou Mardena para a me, gesticulando com a cabea para Jondala 
quando os visitantes 
se aproximaram do acampamento. Lanidar viu Lanoga e
falar com ela.
- Quando jovem, Dalanar era igualzinho a ele, e no mudou muito - comentou
Denoda. - Ele ainda  um homem muito bonito.
cmcheg Era bvio que todos se conheciam, mas ela no pde deixar de 
exami" algumas das pessoas. A mulher pequenina de cabelos negros, com o 
rosto estranho, parecia 
estar com o homem alto e mais velho que se parecia com Jondalar, vez como 
sua parceira.
- Como voc o conheceu, mame? - quis saber Mardena.
- Ele foi o homem dos meus Primeiros Ritos - confessou Denoda. - Depois 
disso, implorei  Me que me abenoasse com o esprito de seu filho.
- Mame! Voc sabe que  cedo demais para uma mulher ter um beb - 
repreendeu-a Mardena.
- No me importava - retrucou Denoda. - Eu sabia que, s vezes, uma jovem 
ficava grvida logo aps os Primeiros Ritos, quando ela j era uma mulher 
completa e capaz 
de receber o esprito de um homem. Eu esperava que, se estives se 
carregando um filho do esprito dele, isso o fizesse prestar mais ateno em 
mim.
- Mame, voc sabe que um homem no tem permisso de chegar perto de 
uma mulher, que ele iniciou, pelo menos durante um ano depois dos Primeiros 
Ritos. - Mardena 
estava quase em estado de choque, por causa da confisso feita pela me. 
Ela nunca falara desse modo, antes.
- Eu sei, e ele nunca tentou, embora no me evitasse e sempre fosse gentil 
quando nos vamos, mas eu queria mais do que isso. Por muito tempo, no con 
segui pensar em ningum alm dele - revelou Denoda. - Ento, conheci o 
homem da sua lareira. A maior mgoa da minha vida foi ele ter morrido to 
jo vem. Eu gostaria de ter tido 
mais filhos, mas a Me resolveu no me dar mais nenhum, e talvez isso tenha 
sido melhor. Cuidar sozinha de voc j foi difcil o bastante. Eu nem sequer 
tinha uma 
me para me auxiliar, apesar de algumas mulheres da Caverna terem me 
ajudado quando voc era nova.
- Por que no procurou outro homem para se acasalar? - indagou Mardena.
- Por que no procurou outro para voc? - contraps Denoda.
- Voc sabe por qu. Eu tinha Lanidar. Quem se interessaria por mim?
- No ponha a culpa em Lanidar.  isso o que voc sempre diz, mas nunca 
tentou, Mardena. No quer ser magoada novamente. Ainda no  tarde 
demais
frisou a mulher mais velha.
Elas no notaram o homem se aproximar.
Quando Marthona me falou que a Nona Caverna teve visitas esta manh, 
achei que um nome me era familiar. Como vai, Denoda? - disse Dalanar, segu 
rando as mos dela 
nas suas e baixando-se para esfregar as faces, como se ela fosse Uz amiga 
ntima.
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sorriu para o homem alto e bonito, e percebeu que ela parecia manter uma 
postu ra diferente. Havia nela uma caracterstica feminina, sensual. De 
repente, ela pas
sou a ver a me sob uma nova perspectiva. S porque ela era av, no queria 
dizer que fosse to velha assim. Provavelmente, haveria homens que a 
achariam atraente.
- Esta  minha filha, Mardena da Dcima Nona Caverna dos Zelandonij
- apresentou Denoda -, e o meu neto est por a, em algum lugar.
Dalanar ofereceu as mos para a mulher mais jovem. Ela as segurou e ergueu 
a vista para ele.
- Saudaes, Mardena da Dcima Nona Caverna dos Zelandonii, filha
Denoda da Dcima Nona Caverna.  um prazer conhec-la. Eu sou Dalanar, 
Lfde da Primeira Caverna dos Lanzadonii. Em nome da Grande Me Terra, 
Doni, sai ba, por favor, 
que  bem-vinda a visitar o nosso acampamento a qualquer m mento. E a 
nossa Caverna tambm.
Mardena ficou aturdida com a cordialidade da saudao. Embora ele fosse v 
lho o bastante para ser o homem da sua lareira, ela sentiu-se atrada por ele. 
Pensos inclusive, 
ter ouvido uma certa nfase na palavra "prazer", o que a fez pensar n Dom 
do Prazer da Me. Jamais se sentira to impressionada assim por um homem
Dalanar olhou em volta e avistou uma jovem alta.
- Joplaya - chamou, e depois se dirigiu a Denoda: - Eu gostaria de i 
apresentar a filha da minha lareira - disse ele.
Mardena ficou admirada com a jovem mulher que se aproximou. Ela no
tinha uma aparncia totalmente estrangeira, como a mulher pequenina, 
apesar de haver un semelhana, o que a tornava quase to incomum. Seu 
cabelo era quase to preto,
mas  com realces brilhantes. Os malares eram altos, mas o rosto no era 
redondo nem ach tado, como o da outra mulher. O nariz parecia como do 
homem, porm mais
defi
do, e as sobrancelhas negras eram acetinadas e bem arqueadas.
contornavam olhos bem diferentes dos da me, apesar de semelhantes na 
forma,
mas  no na cor. Os olhos de Joplaya tinham uma ntida cor, como os de azul 
intenso
do homem
ao seu lado, mas os dela eram de um brilhante tom de verde.
Mardena no havia comparecido  ltima Reunio de Vero da qual a
Caverna  de Dalanar participou. O homem de sua lareira tinha partido 
recentement ela no queria enfrentar
as pessoas. Ouvira falar de Joplaya, mas no a conheccera. Agora que fora 
apresentada a ela, sentia uma forte necessidade de encar-la e lejava para 
controlar o 
impulso. 
Joplaya era uma mulher exoticamente bela. 
Aps Dalanar ter apresentado Joplaya e haver a troca de cumprimentos e 
amenidades, os dois foram embora para falar com outras pessoas. Mardena i 
sentia a calorosa 
presena de Dalanar e comeou a entender por que a me ficara
impressionada.
talvez ela tivesse ficado to extasiada. A filha dele, porm, apesar de 
adorvel, trans mitia um ar de melancolia, um desalento que contradizia a 
alegria de um acasalamento
iminente. Mardena no conseguia entender por que algum que devia estar 
feliz parecia to triste.
- Precisamos ir, Mardena - avisou Denoda. - Se quisermos ser convida das 
novamente, no devemos ultrapassar os limites de nossa boa acolhida. Os
Lazandonii so ntimos da
Nona Caverna, e j faz muitos anos desde que Dalanar e sua Caverna 
participaram de uma Reunio de Vero. Eles precisam renovar os seus laos. 
Vamos procurar Lanidar
e agradecer a Ayla por nos ter convidado.
Os acampamentos da Nona Caverna dos Zelandonii e da Primeira Caverna 
dos Lanzadonii formavam, ostensivamente, dois acampamentos de duas 
Caver nas de dois povos diferentes,
mas, na verdade, tratava-se de um nico e enorme acampamento de famlias 
e amigos muito ligados.
Ao atravessarem o acampamento principal, em direo ao alojamento da 
zelandonia, as quatro mulheres eram algo que chamava ateno. As pessoas 
nem mesmo evitavam 
fit-las. Marthona era sempre notada aonde quer que fosse. Ela era a ex-
lder de uma importante Caverna, ainda poderosa, sem falar que se trata va 
de uma atraente 
mulher mais velha. Ainda que alguns j tivessem sido apresen tados ou 
tivessem visto Jerika, esta continuava a ser uma mulher estranha de se ver, 
to diferente de 
qualquer uma que tinham visto antes, e era por isso que as pessoas no 
conseguiam afastar os olhos dela. O fato de ser acasalada com Dalanar e 
ter criado com ele 
no apenas uma nova Caverna, mas um novo povo, tornava- a ainda mais 
excepcional.
Joplaya, a filha de Jerika, a melanclica beldade de cabelos negros, que, se 
gundo os rumores, planejava se acasalar com um homem de espritos 
misturados, era uma 
mulher misteriosa e envolvida em especulaes. A linda loura trazida por 
Jondalar, que andava com dois cavalos e um lobo dceis e diziam ser uma 
compe tente curadora, 
devia ser uma espcie de zelandoni estrangeira. Ela falava a lngua deles 
com clareza, se bem que no to perfeitamente, e recentemente descobrira 
Uma linda caverna 
bem diante do nariz da Dcima Nona Caverna. Juntas, as quatro atraam 
mais ateno do que o normal, mas Ayla estava aprendendo a ignorar isso e 
estava contente com 
a companhia.
Muita gente j estava l, quando elas chegaram ao alojamento da zelandonia. 
Foram observadas atentamente na entrada por vrios da zelandonia 
masculina, o
que deixou Ayla curiosa. Marthona deu a explicao, como se soubesse o que 
ela Stava pensando.
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- No  permitida a entrada de homens nesta reunio, a no ser que sejam 
da zelandonia, mas todos os anos aparecem alguns jovens, em geral dos "alon 
jamentos", que
tentam se aproximar, para ouvir - explicou. - Alguns at mes mo tentam 
penetrar vestidos de mulher. Os homens da zelandonia agem como vigias, 
para mant-los  distncia.
- Ayla notou vrios outros homens da zelandonia parados em volta da 
enorme estrutura, Madroman entre eles.
- O que so "alonjamentos"?
- So os alojamentos que ficam longe, os alojamentos de homens... as pes 
soas sempre pronunciam "alonjamentos". Trata-se de abrigos de vero, 
construdos nos arredores
do acampamento da Reunio de Vero, por homens, geralmente jovens, que 
j passaram da necessidade de ter uma donii-mulher, mas ainda n se 
acasalaram - elucidou Marthona.
- Jovens no gostam de ficar com a su Caverna, preferem ficar com amigos 
da mesma idade... exceto na hora de
comer
- Sorriu. - Os amigos no refreiam o comportamento deles do modo como 
fazem as suas mes e os parceiros delas. Homens no-acasalados, 
principalment dessa idade,
so totalmente proibidos de chegar perto de uma jovem que se pre para 
para os Primeiros Ritos, mas eles sempre tentam, e  por isso que a zelandon 
fica de olho neles,
quando esto no acampamento.
- Em seus prprios alojamentos, desde que os construam bem longe, podem 
fazer arruaas e barulho, contanto que no perturbem os outros. Podem
fazer reunies e convidar
outros amigos, e jovens mulheres,  claro. Eles se tornam muito bons em 
atormentar suas mes e as amigas delas atrs de comida extra, sempre 
esto tentando conseguir
barma, vinho, ou seja l o que for. Creio que j se tornou uma competio 
ver qual alojamento consegue atrair as jovens
mais bonitas para visit-lo.
- Tambm h "alonjamentos" de homens mais velhos, geralmente aqueles que 
no tm parceiras por um ou outro motivo, de homens que preferem outn 
homens, ou de homens
que esto entre acasalamentos, ou gostariam de estar, desejam ficar longe 
de suas Cavernas ou famlias. Durante as Reunies de
Vero Laramar passa mais tempo em um
"alonjamento" do que em seu prprio alojamento.  onde comercializa a 
barma, embora eu no saiba o que ele faz com produto de seu comrcio. 
Certamente, no leva
nada
para a sua famlia. Antes do Matrimonial, homens que esto para se acasalar 
passam um ou mais dias iii "alonjamento", com a zelandonia. Creio que 
Jondalar dever
ir em breve.
Logo que as quatro mulheres entraram no alojamento da zelandonia, com 
apenas a luz de um lareira central e algumas lamparinas, o interior pareceu
esticoo. Mas, depois
que os seus olhos se adaptaram, Marthona olhou em volta e depois conduziu 
as outras na direo de duas mulheres que estavam sentadas
uma esteira sobre o cho, perto da parede do lado direito da ampla rea 
central. As mulheres sorriram, ao v-las se aproximar, e se mexeram para 
abrir espao.
- Acho que est para comear - alertou Marthona, ao se sentarem na estei 
ra. - Poderemos fazer depois as apresentaes formais - falou para as 
mulheres que vieram
com ela. - Estas so Velima, me de Proleva, e Levela, a irm dela. So do 
Acampamento de Vero, a Poro Oeste da Vigsima Nona Caverna. - Em 
seguida dirigiu-se
s duas. - Estas so Jerika, a parceira de Dalanar, e Joplaya, a filha dela. 
Os Lanzadonii chegaram esta manh. E esta  Ayla da Nona Caverna, 
outrora Ayla dos Mamuti,
a mulher com quem Jondalar planeja se acasalar.
As mulheres sorriram umas para as outras, mas antes que pudessem trocar 
algu mas palavras, perceberam o silncio baixar sobre a reunio. A Que Era 
A Primeira Entre
Aqueles Que Serviam  Grande Me Terra e vrias outras da zelandonia en 
contravam-se de p diante do grupo. As conversas pararam, assim que as 
mulheres notaram a
presena delas. Quando o silncio se tornou total, a donier comeou.
- Vou tratar de vrios assuntos srios, e quero que escutem com ateno. 
Mu lheres, vocs so as Abenoadas de Doni, aquelas que Ela criou com a 
capacidade e o privilgio
de parir uma nova vida. Para aquelas de vocs que vo se acasalar em breve, 
h algumas coisas importantes que precisam saber. - Parou de falar e fez 
questo de olhar
cada uma das pessoas presentes. Ao avistar as mulheres com Marthona, 
parou por um momento. Havia duas ali que ela no esperava. Marthona e a 
Zelandoni as sentiram
uma para a outra, e Aquela Que Era A Primeira continuou.
- Nesta reunio, conversaremos sobre coisas de mulher, como devem tratar 
os homens que sero os seus parceiros e o que podem esperar deles, e em 
relao a ter filhos.
Tambm conversaremos sobre como no ter filhos e o que fazer quan do se 
iniciar um para o qual vocs ainda no estejam preparadas - explanou a 
grande donier.
- Algumas de vocs talvez j tenham sido Abenoadas com os primeiros 
sinais de vida.  uma grande honra, essa de vocs, mas a honra tambm 
acarreta uma grande responsabilidade.
Parte do que vou falar, vocs j devem ter ouvido antes, principalmente em 
seus Ritos de Primeiros Prazeres. Escutem com aten o, mesmo se acharem 
que j sabem
o que vou dizer.
- Primeiramente, nenhuma moa deve se acasalar antes de se tornar mu lher, 
antes de seu sangramento ter comeado e ter passado pelos seus Primeiros 
Ritos. Observem 
a fase da lua no dia em que comear a sair o sangue. Para a maioria das 
mulheres, na vez seguinte em que a lua estiver na mesma fase, o sangue 
escor rer novamente 
mas talvez nem sempre permanea assim. Geralmente, se vrias mulheres 
viverem por um tempo na mesma habitao, as pocas de lua delas
podem mudar, at o sangue de
todas escorrer na mesma ocasio.
512
Vrias jovens olharam em volta, para amigas e mes, principalmente as que 
desconheciam esse fenmeno. Nunca haviam falado dele para Ayla, e ela 
tentou recordar se 
j o havia notado.
- A primeira indicao de que vocs foram Abenoadas pela Me, que E... 
escolheu um esprito para se misturar com os seus e dar incio a uma nova 
vida, ser quando 
o sangue no escoar nas suas fases da lua. Se ele no escoar na lua seguinte,, 
podem concluir que foram Abenoadas, mas  preciso que a lua falhe por 
pelo menos 
trs vezes, e tambm devero ter outras indicaes antes de uma certeza 
plausvel d que uma nova vida se iniciou. Algum tem perguntas a fazer sobre 
isso?
No houve perguntas. Exceto pela afirmao de que mulheres que vivem jun 
tas tendem a sangrar na mesma poca, tudo se tratava de uma repetio.
- Eu sei que a maioria de vocs tem partilhado o Dom do Prazer da me com 
o seu Prometido, e devem estar gostando Quem ainda no fez isso deva 
conversar com o seu
Zelandoni. Sei que pode ser difcil admitir tal coisa, ma sempre h meios de 
ajuda, e a zelandonia sempre guardar os seus segredos,
tocdos os seus segredos. Com exceo
dos jovens em plena maturidade,  bom lembra que poucos homens 
conseguem copular com uma mulher mais do que uma
e.. duas vezes por dia, e isso diminui  medida que
envelhecem.
- Vocs precisam estar cientes de uma coisa. Partilhar Prazeres com o pa 
ceiro no  uma exigncia, se a mulher no quiser e o parceiro no fizer mas 
a maioria dos
homens faz. A maioria dos homens no fica com uma ia que no partilha com 
ele o Dom Dela. Embora vocs estejam preparadas pa atar o n e talvez no 
pensem nisso
agora, o n tambm pode ser rompido por muitos motivos. Tenho certeza de 
que todas vocs conhecem algum que j rofl peu o n com um parceiro.
Houve um arrastar de ps, trocas de posies e olhadelas em volta. Quase
todas conheciam algum que se acasalara com algum com o qual no estava
mais acasalado.
- Dizem que as mulheres podem fazer uso do Dom da Me para segurar 
parceiros, mantendo-os felizes e satisfeitos. H quem afirme que, por esse
motivo, o Dom foi dado
aos filhos Dela. Pode ser um motivo, porm tenho certeza que no  o nico. 
Mas  verdade que, se vocs satisfizerem o desejo deles,
o  parceiro no ficar to tentado
a procurar Prazeres com outras mulheres. Ele ficar  feliz em guardar 
esses momentos fugazes, de interesse por outras, para as
Cerimnias em homenagem  Me, quando isso
 aceito, e agradar a Ela na hora em que os Prazeres so compartilhados.
- Mas lembrem-se de que, embora possa ser um agradvel divertimmento 
qualquer uma pode aceitar, ou rejeitar, uma oferta para compartilhar o
dom da Me. Partilhar Prazeres com mais algum tambm no  uma 
exigncia. Se voc e o seu parceiro so felizes e compartilham com alegria, 
apenas um com o outro, 
o Dom
Dela, a Me se contentar. Tambm no  exigido que se espere por uma 
Cerimnia da Me. Nada  exigido em relao aos Prazeres. Isso  um Dom 
da Me, e todos os
filhos Dela so livres para o compartilhar com quem quiserem e quando 
desejarem. Nem vocs, nem os seus parceiros, devem se preocupar com as 
breves diverses uns
dos outros. O cime  muito pior. O cime pode ter ter rveis conseqncias. 
O cime pode causar violncia, e a violncia pode levar  morte. Se algum 
for morto,
isso pode levar  vingana por parte dos entes que ridos da pessoa que 
morreu, e mais vingana em retribuio, at nada mais restar a no ser a 
luta. Qualquer coisa
que ameace o bem-estar dos filhos da Me, que foram escolhidos para 
conhec-La,  inaceitvel.
- Os Zelandonii so um povo forte porque trabalham juntos e ajudam uns 
aos outros. A Grande Me Terra prov tudo de que necessitamos para viver. 
Tudo o que  caado
ou colhido nos  dado por Doni, e, por sua vez, deve ser repartido por todos. 
Por aceitar o que Ela oferece de trabalho duro e at perigoso, aqueles que 
mais fornecem
obtm um maior respeito.  por isso que os melhores prove dores e aqueles 
dispostos a trabalhar pelos filhos Dela tm um maior status.  por isso que 
os lderes
so to respeitados. Eles, de bom grado, ajudam o seu povo. Se no ajudam, 
as pessoas deixam de recorrer a eles e outro  reconhecido como l der. - 
Ela no acrescentou
que esse tambm era o motivo pelo qual a zelandonia tinha um status to 
alto.
A Zelandoni era uma oradora competente, e Ayla escutava atenta e em 
bevecida. Ela queria aprender o mximo possvel sobre o povo do homem com 
quem se acasalaria
em breve, que agora era o seu povo, mas, pensando a respei to, concluiu que 
o Cl no era to diferente. Tambm dividiam tudo, e nin gum passava fome, 
nem mesmo
aquela mulher de quem lhe falaram, que morrera no terremoto. Ela viera de 
outro cl, no teve filhos e, depois que o seu parceiro morreu, teve que ser 
assumida como
uma segunda mulher, o que sem pre era considerado um fardo. Mas, 
conquanto tivesse o status mais baixo do que qualquer um do cl de Brun, ela 
nunca passou fome e
sempre teve agasalhos suficientes.
O cl  sabia todas essas coisas, apenas no as expressava em palavras. As 
pessoas
do Cl no tinham tantas palavras quanto os Outros. Parceiros tambm eram
compartilhados.
 Eles sabiam das necessidades de um homem. Nenhuma mulher
jamais  recusava um homem que lhe fizesse o sinal. Ayla nao sabia de
ningum  que ao menos tivesse pensado em recusar.., exceto ela. Agora, 
porm, sabia
Brun no queria Prazeres. Mesmo na ocasio, ela o percebeu, ainda que no
514
fosse capaz de expressar. Brun no lhe fez o sinal porque queria 
compartilhar o Dom ou aliviar as suas necessidades, ele o fez somente 
porque sabia que ela o odiava.
- Lembrem-se - dizia a donier -,  o seu parceiro que deve ajud-la e prover 
para voc e os seus filhos, principalmente quando estiver pesada com uma 
criana, ou
tiver acabado de dar  luz e estiver amamentando. Se voc gosta dele, se 
partilhou Prazeres com freqncia e o manteve razoavelmente contente, a 
mai oria dos homens
se sentir mais do que feliz em prover para suas parceiras e os:
filhos dela. Talvez algumas de vocs no entendam por que preciso reforar 
essa questo. Perguntem s suas mes. Quando estiverem ocupadas e 
cansadas,
por causa de
muitos filhos, pode chegar um momento em que no ser to fcil 
compartilhar o Dom. E haver ocasies em que ele no dever ser 
compartilhado mas falarei depois
sobre isso.
Doni sente-se mais agradecida e sorri com favores para as crianas que 
carregam alguma semelhana com o seu parceiro. Em geral, os parceiros 
tambm se sentem mais
chegados a essas crianas. Se quiserem que os seus filhos paream com o 
parceiro, devem passar mais tempo juntos, a fim de que o esprito possa ser 
escolhido com
mais facilidade. Os modos dos espritos so voluntarisos. No se pode 
determinar quando um deles vai permitir ser escolhido, nen quando a Me 
vai decidir o momento
de mistur-los. Mas, se vocs gostarem um do outro e se contentarem um 
com o outro, o seu parceiro vai querer ficar
com voc, e o esprito dele ficar feliz em
se juntar com o seu. Esto entendendo  agora? Se tiverem perguntas, este  
o momento de faz-las - anunciou a
primeira, olhando em volta,  espera.
- E se eu ficar doente, ou coisa assim, e no conseguir sentir nenhum
Prazer  no Dom? - perguntou uma mulher. As outras se viraram para ver 
quem
havia perguntado.
- O seu parceiro precisa ser compreensivo, em relao a isso, e, em caso, a 
escolha  sempre sua. H alguns que esto acasalados e raramente
compartilham o Dom
um com o outro. Se voc for amvel e compreensiva com o Seu parceiro, ele 
naturalmente ser assim com voc. Os homens tambm so filhos
da Me. Adoecem, e geralmente
so as parceiras que cuidam deles. Muitos parceiros cuidaro de vocs, 
quando tambm ficarem doentes.
A jovem assentiu e sorriu um tanto hesitante.
- O que estou dizendo  que os casais precisam ter considerao e ser 
amveis um com o outro. O Dom do Prazer pode levar a felicidade para ambos,
ajudar  o parceiro
a se sentir feliz e contente, e, desse modo, a unio ir durar. Mais alguma 
pergunta? - a Primeira esperou para ver se mais algum tinha pergunta e 
ento prosseguiu.
- Acasalar no entanto,  mais do que duas pessoas decidirem viver juntas. 
Isso envolve os parentes, a Caverna, e tambm o mundo dos espritos.  por 
isso que as
mes e os seus parceiros refletem cuidadosamente antes de permitir que os 
seus filhos se acasalem. Com quem voc vai morar? Voc ou o seu parceiro 
sero um acrscimo
valiOSo para a Caverna em que vo viver? Os sentimentos de um por outro 
tambm
so importantes. Se vocs comeam sem se gostar, a unio pode no durar. 
Se a unio
no durar, a responsabilidade pelos filhos geralmente recai sobre a famlia e 
a Caverna da me, do mesmo modo se acontecer de ambos os parceiros 
morrerem.
Ayla estava fascinada com a preleo. Quase fez uma pergunta sobre a 
mistu ra dos espritos dar incio  vida. Ela estava mais do que nunca
convencida de que era
necessrio o prprio Dom do Prazer para a vida comear, mas resolveu no
mencionar isso ali.
- Bem - continuou a Zelandoni -, embora muitas de vocs estejam an siosas
pelo primeiro
beb, pode haver uma ocasio em que uma vida comeou, mas no deveria 
ter
comeado. Enquanto no receberem do seu Zelandoni o eldom de sua 
criana, ela no ter um esprito prprio, foram apenas os espritos 
combinados que deram incio
a ela. Por essa ocasio, a Grande Me Terra vai aceitar a criana, separar os 
espritos e devolv-los. Mas  melhor parar a continuao da vida, antes que 
esteja
pronta para nascer, nos trs primeiros meses da gravidez.
- Por que algum pode querer parar uma nova vida que comeou? - inda gou 
uma jovem. - Todos os bebs no devem ser bem-vindos?
- A maioria dos bebs  bem-vinda - afirmou a Zelandoni -, mas pode haver 
muitos motivos para uma mulher no querer ter outro. Embora no acon tea 
com frequncia,
ela pode engravidar enquanto ainda est amamentando, e dar  luz outro 
beb j tendo um ainda muito novo. Muitas mes no conseguem cuidar 
adequadamente de um segundo
beb to cedo assim. O que j est aqui e tem nome, principalmente se for 
saudvel, tem preferncia. Muitas crianas noVas morrem por causa disso, 
principalmente
no primeiro ano.  insensato arriscar a vida de uma criana, que  saudvel e 
est se desenvolvendo, forando-a a desmamar to cedo. Aps a 
sobrevivncia durante
o primeiro ano, o desmame  a fase seguinte mais difcil para um beb. Se 
for desmamado cedo demais, em
menos de trs anos, isso pode enfraquecer a criana e
a pessoa em que ela vai se trans formar.  melhor ter uma criana saudvel, 
que vai crescer e se tornar um adulto forte, do que duas ou trs fracas, que 
podem no
viver muito.
Ah... eu no tinha pensado nisso - disse a jovem.
Ou, como outro exemplo, talvez a mulher tenha dado  luz crianas seria 
mente deformadas, que morreram. Ela deve continuar uma gravidez at o 
fim, e a tada Vez passar
por essa mesma dor? sem falar no fato de enfraquecer cada vez mais?
518
- Mas se ela realmente desejar um beb, como todo mundo? - quis saber 
uma jovem com lgrimas nos olhos.
- Nem todas as mulheres tm filhos - alegou a Zelandoni. - Algumas optam 
por no t-los. Com outras, a vida nunca comea. Algumas no conse guem 
levar uma gravidez
at o fim, ou tm filhos natimortos, ou tm crianas to deformadas, que 
no sobrevivem, ou no deveriam sobreviver.
- Mas por qu? - indagou a moa lacrimosa.
- Ningum sabe por qu. Talvez algum que tenha algo contra ela lhe rogou 
uma praga. Talvez um esprito mau tenha encontrado um jeito de afetar o 
beb que ainda
no nasceu. Isso acontece at mesmo com os animais. Todos ns j vimos 
cavalos ou veados deformados. Dizem que animais brancos so o resul tado 
de um esprito mau
que foi frustrado, e  por isso que eles do sorte. tambm, s vezes, nascem 
brancas, com olhos cor-de-rosa. Os animais, sem dvi da, tm natimortos e 
crias que
no sobrevivem, embora eu desconfie que carnvo ros cuidem deles to 
rapidamente, que nem chegamos a v-los.  assim que so ar coisas - 
justificou a Zelandoni.
A jovem estava em prantos, e Ayla perguntou-se por que a donier
parecceu no demonstrar emoo na resposta.
- A irm dela tem tido dificuldades em ter um beb, e j engravidou
duas ou trs vezes - comentou Velima a meia-voz. - Creio que tem medo de 
qui acontea a mesma
coisa com ela.
-  sensato por parte da Zelandoni no alimentar falsas esperanas. s v 
zes, isso  uma tendncia familiar - cochichou Marthona, por sua vez. - E, 
ela tiver um
filho, ficar muito feliz.
Ayla observou a moa, e ficou to comovida, que no resistiu em falar
- Em nossa viagem para c... - comeou. Todas se voltaram para ouvir 
surpresas, a recm-chegada falar, e muitas notaram a diferena em seu 
modo
de expressar. - . . .Jondalar
e eu paramos em uma Caverna Losadunai. Havia l uma mulher que nunca fora 
capaz de ter filhos. Uma mulher de uma Caverna
prxima tinha morrido e deixado o parceiro com
trs crianas pequenas. A mulher que  no podia ter filhos foi morar com 
eles, para ver se conseguiam conviver em
armonia. Caso conseguissem, ela adotaria as crianas e
aceitaria o homem parceiro.
Seguiu-se um momento de silncio, e logo depois vrias conversas para
- Esse  um bom exemplo, Ayla - aquiesceu a Zelandoni. -  verdade. 
mulheres podem adotar crianas. Essa mulher sem filhos tinha um parceiro?
- No, no creio - respondeu Ayla.
- Mesmo se tivesse, ela poderia lev-lo junto, se os homens se
dispusessem
a aceitar um ao outro como co-parceiros. Seria bastante proveitoso, um 
homem a mais, para ajudar a sustentar as crianas. Ayla levantou uma 
questo importante. Mulheres
que no podem procriar nem sempre precisam ficar sem filhos - fri sou a 
Zelandoni, e depois continuou.
- H outros motivos para uma mulher resolver interromper uma gravidez. 
Uma me j pode ter filhos demais, tornando-se difcil para ela cuidar das 
crian as, de si
mesma e do parceiro, e para sua Caverna prover para todos eles. Em geral 
mulheres nessa situao no querem mesmo mais filhos, e desejam que a 
Me deixe de ser to
generosa com elas.
- Conheo uma mulher que continuou tendo filhos - comentou uma outra 
jovem. Depois que Ayla falou, as demais no ficaram to hesitantes em se 
expres sar. - Ela deu
dois para a irm, e um para uma prima adotar.
- Eu sei a quem se refere. Ela parece ser uma mulher particularmente forte 
e saudvel, que gosta de engravidar e d  luz sem problemas.  uma 
felizarda. E prestou
um grande servio  irm, que no consegue ter filhos, por causa de aci 
dente, creio eu, e  prima, que queria ter outro sem ter que passar por uma 
gravi dez - disse
a grande mulher.
- Mas nem todas as mulheres so to capacitadas, ou tm tanta sorte. Algu 
mas tm um ou dois partos to difceis, que outra criana poderia mat-la e 
dei xar rfos
os filhos sobreviventes. Cada pessoa  diferente. Felizmente, a maioria das 
mulheres  capaz de ter filhos, mas mesmo essas talvez no queiram ou no 
devam levar
a termo cada gravidez.
- H vrias coisas possveis de serem feitas para se interromper uma gravi 
dez. Algumas delas podem ser perigosas. Um ch forte, feito com uma 
planta inteira de
tanaceto, com raiz e tudo,  capaz de trazer de volta o sangramento, mas 
pode ser fatal. Um liso e escorregadio graveto de olmo, enfiado bem fundo
na abertura por
onde nasce o beb, pode ser bastante eficaz, mas  sempre bom consultar o
seu donier, que sabe o quanto o ch deve ser forte e o modo de inserir o
graveto. H outras
medidas. Suas mes ou Zelandonis discutiro com vocs, em detalhes, se e
quando quiserem saber mais.
- O mesmo  verdade para um parto. H muitos remdios capazes de
apress lo, deter hemorragias e aliviar a dor. Um parto quase sempre  
doloroso - lem brou a Primeira.
- A Prpria Grande Me suportou a dor, mas a maioria das mulheres 
enfrenta poucos problemas, e a dor  logo esquecida. Todo mundo su Porta 
alguma dor na vida. Faz
parte do viver, no h como escapar. O melhor a fazer  aceit-la.
Ayla estava interessada nos remdios sobre os quais a Zelandoni falou, 
apesar e Os Citados serem relativamente simples e bem conhecidos. Quase 
todas as mu

lheres com quem conversou a respeito tinham aprendido algum mtodo de 
inter romper uma gravidez, embora alguns lhe tenham parecido mais 
perigosos do que outros.
Os homens, geralmente, no gostavam da idia, e Iza e as outras
curandeiras do Cl mantinham isso em segredo. Caso contrrio, eles as 
teriam proibido.
A donier no havia falado sobre como evitar que uma vida comece, e  queria 
muito conversar com ela a respeito disso e, talvez, comparar
informaes. Ayla fora parteira 
em vrios nascimentos. De repente, ocorreu-lhe que, em breve ela mesma 
daria  luz novamente. Sim, a Zelandoni tinha razo. A dor fazia
parte da vida. Ela havia suportado
uma dor to forte, ao dar  luz a Durc, que quase morreu, mas, assim como o 
menino reluzente da Me, valera a pena.
- H mais coisas na vida do que a dor fsica - dizia a Zelandoni. e voltou a 
prestar ateno na mulher. - H dores piores do que a fsica, mas
tambm precisam aceit-la.
Como mulher, vocs tm uma grande responsabilidade, um dever, que s 
vezes pode ser difcil, mas precisam lev-lo em conta algum
dia.
H ocasies em que a vida que carregam  muito resistente. E nada  capaz
deevitar que a gravidez prossiga, ainda que tenham decidido que a vida no
devia ter comeado.
 sempre mais difcil devolv-la  Me, depois que a criana nasceu, porm 
h ocasies em que isso precisa ser feito.
- Lembrem-se: os que j esto aqui tm preferncia. Se um segundo nascer 
cedo demais, ou for muito deformado, ou houver qualquer outro
motvo vlido, ele precisa ser
devolvido  Doni. A deciso  da me, sempre, mas devce lembrar de sua 
responsabilidade, e isso deve ser feito rapidamente. Assim qu verem 
condies, devem lev-lo
para fora e deit-lo sobre o seio da Grande I Terra, o mais distante 
possvel de onde moram e nunca prximo do solo s de um cemitrio, ou um 
esprito errante poder
tentar habitar o corpo. Desse  modo, o esprito ficar confuso e no ser 
capaz de encontrar o caminho
para outro mundo. Tais espritos podem se tornar maus. H algum
H algum aqui que no tenha entendido exatamente o que acabei de dizer? 
- este era sempre o
momento mais difcil da reunio pr-acasalamento, e a Zelandoni concedia 
um tempo que as
jovens mulheres compreendessem a dura revelao, mas era precisO que 
elas a entendessem e a aceitassem.
Ningum falou. As moas tinham ouvido boatos e comentado entre si o pe 
noso dever que algum dia poderiam ter de cumprir, mas aquela era a primi 
que lhes falavam 
a respeito
de uma forma direta. Cada jovem presente esp ardentemente nunca ter de 
expor um beb, ao frio seio da Grande Me 1 para morrer.
Algumas das mulheres mais velhas permaneceram sentadas, os lbios
comprimidos e aflio nos olhos, pois tinha sido delas o horrvel dever de
preservar
vida de um filho abrindo mo de outro. A despeito de no ser uma deciso 
fcil, a maioria, sem dvida, preferia acabar mais cedo com uma gravidez do 
que per der
uma criana a quem tinha dado  luz, ou pior, ter de faz-lo pessoalmente.
Os comentrios da Zelandoni deixaram Ayla arrasada. Ela nunca seria capaz 
disso, pensou. Recordaes de Durc voltaram a inund-la. Ele teria que ser 
enjei tado,
e a opinio dela de nada valeria. Lembrou angustiada os dias passados es 
condidos na pequena caverna, para salvar a vida dele. Tinham dito que ele 
era deformado.
Mas no era. Tratava-se apenas de uma mistura, dela e de Broud, apesar de 
este ter sido o primeiro a conden-lo. Se, em cada vez que me forou, Broud 
tivesse sabido
que Durc seria o resultado, imaginou Ayla, ele nunca teria feito isso! Sentiu-
se tentada a perguntar por que, antes de mais nada, a vida no era impedida 
de comear,
mas no confiou em si mesma para falar.
Marthona ficou intrigada com o visvel sofrimento que Ayla sentia. Era ver 
dade que no se tratava de um pensamento fcil de suportar, mas o seu 
beb que estava
para chegar tinha poucas probabilidades de ser devolvido  Me. Talvez 
fosse apenas a gravidez, pensou. Ela devia estar muito suscetvel.
No havia muito mais informaes a serem comunicadas. A proibio de 
compartilhar o Dom do Prazer quando uma mulher estava perto de parir, 
duran te um certo perodo
posterior, e antes, durante ou depois de certas cerimnias. Outros deveres 
de uma mulher acasalada: os perodos em que era necessrio jeju ar, e 
outros durante os
quais certos alimentos no deviam ser ingeridos.
Havia tambm interdies contra o acasalamento com certas pessoas, como 
primos prximos. Jondalar havia lhe explicado a respeito de primos 
prximos, e, quando isso
foi mencionado, Ayla deu uma olhadela para Joplaya, do modo imperceptvel, 
totalmente invisvel de uma mulher do Cl. Ela sabia o motivo para a aura de 
tristeza
que envolvia a bela moa. Mas, desde que chegaram  Reu nio de Vero, 
ouvira vrias pessoas mencionarem signos de afinidade, e ela no sabia do 
que estavam falando.
O que significava ter um signo de afinidade iii Compatvel? As outras 
mulheres sabiam tudo sobre interdies e proibies, e Ayla flo queria 
falar nada na frente
delas. Decidiu esperar antes de fazer a sua pergunta.
- H mais uma coisa - anunciou a Primeira, para concluir: - Algumas de VOcs 
talvez tenham ouvido que foi feito um pedido para retardar o Matrimonial 
POr alguns
dias. - Houve um gemer de decepo por parte de algumas mulheres.
Dalanar e sua Caverna de Lanzadonix planejavam vir para a Reunio de Vero 
d Zelandonji, para que a filha de sua parceira pudesse se acasalar no nosso
Primeiro Matrimonial.
- Seguiram-se cochichos e murmrios do grupo. - Creio que ficaro 
contentes em saber que o atraso no ser necessrio. Joplaya est aqui,
a sua me, Jerika. Joplaya e Echozar vo se acasalar na mesma ocasio que 
vocs.
520
- Lembrem-se de tudo o que foi falado aqui.  importante. A primeira ca 
ada desta Reunio de Vero comear amanh de manh, e, se tudo sair 
bem, o Matrimonial
ser realizado logo depois. Vejo todas vocs por l - despediu-se Aquela 
Que Era A Primeira.
Quando o grupo comeou a se dispersar, Ayla ouviu algumas vezes a palavra 
"cabea-chata", e "abominao" pelo menos uma vez. Isso no lhe agradou, e 
pa receu-lhe
bvio que muitas pessoas estavam ansiosas para sair e comentar com mais 
algum o fato de que Joplaya foi prometida a Echozar, um homem meio 
cabea-chata.
Muitas das mulheres se lembravam dele. Echozar havia comparecido antes a 
uma Reunio de Vero deles, na ltima vez em que os Lanzadonii tinham 
vindo. Marthona lembrou
que houvera algo desagradvel em relao a ele e seus espri tos misturados, 
naquela reunio, e esperava que o fato no se repetisse. Isso lhe recordou a 
outra desagradvel
Reunio de Vero para ela,  qual Jondalar faltou, por ter partido em sua 
Jornada com o irmo, e deixado Marona esperando pelo seu par no 
Matrimonial, que no chegou.
Ela acasalou-se naquele vero, no Segundo Matrimonial, pouco antes de
voltarem para casa, mas no durou. Agora,  Marona estava novamente
disponvel, mas Jondalar
trouxera uma mulher para casa, uma mulher que combinava muito melhor 
com o seu filho, se no por causa de seus modos estrangeiros, pelo menos 
porque ela realmente
gostava de Jondalar e ele a amava.
A Zelandoni pensou por um breve instante em proibir as mulheres de co 
mentarem qualquer coisa que fora dita na reunio, mas sabia que no havia 
meio de impor tal
ordem. Tratava-se de uma novidade bastante substanciosa para se esperar 
que as pessoas a guardassem para si. A Primeira notou que Ayla e as pes 
soas que a acompanhavam
no pareciam estar com pressa, e talvez aguardassem para lhe falar. Ela 
continuava sendo a Zelandoni da Nona Caverna. Depois que quase todas se 
foram, exceto as
mulheres da zelandonia, Ayla aproximou-se dela.
- H algo que gostaria de lhe perguntar, Zelandoni - disse Ayla.
- Est bem - concedeu a mulher.
- Voc falou de certas interdies e proibies, gente que pode ou no pode 
acasalar. Eu sei que uma pessoa no pode se acasalar com "primo prximo". 
Jondalar me
disse que Joplaya  uma prima prxima dele... s vezes, a chama de prima de 
seu lar... porque ambos nasceram da lareira do mesmo homem - observou 
Ayla. Ela evitou
olhar para Joplaya, mas Marthona e Jerika se entreolharam.
- Isso  correto - afirmou a Zelandoni da Nona.
- Desde que chegamos  Reunio de Vero, tenho ouvido as pessoas 
comentarem sobre algo mais. E voc tambm comentou. Voc disse que uma 
pesSOa
no  deve se acasalar com algum com um signo de afinidade incompatvel. O 
que  um signo de afinidade? - perguntou Ayla.
As demais da zelandonia ficaram ouvindo por um instante, mas, como Ayla 
parecia estar apenas querendo uma informao, elas passaram a conversar 
baixi nho, ou seguiram
para os seus espaos particulares no interior do alojamento.
- Isso  um pouco mais difcil de explicar - justificou-se a Zelandoni. - Uma 
pessoa nasce com um signo de afinidade. De certo modo, faz parte do el de 
algum a
sua fora vital. As pessoas sabem os seus signos de afinidade pratica mente 
na ocasio em que nascem, do mesmo modo como sabem o seu eldom. 
Lembre-se que todos
os animais so filhos da Me. Ela tambm os pariu, como  dito na Cano da 
Me:
- Com um estrondoso bramido, Suas pedras empedaos se partiram,
E das grandes cavernas que bem abaixo se abriram,
Ela novamente em seu espao cavernoso fez parir,
Para do Seu ventre mais Filhos da Terra sair.
- Da Me em desespero, mais cranas nasceram.
- Cada filho era d havia grandes e pequenos tambm,
Uns caminhavam, outros voavam, uns rastejavam e outros nadavam bem.
Mas cada forma era perfeita, cada esprito acabado,
Cada qual era um exemplar cujo modelo podia ser imitado.
- A Me produzia. A terra verde se enchia.
- O signo de afinidade  simbolizado por um animal, pelo esprito de um 
animal - explicou a Zelandoni.
Quer dizer, como um totem? - aparteou Ayla. - O meu totem  o Leo das 
Cavernas. Todos no Cl tinham um totem.
Talvez - consentiu a Primeira, refletindo seriamente por um instante.
- Penso, porm, que totens sejam uma outra coisa. Para incio de conversa, 
nem todos possuem um. Eles so importantes, mas no to importantes, por 
exemplo, como
um el, embora seja verdade que a pessoa precise passar por uma provao 
Ou peleja para obter um totem. Normalmente, voc  escolhida por um 
totem, no entanto todos
tm um signo de afinidade, e muitas pessoas possuem o mesmo signo. Um 
totem pode ser qualquer esprito de animal, um leo das cavernas, uma 
guia_real, um gafanhoto,
mas determinados animais tm uma espcie de poder. SeUS espritos tm 
uma fora de um certo tipo, como uma fora vital, mas isso  diferente. A 
zelandonia os chama
de animais de poder, mas tm mais fora no
522
proteger, quando viajamos no mundo dos espritos, ou para fazer certas 
coisas a tecerem - elucidou Aquela Que Era A Primeira.
Ayla franzia a testa, concentrada, tentando lembrar alguma coisa.
- O Mamut fez isso! - exclamou. - Eu me lembro de uma cerimnia que ele 
fez coisas estranhas acontecerem. Acho que ele pegou um pedao do
mundo dos espritos e trouxe
para este, mas ele precisou lutar para ter o controle.
A expresso da Zelandoni revelou sua surpresa e assombro.
- Acho que eu gostaria de ter conhecido esse seu Mamut - disse ela,  depois 
continuou: - Muita gente no pensa muito em seus signos de
afinidade no ser quando pensam
em se acasalar. Uma pessoa no deve se acasalar com o cujo signo de 
afinidade  oposto ao seu, e talvez seja por isso que o assunto
sai mais em Reunies de Vero,
onde so planejados acasalamentos e cerimnia5 acasalamento e acontecem 
os Matrimoniais.  por isso que o nome comum. animal poderoso de uma 
pessoa  um signo de
afinidade. O nome  enganoso,   como muitos o vem, porque no lidam com 
o mundo dos espritos, e a ocasio em que isso tem um significado em suas 
vidas 
quando
planejam se acasalar.
- Ningum nunca me perguntou sobre signos de afinidade - afirmou /
- Isso s faz sentido para algum que nasceu um Zelandonii. Os que viveram 
em outro lugar talvez tenham signos de afinidade ou animais de poder,
mas em geral eles no
se associam aos animais de poder dos Zelandonii. Uma vez uma pessoa se 
torna uma Zelandonii, pode ser que um signo de afinidade manifeste, mas 
nunca ser o que est
em oposio ao parceiro que ela j tem. animal de poder do parceiro dela no 
deixa.
Marthona, Jerika e Joplaya tambm ouviam atentamente. Jerika no tinha 
nascido uma Zelandonii, e tinha curiosidade em relao aos costumes e
crenas do seu parceiro.
- Ns somos Lanzadonii, e no Zelandonii. Isso quer dizer que, se i 
Lanzadonii quiser se acasalar com um Zelandonii, os signos de afinidade ii 
importam?
- Eventualmente, talvez no, mas muitos de vocs, inclusive Dalanar,
nasceram Zelandonii. Os laos ainda so prximos; portanto, eles precisam 
ser lev dos em considerao
- afirmou a Primeira.
- Eu nunca fui uma Zelandoni, mas agora sou uma Lanzadonii. E Joplaia 
tambm. J que Echozar no nasceu de nenhum dos dois povos, isso no
importa. , mas uma filha recebe
o seu signo de afinidade da me? Qual  o signo de a nidade de Joplaya? - 
quis saber Jerika.
- Normalmente, uma filha tem o mesmo signo de afinidade da me, mas nei
sempre. Sei que vocs pediram que um Zelandoni se mudasse para a sua
caverna e se tornasse o seu  primeiro Lanzadoni. Creio que ser uma 
excelente oportunidade para iin. Seja quem for, ser um bem treinado.., eu 
planejo me certificar disso... e ser
naz de descobrir os signos de afinidade de todo o seu povo afirmou a donier.
- Qual  o signo de afinidade de Jondalar, e como posso conseguir um para
 minha filha, se eu tiver uma? - indagou Ayla.
- Se quiser descobrir, poderemos verificar. O animal de poder de Jondalar o 
cavalo, como o de Marthona, mas, embora tenha a mesma me, o de 
Joharran  diferente.
Ele  um biso. Bises e cavalos esto em oposio disse a Zelandoni.
- Mas Jondalar e Joharran no se opem um ao outro. Eles se do bem - 
einbrou Ayla, enrugando a testa.
A grande mulher sorriu. - Para se acasalar, Ayla. Os dois so sinais opostos 
de parentesco.
- Ah, eu acho que eles no gostariam de se acasalar observou ela, e tam bm 
sorriu. - Voc disse que so animais de poder. J que o meu totem  o Leo 
das Cavernas,
acha que esse tambm seria o meu animal de poder? Ele  podero so, e o seu 
esprito j me protegeu antes.
- As coisas so diferentes no mundo dos espritos salientou a Primeira.
- Poder significa coisas diferentes. Carnvoros so poderosos, mas 
costumam ficar com a carne, sozinhos ou em pequenos grupos, e outros 
animais se mantm longe deles.
Quando voc entra no mundo dos espritos, normalmente  porque quer 
aprender algo, descobrir alguma coisa. Os animais que conseguem alcanar 
mais longe, que tm
acesso, talvez eu possa dizer, capazes de se comunicar com muitos outros 
animais, tm mais poder ou mais poder til. Isso vai depender do motivo pelo 
qual voc foi
l. s vezes, voc quer ir  procura de carnvoros, por causa das qualidades 
especiais deles.
- Por que biso e cavalo so signos de afinidade opostos? - quis saber Ayla.
- Provavelmente porque, neste mundo, eles tenham a tendncia de abran ger 
o mesmo solo em diferentes ocasies, e, portanto, h uma superposio, uma 
competio
por comida. Auroques, por outro lado, comem as tenras verduras novas, ou 
apenas a parte verde superior do capim, deixando para trs os talos e as 
fibras, os quais
os cavalos parecem preferir; portanto, so compatveis. Os dois animais de 
maior oposio so o biso e o auroque, mas, quando se pensa a res peito 
disso, parece
lgico. A maior parte dos mordiscadores de plantas se tole ram, mas bises 
e auroques no toleram ficar no mesmo prado. Ele se evitam, e  sabido que 
costumam brigar,
principalmente quando as fmeas entram na poca de seus Prazeres. Eles 
so muito semelhantes. Os auroques machos se sentem afe tados quando 
farejam um biso fmea
no cio, e bises machos, ocasionalmente,
524
 525
deve se acasalar com algum com o signo do biso - afirmou a Zelandoni.
- Qual  o seu animal de poder, Zelandoni? - perguntou Ayla.
- Voc devia ser capaz de adivinhar - respondeu a mulher, sorrindo. Eu sou 
mamute, quando vou ao mundo dos espritos. Quando a gente vai, Ay no se 
parece do mesmo 
modo que aqui. Voc vai como o seu animal de poder. assim que voc 
descobre o que .
Ayla no estava certa se gostou de ouvir a Zelandoni falar em ir ao mund 
dos espritos, mas Marthona perguntou-se por que ela estava sendo to 
acessfv Normalmente, 
no costumava entrar em detalhes, nem dar respostas to pormi norizadas. 
A me de Jondalar teve a ntida impresso de que a Zelandoni
estava tentando Ayla, seduzindo-a
com bocados fascinantes de um conhecimento dis ponvel apenas aos 
membros da zelandonia.
Ento, ela entendeu. Ayla j era considerada por muitos como uma esp de 
zelandoni, e a Primeira a queria no seio deles, onde ela poderia exercer algw 
controle, e
no deix-la fora de seu alcance, onde poderia criar problemas. porm, j 
havia declarado que queria apenas se acasalar, ter filhos e ser como
todo  mundo. No desejava 
entrar para a zelandonia, e, por conhecer o seu filho, Marthona sabia que 
ele tambm no gostaria que Ayla fosse uma
zelandoni. Jondalar, contudo, tinha a tendncia de ser
atrado por mulheres que o eram ser um jogo interessante de se assistir.
Elas estavam prontas para ir embora, mas, na sada, Ayla voltou.
- Eu tenho outra pergunta - disse ela. - Quando se referiu a bebs e al tos 
provocados para interromper uma gravidez indesejada, por que, antes
disso, no falou algo 
sobre como evitar que uma nova vida se inicie?
- No existe um meio. Somente Doni tem o poder de dar incio  vida. 
somente Ela  capaz de evitar que ela se inicie - afirmou a Zelandoni da r 
Quarta Caverna. Ela
estivera sentada ali perto, ouvindo a conversa.
- Mas existe, sim! - exclamou Ayla.
29
A Primeira deu um olhar penetrante para a jovem mulher. Talvez ela
devesse
ter conversado antes com Ayla, mais profundamente. Seria possvel
ela conhecesse um modo de impedir o desejo de Doni? Aquela ela a
526
maneira errada de abordar o assunto, mas, agora, era tarde de mais. Os
membros da Zelandonia que se encontravam ali perto, gesticularam e
comentaram alto
si, e alguns ficaram to agitados quanto a Zelandoni da Dcima Quarta. 
Outros afirmavam que era errado. O resto estava voltando para a rea 
central, a fim de saber
o que se passava. Ayla no sabia que sua afirmao causaria tanto rebulio.
As trs mulheres que estavam com ela viraram-se para olhar. Marthona 
obser vava com divertido sarcasmo, embora a sua expresso permanecesse 
neutra. Joplaya ficou 
pasmada com o fato de os estimados membros da zelandonia serem capazes 
de uma altercao to calorosa, no entanto estava to chocada quanto eles. 
Jerika ouvia com 
grande interesse, mas j havia decidido conversar com Ayla em parti- calar. 
A declarao que ela fez  zelandonia podia ser a soluo de um srio pro 
blema que vinha 
preocupando a mulher h algum tempo.
Quando o conheceu, Jerika se apaixonou completa e irrevogavelmente pelo 
belo homem gigante, que tanto encantou a jovem delicada e bela, porm 
impetuosa- mente independente. 
Ele era um homem delicado, e um amante consumado, ape sar de seu 
tamanho, e ela se deliciava em seus Prazeres. Quando ele lhe pediu para ser 
a sua parceira, ela 
aceitou sem hesitao, e, ao descobrir que estava grvida, ficou encantada. 
Mas o beb que carregava era grande demais para a sua minscula cons 
tituio fsica, 
e o parto quase a matou e  filha. Isso a danificou internamente, e ela nunca 
mais engravidou, em grande parte para o seu pesar, e alvio.
Agora, a filha dela havia escolhido um homem que era, no to alto, porm 
mais robusto, com msculos poderosos e ossos imensos. Embora fosse alta, 
Joplaya era magra, 
um tanto delicada e, Jerika observara atentamente, tinha quadris es treitos. 
Desde o momento em que ela se deu conta de quem a filha provavelmente 
acabaria escolhendo, 
e, portanto, aquele cujo esprito era mais provvel que a Me elegesse para 
originar qualquer criana que ela viesse a ter, Jerika preocupou-se com o 
fato de Joplaya 
sofrer a sua mesma sina, ou coisa pior. Desconfiava que Joplaya j estivesse 
grvida, pois, na viagem, comeara a ter violentos acessos de enjo matinal, 
mas recusou 
a sugesto da me de interromper a gravidez.
Jerika sabia que no havia nada que pudesse fazer. Era a deciso da Grande 
Me. Joplaya seria Abenoada ou no, quando Ela desejasse, e morreria ou 
viveria de acordo 
com a vontade Dela, mas Jerika desconfiava que, com o homem que Joplaya 
escolhera, as chances eram de que a sua filha morresse jovem e dolorosa 
mente de parto, se 
no no primeiro, depois, num outro. Sua nica esperana era a de que a filha 
sobrevivesse ao primeiro e, como ela mesma, por mais doloroso que fosse, 
ficasse to 
gravemente danificada, que se tornasse incapaz de engravidar ovarnente. 
at ouvir Ayla afirmar que sabia como evitar que a vida comeasse. 
mediatamente decidiu que, 
se a filha tivesse tantos problemas quanto ela teve e
 527
conseguisse sobreviver ao parto do primeiro filho, cuidaria para que Joplaya 
nun ca mais voltasse a engravidar.
- Silncio, por favor - pediu Aquela Que Era A Primeira. O barulho, fi 
nalmente, cessou. - Ayla, quero ter certeza de que entendi voc. Est 
dizendo que sabe como 
evitar uma gravidez antes que ela comece? Que sabe como evitar que a vida 
comece? - perguntou.
- Sim. E pensei que voc tambm soubesse. Na Jornada desde o leste, com 
Jondalar, eu usei certas plantas. Eu no queria ter um beb durante a 
viagem, pois no teria 
ningum para me ajudar - explicou.
- Voc me contou que j foi Abenoada por Doni. Afirmou que j faz tr 
meses desde o seu ltimo sangramento. Nessa ocasio, voc ainda estava 
viajando
- lembrou a donier.
- Eu tenho quase certeza de que esse beb comeou depois de atravessar 
mos a geleira - adiantou Ayla. - Ns trouxemos pedras de queimar c 
Losadunai apenas o suficiente 
para derreter o gelo e termos gua para os cava Lobo e ns dois. Nem 
mesmo tentei ferver gua para ch ou para preparar a r nha costumeira 
bebida matinal. Foi uma 
travessia muito difcil, e quase no conseguimos. Quando descemos do gelo e 
chegamos deste lado, paramos um
tempo para descansar um pouco, e no me importei em
fazer o preparado. Por essa ocasio, no importava se a vida comeasse. Ns 
j estvamos quase aqui. Fiquei
feliz, quando descobri que estava grvida.
- Onde aprendeu sobre esse remdio? - quis saber a Zelandoni.
- Com Iza, a curandeira que me criou.
- Como ela disse que funcionava? - perguntou a Zelandoni da Dcini Quarta.
A Primeira olhou para ela, tentando conter a irritao. Ela estava fazendo 
perguntas numa seqncia lgica. No precisava de ajuda ou de 
interferncia, rn Ayla respondeu 
assim mesmo.
- O Cl acredita que o esprito do totem de um homem combate o esprii do 
totem de uma mulher, e  por isso que ela sangra. Quando o totem do hom  
mais forte do 
que o da mulher, ele o derrota e inicia uma nova vida. Iza me contou que 
certas plantas podem tornar forte o totem da mulher e ajudar o es rito do 
totem dela a combater
o do homem - explicou.
- Primitivo, mas me surpreende eles terem idias a respeito disso - o 
mentou a da Dcima Quarta, e recebeu um olhar duro da Primeira.
Ayla percebeu o tom de desdm na voz da mulher, e ficou contente por
no ter falado nada sobre o fato de um homem iniciar um beb dentro de 
uma mi lher. Ela no achava
que se tratava de um sangramento de espritos por Doni m
do que um totem derrotado, porm acreditava que a da Dcima Quarta ou al 
gum mais talvez considerasse as suas idias mais merecedoras de crticas 
do que de reflexo.
- Voc disse que usou plantas durante a sua Jornada. O que a levou a acre 
ditar que o remdio ia funcionar? - indagou a Primeira, voltando a assumir o 
controle das 
perguntas.
- Os homens do Cl valorizam muito as crianas de suas parceiras, principal 
mente se forem meninos. Quando a parceira de um deles tem uma criana, 
isso aumenta o 
seu prestgio. Acreditam que isso mostra o vigor de seu totem, o qual, de 
certo modo,  a sua fora interior. Iza disse-me que ela mesma usou as 
plantas du rante 
muitos anos, para no ficar grvida, porque queria levar a desgraa ao seu 
parceiro. Ele era um homem cruel, que batia nela para mostrar sua 
autoridade sobre uma 
curandeira do nvel dela, e portanto decidiu mostrar que o esprito do totem 
dele no era forte o suficiente para derrotar o seu - contou Ayla.
- Por que ela resolveu adotar esse comportamento? - aparteou novamente a 
da Dcima Quarta. - Por que ela simplesmente no cortou o n e procurou 
outro parceiro?
- Mulheres do Cl no escolhem com quem se acasalam. Isso  decidido pelo 
lder e os outros homens - esclareceu Ayla.
- No tm escolha! - vociferou a da Dcima Quarta.
- Diante das circunstncias, eu diria que foi revelada muita inteligncia sutil 
por parte da mulher, como  mesmo o nome dela, Iza? - falou rapidamente a 
Primeira, 
antes que a da Dcima Quarta se intrometesse e fizesse outra pergunta.
-Todas as mulheres do Cl sabem sobre essas plantas?
No, apenas as curandeiras, e creio que o preparado  conhecido apenas 
pelas mulheres da linhagem de Iza. No entanto, se achasse necessrio, ela 
fornecia O preparado 
a algumas mulheres. Mas no sei se ela lhes dizia o que era. Se algum dos 
homens descobrisse, eles ficariam muito zangados, porm nenhum deles per 
guntaria a Iza. 
O conhecimento de uma curandeira no  para os homens sabe rem.  
passado para as filhas, que, se revelarem inclinao, tambm se tornam 
Curandeiras. Iza me via 
como uma filha - disse Ayla.
- Estou surpresa com a sofisticao da medicina deles - comentou a 
Zelandoni, sabendo que falava pela maioria.
O Mamut do Acampamento do Leo conhecia a eficcia da medicina deles. 
Quando jovem, ao fazer uma Jornada, quebrou seriamente um brao. Ele 
topou Por acaso com a 
caverna de um cl, e a curandeira de l consertou o seu brao e etudou dele 
at voltar a ficar saudvel. Ns dois acreditamos que era o mesmo cl com o 
qual eu vivi. 
A mulher que o curou era a av de Iza.
Quando Ayla terminou, seguiu-se um silncio na tenda. Era difcil acreditar 
no que ela tinha dito. A zelandonia das Cavernas prximas tinha ouvido e 
Jondalar falarem 
com as pessoas sobre os cabeas-chatas, que, segundo chamavam a si 
mesmos de o Cl, e eram gente, e no animais. Houvera muita discusso a 
respeito, nos dias que
se seguiram, mas muitos rejeitaram a idia. Cabeas-chatas podiam ser um 
pouco mais inteligentes do que muitos imaginavam, porm dificilmente 
seriam humanos. Agora,
aquela mulher estava dizendo  que eles curaram um homem dos Mamuti e 
tinham idias de como a vida come ava. Ela at mesmo dava a entender que 
as prticas medicinais 
deles
seriam mais avanadas do que as dos Zelandonii.
A zelandonia voltou a discutir essas questes, e a agitao no interior da 
ten da podia ser ouvida do lado de fora. A zelandonia masculina, que 
estivera vigian do
a reunio das mulheres, morria de curiosidade para saber o que causava
tal comoo, mas continuava  espera de um convite para voltar ao interior 
do aloj mento.
Eles sabiam que ainda havia algumas mulheres l dentro, mas era muito 
incomum uma reunio de mulheres ter debates to acalorados.
A Primeira j tinha ouvido Ayla falar em profundidade sobre o Cl, e rapida 
mente entendera as implicaes daqueles fatos e tirara as suas concluses. 
Ela
agora estava
convencida de que eram gente, e acreditar era importante para os
Zelandois entenderem as possveis conseqncias, mas nem mesmo ela havia 
se dado
conta do quanto eles
do quanto eram avanados. A Zelandoni havia suposto um modo de vida mais 
simples, mais primitivo, e acreditara que a medicina deles se achava nua 
mesmo nvel. Sentiu 
que Ayla
obtivera uma boa instruo bsica, a qual ela pod ria desenvolver. Isso 
requeria uma reavaliao.
As prprias Histrias deles recuavam at um tempo em que os Zelando 
levavam uma vida mais simples, mas sua compreenso de vegetais comestvel 
medicinais tinha sido
mais avanada do que outras espcies de conhecimento. Ela suspeitava que 
essa percepo sobre as plantas fosse mais antiga, recuando
ainnda mais no tempo. Se o Cl era
to velho quanto Ayla parecia pensar, no estava do mbito das 
possibilidades que o conhecimento deles podia ser bastante des volvido. 
Principalmente se fosse verdade,
como Ayla havia assinalado, que ei tinham uma espcie de memria especial, 
capaz de ser reavivada. A ZelandO desejou ter conversado com Ayla, antes 
de o assunto
ter sido levantado perafli zelandonia, mas talvez tivesse sido melhor 
daquela maneira. Provavelmente, veria o mesmo tipo de choque, quando a 
zelandonia sentisse
o impacto total em relao ao povo que Ayla conhecia como o Cl.
- Vamos fazer silncio, por favor - pediu a Zelandoni, tentando
novamente acalm-las. Depois que a ordem, finalmente, foi restabelecida, 
ela fez um
comu
nicado. - Ao que parece, Ayla nos trouxe novas informaes, que podem ser 
bastante teis. Os Mamuti foram muito perceptivos, quando a adotaram no 
Lar do Mamute,
o que, alis,  o mesmo que ser adotado pela zelandonia. Vamos conversar 
depois com ela, mais profundamente, e explorar o alcance de seu co 
nhecimento. Se ela sabe,
realmente, como evitar o incio da vida, isso poder ser um grande benefcio, 
e deveremos ser gratas por possu-lo.
- Devo alertar que nem sempre funciona - interrompeu Ayla. - O par ceiro 
de
Isa morreu, quando um terremoto fez desabar a caverna dele, mas ela 
estava grvida, quando
me encontrou. Uba, a filha dela, nasceu pouco depois. Mas Iza devia contar 
vinte anos, na ocasio, velha demais para uma mulher do Cl ter o primeiro 
filho. As meninas
deles se tornam mulheres aos oito ou nove anos. Mas a medicina funcionou 
para ela durante muitos anos, e funcionou para mim na maior parte da minha 
Jornada.
-  uma garantia ter um pouco de conhecimento de medicina e de cura. - 
afirmou a Zelandoni. - Mas, no fim de tudo, ainda  a Grande Me quem 
decide.
Jondalar ficou contente em ver a mulher retornando. Estivera esperando 
por ela. Tinha ficado no seu acampamento, com Lobo, enquanto Dalanar ia ao 
acam pamento principal
com Joharran, e prometera encontrar-se com eles depois que Ayla voltasse. 
Marthona pedira a Folara para preparar ch quente e um pouco de comida 
para eles, e convidou
Jerika e Joplaya para irem ao alojamento dela. Marthona e Jerika 
conversaram sobre amigos e conhecidos comuns, e Folara con tou a Joplaya 
sobre algumas atividades 
que os mais jovens estavam planejando.
Ayla ficou um pouco na companhia delas, mas depois do encerramento um 
tanto litigioso da reunio no alojamento da zelandonia, sentiu necessidade 
de fi car sozinha. 
Alegando que precisava olhar os cavalos, apanhou o bornal e saiu com Lobo. 
Caminhou correnteza acima ao longo do riacho, ficou um pouco com os 
cavalos, e depois 
rumou adiante at o lago. Sentiu-se tentada a nadar, mas, em Vez disso, 
resolveu continuar andando. Seguiu por uma trilha recm-aberta e, quando 
se viu perto da 
nova caverna, deu-se conta de que fizera o caminho pelo qual Jondalar e os 
outros haviam seguido antes.
Ao se aproximar da pequena colina que continha a caverna, pde ver
claramente a abertura, e notou que o arbusto que a obstruia fora removido. 
A terra e as
Pedras em volta da entrada tambem haviam sido retiradas Era provvel que 
ago raquase todos os presentes a Reunio de Vero dos Zelandonii j 
tivessem estado
no Interior da caverna, pelo menos uma vez, mas havia poucas evidncias 
deixa
das Pelas visitas. Por ser to bonita e incomum, quase toda com paredes 
brancas,
foi considerada muito sagrada e um tanto quanto inviolvel. A zelandonia e 
os
530 531
lderes das Cavernas ainda estavam se acostumando a ela, decidindo as 
pocas e os meios apropriados para us-la. As tradies ainda no haviam 
sido desenvolvi das;
tratava-se de algo muito novo.
O lugar onde ela fizera a pequena fogueira para acender tochas e deixara os 
restos de carvo havia se tornado uma lareira, com pedras circundando-a e 
havia ali perto
algumas tochas parcialmente queimadas. Ela retirou do bornal o estojo de 
fazer fogo, fez rapidamente uma fogueira, acendeu uma das tochas e depois 
seguiu para a
entrada da caverna.
Mantendo a tocha no alto, entrou no espao escuro. A luz do sol que penetra 
va pela entrada iluminava o macio cho de terra do ingresso do corredor 
descen dente,
que havia adquirido um acmulo de pegadas de todos os tamanhos, tanto de 
ps descalos quanto de calados. Avistou a marca de um comprido p 
descal- o, provavelmente
de um homem alto, outra de tamanho normal e ligeiramente mais larga, o p 
de uma mulher adulta ou de um rapaz. Havia a sola de uma san dlia tecida 
de capim ou
junco, perto do contorno borrado de um mocassim de couro, e, a seguir, a 
fila de pequenas pegadas mais espacejadas, um tanto instveis, de uma 
criancinha ainda
aprendendo a andar. Sobre elas, as marcas das paras de um lobo. Ayla ficou 
imaginando que rastreador as teria deixado, alheia ao anima que andava 
adiante dela no
interior da caverna.
Sentiu o ar tornar-se mais frio e mido, e o espao escurecer  medida qu 
prosseguia pelo subterrneo. A caverna no exigia proezas de agilidade para 
penetrar nela,
pelo menos no aposento principal maior. Tratava-se de uma caver na que 
famlias inteiras poderiam utilizar, mas no como espao de morad - 
Cavernas subterrneas
eram por demais escuras e midas para se viver, especialmente numa regio 
repleta de abrigos abertos  luz do dia, com vrios nveis i salincias de 
pedra acima 
para
proteger da chuva e da neve. E aquela caverna  to bonita, que mais parecia 
um santurio especial, uma entrada
extraordinria para o ventre da Me.
Ela e Lobo caminharam ao longo do lado esquerdo do grande aposento c as 
paredes brancas, e depois ela penetrou na estreita galeria ao fundo, com as 
redes que se
alargavam  medida que subiam e se juntavam no teto branco. DeS ceu para 
a rea mais larga em volta da coluna redonda, que descia do teto mas
no atingia o cho. Ela
comeava a sentir frio, e alcanou o bornal, retirou a ma pele de um cervo 
gigante e colocou-a sobre os ombros. Era o couro do animal - ela havia 
abatido com o arreinessador
de lanas, antes da caada aos bises ei que Shevonar foi morto. Muita 
coisa acontecera desde ento, e isso parecia U sido h muito tempo. Mas 
no foi, pensou.
Caminhou at o final do estreito corredor, depois que ele contornava o pi
pendente e ento voltou e se sentou. Ela gostava da amplido do espao. 
Lobo
aproximou-se e roou a cabea em sua mo livre.
- Acho que voc quer um pouco de ateno - disse-lhe, trocou a tocha para a 
mo esquerda e coou-o atrs das orelhas. Depois que o animal saiu nova 
mente para explorar
o local, sua mente vagueou de volta para a reunio mais cedo, que tivera com 
as mulheres que iam se acasalar e a zelandonia, e a discusso aps a maioria 
ter ido
embora.
Pensou nos signos de afinidade, lembrou que o de Marthona era o cavalo, e 
ficou imaginando qual seria o seu. Achou interessante que, no mundo dos 
espri tos, cavalos,
auroques e bises fossem animais de poder, muito mais importantes do que 
lobos e lees das cavernas, e talvez at de ursos das cavernas. Aquele era 
um lugar onde
as coisas eram o inverso, ao contrrio, talvez de trs para frente ou de 
cabea para baixo. Enquanto estava sentada ali, uma sensao passou a 
domin la, uma sensao
que j sentira antes. No gostava dela, e tentou combat-la, mas no tinha 
controle sobre aquilo. Parecia recordar algo, recordar os seus sonhos, porm 
era mais
do que recordao, mais do que como num sonho, era como se estivesse 
revivendo os seus sonhos e lembranas, com uma vaga sensao de re cordar 
coisas que no tinham
acontecido.
Ela sentiu uma preocupao aflitiva, tinha feito algo errado e esvaziado o
conteudo  que restava na tigela. Seguiu as luzes tremeluzentes atravs de 
uma comprida
e interminvel caverna, e ento, banhados pela luz da fogueira, ela viu os 
mog-urs. Sentiu-se nauseada e petr de medo, caindo num negro abismo. 
Subitamente, Creb
a estava ajudando, aliviando os seus medos. Creb era sbio e gentil. Ele 
entendia o mundo dos espritos.
A cena mudou. Com um claro amarelo-castanho, ofelino saltou sobre os 
auroques e lutou com a imensa vaca selvagem de cor marrom avermelhada, 
que mugiu aterro rizada
ao desabar no cho. Ayla engoliu em seco e tentou espremer-se para fora da 
pedra macia da minscula caverna. Um leo das cavernas rugiu, e uma pata 
gi tesca com
as garras esticadas avanou e arranhou a sua perna esquerda com quatro 
talhos paralelos.
O seu totem o Leo da Caverna - disse o velho Mog-ur.
Tudo mudou novamente. Afila de fogueiras, mostrando o caminho corredor
abaixosobre Uma comprida e sinuosa caverna, projetava acima belas 
formaes pendentes e con
tizuas. Ela viu uma que parecia a comprida cauda lisa de um cavalo. Aquilo se
transformou  em uma gua amarelo-pardo que se misturou  manada Ela 
relinchou e
balanou
a cauda escura, parecendo acenar. Ayla ficou olhando, para ver aonde ela ia,
aSSUStOu-se ao ver Creb sair do meio das sombras. Ele gesticulou para ela 
ir em frente,
 para que se apressasse. Ela ouviu um cavalo relinchar. A manada galopava
532
para longe, em direo  borda dopenhasco. Ela ficou em pnico e correu
atrtrs deles. Seu estmago embrulhou de medo. Ouviu o som de um cavalo 
que guinchava, ao ca
da beira, tombando em cambalhotas, de cabea para baixo.
Ela tinha dois filhos, irmos que nem imaginavam serem irmos. Um era alto 
- louro, como Jondalar; o outro, o mais velho, ela sabia que era Durc, embora 
seu rosa
estivesse nas sombras. Os dois irmos aproximaram-se um do outro, vindo 
de direes opostas, no meio de uma pradaria vazia, desolada, assolada pelo 
vento. Ayla sentia
uma grande aflio; algo terrvel estava para acontecer, algo que ela precisa 
evita, Ento, chocada pelo terror, ela percebeu que um dos seus filhos 
mataria o outro.
Ao chegarem mais perto, ela tentou det-los, mas uma grossa parede 
viscosa a
mantinha presa. Eles estavam quase diante um do outro, braos levantados, 
como se fossem
atacar. Ela gritou.
- Acorde, menina! - exclamou o Mamut. -  apenas um smbolo, uma 
mensagem.
- Mas um vai morrer!-gritou ela.
- No o que voc pensa - disse o Mamut. - Voc precisa descobrir o sigu 
ficado verdadeiro. Voc tem o Talento. Lembre-se: o mundo dos espritos 
no  a me ma coisa,
 invertido, de cabea para baixo.
Ayla contraiu-se bruscamente, quando a tocha caiu no cho. Agarrou-a e 
vantou-a antes que o fogo se extinguisse, depois ergueu a vista para o pilar 
pci dente, que
parecia sustentar alguma coisa, mas nem mesmo chegava ao cho. Esi 
invertido, de cabea para baixo. Arrepiou-se. Ento, por um momento, o pil 
tornou-se uma parede
transparente, viscosa. Do outro lado, um cavalo tombai em cambalhotas, de 
cabea para baixo, caindo da beira de um penhasco.
Lobo estava de volta, fuou-a e ganiu, correu para longe, depois voltou e g 
niu novamente. Ainda tentando clarear a cabea, Ayla levantou-se e 
observou
- O que voc quer, Lobo? O que est tentando me dizer? Quer que eu o 
isso?
Ela saiu da galeria dos fundos, e, ao chegar  abertura, viu outra tocha d 
cendo a rampa de entrada da caverna. A pessoa que a carregava, obviamente, 
ta bin a viu,
embora a tocha de Ayla comeasse a crepitar e se extinguir. 1 apressou-se, 
mas deu apenas mais alguns passos antes de a sua luz se apagar. 1 rou, e 
ento notou que
a luz que vinha em sua direo se movia com rapidez. Sentiu-se aliviada, e 
antes que a pessoa a alcanasse, seus olhos adaptaram-se escuro. Conseguia 
enxergar um 
pouco
sob a fraca luz do lado de fora que alc ava a parte de trs da grande 
cmara, e achou que, se fosse preciso, talvez pudes encontrar o caminho, 
mas estava contente
por algum estar vindo. Contudo, ficou surpresa, ao ver quem era.
-  voc! - exclamaram ambos ao mesmo tempo.
- Eu no sabia que havia algum aqui. No queria incomod-la.
- Estou to contente em ver voc - disse Ayla, ao mesmo tempo, e depois 
sorriu. - Estou mesmo contente em v-lo, Brukeval. A minha tocha se apagou.
- Eu percebi - disse ele. - Quer que eu a acompanhe at l fora? Isto , se 
est de sada.
- J fiquei tempo demais aqui - alegou. - Estou com frio. Ser timo sentir o 
sol. Eu devia ter prestado ateno.
-  fcil se distrair nesta caverna.  to bonita, e parece to... Sei l, 
especial
- comentou, segurando a tocha entre os dois, enquanto rumavam para a sada.
-  mesmo especial, no ?
- Deve ter sido emocionante para voc ser a primeira a v-la. Eu j estive 
tan tas vezes nestas elevaes, que nem daria para dizer em palavras de 
contar; mesmo
assim, ningum conseguiu encontr-la, at voc aparecer - observou 
Brukeval.
- S de v-la  emocionante, e ser a primeira no tem importncia. Creio que 
deve ser do mesmo modo emocionante para qualquer um que a v pela pri 
meira vez. Voc
j tinha estado aqui antes? - perguntou Ayla.
- J. Todos estavam comentando, e, antes que escurecesse, peguei uma 
tocha e vim v-la. No tive tempo de ver muita coisa, porque o sol estava 
indo embora. Vi apenas
o suficiente para me decidir a voltar hoje - explicou Brukeval.
- Bem, eu me alegro por ter vindo - disse Ayla, ao iniciarem a subida do 
acesso de entrada. - Provavelmente, eu conseguiria sair, pois um pouco de 
luz alcana l
atrs, e Lobo teria me ajudado, mas no sei lhe dizer o quanto fiquei aliviada 
ao ver a sua tocha vindo na minha direo.
Brukeval olhou para baixo e viu o lobo. - Sim, tenho certeza de que ele te ria. 
Eu no o tinha visto antes. Ele tambm  especial, no  mesmo?
- Para mim, . Voc j foi apresentado a ele? H um tipo especial de apresen 
tao que fao com ele. E ento passa a saber que voc  um amigo - disse 
Ayla.
- Eu gostaria de ser seu amigo - declarou Brukeval.
O modo como falou isso fez Ayla olhar para ele, rapidamente, do seu jeito 
imperceptvel de mulher do Cl. Sentiu um calafrio e teve a sensao de um 
pres sentimento.
Parecia haver muito mais em sua declarao do que um desejo por amizade. 
Percebeu um desejo por ela, e resolveu que no queria acreditar naquilo. Por 
que Brukeval
a desejaria? Eles mal se conheciam. Ao emergirem da caverna, ela 
sorrju_ffie, em parte para ocultar a sua inquietao.
Ento vamos apresent-lo a Lobo - anunciou ela.
Pegou a mo de Brukeval e executou o processo de deixar Lobo sentir o chei 
ro dele, significando que ela o aprovava.
- No creio que tenha lhe dito o quanto eu a admirei naquele dia em q voc 
enfrentou Marona - salientou ele, depois que Ayla terminou. - Ela  uni 
mulher capaz de
crueldades e perversidades. Sei disso porque morei com ela, ei quanto eu 
crescia. Somos considerados primos, primos distantes, mas, depois
que a minha me morreu,
a me dela era a sua amiga mais chegada capaz de amam tar um beb, e 
acabou ficando comigo. Ela aceitou a responsabilidade, mas
no gostou.
- No gosto muito de Marona - admitiu Ayla -, mas dizem que talvez ela no 
possa ter filhos. Se isso  verdade, sinto pena dela.
- No sei se ela pode, ou simplesmente no quer. Tem gente que acha q 
sempre que ela  Abenoada, faz de tudo para perder a criana. Marona no 
co segue pensar em
ningum alm dela mesma - comentou Brukeval. - No como Lanoga. Ela ser 
uma me maravilhosa.
- J  - afirmou Ayla.
- E, graas a voc, h um boa chance de Lorala sobreviver -
O modo como ele a olhou deixou Ayla novamente desconfortvel. Baixou a
VIsta e fez festinha em Lobo, para despistar.
- So as mes que a esto amamentando, e no eu - alegou.
- Mas ningum mais se importou em descobrir que o beb no estava. mando 
leite, nem ligou o bastante para conseguir ajuda para Lorala. J vi com 
Lanoga. Voc a trata
como se ela tivesse algum valor.
- Claro que ela tem algum valor - retrucou Ayla. -  uma garota ad rvel, e 
vai ser uma mulher maravilhosa.
- Sim, ela , mas ainda faz parte da famlia com o nvel social mais baixo 
Nona Caverna - lembrou Brukeval. - Eu me acasalaria com Lanoga e com 
tilharia o meu status
com ela, pois isso no me adianta mesmo de muita coisa mas duvido que ela 
me queira. Sou velho demais para ela, e muito... bem... nhuma mulher me quer. 
S espero 
que
Lanoga encontre algum digno dela.
- Eu tambm, Brukeval. Mas, por que acha que nenhuma mulher quer vOc?
- protestou Ayla. - Sei que tem um nvel na Nona Caverna prximo do 
primeiro, e Jondalar diz que voc  um excelente caador, que contribui
basicamente para a Caverna. Jondalar
gosta muito de voc, Brukeval. E, se eu fosse uma  mulher Zelandonii  
procura de um provvel parceiro e no fosse me acasalar
com  Jondalar, eu o levaria em conta.
Voc tem muito a oferecer.
Brukeval observou-a cuidadosamente, tentando se certificar de que ela
no lhe dizia aquelas coisas s para poder torc-las depois, tornando-as um
sarcasmo condescendente,
do modo que Marona costumava fazer. Ayla, porm, parecia sincera, e seus 
sentimentos, genunos.
- Bem, lamento por voc no estar  procura - disse Brukeval -, mas, se 
algum dia resolver comear, me avise. - Em seguida, ele sorriu, tentando 
fazer aquilo parecer
uma brincadeira.
Desde o primeiro momento em que a viu, Brukeval soube que Ayla era a 
mulher com quem sempre sonhou. O problema era que ela ia se acasalar com 
jondalar. Que homem
de sorte, pensou ele, mas, afinal, Jondalar sempre teve sor te. Espero que 
ele aprecie o que tem; caso contrrio, eu apreciarei. Se ela me qui sesse, eu 
a aceitaria
num piscar de olhos.
Olharam para cima, quando ouviram o som de vozes, e viram vrias pessoas 
vindo da direo do acampamento da Nona Caverna. Os dois homens altos, 
que tanto se pareciam,
foram imediatamente identificados. Ayla acenou e sorriu para jondalar e 
Dalanar. Todos a reconheceram e acenaram de volta. As duas jovens altas 
com eles no podiam
ser mais diferentes, e, apesar de serem consideradas primas, eram primas 
distantes, mas ambas tinham uma ligao muito prxima com Jondalar. j lhe 
tinham explicado
os complexos laos familiares dos Zelandonii, e Ayla medi tou sobre o 
parentesco delas, enquanto as observava se aproximar.
Entre os Zelandonii, somente as crianas da mesma mulher eram chamados 
de irmos e irms; crianas da mesma lareira de um homem eram 
consideradas primas, e no irmos.
Folara e Jondalar eram irm e irmo porque tinham a mes ma me, apesar de 
os homens das suas lareiras serem diferentes; Joplaya era prima prxima 
dele, pois, embora
Dalanar fosse o homem da lareira de ambos, eles ti nham mes diferentes. 
Mas, se por um lado, a relao entre um irmo e uma irm no era 
reconhecida, por outro
era compreendida. Primos prximos, principal mente os tambm chamados 
primos de lareira, eram chegados demais para se acasalar um com o outro.
A ltima pessoa que se encontrava com eles era Echozar, o Prometido de 
Joplaya. Ele era to caracterstico, na forma geral e em tamanho, como os 
dois homens altos,
principalmente para Ayla. Joplaya e Echozar iam se acasalar duran te o 
mesmo Matrimonial em que ela e Jondalar, e casais que partilhavam a mesma 
cerimnia costumavam
criar uma slida amizade. Ela desejava que isso fosse ver dade, mas eles 
moravam to distante uns dos outros, que no seria provvel. Ao chegar 
perto, Ayla percebeu
que Joplaya, de vez em quando, olhava de relance Para Jondalar e, 
surpreendentemente, no se importou. Ayla sentia compaixo Por ela. 
Entendia a melancolia de Joplaya
Ela, tambm, certa vez fora Prometida
errado, mas, para Joplaya, no haveria uma suspenso de ltima hora. 
Geralmente, primos prximos eram criados juntos, ou moravam perto e
 que eram parentes chegados e no estavam disponveis para serem
considerados  para acasalamento Quando, porm, Jondalar foi morar com o 
homem da
 537
que agora era conhecido como Madroman, j era um adolescente. Joplaya, 
filh da lareira de Dalanar, era um pouco mais jovem, entretanto os dois no 
se conlie ceram
enquanto cresciam.
Dalanar ficou feliz em ter juntas as duas crianas da sua lareira, e quis que
eles fossem amigos. Resolveu que um modo era trein-los na arte de lascar 
slex, oqu
lhes daria algo em comum para conversar. Foi, de fato, uma idia muito
boa, Dalanar, porm, no previu o efeito que teria sobre Joplaya o jovem 
que tanto a parecia
com ele. Ela sempre adorou o homem da sua lareira e, quando Jondala surgiu, 
foi fcil demais transferir aquele amor incontrolvel para o seu primo. JerT 
- percebeu,
mas tanto Dalanar quanto Jondalar no tiveram conscincia disso. Joplaya 
sempre expressou os seus sentimentos por Jondalar em forma de piada, 
eles, sabendo que primos
prximos no podiam se acasalar, aceitavam aquilo modo como parecia, e 
supunham que ela estava apenas brincando.
Havia relativamente pouca gente na Caverna dos Lanzadonii de Dalanar, 
ningum que oferecesse tanto a uma jovem bonita e inteligente. Depois qi 
Jondalar partiu em
sua Jornada, Jerika insistiu para que, de vez em quando, D levasse a 
Caverna dos Lanzadonii para as Reunies de Vero dos Zelandonii. Amb 
esperavam que a filha encontrasse
algum, e muitos jovens ficaram interessados nela, mas Joplaya se sentia 
diferente e inibida, porque as pessoas olhavam f mente para ela. E no 
conseguia encontrar
ningum com quem se sentisse  vontade quanto havia se sentido com o 
primo Jondalar.
Ela sabia que, ocasionalmente, alguns primos se acasalavam - primos 
distantes, alis - mas optou por esquecer isso, e fantasiava que, em sua
Jornada Jondalar decidiria
que ele a amava e ela o amava. Sabia que o sonho era improvvel , mas 
apaixonadamente, esperava que algum dia ele voltasse para casa e a
revindicasse como seu nico
e verdadeiro amor. Em vez disso, ele retornou com Ayla. Ela ficou arrasada, 
porm percebeu o amor que ele sentia pela
estrangeira e  viu o seu sonho despedaar-se.
O homem por quem ela manifestou alguma afinidade era um novo memL da 
Caverna de Dalanar, um homem a quem tambm olhavam fixamente aofll 
quer que fosse, Echozar,
um homem de espritos misturados. Foi Joplaya que" ajudou a se integrar na 
Caverna deles, fez com que ele entendesse que era acC por Dalanar e os 
Lanzadonii, e at
mesmo o ajudou com a sua habilidade falar. E foi ela quem conseguiu 
arrancar dele a sua histria.
A me de Echozar fora estuprada por um homem dos Outros, que tambm 
matou o parceiro dela. Quando ela deu  luz, foi amaldioada como uma
mulherde m sorte, pois o
seu parceiro havia sido morto e o filho dela era deformado
piais velho que havia fugido de um lder cruel dos S'Armunai. Ele vivera um 
tem po com uma Caverna dos Zelandonii, mas no se sentia  vontade com um 
povo cujos
costumes eram muitos diferentes dos seus. Mudou-se para longe e passou a 
'viver sozinho at encontrar a mulher do Cl e seu filho. Juntos, eles o 
criaram. Echozar
aprendeu com a me a linguagem de sinais do Cl, e com Andovan a linguagem 
falada, embora se tratasse de uma mistura de sua prpria linguagem com a 
dos Zelandonii
que ele havia aprendido. Quando, porm, Echozar atingiu a idade adulta, 
Andovan morreu. Sua me no suportou viver sozinha, e sucum biu  
maldio de morte que lhe
fora imposta. Morreu logo depois de Andovan, deixando Echozar mais uma 
vez sozinho.
O jovem no quis viver assim. Tentou voltar para um cl, mas o viam como 
uma pessoa deformada, e recusaram-se a aceit-lo. E, embora fosse capaz 
de falar, foi rejeitado
pelas Cavernas, como uma abominao de espritos misturados. De 
sesperado tentou se matar, e despertou diante do rosto sorridente de 
Dalanar, que o encontrou ferido,
mas no morto, e o levou para a sua Caverna. Os Lanzadonii o aceitaram, e 
ele passou a idolatrar o homem alto, mas foi Joplaya a quem amou.
Ela foi gentil com ele, falava com ele, e o ouvia, e at mesmo lhe fez uma 
linda tnica enfeitada para a sua cerimnia de adoo pelos Lanzadonii. Ele a 
amava tanto,
que doa s de pensar, mas achava que no tinha nenhuma chance. Pelejou 
consigo mesmo, por um longo tempo, a fim de reunir coragem suficiente para 
perguntar se Joplaya
queria ser a sua parceira, e mal pde acreditar quando ela, finalmente, 
aceitou. Isso foi depois que Jondalar, o primo da lareira dela, retornou com 
Ayla, e dos 
quais, imediatamente, passou a gostar. Eles no o trata ram como se fosse 
algum diferente.
Aonde quer que Echozar fosse, as pessoas o encaravam. As caractersticas 
com binadas que ele herdou do Cl e dos Outros no eram muito atraentes. 
No tama nho, ele 
tinha a altura de um homem mediano dos Outros, mas manteve o forte fisico 
corpulento, as pernas relativamente curtas e o corpo cabeludo do Cl. Seu 
Pescoo era comprido 
e conseguia falar, e tinha inclusive, um ligeiro queixo, como os Outros, 
embora recuado, fazendo-o parecer diminuto. O nariz proeminente e a 
extensa arcada superciliar 
com sobrancelhas incontrolveis atravessando a testa numa nica linha eram 
inteiramente do Cl. A testa no era. Ela se elevava cheia Como a de 
qualquer homem dos 
Outros.
Para muita gente, a combinao parecia bizarra, como se ele no tivesse sido 
encaixado direito, mas no para Ayla. Ela havia crescido com o Cl e,
conseqentemente adotara
o seu padro de beleza. Sempre se achara grande e feia. Era alta, e seu 
rosto, liso e achatado demais. Embora ela achasse atraente a aparncia da
538
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mistura, para todos os demais Echozar era feio, exceto pelos olhos. Um 
lquido escuro,  noite, e cintilando realces castanhos sob o sol, os seus 
enormes olhos marrom-escuro 
tinham uma profunda intensidade, uma forte seduo, eram a' tamente 
inteligentes e, quando a olhavam, revelavam o seu amor por Joplaya.
Ainda que no o amasse, Joplaya sentia uma espcie de afinidade com Echo 
e um genuno respeito por ele. Se bem que as pessoas a encarassem por 
causa sua beleza extica, 
ainda assim essa coisa a fazia sentir-se diferente, e a odiava tan to quanto 
ele. Sentia-se, tambm,  vontade com Echozar, podia conversar com ele. 
Decidiu que, 
como no podia ter o homem a quem amava, se acasalaria con o homem que a 
amava, e sabia que nunca encontraria um homem que a
amasse mais do que Echozar.
Quando o grupo que vinha do acampamento principal chegou perto, AyLa 
percebeu que Brukeval ficou tenso. Ele olhava fixamente para Echozar, e 
no
havia amabilidade
em sua expresso. Isso a fez dar-se conta das semelhanas e diferen as 
entre eles. No caso de Echozar, foi a me quem deu  luz uma criana 
mestia com Brukeval,
tinha sido a av. As caractersticas do Cl de Echozar eram certamente 
mais pronunciadas, mas para ela - e para todos ali - a mestiagem bvia em 
ambos. Brukeval,
contudo, parecia mais com os Outros do que Echoza!
Conquanto Ayla estivesse aprendendo a apreciar o que era agradvel para 
Outros, ainda considerava atraentes as fortes feies do Cl. Tinha falado s 
quando
disseincera
a Brukeval no entender por que ele achava que nenhuma mulher desejaria. 
Talvez at o considerasse uma possibilidade, se no fosse se acasalar
com Jondalar e fosse
uma mulher Zelandonii. Ela, porm, sabia que no era nada de uma mulher 
Zelandonii, pelo menos ainda no, e, pessoalmente, no
consideraria de modo algum Brukeval
uma possibilidade. Ao mesmo tempo em que achava atraente e que tinha 
muito a oferecer, havia algo nele que a perturbava.
O  membro do Cl que ele mais lhe lembrava
era Broud, e o modo como olhava para, Echozar, naquele momento, explicava 
por qu.
- Saudaes, Brukeval - cumprimentou Jondalar, indo na direo dele com
um sorriso no rosto. - Creio que j conhece Dalanar, o homem da minha
larei
ra, mas j foi apresentado  minha prima, Joplaya, e a Echozar, o seu
Prometkdo?
- Jondalar estava preparando-se para fazer as apresentaes formais, e
Echojar
havia levantado as mos,  espera, mas, antes que ele pudesse comear,
Brukeval
o interrompeu.
- No desejo tocar num cabea-chata! - afirmou, colando as mos ao lado
do corpo. Em seguida virou-se e foi embora caminhando com um ar insoleni,
Todos ficaram aturdidos. Foi Folara quem, finalmente, falou.
- Como ele pde ser to grosseiro? - exclamou. - Eu sei que ele culpa os
cabeas-chatas pela morte de sua me... creio que agora devo chamar de 
Cl... mas isso foi imperdovel. Sei que mame ensinou Brukeval a ter um 
comportamento melhor
do que esse, j que ningum mais lhe ensinou. Ela vai ficar estarrecida.
- Minha me pode ter sido uma cabea-chata, ou do Cl. Voc pode afir mar 
isso do que jeito que quiser, mas eu no sou nenhuma das duas coisas - 
alegou Echozar.
- Eu sou um Lanzadonii.
- Sim, voc  - concordou Joplaya, segurando-lhe a mo. - E em breve
estaremos acasalados.
- Ns sabemos que h Cl na linhagem de Brukeval - frisou Dalanar. - Isso  
bvio. Se ele no suporta tocar em algum com essa ascendncia, como 
consegue suportar
a si mesmo?
- No consegue. Esse  problema dele - explicou Jondalar. - Brukeval odeia a 
si mesmo. Quando era jovem, zombaram muito dele, as outras crianas 
costumavam cham-lo
de cabea-chata, e ele sempre negou isso.
- Mas ele no pode mudar o que , por mais que negue isso - afirmou Ayla.
Ningum havia baixado o tom de voz, e Brukeval tinha uma excelente 
audio. E ouviu tudo o que foi dito. Tinha, ainda, outra caracterstica dos 
Outros, que fal tava
ao Cl, pois chorava com lgrimas, e, ao se afastar, as lgrimas inundaram os 
seus olhos. At ela, disse a si mesmo, aps o comentrio de Ayla. Eu pensei 
que ela
fosse diferente. Eu pensei que tinha falado srio, quando disse que me 
levaria em considerao, se no houvesse Jondalar, mas ela tambm acha 
que sou um cabea chata.
Ela no falou srio. Jamais me levaria em considerao. Quanto mais ele pen 
sava naquilo, mais furioso ficava. No  justo da parte dela encorajar uma 
pessoa, se
no fala a verdade. Eu no sou um cabea-chata, no importa o que ela diga, 
no importa o que qualquer um deles diga. Eu no sou um cabea-chata!
Estava escuro, mas o cu j mudara de negro para azul-escuro, com uma 
nesga de dourado contornando as colinas no horizonte oriental, quando o 
grupo da Nona Caverna
dos Zelandonii e o da Primeira Caverna dos Lanzadonii partiram dos seus 
acampamentos. Usavam tochas para seguir caminho at o lugar onde 
Jondalar havia demonstrado
o arremessador de lanas, e ficaram contentes em enxergar a fogueira 
queimando no meio do trecho a cu aberto de solo pisoteado, que outrora 
fora um capinzal. Alguns
caadores j haviam chegado. Quando o Cu se iluminou, a fria neblina 
matinal que se elevava do Rio comeou a preen cher os espaos entre as 
rvores e os arbustos
da periferia, misturando-se com as Pessoas paradas em volta do fogo.
O coro matinal de pssaros estava em seu apogeu, e trinados, gorjeios, chil 
e piados elevavam-se acima do baixo murmrio de vozes, realando o clima
de expectativa. Segurando o cabresto de Huiin, Ayla ajoelhou-se e colocou o 
brao em volta de Lobo, e depois sorriu para Jondalar, que alisava
Raser para mant lo calmo.
Ela olhou em volta, maravilhada; era o maior grupo de caa que j tinha visto. 
Havia muito mais gente do que ela seria capaz de contar. Lembrou que a 
Zelandoni havia
se oferecido para ensinar-lhe a usar as palavras de contar quanti dades 
maiores, e resolveu perguntar a ela. Ayla queria ser capaz de dizer quantas 
pessoas estavam
se movimentando por ali.
Mulheres que estavam para se acasalar no costumavam participar da 
caada Pr-Matrimonial, visto que, normalmente, havia certas restries e 
vrias outras atividades
planejadas para elas. A Primeira fez um rpido ensaio com Ayla, para que ela 
pudesse ser liberada. Aquela caada seria um teste para a utilizao d 
cavalos, o arremessador 
de lanas de Jondalar ia ser posto  prova, e ela seria ne cessria. Ayla 
ficou contente por permitirem que participasse da caada, a
despeito  de seu prximo
Matrimonial. Ela sempre gostou de caar. Se no tivesse aprendido a caar, 
quando vivia sozinha no vale, talvez no conseguisse sobreviver, e isso lhe 
dera uma
certa autoconfiana.
Embora vrias das mulheres que iam se acasalar caassem, somente uma  
quis participar da caada. J que fora aberta uma exceo para Ayla, ela
tambm teve a permisso
de se juntar ao grupo. Quando jovens, a maioria das meninas do mesmo modo 
que os meninos, adorava caar. Aps atingirem a puberda muitas ainda 
caavam, a maioria
porque era onde estavam os rapazes. Muitas gostavam de caar sozinhas, 
mas, depois que as jovens se acasalavam e come vam a ter filhos, a maioria 
ficava to ocupada,
que preferia deixar que os li fizessem isso. Era quando elas passavam a 
desenvolver outros ofcios e talento que agregavam ao seu status, e a 
habilidade de permutar
e barganhar pelas coisa que desejavam, e que no as afastavam muito dos 
filhos. Mulheres que havian caado na juventude, porm, eram favorecidas 
como parceiras.
Elas eram capazes de entender os desafios da caada, apreciar os sucessos 
e ser solidrias nos
fracasos dos parceiros.
Ayla tinha ido  cerimnia da Explorao, organizada na noite anterior pe 
zelandonia, junto com a maioria dos lderes e alguns caadores, mas no hav 
participado,
apenas observara. Atravs da Explorao, foi determinado que uni grande 
manada de auroques estava reunida em um vale prximo,
particularmente bom para uma caada, 
e planejaram ir l primeiramente, mas nada efl garantido. Mesmo um 
Zelandoni sendo capaz de "ver" animais, durante uni Explorao, no dia 
seguinte eles podiam no 
estar no lugar onde foram vistos O vale, entretanto, abrigava um excelente 
prado, que atraa o gado selvagem, se os auroques no mais estivessem, era 
provvel que
outros animais estivessem
por l. Os caadores, porm, esperavam encontrar auroques, pois, naquela 
po ca do ano, o gado se reunia em manadas maiores, e forneciam carne 
deliciosa em grandes
quantidades.
Quando havia em abundncia a comida de que se alimentava, um auroque 
macho adulto media cerca de dois metros at a altura dos ombros e pesava 
prxi mo de uma tonelada
e meia, oitenta centmetros mais alto e mais de duas vezes o peso do seu 
maior descendente domesticado, O auroque tinha a aparncia de um touro 
comum, porm era
muito maior e aproximava-se do tamanho de um mamute. A comida preferida 
pelo auroque era grama, capim verde fresco, sem talos maduros e sem 
folhas de rvores. Eles
preferiam clareiras, margens de flores tas, prados e pntanos, em vez de 
estepes. Embora comessem bolotas e amndoas no outono, como tambm 
sementes de grama, para 
desenvolver uma reserva de gordura, na poca de fome do inverno no 
desprezavam mordiscar folhas e brotos.
A pelagem do touro era normalmente preta e longa, com uma tira clara nas 
costas. Ele tinha uma firme protuberncia de plo crespo na testa, e dois 
chifres compridos, 
mas finos, de um tom cinza esbranquiado de preto, com as pontas 
apontando para frente. As vacas eram menores e mais baixas, e sua pelagem 
ten dia a ser mais clara, 
geralmente com uma tonalidade avermelhada. Normalmen te, apenas os 
muito velhos ou muito novos caam presas de predadores de quatro patas. O 
touro, em sua plenitude, 
no receava nenhum caador, inclusive os hu manos, e no se importava em 
evit-los. Principalmente durante a estao do cio, no outono, mas no se 
limitando a ela, 
ele se mantinha preparado para a luta, e podia atacar com uma ira 
incontrolvel, colher um homem ou um lobo com os chifres, jog-lo no ar e o 
estraalhar, geralmente 
estripando at mesmo um leo das cavernas. Os auroques eram velozes, 
fortes, geis e muito perigosos.
A horda de caadores partiu assim que havia luz suficiente para enxergar. 
Caminhando depressa, avistaram a manada de auroques antes de o sol estar 
mui to alto; o 
vale ficava surpreendentemente perto. Uma extremidade levava a uma 
garganta bastante larga, que afunilava em um estreito desfiladeiro, depois 
se abria novamente 
para um curral natural. No era completamente sem sada, tinha al gumas 
estreitas aberturas, mas o local fora usado anteriormente, embora, em ge 
ral, no o fosse 
mais de uma vez por estao. O cheiro de sangue de uma grande caada 
costumava manter os animais afastados, at o local ser lavado pelas neves
inverno e ficar limpo novamente. Mas, antecipando uma utilizao futura, 
havia sido construdo um cercado, fechando as aberturas, e vrios dos 
caadores andaram 
em volta, para conferi-las e escolher uma posio vantajosa da qual po 
deriam disparar as suas lanas. O uivo de um lobo, uma imitao no to ruim, 
avaliou Ayla, 
foi o sinal de que tudo estava pronto. Ela fora avisada, e manteve o

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brao em volta de Lobo, para det-lo, no caso de ele ficar tentado a 
responder. O estridente grasnido de um corvo foi o sinal de volta.
O restante dos caadores havia cercado a manada, tentando no perturb-la 
demais, uma tarefa difcil com tanta gente. Ayla e Jondalar tinham ficado 
bem mais distante,
porque no queriam que o cheiro do lobo precipitasse alguma coi sa. Ao sinal, 
montaram nos cavalos e avanaram a galope. Lobo corria ao lado. To rpidos 
e fortes
quanto um touro poderia ser, os auroques, entretanto, eram animais de 
manada e havia novilhos entre eles. O rudo de berros e urros e a viso de 
coisas desconhecidas
sendo agitadas em sua direo foi o suficiente para assust- los, e quando 
um deles comeou a correr, os demais logo o seguiram. Com humanos a 
cavalo chegando surpreendentemente
perto, agitando coisas e berran do, alm do cheiro de Lobo, em pouco tempo 
a boiada estourou cegamente em direo  garganta.
A estreita passagem fez com que diminussem a velocidade, ao mesmo tempc 
que, na tentativa de atravess-la, se amontoavam na parte de trs. Em meio 

balbrdia produzida pela
manada, que berrava, bramia e rugia, alguns tentaram desgarra se e seguir 
por outro caminho, qualquer caminho. As pessoas, os cavalos e os bos 
estavam por toda a
parte, fazendo-os voltar, mas, finalmente, um touro velho e determinado 
achou que j era o bastante. Manteve-se firme no solo, pateow terra, baixou 
os chifres, e
foi atingido por duas lanas velozes disparadas pelos arremessadores. Caiu 
de joelhos, e desabou de lado. A essa altura, a maioria havia passado, e a 
cerca foi fechada.
Ento, a carnificina comeou.
Lanas de todos os tipos, compridas e curtas, com ponta de slex, de OSSO 
marfim afiados, voaram sobre os animais encurralados. Os caadores
precisaram se revezar
atrs das estreitas porteiras que os protegiam dos chifres macios e cascos 
afiados. Algumas lanas eram atiradas com arremessadores, e no ape pelos 
de Ayla e Jondalar.
Umas poucas almas aventureiras haviam treinado, e perimentavam o 
arremessador ali, onde alguns erros no fariam diferena, poii auroques no 
iriam a lugar algum,
a no ser, de volta, ao seio da Grande me Terra, no mundo dos espritos.
Em apenas uma manh, conseguiram carne bastante para durar, por ter 
suficiente, toda a Reunio de Vero, e, alm disso, para um grande
Banquete Matrimonial. Depois
que os auroques entraram na armadilha, enviaram mensageiro de volta ao 
acampamento e um segundo grande grupo de caa
partiu para ajudar, e, quando o ltimo animal foi
abatido, todos se apressaram para ciar a carnagem, a preservao e o 
armazeflamento.
Havia vrios mtodos de armazenagem. Por causa da proximidade das
geleiras e do leito  permanentemente congelado que havia em vrios
nveis de
profundidade abaixo da superfcie, a perene camada de gelo do subsolo 
podia ser utiliza da como uma despensa gelada para guardar carne fresca, 
simplesmente cavando- se
buracos no cho. A carne fresca tambm podia ser guardada em tanques ou 
lagos profundos, ou nos tranqilos remansos de riachos e rios. Aumentando-
se o seu peso com
pedras, e marcando-se o lugar com compridas varas, para ser en contrada 
depois, a carne duraria um ano com surpreendentemente pouca deteri
orao. A carne podia,
ainda, ser seca, a fim de durar vrios anos. O problema eram as moscas-
varejeiras, que surgiam no incio do vero, e poderiam rapida mente
estragar a carne colocada
para secar ao sol e ao vento. Muitas fogueiras flimacentas afastariam o pior
dos insetos, mas isso exigia uma constante supervi so e acompanhamento 
em um desagradvel
ambiente esfumaado. Era necess rio, contudo, secar parte da carne, para 
comida de viagem.
Alm da carne, o couro era extremamente importante. Era utilizado para 
mui tas coisas, de utenslios e recipientes a roupas e abrigos. A gordura era 
derretida, para
fornecer calor, iluminao e sustento; o plo, para fibras e acoichoamento, e 
roupas quentes; os tendes eram fibras para se fazerem cordas e amarras 
para vrios
tipos de construes. Os chifres eram usados para se fazerem recipientes, 
vrios dis positivos como dobradias de painis, e at mesmo jias. Os 
dentes costumavam
virar jias e tambm ferramentas. Os intestinos podiam se transformar em 
cobertu ras impermeveis e revestimentos e invlucros para chourios e 
gordura.
Os ossos tinham muitos usos. Podiam se tornar utenslios e pratos, entalhes 
e armas, ser quebrados para se retirar o nutritivo tutano, ou queimados 
como com bustvel
em fogueiras. Nada era desperdiado. Mesmo os cascos e as rapas do couro 
eram fervidos para se fazerem colas e adesivos, os quais tinham muitos usos. 
Em combinao
com tendes, por exemplo, a cola podia ajudar a prender pontas em lanas, 
cabos em facas, e unir componentes de hastes de lanas. Tambm era usa 
da para colar solas
duras s coberturas mais macias para os ps.
Antes, porm, os animais deviam ser esfolados, os pedaos separados, e a 
carne armazenada, e isso precisava ser feito com rapidez Vigias eram 
colocados, para evitar
ladres, os demais carnvoros mais do que dispostos a conseguir uma parte a 
matana por qualquer meio possvel. Uma concentrao to grande de 
auroques batidos atraa
todos os outros animais carnvoros das redondezas. As furtivas
ienas foram as primeiras que Ayla avistou. Estava segurando a sua funda, e
quase sem pensar fez um sinal para Huiin ir atrs da matilha.
Ela precisou desmontar, para apanhar mais pedras, porm a velocidade com
que as enxotou foi motivo mais do que suficiente para colocarem a ela e 
Jondalar
como Vigias.
Praticamente qualquer um podia fazer a carnagem, e inclusive os 1s 
ajudavam. No entanto, manter os carnvoros afastados exigia algum esfor
o e habilidade com o armamento. A alcatia de lobos atraiu a ateno de 
Lobo. O animal ficou ansioso para afastar de sua alcatia os intrometidos da 
matana, mas
Ayla o conteve. Os agressivos carcajus eram os piores. Dois deles, provavel 
mente macho e fmea, que estavam juntos por ser a poca do cio deles, 
borrifaram
uma vaca com suas glndulas de almscar. O cheiro era to ruim, que, de 
retirarem a lana, para dar crdito ao caador, vrias pessoas arrastaram a 
vaca para longe, 
a fim de deixar que os carcajus brigassem entre si e com qualquer outro 
carnvoro que quisesse tentar - uma tarefa nada fcil, j que os carcajus
so conhecidos por defender as suas matanas at mesmo de lees.
Ayla viu zibelinas, agora marrons, por causa do vero, mas que, no inverno,
se tornam arminhos, doninhas inteiramente brancas, exceto pela ponta 
preta da cau da.
Avistou raposas, linces e um leopardo-das-neves com suas pintas, e, na 
periferia um grupo de lees das cavernas, os primeiros que ela via desde a 
sua chegada. Parou 
para observ-los. Todos os lees das cavernas tinham a cor clara, 
geralmente u suave marfim, mas aqueles eram quase brancos. A princpio, 
achou que todos era fmeas, 
mas o comportamento de um deles fez com que olhasse mais atentamenn 
Tratava-se de um macho sem a juba! Ao se informar com Jondalar, este lhe
expliccou que lees das
cavernas daquela regio no tinham juba; ele havia ficado surpreso com o 
fato de os lees do leste terem juba, ainda que um tanto rala.
O cu continha a sua quota de carniceiros saqueadores  espera de uma
chance para pousar ou ser afugentados e voltarem a voar. Abutres e guias, 
despende pouca energia,
flutuavam em correntes termais ascendentes de ar quente que ostentavam 
suas enormes asas abertas. Milhafres
de  gavies e abutres-barbudos pairavam no ar e mergulhavam,
s vezes brigando com imponentes corvos e rou gralhas. Era mais fcil para 
pequenos roedores e rpteis correr ou deslizar e se conder dos humanos, 
mas, em geral,
os predadores de pequeno porte acabavam se tornando as presas. No final, 
tudo seria limpado pelos menores deles, os in tos. Por mais diligentes que 
fossem os vigias,
porm, todos os carnvoros conseguinam a sua quota, antes que fossem 
concludas a carnagem e a armazenag dos auroques, e, embora no fosse o 
seu principal objetivo,
os vigias no se im portavam com o fato de que, ao fim do trabalho de 
vigilncia, tambm c
conseguissem obter algumas peles diferentes.
Uma bem-sucedida primeira caada de Reunio de Vero era um sinal de
que Ela garantia um bom ano para os Zelandonii, e era considerada
especialmente afortunada para
os casais que iam se acasalar. O dia do acasalamento acontecia assim que a 
carne e os demais produtos fossem levados de volta para o acafl mento e 
guardados, a fim
de que no estragassem ou fossem furtados por carnvoros de quatro patas.
Passados a agitao e o trabalho da caada, a ateno do acampamento da 
Reunio de Vero voltou-se para as npcias que logo ocorreriam. Ayla mal 
podia esperara mas 
tambm estava nervosa. Jondalar sentia-se do mesmo modo. Costu mavam 
se apanhar olhando um para o outro, sorrindo quase acanhados, e espe rando 
que tudo sasse bem.
30
A Zelandoni tentava encontrar um tempo para falar a ss com Ayla sobre o 
remdio que evitaria a concepo, mas algo sempre parecia interferir. O 
tempo de Ayla era
bastante exigido, assim como tambm o dela. Por ter sido uma caada 
comunitria, que representou todos os Zelandonii, a Primeira teve de 
realizar cerimnias especiais,
para garantir que os espritos dos auroques fossem apaziguados, e rituais 
mais importantes de agradecimento  Grande Me Terra pela vida de todos 
os animais que
se sacrificaram para que os Zelandonii pudessem viver.
A caada foi por demais bem-sucedida e demorou mais tempo do que o nor 
mal para se realizar tudo que precisava ser feito. A carne foi cortada, e a 
gordura, derretida
e dividida. As peles foram raspadas e colocadas para secar, ou enroladas e 
guardadas nas geladas despensas subterrneas, junto com a carne, ossos e 
outras partes,
e a maioria ajudou, inclusive as mulheres que iam se acasalar. O acasa 
lamento podia esperar.
A Primeira resignava-se com a demora, mas gostaria de ter tido tempo para 
COnversar com Ayla, com mais profundidade, antes de partirem da Nona 
Caver na, quando teria
sido mais fcil avaliar a estrangeira e aprender mais a seu respei to. Quem 
poderia ter adivinhado que a jovem mulher - aos dezenove anos, ainda nova, 
apesar de
Ayla j se achar velha - possusse tanto conhecimento? Ela pare cera to 
ingnua, que isso, de alguma forma, havia dado a impresso de que era
fraca A Zelandoni, porm,
veio a descobrir que havia muito mais coisas tmAyla cio que ela imaginava. E 
sabia que nunca era sensato subestimar um ele mento desconhecido, mas 
no seguira a
sua prpria recomendao.
E, agora, a Zelandoni estava ocupada com outros assuntos. A zelandonia de 
Ckhu realizar os Primeiros Ritos antes do Matrimonial, embora, 
normalmente, torressem depois,
por um motivo bastante especfico. Antes dos Primeiros ritos
 as fmeas eram consideradas moas e no deviam partilhar o Dom dos
prazeres.
sob estrita e cuidadosa vigilncia, as moas eram fisicamente iniciadas e
tornavam-se capacitadas a receber os espritos que iniciariam uma nova vida. 
Antes diss(
elas no eram mulheres completas. Mas os Primeiros Ritos sempre se
realizavam durante as Reunies de Vero, e normalmente havia um perodo 
aps a poca primeira
lua delas e antes dos Primeiros Ritos em que as moas ficavam em uma 
espcie de limbo. Durante esse perodo, os homens as achavam
irresistivelmente atraentes, talvez
por serem proibidas.
Havia sempre uma segunda cerimnia, ao final da Reunio de Vero, para 
moas cujo sangramento comeara durante o vero, mas o longo intervalo as 
Reunies era penoso.
Homens jovens, e alguns no to jovens, viviam constan temente atrs de 
meninas pubescentes, e festivais, durante o ano, para
honrarem Me, deixavam as jovens mais
cientes de suas prprias necessidades, principalmente aquelas que tinham o 
primeiro perodo menstrual no outono. Me al ma desejava que sua filha 
comeasse o seu
perodo lunar nessa poca, tendo  frente um inverno inteiro de trevas e 
reduzidas atividades exteriores
Embora recasse um estigma de vergonha sobre aquelas que no esperavam  
ter os seus Primeiros Ritos, algumas moas, inevitavelmente, sucumbiam s
persistentes adulaes.
Mas, no obstante a presso implacvel, por ceder a ela, as rn tornavam-se 
menos desejveis como parceiras, pois isso indicava falta de suficiente. Para 
alguns,
parecia profundamente injusto estigmatizar uma mulher porque, quando 
moa, fez o que talvez parecesse, na ocasio, uma ingnua
transgresso de um costume aceito. Havia,
porm, aqueles que julgavam isso um im tante teste do carter essencial, de 
suas inerentes integridade, firmeza e
perseveravam que eram consideradas importantes caractersticas
em uma mulher.
Mes recorriam inevitavelmente  ajuda da zelandonia para tentar evitar 
indiscrio, e os Primeiros Ritos eram realizados, em todo o caso, pois umi 
vem no podia 
se
acasalar sem t-los feito. A zelandonia sempre tentava gar a discrio dos 
homens escolhidos para "iniciar" as jovens que j tinham
sido iniciadas, a fim de que nada
fosse divulgado. Mas os que tinham se submetido ou eram conhecidos no 
apenas pela zelandonia, que se encontrava entre aqueles que i mamente 
acreditavam que a experincia
seria revelada, mas tambm dos muita gente pelo menos desconfiava.
Naquele vero, contudo, surgira um problema raro. Uma jovem, Jani da 
Poro Sul da Vigsima Nona Caverna, que ainda no tivera os Primeiros
ritos  estava grvida e queria
se acasalar com o jovem que a tinha iniciado precocemente. Peridal, tambm 
da Poro Sul daVigsima Nona Caverna, no estaVa ansioso para se acasalar 
com ela, apesar
de ter sido persistente em persegu-la.
grande, com tantos nveis, que foi muito fcil achar locais isolados para os 
seus encontros.
A seu favor, dizia-se que Peridal era jovem demais. No tinha certeza se j 
queria se acasalar, e sua me no estava to ansiosa para que o filho 
assumisse tal compromisso,
principalmente com uma moa que havia se entregado. A zelan donia, porm, 
estava usando toda a sua presso persuasiva a fim de incentiv-los a 
concordar. Conquanto
no fosse essencial para uma mulher se acasalar por estar para dar  luz, 
era prefervel que uma criana nascesse da lareira de algum homem, 
especialmente quando
se tratava do primeiro filho.
O outro lado da questo era que, geralmente, se uma mulher engravidasse 
antes de se acasalar, ela se tornava mais desejvel, pois j teria provado 
que seria capaz
de produzir filhos para a lareira de um homem, mas era forte o estigma da 
vergonha por ela no ter mostrado domnio suficiente para esperar pelos 
Primeiros Ritos.
Janida e sua me sabiam disso, mas sabiam, tambm, que, se Janida j 
tivesse sido Abenoada ao se acasalar, isso seria considerado sorte, e visto 
como um favor.
Elas esperavam que uma coisa compensasse a outra.
Muitas pessoas comentavam sobre a moa, algumas achando uma coisa, e 
algu mas achando outra, mas a maioria concordava que se tratava de uma 
situao inte ressante,
principalmente a abordagem feita por Janida e sua me. Quem tomou o 
partido de Peridal e sua me concorda que ele era jovem demais para 
assumir as responsabilidades
do acasalamento; os demais acreditavam que, se a Me j havia escolhido um 
esprito para Abenoar a moa, ento Ela devia julgar que ele estava 
capacitado para ser
o homem da lareira. E, apesar da falta de controle, talvez Janida fosse uma 
pessoa de sorte, e Peridal devia ficar feliz por se acasalar com ela. Alguns 
homens at
mesmo consideravam a idia de se acasalar com a moa, independente do 
estigma da vergonha, se o rapaz no quisesse. Se Janida ficou grvida to 
depres sa, ela devia
ser realmente uma favorecida entre as Abenoadas por Doni.
Os jovens, que se preparavam para os seus Ritos de Primeiros Prazeres, 
estavam todos abrigados em um alojamento especial vigiado, prximo ao 
alojamento da Zelandonia
Decidiu-se que a moa grvida ficaria com as outras e seguiria com a ce 
tlfllflja completa, j que ela, de qualquer modo, deveria ter os Primeiros 
Ritos antes de
se acasalar. Achava-se que era preciso ensinar a Janida o que as mulheres 
precisa Vam saber, mas, quando a puseram junto com as outras, algumas 
foram contra.
- Os Ritos dos Primeiros Prazeres so uma cerimnia para iniciar uma moa 
e torn_la uma mulher. Se Janida j foi iniciada, por que ela est aqui? Isso 
deve ser
Para moas que esperam, no para moas que trapaceiam reclamou uma delas, 
alto o bastante para todas ouvirem.
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 549
Algumas concordaram, mas nem todas. Uma delas se ops: - Ela est aqui 
porque deseja se acasalar no Primeiro Matrimonial, e uma moa no pode se 
acasalar antes de
ter os Primeiros Ritos, e, alm do mais, a Me a Abenoou.
Outras, algumas das quais haviam iniciado os seus perodos lunares no mui, 
to depois da Reunio de Vero anterior, e de quem se dizia j terem 
experimenta do
ritos particulares de iniciao, tentaram ser mais receptivas, porm a 
maioria achou necessrio ter mais cuidado. Sabiam que o seu bom nome 
provavelmente
dependeria da discrio do homem que fora escolhido para elas, e este 
poderia
ser amigo de uma das moas que haviam esperado. Elas no queriam ofender 
gum. Estavam
mais do que cientes de que podiam sofrer uma vergonha seme lhante, e viam 
os problemas que aquilo podia provocar.
Janida sorriu para aquela que foi a seu favor, mas nada disse. Ela se sentia 
um pouco mais velha e mais sensata do que a maioria das garotas no 
alojamento. menos,
sabia o que esperar, no era como as que aguardavam e estavam mente 
ansiosas e preocupadas, e tambm vinha adquirindo mais coragem enfrentar 
todos os seus detratores.
Alm disso, estava grvida, Abenoada por Doni no importava o que 
dissessem, e encontrava-se na fase da gravidez em que
parec cia estar inundada por sensaes otimistas.
Ela no sabia que certos hormnios em seu corpo tinham sido ativados pela 
gravidez, sabia apenas que estava feliz pq ter um beb, e sentia-se contente.
Ainda que as moas tivessem de ficar reclusas e bem vigiadas, de algum mod 
os comentrios feitos quando Janida se juntou a elas, principalmente a frr 
sobre os Primeiros
Ritos serem "para moas que esperam, e no para moas trapaceiam", 
transmitiram-se por todo o acampamento. Quando a
Primeira soube disso, ficou furiosa. S podia ter
sido um deles, da zelandonia, que espa lhara a notcia - ningum mais teria 
ficado to perto das moas - e quis ber quem tinha sido.
Ayla e Jondalar haviam passado a maior parte do dia trabalhando as peles 
auroques, primeiro raspando as gorduras e as membranas da parte interna, 
plo da externa,
com raspadores de slex, e depois as embebendo em uma so de miolos de 
vaca, transformados manualmente em uma pasta misturada O gua, que dava 
ao couro cru uma espantosa
e macia elasticidade. Em seguida a  pele era enrolada e torcida, para 
espremer o mximo possvel de lquido,
geralmente usando-se duas pessoas, uma em cada extremidade.
Pequenos buracos, cerca de oito centmetros de distncia um do outro, eram 
ento feitos por tO beirada. Construa-se uma armao retangular, maior do 
que todo o
couro, quatro varas, e a pele mida era presa a ela, com uma corda enfiada 
em cada raco e amarrada firmemente. Depois disso, comeava o trabalho 
rduo.
Com a armao presa firmemente, pousada contra rvores ou sobre uma tra 
ve horizontal, a pele era estirada. Um pau com a extremidade chata e 
arredonda da era usado
para estocar a pele, para cima e para baixo, de um lado para o outro, 
repetidamente, esticando-a o mximo possvel, at que o couro estivesse 
final mente seco, aps
meio dia de trabalho. Nessa fase, ele ficava quase branco, com um macio e 
malevel acabamento acamurado. Ento, j podia tornar-se algo para se 
vestir, mas, se
molhasse de novo, precisaria ser novamente estirado, caso con trrio, 
quando secasse, se tornaria um duro couro cru. Para que a pele mantivesse a 
sua textura elstica
e aveludada, mesmo aps ser lavada, deveria passar por um outro processo. 
Havia vrias opes, dependendo do produto final desejado.
O mais simples era defumar a pele. Um mtodo era utilizar uma pequena 
tenda cnica de viagem, bloquear o buraco de sada da fumaa e fazer uma 
fo gueira em seu interior.
Vrias peles podiam ser penduradas dentro dela, perto do topo, e a entrada 
ficava bem fechada. Depois que a fumaa enchia a tenda e en volvia as peles, 
recobria
cada uma das suas fibras de colgeno. Aps a defumao, ainda que se 
molhasse ou fosse lavado, o couro permanecia flexvel. A fumaa tambm 
mudava a cor da pele,
dependendo do tipo de madeira utilizado, e podia ir de tons de amarelo at o 
castanho amarelado, e do cinza acastanhado ao mar rom escuro.
Outro processo era misturar p de ocre vermelho com sebo gordura der 
retida em gua fervente - e esfregar a mistura no couro. No apenas lhe 
dava a cor vermelha,
que podia variar de tons, indo do vermelho alaranjado ao castanho 
avermelhado escuro, como tambm agia como repelente  gua.
Um graveto ou osso lisos podiam ser
usados para friccionar a substncia gordurosa, comprimin do a superfcie 
lustrando-a, para se obter um acabamento mais duro e brilhante, tOrnando 
praticamente 
prova d'gua. O ocre vermelho inibia a deteriorao pelas bactrias e 
tambm era um repelente de insetos, inclusive os pequenos inse tos 
parasitas que habitam os
animais de sangue quente, como os huuianos.
Havia ainda um outro processo, no to bem conhecido e que exigia mais 
trabalho, para tornar num branco imaculado a cor natural quase alva do 
couro.
Tratava-se de um
processo propenso ao fracasso, pois era difcil manter o couro flexvel mas 
tinha um efeito estonteante, quando era bem-sucedido. Ayla o
aprendera com Crozie, uma
velha
Mamuti. Ela comeava guardando a sua urina, deixando-a ficar at que, 
atravs do processo qumico natural, se transformasse em
amnia, um agente alvejante. Aps ser raspado, o couro era embebido em 
am ia, em seguida lavado com razes saponrias, que produziam
uma espumae ento amaciado
com a mistura de miolos e lustrado com p de caulim,
argila pura, misturada com sebo puro.
Ayla havia feito apenas um nico traje branco, e Crozie a tinha ajudado, mas 
ela notara um filo de caulim no muito distante da Terceira Caverna, e que 
podia tentar
novamente fazer um outro. Ficou imaginando se a espuma, feita, de gordura 
e cinzas de madeira, que aprendera com os Losadunai, funcionaria melhor do 
que erva-saboeira.
Enquanto trabalhava, Ayla ouviu parte dos comentrios sobre Janida, e ach 
a situao interessante, pois se tratava de uma fascinante conceituao 
sobre a tradies
e os costumes do Zelandonii. Para ela, no havia dvida de que Pericial 
iniciara o beb que crescia dentro de Janida, j que ambos haviam dado 
indicaes de que
nenhum outro homem a tinha penetrado, e Ayla estava convencida de que 
eram as essncias dos rgos masculinos que comeavam uma
gravidez Mas, enquanto voltavam para
o acampamento da Nona Caverna, aps um dia exaustivo de trabalho com as 
peles, ela perguntou a Jondalar sobre a insistnci dos Zelandonii para a 
realizao dos Primeiros
Ritos antes de as mulheres ficarem livres para fazer as suas prprias 
escolhas.
- No entendo que diferena faz, entre o rapaz ter iniciado Janida no
inver
no passado, ou outro homem inici-la aqui, j que ela no foi forada -
observou Ayla. - No  como o caso de Madenia dos Losadunai, que foi 
forada -
por aquele bando de rapazes, antes dos Primeiros Ritos. Janida  um pouco
jovem
demais para ficar gravida, mas eu tambem era, e nem mesmo sabia o que 
eram
os
Primeiros Ritos at voc me mostrar.
Jondalar sentia muita afinidade e compaixo pela jovem mulher. Ele qu 
brara as tradies aceitas pelo seu povo, durante a iniciao  idade adulta, 
nando-se pela
sua donii-mulher. Quando descobriu que Ladroman... Madroman os andara
bisbilhotando, que havia se escondido e visto os dois, e depois con do a todo
mundo que eles
planejvam se acasalar, Jondalar ficou furioso. O  socou repetidamente,
quebrando-lhe os dentes. Madroman tambm
queria Zolena para sua donii-mulher - todos queriam -
mas ela escolheu Jondalar,  no Madroman.
Jondalar achava que entendia por que Ayla se sentia daquele modo. Ela
no havia nascido ali, e no apreciava muito bem a maneira como os Zelandon 
sentiam a respeito
dos costumes com os quais viveram toda a sua vida, ou podia ser difcil ir 
contra as tradies conhecidas. Ele no tinha a total
compreenso de que ela rompera com
as tradies do Cl e havia pago terrivelmente por essas  conseqncias; ela 
quase morreu, por causa disso, porm no mais tinha re de questionar as 
tradies de 
qualquer
um.
- As pessoas so mais tolerantes com quem vem de outro lugar - sai 
Jondalar -, mas Janida sabia o que esperar. Eu s espero que o rapaz se una
a ela e que sejam felizes juntos, mas, mesmo se ele no fizer isso, soube que 
h algunS homens que, de bom grado, se acasalariam com ela.
- Creio que sim. Janida  uma mulher jovem e atraente, e vai ter um beb, 
que poder levar  lareira de um homem, se ele for digno dela - comentou 
Ayla.
Deram algumas passadas em silncio, e ento Jondalar falou:
- Acho que o Matrimonial desta Reunio de Vero ser lembrado por mui to 
tempo. H Janida e Peridal, que provavelmente estaro entre os mais jovens 
a terem se acasalado,
se decidirem fazer isso, mesmo sem a gravidez precoce dela. Eu acabo de 
retornar de uma longa Jornada, voc veio de muito distante, e, por tanto, as 
pessoas vo
comentar isso, mas no creio que ningum aqui imagine o quanto realmente  
longe. E tambm h Joplaya e Echozar. Ambos tm um pas sado e uma
descendncia diferentes
de qualquer um outro, S espero que as pes soas que se opem no criem
embaraos. Eu mal posso acreditar no que fez Brukeval. Achava que fosse
mais educado, apesar
de como se sente.
- Echozar teve razo, ao dizer que no era do Cl - afirmou Ayla. - A me
dele era, mas Echozar no foi criado por eles. Mesmo se o tivessem aceito,
acredito que
ele acharia difcil viver com o Cl. Ele conhece, mais ou menos, os sinais
deles, mas nem ao menos percebe que usa os sinais das mulheres.
- Sinais das mulheres? Voc nunca me falou disso - queixou-se Jondalar.
-  algo sutil, mas existe uma diferena. Os primeiros sinais que todos os 
bebs aprendem so os da me, mas, quando crescem, as meninas ficam com 
as mes e continuam
aprendendo com elas. Os meninos passam a fazer mais coisas com os homens, 
e comeam a aprender o jeito deles - explicou Ayla.
E o que voc me ensinou, e o Acampamento do Leo? - perguntou
Jondajar
Ayla sorriu.
Fala de beb - respondeu.
- Quer dizer que, quando eu conversava com Guban, usava fala de beb?
- protestou Jondalar, consternado.
- Para ser honesta, at menos do que isso, mas ele entendeu. So fato de 
voc Saber algo, de tentar falar do modo correto, o impressionou - 
justificou-se Ayla.
O modo correto? Guban achava que o modo dele falar era o correto? - pergI 
Jondalar.
Claro. E voc no?
Creio que sim - disse ele, e depois sorriu. - Qual voc acha que  o 1 
correto?
O modo correto  sempre qualquer um com o qual se est acostumado.
Nomomento, os modos do Cl, dos Mamuti e dos Zelandonii so todos corre
tos, mas depois, quando eu falar apenas o Zelandonii durante muito tempo,
no terei dvidas em achar que  o modo correto de se falar, mesmo se no 
falar CO retamente,
e provavelmente nunca falarei. A nica linguagem que saberei falar 
corretamente  a do Cl, mas apenas do cl em que fui criada, e no  nada
parecida com a que  falada
por aqui - disse Ayla.
Ao chegarem ao pequeno riacho, Ayla notou que o sol se punha e
novamente estava envolvido pela gloriosa cor chamejante. Os dois pararam 
um instante,
para
observar.
- A Zelandoni me perguntou se eu queria ser escolhido para os Primeiros 
Ritos de amanh, provavelmente para Janida - informou Jondalar.
- Ela lhe pediu isso? - surpreendeu-se Ayla. - Marthona disse que homens 
nunca sabem com quem vo estar, e eles jamais devem revelar.
- Ela no pediu exatamente. Falou que queria algum que no fosse discreto, 
mas cuidadoso. Ela disse que sabia que voc est grvida, e achava eu 
saberia como tratar
algum que talvez precisasse do mesmo tipo de preocupao. Quem mais 
poderia fazer isso? - indagou.
- E voc vai fazer isso? - perguntou Ayla.
- Pensei a respeito. Houve uma poca em que eu estaria mais do posto, vido, 
mas respondi que no.
- Por qu? - quis saber ela.
- Por sua causa - disse ele.
- Por minha causa? Voc acha que eu faria objeo?
- Voc faria?
- Eu sei que  um costume do seu povo, e outros homens que esto acasi 
fazem isso - alegou Ayla.
- E voc concordaria, mesmo gostando ou no, no  mesmo?
- Suponho que sim - concedeu ela.
- O motivo da minha recusa no foi por achar que voc faria objeo. 
embora talvez eu no gostasse se voc resolvesse ser uma donii-mulher 
durantt estao. Foi porque
eu no acho que possa dar a Janida a ateno que ela merece. Eu ficaria 
pensando em voc, comparando-a com Janida, e isso seria
injuSto com ela. Eu sempre tive maior tamanho
do que a maioria, iria me conter, ten cuidadoso e delicado, para no 
machuc-la, e ficaria o tempo todo desejalU tar com voc em vez dela - 
confessou. - No me importo
em ser cuidadoso delicado, mas ns nos encaixamos bem. No preciso me 
preocupar em
machucar voc, pelo menos por enquanto. Mais adiante, eu no sei, mas, 
quando
a ocasio,
poderemos achar um jeito
Ela no  fazia idia do quanto ficaria contente com a recusa dele. Ayla
sabia quanto a maioria dos homens achava atraentes essas jovens, e 
perguntou-se se no estava sentindo cimes. No queria sentir, pois ouvira o 
que Zelandoni disse 
na
reunio das mulheres, e ela no teria se oposto, se Jondalar tivesse aceito a 
oferta, mas estava contente por ele no ter aceito. Tudo o que ela conseguiu 
foi dar
um sorriso, um enorme e radiante sorriso, quase rivalizando com o pr-do-
sol, que dava a Jondalar um clido fulgor.
Todos os casais que iam se acasalar se reuniram com a zelandonia, no dia se 
guinte  cerimnia dos Ritos dos Primeiros Prazeres. A maioria era de 
jovens, mas havia
gente de meia-idade e at mesmo alguns bem velhos, j passando dos cin 
qenta anos. A despeito da idade, todos estavam emocionados e ansiosos 
pela rea lizao do
evento, e a maioria tinha uma relao amistosa uns com os outros, o incio do 
vnculo especial entre as pessoas que se acasalavam no mesmo Cerimonial de 
Acasalamento.
Ali eram feitas muitas amizades que durariam toda a vida.
Ayla deixou Lobo com Marthona, que se disps a ficar com ele, mas o deixou 
preso a uma corda, para evitar que o animal a seguisse. Antes de sair, 
reparou que Marthona
produzia mesmo uma influncia tranqilizadora, e o lobo parecia 
descontrado quando ela estava com ele.
Ao chegarem ao alojamento da zelandonia, Ayla viu Levela e um hon que no 
conhecia. Levela acenou, para eles se aproximarem, e apresentou todos a 
Jondecam, um homem
de estatura mediana, barba ruiva, sorriso agradvel e um olhar travesso.
- Ento voc  do Lar Mais Antigo - disse Jondalar. - Kimeran e eu so mos 
velhos amigos. Recebemos juntos os nossos cintos de virilidade. Eu o vi na 
caada aos bises.
No sabia que tinha se tornado lder da Segunda Caverna.
- Ele  meu tio, o irmo mais novo da minha me - informou Jondecam.
- Tio? Vocs parecem colegas da mesma idade - surpreendeu-se Ayla.
- Ele  apenas poucos anos mais velho do que eu, e  mais como um irmo 
mais velho para mim. Minha me tinha mais ou menos a idade de uma moa 
durante os Primeiros
Ritos, quando o irmo dela nasceu - explicou Jondecam.
Ela sempre foi para ele como uma segunda me, e ainda . Quando a sua me,
a minha av, morreu, a minha me tomou conta dele. Ela era muito jovem, 
quando
se acasalou, mas o parceiro dela morreu muito cedo. Eu sou o primognito 
dela,
e tenho uma irm mais nova, mas s me lembro vagamente do homem da 
minha
lareira. Ela foi chamada para a zelandonia, e no voltou a se acasalar.
- Eu me lembro do vexame que dei - contou Jondalar. - Vi a me de ICimeran 
e fiz um daqueles comentrios tpicos sobre uma jovem atraente estar en 
tre as mes, e 
perguntei que beb estava completando os seus ritos de virilidade -
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sorriu. - Podem imaginar como me senti, quando ela disse que estava ali por 
causa de Kimeran. Ele era to grande quanto eu! Ento ela me disse que era 
irm dele.
Aps ficarem ali por uns instantes e parecer que a zelandonia estava 
preparan do-se para comear, chegaram mais duas pessoas, os jovens Janida 
e Peridal. O casal 
ficou parado na porta, aparentando nervosismo e um pouco de medo, e, por 
um instante, pareceu prestes a fugir dali. De repente, Levela deixou o grupo 
- encaminhou-se 
rapidamente em direo a eles.
- Saudaes eu sou Levela da Poro Oeste da Vigsima Nona Caverrn Vocs 
so Janida e Peridal, no  mesmo? Creio que fui apresentada a voc, J 
quando veio colher 
pinhas no Acampamento de Vero, h um ou dois anos. Estou com Ayla e 
Jondalar. Ela  a tal dos animais, e ele  irmo do parceiro
da minha irm. Entrem, e venham
conhec-los - sugeriu comeando a conduzlos para dentro. Os dois pareciam 
ter perdido a fala.
- Ela  irm de Proleva, no ? - perguntou Joplaya baixinho.
- , e at vejo nela o jeito de Proleva acolher algum - comentou Ayla
- Joplaya e Echozar tambm esto aqui,  o casal dos Lanzadonii que vaia 
acasalar na mesma cerimnia que a gente - dizia Levela ao se aproximar. - 
este  o meu Prometido.
Jondecam da Segunda Caverna dos Zelandonii, aprese to-lhe Janida e 
Peridal, ambos da Poro Sul da Vigsima Nona Caverna. - olhando para o 
jovem casal: -  isso
mesmo, no ?
-  - respondeu Janida, sorrindo nervosamente e, ao mesmo tempo, e 
rugando a testa, preocupada.
Jondecam estendeu ambas as mos para Peridal.
- Saudaes - cumprimentou com um largo sorriso.
- Saudaes - respondeu Peridal, segurando as mos dele, com um frouxo 
aperto e sem saber o que mais dizer.
- Saudaes, Peridal - disse Jondalar por sua vez, tambm estendendo as 
mos. - Eu o vi na caada?
- Eu estive l - falou o rapaz. - Eu vi voc.., num cavalo.
- Sim, e Ayla tambm, imagino.
Peridal parecia constrangido e sem saber o que dizer.
- Voc teve sorte? - indagou Jondecam.
- Tive - afirmou Peridal.
- Abateu duas vacas - disse por ele Janida -, e uma tinha um bezerro dentro 
dela.
- Voc sabia que a pele desse bezerro d timas roupas para um beb. 
perguntou Levela. - Ela  muito fina e macia.
- Foi o que a minha me disse - retrucou Janida.
- Ns no fomos apresentadas - interrompeu Ayla. Estendeu ambas as mos. 
- Eu sou Ayla, outrora do Acampamento do Leo dos Mamuti, mas agora
da Nona Caverna dos
Zelandonii. Em nome da Grande Me Terra, Mut, tam bm conhecida como 
Doni, eu a sado.
        Janida ficou um pouco chocada. Ela nunca tinha ouvido algum falar 
to diferente. Seguiu-se um momento de silncio constrangido. Ento, como 
se lem brasse de suas  boas maneiras, ela falou:
        - Eu sou Janida da Poro Sul da Vigsima Nona Caverna dos 
Zelandonii. Em nome de Doni, eu a sado, Ayla da Nona Caverna dos 
Zelandonii.
        Em seguida, Joplaya deu um passo  frente e estendeu as mos para a 
moa.
        - Eu sou Joplaya da Primeira Caverna dos Lanzadonii, Filha da lareira 
de Dalanar, Fundador e Lder dos Lanzadonii. Em nome da Grande Me, eu a 
sa do, Janida. Este  o meu Prometido, Echozar, da Primeira Caverna dos 
Lanzadonji.
        Janida olhou fixamente para o casal, literalmente boquiaberta 
enquanto os encarava. Ela no era a primeira a parecer surpresa, mas, da 
maioria, parecia a menos capacitada a se controlar. Ento, como se 
subitamente percebesse o que estava fazendo, fechou a boca e o seu rosto 
ficou de um vermelho intenso.
        - Eu... Eu lamento. Minha me ficaria muito zangada, se soubesse o 
quan to fui mal-educada, mas no consegui evitar. Vocs dois parecem to 
diferentes, mas voc  linda, e ele.., no - disse ela, e voltou a enrubescer. - 
Desculpem. Isto ... Eu no quis dizer isso... Eu apenas...
        - O que voc quis dizer  que ela  muito bonita e ele  muito feio - 
interveio Jondecam, com um piscar de olhos. Olhou para ambos e sorriu. -  
verdade, no  - houve um momento de silncio embaraoso, e ento 
Echozar falou.
        - Voc tem razo, Jondecam. Eu sou feio. No consigo imaginar por 
que essa linda mulher me quis, mas no vou questionar a minha sorte - 
comentou Echozar, e depois deu um sorriso, que iluminou os seus olhos.
        - Ver um sorriso num rosto do Cl sempre surpreendeu Ayla. Pessoas 
do Cl nao sorriam. Para elas, mostrar os dentes era visto como uma ameaa 
ou uma nervosa demonstrao de subservincia. Mas, de algum modo, a 
expresso mudou a configurao do rosto de Echozar, aliviou as fortes 
feies do Cl e o fez Parecer muito mais acessvel.
        Alis, eu me sinto contente por voc estar aqui, Echozar - afirmou 
Jondecam. - Do lado desse fortudo - apontou para Jondalar -, todos ficam 
parecendo pssimos, mas voc nos faz, a mim e a esse rapaz, parecer timos. 
As mulheres, por outro lado, so todas belas.
Jondecani foi to sincero, que fez todo mundo sorrir e relaxar. Levela olhou
para ele com amor nos olhos.
        - Oh, muito obrigada, Jondecam - disse ela. - Mas voc precisa 
admitir que os olhos de Echoz so to incomuns quanto os de Jondalar, e no 
menos admirveis. Eu nunca tinha visto olhos negros to bonitos, e o jeito 
como ele olha para Joplaya me fez entender por que os dois vo se acasalar. 
Se ele me olhas desse jeito, seria difcil rejeit-lo.
        - Eu gosto da aparncia de Echozar - comentou Ayla - mas concordo 
que os olhos dele so o melhor de suas feies.
        - Se  para todos dizermos com sinceridade o que achamos - falou 
Jondecam -, voc tem um modo incomum de falar, Ayla. Demora um pouco 
para a gente se acostumar, mas eu gosto dele. Faz com que as pessoas 
notem prestem ateno. Voc deve ter vindo de um lugar muito distante.
        - Muito mais distante do que possa imaginar - rebateu Jondalar.
        - Quero perguntar mais uma coisa - acrescentou Jondecam. - Cad 
lobo? Outras pessoas falaram que o conheceram, e eu queria conhec-lo.
        Ayla sorriu para o homem. Era to direto e honesto, que ela no podia
evitar de gostar dele, e tinha um jeito to descontrado e  vontade consigo 
mesmo, fazia todo mundo se sentir da mesma maneira.
        - Lobo est com Marthona. Achei melhor para ele e para todo mundo 
que ele ficasse longe daqui. Mas, se der uma passada no acampamento da 
Nona Caverna terei prazer em apresent-lo, e tenho um pressentimento de 
que ele tambm vai gostar de voc - adiantou Ayla. - Todos vocs so bem-
vindos - falou, olhando para todos, inclusive o jovem casal, que j sorria de 
um modo mais natural e  descontraido
        - Sim, sem dvida - acrescentou Jondalar. Ele gostou dos casais que 
tinha conhecido, mas particularmente de Levela, que era uma mulher 
socivel e doce, e de Jondecam, que lhe lembrava seu irmo Thonolan.
        Perceberam que a Primeira estava de p, no centro do alojamento, 
esperando em silncio pela ateno de todos. Quando a obteve, falou sobre 
a seriedade do compromisso que iam assumir, repetiu algumas coisas que 
havia dito anteriormente as mulheres, e forneceu algumas instrues sobre 
o que era esperado no Matrimonial. Depois, alguns membros da zelandonia 
informaram-lhes o lugar onde deveriam ficar e explicaram para onde 
deveriam caminhar pelo que Fizeram um ensaio dos passos e dos movimentos.
Antes de sarem, a Primeira voltou a falar:
        - A maioria de vocs sabe disso, mas quero repetir agora, para ficar, 
claro. Depois do Matrimonial, durante o perodo de meio ciclo da 
lua...aproximadamente quatorze dias, nas palavras de contar... os casais 
recm-acasalados no tm permisso de falar com mais ningum, a no ser 
um parceiro e somente em caso de extrema emergncia podero se 
comunicar com mais algum, mas apenas com um donier, que decidir se  
importante o bastante para haver o rompimento da proibio. Quero que 
entendam por que devem fazer isso. Trata-se de um modo de forar a 
convivncia do casal, para ver se os parceiros so realmente capazes de 
viver um com o outro. Ao final desse perodo, se conclurem que sua parceria 
 incompatvel, qualquer casal pode decidir romper os laos, sem que haja 
conseqncias. Ser como se eles no tivessem se acasalado.
        A Zelandoni Que Era A Primeira sabia que a maioria dos casais 
aguardava ansiosamente a proibio, encantados com a idia de passar um 
tempo juntos, totalmente envolvidos um com o outro. Mas, ao final, sabia ela, 
haveria talvez um ou dois casais que, resignadamente, decidiriam seguir 
caminhos separados. Olhou atentamente para cada pessoa, tentando avaliar 
quais casais durariam. Tambm tentava estimar quais dos casais no 
durariam nem mesmo os quatorze dias. Em seguida, desejou sade a todos e 
avisou que o Matrimonial seria realizado na noite seguinte.
        Ayla e Jondalar no estavam preocupados com o fato de que passar 
aquele tempo juntos provaria ser incompatvel a sua unio. Eles j haviam 
passado grande parte de um ano tendo apenas a companhia um do outro, 
exceto por breves paradas em algumas cavernas, ao longo da rota de sua 
Jornada. Ambos estavam ansiosos pelo perodo de intimidade forada, 
principalmente por no haver nenhuma presso de prosseguir viagem.
        Aps deixar o alojamento, os quatro casais caminharam juntos em 
direo aos seus acampamentos. Janida e Peridal foram os primeiros a se 
separar. Antes de partirem, Janida estendeu ambas as mos para Levela.
        - Eu quero lhe agradecer - disse ela -, por nos acolher e nos deixar  
vontade. Quando entramos, parecia que todos estavam nos olhando, e no 
soube o que fazer. Mas notei que, quando samos, as pessoas estavam 
olhando para Joplaya e Echozar, e Ayla e Jondalar, e at mesmo para voc e 
Jondecam. Talvez todo mundo estivesse olhando para todo mundo, mas voc 
me fez sentir como se eu fizesse parte de alguma coisa, e no separada ou 
fora dela. - Inclinou-se e roou a bochecha na de Levela.
        - Janida  uma moa inteligente - comentou Jondalar, depois que 
retomaram a caminhada. - Peridal teve sorte em consegui-la, e espero que 
saiba apreci-la.
        - Parece haver algum afeto verdadeiro entre eles - observou Levela. - 
Por que ser que ele estava resistindo ao acasalamento?
        - Eu acredito que a resistncia foi mais da parte de sua me do que 
dele - aventou Jondecam. - A me ainda exerce muita influncia sobre ele. 
Mas Janida tambm  jovem. Quantos anos, cada um deve contar?
        - Acredito que ambos devem contar treze anos. Ela mal completou 
essa idade, e ele  poucas luas mais velho, j prximo aos quatorze anos - 
disse Levela.
        - Perto dele, eu sou um velho - afirmou Jondalar. - Eu conto mais de 
duas vezes os dedos das mos, vinte e trs anos. Peridal ainda nem mesmo 
teve chance de viver em um "alonjamento".
        - E eu sou uma velha - concedeu Ayla. - Eu conto dezenove anos.
        - Isso no  ser to velha, Ayla. Eu conto vinte anos - disse Joplaya.
        - E voc, Echozar? - quis saber Jondecam. - Com quantos anos voc 
est?
        - No fao idia - respondeu ele. - Ningum nunca me disse, ou que eu 
saiba, nem mesmo manteve a contagem.
        - J tentou pensar no passado e se lembrar de cada ano? - props 
Levela.
        - Eu tenho uma boa memria, mas a infncia, para mim,  um borro, 
cada estao simplesmente sumindo na seguinte - disse Echozar.
        - Eu conto dezessete anos - informou Levela.
        - E eu, vinte anos - manifestou-se Jondecam. - Bem, aqui est o nosso 
acampamento. Ns nos veremos amanh. -Acenaram as despedidas, 
juntamente com os gestos de venham-nos-ver-novamente, para os quatro 
que prosseguiram em direo aos acampamentos conjugados dos Zelandonii 
e Lanzadonii.
        Ayla acordou cedo no dia em que ela e Jondalar iam se acasalar. A luz 
morta que precedia o sol nascente enviava tnues lampejos atravs das 
frestas entre placas quase opacas do alojamento, realando as emendas e o 
contorno da abertura. Ela permaneceu deitada, tentando distinguir detalhes 
nas formas indisiveis silhuetadas contra as paredes.
        Podia ouvir a respirao harmoniosa de Jondalar. Elevou o corpo 
silenciosamente e olhou para o rosto do homem que dormia a seu lado sob a 
plida luz nariz fino e reto, o queixo quadrado, a testa alta. Lembrou da 
primeira vez que estudou o seu rosto, enquanto ele dormia, na caverna do 
vale dela. Que se lembrasse, ele foi o primeiro homem de sua prpria 
espcie que ela viu, e estava ferido gravemente. No sabia se ia sobreviver, 
mas, na ocasio, achou que ele era bonito. E continuava achando isso, embora 
tivesse aprendido, desde ento, que  se costumava chamar os homens de 
bonitos. O seu amor pelo homem cresceu inundar todo o seu ser. Era 
praticamente mais do que ela conseguia suportar e se conter. Levantou-se 
em silncio, vestiu-se s pressas, e saiu furtivamente.
        Olhou alm do acampamento. Da elevao ligeiramente mais alta do 
local do acampamento ela podia ver o Vale do Rio se espalhar diante de seus 
olhos. Na quase escurido, os alojamentos pareciam outeiros negros 
elevando-se da terra sombria, cada estrutura redonda com a sua coluna 
central abrigando as unidades mltiplas. O acampamento agora estava 
silencioso, muito diferente do lugar animado, ruidoso e turbulento que 
voltaria a ser dentro em pouco.
        Ayla virou na direo do pequeno arroio e o seguiu correnteza acima. 
Perceptivelmente, ele flua com maior rapidez, riscando ainda mais o cu 
com centelhas ardejantes.
        Os cavalos em seu recinto cercado notaram a aproximao dela e 
relincharam suavemente em saudao. Desviou-se na direo deles e passou 
por baixo das traves presas entre as estacas que delimitavam a rea deles. 
Colocou o brao em volta da gua cor de feno.
        - Hoje  o dia em que Jondalar e eu vamos nos acasalar, Huiin. Parece 
ter passado tanto tempo, desde que voc o carregou para a caverna, 
sangrando e quase morto. Desde ento, j percorremos um longo caminho. 
Nunca mais voltaremos a ver aquele vale - disse-lhe Ayla.
        Racer cutucou-a, querendo a sua quota de ateno. Ayla o afagou, e 
depois abraou o grosso e forte pescoo do garanho castanho. Lobo surgiu 
do meio do mato, retornando de seu ataque de surpresa noturno. Correu 
saltitante em dire o da jovem mulher cercada pelos cavalos.
        - Ah, a est voc, Lobo - exclamou. - Por onde andou? Voc sumiu 
esta manh. - Com o canto do olho, ela captou um movimento indistinto entre 
as rvores. Firmou a vista bem a tempo de ver um segundo lobo, mais escuro, 
esquivar-se atrs da densa vegetao rasteira. Ela se baixou e tomou a 
cabea de Lobo entre as mos, massageando sua peluda papada. - Voc 
encontrou uma fmea ou um amigo? - perguntou. - Quer voltar para a 
natureza, como Nenm? Eu sentiria a sua falta, mas no ia impedir voc de 
ter uma companheira. - O lobo rosnava baixinho, de contentamento, 
enquanto Ayla continuava alisando-o. No momento, ele no parecia ter 
nenhuma propenso a voltar para a indistinta figura na mata.
        A borda superior do sol surgiu no horizonte. Ayla farejou a fumaa 
das fogueiras matinais e olhou riacho abaixo. Alguns madrugadores j 
comeavam a se movimentar. O acampamento ganhava vida novamente.
        Avistou Jondalar vindo em sua direo, com passadas largas. A testa 
estava sulcada pela preocupao. A expresso era familiar.  um apreensivo, 
pensou. Cada movimento de seu rosto se tornara familiar para ela. 
Costumava observ-lo sub-repticiamente, os olhos sempre buscando-o onde 
quer que ele se encontrasse ou o que estivesse fazendo. Ele enrugava a 
testa do mesmo modo quando se concentrava em um novo pedao de slex, 
como se tentasse enxergar as minsculas partculas do material homogneo, 
a fim de saber antecipadamente a direo em que a pedra devia ser aparada. 
Ela gostava de todas as expresses dele mas, acima de tudo, adorava v-lo 
sorrir com o seu delicado jeito zombeteiro, e o de olhar para ela, os olhos 
dilatados, repletos de amor e desejo.
        - Eu acordei, e voc tinha sumido, Ayla - queixou-se Jondalar, ao se 
aproximar.
        - Acordei cedo, no consegui dormir novamente - justificou-se Ayla - 
e resolvi sair. Acho que Lobo tem uma parceira escondida no mato. Foi por 
ela que ele sumiu esta manh.
        -  um bom motivo para sumir. Se eu tivesse uma parceira, eu no me 
importaria em correr com ela para o mato - afirmou, um sorriso eliminando 
contrao da testa.
        Colocou os braos em volta de Ayla, puxou-a para si olhou-a de cima 
para baixo. O cabelo dela ainda estava desgrenhado pela noite sonolenta, 
caindo negligentemente sobre os ombros e emoldurando o rosto com grande 
volume de espessas ondas amarelo-escuro. Ela comeara a usar o cabelo 
enrolado caprichosamente em volta da cabea,  maneira das mulheres da 
Caverna dele, mas Jondalar continuava preferindo que ficasse solto e livre, 
do jeito como se encontrava, na primeira vez em que a viu, nua, sob o 
brilhante luar, de p salincia da caverna do vale, aps ter-se banhado no rio 
logo abaixo.
        - Voc ter uma, antes deste dia terminar - lembrou ela. - At onde 
taria de correr com ela?
        - At o fim da minha vida - disse ele, e a beijou.
        - A esto vocs! Lembrem-se: hoje  o dia de seu acasalamento. Nada 
de Prazeres antes da cerimnia. - Era Joharran. - Marthona quer falar com
voc Ayla. Pediu que eu a procurasse.
        Ayla voltou para a tenda. Marthona tinha um caneco de ch  espera 
dela.
        - Este ser todo o seu desjejum, Ayla. Voc ter de jejuar no dia de 
hoje.
        - Isso est timo. No acredito que consiga mesmo comer alguma 
coisa. Obrigada, Marthona. - Ela observou Jondalar sair com Joharran, 
carregando vrios fardos e pacotes.
        Jondalar viu Joharran fazer-lhe um sinal do outro lado de um campo, 
quando ele estava para entrar no alojamento que dividia com vrios homens 
que iam  acasalar naquela noite. Muitos possuam algum tipo de 
relacionamento uns com os outros, e todos tinham um ou dois amigos ntimos 
ou parentes no grupo. Acabara de levar todas as coisas, de que precisaria no 
perodo de experinccia de quatorze dias, para uma pequena barraca que 
armara distante dos acampamentos da Reunio de Vero, perto da parte 
posterior da colina onde ficava a nova caver na.
        Embora achasse que tambm devia ter transportado as coisas de que 
Ayla iria precisara uma outra pessoa as levaria depois, como era o costume. 
Esperou pelo irmo na entrada do alojamento. O lugar no era muito 
diferente dos "alonjamentos" para solteiros que ele tinha compartilhado 
com rapazes em Reunies de Vero, jovens desejosos de escapar dos 
olhares vigilantes de suas mes, das mes das parceiras e de outras pessoas 
que possuam autoridade. Jondalar lembrou dos veres passados em lugares 
como aqueles, na companhia de amigos arruaceiros e, em geral, mas 
temporariamente, de vrias moas. Costumava haver uma amistosa 
rivalidade entre os alojamentos e os rapazes que os habitavam, para ver 
quem atraa mais moas para ficar com eles. O objetivo parecia ser cada 
homem ter uma mulher diferente a cada noite, exceto naquelas reservadas 
apenas para os homens.
        Nessas noites, ningum dormia antes do amanhecer. Eles ingeriam 
barma e vinho, quando conseguiam. Alguns levavam vrias partes de certas 
plantas, que normalmente eram reservadas para uso cerimonial. Os rapazes 
passavam a noite cantando, danando, contando histrias e jogando, tudo 
geralmente misturado com muitas gargalhadas.
        Nas noites em que convidavam as mulheres, as reunies em geral 
acabavam mais cedo, depois que casais ou grupos de ambos os sexos 
deixavam a festa mais cedo, para um entretenimento mais privativo.
        Os homens que estavam para se acasalar eram sempre alvos de piadas 
e comentrios dos outros dos "alonjamentos" de solteiros, algo que Jondalar 
aceitava de bom humor - ele j havia distribudo a sua quota de piadas - mas 
o alojamento em que se encontrava agora era mais tranqilo, e os homens, 
mais srios. Todos eles iam enfrentar o mesmo evento, e o assunto no era 
certamente motivo para brincadeiras, como o era para os jovens ainda no 
comprometidos.
        Todos os homens que iam se acasalar tinham a entrada interditada no 
alojamento da zelandonia, onde ficavam as mulheres, e os casais eram 
proibidos de contato at o Matrimonial. Apesar disso, os homens, que 
ficavam em alojamentos distantes de seus acampamentos, tinham mais 
liberdade. No eram proibidos de se movimentar, s precisavam ficar longe 
das mulheres a quem tinham sido Prometidos. Os homens ficavam em vrias 
pequenas habitaes, mas todas as mulheres e seus amigos ntimos e 
parentes, dividiam um nico alojamento. Apesar de o alojamento da 
zelandonia ser maior do que todos os demais, ficava mais apinhado do que os 
dos homens, mas as espontneas exploses de alegria e as gargalhadas que 
partiam de l sempre os deixavam curiosos.
        - Jondalar! - chamou Joharran, quando ele se aproximou. - Marthona 
quer falar com voc. No alojamento da zelandonia, onde esto as mulheres.
        Jondalar ficou surpreso com a convocao, mas saiu apressado, 
imaginando o que sua me queria. Bateu na estaca do lado de fora da 
entrada do alojamento e, quando a aba foi afastada para o lado, no pde 
evitar de esticar o pescoo, tentativa de enxergar l dentro, querendo dar 
uma espiada em Ayla. Marthona porm, teve o cuidado de cobrir o espao 
atrs de si. Ela trazia um embrulho nas mos, um embrulho muito familiar a 
ele. Era o tal que Ayla fora irredutvel insistir em carregar consigo durante 
toda a Jornada. Ele reconheceu a coberta de couro fino amarrado com 
corda.
        Sempre tivera curiosidade de saber do que tratratava, mas Ayla 
constantemente escapulia das perguntas que ele fazia.
        - Ayla insistiu para que eu lhe desse isto - anunciou Marthona, 
mostrando-lhe o pacote. - Vocs sabem que no devem ter nenhum contato 
um outro at a cerimnia, nem mesmo indiretamente, mas Ayla disse que, se 
soudesse, teria lhe dado isto antes. Ela ficou muito contrariada, quase 
chegando ali, mas, e estava disposta a infringir a proibio, se eu no lhe 
entregasse isto. Mandou lhe dizer que  para o Matrimonial.
        - Obrigado, mame - disse Jondalar.
        Marthona fechou a abertura, antes que ele pudesse pronunciar mais 
palavra. Jondalar foi embora, olhando para o pacote enquanto voltava para o 
jamento. Sopesou-o, para avaliar o peso, imaginando o que poderia ser. Era 
macio, mas parecia um tanto volumoso. Esse fora um dos motivos pelos qua 
no conseguia entender a insistncia dela em mant-lo, todas as vezes que 
precisaram aliviar a carga e conseguir mais espao. Teria Ayla carregado 
aquilo todo o caminho somente para lhe dar por ocasio do Matrimonial 
deles?, pensou. Aquilo parecia importante demais, para ser aberto 
informalmente ali. Queria encontrar um lugar mais reservado.
        Jondalar ficou contente por encontrar o alojamento vazio, ao entrar 
com  o misterioso embrulho de Ayla. Ele o manuseou desajeitado por algum 
tempo, tentando desamarrar a corda, mas os ns resistiam s suas 
tentativas, e finalmente cortou com a faca. Retirou as camadas externas, e 
olhou. Era branca.
        Levantou e segurou-a diante de si. Tratava-se de uma bela tnica de 
couro de um branco imaculado, enfeitada apenas com as pontas pretas das 
caudas dos arminho disse que era para o Matrimonial. Ayla fez para ele uma 
tnica de Matrimonial.
        Ele havia recebido a oferta de vrias roupas para vestir, e escolhera  
uma rebuscada decorao ao estilo dos Zelandonii. Mas aquela era 
totalmente diferente. A tnica branca era talhada mais ao estilo dos 
Mamuti, porm as roupas deles tambm costumavam ter uma decorao 
bastante complexa, geralmente com contas de marfim, conchas e vrios 
outros materiais. Aquela no tinha enfeite algum, exceto por algumas caudas 
de arminho, mas se sobressaa exatamente por causa de sua cor. A tnica 
era de um branco imaculado e brilhante, a mais difcil de todas as 
tonalidades que se podia dar ao couro, e estonteante em sua simplicidade, 
pois no havia qualquer enfeite para denegrir a pureza da cor.
        Quando ela fez isso?, imaginou. No podia ter sido feito enquanto 
viajavam. No houve tempo, e, alm do mais, ela carregou o pacote desde o 
incio. Ayla deve t-la feito no inverno em que viveram com os Mamuti, no 
Acampamento do Leo. Mas aquele foi o inverno em que ela foi Prometida 
para acasalamento com Ranec. Jondalar colocou a tnica sobre corpo. 
Indiscutivelmente, era do seu tamanho; ficaria grande demais em Ranec que 
era um homem mais baixo e de corpo mais compacto.
        Por que Ayla teria feito uma tnica para ele, especialmente uma to 
bonita, se planejava ficar com os Mamuti e viver com Ranec? Jondalar 
apertava a tnica, enquanto sua mente desembestava. Era to macia e 
malevel. O couro preparado por ela sempre tinha essas qualidades, mas 
quanto tempo havia gasto, trabalhando o couro, paradeix-lo to macio? E a 
Cor? Onde Ayla teria aprendido a fazer couro branco? Com Nezzie, talvez? 
Ento, ele lembrou de ter visto Crozie, a idosa da lareira de Grou, vestindo 
uma roupa branca, em uma das cerimnias, quando todos usavam as suas 
melhores vestes. Teria Ayla aprendido com ela? Ele no conseguia se 
lembrar de t-la visto trabalhar com couro branco, mas, por outro lado, 
talvez no tivesse prestado ateno.
        Passou as sedosas caudas de arminho por entre os dedos. Onde ela 
conseguira caudas de arminho? Ento, lembrou-se de que ela havia 
retornado com alguns arminhos, no mesmo dia em que levara o pequeno 
filhote vivo de lobo para a habi tao de terra. Sorriu, ao recordar o 
alvoroo que isso provocara. Mas eles discutiram - bem,ele discutiu, foi 
culpa sua - e, nessa ocasio, ele j tinha se mudado para a rea de cozinhar. 
 noite, ela estava Visitando a lareira de Ranec. Eles eram quase Prometidos. 
        Entretanto, ela devia ter gasto muitos, muitos dias, fazendo para ele 
aquela bela e macia tnica branca. Ela o amava tanto assim, j naquela 
poca?
        Os olhos de Jondalar marejaram, estava quase chorando, Sabia que 
fora ele quem a tratara com frieza. Foi o cime e, mais do que isso, o medo 
do que o povo dele pudesse dizer, ao saber por quem ela fora criada. Ele a 
havia empurrado para os braos de outro homem; mesmo assim, ela Passara 
longos dias fazendo aquela roupa para ele, e depois a transportara durante 
todo o caminho, s para lhe entregar para o Matrimonial dos dois. No era 
de admirar que Ayla tivesse ficado contrariada e disposta a desafiar a 
proibio de v-lo, para poder lhe dar a tnica.
        Olhou novamente para ela. Nem mesmo estava amarrotada. Depois que 
chegaram, Ayla deve ter achado um lugar para alis-la, passar vapor sobre 
ela. Apertava a tnica contra o corpo, sentindo a sua maciez, e quase sentiu 
estar abraando Ayla, por ter havido tanto dela na sua feitura. Ele se 
sentiria feliz em vesti-la, mesmo se no fosse to linda. Mas era linda. Em 
comparao, a roupa que ele havia escolhido para o Matrimonial, apesar de 
todos os enfeites, agora parecia sem graa. 
        Jondalar vestia-se bem, e sabia disso. Sempre se orgulhou disso 
secretamente, e da escolha qu fazia de roupas. Tratava-se de uma pequena 
vaidade que aprendera no convvio da me, e ningum era mais 
graciosamente elegante do que Marthona. Ele riu imaginando se ela tinha 
visto a tnica. De certo modo, duvidava. Marthona tinha gostado de sua 
estonteante sutileza, com as caudas de arminhos dando apenas o toque 
adequado, e lhe teria dado algum olhar indicador, feito alguma insinuao. 
Ergueu a vista, quando Joharran entrou na tenda.
        - A est voc, Jondalar. Parece at que passei o dia todo procurando-
o. Precisam de voc para umas instrues especiais - Ele notou a roupa 
branca - que voc tem a? - perguntou.
        - Ayla fez uma tnica Matrimonial para mim. Foi por isso que mame 
mandou me chamar, para me dar isto. - Levantou a tnica diante de si.
        - Jondalar!  excepcional! - exclamou o irmo. - No sei se j vi um 
branco to bem feito. Voc sempre gostou de se vestir bem, mas com isso a 
sobressair ainda mais. Haver mais de uma mulher que gostaria de estar no 
Lugar de Ayla. E h mais de um homem que no se importaria em estar no 
seu, inclusive o seu irmo mais velho.., se no fosse Proleva,  claro.
        - Eu tenho sorte. Voc nem imagina o quanto eu tenho sorte, Joharran.
        - Bem, quero desejar muita sorte para vocs dois. No tive a 
oportunidade de lhe dizer isso antes, mas eu costumava ficar preocupado 
com voc. Principalmente  depois daquele...problema que teve, quando foi 
mandado. De pois que voltou, sempre teve mulheres, mas eu me perguntava 
se algum dia encontraria uma com a qual fosse feliz. Eu estava certo de que 
voc acabaria acasalando, mas no tinha certeza de que encontraria o tipo 
de felicidade pode ter com uma parceira como Proleva. Nunca achei que 
Marona era a mulher certa para voc - confessou Joharran. Jondalar estava 
comovido.
        - Eu sei que tenho a obrigao de fazer piadas sobre como voc 
pesaroso, agora que vai assumir as responsabilidade de uma lareira - 
continuou Joharran -, mas, vou lhe dizer com toda a sinceridade, Proleva 
tornou a minha vida muito feliz, e o filho dela me d uma satisfao que no 
se consegue obter uma outra maneira. Voc sabia que ela est esperando 
outro?
        - No, no sabia. Ayla tambm est esperando. As nossas parceiras 
tero os filhos com mais ou menos a mesma idade, e sero como primos de 
lareira - disse Jondalar com um largo sorriso.
        - Tenho certeza de que o filho de Proleva  o resultado do meu 
esprito, e espero que este que ela est carregando tambm seja, mas, 
mesmo se no for, as crianas da lareira de um homem podem lhe dar um tal 
prazer, uma tal sensao especial que  difcil de descrever. S de olhar 
para Jaradal, eu me encho de orgulho e alegria.
        Os dois homens bateram os ombros, e depois se abraaram.
        - O meu irmo mais velho confessando sentimentos profundos - 
comentou Jondalar, sorrindo, para o homem ligeiramente mais baixo. Em 
seguida, a sua expresso tornou-se mais sria. - Eu tambm serei franco 
com voc, Joharran. Sempre invejei a sua felicidade, mesmo antes de partir, 
antes de haver qualquer filho. Eu sabia que Proleva seria uma boa mulher 
para voc. Ela torna a sua lareira calorosa e um lugar agradvel. E no curto 
espao de tempo desde que retornei, passei a gostar daquele pequenino dela. 
E Jaradal se parece com voc.
        -  melhor voc ir, Jondalar. Pediram que eu o levasse com toda a 
pressa.
        Jondalar dobrou a tnica branca, embrulhou-a frouxamente com a sua 
macia cobertura de couro, pousou-a com cuidado sobre o seu rolo de dormir 
e foi saindo com o irmo, mas olhou por cima do ombro na direo do pacote, 
ansioso para experimentar a tnica branca, a tnica que ia usar quando se 
acasalasse com Ayla.
        - Eu no sabia que ficaria confinada hoje, ou teria tomado algumas 
providncias - argumentou Ayla. - Preciso ver se os cavalos esto bem, e 
Lobo precisa se movimentar livremente. Ele fica perturbado, se no puder 
verificar como estou.
        - Esse problema nunca surgiu antes - alegou a Zelandoni da Dcima 
Quarta - No dia do seu acasalamento, voc precisa ficar em recluso antes 
da cerimnia. As Histrias falam de uma poca em que as mulheres tinham 
que ficar confinadas durante uma lua inteira! Isso foi h muito tempo, 
quando os acasalamentos costumavam ocorrer no inverno, antes de serem 
realizados em um nico Matrimonial - observou a Primeira. - Na ocasio, 
havia poucos Zelandonji, e eles no faziam reunies como fazemos 
atualmente. Uma coisa era uma nica Caverna ter uma ou duas mulheres  
confinadas durante uma lua no meio do inverno, porm ter muitas delas 
impossibiilitadas de contribuir, por todo esse tempo durante a temporada 
de caa e colheita em uma Reunio de Vero,  algo completamente 
diferente. Ainda estaramos tentando armazenar os auroques, se as 
mulheres que vo se acasalar tivessem ajudado.
        - Bem, pode ser - concedeu a Zelandoni mais velha -, mas um  muita 
coisa.
        - E, normalmente, no , mas a presena dos animais criou uma si 
excepcional - ponderou a Primeira donier. - Tenho certeza de que poda dar 
um jeito.
        - Vocs so contra o lobo entrar e sair daqui quando quiser? - indagou 
Marthona. - As mulheres no parecem se importar com ele. S precisamos 
deixar solta a parte de baixo da cortina da entrada.
        - No creio que isso seria um problema - concordou a da Dcima 
Quarta. A Zelandoni da Dcima Quarta ficara agradavelmente surpresa, ao 
conhecer o caador de quatro patas. Ele lambeu a sua mo e pareceu-lhe 
afetuoso, e gostou muito de alisar a pele do animal vivo. Depois de algumas 
perguntas, contou a histria de como levou o filhote de lobo para casa e de 
como sal pequena potranca das hienas. Ela insistiu no fato de que, se forem 
ainda bem novos, muitos animais podem se tornar amigos das pessoas. A da  
Dcima Quarta notara a grande quantidade de ateno e prestgio que Lobo
tinha  para a estrangeira, e ps-se a imaginar o quanto devia ser difcil 
fazer amizade com um animal, mas, talvez, fosse mais fcil com um 
menorzinho. O rama no importava, pois qualquer animal que, 
voluntariamente, permanecesse em contato com uma pessoa, atrairia muita 
ateno.
        - Ento, resta apenas a questo dos cavalos. Jondalar no pode cuidar
Deles? - sugeriu Marthona.
        - Claro que pode, mas preciso lhe dizer isso. Sou eu quem tem cu 
deles, desde que chegamos  Reunio de Vero, pois ele tem estado ocupado 
outras coisas - explicou Ayla.
        - Ela no tem permisso de se comunicar com ele - insistiu a da Dci 
Quarta. - Ela no pode dizer nada a ele!
        - Mas uma outra pessoa pode - ponderou Marthona.
        - No algum envolvido com a cerimnia. Nem algum aparentado - 
lembrou a Zelandoni da Dcima Nona. - A Dcima Quarta tem razo,  
porque as mulheres no ficam mais tanto tempo confinadas,  importante 
que mantenha o rigor durante esse nico dia de recluso. - A mulher de 
cabelos brancos podia estar quase invlida, por causa da artrite, mas isso 
no limitava a fora de sua personalidade. Ayla j vira isso antes.
        Marthona ficou contente pela mulher no ter mencionado que ela 
tinha encaminhado  um pacote enviado por Ayla. A zelandonia teria ficado 
muito irritada com ela Os seus membros eram muito inflexveis no 
cumprimento dos costumes do comportamento adequados durante as 
cerimnias importantes, e, embora a lder costumasse respeit-los, achava, 
intimamente, que sempre podia haver excees. Lderes precisam aprender 
quando fincar p e quando ceder um pouco.
        - Algum que no esteja envolvido com a cerimnia pode ser 
informado? - quis saber Ayla.
        - Quem voc conhece que no tem absolutamente nenhum parentesco 
com ou o seu Prometido? - perguntou a da Dcima Quarta.
        Ayla pensou por um instante.
        - Que tal Lanidar? Marthona, ele tem algum tipo de parentesco com 
jondalar? - indagou.
        - No... no tem. Eu sei que no tenho, e Dalanar apenas mencionou, na 
manh em que a famlia nos visitou, que ele foi escolhido para os Primeiros 
Ritos da av do menino - disse Marthona. - Portanto, ele no tem.
        -  verdade - comentou a da Dcima Nona. - Eu me lembro que Denoda 
ficou um tanto... encantada por Dalanar. Ela levou algum tempo para superar 
isso. Ele lidou bem com a questo. Foi hbil, atencioso, mas manteve a sua 
distncia. Fiquei impressionada.
        - Sempre - falou Marthona quase a meia-voz, e terminou a frase em 
seus pensamentos: ele sempre era correto e fazia exatamente a coisa certa.
        A da Dcima Nona no deixou escapar.
        - Sempre o qu? Hbil? Atencioso? Impressionante? - perguntou. 
Marthona sorriu.
        - Tudo isso - afirmou.
        - E Jondalar  filho da lareira dele - frisou a Primeira.
        - Sim - confirmou Marthona -, mas h diferenas. O rapaz no tem 
tanta habilidade quanto o homem, mas talvez tenha mais corao.
        - Uma criana, no importa o esprito de qual homem a tenha iniciado, 
tambm sempre tem algo da me - ressaltou a Zelandoni Que Era a Primeira.
Ayla ouvia atentamente aquela conversa paralela, principalmente depois de 
Jondalar ter sido mencionado, e detectou os maneirismos de voz e corpo, 
que comunicavam muito mais do que as palavras. Ela subentendeu que o 
comentrio da Dcima Nona sobre Denoda no foi nada lisonjeiro, e sentiu 
que a Zelandoni mais velha tivera uma grande atrao por Dalanar. Tambm 
houve a sugesto de o filho de Marthona no revelava o mesmo refinamento 
do ex-parceiro dela todas elas sabiam das indiscries de sua juventude,  
claro. Marthona estava ciente dos sentimentos da velha mulher em relao a 
ambos, e fez com que ela soubesse que conhecia Dalanar melhor do que 
ningum e que no se deixaria impressionar tanto assim por ele.
        A Primeira declarou que tambm conhecia os dois homens, e deu a 
entender que Jondalar era como Datanar e igualmente atraente, nada menos 
do que isso. Tambm fez um elogio subentendido a Marthona, porque o 
esprito Dalanar e a Me a haviam escolhido para gerar o filho da lareira 
dele. Ayla comeava a perceber que era tida em alta estima uma mulher 
escolhida para uma criana pelo esprito do homem com quem se acasalou. 
Marthona deixou claro para a zelandonia, principalmente para a Zelandoni da 
Dcima Nona, embora o seu filho talvez no tivesse as excelentes 
qualidades de Dalanar, possua outras melhores. A Primeira no s 
concordou com ela, como afirmou que as melhores qualidades dele tinham 
vindo da me. Ficou bvio que lder e a Zelandoni da Nona Caverna tinham 
uma ntima relao pessoal e muito respeito mtuo.
        Havia sutilezas dentro de sutilezas, que adicionavam significado  
linguagem de sinais do Cl, inclusive o entendimento de expresses faciais e 
posturas como de gestos e at mesmo de algumas palavras; entretanto, se 
algum fosse capaz de capt-la a linguagem que transmitia ainda mais era a 
que empregava nuance de voz, tom e inflexo, alm de expresses faciais, 
posturas inconscientes,  gestos suplementares. Ayla tinha bastante 
familiaridade com os sinais inconscientes da linguagem corporal e vinha 
aprendendo como esta era expressada pelos Outros, e, conscientemente, 
cada vez mais estava a par das palavras pronunciadas e do modo como elas 
eram usadas.
        - Algum pode procurar Landar - quis saber Ayla -, para eu pedir 
para  ele falar com Jondalar?
        - No, no pode pedir a ele, Ayla - objetou Marthona. - Mas eu posso.
- olhou para a zelandonia reunida no recinto que se tornara o
alojamento de mulheres que iam se acasalar -, se algum for cham-lo.
        - Claro - afirmou a Primeira. Olhou em volta, para ver quem estaVa 
disponvel e fez um sinal para Mejera, agora aclita do Zelandoni daTerceira
Caverna. Ela estava presente quando procuraram o el de Thonolan na 
Caverna  de Pedras da Fonte. Na ocasio, ela vivia com a Dcima Quarta 
Caverna, mas infeliz l. Ayla a reconheceu e sorriu.
        - Eu tenho uma incumbncia para voc - anunciou a Primeira. Marthona 
vai lhe explicar.
        - Voc conhece o menino Lanidar da Dcima Nona Caverna? - 
Perguntou Marthona. No houve gesto de admisso. - Ele  filho de Mardena, 
e a  Denoda. - Mejera sacudiu a cabea com uma negativa.
        - Ele deve contar uns doze anos, porm parece mais jovem - 
acrescentou Ayla - e o brao dele  deformado.
        Um sorriso de afirmao vincou o rosto de Mejera.
        - Sim,  claro. Ele disparou uma lana, na demonstrao.
        - Esse mesmo - confirmou Marthona. - Voc precisa encontr-lo, e, 
quando o fizer, diga a ele que procure Jondalar e lhe d um recado meu. 
Mande Lanidar dizer a Jondalar que Ayla est preocupada com os cavalos, e 
ele precisa ir v-los antes do Matrimonial desta noite. Entendeu?
        - No seria mais fcil eu ir falar direto com Jondalar? - indagou 
Mejera.
        - Seria muito mais fcil, mas voc desempenha um papel no 
Matrimonial desta noite, e, portanto, no pode dar um recado de Ayla para 
Jondalar antes disso, e nem mesmo um meu. Contudo, se no encontrar 
Lanidar, sei que ser aceitvel voc contar a algum, que no  aparentado 
dele, para esse algum lhe transmitir o recado. Entendeu?
        - Sim, eu farei isso. No se preocupe com os cavalos, Ayla. Cuidarei 
para que Jondalar saiba - prometeu Mejera, e saiu apressada.
        - Suponho que a zelandonia seria contra Mejera falar com voc a 
respeito disso, portanto no creio que tenhamos que explicar em detalhes - 
disse Marthona a Ayla.
        - E no vamos mencionar o pacote que me deu para entregar a ele.
        -  melhor evitarmos mencionar qualquer coisa - concordou Ayla.
        - Bem, est na hora de voc comear a se aprontar - alertou 
Marthona.
        - Mas apenas passou da metade do dia. Falta muito at a noite cair - 
ale gou Ayla. - No levar muito tempo vestir a tnica que Nezzie fez para 
mim.
        - H muito mais do que isso. Iremos todas ao Rio, para que as 
mulheres que se acasalar possam se banhar. Elas esto, inclusive, fervendo 
gua a fim de purific-lo para o ritual. Sem falar que gua quente  muito 
bom para a gente se lavar.  uma das melhores partes dos rituais de pr-
acasalamento. Jondalar e os outros homens a mesma coisa, num lugar 
diferente,  claro explicou Marthona.
        - Eu adoro gua quente - comentou Ayla. - Os Losadunai tm uma 
fonte de gua quente perto de seu abrigo. Voc nem imagina a sensao 
maravilhosa que  se banhar nela.
        - Sim, eu imagino. J fiz algumas viagens para o norte. No muito 
distante a nascente do Rio, h pequenos lagos de gua quente pelo cho - 
contou. 
        - Creio que conheo esse lugar, ou um parecido. Paramos l, a caminho 
daqui. - lembrou Ayla. - H uma coisa que eu gostaria de perguntar. Quis 
perguntar antes, e no sei se  tarde demais para isso, mas eu queria furar 
as minhas orelhas. Tenho duas peas iguais de mbar, que Tulie, a chefe do 
Acampamento do Leo, me deu, e queria us-las, se conseguir algum para 
pendur-las nas mi nhas orelhas. Ela me disse que  assim que devo usar.
        - Acho que isso pode ser providenciado - prometeu a mulher. - 
certeza de que a zelandonia ficar contente em fazer isso para voc.
        - O que voc acha, Folara, desta maneira? Ou desta? - perguntou 
Mejera ao segurar parte do cabelo de Ayla e mostrar duas alternativas para 
a moa. Folara juntara-se a elas, quando voltaram para o alojamento da 
zelando rija, aps os ritual de purificao. Apesar de haver muitas 
lamparinas acesas, ainda estava bem mais escuro no interior do que sob o sol 
brilhante, e Ayla gostaria de estar l fora ao invs de sentada ali, enquanto 
algum fazia coisas com o seu cabelo.
        - Acho melhor a primeira maneira - afirmou Folara.
        - Mejera, por que no acaba de nos contar onde, finalmente, os 
encontrou? - sugeriu Marthona. Era bvio que Ayla no se sentia  vontade. 
No estava acostumada a algum ajeitar o seu cabelo, e a jovem aclita 
parecia uma partidria da tagarelice enquanto fazia algo. Marthona achava 
que isso a distraa.
        - Bem, como eu estava dizendo, perguntei a todo mundo. Ningum 
parecia saber onde estava nenhum dos dois. Finalmente, falei com algum do
vosso acampamento acho que a parceira de um dos amigos ntimos de 
Joharran Saloban ou Rushemar, aquela que tem um beb. Ela estava fazendo 
um cesto...
        -  Salova, a parceira de Rushemar - adiantou Marthona.
        - Ela disse que um ou outro podia estar com os cavalos, e eu segui o 
riacho acima, e foi l que encontrei os dois. Lanidar contou que a me dele 
disse a voc, Ayla, ia ficar o dia todo com as mulheres, e o menino resolveu 
dar olhada nos cavalos, como voc pediu. E Jondalar disse mais ou menos a 
mesma  coisa. Ele sabia que voc ficaria o dia todo recolhida com as 
mulheres, e decidiu ver como estavam os cavalos.         Encontrou Lanidar por l, 
e estava mostrando ao rapaz como usar aquela coisa de jogar lanas - 
relatou Mejera.
        - E acontece que eu no era a nica  procura de Jondalar. Joharran 
apareceu pouco depois. Ele parecia um pouco furioso, ou apenas irritado. 
        Tinha procurado Jondalar por toda a parte, para dizer a ele que devia 
ir ao Rio, para o ritual de purificao, junto com o resto dos homens. 
Jondalar pediu para eu  dizer que os cavalos esto bem, e que voc tinha 
razo, pois Lobo deve ter encontrado uma parceira ou um amigo. Ele viu os 
dois juntos.
        - Obrigada, Mejera. Fico aliviada em saber que Huiin e Racer esto 
bem. No sei lhe dizer o quanto estou agradecida pelo seu tempo e empenho 
em Procurar Lanidar e Jondalar - disse Ayla.
        Ela ficou contente em saber que os cavalos estavam bem, e que 
Lanidar tinha ido dar uma olhada neles, por conta prpria. Normalmente, 
Ayla teria esperado isso de Jondalar, mas, afinal de contas, ele tambm ia 
se acasalar, e ela queria se assegurar e que ele no tivesse sido distrado, ou 
proibido, de ir v-los. 
        Ficou, porm, um pouco preocupada com Lobo. Parte dela queria que 
ele encontrasse uma fmea e fosse feliz, mas a outra temia a idia de 
perd-lo, e inquietava-se por ele. Lobo nunca viveu com outros lobos; ela 
devia ter passado muito mais tempo perto desses animais, quando aprendia a 
caar, do que ele. Ayla sabia que, ao mesmo tempo que lobos eram 
extremamente leais  sua prpria alcatia, defendiam ferozmente o seu 
territrio contra outros lobos. Se Lobo tivesse encontrado uma loba 
solitria, ou uma fmea de posio inferior de uma alcatia das 
proximidades, e decidisse viver como um lobo, teria de lutar para 
estabelecer o seu prprio territrio. Se, por um lado, Lobo era um animal 
forte e saudvel, maior do que a maioria dos lobos, por outro, no fora 
criado numa alcatia, onde, desde filhote, teria brincado de brigar com os 
irmos. Ele no estava acostumado a combater lobos.
        - Obrigada, Mejera. Ayla ficou muito bonita. Eu no sabia que voc 
era to habilidosa em arrumar cabelos - observou Marthona.
        Ayla levantou as mos e, cautelosamente, sentiu o cabelo, tocando de 
leve os rolos e outras formas s quais ele tinha sido submetido ou preso. Ela 
tinha visto outras jovens com uma arrumao que tinha certeza ser 
semelhante, e portanto fazia idia de sua aparncia.
        - Deixe-me pegar um refletidor, para voc dar uma olhada - disse 
Mejera. A imagem sem nitidez no refletidor mostrou uma jovem mulher com 
o cabe lo arrumado de maneira parecida com o da maioria das outras moas 
do aloja mento. No era algum que reconhecesse como ela mesma. Nem 
mesmo estava certa se Jondalar reconheceria.
        - Vamos colocar o mbar nas suas orelhas - props Folara. -Voc preci 
sa comear a se vestir.
        A aclita que havia furado as orelhas de Ayla tinha deixado uma lasca 
de osso enfiado em cada buraco. Ela tambm havia enrolado um pedao de 
tendo na frente, atrs e em ambos os lados das peas de mbar, e deixado 
laadas para se rem presas aos ossos que perfuravam a parte inferior 
carnuda das orelhas. Mejera ajudara Folara a prender os mbares nas 
orelhas de Ayla. Em seguida, Ayla vestiu a roupa especial de acasalamento. 
Mejera ficou deslumnbrada
        - Eu nunca tinha visto nada parecido - suspirou.
        E Folara ficou encantada.
        - Ayla, ela  to bonita e to incomum. Todas vo querer uma igual. 
Onde conseguiu isso?
        - Eu trouxe comigo. Nezzie fez para mim. Ela  a parceira do chefe 
do Acampamento do Leo.  assim que deve ser usado na cerimnia - 
mostrou, abrindo a parte da frente e expondo os seios, ainda mais cheios, 
por causa da gravidez avanada. - Nezzie disse que uma mulher Mamuti, ao 
se acasalar, deve mostrar os seios com orgulho. Agora, quero colocar o colar 
que voc me deu, Marthona.
        - Tem um problema com ele, Ayla - alertou Marthona. - O colar vai 
ficar lindo, com o grande pedao de mbar aninhado entre os seus seios, 
mas no com essa bolsa que usa pendurada no pescoo. O colar no vai 
aparecer. Eu sei que ela significa algo para voc, mas acho que ter que 
remov-la.
        - Ela tem razo - concordou Folara.
        - Deixe-me mostrar voc no refletidor - sugeriu Mejera. Ela levantou 
pedao de madeira lixada, escurecida e engraxada para que Ayla pudesse se
ver. 
        Tratava-se da mesma mulher estranha que ela vira antes, mas, dessa 
vez, Ayla viu os pedaos de mbar oscilando nas orelhas, e a gasta bolsa do 
amuleto protuberante por causa dos objetos que continha, pendurada em um 
cordo pudo.
        - O que tem na bolsa? - quis saber Mejera. - Parece cheia de coisas.
        -  o meu amuleto, e todas as coisas que tem dentro dela foram 
presentes meu totem, o Esprito do Leo das Cavernas. A maioria confirmou 
importantes decises em minha vida. De um certo modo, ela tambm contm 
o meu esprito vital.
        - Ento  algo parecido com um eldom - aventou Marthona.
        - O Mog-ur me disse que eu vou morrer, se perder o meu amuleto -
informou Ayla. Ela segurou o amuleto, sentiu as familiares protuberncias; 
reentrncias, e um caleidoscpio de lembranas da sua vida com o Cl 
percorreu sua mente.
        - Ento precisamos guard-lo num lugar especial - aconselhou 
Marthona. Talvez perto de uma donii, para que a Me possa vigi-lo. Mas 
voc no tem uma donii, tem? Normalmente, a mulher ganha um, nos seus 
Primeiros Ritos. Claro que nunca teve uma cerimnia como essa, no  
mesmo?
        - Bem, na verdade, tive sim. Jondalar me ensinou o Dom do Prazer da 
me.. e, na primeira vez, realizou uma cerimnia e me deu uma figura-donii 
que ele mesmo fez. Est no meu bornal - informou Ayla.
        - Bem, ningum melhor do que ele faria, para voc, uma cerimnia de 
Primeiros Ritos adequada. Jondalar tem muita experincia nisso - afirmou 
Marthona. - Por que no me deixa, por enquanto, cuidar desse amuleto, para 
eu devolv-lo quando voc e Jondalar partirem para o perodo de 
experincia? - A mulher viu Ayla hesitar, depois, finalmente balanou a 
cabea em concordncia, mas, ao retirar a bolsa por cima da cabea, o 
cordo de couro ficou preso no seu novo penteado.
        - No tem problema, Ayla. Eu ajeito - avisou Mejera.
        Ayla ficou segurando a familiar bolsa de couro, relutando em entreg-
la. As mulheres tinham razo, no combinava com os ornamentos para o seu 
Matrimonial, mas no ficara sem a bolsa desde que lhe fora dada por Iza, 
no muito depois de ter sido encontrada pelo Cl. A bolsa fazia parte de 
Ayla h tanto tempo que era difcil deix-la de lado. Mais do que difcil, 
tinha medo de deix-la de lado. Parecia que o prprio amuleto havia se 
agarrado a ela, prendendo-se em seu cabelo, quando o tirou. Talvez o seu 
totem estivesse tentando lhe dizer algo, talvez ela devesse ser apenas uma 
mulher dos Outros, naquele dia do seu acasalamento, vestida com as roupas 
Mamuti e usando o colar dos Zelandonii. Tinha sido uma mulher do Cl, 
quando conheceu Jondalar, e talvez tambm devesse manter con sigo algo 
daquela poca.
        - Obrigada, Mejera, mas mudei de idia. Vou usar o cabelo solto e 
cado. Jondalar gosta assim - reconsiderou Ayla. Segurou o amuleto por mais 
um instante, e depois o entregou a Marthona. Deixou que a mulher 
prendesse em seu pescoo o colar que lhe fora dado pela me de Dalanar e 
que Marthona guardara para ela, antes de comear a tirar os grampos e os 
laos que mantinham o seu cabelo no elegante estilo Zelandonii.
        Mejera lamentou ver todo o seu trabalho desfeito, mas a escolha era 
de Ayla e no dela. - Deixe-me pente-lo para voc - ofereceu-se, 
aquiescendo educadamente, o que impressionou Marthona. Acho que, algum 
dia, essa aclita ser uma excelente Zelandoni, pensou ela.
        Quando Jondalar e os homens que iam se acasalar comearam a 
caminhar em direo ao alojamento da zelandonia, prximo ao p da elevao 
onde a cerimnia seria realizada, ele subitamente sentiu-se nervoso. E no 
foi o nico. As mulheres tinham se mudado, deixando vazio o enorme 
alojamento. Com a ajuda de vrios mem bros da zelandonia, os homens se 
organizaram na ordem em que haviam ensaiado: primeiro, de acordo com a 
palavra de contar da Caverna onde viviam, e depois pelo nvel social que 
tinham na Caverna. Como todas as palavras de contar eram poderosas, 
somente a zelandonia conhecia as enigmticas diferenas entre elas - no 
indicavam o nvel; tratava-se apenas de uma ordenao, um modo de se 
enfileirar. O inumervel e normalmente impronuncivel, mas perfeitamente 
evidente nvel social dentro de uma Caverna era outra histria, apesar de 
no ser rigoroso e fixo.
        O status de uma pessoa podia mudar, e muitos mudariam de posio, 
como resultado dos acasalamentos que logo seriam realizados. Este era um 
dos muitos acordos negociados antes da cerimnia. O nvel social de alguns 
subiria, o de outros ficaria mais baixo do que anteriormente, pois o status 
de uma lareira era uma combinao do que ambos os parceiros levariam para 
a unio, o que tambmdeterminava o status dos filhos. Subentendia-se que o 
lar resultante pertencia homem, mas era cuidado pela mulher; as crianas 
nascidas da mulher tambm eram nascidas da lareira do homem. Os casais e 
suas famlias desejavam qu status do novo lar fosse o maior possvel, por 
causa dos filhos, e dos nomes e lai dos aparentados a eles, mas era preciso a 
concordncia de um determinado mero de lderes de outras Cavernas e da 
zelandonia. s vezes, isso podia ser u negociao litigiosa.
        Ayla no se envolveu muito nas negociaes do status do novo lar dela 
e Jondalar, pois no teria mesmo entendido as suas nuanas; Marthona,
porm envolveu-se. A conversa
paralela que tivera antes com parte da zelandonia, inc sive a Zelandoni da 
Dcima Nona, e que Ayla comeava a entender, tinha um elemento dessas 
negociaes. A Dcima
Nona tentara usar as indiscries de Jondalar para baixar o seu status, em 
parte porque Ayla havia descoberto a
nova e excepcional caverna no territrio da Dcima Nona.
A descoberta havia elevado consideravelmente o seu status, ainda que fosse 
estrangeira, e isso havia const gido bastante a Zelandoni da Dcima Nona. 
Se eles tivessem
encontrado a. caverna, poderiam mant-la restrita e limitar o seu uso, o que 
lhes daria um
significativo prestgio. Mas o fato de ter sido achada por uma estrangeira, 
durante
uma reunio de Vero, imediatamente a tornou acessvel a qualquer pessoa, 
uma
qcoisa deixada bem claro pela Primeira.
O nvel de Jondalar estava entre os mais altos, pois sua me fora uma
lder. o irmo era o lder atual da maior Caverna dos Zelandonii, sem falar de 
suas prias contribuies,
algumas trazidas de suas viagens. A cada vez maior habi. de de lascar slex, 
um talento complexo atestado por respeitados e reconhe lascadores de 
outras Cavernas, 
e o novo e demonstrado publicamente arremesSa de lanas contribuam para 
isso, mas determinar o status de Ayla representara' problema. Estrangeiros 
sempre tinham 
o nvel social mais baixo, o que,geral mente, baixaria o status do novo lar, 
porm Marthona e vrios outros
pelejaram para sustentar que o status de Ayla, entre o seu prprio
povo, era muito alto, lm de ela possuir muitos atributos. Os animais foram 
um fator ambguo, com ai dizendo que eles baixavam o status dela, e outros 
afirmando 
que
aumentava o  nvel derradeiro do novo lar ainda no tinha sido totalmente 
resolvido, e isso no impedisse o acasalamento. Ela fora aceita pela Nona 
Caverna, e era
l
que os dois viveriam.
As mulheres haviam se mudado para um alojamento nas proximidades. 
recentemente, este abrigara as moas que se preparavam para os Primeiros
ritos mas agora estava vazio
e podia ter outra utilizao. Algum havia sugerido
que oshomens poderiam ficar l,  espera, para que as mulheres no 
tivessem que se mudar, mas a idia de transform-lo, de um alojamento de 
moas em transio para 
a idade
adulta, para o de homens prestes a se acasalar, deixou a zelandonia e muita 
gente desconfortvel. Sempre havia manifestaes remanescentes de 
foras espirituais
onde ocorriam atividades transcendentais, principalmente quando envolviam 
um grupo de grandes dimenses, e, s vezes, as vitalidades significati vas de 
homens e
mulheres se opunham. Em vez disso, decidiu-se mudar para l as mulheres 
que iam se acasalar, j que seria o prximo passo lgico para as moas que 
haviam ocupado
antes aquela habitao.
As mulheres no estavam menos nervosas do que os homens. Ayla ficou ima 
ginando se Jondalar resolveria vestir a tnica que fizera para ele, e desejou 
que a tivessem
avisado de que no teria permisso de falar com ele naquele dia, para poder 
t-la entregue pessoalmente no dia anterior. Desse modo, teria sabido se 
ele a achava
apropriada e se havia gostado dela. Agora, s o saberia quando fossem se 
encontrar para o Matrimonial.
As mulheres tambm foram dispostas em ordem, a mesma dos homens, para 
que pudessem combinar adequadamente. Ayla sorriu para Levela, que estava 
mais  frente. Gostaria
de ter ficado perto da irm de Proleva, mas ela era da Nona Caverna, e 
havia vrias jovens colocadas entre ela e a moa, que ia viver na Segun da 
Caverna, com Jondecam.
Os nveis delas eram semelhantes, visto que vieram de famlias de lderes e 
fundadores, os que tinham um status mais elevado, e, portanto, a posio 
dos lares combinados
no mudaria muito. O status de Jondecam era um pouquinho mais alto do que 
o de Levela, mas esse pequeno benefcio s podia ser agregado se eles 
fossem viver na Caverna
dele.
A Zelandoni da Caverna onde o casal ia viver conduzia a cerimnia de cada 
par individualmente, e os demais agiam como assistentes. As mes dos 
jovens e as de suas
parceiras, e geralmente membros mais prximos das famlias, tambm 
tomavam parte na cerimnia, formavam a parcela da frente da platia, e 
ficavam  espera at serem
chamados a desempenhar o seu papel. No caso de casais mais velhos, para os 
quais no se tratava do primeiro acasalamento, mas que desejavam declarar 
um acordo formal,
no era necessria a presena dos pais. Eles precisa vam apenas da 
concordncia da Caverna na qual iam viver, e geralmente inclu axn amigos e 
parentes em sua cerimnia.
Ayla avistou Janida, mais atrs, j que esta era da Poro Sul da Vigsima 
Nona Caverna, e sorriu-lhe, quando cruzaram os olhares. Atrs de todas, viu 
Joplaya, tam
uma estrangeira, uma Lanzadonii, embora o homem da sua lareira tivesse 
sido
OUtrora um Zelandonii de alto nvel social. Conquanto sua posio fosse a 
ltima aqui, ela estava entre os primeiros dos Lanzadonii, e isso era tudo o 
que importava.
Ayla olhou em torno para todas as mulheres que iam se acasalar naquela 
noite.
Ainda havia muitas que ela no conhecia, e Cavernas com cujos habitantes 
no
travou
conhecimento, nem com uma s pessoa, a no ser durante apresentaes
genricas. Ouviu algum comentar que era da Vigsima Quarta, e outra 
dizer que era da
caverna do
Urso, que fazia parte de Novo Lar, no Pequeno Rio da Relva.
Para Ayla, a espera parecia interminvel. Por que estava demorando
tanteo perguntou-se. Elas tiveram de se apressar, para se colocar na ordem, 
e agora
estavam ali,
paradas. Talvez ainda estivessem esperando pelos homens. Talvez um
deUes tivesse mudado de idia. E se Jondalar tivesse mudado de idia? No. 
Ele
no faria isso! Por
que o faria? Mas, e se ele fez?
No interior do alojamento da zelandonia, a Primeira afastou para o
ladco cortina que vedava o acesso privativo nos fundos da enorme habitao, 
o ficava na direo
da entrada normal, e empurrou a divisria para a lateral. - uma olhadela l 
fora e examinou a rea de reunio, que descia da encosta fundos e se abria 
para o acampamento.
As pessoas passaram a tarde toda se tando ali, e o local estava quase 
repleto. Estava na hora.
Os homens saram primeiro, enfileirados. Quando Jondalar levantou a
vista, para o aclive, teve a certeza de que cada pessoa possvel de 
comparecer estava
presente. O zunido
dos murmrios da multido aumentou de intensidade, e ele achou ter ouvido 
mais de uma vez a palavra "branca". Manteve os olhos grudados
nas costas do homem que ia  sua
frente, mas sabia que a tnica de couro causava grande impresso. Alis, era 
mais do que a tnica branca. O homem l ro, alto e incrivelmente bonito, com 
cativantes
olhos azuis, se destacaria de qw quer modo, porm quando seus cabelos 
estavam limpos, ficavam quase brancc e, banhado e com a barba feita 
recentemente, vestindo
a reluzente tnica de branco puro, ele era estonteante.
- Se eu fosse capaz de imaginar Lumi, o amante de Doni, vindo  terra
na forma humana, seria desse jeito - comentou a me de Jondecam, a 
Zelandi alta e loura da Segunda
Caverna, com o seu irmo mais novo, Kimeran, o lder da Segunda Caverna.
- Eu gostaria de saber onde ele arrumou essa tnica branca. Eu no me  
importaria de ter uma assim - disse Kimeran.
- Acho que cada homem aqui presente deve estar pensando a mesma coisa 
Kimeran, apesar de voc ser um dos poucos que ficaria bem vestido com ii 
assim - observou a
mulher.
Na opinio dela, o seu irmo no era apenas to altoe louro quanto o amigo 
Jondalar, mas igualmente bonito, ou quase. _JondeC tambm est com uma 
bela aparncia. 
Ainda
bem que manteve a barba neste Vero,  Fica timo com ela.
Depois que os homens se enfileiraram e formaram um semicrculo em volta 
um dos lados de uma imensa fogueira, chegou a vez das mulheres. Ayla esfor 
ou-se para ver
do lado de fora, quando, finalmente, a cortina foi aberta. Era quase
Noite. O sol, que ainda no tinha se posto totalmente, tragava com o seu 
fulgor coruscante a enorme
fogueira cerimonial e tornava indistintas as tochas que ha viam sido 
dispostas em volta da rea. Posteriormente, elas seriam bem-vindas. Ayla 
conseguiu enxergar
vrias pessoas perto do fogo. A enorme figura de costas para ela s podia 
ser a Zelandoni. Foi dado um
sinal, e as mulheres saram.
No instante em que Ayla pisou do lado de fora do alojamento, avistou a alta 
figura vestida com o couro branco. Ao formarem um semicrculo oposto ao 
dos homens, ela
disse a si mesma: Ele a est usando! Ele est usando a minha tnica. Todos 
estavam vestidos com elegncia, ningum mais, porm, usava branco, e ele 
destacava-se
do resto. Para ela, Jondalar era, de longe, o mais bonito.., no, o homem mais 
vistoso ali. Muitos concordavam com ela. Ayla viu-o olhando para ela da 
distncia
intermediria, bem iluminada pela grande fogueira, e ele a enca rava como 
se no conseguisse olhar para mais nenhum lugar.
Ela  to linda, pensou Jondalar. Nunca parecera to bonita. A tnica, de 
uma intensa cor de palha amarelo-dourado escuro, que Nezzie fizera para 
ela, com realces
do claro marfim das contas decorativas, quase combinava perfeitamente 
com o seu cabelo, que caa solto, do jeito que ele gostava.
Suas nicas jias eram os brincos de mbar, nas orelhas recentemente 
furadas
- as peas de mbar semelhantes de Tulie, lembrou Jondalar - e o colar 
feito de mbar e conchas que Marthona lhe dera. As reluzentes pedras 
amarelo-laranja captavam
os raios mais fortes do sol que se punha e os resplandeciam entre os seus 
seios. A tnica, aberta na frente, mas presa  cintura, era diferente de qual 
quer uma
das outras, mas se ajustava perfeitamente em Ayla.
Marthona, observando da frente da platia, ficou agradavelmente surpresa 
ao Ver o
filho surgir com a tnica branca. Ela vira a roupa que ele havia escolhido 
anteriormente,
e no foi difcil concluir que a tnica branca estava no pacote que e 
entregara. A falta de enfeites realava a pureza simples da cor, que era 
suficien temente extravagante.
Ela no precisava de nada mais, embora as caudas de arminho e dessem um 
belo efeito. Marthona tinha visto os poucos utenslios e vasilhas que Ayla 
utilizava e percebera
sua predileo pelos objetos simples, mas bem-fei tOs. A tunica branca era 
um notvel exemplo
disso. Tratava-se de uma declarao de que a qualidade era o seu prprio
ornamento
A simplicidade da roupa de Jondalar tambm fazia um surpreendente con 
traste com a de Ayla. Marthona tinha certeza de que haveria tentativas de 
copi A de Ayla,
por vrias mulheres que prestavam ateno, mas, provavelmente,
nenhuma delas conseguiria faz-la direito. Marthona a tinha examinado
cuidadosamente, quando Ayla a mostrara pela primeira vez, e havia notado a
refinada qualidade
do lavor. A veste exibia a opulncia do nico modo que fazia sentido para os 
Zelandonii: o do tempo gasto para se fazer aquilo. Da qualidade do
couro, do mbar, das
conchas e dos dentes s milhares de contas de marfim, feitas manualmente, 
uma a uma, aquela roupa de acasalamento comprovaria a
causa defendida por Marthona em relao
ao status de Ayla.
Jondalar no tinha olhos para mais ningum alm de Ayla. Os olhos 
brilhavam, e a boca estava semi-aberta, para ajudar a encher os pulmes, 
arfaiu de emoo. Era
o olhar que ela dava, ao se admirar com algo belo, ou quando excitava com a 
caada, e ele sentiu o sangue correr para os quadris. Ela  u mulher dourada, 
pensou.
Dourada como o sol. Ele a desejava, e mal podia acreditar que aquela mulher 
sensualmente bela seria a sua parceira. Sua parceira gostava de como isso 
soava. Ela
ia compartilhar a habitao com a qual pretend surpreend-la. E a cerimnia, 
no comearia nunca? No terminaria nunca? no queria esperar, desejava 
correr para
ela, levant-la nos braos e carreg-la.
A zelandonia havia se reunido, e a Primeira iniciou um canto persistente. Em
seguida, outro Zelandoni se juntou a ela com um tom constante, e depois um
terceiro Cada
donier escolheu um som, um tom com uma intensidade e um timbre, que por 
vezes variava em meio a uma repetida melodia, mas que cada um conseguia
sustentar comodamente. Quando
o Zelandoni, que ia unir o primeiro casal, comeou a E' um coral manteve, ao 
fundo, um canto suave e contnuo, cada qual produzindo tom distinto. No 
importava se
a combinao fosse harmnica ou no. Antes que uma das vozes perdesse o 
flego, outra se juntava a ela, e depois outra e mais outra, intervalos ao 
acaso. O resultado
era o zunido de uma polifonia de tons entremeados que poderia prosseguir 
indefinidamente, se houvesse gente bastante para
substituir pessoas que precisavam parar por
um instante para descansar.
Embora ficasse apenas de fundo, o agradvel zunido enchia a mente 
Jondalar, enquanto ele encarava, extasiado, a mulher que amava. Mal conse 
ouvir as palavras que
a zelandonia pronunciava para os primeiros casais. Ento sentiu uma leve 
cutucada dada pelo homem que estava atrs dele, e deu um
salto. Estavam pronunciando o seu nome.
Caminhou na direo da enorme figura Zelandoni, observando Ayla vir ao seu 
encontro. Pararam e ficaram de frente li para o outro, de lados opostos da 
donier.
A Zelandoni deu um olhar de aprovao para ambos. Jondalar era o mais
atraente dos homens, e ela sempre havia achado que ele era, de longe, o 
homem mais
atraente que j vira.
Embora, naqueles muitos anos passados, ele fosse pouco mais que um menino, 
esse motivo a levou a escolher Jondalar para lhe ensinar o
Dom
do Prazer de Doni, quando chegou a sua poca de aprender. E ele aprendeu 
mui tobem. Quase a convenceu a no seguir o chamado dela.
Ela agora estava satisfeita pelas circunstncias terem intervindo, mas, 
vendo o naquela espetacular tnica branca, voltou a se inteirar do motivo 
pelo qual ele quase
a convenceu. Imaginou onde ele tinha conseguido a tnica branca, certa 
mente em sua Jornada. A cor,  claro, atraa de imediato a ateno, mas era 
incomum na concepo,
e a total falta de enfeites a tornava extica. Combinava com a mulher que 
ele havia escolhido. Virou-se para olhar para Ayla.
E ela se igualava a ele. No, ela o superava, e isso no era fcil, pensou a 
Zelandoni. A donier teria ficado decepcionada, se Jondalar tivesse 
escolhido algum
que no estivesse em p de igualdade com a opinio que ela fazia dele. Tinha, 
porm, de admitir que Jondalar no apenas encontrara uma mulher que se 
equiparava a
ele, mas uma melhor. A Zelandoni sabia que, por muitos motivos, os dois 
eram o cen tro da ateno. Todos os conheciam ou sabiam quem eram, 
vinham sendo o assun to
da Reunio de Vero, e de longe eram o casal mais bonito presente.
Era justo, apropriado, que ela, a Primeira Entre Os Que Serviam  Me, 
devesse conduzir a cerimnia e ser aquela a amarrar o n do par mais ilustre. 
A prpria Zelandoni
era uma presena que devia ser considerada. O desenho tatu ado em sua 
testa havia sido intensificado com cores mais fortes, o cabelo fora 
cuidadosamente modelado,
se bem que de uma maneira esquisita, o que fazia a mulher alta parecer mais 
alta ainda, e a comprida tnica excessivamente enfeitada era uma obra de 
arte que praticamente
necessitaria de uma pessoa do tamanho dela para exibi-la adequadamente. 
Todos os olhos estavam concentrados no trio, e a Zelandoni fez uma pausa 
para acentuar o
impacto dramtico.
Marthona tinha avanado, para ficar ao lado do filho, com o atual parceiro, 
Willamar,  sua direita e um passo atrs.  esquerda, estava Dalanar, e logo 
atrs dele,
Jerika. Os dois teriam que esperar at o final, quando a filha dela, Joplaya, 
e Echozar se acasalariam. Dispostos ao lado de Willamar estavam Folara e 
Joharran,
a irm e o irmo de Jondalar. Perto de Joharran estavam Proleva e o filho 
dela, Jaradal. Muitos amigos e outros parentes estavam na platia, ali perto, 
em um local
 parte, para uso do casal durante a cerimnia deles. Antes de comear, a 
Zelandoni olhou para todos, e depois para cima, em direo  multido no 
aclive.
- Todas as Cavernas dos Zelandonji - iniciou a donier, com um solene tom de 
voz ressonante. - Vocs foram convocados para compartilhar o testemu nho 
da ligao entre
uma mulher e um homem. Por Doni, a Grande Me Terra, Primeira Criadora, a 
Me de Todos, Ela que deu  luz a Bali, que ilumina o cu, e cujo parceiro e 
amigo Dela,
Lumi, brilha sobre ns esta noite e  testemunha Com Ela. Ela  honrada 
pela unio sagrada de Seus filhos.
Ayla olhou de relance para a lua. O astro estava corcunda, um pouco mais 
que metade cheio, e ela subitamente percebeu que tinha escurecido. O sol 
j
tinha se posto
h algum tempo, mas a imensa fogueira e muitas tochas fazian
a noite parecer quase brilhante como o dia.
- Os dois aqui de p agradaram  Grande Me Terra por escolherem se ju 
tar. Jondalar da Nona Caverna dos Zelandonii, Filho de Marthona, outrora li 
da Nona Caverna,
atualmente parceira de Willamar, Mestre Comerciante e Zelandonii, nascido 
da lareira de Dalanar, Fundador e Lder dos Lanzadonii,
irmo de Joharran, Lder da Nona
Caverna dos Zelandonii...
O pensamento de Ayla no pde evitar vaguear, enquanto a Zelandoni 
proseguia com a longa e completa recitao dos nomes e laos de Jondalar, a
maicoria dos quais ela
no conhecia. Aquela era uma das ocasies em que todos os se vnculos eram 
declarados. Sua ateno retornou quando o tom de voz da doa mudou, aps a 
demorada litania.
- ...voc escolhe Ayla da Nona Caverna dos Zelandonii, Abenoada por
doni e Honrada pela Sua Bno... - um murmrio percorreu a multido. 
Tratav de um acasalamento
de sorte. Ela j estava grvida. -...outrora Ayla dos Mamutoi Membro do 
Acampamento do Leo, Filha do Lar do Mamute,
Escolhidado  Esprito do Leo das Cavernas, Protegida
pelo Urso das Cavernas, Amiga dos  cavalos Huiin e Racer, e do caador de 
quatro patas, Lobo.
Ayla perguntou-se onde estaria Lobo. Ele andara sumido a tarde inteira.
Era  noitinha, e ela estava decepcionada. Sabia que no significaria muito 
para ele, esperava que
o lobo estivesse presente ao seu acasalamento.
- ...Aceita por Joharran, Irmo de Jondalar e Lder da Nona Caverna do  
Zelandonii, e por Marthona, Me de Jondalar e outrora Lder da Nona
CavernAprovada por Dalanar,
Fundador e Lder dos Lanzadonii, homem da lareira nascimento de Jondalar...
A Zelandoni continuou citando a maioria dos parentes de Jondalar. Ayla 
sabia que, com aquele acasalamento, estava ganhando tantos novos laos
familiares, mas a Zelandoni
gostaria que houvesse mais. Ela precisara pensar mu intensamente para 
conseguir suficientes laos legtimos, a fim de tornar o
matrimnio apropriado. Ayla trouxera muito
poucos.
- Eu a escolho - respondia Jondalar, encarando Ayla.
- Vai respeit-la, cuidar dela quando estiver doente, prover para ela
quando estiver com filho e ajudar a prover para todos os fiflhos nascidos de 
sua
lareira? enquanto
viverem juntos? - entoou a Zelandoni.
- Vou respeit-la, cuidar dela, prover para ela e para as suas crianas - a
- E Ayla da Nona Caverna dos Zelandonii, outrora Ayla dos Mamuti, 
Membro do Acampamento do Leo, Filha do Lar do Mamute, Escolhida pelo 
Esprito do Leo das Cavernas,
Protegida pelo Urso das Cavernas, Aceita pela Nona Caverna dos Zelandonii, 
voc escolhe Jondalar da Nona Caverna dos Zelandonii, Filho de Marthona, 
outrora lder
da Nona Caverna, atualmente parceira de Willamar, Mestre Comerciante 
dos Zelandonii, nascido da lareira de Dalanar, Fundador e Lder dos 
Lanzadonii, Irmo de Joharran,
Lder da Nona Caverna dos Zelandonii? - A Zelandoni decidira relacionar 
apenas os laos essenciais, em vez de uma segunda recitao de todos eles. 
Ayla ficou aliviada
- juntamente com a maioria dos presentes.
- Eu o escolho - disse ela, olhando para Jondalar. As palavras dela ressoa 
ram em sua cabea. Eu o escolho. Eu o escolho. Eu o escolhi muito tempo 
atrs, e agora
finalmente, eu o posso escolher.
- Vai respeit-lo, cuidar dele quando estiver doente, ensinar os seus filhos a 
respeit-lo adequadamente como seu parceiro e provedor deles, inclusive 
aquele com
o qual Doni j a Abenoou? - continuou a Zelandoni.
- Vou respeit-lo, cuidar dele e ensinar aos meus filhos a respeit-lo -
respondeu.  A Zelandoni fez um sinal.
- Quem tem a autoridade de aprovar a unio deste homem com esta mulher?
Marthona deu alguns passos  frente.
- Eu, Marthona, outrora Lder da Nona Caverna dos Zelandonii, tenho a 
autoridade. Concordo com o acasalamento do meu filho, Jondalar, com Ayla 
da Nona Caverna dos
Zelandonii - afirmou.
Em seguida, Willamar avanou.
- Eu, Willamar, Mestre Comerciante dos Zelandonii, parceiro de Marthona,
outrora Lder da Nona Caverna, tambm concordo com esse acasalamento. - 
A
concordncia de Willamar no era essencial, mas a sua incluso na cerimnia 
acres centava aprovao ao acasalamento do filho de sua parceira com uma 
estrangeira,
e facilitava a incluso do ex-parceiro de Marthona, que j estava dando um 
passo
 frente.
Eu, Dalanar, Fundador e Lder dos Lanzadonii, homem da lareira de nas 
cimento de Jondalar, tambm concordo com o acasalamento de Jondalar, o 
filho de minha ex-parceira,
com Ayla da Nona Caverna dos Zelandonii, outrora Ayla do Mamuti.
Dalanar lanou para Ayla um olhar afetuoso, que era to parecido com o de
Jondalar, que ela quase sorriu, ao sentir o corpo reagir do mesmo modo. No 
era a primeira
vez. Para Ayla, Dalanar e Jondalar no apenas se pareciam, descontada
a diferena de idade, como sentiam do mesmo modo. Ento, ela no resistiu,
deu um sorriso para o homem mais velho, um dos seus sorrisos radiantes, 
que
pareciam irradiar
uma luz interna, e, por apenas um momento, ele chegou a desejar trocar de 
lugar com o filho da sua parceira. Em seguida, olhou para Jondalar notou um 
sorriso afetado.
O rapaz sabia o que ele estava sentindo, e no podia esperar para zombar 
dele! Dalanar quase soltou uma ruidosa gargalhada.
- Eu aprovo, sem dvida alguma - acrescentou Dalanar.
- Quem tem a autoridade de aprovar a unio desta mulher com este homem? 
- perguntou a Zelandoni.
- Eu, Ayla da Nona Caverna dos Zelandonii, outrora Ayla dos Mamutoi,  
Membro do Acampamento do Leo e Filha
do Lar do Mamute, tenho a autoridade para falar em meu benefcio.
A autoridade dada a mim pelo Mamut do Lar Mamute, o mais antigo e 
respeitado de todos os mamutii, por Talut, o chefe h mcm do Acampamento 
do Leo, e pela sua irm
Tulie, a chefe mulher do Acampa mento do Leo. Em nome deles, concordo 
com este acasalamento com Jondalar c Nona Caverna dos Zelandonii - 
declarou Ayla. Fora a parte
em que ela havia fica do mais nervosa, por ter que memorizar e repetir as 
palavras que devia
pronuncciar.
- O Mamut do Lar do Mamute, Aquele Que Serve  Me pelos mamutoi,
- disse a Zelandoni -, deu  Filha de sua Lareira a liberdade de decidir por
ela mesma. Como Aquela Que Serve  Me pelos Zelandonii, tambm posso
falar por Mamut.
Ayla escolheu se acasalar com Jondalar; portanto, a deciso dela mesma da 
concordncia do Mamut. - Em seguida, a Zelandoni falou, aume tando o tom 
de voz, para que
todos pudessem ouvir: - Quem fala por este casal?
- Eu, Joharran, Lder da Nona Caverna dos Zelandonii, falo por este
casal e dou as boas-vindas a Jondalar e Ayla a Nona Caverna dos Zelandonti 
- disse irmo mais
velho de Jondalar. Depois, voltou-se para as pessoas reunidas na pla tia 
atrs dele.
- Ns, da Nona Caverna dos Zelandonii, damos a eles as boas-vindas 
disseram todos em unssono.
A seguir, a Zelandoni levantou os braos, como se tentasse abraar cada
um dos presentes.
- Todas as Cavernas dos Zelandonii - anunciou, o tom da voz exigin ateno. 
- Jondalar e Ayla escolheram um ao outro, e foram aceitos pela
Nona Caverna, O que vocs
tm a dizer desta ligao?
Houve um bramido de aprovao. Se algum discordou, a oposio foi 
abafada. A donier esperou o rudo ceder, e ento prosseguiu:
- Doni, a Grande Me Terra aprova esta ligao de Seus filhos. Ao Abenoar 
Ayla, Ela sorriu para esta unio. - Ao seu sinal, Ayla e Jondalar
levantaram
as mos e as estenderam na direo da Zelandoni Que Era A Primeira. Ela 
pegou uma correia simples de couro, envolveu-a nas mos unidas dos dois, e 
a prendeu
um n. Quando os dois voltassem do perodo de experincia, devolveriam a 
correia intacta, sem ser cortada, e, em troca, receberiam colares iguais, um 
pre sente da
zelandonia. Esse seria o sinal de que a unio deles teria sido sancionada, e 
ento outros presentes poderiam ser ofertados.
- O n foi dado. Vocs esto acasalados. Que Doni sempre sorria para vocs.
- O jovem casal fez a volta, para ficar de frente para as pessoas, e a 
Zelandoni anunciou: - Eles agora so Jondalar e Ayla da Nona Caverna dos 
Zelandonii.
Todos se afastaram ao mesmo tempo, inclusive Aquela Que Era A Primeira 
Para Servir  Grande Me Terra, a fim de abrir espao para o casal 
seguinte. En quanto todos
recuavam ainda mais na direo da platia, abrindo espao para a famlia do 
casal seguinte, Ayla e Jondalar caminharam para o local onde espera vam os 
outros casais
que tinham correias amarradas em volta dos pulsos. Ainda no havia acabado.
Embora a maioria das pessoas que observavam gostassem do espetculo de 
ver aquele casal to belo assumr o compromisso e ter os pulsos amarrados, 
havia algumas poucas
em quem o acasalamento provocara outros tipos de sentimentos. Uma delas 
era uma bela mulher com os cabelos claros, a pele muito branca, e olhos 
cinzentos to escuros,
que eram quase pretos. A maioria dos homens olhava para Marona com um 
olhar favorvel, at a verem exibir um franzido de testa contrariado, mas 
ela os ignorou.
Marona no sorria de modo favorvel para o adorvel casal. Ela lanava um 
olhar feroz de puro dio para a estrangeira e o homem que, certa vez, fora 
o seu Prometido.
Naquele ano, ela deveria ter sido o centro das atenes, mas, em vez disso, 
ele partiu numa Jornada e a deixou em dificuldades, sem homem algum para 
se acasalar.
Para piorar, a prima prxima dele tinha vindo, aquela mulher de cabelos 
negros de estranha aparncia que todos diziam ser to bela - e que ia se 
acasalar com o homem
mais feio que ela j vira -, e atraiu toda a ateno. Sim, antes do vero 
terminar, ela encontrou um homem razoavelmente aceitvel para se acasalar, 
mas no era
Jondalar, o homem que todas queriam e ela supostamente Conseguiria. 
Poucos anos depois, os dois ficaram felizes em cortar o n. Aquela fora a 
pior Reunio de Vero
que Marona havia passado.
Nesse ano, Jondalar finalmente retornou, mas com uma estrangeira, que in 
sistia em manter animais  sua volta, e nem ao menos se importava em vestir 
rou pas de baixo
de rapaz. Agora, os dois estavam acasalados, e ela estava grvida, j 
Abenoada. No era justo. E onde ela conseguiu aquela vestimenta que 
estava Usando, aberta,
e exibindo os seios? Marona no teria hesitado em vestir uma roupa
como aquela, se tivesse tido a idia primeiro, mas agora no o faria mais, 
mesmo se as outras mulheres o fizessem, e ela sabia que o fariam. Algum dia, 
darei um
jeito de mostrar a eles. Algum dia, ele vai se arrepender, ambos vo se 
arrepender. Algum dia.
Havia outros que no estavam particularmente felizes com o casal. Laramar 
no gostava de nenhum dos dois. Jondalar sempre o olhou com desdm, me 
quando bebia a barma
dele, e a mulher, Ayla, com aquele lobo, que criou a maioi confuso, por 
causa da filha mais nova de Tremeda, e fez Lanoga achar que ela
era
maravilhosa. Agora, na maior parte do tempo, Lanoga nem mesmo estava em
casa para lhe preparar uma refeio. Em vez disso, ficava sentada com 
aquelas outra mulheres,
como se o beb fosse dela, e ainda nem mesmo era mulher, mas chegando l. 
Talvez, um dia, at se tornasse uma mulher bem apessoada, com
uma melhor aparncia do que
aquela velha desmazelada da me dela. Eu s queria Ayla se mantivesse 
longe do meu alojamento, pensou Laramar. Em seguida,
deu um sorriso matreiro: a no ser que ela
queira ser honrada. Como seria ela, chea de barma, num Festival da Me? 
Quem sabe? Algum dia.
Havia outra pessoa que desejava qualquer coisa ao casal, menos felicidade. 
meu nome agora  Madroman, pensou o aclito, e gostaria que eles se
lembrassem disso, especialmente
Jondalar. Olhem para ele, to presunoso, todo bem vestido com aquela 
tnica branca, fazendo sorrir todas as mulheres rec acasaladas. Ele ficou 
surpreso, quando
descobriu
que agora fao parte da zelanh donia. Nunca esperou isso, ele no achava 
que eu podia conseguir, porm
sou mais esperto do que ele pensa. E vou me tornar um Zelandoni,
a despeito daquela mulher gorda que anda bajulando a estrangeira de 
Jondalar, como se ela j
fosse uma Zelandoni.
Ela  bonita, claro. Eu poderia ter conseguido algum assim, se ele no
tivesse quebrado os meus dentes. Ele no teve motivo para me agredir 
daquele jeito.
Tudo o que
fiz foi dizer a verdade. Ele queria se acasalar com Zolena, e ela teria
concordado, se eu no tivesse avisado a eles que eu sabia. Eu devia ter 
deixado os acasalarem,
e agora aquele rosto sorridente estaria acasalado com uma velha gorda, em 
vez da estrangeira que ele trouxe da viagem. Ela age como se fosse' 
Ze1andon mas no . 
Nem
mesmo  uma aclita, e nem fala direito. Quantas mulheres o achariam to 
maravilhoso, se algum tivesse quebrado os dentes
dele. Isso seria algo bom de ver. Eu gostaria
muito de ver isso, algum dia.
Um quarto par de olhos observara a unio do casal sem qualquer
sentimentco de  boa vontade. Brukeval no conseguia deixar de olhar para a 
mulher dourada, o os cabelos
cados sobre os ombros, e os grandes e lindos seios  mostra. Ela
estava  grvida, aqueles eram seios de me, e ele queria mais do que tudo 
esticar as
mos e
toclOs acarici-los, sug-los. Eram to perfeitos, que ele comeou a pensar 
que ela estava ostentando aqueles seios perfeitos, escarnecendo dele, de 
propsito,
com sua abUndcia.  OS duros mamilos rosados implorando para serem 
sugados.
Jondalar vai tocar aqueles seios, segur-los, colocar aqueles mamilos na 
boca e sug-los. Sempre Jondalar, sempre o favorecido, sempre o sortudo. 
At mesmo tem a
melhor me. A me de Marona nunca ligou para mim, mas Marthona sem pre 
esteve disponvel, quando eu no conseguia mais suportar. Ela sempre falava 
comigo, me explicava
as coisas, me deixava ficar com eles por uns tempos. Ela sempre foi bondosa. 
Jondalar no  to ruim assim, mas isso  porque sente pena de mim, porque 
no tive
uma me como a dele. Agora, est se acasalando com uma me, uma mulher 
dourada como Bali, o grande filho dourado da Me, com belos seios, e que vai 
ser me.
Ela ficou to feliz ao v-lo se aproximar com uma tocha e conduzi-la para 
fora daquela caverna, e disse que, se no fosse Jondalar, ela o levaria em 
conside rao
para parceiro, mas no falou srio. Quando Jondalar e aquele cabea-chata 
apareceram, ela deixou claro que o via como um cabea-chata, exatamente 
como aquele dos
Lanzadonii. No sei como Dalanar pde ao menos deixar que aquele cabea-
chata olhasse para a filha da parceira dele, muito menos se acasalar com ela. 
Isso  errado.
Ele  uma abominao, meio animal, meio homem. Isso no devia ser
permitido. Joplaya parecia ser uma boa moa, era calada, e sempre foi legal
com ele, mas como ela
pde pensar em se acasalar com aquele cabea-chata? No  direito. Algum
devia impedir isso, pensou Brukeval.
Talvez eu deva fazer isso. Se Ayla pensar a respeito, vai achar que fiz a
coisa certa. Talvez isso a faa gostar de mim. Ser que ela me levaria
mesmo em consi derao,
se algo acontecesse, se Jondalar no existisse mais? Se algo acontecesse a
Jondalar, ser que ela me levaria em considerao, algum dia?
32
Levela e Jondecam levantaram as mos unidas, em saudao, quando Ayla e
Jondalar chegaram  rea de espera.
- Ela disse que voc j foi Abenoada, Ayla? - perguntou Levela, cor rendo
na direo dela.
Ayla confirmou com a cabea, emocionada demais para confiar em si mesma
Para falar.
586
- Oh, Ayla! Isso  maravilhoso! Por que no me contou? Jondalar sabe? Voc
tem tanta sorte! - exclamou, sem dar tempo a Ayla de responder, e tentou
lhe dar um abrao.
Mas ela esqueceu por um instante a mo  qual estava amarrada, e enroscou-
se com o brao deJondecam. Todos deram risadas, inclusive as pessoas que
estavam perto,
e Levela acabou abraando Ayla com um brao s.
- A sua roupa  to linda, Ayla. Nunca tinha visto nada igual. Tem tantas
contas de marfim e pedaos de mbar, em lugares que at parece que foram
feitos de marfim
e mbar. O couro tem um perfeito tom amarelo combinando com tudo. E
adorei o modo como voc a usou, aberta no peito, principalmente por que
voc vai ser me em breve.
Mas ela deve ser pesada. Onde a conseguiu? - quis saber Levela. Estava to 
animada, que Ayla teve que sorrir.
- Sim,  pesada, mas estou acostumada a ela. Eu a carreguei por um
longo caminho. Foi Nezzie quem me deu esta roupa, quando achava que eu ia 
me
acasalar com um homem
dos Mamuti, e me ensinou o modo de us-la. Ela era a parcehira do chefe 
do Acampamento do Leo. Quando, em vez disso, eu decidi partir con 
Jondalar, ela mandou 
que
eu a trouxesse e a vestisse quando me acasalasse com ele. Ela gostava de 
Jondalar, todos gostavam. Queriam que ficasse e se
tormasse um Mamuti, mas ele disse que precisava
voltar para casa. Creio que entendo por qu - disse Ayla. Vrias pessoas 
tinham se juntado em volta, para ouvir. Ela queriam poder contar aos outros 
o que a estrangeira
falara sobre a sua roupa rica mente executada.
- Jondalar tambm est maravilhoso - comentou Levela. A sua roupa  toda 
requintada, por causa do trabalho com as Contas e os enfeites. A deJondala 
faz um contraste
perfeito, e  estonteante somente por causa da cor.
- Exatamente - concordou Jondecam. - Todos ns estamos vestindo as 
nossas melhores roupas - apontou para a prpria vestimenta -, o que
normal mente significa serem
enfeitadas, mas ningum tem algo to incrvel  quanto a sua, Ayla. Mas, 
quando Jondalar surgiu vestindo essa a, todo mundo notou.
A tnica  simples e elegante, principalmente
nele. Eu sei como essas coisas funcionam. Todas as mulheres vo querer uma 
roupa como a sua, e todos os
homens vo querer algo branco como a dele. Foi algum que
lhe deu isso, Jondalar?
Foi Ayla - respondeu Jondalar.
- Ayla! Foi voc que fez isso? - surpreendeu-se Levela.
- Uma Mamuti me ensinou a fazer couro branco - explicou Ayla. as pessoas 
se viraram, para ficar de frente para o Zelandoni seguinte.
-  melhor pararmos de falar, pois vai comear - sugeriu Levela.
Aps se calarem, para que se pudesse iniciar a cerimnia do prximo
casal, Ayla refletiu sobre o ritual de acasalamento incluir amarrar os pulsos 
dos
casais.
uma correia difcil de ser desatada. O emaranhado de braos, quando Levela, 
animada, correu para abra-la, a fez entender que, estando amarrada, uma 
pes soa era
forada a pensar na outra, antes de sair correndo de qualquer maneira.
era uma primeira lio ruim a se aprender sobre o que  estar acasalado.
- Gostaria que eles se apressassem - expressou-se  meia-voz um dos 
homens recmacasalados. - Estou faminto. Com todo esse jejum de hoje, 
tenho certeza de que o
pessoal l no fundo consegue ouvir o meu estmago roncar.
Ayla estava mais do que contente pela longa recitao de nomes e laos 
feita pelo Zelandoni, pois isso lhe dava tempo para pensar e ficar sozinha 
com os pr prios
pensamentos. Ela estava acasalada. Jondalar erao seu parceiro. Talvez agora 
ela conseguisse sentir que era realmente Ayla da Nona Caverna dos 
Zelandonii, embora
estivesse contente por Ayla dos Mamuti fazer parte de seus nomes. S 
porque iam viver na Nona Caverna no queria dizer ue ela era uma pessoa 
dife rente. Apenas
tinha novos nomes e laos familiares para acrescentar  sua lista de vnculos 
e relaes. E tambm no perdera o seu totem do Cl.
Sua mente vagueou para a poca em que era uma menina vivendo com o Cl. 
Quando as pessoas se acasalavam, no tinham esse costume do n, pois no 
pre cisavam dele.
Desde pequenas, as mulheres do Cl aprendiam a se manter atentas aos 
homens, principalmente aqueles com quem iam se acasalar. Esperava-se que 
uma boa mulher do Cl
antecipasse as exigncias e desejos do parceiro, porque um homem do Cl, 
desde a tenra idade, aprendia a nunca estar atento, ou pelo menos no o 
demonstrar, s suas
prprias necessidades, desconforto ou dor. Ele era capaz de jamais pedir 
ajuda, e ela precisava saber quando esta era necessria.
Broud no precisava da sua ajuda quando a pedia, mas fazia exigncias o 
tempo todo. Inventava coisas para Ayla fazer s porque podia obrig-la a 
faz-las - pegar
gua para ele, amarrar as coberturas de suas pernas. Alegava que Ayla era 
apenas uma menina e precisava aprender, mas
no se importava se ela aprendia, e no fazia
qualquer diferena quando ela tentava agrad-lo. Queria mostrar o seu 
poder sobre ela,
visto que ii-ela lhe  resistira, e mulheres do Cl no desobedeciam 
voluntariamente
aos homens. Ayla o fizera sentir-se menos que um homem, e a odiava por 
isso, ou talvez, em algum nvel instintivo, Broud soubesse que a espcie dela 
era diferente.
No  foi uma lio fcil para ela aprender, mas aprendeu, e foi Broud, com 
as suas
constantes exigncias, quem lhe ensinou, mas Jondalarfoi o beneficirio.
Ayla fica
va sempre atenta ajondalar, e ocorreu-lhe que era porque ela no se sentia  
vontade quando no sabia onde ele estava. Era assim tambm com os seus 
animais.
De repente, como se, ao pensar nele, o fizesse aparecer, Lobo estava ali. 
Era a mo direita dela que estava amarrada na esquerda dejondalar, e Ayla 
baixou-se e O
abraou com a esquerda. Ergueu a vista para Jondalar.
um pouco.
- Eu estava preocupada com ele, querendo saber por onde andava - jusi ficou 
Ayla -, mas Lobo parece estar muito contente consigo mesmo.
- Talvez tenha um motivo - insinuou Jondalar com um sorriso.
- Nenm foi embora, quando encontrou uma parceira. Ele ia me visitar, vez 
em quando, mas passou a viver com a sua
prpria espcie. Se Lobo encontrar uma fmea, voc acha
que vai resolver ir embora para viver com ela?
- No sei. Voc disse antes que Lobo pensa que as pessoas so a
alcatia dele, mas, se ele for se acasalar, ter que viver com a sua prpria 
espcie -
ponderou ele.
- Eu quero que ele seja feliz, mas, se ele nunca mais voltar, sentirei
muito sua falta - lamentou Ayla, levantando-se. A maioria das pessoas em 
volta a
observava com
o lobo, principalmente as que no a conheciam bem. Ayla fez sinal para ele 
ficar perto dela.
-  um lobo bem grande, no? - comentou uma das mulheres, recuando.
- Sim,  - concordou Levela -, mas quem o conhece sabe que ele nunca 
ameaou as pessoas.
Nesse instante, uma mosca resolveu perturbar o lobo. Ele se sentou,
arqueou o corpo e comeou a se coar. A mulher deu um risinho nervoso.
- Isso, certamente, no parece nada ameaador - disse ela.
- Exceto para a mosca que o est perturbando - rebateu Levela.
De repente, ele parou, empinou a cabea como se ouvisse ou farejasse ou 
cebesse algo, em seguida levantou-se e olhou para cima, para Ayla.
- V, Lobo - mandou ela, fazendo um sinal, liberando-o. - Se quer
Ele saiu correndo, desviando das pessoas em seu caminho, algumas ficando 
bastante assustadas ao v-lo.
A unio seguinte no era de uma dupla, mas de um trio. Um homem se 
acasalando com gmeas idnticas. Elas no queriam se separar, e incomum 
para gmeas, ou simplesmente
irms muito chegadas, se tornaram parceiras, apesar de ser difcil para um 
jovem tentar prover para duas
mulheres e  seus filhos. Nesse caso, o homem era um pouco mais velho,
bem estab com uma boa reputao e um alto nvel social. Mesmo assim, as
probabilidades- eram a de que, algum dia, um segundo homem seria aceito na 
unio,
embora no se soubesse
ao certo.
Ao se chegar ao ltimo casal, as pessoas j estavam ficando entediadas
Com as  inevitveis repeties, principalmente quando era a cerimnia de 
algum
conhecido, mas a ltima
unio voltou a despertar o interesse. Quando Jolaia e Echozar se 
adiantaram, houve um arfar coletivo por parte daqueles que
assistiam,
em seguida um burburinho. Embora nenhum dos dois tivesse a aparncia nor 
mal dos Zelandonii, e a platia soubesse que no eram de fato Zelandonii, 
mas Lanzadonii,
mesmo assim foi uma viso chocante para alguns dos presentes.
Viram uma mulher alta, de cabelos negros, esguia e atraente, com uma 
beleza
etrea difcil de ser descrita, O homem a seu lado no podia parecer mais 
diferen te. Era ligeiramente mais baixo, com feies to marcantes e 
inusitadas, que a
maioria das pessoas as via como feira. A extensa arcada superciliar, 
acentuada por grossas e incontrolveis sobrancelhas, projetava-se como 
uma prateleira sobre
os olhos negros profundamente embutidos. O nariz era proeminente, em
parte porque a frente da face comprida e larga ressaltava para diante, e em
parte porque o nariz,
bem pronunciado e com a forma mais parecendo com o bico de uma guia
embora no to fino, era enorme, se bem que proporcional ao tamanho do
rosto. Como muitos homens,
ele costumava deixar a barba crescer durante o in verno, pois isso ajudava a
manter o rosto aquecido, mas a raspava durante o ve ro. Ele a havia
raspado recentemente,
e a extensa mandbula estava claramente definida, mas, como as pessoas do 
Cl, ele carecia de um queixo - ou quase. Tinha a insinuao de um, mas, com 
o nariz projetando-se
para to distante, parecia ter um queixo diminuto, recuado.
O rosto de Echozar era o rosto do Cl, exceto pela testa. Faltava-lhe a 
aparncia determinante de testa achatada, recuada e em aclive do Cl; ele 
no era um cabea
chata. Acima da arcada superciliar de Echozar, sua testa elevava-se cheia e 
redonda, como a de qualquer homem ali presente. E, ao passo que a gente do 
Cl era bem
baixa, ele era alto, como a maioria dos homens ali, porm com uma 
constituio
fsica robusta e corpulenta, e um tronco grande e redondo, tpico do Cl. 
Como as
deles, suas pernas eram curtas, em proporo, e ligeiramente arqueadas, 
mas to musculosas quanto os seus braos. No havia dvida de que se 
tratava de um homem
forte.
E no havia dvida de que se tratava de um homem de espritos misturados, 
para alguns uma abominao, meio gente e meio animal. Havia os que 
acredita Vam que no
devia ter permisso de se acasalar com a mulher que estava a seu lado. Por 
mais estranho que ela parecesse, era inegvel que se tratava de uma hu 
mana, uma deles,
e no um daqueles animais cabeas-chatas. Os Zelandonii de viam 
desencoraj-los, no reconhec-los, nem ajud-los em tal unio.
Como os Lanzadonii ainda no tinham um Zelandoni prprio, Aquela Que Era 
A Primeira voltou a se apresentar. Ela no era apenas a Primeira, mas a 
Zelandoni da OrLa
Caverna, e Dalanar outrora vivera na Nona. Ele ainda mantinha fortes 
vnculos COm ela, mais do que com qualquer outra Caverna, e Joplaya era 
filha de sua lareira.
Ao assumir o seu lugar, a Primeira pensou, sorrindo consigo mesma, que 
parecia to forte, que pouca gente estaria disposta a desafi-lo cara a cara,
para uma competio individual. J que era o ltimo casal a se acasalar, o 
pensa mento da Primeira estava  frente das disputas. Assim, refletiu, aps 
o acasalamento
dos dois, seria um bom momento para anunciar que a Primeira Aclita da 
Segun da Caverna dos Zelandonii fora chamada, e, aps um exame, provou 
ser Zelandoni. Ela
havia decidido retornar com Dalanar e sua Caverna e tornar-se A Primei 
Lanzadonii a Servir  Grande Me Terra, um acordo perfeito, e um timo 
lugar para ela comear.
A donier olhou as pessoas reunidas em volta. Dalanar, ali parado, era
muito orgulho. Era espantoso o quanto Jondalar se parecia com ele, mas a 
Primeira
estava ciente
das pequenas diferenas, talvez porque, outrora, tivesse privado intimidade 
do mais jovem. Jondalar, ainda atado a Ayla, tinha se retirado para grupo 
em que se encontravam
os recm-acasalados e seus familiares. Joplaya, afi nal de contas, era sua 
prima prxima. Ao lado de Dalanar, estava Jerika, a me
de Joplaya, e de p, atrs dela, encontrava-se
Hochaman, o homem da lareira deJerik Apoiava-se pesadamente sobre um 
rapaz desconhecido da Primeira. Esta deduzr que ele foi originalmente um 
Zelandonii, ou de uma
Caverna afastada, ou de gum povo mais distante, talvez os Losadunai, mas os 
desenhos em suas
roupas e  as jias o proclamavam um Lanzadonii.
Hochaman era um homenzinho idoso e sbio, com o rosto como o de Jer 
porm mal conseguia manter-se de p, quanto mais andar. Dalanar e Echozar 
haviam carregado nas
costas todo o caminho at a Reunio de Vero. Ele contava s pessoas que 
consumira as pernas na sua Jornada, e que ningum jamais
tinha ido to longe. Viajara toda a distncia
desde os Mares Sem Fim do Leste at Grandes guas do Oeste, e levara 
nisso a maior parte de sua vida. Ele sabia conU contar uma boa histria, 
tinha muitas para contar,
no se importava em repet-las, e provavelmente seria muito requisitado 
depois que as cerimnias termina sem e comeassem as disputas, os jogos e 
o Contar de Histrias.
Nesse ano, casais recm-acasalados teriam que esquecer esses eventos; 
eles estariam no
incio de suas duas semanas de experincia. A zelandonia escolheu de 
propsito
esse perodo. Se um casal no encarasse o seu acasalamento seriamente o 
bastante pa abrir mo de alguns jogos e Contar de Histrias, ento era 
porque no devia teri
acasalado.
Os cantores continuavam mantendo a sua polifonia, se bem que agora ei uma 
srie bem diferente de tons daquela quando a Primeira iniciou a
cerimnnia.
- Todas as Cavernas dos Zelandonii - novamente ressoou a voz da doni
- Vocs foram convocados para compartilhar o testemunho da ligao de t 
homem com uma mulher. Por Doni, a Grande Me Terra, Primeira Criadora, 
Me de Todos, Ela
que deu  luz a Bali, que ilumina o cu, e cujo parceiro e am
go Dela, Lumi, brilha sobre ns esta noite e  testemunha com Ela. Ela  
honrada pela unio sagrada de Seus filhos.
- Os dois aqui de p agradaram  Grande Me Terra por resolverem se 
juntar.
- O volume de som vindo da platia aumentou com comentrios de fundo. A 
ceri mnia, de certo modo, seguiu mais rpida do que as demais, pois no 
havia muitos nomes
e laos familiares; Echozar no tinha quase nenhum. Ele era Echozar da Pri 
meira Caverna dos Lanzadonii, filho de Mulher, Abenoada por Doni, aceito 
por Dalanar
e Jerika da Primeira Caverna dos Lanzadonii. Joplaya tinha uma lista mais 
comprida de nomes e laos, a maioria atravs de Dalanar dos Zelandonji. 
Jondalar e Ayla
foram mencionados. Atravs da me, apenas os nomes da me de Jerika, 
Ahnlay, que caminhava no mundo dos espritos, e do homem sua lareira, 
Hochaman.
- Eu, Dalanar, Lder da Primeira Caverna dos Lanzadonjj, falo por este casal, 
e terei prazer que Joplaya e Echozar continuem vivendo na Primeira Caverna 
dos Lanzadonii
- afirmou o lder ao final, e lhes dou boas-vindas. Em seguida, vi rou-se para 
encarar, as pessoas reunidas na platia atrs dele, o resto dos Lanzadonii, 
que tinham
viajado at a Reunio de Vero dos Zelandonii para ajudar a sancio nar o 
acasalamento.
- Ns, da Primeira Caverna dos Lanzadonii, lhes damos as boas-vindas 
bradaram em unssono.
Ento, a Zelandoni Que Era A Primeira Entre Aqueles Que Serviam  Me 
levantou os braos, como se tentasse abraar todos ali.
- Todas as Cavernas dos Zelandonii e os Lanzadonii - disse ela-, Joplaya e 
Echozar escolheram um ao outro. Esto de acordo, e eles foram aceitos pela 
Primeira Caverna
dos Lanzadonij. O que vocs tm a dizer desta unio?
Houve um grande nmero de pessoas que respondeu "sim", mas tambm 
houve uma parcela que disse "no".
A Zelandoni ficou chocada e, por uma frao de tempo, perplexa. Ela nunca 
havia oficializado uma cerimnia de acasalamento que no fosse 
referendada por todas as
pessoas. No caso de haver objees, elas eram sempre contornadas de 
antemo. Tratava-se da primeira vez que ouvia um "no" de algum. Dalanar 
e Jerika enrugaram
a testa, e muitos dos Lanzadonii olharam em volta. A maioria Parecia 
constrangida, e outros, irritados. A Primeira decidiu ignorar o "no", e 
continuou, como se
no o tivesse ouvido.
- Donj, a Grande Me Terra, aprova esta juno de Seus filhos. Ela sorriu 
Para esta unio. Ela j Abenoou Joplaya - falou. Fez um sinal para os dois 
es tenderem
as mos. Houve um momento de hesitao, e ento Joplaya e Echozar Se 
deram as mos e as ofereceram  Zelandonj Que Era A Primeira. Esta 
enrolou UIfl tira de couro
nas mos unidas e amarrou-a com um n.
- O n foi dado. Vocs esto acasalados. Que Doni sempre sorria para
vocs.
- Eles se viraram, para ficar de frente para as pessoas, e a Zelandoni 
anunciou:
Eles agora so Joplaya e Echozar da Primeira Caverna dos Lanzadonii.
- No! - gritou uma voz da platia. - Eles no devem.  errado. L uma 
abominao.
Vrias pessoas reconheceram a voz. Foi Brukeval! Novamente, a Primeira tcq 
tou ignor-lo, mas outra voz se juntou  dele.
- Ele tem razo. Eles no devem se acasalar. Ele  meio animal! -
afirmou Marona.
Eu at entendo Brukeval, pensou a Zelandoni da Nona, mas Marona no E 
para isso. Ela s est tentando criar problema. Estaria tentando se vingar 
deJond e Ayla, humilhando
a prima dele?
Ento, outra voz foi acrescentada, vindo da rea onde estava sentada a
Quarta Caverna.
- Eles tm razo. A Zelandonii no devia aprovar esse acasalamento.
-Tratava-se de um homem que tinha tentado entrar para a zelandonia, mas 
fora
recusado. Parecia
que os descontentes haviam se unido s para causar problema.
Outros poucos expressaram a mesma opinio, inclusive Laramar. Ela
tambm  reconheceu a voz dele. Por que ele estava fazendo confuso?, 
perguntoui Alguns dos que objetaram
tinham opinio formada a respeito disso, mas ele no ligava para coisa 
alguma.
- Talvez voc deva reconsiderar esse acasalamento, Zelandoni - gritou un 
outra voz. Foi Denanna, a lder das trs pores da Vigsima Nona Caverna.
Preciso pr um fim nisso, pensou a Primeira.
- Por que est sugerindo tal coisa, Denanna? Esses dois jovens fizeram a
sua escolha, e foi aceita pelo povo deles. No entendo a sua objeo.
- Mas voc est pedindo que ns aceitemos, e no apenas ao povo deles - 
retrucou Denanna.
- E a maioria dos Zelandoni aceitou. Eu conheo individualmente cada pessoa 
que se ops a este acasalamento. - Levantou a vista para a ladeira replel de 
gente, e,
apesar
de no conseguir enxergar muita coisa no escuro, os que fizeram objeo 
tiveram a ntida impresso de que ela conseguia, e olhava
diretamente para eles. - A maioria
tem os seus prprios motivos, que nada tm a ver com este casal. Apenas 
poucos tm uma opinio verdadeira sobre esta questo.
No vejo motivo para que esses poucos
impeam esta cerimnia, ofendam os Lanzadon e constranjam os Zelandonii. 
Joplaya e Echozar esto acasalados. Quando termi narem o seu perodo de 
experincia, a unio
deles ser sacramentada. No h mais nada a se dizer sobre isto. Est na 
hora do prstito e do festim.
Ela fez um sinal para a zelandonia, que organizou os casais recm-acasalados 
os conduziu ao redor da fogueira, que comeava a se extinguir. Aps 
fazerem dnco voltas
completas bem lentas, foram levados em direo  rea onde seria servida a 
comida, para dar incio ao banquete e aos festejos, mas a sensao de 1egria 
do Matrimonial
tinha sido anuviada.
Os encarregados comearam a trinchar os enormes quartos de auroques, 
que
haviam 1 passado o dia todo assando em espetos girando sobre brasas. 
Outros pe daos mais
duros foram enterrados em buracos forrados com pedras quentes, jun 
tamente com certas razes. Uma sopa, engrossada com flores de lrio-
amarelo, que tambm continha
brotos e pequenas razes frescas da planta, alm de pios, ver duras, 
frondes de samambaia e cebolas, e temperada com ervas, era chamada de 
"sopa verde". Tratava-se
de uma tradio do Primeiro Matrimonial da estao. Razes maduras de 
lrio-amarelo e tabua, socadas para remover a parte fibrosa, e misturadas 
com o cerne de gros
de aveia silvestre e sementes pretas de erva fedegosa, tostados e 
triturados at virar farinha, tinham sido assadas como uma espcie de po 
duro e achatado, e servido
com a sopa.
As pequeninas bagas vermelhas em forma de corao, que nasciam perto do 
solo e ficavam cobertas com minsculas sementes, eram familiares a Ayla; 
ela fi cou encantada,
ao ver morangos frescos empilhados em tigelas. Alguns, colhidos 
anteriormente e que haviam ficado moles, tinham sido cozidos, para formar 
uma calda, junto com vrias
outras frutas e uma planta com grossos talos de cor avermelhada, cujas 
grandes folhas eram sempre cortadas e jogadas fora. Os talos cidos 
acrescentavam um agradvel
travor s bagas e s frutas, mas as folhas podiam deixar uma pessoa doente. 
Tambm havia talos novos de epilbio cozidos no va por e temperados com 
sal das Grandes
guas do Oeste, alm de cestos imperme veis om a barma fermentada de 
Laramar.
Com o prosseguimento das festividades e mais barma sendo consumida, a 
tenso foi diminuindo. Jondalar agradeceu calorosamente a Dalanar, os 
olhos cin tilando, por
ter vindo de to longe para comparecer ao seu acasalamento.
- Eu teria vindo somente por sua causa, mas tambm viemos por causa de 
Joplaya e Echozar. Lamento pelo fato desagradvel. Receio que isso tenha 
estraga do o acasalamento
dos dois, e talvez o de todo mundo - lamentou Dalanar.
- Sempre h uns poucos que tentam estragar as coisas para as outras pesso 
as, mas no teremos que nos preocupar em voltar s Reunies de Vero dos 
Zelandonji para
acasalar os nossos jovens. Ns agora temos a nossa prpria Zelandoni - 
destacou Jerika.
- Isso  maravilhoso, mas espero que, em todo caso, vocs voltem de vez em 
quando - observou Jondalar. - Como se chamar ela?
- Lanzadoni. Voc sabe disso - disse Dalanar, e depois sorriu. - Essas 
pessoas abrem mo de sua individualidade, para ficar em unio com o seu 
povo, mas notei que,
em vez disso, usam palavras de contar para se designara e palavras de 
contar tm mais poder do que nomes comuns. Ela era a Primeira Aclita da 
Zelandoni da Segunda
Caverna. E agora se chamar Lanzadoni da Primeira Ca verna dos Lanzadonii.
- Eu sei quem  ela - aparteou Ayla. - Foi um dos aclitos que me guia ram na 
Caverna Funda de Pedras da Fonte, quando fomos ajudar a Zelandoni 
encontrar o esprito
do seu irmo. Voc se lembra, Jondalar?
- Sim, eu me lembro. Creio que ser uma boa Lanzadoni para vocs. Se gundo 
me disseram,  muito dedicada e uma boa curadora - comentou
Jondalar.
J era tarde da noite, e os casais recm_acasalados disseram as ltimas 
palavra que iam pronunciar para amigos e parentes em quatorze dias. Para 
alguns par ceu estranho,
como dizer adeus sem partir. Haveria banquetes menores, indivi dualmente, 
nas Cavernas, quando eles voltassem para o grupo depois do
perodo de separao. Ento,
receberiam presentes para iniciar as suas vidas em comum Os 
acasalamentos no eram totalmente reconhecidos, j que os casais, se
quisesem, eram livres para se separar
aps esse perodo. Apesar de os casais sarem mais cedo, as festividades 
continuaram at os primeiros raios da alvorada.
Quando Ayla e Jondalar partiram foram atazanados pelos grosseiros comi 
trios e a caoada costumeira dos gozadores que os seguiram por algum
tempo na maioria rapazes
que haviam exagerado na barma de Laramar. Muitos porm no conheciam 
Jondalar, a no ser pela sua reputao. Ele estivera
fora enquanto os rapazes cresciam. A maioria
dos amigos de Jondalar j passaram daidade de perturbar casais que haviam 
acabado de assumir um compromisso. Eles,
estavam acasalados, com um ou mais filhos de sua lareira.
Jondalar apanhou uma das tochas que foram usadas para iluminar a 
cerimnia, a fim de iluminar o caminho e acender uma fogueira quando
chegassem. Subiram a ladeira junto
ao pequeno arroio e pararam na fonte, para beber.Ayla no sabia aonde 
estavam indo, mas soube quando chegaram.
A tenda que  viu era a mesma que haviam usado durante toda a Jornada
deles, e ela sentiu uma  pontada de nostalgia, ao v-la novamente montada. 
Estava feliz pela
noite ter terminado, mas tambm jamais a esqueceria. Ela ouviu um
relincho
de boas-vindas e sorriu para Jondalar.
- Voc trouxe os cavalos! - exclamou, sorrindo encantada.
- Achei que podamos dar um passeio de manh - disse ele, levar tocha para 
que ela pudesse v-los.
A lareira estava arrumada e prontas ele acendeu o fogo com a tocha e
foi com ela cumprimentar a gua e o garanho. Os dois estavam
acostumados a trabalhar juntos, cada um cuidando de tarefas distintas. 
Como as mos estavam amarradas,
ficava difcil at mesmo cuidar dos cavalos, e eles se viram um no ca minho 
do outro.
Vamos desatar a correia - sugeriu Jondalar. - Fiquei muito feliz quan do ela 
foi amarrada, mas agora ficarei mais ainda ao remov-la.
- Sim, mas ela  um bom lembrete para prestarmos ateno um ao outro
- salientou ela.
- No preciso de lembrete para prestar ateno em voc, muito menos esta 
noite - insinuou Jondalar.
Ayla rastejou para o interior do bem conhecido abrigo, com a mo levantada 
para trs, a fim de que Jondalar pudesse segui-la. Ele acendeu uma 
lamparina de pedra
com a tocha, e depois jogou-a na lareira l fora. Quando voltou a olhar para 
dentro, Ayla estava sentada sobre as peles de dormir que haviam sido esten 
didas no
cho sobre uma almofada de couro que ele havia estofado cuidadosa mente 
com capim seco. Parou por um momento e olhou para a mulher que acabara 
de se tornar a sua
parceira.
A suave luz da lamparina fazia a sombra de Ayla danar atrs dela, os 
cabelos radiando com o realce da pequena chama. Jondalar olhou a tnica 
amarelada, aberta na
frente para revelar os seios plenos e duros, com o belo pingente de mbar 
do colar aninhado entre eles. Mas estava faltando algo. E ento deu-se 
contado que era.
- Cad o seu amuleto? - perguntou, aproximando-se dela.
- Eu o tirei - falou. - Eu queria usar esta roupa, que Nezzie me deu, e o colar 
da sua me, e o amuleto no combinava com eles. Marthona me deu um 
pequeno pacote
feito de couro cru e sem enfeites, para colocar o amuleto. Ele me pareceu 
apropriado. Ela o levou de volta para o alojamento. E sugeriu que, ama nh, a 
gente leve
para l as roupas que usamos esta noite, em vez carreg-las com a gente. 
Marthona perguntou se eu me importaria se ela mostrasse a minha roupa 
para algumas pessoas.
Eu lhe disse que no, e acho que Nezzie ficaria feliz por Marthona fazer 
isso. Ento, pegarei de volta o meu amuleto. Nunca estive sem ele, desde que 
fiui adotada
pelo Cl, e me sinto esquisita sem o amuleto.
- Mas voc no pertence mais ao Cl - lembrou Jondalar.
Eu sei, e nunca mais pertencerei. Fui amaldioada de morte, e no posso 
nunca mais, mas o Cl sempre ser uma parte de mim, e nunca o esquece
rei. salien - Iza fez
o meu primeiro amuleto, e depois mandou que eu
recebesse um pedao de ocre vermelho para colocar dentro. Como eu 
gostaria
que ela estivesse aqui. Ficaria to feliz por minha causa. Todas as coisas em 
meu
amuleto so importantes para mim, porque marcam momentos importantes 
de
minha vida.
nas, que sempre me protegeu. Se eu perder o meu amuleto, morrerei - 
afirmou com toda a convico.
Isso fez Jondalar perceber o quanto o amuleto era importante para Ayla, e 
quanto o acasalamento significou para ela, para concordar em tir-lo, mas 
no gostou da
idia de que acreditava que ia morrer, se o perdesse.
- Isso no passa de uma superstio? Uma superstio do Cl?
- No mais do que o seu eldom, Jondalar. Marthona reconhece isso. O 
amuleto contm o meu esprito e  desse modo que o meu totem consegue mi 
encontrar. Quando fui
adotada pelo Acampamento do Leo, o amuleto no ei minou a minha vida 
com o Cl. Acrescentou a ela. Foi por isso que o Manuj adicionou o meu 
totem ao meu nome formal.
Agora que me tornei membro da Nona Caverna, isso no mudou o fato de que 
ainda sou Ayla dos Mamuti.
Isso apenas tornou o meu nome mais comprido - explicou, e depois
sorriu. - A da Nona Caverna dos Zelandonii, outrora do Acampamento do 
Leo , Mamuti, Filha do Lar do Mamute, Escolhida pelo Esprito do Leo das 
Cavi nas, Protegida
pelo Urso das Cavernas, Amiga de cavalos e de Lobo... e acasalada com 
Jondalar da Nona Caverna dos Zelandonii. Se o meu nome ficar ainda m 
comprido no conseguirei
lembrar
dele todo.
- Desde que lembre da ltima parte, acasalada com Jondalar da Nona 
Caverna dos Zelandonii - frisou ele, aconchegando-se, delicadamente 
acarician um mamilo e vendo-o
se aglomerar e endurecer em reao ao seu toque. Ela sentiu um 
formigamento de prazer.
- Vamos tirar a correia - props Jondalar. - Ela est me atrapalhando.
Ayla baixou os pulsos dos dois e tentou desfazer o n, mas somente a sua 
esquerda estava livre, e ela era destra, no tinha jeito de desatar os ns 
com
apenas uma das
mos, e logo a esquerda.
- Vai ter que me ajudar, Jondalar - pediu. - No sou muito boa em satar ns 
s com a mo esquerda. Seria muito mais fcil cort-lo.
- Nem mesmo fale isso! - bradou Jondalar. - Nunca vou querer cortar meu 
n com voc. Quero permanecer amarrado a voc o resto da vida.
- Eu j estou amarrada, e sempre ficarei, com correia ou no -
reprspondeu Ayla -, mas voc tem razo. Creio que isso pretende ser um 
desafio. ver novamente esse n. -
Examinou por um instante, e depois explicou: - q se voc segurar isto, e eu 
puxar aqui, creio que vai se desfazer.  esse tipo
de ajuda.
Ele fez o que Ayla mandou, ela puxou, e o n se desfez.
- Como sabia que o desataria assim? Eu conheo alguma coisa sobre este
e no era to bvio - reagiu Jondalar.
- voc j viu a minha bolsa de remdios? ele fez que sim. - Ento sabe
que todas as bolsinhas dentro dela so amarradas por ns. O tipo e a
quantidade  deles me dizem o que h dentro das bolsinhas. s vezes, elas 
precisam ser abertas com rapidez. No posso
me atrapalhar para desatar ns quando algum precisa de um cuidado 
imediato. Eu conheo ns, pois Iza me ensinou muito tempo atrs.
- Me alegro muito por voc conhecer - admitiu ele, segurando a comprida e 
fina tira de couro. -Vou coloc-la no meu bornal, para no se perder. Quando 
voltarmos,
teremos que mostrar que no foi cortada, e fazer a troca pelos nossos 
colares da zelandonia. - Enrolou a tira, guardou-a, e depois voltou 
inteiramente a ateno
para Ayla. -  deste modo que eu gosto de abraar voc, quando a beijo - 
mostrou, colocando ambos os braos em volta de Ayla e os preenchendo com 
ela.
-  assim que eu tambm gosto - concordou.
Ele beijou-lhe a boca, abriu-a com a lngua e alcanou um seio. Depois colo 
cou-a de costas sobre as peles e curvou-se para enfiar um mamilo na boca. 
Instan taneamente,
Ayla se sentiu reagir, e a intensidade das sensaes aumentaram  medida 
que Jondalar sugava e mordia de leve um mamilo e acariciava o outro com os 
dedos.
Ela o empurrou para trs e comeou a retirar a tnica branca que fizera 
para ele.
- O que vai fazer, Jondalar, quando o beb chegar? Eles estaro cheios de 
leite.
- Prometo no roubar muito, mas pode ter certeza de que vou prov-lo - 
prometeu, sorrindo, e retirou a tnica por cima da cabea. - Voc j teve um 
filho. A sensao
 a mesma, quando um beb mama?
Ela pensou um pouco.
- No, no exatamente - respondeu. -  um prazer amamentar um beb, 
depois dos primeiros dias. At se acostumar, ele suga com tanta fora, que, 
no incio, mamilos
ficam doloridos. Mas, ao amamentar um beb, no tive uma sensao dentro 
de mim igual a quando voc suga. s vezes, quando voc apenas OS toca, 
consigo sentir at
embaixo. Isso nunca acontece com um beb.
-Eu consigo sentir dentro de mim, aqui embaixo, s de olhar para voc - 
disse ele. Tirou o cinto preso em volta da cintura de Ayla, depois abriu-lhe a 
tnica, esfregou
levemente a barriga arredondada e a acariciou no meio das coxas. e gostava 
de apenas toc-la. Ajudou-a a despir a tnica aberta. Ela desatou as C que 
havia em volta
de seu pulso e retirou o resto das roupas, depois aju do a desfazer as 
fortes amarras das coberturas de ps dele.
- Fiquei to feliz ao v-lo usando a tnica que fiz para voc - comentou

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Ele apanhou a tnica, que havia jogado sobre o seu rolo de dormir, virou-a do 
avesso, dobrou-a e colocou-a com todo o cuidado sobre a sua cabeceira, 
antes de comear
a desenrolar as perneiras. Ayla tirou colar de mbar e conchas e remo veu 
os brincos - as orelhas ainda estavam um pouco doloridas, por causa dos 
furos recentes
- e guardou as jias no seu bornal. No queria perd-las. Ao se virar, notou 
que Jondalar, que no conseguia ficar de p dentro da tenda, estava curvado, 
apoiado
sobre um p, retirando as perneiras, mas o seu membro intu mescido estava 
mais do que pronto. Ela no conseguiu resistir e o segurou, o que fez 
Jondalar perder o
equilbrio. Ele caiu sobre as peles, os dois s gargalhadas.
- Como vou conseguir tirar isto, com voc to ansiosa? - reclamou, tirando 
com o outro p a perneira restante e chutando-a para longe. Em seguida, 
estendeu-se
ao lado dela sobre as peles de dormir. - Quando fez essa tnica para mim? - 
perguntou, levantando-se sobre um cotovelo, para poder olhar para ela. Os 
seus magnficos
olhos de um azul intenso estavam escuros, com apenas suges tes de azul 
sob a nica chama, dilatados e brilhantes, enquanto a fitava com amor e 
desejo.
- Quando estvamos no Acampamento do Leo - respondeu.
- Mas, naquele inverno, voc foi Prometida para Ranec. Por que fez um 
tnica para mim?
- No sei direito - disse ela. - Acho que era uma esperana. Depois, tiv uma 
idia estranha. Lembrei que voc disse que queria capturar o meu esprito 
quando fez,
no vale, aquela pequena escultura minha, e eu tive a esperana de  capturar, 
de algum modo, o seu esprito, se fizesse algo para voc. Naquela oca sio, 
todo mundo
falava em animais negros e animais brancos, e voc disse que branco era 
especial para voc. Ento, quando Crozie concordou em me
ensinar como preparar couro branco, resolvi
fazer algo para voc. Sempre que trabalhava na tnica, pensava em voc. 
Creio que fui a pessoa mais feliz, naquele inverno, a trabalhar nela. At 
mesmo imaginava 
voc
usando-a em uma cerimnia de acasalamento. Faz-la manteve viva a minha 
esperana. Foi por isso que a carr guei o tempo todo durante a Jornada.
Ele sentiu os olhos quase umedecerem.
- Lamento a falta de enfeites. Nunca fui muito boa em costurar contaS 
outras coisas. Algumas vezes, comecei a fazer isso, mas sempre eu parecia 
ser terrompida. Coloquei
nela algumas caudas de arminho. Queria ter consegifi mais, porm, naquele 
inverno, no consegui voltar a trabalhar nela. Talvez,
no prximo inverno, eu consiga outras
mais - salientou.
- Ela  perfeita, Ayla. Apenas o branco j  um enfeite suficiente.
Todos acharam que voc deixou de propsito sem decorao, e ficaram 
muito
impressi
sionados. Marthona me disse que gostou do modo como voc no teve medo 
de deixar que a qualidade e a perfeita execuo fossem o prprio enfeite. 
Acho que voc vai
ver muitas tnicas brancas por a - observou.
- Quando Marthona disse que eu no poderia v-lo nem falar com voc antes 
da cerimnia, fiquei disposta a infringir todos os costumes dos Zelandonii, 
s para entregar
a tnica a voc. Foi quando Marthona disse que faria isso por mim, embora 
eu pensasse que ela achava que, mesmo isso, seria uma espcie de contato. 
Mas eu no sabia
se voc tinha gostado da tnica, e nem se ia entender por que queria que a 
usasse.
- Como pude ser to burro e cego naquele inverno? Eu amava muito voc, eu 
a queria muito. Toda vez que voc ia para a cama de Ranec, eu no agentava. 
No conseguia
dormir. Ouvia cada som. Foi por isso que possu voc naquele dia, na estepe, 
quando samos para treinar Racer. Eu podia sentir cada movimen to do seu 
corpo, quando
cavalgamos Huiin juntos. Algum dia voc ser capaz de me perdoar por t-la 
forado daquela maneira?
- Eu lhe falei vrias vezes, mas voc nunca me escutou. Voc no me for ou, 
Jondalar. No lembra de como aceitei prontamente? Como pode pensar que 
me forou? Aquele
foi o meu dia mais feliz do inverno. Depois, eu passei dias sonhando com isso. 
Sempre que fechava os olhos, podia sentir voc e o desejava novamente, 
mas voc no
voltava.
Ele a beijou, subitamente vido por ela. E no conseguiu mais esperar. 
Estava em cima de Ayla, afastou as suas pernas, encontrou o poo quente e 
mido, e arremeteu
fundo, sentindo a calidez dela acariciar a sua virilidade. Ela estava pronta 
para ele. Sentiu-o penetrar, aprumou-se para ir ao seu encontro, e gemeu ao 
sen tir
a totalidade dele dentro de suas sfregas profundezas. Ele recuava e a 
penetra va seguidamente.  medida que a velocidade aumentava, Ayla
arqueava o corpo para forar
a presso onde ela a queria. Ali. Assim. Ela estava pronta at demais. E ele
tambm. Jondalar sentiu que a sua abundncia ia romper, e ento, com cada
nervo retesado,
sem ligar para mais nada, as maravilhosas ondas de Prazer engoJfara os
dois, irrompendo num glorioso alvio. Ele enfiou novamente mais algumas
vezes, e depois desabou
sobre ela.
- Eu te amo, Ayla. No sei o que faria, se perdesse voc. Eu sempre a ama
rei, somente voc confessou, abraando-a com fora, a voz soando
distendida Com a intensidade
de seu sentimento.
Oh, Jondalar, eu tambm te amo. Sempre amei. - Havia lgrimas nos fltos
dos olhos dela, em parte pela amplido de seu amor por ele, e em parte Pela
tenso que aumentara
to rapidamente e to depressa fora aliviada.
Permaneceram deitados em silncio por uns momentos sob a luz vacilante da
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lamparina e ento ele se levantou, extraindo lentamente o rgo abatido, e
rolou para o seu lado. Colocou novamente a mo sobre a barriga dela.
- Achei que eu podia ser pesado demais para voc. No creio que, de agora
em diante, deva colocar muito peso sobre voc - salientou.
- Voc ainda no  muito pesado - contraps. - Mais tarde, poderemos nos
preocupar em encontrar modos de tornar isso mais fcil, quando o beb cres
cer mais.
-  verdade que pode sentir a vida se mexendo dentro de voc?
- Ainda no, mas logo vou sentir. Voc tambm poder sentir. Bastar co
locar a mo sobre a minha barriga, desse jeito.
- Acho bom voc j ter tido um filho. Sabe o que esperar.
- Mas no  exatamente a mesma coisa. Eu fiquei muito doente enquantol 
carregava Durc, praticamente o tempo todo.
- Como se sente agora? - quis saber ele, a testa com um franzido evidente
- Eu me sinto tima. Mesmo no incio, tive muito pouco enjo, e agora j
passou.
Voltaram a ficar em silncio, dessa vez por um longo tempo. Jondalar
ficou imaginando se ela tinha adormecido. Ele sentia vontade de comear
novamente e  demorar mais tempo,
mas, se ela estivesse dormindo...
- Como estar ele? - perguntou Ayla, de repente. - O meu filho.
- Sente falta dele?
- s vezes, sinto tanta falta, que no sei o que fazer. Na reunio com
a zelandonia, a Zelandoni cantou a Cano da Me. Eu adoro essa histria.
Sempre que a escuto,
sinto vontade de chorar, quando chega na parte sobre a Grande Me no 
poder ter o Seu filho ao lado Dela, que ficaro para sempre
separados. Acho que sei como Ela se
sentiu.
Mesmo que nunca mais o visse, queria saber
como ele vai, se est tudo bem. Como Broud e os outros o tm tratado - 
afligi se Ayla. E voltou a ficar calada.
Suas palavras despertaram a preocupao de Jondalar.
- A cano diz que a Grande Me pelejou na dor, para dar  luz. Um
parto  muito doloroso.
- Ele foi difcil de parir. No gosto de pensar nisso. Mas, como diz a
cano da Me, valeu a pena.
- Voc est com medo, Ayla? Medo de dar  luz novamente? - indagOu.
- Um pouco. Mas, desta vez, me sinto to bem, que talvez o parto tambm 
no seja to ruim.
- No sei como as mulheres agentam.
- Agentamos porque vale a pena, Jondalar. Eu queria muito Durc, e eles
me disseram que era deformado, que eu no podia ficar com ele. - Ela 
comeou a chorar. Jondalar abraou-a. - Foi to terrvel. Eu no podia fazer 
aquilo. Pelo menos,
entre os Zelandonii, a opo  da me. Ningum jamais tentaria me forar.
Ouviram lobos uivando  distncia, e outro, mais prximo, respondendo com
um uivo familiar. Lobo estava perto, mas no na barraca com eles.
- Ser que ele vai me deixar tambm? - perguntou-se.
Ela enterrou a cabea no ombro dele. Jondalar abraou-a, confortando-a. 
Era difcil ser honrado por Doni, pensou ele.  uma bno, mas, mesmo as 
sim... Ele tentou
imaginar como seria ter uma vida crescendo dentro de si, mas isso estava 
alm dele. Homens no tm bebs. Por que Doni fez os homens, afinal? Se 
no houvesse homens,
as mulheres seriam capazes de cuidar delas mesmas. As mulheres no ficam 
todas elas grvidas ao mesmo tempo. Algumas poderiam sair para caar e 
outras poderiam ajudar
as que estivessem com a bar riga grande ou os bebs fossem pequenos. As 
mulheres sempre ajudam umas s outras quando do  luz. Provavelmente, 
conseguiriam sobreviver,
mesmo sem caar. Afinal de contas, a coleta de alimentos  mais fcil para 
uma mulher com crianas pequenas.
Ele se fizera essa pergunta anteriormente, e ps-se a imaginar se os outros 
homens se faziam a mesma pergunta. Se faziam, era algo que nunca 
expressavam abertamente.
Doni deve ter tido algum motivo para fazer dois tipos de pessoas. Sempre 
havia uma lgica no que Ela fazia. O mundo era ordenado. O sol nascia todos 
os dias, a lua
passava regularmente por suas fases, todos os anos as estaes se 
alternavam do mesmo modo.
Ser que Ayla tinha razo? O homem seria necessrio para iniciar a vida? 
Era por isso que existiam homens e mulheres? Jondalar pelejou com os seus 
pensa nientos,
enquanto mantinha a mulher em seus braos. Ele queria que houvesse uma 
razo para a sua existncia, uma razo verdadeira. No apenas a de 
desfrutar os Prazeres,
no apenas a de prover ou ajudar ou sustentar. Queria que a sua vida fosse 
necessria. Queria acreditar que no haveria nenhuma nova vida sem os 
homens, que, sem
os homens, no haveria mais crianas, que todos os Filhos da Terra no 
existiriam.
Estava to mergulhado em pensamentos, que no percebeu quando os solu 
os de Ayla cessaram. Olhou para ela e sorriu. Sua respirao era silenciosa, 
ela
dormia profundamente.
Fora um longo dia, e Ayla havia acordado cedo. Puxou o brao de baixo dela, 
esticou-o, para lhe devolver a circulao, e bocejou
demoradamente. Tambm estava cansado.
Levantou-se para apagar a chama que queimava
o Pavio de musgo da lamparina, tateou de volta, na escurido, o caminho
at onde
estava a mulher adormecida, e rastejou para o lado dela.
Pela manh, quando Jondalar abriu os olhos, levou algum tempo para se orien 
tar. Ele j tinha se acostumado a dormir no alojamento do acampamento; o 
inte rior da
tenda era muito mais apertado. Atenda, porm, lhe era muito mais familiar. 
Os dois haviam dormido nela durante um ano. Ento, se lembrou. Eles haviam 
se acasalado
na noite anterior. Ayla era sua parceira. Alcanou o lado dela, mas ela no 
estava. Em seguida, sentiu o cheiro de algo cozinhando no fogo l fora. Sen 
tou-se, mecanicamente
alcanou o seu caneco, e ficou surpreso por encontr-lo ali, cheio de ch 
quente de hortel. Deu um gole. Estava na temperatura de que ele gostava e, 
ao lado do
caneco, encontrava-se um graveto de gualtria recm- descascado. Ela havia 
feito aquilo novamente, antecipado do que ele gostava pela manh, e deixado 
tudo pronto.
Ele ainda no sabia como Ayla fazia aquilo.
Deu outro gole, depois afastou as peles de dormir e levantou-se. Ayla
estava com os cavalos, e Lobo tambm se encontrava l fora. Jondalar 
bochechou, tigou a ponta
do graveto, usou-o para limpar os dentes, voltou a bochechar, depois engoliu 
o que restava do ch. Alcanou as roupas, mas decidiu que
no fariam diferena, j que
no havia mais ningum por perto, e caminhou nu em direo dela. Ela sorriu-
lhe e deu uma olhadela para o rgo dele. Foi o
bastate para ele comear a crescer. O sorriso
dela tornou-se um malicioso arreganhar" dentes. Ele retribuiu o sorriso.
Est um dia lindo - afirmou, ao se aproximar dela com sua orgulhosa 
masculinidade projetando-se  sua frente.
- Eu estava pensando em ir nadar com voc esta manh - sugeriu, obser 
vando-o se aproximar. - Aquele lago, riacho acima do acampamento no
fica longe daqui, se formos
pelo caminho de trs.
- Quando voc quer ir? - perguntou ele. - Sinto o cheiro de algo cozinhando.
Ela sorriu, sonsa.
- Podemos ir agora. Posso tirar a comida do fogo - insinuou.
- Vamos logo, mulher - exclamou, tomando-a nos braos e lhe dando um beijo. 
-Vou pegar umas roupas, para cavalgarmos at l. - Ento, deu um
soriso. - Desse modo,
chegaremos l mais depressa.
Ayla pegou seu bornal, mas cavalgaram em plo. Em poucos momentos, 
chegaram ao lago, e deixaram os cavalos soltos, para pastar. Estenderam 
uma pele
no cho, e depois
correram para a gua, s gargalhadas. Lobo correu junto a eles mas, quando 
os dois chapinharam o lago, ele desviou a ateno para uma
outra coisa.
- Isto d uma sensao to boa, to refrescante - comentou Ayla, merg 
lhando rapidamente e voltando a ficar de p.
Jondalar tambm deu um mergulho. Atravessaram o lago a nado, e voltaram. 
Quando comearam a sair, ele a segurou.
- Voc tambm d uma boa sensao - disse ele -, e aposto como tam bm 
deve ter um bom sabor. Levantou-a, carregou-a para fora da gua e a deitou 
sobre a pele. -
Ontem, estivemos muito ocupados, mas hoje temos tempo - comentou, 
olhando para baixo, para ela, com os seus surpreendentes olhos azuis. Em 
seguida, curvou-se para
beij-la, lenta e delicadamente, pressionando o corpo contra o dela, 
sentindo a pele fria da gua e o seu calor interno. Mordiscou sua orelha, 
beijou o pescoo,
baixou para o seio e encontrou o mamilo. Era o que ele queria, o que ela 
queria.
Ele demorou-se, apalpando, apertando e esfregando um entre os dedos, su 
gando e mordiscando o outro, sentindo-se intumescer e ficar pronto. Para 
ela, o toque e as
carcias de Jondalar provocavam sensaes por todo o seu corpo, pare cidas 
com relmpagos, atingindo internamente as suas partes do Prazer. Ele ali 
sou a barriga
redonda de Ayla, e amou a sensao daquela dilatao, sabedor de que um 
beb crescia l dentro, e depois baixou mais um pouco, para a sua colina e a 
fenda na parte
de cima.
Ela empurrou o corpo na direo dele, e Jondalar encontrou o pequeno bo 
to. Dentro de Ayla, os intensos latejos de sensaes ficaram mais fortes. 
Ento, ele se
ergueu, ajeitou-se e se posicionou entre as coxas dela. Abriu as suas dobras 
rosadas e apenas ficou olhando por um momento. Em seguida, fechou os 
olhos e deixou
a lngua descobrir o sabor dela. Aquela era a mulher que ele queria, a que 
tinha o sabor dela. Aquela era a sua Ayla.
Ela se manteve imvel, deixando-o explorar, descobrir os lugares quentes, e 
ento Jondalar voltou a encontrar o boto, e, com a lngua, comeou a 
brincar com ele,
deslocando-o, esfregando-o, sugando-o. Ayla comeou a gemer, a mente em 
outro lugar, um lugar aonde Jondalar sabia lev-la. Pressionou para cima, em 
sua direo,
enquanto ele se movia mais depressa, e os gemidos escaparam dela, 
aumentando de volume e intensidade.
Jondalar podia sentir-se crescer e intumescer tanto, que ansiava por sentir 
Ayla
envolvlo, mas, antes, precisava sentir o auge dela. Continuava se 
aproximando a
sensao que estava prestes a domin-la, e ento, subitamente, chegou, 
sobre pujando o cume, com ondas cada vez mais altas de Prazer. Ento, Ayla 
o quis sentir dentro
dela.
Puxou-o para cima, ajudou-o a penetrar e esperou a primeira investida 
Prazerosa. Ele puxou e empurrou novamente, voltando a preench-la. 
Jondalar sentiu as quentes
dobras dela abra-lo, quando mergulhou mais fundo e com Pletamente. Eles 
se encaixavam to bem. Aquela era a mulher que ele queria. Ela
podia cont-lo todo, ele no precisava se preocupar com o seu tamanho. Ele 
sair dela quase que completamente e voltou a mergulhar, e mais uma vez, e 
cada
vez que ela
o sentia a sensao ficava mais forte, a sua respirao expelida com un tom 
cada vez mais alto, competindo com a crescente sensao interna.
Ento, o latejar aumentou at se tornar uma inundao. Ele a liberou no
mesmo instante em que Ayla atingia o auge. Puxou e enfiou mais algumas 
vezes, e
depois deixou-se
ficar e relaxou em cima dela. Ayla no queria que ele se movesse. Ado rava a 
sensao de Jondalar em cima dela, daquela maneira. Queria saborear , 
Prazeres e relaxar
tambm.
Foram nadar novamente, mas, dessa vez, depois que saram, Ayla foi apanha 
no bornal as macias peles de enxugar. Assobiaram, chamando os cavalos, e
caval garam de volta
para o lugar onde estavam acampados. Lobo estava l, andando
em volta da tenda, rosnando para algo, e os cavalos pareceram nervosos.
- H alguma coisa por a - anunciou Ayla. - Lobo no est gostando, est 
deixando os cavalos nervosos. Voc acha que podem ser os lobos que ouv mos 
ontem  noite?
- No sei, mas, depois que comermos, que tal recolhermos a tenda e sair
para um longo passeio? - sugeriu Jondalar. - Talvez passar a noite em outro 
lugar,
-  uma boa idia - concordou Ayla. Podemos passar no alojamento deixar as 
nossas roupas de acasalamento, pegar o resto de nossas coisas de viager e 
explorar a rea
em volta daqui. Quando voltarmos, podemos montar a tenda perto do lago. 
Raramente vai algum por l. E vamos levar Lobo com a gente. Alguma 
alcatia pode pensar que ele est em seu territrio, e lobos lutam com 
outros para defenderem o seu territrio.
        Quando cavalgaram at o acampamento da Nona Caverna e 
desmontaram perto do alojamento, as pessoas os ignoraram. Como se no 
existisem, passavam direto por eles, evitando contato visual ou olhando 
adiante. Ayla sentiu um desconfortvel calafrio: parecia a maldio de 
morte doCl. Ela sabia o que significava as pessoas que amava a evitarem, se 
recusarem v-la, embora estivesse diante delas, agitando os braos e 
gritando.
        Ento, Ayla viu Folara dando uma olhadela para eles, tentando ocultar 
um riso, e relaxou. No havia maldade. Era o perodo de experincia dos dois, 
e no deviam falar com ningum, a no ser um com o outro, mas ela notou 
vrias outras pessoas olhando-os de relance e tentando no sorrir para eles. 
Era bvio que todo mundo estava mais do que a par da presena deles. Ayla 
e Jondalar entraram no alojamento no momento em que Marthona estava de 
sada. Desviaram-se dela, ao passarem sem trocar nenhuma palavra, mas a 
mulher mais velha olhou direto para eles e sorriu. Ela no achava necessrio 
seguir toda a complicada trama montada para evit-los, bastava no falar 
com eles nem encoraj-los a falar.
        Colocaram suas roupas de acasalamento sobre as almofadas estofadas 
com capim no lugar onde dormiam, agora vazio, apanharam outros 
equipamentos de viagem e depois foram at o lugar de Willamar e Marthona. 
Ela havia deixado em cima do leito o pacote de couro cru com o amuleto de 
Ayla, e, ao lado, um pouco de comida que embrulhara para os dois. Ayla 
quase lhe agradeceu em voz alta, mas se conteve e, depois, com um rpido 
sorriso, fez os sinas de mo do Cl que significavam "Sou grata pela sua 
gentileza, me do meu parceiro".
        Marthona no entendeu os sinais, mas adivinhou que eram um gesto de 
al gum tipo de reconhecimento, e sorriu para a jovem mulher que agora era a 
parceira do seu filho. Valia a pena aprender alguns desses sinais, pensou ela. 
Podiam ser interessantes, para se comunicar sem falar, e ningum mais 
saberia o que voc estaria dizendo.
        Quando os dois foram embora, Marthona foi at o lugar deles de 
dormir e examinou as roupas que usaram na noite anterior. A tnica branca 
de Jondalar fizera com que ele se destacasse, mas, pensando bem, ele 
sempre se destacava. Contudo, embora fosse estonteante e revelasse uma 
avanada tcnica de se trabalhar o couro, fora toda a vestimenta de Ayla 
que cau sara uma verdadeira impresso, como Marthona havia imaginado. A 
roupa j fizera alguns reconsiderarem o status que estavam dispostos a 
conceder a ela. Marthona havia convidado umas pessoas para provarem um 
vinho de mirtilo, que passara a servir recentemente - ele ficara guardado 
durante dois anos, num canto seco e escuro de sua habitao, dentro do 
estmago de um alce, bem lavado e fortemente vedado. Ela resolveu dispor 
algumas lamparinas em volta do interor do alojamento, para as pessoas 
enxergarem melhor no penumbroso espao iterno. Curvou-se e esticou a 
tnica e as perneiras, ajeitando-as ligeiramente para deixar  mostra uma 
rea em particular do complicado trabalho de contas que fora coberta por 
uma dobra.
        Ayla e Jondalar adoraram os seus dias de separao aparente dos 
Zelandoni. Era como estar de volta  Jornada, mas sem a presso de ter de 
continuar viajando. Passaram os longos dias de vero caando, pescando e 
colhendo apenas o suficiente para as suas necessidades, nadando e fazendo 
demorados passeios com os cavalos, mas com Lobo apenas como uma 
companhia eventual, e Ayla sentindo falta dele quando sumia. Era como se 
ele no conseguisse se decidir direito entre ficar com os humanos, que 
adorava, ou voltar aonde quer que fosse que tivesse achado to fascinante 
na natureza. Ele sempre os encontrava, no importava onde acampassem, e 
toda vez que surgia na barraca, Ayla ficava encantada. Dava ateno ao 
animal, afagava-o, fazia-lhe festinha, conversava e caava com ele. A 
ateno normalmente o animava a ficar com os dois durante algum tempo, 
mas..... finalmente, voltava a sair e, em geral, passava fora uma noite inteira 
ou vrias.
        Ayla e Jondalar exploraram as colinas e os vales da rea em volta. 
Embora Jondalar achasse que conhecia bem a regio campestre do lugar 
onde nascera, como agora os dois montavam em cavalos e conseguiam cobrir 
muito mais territrio ele conseguiu observ-la em uma escala muito maior e 
de uma perspectiva diferente. Jondalar obteve um discernimento que no 
conseguira antes, e isso lhe deu maior apreo pela riqueza da regio.
        s vezes, em manadas, e s vezes em relances, viam um 
extraordinrio nmero e uma espantosa variedade de animais que habitavam 
a terra dos Zelandonii. A maioria das criaturas de pasto e mordiscadoras de 
folhas compartilhavam placidamente os mesmos campos, prados e bosques a 
cu aberto, e os dois cavalos eram normalmente ignorados, juntamente com 
os humanos que os cavalgavam Como resultado, eles conseguiam chegar bem 
perto. Ayla gostava de ficar sentada no dorso de Huiin, enquanto a gua 
pastava, e observar os outros animais., Jondalar costumava se juntar a ela, 
apesar de passar o tempo fazendo outras coisas. Ele estava trabalhando em 
lanas e um arremessador para Lanidar, mais apropriados para o seu 
tamanho, e uma adaptao que esperava torn-los mais fcil ele usar com 
apenas um brao. Certa tarde, Jondalar estava com Ayla, quando alcanaram 
uma manada de bises.
        Ainda que muitos bises e auroques viessem sendo caados, isso mal 
era esperado; o nmero era insignificante, em comparao com a enorme 
quantidade de animais que vagavam pela paisagem a cu aberto. Mas os dois 
tipos diferentes de bovinos nunca eram vistos juntos. Eles se evitavam. 
Recentemente, Ayla e Jondalar tinham abatido e ajudado a estripar sua 
quota de bises, mas era instrutivo observ-los, enquanto se movimentavam 
pelo seu ambiente. Os animais de pasto tinham perdido a grossa e escura 
pelagem lanosa durante o derretimento da primavera e vestiam o de cor 
mais clara do vero. Ayla gostava especialmente de observar os ativos 
brincalhes, ainda muito jovens - as vacas davam cria entre o final da 
primavera incio do vero. Os jovens se desenvolviam muito lentamente e 
necessitavam de cuidado atencioso e bem prximo, mas, mesmo assim, caam 
presas de ursos, linces, hienas, leopardos, ocasionais lees das cavernas - e 
humanos.
        Cervos de vrias espcies abundavam e os havia de todos os tamanhos, 
desde o imenso cervo gigante  minscula cora. Jondalar e Ayla viram uma 
pequena manada de megceros solitrios, com os seus focinhos 
delicadamente aguados, e ficaram encantados com as suas fantsticas 
galhadas. Elas tinham a forma de uma mo com os dedos esticados, e, 
embora pudessem medir quase quatro metros e pesar setenta quilos ou mais, 
aqueles eram animais mais jovens, mais esguios, com apndices menores. 
Ainda no haviam desenvolvido os enormes pescoos musculosos do cervo 
adulto, se bem que ostentassem corcovas nas cernelhas, onde se fixavam os 
tendes para sustentar as flituras e imponentes galhadas.
        At mesmo os megceros jovens evitavam matas onde suas galhadas 
podiam se prender nos galhos das rvores. O gamo fmea, com pintas, era a 
variedade que habitava os bosques. Em uma rea pantanosa, eles avistaram 
um nico cervo de uma outra espcie, alto e desengonado, com uma menor, 
se bem que considervel, galhada palmar, parado no meio da gua, 
mergulhando a cabea e trazendo a boca cheia de verdes e gotejantes 
plantas aquticas, s que esse cervo tinha um enorme focinho arqueado. Em 
algumas regies, era chamado de alce, mas, na de Jondalar, era denominado 
de cervo. 
        A variedade mais predominante de cervos era conhecida como veado-
vermelho. Tambm desenvolvia grandes galhadas, mas da variedade 
ramificada. Primitivamente, oveado-vermelho era um animal de pasto e podia 
viver numa ampla extenso de terreno a cu aberto, de montanhas a estepes. 
gil e destemido, colinas ngremes e terreno acidentado no o detinham, 
nem salincias em monta nhas onde no crescem rvores, desde que 
houvesse grama para tent-lo. Florestas com espao suficiente entre 
rvores, para permitir a existncia de vegetao ras teira de capim e 
samambaias, ou entremeadas de ensolaradas clareiras eram habitats 
aceitveis como tambm colinas cobertas de urze e estepes a cu aberto.
        O veado no gostava de correr, mas o seu passo com as longas pernas 
ou o lpido trote podiam percorrer o solo com rapidez, e, se perseguido, era 
capaz de correr por quilmetros, dar saltos de doze metros e pular a uma 
altura de dois metros e meio. Era, ainda, excelente nadador. Embora 
preferisse comer grama, tambm podia se alimentar de folhas, brotos, 
bagas, cogumelos, ervas, urzes, cascas de rvores, bolotas, amndoas e do 
fruto da faia. Naquela poca do ano, os veados se reuniam em pequenas 
manadas, e, em um prado prximo a um riacho, Ayla e Jondalar viram vrios 
deles e pararam para observ-los. O capim comeava a tornarse de verde 
para dourado, e alguns viosos ps de faia folhados alinhavam na  ribanceira, 
mas, do outro lado, havia uma considervel mata de galeria.
        Tratava-se de uma manada de machos de vrias idades, e seus chifres 
estavam  aveludados. As galhadas comeavam a nascer como simples espetos, 
quando os machos tinham cerca de um ano de idade. Eles caam no incio da 
primaveras mas uns novos comeavam a crescer quase que imediatamente. A 
cada ano, um novo galho era acrescentado, e, perto do incio do vero, at 
mesmo os maiores estavam completamente desenvolvidos, envoltos em 
veludo, uma pele macia repleta de vasos sangneos que transportavam os 
nutrientes necessrios para que a galhada crescesse to rapidamente. Por 
volta da metade at o final do vero, o veludo secava e coava muito, 
fazendo com que o veado se esfregasse nas rvores e pedras para solt-lo, 
mas a pele sangrenta costumava ficar pendurada em frangalhos at 
desaparecer.
        Ayla e Jondalar contaram doze pontas na galhada do maior dos 
veados, que devia pesar uns trezentos e sessenta quilos. Embora fosse 
chamado de veado vermelho, a cor da pelagem do macho era de um marrom 
negro. Outros da manada tinham uma leve cor vermelha acastanhada, alguns 
puxando para cinza castanho, e um deles era louro. Um jovem com uma leve 
insinuao de estacas, ainda revelava ligeiramente as pintas brancas de um 
filhote. Jondalar sentiu-se tentado, mas resolveu no ir atrs do que 
ostentava a enorme ramagem apesar de saber que conseguiria derrub-lo 
com o seu arremessador de lanas.
        - Aquele grande est no auge - comentou ele. - Gostaria de voltar 
depois para observ-lo, pois eles sempre retornam aos mesmos lugares. Na 
poca dos Prazeres, eles lutam para obter o maior nmero de fmeas 
possvel se bem que, muita vezes,  o bastante exibir aquela galhada para 
desencorajar competidores. Mas eles combatem uma dura batalha, e passam 
um dia inteiro nisso. Fazem tanto barulho quando investem um contra o 
outro com aqueles chifres, que a gente  capaz de ouvir  distncia, e 
chegam a se apoiar nas patas traseiras e lutar com as dianteiras. Com aquele 
tamanho, ele deve ser um lutador muito bom e agressivo.
        - Eu j ouvi veados lutarem, mas nunca vi - disse Ayla.
        - Certa vez, quando eu vivia com Dalanar, vimos dois presos, com 
galhadas enroscadas. Por mais que tentassem, no conseguiam se soltar. 
Tivemos que cortar as galhadas para separ-los e podermos us-los. Foram 
fceis de abater, mas Dalanar disse que fizemos um favor aos dois, porque, 
de qualquer modo iam morrer de fome e sede.
        - Creio que aquele macho enorme j teve contato antes com pessoas 
observou Ayla, sinalizando para Huiin recuar. - O vento acaba de mudar 
direo, e deve ter levado o nosso cheiro at ele, pois ficou inquieto. Pode 
per ber que ele est comeando a se afastar. Se for embora, todos os 
outros iro.
        - Ele parece nervoso - constatou Jondalar, recuando tambm.
        De repente um lince, que tinha estado a espera sem ser visto, em um 
dos ps de faia, pulou para as costas do mais jovem, quando este passou por 
baixo da rvore. O veado levemente malhado saltou para adiante, tentando 
se livrar do selvagem, enquanto o felino de cauda curta e tufos de plos nas 
orelhas agarrava-se ao ombro do veado e o mordia profundamente, 
rompendo-lhe as veias. Os outros veados fugiram para longe, mas o jovem 
cervdeo com o lince nas costas correu fazendo um grande arco, voltando 
para o mesmo lugar. Ao mesmo tempo em que observavam o animal em pnico 
retornar, Ayla e Jondalar prepararam os seus arremessadores de lana, 
para se proteger, por via das dvidas, mas o lince tinha bebido o sangue dele, 
e o veado mostrava sinais de exausto. Ele cambaleou, o lince deu uma nova 
mordida, e mais sangue jorrou. O veado deu mais alguns passos voltou a 
cambalear, e desabou no cho. O lince abriu a cabea do jovem animal com 
uma mordida e comeou a se alimentar dos miolos. Tudo terminou 
rapidamente, mas os cavalos estavam nervosos, e os humanos, prestes a ir 
embora.
        - Por isso que ele parecia nervoso - deduziu Ayla. - No foi por causa 
do nosso cheiro.
        - O veado era jovem - observou Jondalar. - Ainda dava para ver as 
manchas dele. Ser que sua me morreu cedo e o deixou s, ainda novinho? 
Ele encontrou a manada de machos, mas isso no adiantou. Animais jovens 
so sempre vulnerveis.
        - Certa vez, quando eu era menina, tentei matar um lince com a minha 
funda - lembrou Ayla, apressando Huiin a se movimentar.
        - Com uma funda? Quantos anos voc tinha? - indagou Jondalar.
        Ela pensou por um momento, tentando se lembrar.
        - Acho que devia contar oito ou nove anos - avaliou.
        - Voc podia ter sido morta com a mesma facilidade desse veado - 
afirmou Jondalar.
        - Eu sei. Ele se mexeu, e a pedra apenas resvalou. Isso o irritou, e ele 
saltou para cima de mim. Consegui rolar para o lado, encontrei um pedao de 
pau, bati no lince, e ele foi embora - contou Ayla.
        - Pela Grande Me! Foi por um triz, Ayla - exclamou ele, recostando-
se sobre o cavalo, o que fez Racer ir mais devagar.
        - Depois disso, fiquei com medo de sair sozinha, por uns tempos, mas 
foi ento que tive a idia de lanar duas pedras. Eu achava que, se tivesse 
uma outra pronta, poderia t-lo atingido uma segunda vez, antes de ele vir 
para cima de mim. No tinha certeza se dava para fazer isso, mas pratiquei, 
e deu certo. Mesmo s depois que matei uma hiena desse modo me senti 
confiante para sair novamente para caar - explicou.
        Jondalar apenas sacudiu a cabea. Ao pensar nisso, era de espantar 
que ela ainda estivesse viva. No caminho de volta para o acampamento atual 
deles, viram hemonos, semelhantes a cavalos, que pareciam ser um 
cruzamento de cavalo e asno, mas se tratava de uma espcie prpria. Huiin 
parou para farejar os excrementos deles, e Racer relinchou para o grupo. A 
manada inteira parou de pastar e olhou para os cavalos. O som que 
produziram de volta era prximo a um zurrar no entanto ambos os tipos de 
animais pareceram cientes de sua semelhana.
        Viram, tambm, uma antlope saiga com dois filhotes. Saiga era um 
animal semelhante  cabra, com focinho adunco, que preferia plancies ou 
estepes, no importava o quanto fossem ridas, em vez de colinas ou 
montanhas. Ayla lembrou que o antlope saiga era o totem de Iza. No dia 
seguinte, viram outra manada da de animais que a perturbou mais do que ela 
queria admitir: cavalos. Tanto Huiin quanto Racer foram atrados para eles.
        Ayla e Jondalar os observaram e notaram algumas diferenas entre a
manada selvagem e os animais que haviam trazido do leste. Em vez da cor 
amarelo de Huiin, que era mais comum por toda a parte, ou mesmo o marrom 
escuro pelagem de Racer, a maioria dos cavalos dessa manada tinha uma cor 
cinza azulada com a barriga branca. Todos, inclusive os dois deles, tinham a 
crina preta especada para cima, como uma escova, e a cauda preta, listras 
pretas percorrendo a espinha dorsal, e tambm era preta a parte de baixo 
das pernas, com alguma sugesto de listrado do lado inferior das ancas. Em 
geral, eram cavalos pequenos, o dorso amplo e barriga arredondada, mas os 
animais da manada pareciam ser uma frao mais altos e com o focinho 
ligeiramente mais curto.
        A manada observava Huiin e Racer com tanto interesse quanto os dois 
a observavam, mas, dessa vez, o relincho de Racer provocou, em resposta, 
um outro de desafio. Ayla e Jondalar entreolharam-se, quando ouviram o 
chamado, e viram um grande garanho vindo em direo a eles do fundo da 
manada. Com toda concordncia, os dois levaram seus cavalos em outra 
direo, o mais depressa possvel. Jondalar no queria que Racer fosse 
atrado para uma luta com o garanho da manada, e com Lobo sumido quase o 
tempo todo, Ayla temia que os cavalos tambm, ficassem tentados a deix-
la e resolvessem viver com a sua prpria espcie.
        Nos dias subseqentes, Lobo passou algum tempo com eles, o que fez 
Ayla sentir-se como se a sua famlia tivesse voltado a ficar reunida. 
Fizeram-no manter distncia de um enorme javali que cavava atrs de 
trufas, riram de uma dupla de lontras brincando em um lago formado por 
uma represa construda um castor recluso, que rapidamente mergulhou na 
gua quando os viu. Viram um lamaal chafurdado por um urso e plos dele 
presos na casca de rvore, mas no propriamente o animal, e farejaram o 
almscar caracterstico de um carcaju. Avistaram um leopardo pintado 
saltar com elegncia para baixo de um rochedo quase perpendicular.  
        Vrias bices fmeas e seus filhotes, a l compacta fazendo com que 
parecessem redondos e disformes, e gravetos como pernas, tinham descido 
da regio montanhosa para a engorda na exuberante vegetao da baixada. 
Eles tinham longos chifres que se curvavam para trs, olhos bem separados, 
uma corcova atrs da cabea, com os contornos dos cascos duros e fortes, e 
solas esponjosas e exveis que se agarravam na pedra spera.
        Jondalar viu Ayla fechar os olhos, como se estivesse se concentrando, 
e girar a cabea de um lado para o outro para melhor escutar alguma coisa.
        - Acho que h mamutes vindo nesta direo - anunciou ela.
        - Como sabe? No estou vendo nada.
        - Eu consigo ouvi-los - explicou ela-, principalmente o grande macho.
        - No ouo nada - insistiu Jondalar.
        -  um som de um estrondo, muito, muito intenso - disse ela, 
retesando-se para ouvir novamente. - Olhe, Jondalar! Ali! - gritou ela, toda 
animada, ao ver  distncia a manada de mamutes vindo na direo deles. 
Ayla estava detectando o bramido de longo alcance de um mamute macho em 
frenesi, um rudo que se encontrava abaixo do alcance auditivo dos seres 
humanos, mas que podia ser ouvido por um mamute fmea no cio a 
quilmetros de distncia, pois tais sons de baixa freqncia no se 
enfraqueciam to facilmente com a distncia. Ainda que Ayla no 
conseguisse ouvi-lo exatamente, era capaz de sentir o intenso brado.
        A manada era composta essencialmente de fmeas e seus filhotes, 
mas, como uma das jovens fmeas estava no cio, muitos machos se 
aglomeravam em volta, sempre esperanosos, apesar deo macho dominante 
da regio j ter cruzado com ela. A fmea tinha recusado os persistentes 
avanos dos machos inferiores. E agora ele mantinhaos outros  distncia, j 
que nenhum deles ousava desafi-lo, o que permitiu a ela comer e alimentar
a sua primeira cria entre as pocas de acasalamento.
        A grossa pelagem do mamute lanudo cobria completamente o animal,
da Ponta dos ps  extremidade da comprida tromba, incluindo as pequenas 
orelhas. Ao se aproximarem, ficaram mais aparentes os vrios tons do plo. 
Os pequeninos tinham o plo mais claro, e as fmeas variavam do castanho-
claro, nas mais jovens, ao marrom escuro da velha matriarca.  medida que 
envelheciam, os machos tornavam-se quase negros. A pele do mamute 
continha uma densa subpelagem da qual nasciam os plos bem longos e lisos, 
que o mantinham bem aquecido, mesmo no mais frio dos invernos, 
principalmente depois de consumir por vezes gua congelada ou comer neve 
ou gelo. Era quando o Corno se tornava gelado.
        -  muito cedo para a temporada dos mamutes - observou ele. - S 
costumamos v-los no outono, no fim do outono. Mamutes, rinocerontes, 
bois-almiscarados e renas so animais de inverno.
        No ltimo dia de isolamento, Ayla e Jondalar levantaram cedo. Haviam 
passa do os dias anteriores explorando a regio a oeste do Rio, perto de um 
segundo que corria quase paralelo a ele. Empacotaram todos os seus 
pertences, contudo quiseram fazer mais um longo passeio, antes de voltarem 
para a Reunio de Vero, com toda a sua gente e interaes sociais, o que 
exigia tempo e ateno por parte deles, mas tambm oferecia recompensas, 
satisfao e prazer. Eles tinham desfruta do a pausa e estavam prontos 
para voltar e ansiosos por rever as pessoas de quem gostavam. Haviam 
passado quase um ano apenas um com o outro e os animais por companhia, e 
estavam acostumados aos prazeres e s tristezas da solido.
        Levaram comida e gua, mas no estavam com pressa, nem tinham em 
mente destino em particular. Lobo os deixara dois dias antes, o que 
entristeceu Ayla. Ele vivia  vido em permanecer com eles, durante a 
Jornada, mas, na poca, no passava de um filhote. Ainda era muito jovem. 
Embora parecesse ter mais tempo, eles podiam contar apenas um ano e 
cerca de duas estaes desde o inverno em que viveram com os Mamuti, 
quando Ayla trouxe um lobinho felpudo que nascera no mais do que uma lua 
antes. Conquanto fosse muito grande, Lobo ainda era um adolescente.
        Ayla no sabia quanto tempo os lobos viviam, mas suspeitava que a 
durao de sua vida era menor do que a da maioria dos humanos, e ela via 
Lobo na adolescncia considerada pela maioria das mes e seus parceiros o 
perodo mais turbulento. Eram os anos da energia exuberante e da pouca 
experincia quando os joven cheios de vida e convencidos de que ela dura 
para sempre, corriam riscos que colocavam em perigo as suas vidas. Se 
sobrevivessem, ganhavam alguma experincia e conhecimento que os 
ajudariam a viver mais tempo. Ela deduziu que no devia ser muito diferente 
com os lobos, e no podia deixar de se preocupar.
        Tinha sido um vero quente, e mais seco do que Jondalar se lembrava. 
Nas planicies a cu aberto, sopravam pequenos redemoinhos de poeira, 
rodopiava por um instante, e logo se extinguiam, e eles ficaram contentes 
em ver um pequeno lago adiante. Pararam ao lado e compartilharam Prazeres 
na sombra de um salgueiro-choro cheio de pequenas folhas lanceoladas em 
galhos que pendiam para a superfcie da gua, e depois descansaram e 
conversaram um pouco, antes de ir nadar.
        Aps chapinhar na gua, Ayla gritou:
        - Vamos apostar uma corrida at o outro lado. - E, imediatamente, foi 
em frente, com longas e seguras braadas. Jondalar seguiu-a rapidamente, 
aproximando-se aos poucos, com os seus braos mais compridos e msculos 
poderosos, mas precisava se esforar. Ela olhou para trs, viu-o chegando 
perto, e empenhou- se ainda mais, com um renovado impulso de velocidade. 
Chegaram ao outro lado ao mesmo tempo.
        - Voc teve uma dianteira; portanto, eu ganhei - afirmou Jondalar, ao 
chegarem  margem oposta do pequeno lago e desabarem no cho, ofegantes.
        - Voc devia ter me desafiado primeiro - rebateu Ayla, rindo. - Ns 
dois ganhamos.
        Nadaram de volta para o outro lado, numa velocidade mais 
despreocupada, enquanto o sol passava do seu znite e comeava a descida, 
indicando a ltima metade do dia. Eles estavam um pouco tristes, ao 
arrumarem as suas coisas, sabedores de que a idlica pausa estava quase no 
fim. Montaram nos cavalos e seguiram na direo do acampamento da 
Reunio de Vero, mas Ayla sentia falta de Lobo e desejava que o animal 
estivesse com eles.
        Aproximavam-se do local do acampamento, talvez a poucos 
quilmetros de distncia, quando ouviram gritos em meio a nuvens de poeira 
que se elevava da terra seca da plancie. Cavalgando mais para perto, viram 
vrios rapazes, que talvez dividissem um dos "alonjamentos" de solteiros, e, 
ao vislumbrar os enfeites de suas roupas, Jondalar concluiu que, na maioria, 
eram da Quinta Caverna. Cada qual portava uma lana e mantinham-se 
separados formando um crculo tosco, no meio do qual se encontrava uma 
fera com uma comprida pelagem desgrenha da e dois enorme chifres 
projetando-se do focinho.
        Tratava-se de um rinoceronte lanudo, uma criatura enorme, com trs 
metros e meio de extenso e um e meio de altura. Era uma fera pesada, com 
curtas e grossas pernas atarracadas para sustentar a enorme corpulncia. 
Ele ingeria imensas quantidades de capim, ervas e arbustos das estepes, 
como tambm gravetos e galhos dos pereniflios e salgueiros que 
guarneciam as margens dos rios. Suas narinas eram separadas, e os olhos 
ficavam nas laterais da cabea. No enxergava bem, mas a audio era 
particularmente aguada e perspicaz para compensar a pssima viso.
        Um dos seus dois chifres, o frontal, tinha mais do que um metro de 
comprimento, era grosso e parecia ferino, quando varria o cho com ele, de 
lado a lado, formando um arco. No inverno, podia ser usado para afastar a 
neve e expor as gramfne secas e recumbentes da estepe que jaziam abaixo. 
Um toso grosso e lanudo, de um claro cinza acastanhado, cobria o seu corpo, 
com compridos e pendentes plos externos quase roando no cho. Uma 
marcante faixa larga de plo ao redor da parte do meio do rinoceronte era 
um tom mais escuro e parecia, Pensou Ayla, como se algum o tivesse 
coberto com um cobertor de montar, no imprevisvel, por vezes maldoso e 
muito perigoso.
        O rinoceronte lanudo pateava o cho, virando a cabea de um lado 
para o outro, tentando enxergar o rapaz que o seu sensvel olfato lhe 
revelava estar ali. De repente,
atacou. O homem manteve a posio, at que, no ltimo momento, esquivou-
se para o lado, e o comprido chifre apontando para diante do rinoceronte 
quase o acerta.
        - Isso parece perigoso - comentou Ayla, enquanto eles afastavam os 
cavalos para uma distncia segura.
        -  por isso que esto fazendo - ressaltou Jondalar. - Rinocerontes 
lanudos so difceis de se caar, sob quaisquer circunstncias. Tm mau 
gnio e so imprevisveis.
        - Como Broud - disse Ayla. - O rinoceronte lanudo era o totem dele. 
Os homens do Cl os caavam, mas nunca os vi. O que esto fazendo ali? 
        - Aulando ele, no est vendo? Cada homem tenta atrair a ateno 
do animal, para que ele o ataque, e se afasta quando chega perto. Esto 
brincando de esgotar o animal, tentando ver quem consegue fazer com que o 
rinoceronte chegue o mais perto possvel antes de pular para o lado. O mais 
corajoso ser aqueLe que conseguir sentir a fera roar nele durante o 
ataque. Normalmente, so os jovens que gostam de caar rinocerontes 
desse modo - explicou Jondalar.
        - Se matarem um, daro a carne para a Caverna e conseguiro muitos 
elogios. Eles dividem as outras partes, mas quem conseguir o crdito pela 
morte tem a preferncia de escolher primeiro. Geralmente, fica com o 
chifre. Os chifres so apreciados, segundo consta, para fazer ferramentas, 
cabos de facas e coisas assim,  mas   provvel que seja por outro motivo. 
Talvez por sua forma parecer com o homem no incio dos Prazeres, dizem 
que, se algum moer o chifre e o der secamente para uma mulher o ingerir, 
isso a deixar mais apaixonada por quem o  deu - contou Jondalar com um 
sorriso.
        - A carne no  ruim, e h muita gordura debaixo daquela pelagem - 
ob servou Ayla. - Mas  raro se ver um.
        - Principalmente nesta poca do ano - completou Jondalar. -Na maior
parte do tempo, rinocerontes lanudos so animais solitrios, e costumam ser 
escassos aqui, durante o vero. Eles gostam do frio, embora, na primavera, 
percam a pele mais fina que h debaixo dos longos plos externos. Ao 
descarnar, ela fica presa nos arbusto as pessoas, principalmente os teceles 
e os fabricantes de cestos, gostam de sair para apanh-la. Eu costumava ir 
com a minha me. Fazamos isso varias vezes por ano. E sabe quando todos 
os animais soltam a pele, bices e mufles, bois-almiscarados, mesmo cavalos 
e lees, e,  claro, mamutes e rinocerontes lanudos.
O homem deu uma risada.
        - J, a maioria dos homens faz isso, principalmente quando so jovens. 
Eles fazem isso com uma poro de animais, como auroques e bises, mas 
preferem aular rinocerontes. Algumas mulheres tambm fazem isso. 
Jetamio aulou um, na ocasio em que ensinei ao povo dela a caar 
rinoceronte. Foi a Xaramudi que se tornou parceira de Thonolan. Ela era 
muito boa nisso. Eles no costumavam caar rinocerontes. Caavam os 
grandes esturjes do Rio da Grande Me, com aqueles barcos que 
mostraram para voc, e bices e camuras, no alto das montanhas, que so 
muito difceis de se caar, mas no conheciam as tcnicas para se caar 
rinocerontes lanudos. - Ele fez uma pausa e pareceu triste. - Foi por causa 
de um rinoceronte que conhecemos os Xaramudi. Thonolan foi chifrado por 
um, e eles salvaram a sua vida.
        Ficaram observando os rapazes brincar do seu jogo perigoso. Um 
homem, pa rado no espao aberto, aos gritos e agitando os braos, tentava 
fazer o rinoceronte atacar.
        O olfato normalmente aguado do animal era confundido por tanta 
gente disposta  sua volta. Quando, finalmente, detectou movimento com os 
pequenos olhos mopes, partiu nessa direo, ganhando velocidade ao se 
aproximar do anta gonista. Apesar das pernas curtas, o animal podia mover-
se de forma veloz. Baixou um pouco a cabea, ao chegar mais perto, 
preparando-se para marrar o chifre macio em um volume slido. Em vez 
disso, encontrou o ar, quando o homem habilmente rodopiou e afastou-se 
para o lado. Demorou um momento para a besta perceber que o seu ataque 
tinha sido em vo, e diminuiu a velocidade at parar.
        O rinoceronte estava desconcertado, e ficando cansado e enfurecido. 
Pateou o solo, enquanto os homens rapidamente formavam um novo crculo 
em volta dele. Outro rapaz avanou, gritando e agitando os braos, para 
atrair a ateno do imenso brutamontes. O rinoceronte fez a volta, voltou a 
atacar e o homem afastou-se rapidamente.
        Da vez seguinte, demorou mais para ati-lo a atacar. Eles pareciam 
obter sucesso em cansar o rinoceronte. As exaustivas e furiosas exploses 
de energia estavam cobrando o seu preo.
        A fera permanecia imvel, cabisbaixa e ofegante. Os homens 
fecharam o crculo, aproximando-se para o abate. Aquele a quem cabia 
atrair o animal, avanou cautelosamente, a lana posicionada. O rinoceronte 
parecia no perceber. Quando ele chegou perto, o imprevisvel animal captou 
o movimento com os seus olhos fracos. A fora esvada, recuperada durante 
o breve descanso, foi estimulada pela furia que abarrotava o seu crebro 
primitivo.
        Sem aviso, o rinoceronte atacou novamente. Aconteceu to depressa, 
que o homem estava despreparado. O enorme animal lanudo, finalmente, 
conseguiu enfiar o chifre macio em algo mais slido do que o ar. Eles 
ouviram um berro agonizante e o sujeito estava no cho. Quando Ayla o 
ouviu, sem pensar, investiu a sua montaria  frente.
        - Ayla! Espere!  perigoso demais! - chamou Jondalar atrs dela, 
impelindo o seu cavalo, ao mesmo tempo em que preparava o arremessador 
de lanas.
        Os outros homens dispararam as suas lanas no mesmo instante em 
que Jondalar falou. Quando Ayla apeou da gua ainda em movimento e 
correu em direo ao ferido, a besta imensa jazia como um monte 
desconjuntado; vrias lanas,  um par do arremessador, salientavam-se de 
seu corpo em todas as direes, como os espinhos de um enorme e grotesco 
porco-espinho. Mas o abate ocorreu tarde demais. A fera fora satisfeita.
        Vrios rapazes, parecendo assustados e perdidos, vagueavam em volta 
do homem tombado, que continuava enroscado e inconsciente onde havia 
cado Quando Ayla se aproximou do grupo, com Jondalar logo atrs, os 
rapazes ficaram surpresos ao v-la, e, por um momento, pareceu que um 
deles ia impedir sua passagem ou perguntar quem ela era, mas ela o ignorou. 
Virou o ferido de costas, conferiu a sua respirao e depois pegou a faca 
para cortar fora as perneiras ensopadas de sangue, as mos j coloridas 
pela tarefa. Havia uma mancha vermelha no rosto dela, de onde, 
inconscientemente, afastara uns fios de cabelo.
        Ayla no tinha qualquer marca de Zelandoni no rosto, porm sabia o 
que estava fazendo. O jovem homem recuou. Quando ela exps a perna, o 
dano pareceu bvio. A panturrilha direita estava dobrada para trs onde no 
havia joelho. O enorme chifre pontudo havia penetrado na barriga da perna 
e fraturado ambos os ossos. O msculo  mostra tinha sido rasgado, a ponta 
dentada de um osso estava aparecendo e o sangue escorria do corte e 
empoava no cho.
        Ela ergueu a vista para Jondalar.
        - Me ajude a endireit-lo enquanto est inconsciente, porque, quando 
acordar, vai doer mov-lo. Depois, apanhe umas peles macias, as nossas 
toalhas de enxugar vo servir. Preciso aplicar presso para parar o sangue, e 
depois vou precisar de ajuda para encanar a perna. - O homem alto saiu 
apressado e ela dirigiu-se a um dos jovens que estavam parados em volta, 
boquiabertos.
        - Ele vai precisar ser transportado. Voc sabe fazer uma maca? - ele
contemplava perplexo, como se no a tivesse ouvido ou entendido. - Vamos 
prender algo para deit-lo, quando ele for carregado.
        O rapaz fez que sim.
        - Uma maca - repetiu.
        Ela se deu conta de que ele era apenas um menino.
        - Jondalar vai ajud-lo - falou, enquanto o homem voltava com as 
peles.
        Colocaram o ferido deitado de costas. Ele gemeu, com o movimento, 
mas no despertou. Ayla voltou a olh-lo; provavelmente, ele sofrera um 
ferimento na cabea, por causa da queda, mas ela no viu nada bvio. Ento, 
apoiando-se com toda a fora na perna dele, tentou estancar o sangue. 
Pensou em usar um torniquete, mas, se conseguisse endireitar o osso e 
enrolar a perna, talvez no precisasse disso. Ele continuava sangrando, mas 
ela j tinha visto coisa pior.
        Ayla dirigiu-se a Jondalar. - Precisamos de talas, pedaos retos de 
madeira do tamanho da perna dele; se for preciso, quebre algumas das 
lanas.
        Jondalar levou-lhe duas talas, pedaos quebrados de lanas. 
Rapidamente, Ayla cortou tiras de uma das peles, e mais outros pedaos 
para colocar em volta das talas, para forrar e deixar tudo pronto. Em 
seguida, segurando com uma das mos os dedos do p, e com a outra o 
calcanhar da perna quebrada, endireitou-a delicadamente, sentindo onde ela 
resistia e onde se encaixava com facilidade. O ferido teve alguns espamos, e 
rudos escaparam de sua boca; ele estava prestes a despertar. Ela alcanou 
o talho sangrento e tentou sentir se os ossos estavam alinhados.
        - Jondalar, segure aqui, bem firme - pediu. - Preciso ajeitar a perna 
antes que ele acorde, e enquanto ainda est sangrando. O sangue ajudar a 
manter o ferimento limpo. - Depois, olhou para cima, para os rapazes - 
meninos - que se encontravam em volta, observando com um olhar 
horrorizado e um ar de espanto no rosto. -Voc e voc - ordenou, olhando 
diretamente para dois deles.
        - Eu vou levantar a perna e pux-la, para alinhar os ossos, a fim de que 
sarem direito. Caso contrrio, ele nunca mais vai andar com essa perna. 
Quero que peguem as talas e as coloquem debaixo da perna dele, para que, 
quando eu a abaixar, fique exatamente entre elas. Conseguem fazer isso?
        Eles confirmaram com a cabea, e apressaram-se em pegar os 
pedaos de lanas forrados. Quando todos estavam prontos, Ayla agarrou 
novamente com ambas as mos os dedos do p e o calcanhar, e delicada, mas 
firmemente, levantou a perna dele. Com Jondalar segurando a coxa, ela 
puxou, exercendo cuidadosamente uma forte presso.
        No era a primeira vez que ele a via endireitar um osso, mas, agora, 
Ayla tentava endireitar dois. Enquanto ela puxava, ele podia ver a 
concentrao em seu rosto, tentando sentir com as mos apalpando a perna 
se os ossos estavam se alinhando. At mesmo ele sentiu o que pareceu uma 
leve sacudida e um encaixar, como se o osso tivesse encontrado o seu lugar. 
Delicadamente, Ayla baixou a perna, e depois a examinou com um olhar 
crtico. Para Jondalar, parecia direito, mas, o que sabia ele? Pelo menos no 
estava dobrada para trs, num lugar onde no era certo ficar.
        Ayla fez um sinal que ele podia ser largado, e voltou a ateno para a 
ferida sangrenta pressionando a perna da melhor maneira possvel, com 
Jondalar ajudando a manter o controle.
        - Ele  meu primo. Eu gostaria de ajudar a carreg-lo - disse um dos 
rapazes.
        - timo. Escolha mais trs, e isso ser o suficiente para lev-lo de 
volta, o resto pode ficar - orientou Jondalar. Ento ele notou que o rapaz 
parecia arrasado e tentava conter as lgrimas. - Como se chama o seu 
primo? - indagou.
        - Matagan. Ele  Matagan da Quinta Caverna dos Zelandonii.
        - Creio que deve gostar muito dele, e isso est sendo muito difcil 
para voc - afirmou Jondalar. - Matagan est seriamente ferido, mas, para 
dizer a verdade, ele tem muita sorte, pois Ayla estava aqui. No posso 
prometer, mas acho que vai ficar bem, e talvez at mesmo voltar a andar. 
Ayla  uma curadora muito boa. Eu sei. Eu fui ferido por um leo das 
cavernas, e teria morrido nas estepes do distante leste, mas Ayla me 
encontrou, tratou dos meus ferimentos e salvou a minha vida. Se algum  
capaz de salvar Matagan, esse algum  Ayla.
        O jovem deixou escapar um soluo de alvio, e em seguida tentou 
recuperar o controle ajudando-a a levant-la, envolveu-a, com as talas e o 
resto, e depois amarrou tudo com as tiras que havia cortado. Ento, recuou, 
sentada sobre os calcanhares.
        Foi quando Jondalar notou o sangue. Ele estava por toda a parte, nos 
forros, nas talas, em Ayla, nele mesmo, nos jovens que haviam ajudado. O 
rapaz cado ao cho tinha perdido muito sangue.
        - Creio que devemos lev-lo logo de volta - sugeriu Jondalar.
        Um pensamento fugaz percorreu a mente dele. A proibio de falar 
com as pessoas no havia terminado, e ainda no fora realizado o ritual de 
liberao dos recm-acasalados, mas Ayla sequer levou isso em considerao. 
Tratava-se de uma emergncia e no havia nenhum Zelandoni por perto para 
chamar.
        - Vocs vo precisar fazer a maca - avisou aos rapazes parados em 
volta, que pareciam estar mais em choque do que o deitado no cho.
        Eles se entreolharam e saram arrastando os ps. Todos eram jovens 
e inexperientes. Vrios tinham apenas recentemente atingido a virilidade, e 
alguns fizeram o seu primeiro abate durante a grande caada ao biso que 
marcou o incio da temporada de caa do vero, e esta fora uma caada fcil, 
um pouco mais que uma prtica de disparo ao alvo. A aulada ao rinoceronte 
fora instigada por um deles, que, anos antes, vira o irmo praticar um 
esporte semelhante, e por alguns outros que ouviram falar a respeito mas, 
primordialmente tratou-se de uma deciso irrefletida, quando viram o 
animal por acaso. Todos eles sabiam que deviam ter obtido alguma 
experincia com caadores mais velhos, antes de tentarem derubar o 
enorme animal, no entanto tudo no que pensaram foi na glria de fazerem  
isso sozinhos, na inveja dos outros solteiros dos "alonjamentos" e na 
admirao de toda a Reunio de Vero, quando levassem o rinoceronte. 
Agora, um deles estava seriamente ferido.
        Rapidamente Jondalar avaliou a situao.
        - A que Caverna ele pertence? - perguntou.
        -  Quinta - veio a resposta.
        - Voc corra na frente e d a notcia - ordenou Jondalar. O jovem 
com quem ele falou saiu em disparada. Ele pensou em ir dar a notcia, 
montando Racer, pois assim chegaria mais depressa do que um rapaz 
correndo, mas  precisava supervisionar a feitura da maca. Os rapazes 
continuavam apavorados em estado de choque, e exatamente tudo de que 
precisavam no momento era um adulto para lhes dizer o que fazer. - Vamos 
precisar de trs ou quatro vocs para ajudar a carreg-lo, O resto pode 
ficar aqui, para estripar o animal. Ele pode comear a inchar muito depressa. 
Mandarei algum para ajud-los. No faz sentido em se desperdiar carne, 
e o custo dela foi muito alto.
        - Agora, traga algumas lanas, para podermos carregar o seu primo 
para casa - pediu Jondalar. Precisaremos de pelo menos quatro, duas para 
cada lado. - Sob a orientao dele, as lanas logo estavam amarradas com 
correias, formando resistentes suportes, com pedaos de roupas presos 
entre elas. Ayla examinou o rapaz ferido, e depois vrios deles o colocaram 
sobre a maca improvisada.
        No estavam muito longe do acampamento. Ayla e Jondalar fizeram 
sinais para Huiin e Racer segui-los, e foram caminhando ao lado do jovem 
ferido. Ela o observava com preocupada concentrao, e, quando pararam 
para trocar de carregadores, verificou sua respirao e sentiu as batidas do 
pulso. Eram fracas, mas constantes.
        Aproximaram-se da extremidade riacho acima do acampamento, perto 
do local onde estava instalada a Nona Caverna. A notcia do acidente 
espalhara-se rapidamente, e vrias pessoas tinham seguido o caminho de 
volta, com o rapaz que fora dar o aviso, para se encontrar com o grupo. 
Joharran estava entre elas, e avistou-os  distncia.
        Quando se encontraram, os dois que carregavam a maca foram 
substitudos, e a caminhada de volta ao grande lugar de Reunio seguiu mais 
depressa.
        - Marthona mandou chamar a Zelandoni e o Zelandoni da Quinta - 
avisou Joharran. Eles esto do outro lado do acampamento, em uma reunio 
da Zelandonia. Devemos lev-lo para o nosso acampamento ou para o dele? - 
perguntou a Ayla.
        - Eu quero mudar as tiras de pele e colocar um cataplasma no 
ferimento. No quero que inflame - alertou Ayla. Ela pensou por um 
momento. - No  muito tempo para reabastecer todos os meus 
medicamentos, mas estou certa que a Zelandoni tem o suficiente, e quero 
que ela d uma olhada nele. Vamos para o alojamento da zelandonia antes. A 
Zelandoni no corre mais como antigamente - comentou Joharran, 
referindo-se de forma diplomtica ao grande tamanho dela. - O Zelandoni 
da Quinta talvez queira examinar o rapaz, mas, segundo me disseram, curar 
nunca foi o seu maior talento.
        Quando chegaram ao alojamento da zelandonia, a Primeira os recebeu 
na entrada. Um lugar j havia sido preparado, e Ayla ficou imaginando se 
algum tinha ido na frente e avisado a ela que resolveram no levar o rapaz 
para o acampamento da Nona Caverna, ou se a Zelandoni simplesmente 
deduziu que o ferido seria levado para l.
        Vrias pessoas, que os tinham visto chegar, j comentavam sobre 
todo aquele sangue. Apesar de vrios membros da zelandonia estarem lado 
de fora, no havia mais ningum no interior do alojamento.
        - Coloquem ele ali - comandou a Primeira, mostrando-lhes um dos 
leitos elevados do lado mais afastado, oposto  entrada. Os homens o 
carregaram para l, depois o colocaram sobre o leito. A maioria saiu, mas 
Joharran e Jondalar permaneceram.
        Ayla cuidou para que a perna ficasse esticada, e ento passou a 
remover tiras que a envolviam.
        - O ferimento precisa de um cataplasma, para no inflamar - avisou 
ela
        - Ele vai agentar mais um pouco. Me conte o que aconteceu - pediu a 
Primeira.
        Ayla e Jondalar narraram rapidamente o ocorrido, e ela arrematou:
        - Ambos os ossos inferiores da perna se quebraram, e a panturrilha 
foi virada para trs. Eu sabia que, se no fossem endireitados, ele nunca 
mais voltaria a andar com essa perna, e ainda  muito jovem. Por isso, resolvi 
endireitar a perna l mesmo, enquanto ele estava inconsciente e antes que 
ela comeasse a inchar dificultasse o trabalho a ser feito com os ossos. Eu 
tive que apalpar por dentro puxei com fora, para os ossos voltarem a ficar 
alinhados, e acho que consegui. No caminho daqui, ele veio fazendo alguns 
rudos, e talvez desperte em breve. Tenho certeza que vai sentir muitas 
dores.
        -  bvio que voc conhece algo a respeito disso, mas preciso lhe 
fazer umas perguntas. Primeiro, presumo que j ajeitou ossos antes - 
conjecturou a Primeira.
        Jondalar respondeu por ela:
        - Uma mulher Xaramudi, uma boa amiga de quem eu gostava muito,  
parceira de um lder, caiu de um rochedo e quebrou o brao. O curador 
deles tinha morrido, e no conseguiram avisar nenhum outro, e o osso sarou 
de modo errado e com muitas dores. Eu vi Ayla quebr-lo novamente e 
coloc-lo no lugar certo. Tambm a vi ajeitar a perna quebrada de um 
homem do Cl. Ele saltou de uma pedra muito alta para proteger a parceira 
de alguns losagunai que andavam atacando as mulheres do cl. Se h uma 
coisa que Ayla sabe,  a respeito de  ossos quebrados e ferimentos abertos.
        - Onde aprendeu, Ayla? - indagou ela.
        - O povo do Cl tem ossos muito fortes, mas os homens costumam 
quebr-los, quando vo caar. Normalmente, no jogam lanas, mas 
perseguem os animais para estoc-los com uma lana, ou, s vezes, pulam 
sobre eles. Ou fazem o que aqueles rapazes estavam fazendo, vrios 
perseguem um animal, at ele ficar cansado, e depois chegam perto o 
suficiente para lhe enfiar as lanas.  muito desgastante. As mulheres 
tambm quebram ossos, mas, na maioria das vezes, acontece com os homens. 
Eu aprendi primeiro sobre ossos fraturados com Iza. As pessoas do cl de 
Brun s vezes fraturavam ossos, mas foi no vero, quando fomos para a 
Congregao do Cl, que eu aprendi realmente, com outras curandeiras do 
Cl, a consertar ossos quebrados e tratar os ferimentos - contou Ayla.
        - Acho que esse rapaz teve muita sorte, por voc estar l por acaso, 
Ayla - observou Aquela Que Era A Primeira. - No  qualquer Zelandoni que 
saberia o que fazer com uma perna to gravemente quebrada daquele jeito. 
Haver mais perguntas, pois, certamente, o Zelandoni da Quinta vai querer 
falar com voc, e a me do rapaz,  claro, mas fez muito bem. Que tipo de 
cataplasma vai colocar na perna dele?
        - Eu arranquei algumas razes, que encontrei a caminho daqui. Creio 
que vocs as chamam de anmona - disse Ayla. - O ferimento ficou 
sangrando, enquanto eu lidava com os ossos, e o sangue da prpria pessoa s 
vezes  a melhor coisa para limpar uma ferida, mas agora o sangue est 
secando. Vou amassar as razes e ferv-las, para limpar a ferida com o caldo, 
depois acrescentar mais um pouco  papa e mistur-la com outros tipos de 
razes para fazer um cataplasma. Na minha bolsa de remdios, tenho p de 
raiz de gernio, para coagular o sangue, e esporos de licopdio para 
absorver os fluidos, e depois ia perguntar se voc tem determinadas coisas 
ou sabe onde elas crescem.
        - Bem, pode perguntar.
        - Existe uma raiz que descrevi para Jondalar, e ele achou que vocs a
chamam de confrei.  muito boa para curar, por dentro e por fora.  boa 
para machucados, num ungento feito com banha, mas  excelente em 
ferimentos e cortes recentes. Um cataplasma fresco pode conter o inchado, 
quando h um osso quebrado, e ajuda ossos quebrados a se unir novamente - 
explanou Ayla.
        - Sim, eu tenho algum, em p, e conheo um lugar onde ele cresce, e 
descreveria as suas propriedades da mesma maneira - disse a Primeira. 
        - Tambm utilizo as belas flores reluzentes que, acho, so chamadas 
de cravo. So boas em especial para ferimentos abertos, e tambm para 
feridas e chagas que no saram. Gosto de espremer o sumo das flores 
frescas, ou ferver as ptalas secas, colocar sobre feridas abertas, e 
manter o local mido. Isso ajuda a evitar o cheiro ruim da inflamao, e 
receio que o rapaz vai precisar disso. Lamento, mas no sei o nome dele - 
desculpou-se Ayla.
        - Matagan - informou Jondalar. - O primo dele me disse que  
Matagan da Quinta Caverna.
        - O que mais voc usaria, se tivesse? - quis saber a Zelandoni.
        Por um instante, Ayla captou a imagem fugidia de Iza testando os 
conhecimentos dela.
        - Bagas de zimbro esmagadas, para uma ferida sangrando ou o 
cogumelo redondo, bufa-de-lobo. Isso pode deter o sangue de feridas. O p 
seco de hidra tambm  muito bom, e...
        -  o bastante. Estou convencida de que voc sabe o que faz. O 
tratamento que sugere  bastante apropriado - declarou a Primeira-, mas, 
no momento, Jondalar quero que voc leve Ayla a um lugar onde ela possa se 
lavar; alis, onde os dois possam se lavar. Vocs esto repletos do sangue do 
rapaz e isso, mais do que qualquer coisa vai deixar a me dele perturbada. 
Deixe as razes de anmona comigo, e mandarei algum apanhar confrei 
fresco. Ns cuidaremos dele. Podero voltar quando estiverem  limpos e 
descansados. Por que no vo para o seu acampamento pela parte dos fundos,
para no terem que atravessar novamente todo o acampamento da Reunio 
de Vero? Tenho certeza de que h uma multido esperando l fora. Usem a 
outra entrada do alojamento pois iro mais depressa e evitaro aqueles que 
quiserem retardar vocs. Antes de irem, porm creio que precisam ser 
liberados da proibio de falar com os outros. Ao que parece o isolamento 
de vocs terminou um dia antes.
        - Oh! Eu esqueci - exclamou Ayla. - Nem me lembrei disso!
        - Eu me lembrei - afirmou Jondalar -, mas no tive tempo para me 
preocupar com isso.
        - Vocs agiram certo. Essa, certamente, foi uma emergncia e tanto - 
aclarou a donier -, mas preciso perguntar formalmente. Vocs, Jondalar e 
vov completaram o seu perodo de experincia e decidiram que desejam 
continuar acasalados, ou preferem se separar agora e procurar mais algum 
com quem possam ser mais compatveis?
        Os dois olharam para ela, em seguida se entreolharam, e ento um 
largo riso se instalou no rosto de Jondalar, refletindo o sorriso de Ayla.
        - Se eu no fosse compatvel com Ayla, com quem eu seria? - 
perguntou Jondalar. - Esse pode ter sido o nosso Matrimonial, mas, em meu 
corao estamos acasalados h muito tempo.
        -  verdade. At mesmo dissemos palavras como aquelas, antes de 
atravessarmos a geleira, logo depois de deixarmos Guban e Yorga. Na 
ocasio, sabamos que estvamos acasalados, mas Jondalar queria que voc 
amarrasse o n para ns, Zelandoni.
        - Voc quer desacasalar, Ayla? Jondalar? - perguntou.
        - No, eu no quero - afirmou Ayla, sorrindo para Jondalar. -Voc 
quer?
        - Nem por um instante, mulher - disse ele. - Eu esperei muito tempo, 
e no vou querer terminar isso agora.
        - Ento, vocs esto livres da proibio de falar com os outros, e 
podem declarar a todos que Jondalar e Ayla da Nona Caverna dos Zelandonii 
esto acasalados. Ayla, qualquer criana nascida de voc nascer da lareira 
de Jondalar. Ser responsabilidade de ambos cuidarem delas at crescerem. 
Esto com a correia de couro? - enquanto foram buscar a comprida tira de 
couro, a Zelandoni apanhou dois colares em uma mesa prxima. Pegou de 
volta a correia, e amarrou um colar simples em volta do pescoo de cada um 
dos dois. - Desejo que tenham juntos uma vida longa e feliz - concluiu A Que 
Era A Primeira Entre Aqueles Que Serviam  Grande Me Terra.
        Eles seguiram furtivamente pela entrada de trs, e saram s pressas 
pelos fundos. Algumas pessoas que os viram sair, chamaram, mas eles 
continuaram em frente. 
        Ao chegarem ao lago alimentado pela nascente, Ayla entrou na gua 
com pletamente vestida. Jondalar a seguiu. Somente quando a Zelandoni 
chamou a ateno, foi que conseguiram sentir o cheiro de sangue neles, e 
queriam se livrar daquilo. Para as manchas de sangue sarem todas, pensou 
Ayla, elas teriam que ser lavadas com gua fria. Se no sassem, talvez ela 
tivesse que se livrar daquelas roupas e fazer outras novas. Depois das 
grandes caadas, ela agora possua vrias peles e muitas outras partes de 
animais que poderia utilizar.
        A caminho do alojamento da zelandonia, haviam deixado os cavalos no 
pasto perto do acampamento da Nona Caverna, e os animais encontraram o 
caminho para o seu curral. O cheiro de sangue sempre os deixava 
irrequietos, e tanto o rinoceronte quanto o rapaz tinham sangrado 
profusamente. O local cercado dava uma sensao de segurana.
        Jondalar envolveu-se com a roupa molhada e correu na direo do 
acampamento, na esperana de encontrar os cavalos e pegar outras roupas 
que estavam nos cestos de bagagem.
        Ficou surpreso, ao ver Lanidar no local, consolando os cavalos, mas o 
menino parecia chateado e disse que queria falar com Ayla. Jondalar avisou 
que, depois que levasse roupas para ela, Ayla viria. Ele levou algum tempo 
para retirar os cestos, os oobertores e os cabrestos dos cavalos. 
Posteriormente, Jondalar falou com Ayla a respeito de Lanidar, e quando ela 
o viu, mesmo  distncia, pde perceber, pela sua expresso, o motivo, a me 
dele o tinha proibido novamente de cuidar dos cavalos.
        - O que houve, Lanidar? - perguntou ela, assim que chegou perto.
        -  Lanoga - disse ele. - Ela passou o dia chorando.
        - Mas por qu? - quis saber Ayla.
        - O beb. Esto dizendo que vo tirar Lorala dela.
        - Quem  que vai tirar o beb dela? - perguntou Ayla.
        - Proleva e algumas mulheres - avisou. - Dizem que encontraram uma 
me para Lorala, algum que pode amament-la o tempo todo.
        - Vamos verificar que histria  essa - sugeriu Ayla. - Voltaremos 
depois, para cuidar dos cavalos.
        Ao chegarem ao acampamento, Ayla ficou contente por Proleva estar 
l. Os viu se aproximando, e sorriu.
        - Como , est confirmado? Esto acasalados? J podemos festejar e 
pegar os presentes? No precisam responder. Estou vendo os colares.
        Ayla teve que retribuir o sorriso.
        - Sim, estamos acasalados - declarou.
        - A Zelandoni acaba de confirm-lo - informou Jondalar.
        - Preciso falar com voc sobre outra coisa, Proleva - externou Ayla,
com o semblante grave.
        - O que ? - A mulher percebeu, pela expresso de Ayla, que ela 
estava preocupada com alguma coisa.
        - Lanidar me contou que vo tirar o beb de Lanoga - explicou Ayla.
        - Eu no colocaria desse modo. Achei que voc ia ficar feliz, por 
termos achado um lar para Lorala. Uma mulher da Vigsima Quarta Caverna
perdeu beb dela. Ele nasceu com uma sria deformidade, e morreu. Ela 
est cheia de  leite, e disse que estaria disposta a ficar com Lorala, mesmo 
sendo mais velha.  Quer muito um filho, e tenho a impresso de que j
abortou antes. Achei que uma combinao perfeita - justificou-se Proleva.
        - Aparentemente, seria. As mulheres que atualmente amamentam
Lorala querem desistir? - indagou Ayla.
        - Algumas deias, me pareceram um pouco contrariadas. Stelona
chegou a dizer que a Vigsima Quarta Caverna fica muito longe, e ela
lamentaria no ver Lorala crescer forte e saudvel - comentou Proleva.
        - Eu sei que voc est pensando no que  melhor para Lorala, mas
perguntou a Lanoga? - quis saber Ayla.
        - No, na verdade, no. Perguntei a Tremeda. Pensei que Lanoga 
ficaria contente em se livrar da responsabilidade. Ela  muito jovem, para se 
preocupar em cuidar o tempo todo de uma criana. Haver tempo bastante 
para isso, quan do ela for me - disse Proleva.
        - Lanidar contou que Lanoga passou o dia chorando.
        - Eu sei que ela est chateada, mas pensei que ia superar isso. Ela no 
est amamentando Lorala, e ainda nem mesmo  uma mulher. Lanoga deve 
contar apenas onze anos.
        Ayla lembrou que devia contar menos de doze anos, quando deu  luz a 
Durc, e, na ocasio, no conseguiu abrir mo dele. Teria preferido morrer a 
ter que dar o seu filho. Quando ela perdeu o leite, as mulheres do Cl 
amamentaram Durc, mas isso no quis dizer que ela era menos me dele. 
Ainda assim, ficou muito triste, ao ter que deix-lo para trs, quando foi 
forada a deixar o Cl. Ayla quis lev-lo. Foi apenas o medo do que poderia 
acontecer com ele, se sucedesse algo com ela, que a convenceu a deixar para 
trs o filho de trs anos. No importava o fato de ela saber que Uba 
cuidaria de Durc e o amaria como se fosse seu. Ainda doa, quando Ayla 
pensava no filho. Nunca superou isso, e no queria que Lanoga sofresse esse 
tipo de dor.
        - No  amamentar que faz uma me, Proleva. E, certamente, no  a 
idade frisou Ayla. - Veja Janida. Ela no  muito mais velha, mas ningum 
sonharia em tirar o beb dela.
        - Janida tem um parceiro, e um muito bom, com status, e o beb vai
nascer da lareira de Peridal. Ele sempre ser responsvel pela criana, e,
mesmo se o acasalamento no durar, vrios homens j se declararam
desejosos de se acasalar Com ela. Janida tem um nvel social alto, 
atraente e est grvida. S espero que Peridal perceba que mulher
favorecida ela . A me dele j est criando problemas para a filha. Ela foi 
ao encontro dos dois, durante o perodo de experincia, e tentou fazer com 
que Peridal desistisse do acasalamento. - Proleva parou. Haveria tempo, 
depois, para contar a Ayla a respeito disso. - Mas Lanoga no  Janida. 
        - No, Lanoga no  uma moa favorecida, mas deveria ser. Ningum 
passa um ano cuidando de um beb sem se afeioar a ele. Lorala  agora o 
beb de Lanoga, e no de Tremeda. Ela pode ser jovem, mas tem sido uma 
boa me - afirmou Ayla. 
        - Ela tem sido maravilhosa, e, algum dia, ser uma me maravilhosa - 
enfatizou Proleva -, se tiver essa chance. Mas, quando ela tiver idade 
suficiente para se acasalar, que homem vai querer Lanoga e uma irmzinha, 
no como uma segunda mulher, mas como uma filha pela qual ser 
responsvel e que nem mesmo nasceu da sua lareira? Lanoga tem muita coisa 
contra si, se levarmos em conta o lar em que ela e Lorala nasceram. Receio 
que, quem estiver disposto a ficar com ela, ser algum como Laramar, no 
importa quem a recomendar. Eu gostaria de v-la ter uma chance de uma 
vida melhor.
        Ayla estava certa de que Proleva tinha toda a razo, e era bvio que 
se preocupava com a menina e que faria tudo para ajud-la, mas tambm 
sabia o quanto Lanoga ia sentir, se perdesse Lorala
        - Lanoga no vai precisar se preocupar em encontrar um parceiro - 
intercedeu Lanidar.
        Ayla e Proleva quase tinham esquecido que ele ainda estava ali. 
Jondalar tambm ficou surpreso. O garoto estivera ouvindo o debate entre 
as duas mulheres, conseguia entender ambos os lados.
        - Eu vou aprender a caar, e vou aprender a ser um Chamador, e, 
quando crescer, vou me acasalar com Lanoga e ajud-la a cuidar de Lorala, e, 
se ela quiser de todo o resto dos seus irmos e irms. J falei com ela, e ela 
concordou. Lanoga  a nica menina que eu j conheci que no se importa 
com o meu brao, e acho que a me dela tambm se importe.
        Ayla e Proleva ficaram boquiabertas diante de Lanidar, depois se 
entreolharam, como se para ter certeza de que ouviram a mesma coisa, e 
que ambas estavam pensando a mesma coisa. De fato, no seria uma m 
combinao, principalmente se essa idia realmente motivasse Lanidar a 
desenvolver algumas habilidades para se aprimorar. Eram ambos crianas 
decentes e surpreendentemente maduras para a idade. Claro que eram 
jovens e podiam mudar facilmente de idia, e por outro lado, quem mais 
haveria para qualquer um dos dois?
        - Portanto, no d beb de Lanoga para uma outra mulher. Eu no paro 
de v-la chorando - salientou Lanidar.
        - Ela ama de verdade aquela criana - afirmou Ayla -, e a Nona 
Caverna tem se disposto a ajud-la. Por que no deixar as coisas como 
esto?
        - O que vou dizer para a mulher que ia ficar com o beb? - perguntou 
Proleva.
        - Diga apenas que a me de Lorala no quer dar a filha.  verdade. 
Tremeda no  de fato a me dela, Lanoga  que . Se essa mulher quer 
realmente um beb o  conseguir, ou um dela mesma, ou um outro beb que 
precise de uma me; isto est acontecendo o tempo todo - declarou Ayla. 

        Praticamente todo mundo da Nona Caverna dos Zelandonij e da 
Primeira Caverna dos Lanzadonii compareceu  grande comemorao 
Conjunta para festejar os Matrimoniais do irmo do lder de uma e da filha 
da lareira do lder da outra, que tambm eram aparentados. Acontece que, 
na mesma ocasio, mais duas outras pessoas da Nona Caverna se acasalaram 
com gente de outras Cavernas. Proleva soube, e providenciou para que 
tambm fossem includas. Uma jovem chamada Tishona tinha se unido a 
Marsheval da Dcima Quarta Caverna, e ia viver com ele. E outra, uma 
mulher mais velha, Dynoda, havia se mudado para longe, mas tinha cortado o 
n com o antigo parceiro e feito um novo relacionamento com Jacsoman da 
Stima Caverna. Estavam se mudando de volta para a Nona Caverna. A me 
de Dynoda estava doente, e queria ficar perto da filha.
        Durante o dia, outras pessoas tambm apareceram para desejar 
felicidades. Levela e Jondecam, e a me dela, Velima, que era tambm me 
de Proleva, passou a maior parte do dia com eles, o que agradou Ayla e 
Jondalar, e Joplaya e Echozar. Todos adoravam a companhia uns dos outros. 
A me e o tio de Jondecam tambm foram e ficaram algum tempo.
        Ayla e Jondalar ficaram felizes em ver Kimeran, que agora se tornara 
um parente distante, atravs da sobrinha da parceira dele, que era irm da 
parceira do irmo de Jondalar. Ayla sentiu-se perdida em meio  intrincada 
rede de parentescos, mas ficou particularmente feliz em ver a me de 
Jondecam, a Zelandoni da Segunda Caverna.
        Ela havia conhecido a mulher, mas no se dera conta de quem era. Por 
algum motivo, Ayla ficou muito contente em conhecer uma Zelandoni que 
tinha filhos, principalmente um que era to amigvel e confiante como 
Jonciecam. 
        Janida e Peridal tambm passaram a maior parte do dia na Nona 
Caverna, saltando  vista a ausncia da me de Peridal. Os dois queriam se 
mudar para longe da Vigsima Nona Caverna, e conversaram com Kimeran e 
com Joharran para ver se a Segunda ou a Nona Cavernas os aceitariam. 
Jondalar tinha certeza que uma delas estaria de acordo.
        A Primeira j havia falado a respeito com os lderes e com a Zelandoni 
da Segunda. Ela achava que seria sensato afastar o jovem casal da me de 
Peridal, pelo menos por uns tempos. A Primeira estava bastante irritada com 
a mulher, por ela ter se intrometido com os dois durante o perodo de  
isolamento de experincia deles.
        Com a proximidade da noite, as coisas comearam a se acalmar, 
Marthona preparou ch para os vrios parentes e amigos que ainda 
permaneciam por l. Proleva, Ayla e Folara ajudaram a distribuir os canecos. 
Um jovem, que recentemente fra aceito como aclito do Zelandoni da 
quinta caverna tambm estava l, e s se deixou ficar porque era a primeira 
vez que fazia parte de um grupo to eminente, e no suportava a idia de ir 
embora. Ele tinha uma admirao especial pela Primeira.
        - Tenho certeza de que ele nunca mais andaria, se no houvesse algu 
presente que soubesse o que fazer - afirmou o aclito. Ele dirigiu o 
comentrio ao grupo todo, mas, na verdade, tentava impressionar a donier.
        - Creio que est inteiramente correto, Quarto Aclito do Zelandoni 
da Quinta. Voc  muito perceptivo - observou a mulher. - O resto, agora, 
cabe  Grande Me e aos poderes de recuperao do rapaz.
        O jovem encheu-se de orgulho, por ela ter respondido, e mal conteve 
o prazer pelo elogio da Zelandoni. Ele estava adorando o fato de estar 
includo na conversa informal com Aquela Que Era A Primeira.
        - J que agora  um aclito, vai fazer parte do revezamento de quem 
est cuidando de Matagan? Ele  da sua Caverna, no  mesmo? - frisou a 
Primeira. - Claro que  difcil ficar a noite toda acordado, mas, no momento, 
ele precisa de algum a seu lado o tempo todo. Presumo que o seu Zelandoni 
pediu a sua ajuda. Se no pediu, voc podia se oferecer. A Quinta, sem 
dvida, apreciaria isso.
        - Sim,  claro que vou participar do revezamento - concordou ele, 
levantando-se. - Obrigado pelo ch. Preciso ir agora. Tenho as minhas 
responsabilidades - afirmou, tentando parecer valorizado. Aprumou os 
ombros e assumiu uma expresso grave ao se dirigir para o acampamento 
principal.
        Depois que o jovem aclito se foi, vrios dos presentes finalmente 
cederam ao sorriso que tinham pelejado para conter. - Voc deixou o rapaz 
muito feliz Zelandoni - comentou Jondalar. - Ele ficou radiante de prazer. 
Todos os membros da zelandonia tm essa admirao por voc?
        - S os mais jovens - retrucou a Zelandoni. - Pelo modo como o resto 
discute comigo, s vezes chego a pensar por que ainda continuam me 
Primeira. Talvez porque eu seja mais grandiosa do que eles - aventou, e 
depois sorriu. Ela fez a declarao como um trocadilho com o seu tamanho 
monumental.
        Jondalar tambm sorriu, ao entender a piada. Marthona apenas lhe 
deu uma significativa olhadela com as sobrancelhas arqueadas. Ayla notou a 
troca de olhares e pensou ter entendido, mas no tinha certeza. As 
sutilezas, que se originavam da profunda compreenso de algum que se 
conhecia h muito tempo, continuavam alm de seu alcance.
        - Contudo, creio que prefiro a discusso - continuou a Zelandoni. -
Pode ser um pouco cansativo cada palavra que voc pronuncia ser tratada 
como se tivesse sado diretamente da boca da prpria Doni. isso me rora a 
ser cuidadosa cofl tudo que eu digo.
        - Quem decide qual membro da zelandonia  o Primeiro Entre Aqueles 
Que Servem  Me? - quis saber Jondalar. -  como a escolha do lder de 
uma Caverna? Cada Zelandoni diz apenas quem acha que deve ser? Todos 
tm que concordar, a maioria, ou apenas alguns capacitados a isso?
        - A escolha individual dos membros da zelandonia faz parte do 
processo, mas no  to simples assim. H muitas coisas a serem levadas em 
considerao. O dom da cura  uma delas, e ningum julga com mais 
severidade do que os Zelandoni curadores. H gente capaz de ocultar das 
pessoas em geral as suas inaptides, mas no se consegue enganar algum 
que sabe. Entretanto o poder de cura no  absolutamente essencial. J 
houve Primeiros que possuam apenas um conhecimento rudimentar de cura,
porm isso era mais do que compensado pela habilidade em outras reas.
Alguns tm dons naturais ou outros atributos.
        - Ns s ouvimos falar no Primeiro. H um segundo ou um Terceiro? 
Algum para substituir o Primeiro, no caso de acontecer algo com ele? E h 
um ltimo? - indagou Jondalar, estimulando a conversa. Todos estavam 
interessados. A Zelandoni no costumava ser to acessvel em relao s 
prticas internas da zelandonia, mas ela notou o interesse de Ayla e tinha 
seus motivos para ser to sincera.
        - No existe uma ordem decrescente. H nveis. Seria difcil para uma 
Caverna aceitar um donier que fosse o ltimo Entre Aqueles Que Servem, 
no  mesmo? Os aclitos so o ltimo nvel,  claro, mas tambm h nveis 
entre os aclitos, o que, s vezes, depende de habilidades particulares. 
Vocs devem ter adivinhado que o jovem que  o Quarto Aclito do 
Zelandoni da Quinta Caverna foi aceito recentemente. Trata-se de um 
novio, de nvel mais baixo, mas ele tem potencial, ou no teria sido aceito. 
H alguns que no querem passar de aclitos. No querem assumir o fardo 
total da responsabilidade, desejam apenas desempenhar as suas habilidades, 
e podem fazer isso de uma maneira melhor dentro da zelandonia.
        Depois de aclito, o nvel seguinte  o de novo donier. Cada Zelandoni 
precisa sentir que foi pessoalmente chamado, e, mais do que isso, precisa 
convencer o resto da zelandonia que se trata de um chamado verdadeiro. 
Alguns, mesmo desejando, nunca passam do nvel de aclito. s vezes, 
aclitos desejam tanto ser Zelandoni, que tentam alegar um falso chamado, 
ou mesmo fingir um, mas invariavelmente so rejeitados. Quem passou pela 
provao sabe a diferena. Ela tem tornado alguns aclitos...e ex-aclitos... 
muito amargos.
        - O que mais  exigido para se tornar um Zelandoni? - insistiu 
Jondalar. E o que  especialmente necessrio para se tornar Aquele Que  
O Primeiro?
        - Os demais contentavam-se em deixar que ele fizesse as perguntas. 
Embora alguns, como Marthona, que j fora uma aclita, conhecessem a 
maioria das exigncias, outros nunca tiveram suas perguntas respondidas de 
forma to direta pela Zelandoni.
        - Para se tornar um membro da zelandonia, a pessoa deve memorizar 
todas as Histrias e Lendas dos Antigos, e ter uma boa compreenso do seu 
significado. Deve saber as palavras de contar e como us-las, a vinda das 
estaes, as lua e algumas coisas que somente  zelandonia cabe saber. 
Talvez o mais importante, porm, a pessoa deve ser capaz de visitar o 
mundo dos espritos - destacou a Zelandoni. -  por isso que a pessoa 
precisa ser verdadeiramente chamada. Muitos da zelandonia sabem, desde o 
incio, quem ser o Primeiro, e quem, com toda a probabilidade, ser o 
seguinte. Isso pode ser revelado na primeira vez em que a pessoa sentir o 
chamado para se aventurar no mundo dos espritos. Ser Primeiro  tambm 
um chamado, e no um chamado desejado por cada Zelandoni.
        - Como  o mundo dos espritos?  amedrontador? Voc tem medo, 
quando vai l? - perguntou Jondalar a seguir.
        - Jondalar, no d para se descrever o mundo dos espritos para quem 
nunca esteve l. E, sim,  amedrontador, principalmente na primeira vez. E
nunca deixa inteiramente de ser amedrontador, mas, com meditao e 
preparao, isso pode ser controlado, juntamente com o conhecimento de 
que a zelandonia e, em particular, a Caverna, esto ali para ajudar. Sem a 
ajuda das pessoas de uma caverna, pode ser difcil retornar - explicou.
        - Mas, se  amedrontador, por que faz isso? - quis saber Jondalar.
        - No h como recusar.
        Subitamente, Ayla sentiu um calafrio, e estremeceu.
        - Muitos tentam combater isso, e alguns conseguem por uns tempos 
prosseguiu a donier -, mas, no final, a Me encontrar o Seu meio. O melhor
de tudo  estar preparado. Os perigos nunca so afastados daquele que 
talvez pense em se aventurar nessa direo, e  por isso que a iniciao 
pode ser to extenuante. O teste do outro lado  ainda pior. Talvez voc 
sinta que est sendo rasgado em pedaos, espalhado pelo redemoinho e pelo 
escuro desconhecido. Alguns vo e nunca retornam para o seu corpo.
        Alguns que retornam deixam para trs uma parte de si mesmos, e 
nunca se endireitam depois disso. Mas ningum  capaz de ir e permanecer 
inalterado.
        - E, assim que voc recebe o chamado, precisa aceit-lo, e tambm os 
deveres e as responsabilidades que vm junto. Creio que  por isso que 
poucos da zelandonia se acasalam. No h restries contra o acasalamento, 
nem contra ter filhos, mas  parecido com ser um lder. Pode ser difcil 
encontrar um pai disposto a viver com algum a quem so feitas tantas 
exigncias. No  mesmo, Marthona? - indagou a Zelandoni.
        - , Zelandoni - respondeu ela, e depois sorriu para Dalanar, antes de 
se dirigir ao seu filho. - Por que voc acha que Dalanar e eu cortamos o n, 
Jondalar? Ns conversamos sobre isso, um dia depois do seu acasalamento. 
Foi mais do que a necessidade dele de viajar... Willamar tambm tem essa 
necessidade. Em muitos aspectos, Dalanar e eu somos bem parecidos. Ele  
feliz agora que  lder de sua prpria Caverna.., na verdade, de seu prprio 
povo.., mas levou algum tempo para entender que era o que queria realmente. 
Por muito tempo, lutou contra a responsabilidade, mas creio que foi porque, 
em primeiro lugar, estava atrado por mim. Joconan havia morrido, e eu j 
era lder quando nos acasalamos. No incio, fomos muito felizes. Mas ele 
passou a ficar inquieto. Foi melhor ns termos nos separado. Jerika  a 
mulher ideal para ele. Tem uma forte disposio, e precisa de um homem 
forte, mas Dalanar  o lder. - Os dois que ela mencionou se entre olharam e 
sorriram, e depois Dalanar segurou a mo de Jerika.
        - O Losaduna  Aquele Que Serve para as pessoas que vivem do outro 
lado da geleira. Ele tem uma parceira, e ela tem quatro filhos. Ela parece 
ser muito feliz - aparteou Ayla. Ela estivera ouvindo a Zelandoni, com um 
fascnio prximo ao medo. 
        - O Losaduna  afortunado por ter encontrado uma mulher como ela. 
Como fui afortunada em encontrar Willamar - interps Marthona. - Eu 
estava relutante em me acasalar novamente, mas fico feliz por ele ter 
insistido. - Virou-se e sorriu para ele. - Creio que foi esse um dos motivos 
pelos quais eu, finalmente, passei adiante a liderana. Fui lder por muitos 
anos, com Willamar a meu lado, e nunca tivemos nenhum problema por causa 
disso, mas me cansei das exigncias. Queria algum tempo para mim mesma, e 
queria algum tempo para repartir com Willamar. Depois que tive Folara, quis 
ser me novamente. Joharran parecia ter o potencial, passei a prepar-lo, e 
quando atingiu a idade suficiente, fiquei feliz em passar a responsabilidade 
para ele. Joharran  muito parecido com Joconan. Tenho certeza de que  
filho do esprito dele. - Ela sorriu para o filho mais velho. - Eu o continuo 
ajudando. Freqentemente, Joharran me consulta, embora eu ache que faa 
isso por mim, e no por ele.
        - No  verdade, mame. Eu valorizo o seu conselho - contestou 
Joharran.
        - Voc amou muito Dalanar, mame? - perguntou Jondalar. - Sabe que 
h canes e histrias sobre o amor de vocs. - Ele as tinha ouvido, mas 
sempre se perguntou: se o amor era to forte, por que se separaram?
        - Sim, eu o amei, Jondalar. Uma pequena parte de mim ainda ama. No 
 esquecer algum que se amou muito, e me sinto feliz por continuarmos 
sendo amigos. Creio que somos amigos muito melhores agora do que quando 
ramos acasalados. - Olhou para o filho mais velho. -Tambm ainda amo 
Joconan. Sua memria permanece comigo e me faz lembrar de quando eu era 
jovem e amei pela primeira vez, embora ele tenha demorado a decidir o que 
queria - acrescentou, um tanto enigmaticamente.
        Jondalar lembrou da histria que ouviu sobre a sua me, durante a 
Jornada.
        - Est querendo dizer decidir entre Bodoa ou ambas? - perguntou.
        - Bodoa! Faz tempo que no ouo esse nome! - exclamou a Zelandoni. - 
No  a estrangeira que foi treinada pela zelandonia? De um povo do leste, 
como  mesmo que se chamava? Zar... Sard... alguma coisa.
        - S'Armunai - corrigiu Jondalar.
        - Isso. Eu ainda era jovem, quando ela partiu, mas dizem que era 
muito talentosa - comentou a Zelandoni.
        - Ela agora  S'Armuna. Ayla e eu a encontramos durante a nossa 
Jornada. Mulheres-Lobo S'Armunai me capturaram, e Ayla seguiu a pista 
delas e foi atrs de mim.
        Tivemos sorte de sair de l com vida. Se no fosse Lobo, no creio 
que ns dois estaramos aqui. Podem imaginar a surpresa, ao encontrar 
algum daquele povo, que no apenas sabia falar Zelandonii, como tambm 
conhecia a minha me!
        - O que aconteceu? - vrias pessoas perguntaram.
        Jondalar narrou brevemente a histria da mulher cruel chamada 
Attaroa e Acampamento S'Armunai que ela havia corrompido.
        - Apesar de a S'Armuna ter ajudado Attaroa no incio, ela se 
arrependeu e, finalmente, decidiu ajudar o seu povo e tentar corrigir os 
problemas causados por Attaroa.
        - Todos sacudiram a cabea, admirados.
        - Essa foi a histria mais bizarra que j ouvi - disse a Zelandoni -,  ela 
mostra o que pode acontecer quando um donier se corrompe. Creio que 
Bodoa poderia ter ido longe, se no tivesse abusado de seu poder. 
Felizmente, para ela acabou caindo em si. Dizem que Quem Serve  Me vai 
pagar no outro mundo se empregar mal o seu poder neste aqui.  por isso 
que a zelandonia  to cuidadosa com aqueles que aceita. No h volta. Esse 
 um dos modos que nos diferenciam dos lderes de uma Caverna.
        Um Zelandoni  um Zelandoni por toda a vida Mesmo que, algumas 
vezes, a gente queira, ns no podemos largar o fardo.
        Todos ficaram em silncio por um momento, pensando na histria que 
Jondalar havia contado. Ergueram a vista, quando Ramara entrou.
        - Vim lhe avisar, Joharran, que trouxeram o rinoceronte. O crdito  
de  Jondalar, pois foi a lana dele que o matou.
        - Eu me alegro em ouvir isso, obrigado, Ramara.
        Ramara teria gostado de ficar e ouvir o que as pessoas estavam 
falando, mas tinha outras coisas para fazer, e no fora especificamente 
convidada, embora ningum lhe tivesse dito para ir embora.
        - Voc tem a preferncia da escolha, Jondalar - lembrou Joharran, 
depois que ela saiu. - Vai ficar com o chifre?
        - Creio que no. Prefiro a pele.
        - Conte o que aconteceu l com o rinoceronte - pediu Joharran.
        Jondalar contou que viram, por acaso, os rapazes aulando o 
rinoceronte lanudo, e pararam para observar.
        - S depois do acidente foi que me dei conta do quanto eles eram 
jovens. No acredito que queriam tanto o rinoceronte quanto desejavam 
admirao e elogios, e fazer inveja aos amigos.
        - Nenhum deles tinha alguma experincia com rinocerontes, e muito 
pouca com caadas. No deviam ter tentado pegar um sozinhos. Foi uma 
dura lio que aprenderam. Caar rinocerontes, ou qualquer outro animal, 
no  uma brin cadeira - afirmou Joharran.
        - Mas  verdade que, se tivessem abatido sozinhos o rinoceronte 
lanudo, teriam muitos elogios e a inveja dos amigos - observou Marthona. - 
De certo modo, esse acidente, por mais terrvel que tenha sido, pode ajudar 
a evitar futuras tentativas e tragdias ainda piores. Imaginem quantos 
jovens tentariam fazer a mesma coisa, se eles tivessem sido bem-sucedidos. 
Desse modo, isso pode fazer com que outros pensem duas vezes antes de 
tentar tal brincadeira, pelo menos por uns tempos. A me do rapaz vai 
sofrer e se preocupar, mas o que aconteceu pode poupar outras mes de 
uma dor ainda maior. S espero que Matagan sobre viva sem ficar aleijado.
        - Ayla correu para ajudar, assim que viu o rinoceronte chifr-lo - 
contou Jondalar. - No foi a primeira vez que ela se envolveu em uma 
situao perigosa, ao ver algum ferido, e, s vezes, isso me deixa 
preocupado. 
        - Ele teve sorte por ela estar l. Tenho certeza de que ficaria 
aleijado para sempre, ou pior, se no houvesse algum presente que 
soubesse o que fazer - falou  a Zelandoni, e depois perguntou a Ayla: - Qual 
foi, exatamente, a primeira coisa que voc fez?
        Ayla explicou, em linhas gerais. A Zelandoni arrancou-lhe mais 
detalhes e quis saber os seus critrios. Sob o disfarce de uma conversa 
interessada, a Zelandoni testava o conhecimento de Ayla sobre a arte da 
cura. Apesar de no ter menciona do anteriormente, Aquela Que Era A 
Primeira estava tentando marcar uma reunio formal da zelandonia para que 
os seus membros pudessem descobrir a extenso da aprendizagem de Ayla, 
mas estava feliz por ter aquela oportunidade de interrog la primeiro. Foi 
uma infelicidade para Matagan, no entanto a Zelandonie estava contente por 
aquela demonstrao, da habilidade de Ayla para toda a Reunio de Vero. 
Isso lhe dava a oportunidade de comear a introduzir na zelandonia a 
necessidade  de Ayla entrar para o grupo.
        Por vrias vezes, a Zelandoni j havia reavaliado a sua primeira 
impresso, agora via a jovem mulher atravs de uma tica completamente 
diferente. Ayla no era uma novia. Ela era uma igual, uma verdadeira colega. 
E era inteiramente possvel que a Zelandoni pudesse aprender algumas 
coisas com ela. Os tais espora de bufa-de-lobo, por exemplo. Tratava-se de 
uma prtica que a Zelandoni no  usava, mas, pensando bem, podia ser um 
bom mtodo. Ela estava ansiosa para falar a ss com Ayla para comparar 
idias e conhecimentos, e seria muito bom ter algum na Nona Caverna com 
quem conversar.
        Durante as Reunies de Vero, a Zelandoni trabalhava com os outros 
membros da zelandonia e discutia questes profissionais com os colegas. Ela 
tinha um par de aclitos,  claro, embora nenhum deles estivesse 
seriamente interessado em cura. Ter com ela uma verdadeira curadora, em 
sua prpria Caverna, principalmente uma que trouxesse um novo 
conhecimento, poderia ser muito valioso.
        - Ayla - comeou a Zelandoni - seria uma boa idia falar com os 
familiares de Matagan.
        - No sei o que dizer a eles - alegou Ayla.
        - Eles devem estar preocupados, e creio que gostariam de saber o que
aconteceu. Estou certa que vai ajudar, se voc os tranqilizar.
        - Como posso tranqiliz-los? - quis saber Ayla.
        - Pode dizer que, agora, cabe  Me, mas h uma chance de que 
Matagan fique bom. No  a sua opinio?  a minha - afirmou a Zelandoni. -
que Doni sorriu para esse rapaz, por voc estar no local.
        Jondalar deu um demorado bocejo, ao retirar a tnica, uma nova, que 
ganhou da me, para a festa de seu acasalamento, tranada com fios da 
planta linho que ela havia preparado e tecido. Marthona conseguiu algum 
para enche-la com bordados e contas, mas sem exagero. Ela era leve e 
confortvel. Ayla tambm  ganhou uma semelhante, bem ampla e folgada, 
para que pudesse ficar enquanto a gravidez avanava. Jondalar vestiu a dele 
imediatamente, mas guardou a dela para depois.
        - Eu nunca tinha ouvido a Zelandoni falar to abertamente sobre a 
zelandonia - comentou ele, enquanto se preparava para entrar no seu rolo de
dormir.
        - Foi interessante. Nunca imaginei o quanto poderia ser difcil, mas 
me lembrei de ela dizer que, por mais provaes por que tenha passado, isso 
teve as suas compensaes. Que provaes seriam essas? Ela no falou 
muito a respeito.
        Ficaram deitados juntos e em silncio por algum tempo. Ayla deu-se 
conta de que estava exausta. To exausta, que mal conseguia pensar. Entre 
o acidente da caada ao rinoceronte e ficar no alojamento da zelandonia at 
tarde, no dia anterior, e os festejos do acasalamento, naquele dia, ela havia 
dormido quase nada e ficado sob um pouco de presso. Sentia dores em 
volta das tmporas e chegou a pensar em se levantar e fazer um ch de 
casca de salgueiro, para alivi-la, mas estava cansada demais para se 
incomodar.
        - E mame - prosseguiu Jondalar, quase como uma continuao verbal 
de seus pensamentos. - Eu sempre achei que ela e Dalanar tivessem 
simplesmente resolvido se separar. Nunca soube por qu. Acho que voc 
nunca pensa em sua me como qualquer outra coisa alm de me. Algum que 
o ama e cuida de voc.
        - No acredito que a separao tenha sido fcil para ela. Acho que ela 
amava muito Dalanar - comentou Ayla. - E posso entender por qu. Voc  
muito parecido com ele.
        - No em tudo. Eu nunca quis ser um lder. E continuo no querendo. 
Eu sentiria falta da sensao da pedra em minhas mos. No h nada que 
satisfaa tanto como ver uma lmina perfeita ser lascada da pedra, e ficar 
exatamente do jeito que voc planejou - divagou Jondalar.
        - Dalanar tambm  um lascador de pedra, Jondalar - lembrou Ayla.
        - Sim, o melhor, mas ele j no tem muita oportunidade de trabalhar 
com isso. O nico que poderia se equiparar a ele seria Wymez, mas continua 
no Acampamento do Leo, fazendo belas lminas para as lanas dos 
Caadores de Mamutes. Pena que os dois nunca se conhecero. Eles 
gostariam de aprender um com o outro.
        - Mas voc conheceu os dois. E conhece a pedra to bem quanto qual 
quer um. No pode mostrar a Dalanar o que voc aprendeu com Wymez? - 
props Ayla.
        Posso, e j comecei - revelou Jondalar. - Dalanar est to interessa 
do quanto eu estive. Foi muito bom terem retardado o Matrimonial at a 
chegada dos Lanzadoni. E estou feliz por Joplaya e Echozar terem se 
acasalado no nosso Matrimonial. Esse  um vnculo especial. Sempre senti um 
profundo afeto pela minha prima, e isso nos aproximou ainda mais. Creio que 
Joplaya tambm est feliz.
        - Estou certa de que Joplaya ficou feliz em compartilhar um 
Matrimonial Com Voc, Jondalar. Creio que foi algo que ela sempre quis. - E 
isso foi o mais prximo que ela conseguiu chegar do que realmente desejava, 
acrescentou Ayla no pensamento. Ela sentia pena de Joplaya, mas teve de 
admitir que se sentia agradecida pela proibio de primos prximos se 
acasalarem. - Echozar parece bem feliz. 
        sentiram a mesma coisa, mas por motivos diferentes - comentou 
Jondalar, colocando o brao em volta dela e fuando o seu pescoo.
        - Echozar a ama quase alm da razo. Um amor assim pode compensar 
muitas coisas - disse Ayla, pelejando para ficar acordada.
        - Ele no parece de todo feio, depois que a gente se acostuma. Apenas
parece diferente, mas d para ver o Cl nele - observou Jondalar.
        - No acho, de modo algum, que ele seja feio. Ele me lembra Rydag e 
Durc - rebateu Ayla. - Eu acho o Cl um povo bonito.
        - Eu sei disso, e voc tem razo.  um povo bonito, ao modo dele. E 
voc  bonita demais, mulher. - Focinhou o pescoo dela, depois a beijou, e 
comeou a sentir o desejo por ela, mas viu que Ayla estava quase dormindo.   
Ele sabia se a pressionasse, ela no recusaria, pois nunca fez isso, mas 
aquela no era a ocasio. De qualquer modo, seria melhor com ela 
descansada.
        - Espero que Matagan fique bom - falou, enquanto Ayla rolava para 
lado e ele se aconchegava nas costas dela. Jondalar no se sentia to 
cansado assim, mas no se importava em lhe servir de apoio.
        - Isso me faz lembrar, Jondalar. - Ela rolou de volta, para encar-lo. - 
Zelandoni, o donier da Quinta e eu estivemos conversando com a me de 
Matagan tivemos que dizer a ela que ele poder ter problemas. Talvez 
consiga voltar a andar mas ningum pode ter certeza.
        - Seria uma pena, se no conseguisse.  to jovem.
        - No sabemos,  claro, mas, se voltar a andar, talvez fique manco - 
disse Ayla - A Zelandoni perguntou  me do rapaz se ele demonstrava 
interesse e alguma habilidade ou oficio. A nica coisa que veio  mente dela, 
alm da caa foi que ele fazia as prprias pontas de suas lanas. Isso me fez 
lembrar daque meninos S'Armunai que Attaroa aleijou. Voc ensinou a um 
deles a lascar slex para que pudesse viver disso. Eu falei para a me de 
Matagan que, se isso era que ele gostava de fazer, eu perguntaria a voc se 
estaria disposto a ensinar.
        - Ele  da Quinta Caverna, no? - falou Jondalar, pensando a respeito
        - , mas talvez ele possa ir viver na Nona Caverna durante algum 
tempo cada ano, mais ou menos, Danug no vivia num Acampamento Mamuti
diferente, para aprender mais sobre slex? - mencionou Ayla. - Talvez 
pudesse fazer o mesmo por Matagan.
        -  verdade. Danug tinha acabado de voltar, aps viver um ano num 
acampamento de mineradores, aprendendo mais sobre pedra diretamente na
fonte como eu aprendi na mina de Dalanar. Danug no poderia ter tido um 
professor melhor do que Wymez, no que se refere a como trabalhar a pedra, 
mas um bom lascador tambm precisa conhecer a pedra. 
A testa de Jondalar enrrugou ao ponderar  sobre as implicaes. - No sei. 
Eu teria prazer em ensinar a Matagan, mas preciso conversar com Joharran 
sobre ele vir para a Nona Caverna. O rapaz precisaria de um lugar para 
morar. Joharran pode resolver isso com a Quinta Caverna, isto , se ele 
deseja aprender. Talvez tenha andado fazendo as pontas de lana por no 
conseguir ningum que as fizesse para ele, e desejava caar. Veremos, Ayla. 
 uma possibilidade. Se o ferimento o afetou tanto assim, ele vai precisar 
aprender algum oficio.
        Os dois se acomodaram nas peles, porm, por mais exausta que Ayla 
estivese, o sono no veio de imediato. Descobriu-se pensando no seu futuro 
e no do beb que carregava. E se fosse um menino e quisesse aular 
rinocerontes? E se lhe acontecesse alguma coisa? E onde estava Lobo? Ele 
tambm era quase um filho para ela, mas no o via h dias. Quando, 
finalmente, adormeceu, sonhou com bebs, lobos e terremotos. Detestava 
terremotos. Eles faziam mais do que a amedrontar, eram como um arauto
particular de ms notcias.
        - No posso acreditar que algumas pessoas ainda se oponham por
Joplaya e Echozar terem se acasalado aqui - protestou a Zelandoni. - J
est feito. Eles esto acasalados. J passaram pelo isolamento de
experincia e foram confirmados. Isso j est superado. At mesmo 
fizeram a festa de acasalamento deles. No h nada mais a ser dito.
        A Primeira tomava um ltimo caneco de ch antes de retornar para o 
alojamento da zelandonia, depois de pernoitar no acampamento da Nona 
Caverna. Vrios outros estavam sentados em volta de uma fogueira de vala, 
terminando sua refeio matinal antes de iniciarem as movimentadas 
atividades do dia..
        - Eles andam falando em voltar para casa mais cedo - comentou 
Marthona
        - Seria uma pena, depois de terem vindo de to longe - disse Jondalar.
        - Eles j conseguiram o que queriam: Joplaya e Echozar esto 
oficialmente acasalados, e tm a Zelandoni deles, ou melhor, Lanzadoni - 
frisou Willamar.
        - Eu esperava passar mais tempo com eles. Creio que levar bastante 
tempo antes de voltarmos a v-los - ponderou Jondalar.
        - Eu esperava a mesma coisa - admitiu Joharran. - Estive conversando 
com Dalanar sobre o motivo que o levou a instituir os Lanzadonii como um 
grupo separado.  mais do que o fato de viverem bem distante. Ele tem 
umas idias interessantes.
        - Ele sempre teve - ressaltou Marthona.
        - Echozar e Joplaya nem mesmo gostam de ir at a rea do 
acampamento Principal, pois alegam que as pessoas os ficam encarando, e a 
expresso delas no exatamente amigvel - contou Folara.
        - Tlvez estejam um pouco melindrados, por causa das objees 
durante Matrimonial - aventou Proleva.
        - J analisei todas elas. Nenhuma objeo  digna de mrito. Tudo foi
desencadeado por Brukeval, logo por quem, e todos sabem qual  o problema
dele - afirmou a Primeira. - E Marona s estava tentando causar confuso 
porque os Lanzadonii so aparentados de Jondalar, e ela ainda quer se 
vingar dele e de qualquer um  sua volta.
        - Essa mulher parece se dedicar ao ofcio de alimentar rancores - 
salientou Proleva. - Ela precisa de algo para fazer. Talvez, se tivesse um 
filho, isso lhe desse alguma outra coisa em que pensar.
        - Eu no gostaria de v-la como a me de nenhum filho - comentou 
Salova
        - Talvez Doni concorde com voc - props Ramara. - Pelo que sei ela 
nunca foi Abenoada.
        - Ela no  sua parente, Ramara? Vocs duas tm o mesmo cabelo 
louro claro - insinuou Folara.
        -  uma prima distante - concedeu Ramara.
        - Acho que Proleva tem razo - refletiu Marthona. - Marona precisa 
de  algo para fazer, mas isso no significa que tenha que ter um filho. Ela 
precisa aprender algum tipo de ofcio, algo a que se dedicar, para ser til, e 
afastar o seu pensamento da idia de causar problemas para as pessoas, s 
porque a sua vida no veio a ser como ela queria. Eu acho que as pessoas 
deviam ter algum ofcio ou uma habilidade, algo que gostem de fazer, se 
sintam naturalmente atradas, e faam bem. Se ela no fizer isso, 
simplesmente continuar a criar confuso para atrair ateno.
        - Talvez isso no seja o suficiente - presumiu Solaban. - Laramar tem 
uma habilidade, pela qual  reconhecido e at mesmo admirado. Ele faz uma 
boa barma, mas cria todo tipo de problema. Ele apoiou Brukeval contra 
Joplaya e Echozar, e tambm obteve ateno por isso. Eu o ouvi dizer, para 
algumas pessoas da Quinta Caverna, que o lar de Jondalar no devia estar 
mais entre os Primeiros porque ele se acasalou com uma estrangeira, e ela 
tem o menor nvel social. Acho que ainda se ressente pelo fato de Ayla no 
ter ficado atrs, no enterro de Shevonar. Ele finge ignorar isso, mas 
acredito que no gosta de ser o ltimo.
        - Ento, ele devia tomar uma providncia - irritou-se Proleva -, como 
cuidar das crianas da lareira dele!
        - O lar de Jondalar encontra-se exatamente onde deveria estar - 
afirmou Marthona, com um leve sorriso satisfeito. - Foi uma situao 
excepcional que surgiu, e tudo foi decidido pelos lderes e a zelandonia, 
como devia ser feito. Algum como Laramar no tem o direito de falar nada.
        - Talvez seja a coisa certa a fazer - anunciou a Primeira. -Talvez eu 
deva argumentar  com Dalanar, para fazermos uma reunio da zelandonia 
com os lderes, e tratar do problema surgido com Joplaya e Echozar, tratar 
dele abertamente e dar s pessoas que se opem uma oportunidade de 
expressar os seus sentimentos.
        - Essa pode ser uma chance de Jondalar e Ayla falarem sobre a 
experincia deles com os cabeas-chatas... o Cl, como ela os chama- 
refletiu Joharran. -Ando mesmo esperando uma chance de conversar com os 
outros lderes a respeito disso.
        - Talvez possamos ir l agora e falar com ele - props a Zelandoni. - 
Eu preciso voltar para o alojamento. Estou com um problema. Algum da 
zelandonia anda passando informaes que devem permanecer secretas. 
Algumas so informaes muito pessoais sobre determinadas pessoas, e 
outras tratam de conhecimentos que no devem ser comentados fora do 
mbito da zelandonia. Preciso descobrir quem , ou pelo menos colocar um 
fim nisso.
        Ayla estivera ouvindo muito atentamente tudo o que foi dito, e ficou 
meditando a respeito, depois que todos se levantaram e seguiram em 
diferentes direes. O povo Zelandonii a fazia pensar em um rio. Se, por um 
lado, a superfcie parecia lisa e calma, podia haver muitas correntes 
submersas em vrios nveis di ferentes.
        Pensou que Marthona e a Zelandoni talvez soubessem mais do que a 
maioria sobre o que se passava abaixo da superficie, mas achava que nem 
mesmo elas deviam saber de tudo, sequer de uma sobre a outra. Ela havia 
notado certas expresses, posturas, tons de voz, que lhe forneceram pistas 
sobre o que poderia haver na profundidade, mas, como no problema da 
Zelandoni com algum contando as coisas, mesmo aps esse problema ser 
resolvido, ainda haveria algo mais. As correntes profundas mudariam de 
curso e deslizariam, criando pequenas marolas na superfcie e redemoinhos 
nas margens. Enquanto fossem gente, isso nunca chegaria a um final.
        - Vou dar uma olhada nos cavalos - disse ela a Jondalar. - Voc vem, 
ou tem algo mais para fazer?
        - Vou com voc, mas espere um momento - pediu Jondalar. - Quero 
pegar o arremessador e as lanas que estou fazendo para Lanidar. Estou 
quase acabando, e gostaria de test-las, mas sou grande demais. Queria que 
fizesse isso para mim. Sei que as lanas so pequenas para voc, mas talvez 
possa sentir se elas vo servir para ele.
        - Tenho certeza de que esto boas, mas vou experiment-las - 
aquiesceu.
        - Quem vai saber ao certo ser o prprio Lanidar, e s conseguir 
saber disso depois que desenvolver alguma habilidade. Elas lhe daro algo 
com que praticar, e estou certa de que ele ficar muito contente. Tenho a 
impresso de que vai fazer esse menino muito feliz.
        O sol aproximava-se de seu znite, quando comearam a juntar suas 
coisas. Eles tinham escovado os cavalos, e Ayla os examinara 
cuidadosamente. Quando a estao esquentava, insetos voadores 
costumavam tentar pr ovos nos cantos quentes midos dos olhos de vrios 
ruminantes, veados e cavalos em particular. Iza ensinara a Ayla sobre o 
lquido claro da planta branco-azulada que era como algo morto crescia nas 
matas sombreadas. Esta extraia o seu alimento da madeira podre, j que - 
carecia da ativa clorofila verde das outras plantas, e sua superfcie 
encerada tornava-se preta quando tocada, mas no havia tratamento melhor 
para olhos irritados o inflamados do que o frio lquido que secretava de um 
talo quebrado.
        Ayla havia experimentado o pequeno arremessador de lanas e 
conclura - funcionaria muito bem para Lanidar. Jondalar terminara as 
lanas em que esta trabalhando, mas resolveu fazer mais algumas, depois de 
ver um pequeno renque de jovens amieiros de troncos esguios, com o 
dimetro adequado para pequenas lanas. Cortou vrios. 
        Ayla no sabia por que desejou ir  mata perto do rio mais alm do 
cercado dos cavalos.
        - Aonde voc vai, Ayla? - quis saber Jondalar. - Temos que voltar. 
Preciso ir ao acampamento principal esta tarde.
        - No demoro - prometeu.
        Jondalar pde v-la movimentando-se por entre a divisria de rvores, 
e ficou imaginando se ela tinha visto alguma coisa se mexendo por l. Talvez
algo que pudesse ser um perigo para os cavalos. Estava pensando que deveria 
ir com ela, quando a ouviu soltar um grito estridente.
        - No! Oh, no!
        O homem correu na direo do som, o mais depressa que as suas 
pernas conseguiam, arremessou-se atravs de arbustos e machucou-se ao 
bater em uma rvore. Quando a alcanou, ele tambm soltou um grito de 
negao e caiu de joelhos.
        Na lama da margem do pequeno curso de gua, Jondalar curvou-se 
sobre Ayla. Ela estava praticamente deitada ao lado do enorme lobo, cado a 
seu lado, segurando a cabea dele em suas mos. Uma orelha rasgada 
sangrando manchava as costas de suas mos. O lobo tentou lamber-lhe o 
rosto.
        -  Lobo! Est ferido! - lamentou-se Ayla. As lgrimas escorriam-lhe 
no rosto, deixando rastros brancos em um borro de lama em sua bochecha.
        - O que acha que aconteceu com ele? - perguntou Jondalar.
        - No sei, mas precisamos ajud-lo - disse ela, sentando-se. - 
Precisamos fazer uma maca para lev-lo para o acampamento. - Lobo tentou 
levantar-se quando ela levantou, mas caiu de volta.
        - Fique com ele, Ayla. Vou fazer uma maca com as hastes de lana que 
acabei de cortar - orientou Jondalar.
        Quando ela e Jondalar levaram o lobo, vrias pessoas correram, 
tentando ajudar. Isso fez Ayla perceber quanta gente tinha passado a 
gostar dele.
        - Vou providenciar um lugar para ele no alojamento - avisou Marthona,
seguindo na frente.
        - H algo que eu possa fazer? - indagou Joharran. Ele havia acabado 
de retornar ao acampamento.
        - Pode ir ver se a Zelandoni tem algum confrei que sobrou dos 
ferimentos de Matagan, e tambm ptalas de cravo-de-defunto. Creio que 
Lobo andou brigando com outros lobos, e ferimentos de mordidas podem ser 
graves. Eles precisam de remdio forte, e devem ser muito bem limpos - 
explicou Ayla.
        - Vai precisar de gua fervente? - perguntou Willamar. Ela confirmou. 
        - Vou acender uma fogueira. Ainda bem que trouxemos uma carga de 
lenha.
        Quando Joharran retornou do alojamento da zelandonia, Folara e 
Proleva o acompanhavam, e a Zelandoni mandou avisar que estava vindo. Em 
pouco tempo, toda a Reunio de Vero soube que o lobo de Ayla estava 
ferido, e a maioria das pessoas ficou preocupada.
        Jondalar ficou com Ayla, enquanto ela examinava o lobo, e soube, pela 
sua expresso, que os ferimentos dele eram srios. Ela tinha certeza de que 
Lobo fora atacado por uma alcatia inteira, e estava surpresa por ele ainda 
estar vivo. Pediu a Proleva um pedao de carne de auroque, raspado do jeito 
que ela fazia para alimentar um beb, que depois foi misturada com datura, 
e enfiada pela sua garganta, para ajudar o animal a relaxar e fazer com que 
ele dormisse.
        Jondalar, podia pegar um pedao da pele do feto de novilho de um 
auroque que abati? Preciso de pele macia e absorvente para limpar os 
ferimentos dele - pediu Ayla.
        Marthona observou-a colocar razes e ps em vrias tigelas com gua 
quente, e depois entregou-lhe um material.
        - A Zelandoni gosta de usar isto - disse ela.
        Ayla olhou para aquilo. O material macio no era feito de pele de 
animal. Parecia mais com o tecido habilmente urdido da comprida tnica que 
Marthona lhe dera. Ela o mergulhou na gua de uma das tigelas. O tecido a 
absorveu rapidamente.
        A Zelandoni chegou no instante em que Jondalar e Joharran ajudavam 
Ayla a virar o lobo, para que ela pudesse cuidar do outro lado do corpo. A 
Primeira ajudou a limpar um ferimento particularmente grave, e depois Ayla
surpreendeu quase todos, quando enfiou um fino pedao de tendo no
buraco do seu puxador de linha e o usou para costurar o pior dos ferimentos,
dando ns em alguns lugares estratgicos. Ela havia mostrado o engenhoso 
instrumento a vrias pessoas, mas ningum jamais o vira em uso para 
costurar pele viva. Ayla coseu inclusive a orelha rasgada, embora esta ainda 
ficasse com uma borda dentada.
        - Ento foi isso que voc fez comigo - comentou Jondalar, com um
sorriso.
        - Parece que isso ajuda a fechar o ferimento, para que ele sare 
adequadamente - observou a Zelandoni. - Foi algo que tambm aprendeu com 
a sua curandeira do Cl? Juntar pele com uma costura?
        - No. Iza nunca fez isso. No Cl, no costuravam exatamente, mas 
davam ns para juntar coisas. Usavam aquele ossinho pontudo, que fica na 
parte de baixo da pata dianteira de um veado, como uma espcie de sovela, 
para fazer buracos na pele, e utilizavam tendes, depois que ficavam 
parcialmente secos e duros nas pontas, para enfiar nos buracos, e em 
seguida os amarravam com ns. Tambm faziam, desse modo, recipientes 
com casca de btula. Foi depois que os lados das feridas de Jondalar 
escorregavam e ficavam abertas mesmo quando tentei amarr-las bem 
apertado, que imaginei fazer alguns ns para manter a pele e os msculos 
dele no lugar certo. Ento, experimentei fazer isso. Pareceu funcionar, mas 
eu no sabia ao certo quando deveria retir- los. No queria que os 
ferimentos se abrissem, mas tambm no queria que os ns ficassem na pele 
dele, depois que sarasse. Eu devia ter esperado um pouco antes de, 
finalmente, cort-los fora. Deve ter dodo mais do que devia, quando os 
retirei - explanou Ayla.
        - Quer dizer que foi a primeira vez que voc costurou a pele de 
algum? - surpreendeu-se Jondalar. - No sabia se ia dar certo, mas 
experimentou em mim - ele deu uma gargalhada. - Ainda bem que voc fez 
isso. Se no fosse pelas cicatrizes, mal se notaria que fui atacado por um 
leo.
        - Ento foi voc quem inventou essa tcnica de costurar ferimentos - 
atestou a Zelandoni. - S algum muito habilidoso e com uma aptido natural 
para a cura e a medicina pensaria em fazer algo assim. Ayla, voc pertence  
zelandonia
        Ayla pareceu infeliz.
        - Mas eu no quero ser da zelandonia - afirmou. - Eu... Eu agradeo. 
Isto ... por favor, no me entenda mal, eu me sinto honrada, mas quero 
apenas ser me e ser acasalada com Jolandar.
        Ela evitou olhar para a donier.
        - Por favor, no me entenda mal - replicou a mulher. - No se trata de 
uma oferta precipitada, feita de modo irrefletido, sem pensar, como um 
convite informal para uma refeio. Eu disse que voc pertence  zelandonia. 
Tenho pensado nisso h muito tempo. Uma pessoa com a sua habilidade 
precisa estar associada a outras que possuem um nvel semelhante de 
conhecimento. Voc gosta de curar, no  mesmo?
        - Eu sou uma curandeira. No posso mudar isso - confirmou Ayla.
        - Claro que , mas no  essa a questo - alegou a donier. - Mas, entre 
os Zelandonii, somente aqueles que pertencem  zelandonia so curadores. 
As pessoas no se sentem  vontade com um curador que no o seja. Quando 
houvesse a necessidade de um curador, voc no seria chamada, se no 
pertencesse  zelandonia. No poderia ser uma curandeira, como voc chama. 
Por que resiste  zelandonia?
        - Voc falou sobre tudo o que precisa ser aprendido, e o tempo que 
isso exige. Como poderei ser uma boa parceira para Jondalar e cuidar dos 
meus filhos, se terei que passar tanto tempo aprendendo a ser uma 
Zelandoni? - questionou Ayla.
        - Existem Aqueles Que Servem  Me que so acasalados e tm 
filhos. Voc mesma me contou a respeito de uma, do outro lado da geleira, 
com parceiro e vrios filhos, e conheceu a Zelandoni da Segunda Caverna - 
lembrou a mulher. - E h outros.
        - Mas no muitos - contraps Ayla.
        A Primeira observou atentamente a jovem mulher, e convenceu-se de 
que havia mais do que Ayla estava dizendo. Os motivos dela no eram 
condizentes com o seu carter. Ela era uma excelente curadora, curiosa, 
aprendia depressa, e, obviamente, gostava daquilo. No descuidaria do 
parceiro e dos filhos, e, se houvesse ocasies em que precisasse ficar 
ausente, sempre haveria algum para ajud-la. No mnimo, era muito 
atenciosa. Bastava observar o tempo que dedicava aos seus animais, mas 
sempre costumava estar disponvel e disposta a ajudar quando alguma coisa 
precisava ser feita, e fazia mais do que era necessrio.
        A Primeira ficara impressionada com o modo pelo qual Ayla envolveu 
todo mundo para ajudar Lanoga a cuidar da irm mais nova e das outras 
crianas. E a maneira como ajudou o menino com o brao deformado. Eram 
esses os tipos de coisas que uma boa Zelandoni fazia. De um jeito natural, 
ela havia assumido esse papel. A donier decidiu que ia descobrir o 
verdadeiro motivo dela, pois, fosse como fosse, a Primeira estava 
determinada a tornar Ayla Uma Que Serve  Grande Me Terra. Ela tinha 
de ser acolhida, pois representaria uma ameaa grande demais  
estabilidade ter fora da influncia da zelandonia algum com o seu 
conhecimento e suas habilidades inatas.
        As pessoas riram, ao verem presas, no corpo do lobo, as ataduras 
feitas com o material fibroso de Marthona e peles macias, quando este 
atravessou o acampamento  principal ao lado de Ayla. Quase parecia que ele 
estava vestido com roupas humanas, e assemelhava-se a uma caricatura de 
um terrvel e selvagem devorador de homens. Muitas pararam para 
perguntar como ele se sentia, ou para dar a opinio de que estava com uma 
boa aparncia. Mas o lobo continuou grudado em Ayla. Ficou to triste, na 
primeira vez em que ela o deixou ficar para trs, que lanou um uivo, em 
seguida se soltou e a encontrou. Alguns Contadores de Histrias j tinham 
comeado a inventar narrativas sobre o lobo que amava a mulher.
        Ayla precisou trein-lo novamente para permanecer onde ela mandava. 
Finalmente, Lobo comeou a se sentir mais  vontade ao ficar com Jondalar, 
Marthona ou Folara, em compensao tornou-se defensivo em relao ao 
territrio da Nona Caverna, e ela precisava cont-lo para no ameaar os 
visitantes, pessoas, principalmente as mais chegadas a ela, espantavam-se 
com a pacincia aparentemente ilimitada de Ayla com o animal, mas tambm 
viam o resultado. Muitas tinham pensado que seria interessante possuir um 
lobo que obedecesse ordens, mas no estavam certas de que valeria o tempo 
e o esforo gastos. Isso porm, os fez entender que o controle dela sobre 
os seus animais o se tratava de mgica.
        Ayla comeava a se descontrair, acreditando que o lobo, finalmente, 
voltava se sentir  vontade com os visitantes, at que um jovem - ela o ouviu 
se apresentar como Palidar da Dcima Primeira Caverna - foi visitar Tivonan, 
o aprendriz de comerciante de Willamar. Quando Lobo se aproximou dele, 
comeou a rosnar e a mostrar os caninos, como uma verdadeira ameaa. Ayla 
precisou cont-lo, para mant-lo deitado, mas, mesmo assim, continuou 
rosnando baixinho. O rapaz recuou, amedrontado, e ela se desculpou 
demoradamente. Willamar, Tivonan vrios outros, que se encontravam por 
perto, observando, ficaram surpresos.
        - No sei o que h de errado com ele. Pensei que tinha deixado de ser 
defensivo em relao ao seu territrio. Lobo no costumava se comportar 
desse modo mas teve alguns problemas e ainda tenta super-los - justificou 
Ayla. 
        - Eu soube que ele se feriu - comentou o rapaz.
        Ento ela percebeu que ele usava um colar com dentes de lobo e
carregava uma bolsa decorada com pele de lobo.
        - Posso perguntar onde voc conseguiu essa pele de lobo? - quis saber
ela.
        - Bem... muita gente acha que cacei um lobo, mas vou lhe contar a 
verdade. Eu a achei. Alis, encontrei dois lobos, e eles devem ter 
enfrentado uma briga e tanto, pois estavam bem estraalhados. Um deles 
era uma fmea preta, e o outro, um macho, um lobo cinzento comum. 
Primeiro, peguei os dentes, e depois resolvi aproveitar partes das peles.
        - E colocou a do lobo cinzento na sua bolsa - observou Ayla. - Creio 
que j entendi. Lobo deve ter participado dessa luta, e foi assim que se 
feriu. Sei que ele tinha conseguido uma amiga, talvez a loba preta. Ele 
muito jovem, e acho que ainda no estava acasalando. Lobo no deve contar
dois anos, mas os dois estavam se conhecendo. Ela era a fmea de nvel mais
baixo da alcatia local, ou uma loba solitria de uma outra alcatia.
        - Como voc sabe disso? - surpreendeu-se Tivonan. Vrias pessoas j
estavam reunidas em volta deles, escutando.
        - Lobos gostam que lobos se paream com lobos. Creio que eles so 
capazes de entender melhor as expresses uns dos outros, se tiverem a cor 
normal dos lobos. Os que fogem da cor original, todos negros, ou todos 
brancos, ou pintados, no so to bem aceitos.., exceto, segundo me 
disseram alguns amigos Mamuti, no caso de haver muita neve durante todo 
o ano, quando os lobos brancos so mais normais. Mas o diferente, como 
essa loba negra, costuma ficar no nvel mais baixo da alcatia; portanto, ela 
deve ter abandonado o grupo e se tornado uma loba solitria. Lobos
solitrios normalmente circulam nas margens entre os territrios de outros 
lobos,  procura de um lugar s seu, e, se encontram outro lobo solitrio, 
talvez tentem criar a sua prpria alcatia. O meu palpite  que os lobos 
desta regio estavam defendendo o seu territrio contra os dois novos - 
aventou Ayla. - E, apesar de grande, Lobo estava em desvantagem. Ele 
conhece gente. No foi criado com outros lobos. Conhece algumas coisas, s 
pelo fato de ser um lobo, mas nunca teve irmos e irms, nem tias ou tios, ou 
outros lobos para lhe ensinar o que uns aprendem com os outros.
        - Como voc sabe disso tudo? - admirou-se Palidar.
        - Passei muitos anos observando lobos. Quando estava aprendendo a 
caar, s caava carnvoros, e no animais usados para alimentao. Eu 
gostaria de um favor seu, Palidar - pediu Ayla. - Posso fazer uma troca com 
voc por essa pele de lobo? Acho que o motivo por que Lobo est rosnando e 
ameaando  porque sente em voc o cheiro do lobo com quem ele lutou, pelo 
menos um deles, e provavelmente deve t-lo matado. Mas tambm mataram 
a amiga dele e quase o mataram. Pode ser perigoso para voc usar essa pele. 
Nunca deve vir aqui com ela, pois no sei o que Lobo  capaz de fazer.
        - Que tal eu simplesmente lhe dar a pele? - props o rapaz. -  apenas 
uma pele que est costurada grosseiramente na minha bolsa. No quero 
acabar como parte de uma cano ou histria sobre o homem que foi 
atacado pelo lobo que amava a mulher. Posso ficar com os dentes? Eles tm 
algum valor.
        - Sim, fique com os dentes, mas sugiro que os deixe de molho por 
alguns dias num ch forte no muito escuro. E pode me mostrar onde 
encontrou os lobos?
        Depois que o rapaz entregou a Ayla o pedao ofensivo de pele, ela o 
deu a Lobo. Ele o atacou, pisoteando-o, agarrou-o com os dentes e o sacudiu, 
tentando rasg-lo. Teria sido cmico, se as pessoas que observavam no 
soubessem o quanto ele tinha ficado gravemente ferido, e que sua amiga e 
parceira em potencial fora morta. Em vez disso, identificaram-se com ele, 
atribuindo-lhe sentimentos que haviam vivenciado em uma situao 
semelhante.
        - Ainda bem que eu no estou mais usando isso - tranqilizou-se 
Palidar.
        Ele e Ayla combinaram ir mais tarde ao local onde ele havia 
encontrado os lobos, pois ambos tinham outros planos naquele momento Ela 
no sabia direito o que poderia encontrar, visto que carniceiros j deviam 
ter dado um fim em tudo, mas gostaria de saber quanto Lobo viajou, por 
mais ferido que estivesse, encontr-la. Depois que Palidar se foi, ela pensou 
nas canes e nas histrias ele havia mencionado sobre o lobo que amava a 
mulher.
        Ela tinha visitado o acampamento dos Contadores de Histrias e 
Msicos. Tratava-se de um lugar animado e colorido, e at mesmo as roupas 
deles pareciam ter matizes mais vivos. No eram todos de um s lugar, no 
tinham um abrigo de pedra prprio, apenas suas tendas e alojamentos de 
viagem. Viajavam de um lugar para outro, permanecendo um tempo numa 
Caverna, e depois em outras, mas era bvio que todos se conheciam e tinham 
afinidade. No seu territrio, sempre pareciam ser crianas. Como faziam 
durante o resto do ano, visitavam as vrias Cavernas, mas nos seus 
acampamentos da Reunio de Vero, em vez de nos abrigos. Tambm faziam 
apresentaes gerais, na rea mais elevada, onde foram realizados os 
Matrimoniais, com as pessoas assistindo do aclive.
        Ayla sabia que os Contadores de Histrias tinham comeado a narrar
histria sobre os animais da Nona Caverna. Algumas eram sobre a utilidade 
que os animal podiam ter, como os cavalos em transportar cargas pesadas, 
ou o fato de Lobo ajuda-la a caar, levantando a caa, como fez com a ave, 
durante a demonstrao arremessador de lanas. Havia uma nova histria 
sobre como ele a ajudou a encontrar a nova caverna, mas as histrias dos 
Contadores tendiam a conter algum elemento sobrenatural ou mgico. Em 
suas histrias, Lobo caava no apenas porque ela o havia treinado, mas 
porque os dois tinham um entendimento especial, o que era verdade, pois 
tinham mesmo, mas no era por isso que caavam juntos. A histria  do lobo 
que amava a mulher j se tornara uma narrativa sobre um homem que se 
transformou em lobo, para visitar o mundo dos espritos, e depois se 
esqueceu de se transformar novamente em homem, ao retornar a este 
mundo.
        As histrias j tinham sido contadas e recontadas muitas vezes, e 
estavam a caminho de ser incorporadas  tradio oral e s lendas do povo. 
Alguns Contadores de Histrias inventavam outros contos sobre animais 
criados pelas pessoas, ou s vezes os invertiam, e as pessoas  que eram 
criadas por animais. Estas, por vezes, se tornavam espritos de animais que 
ajudavam as pessoas. E, com toda a probabilidade, as histrias foram 
transmitidas atravs de geraes, mantendo viva a idia 
de que animais podiam ser treinados, domesticados ou criados, e no ape nas 
caados.
        - Lobo ficar bem com Folara - garantiu Jondalar. - Ele est se dando 
bem com as visitas, e os visitantes esto sendo mais cautelosos, cuidando 
para avisar algum da Nona Caverna de que eles esto vindo. Lobo no vai 
atacar algum de repente, e sabemos por que foi to agressivo com Palidar. 
Ele passou por maus momentos, e isso deve t-lo mudado, mas, basicamente, 
continua sendo o mesmo Lobo que voc amou e treinou desde que era um 
filhotinho. E no acho que a gente deva lev-lo para a reunio. Voc sabe 
como as pessoas ficam empolgadas, e isso pode gerar alguma animosidade. 
Lobo no vai gostar de ver pessoas gritando ou agitadas, principalmente se 
voc estiver por perto e ele achar que est sendo ameaada.
        - Quem estar l? - quis saber Ayla.
        - Grande parte dos lderes e da zelandonia, e as pessoas que se 
manifestaram contra Echozar - informou Jondalar.
        - Isso quer dizer Brukeval, Laramar e Marona - frisou Ayla. - Nenhum 
deles  amigo.
        - Pior ainda - retrucou Jondalar. - O Zelandoni da Quinta, e 
Madroman, o seu aclito, que certamente no  o meu melhor amigo, tambm 
estaro presentes. E Denanna da Vigsima Nona Caverna, se bem que eu no 
saiba o motivo da queixa dela.
        - No creio que ela goste da idia de animais viverem perto das 
pessoas. Lembra quando paramos l, a caminho daqui? Ela no quis que os 
animais subissem para o abrigo dela - recordou Ayla -, embora eu tambm 
tenha me contentado em acampar no campo abaixo.
        Ao chegarem ao alojamento da zelandonia, a cortina foi aberta antes 
que eles pudessem anunciar a sua presena, e foram conduzidos para o 
interior. Um pensamento passageiro levou Ayla a se perguntar como sempre 
sabiam quando ela estava chegando, fosse esperada ou no.
        - J conhece o novo membro da Nona Caverna? - perguntou a 
Zelandoni. Ela se dirigiu  mulher de aparncia agradvel com um sorriso 
conciliador, mas em quem Ayla sentiu uma fora interior.
        - Eu estive na apresentao,  claro, e no Matrimonial, mas no a 
conhecia pessoalmente - disse a mulher.
        - Esta  Ayla da Nona Caverna dos Zelandonii, acasalada com Jondalar 
da Nona Caverna dos Zelandonii, Filho de Marthona, outrora Lder da Nona 
Caverna, ex-Ayla dos Mamuti, Membro do Acampamento do Leo, Filha do 
Lar do Mamute, Escolhida pelo Esprito do Leo das Cavernas e Protegida 
pelo Urso das Cavernas - anunciou a Zelandoni, fazendo a apresentao 
formal.
        - Ayla, esta  a Zelandoni da Vigsima Nona Caverna.
        Ela saudou a mulher, mas surpreendeu-se ao ouvir uma apresentao 
formal to curta. Tratava-se, porm, do necessrio. Como Zelandoni, ela 
abrira mo sua identidade pessoal e tornara-se a personificao da Vigsima 
Nona Caverna dos Zelandonii, embora, se o desejasse, a apresentao 
pudesse ter includo a pessoa que ela fora anteriormente, com a referncia 
ao seu nome original e a todos os seus laos anteriores. Na maioria das 
vezes, isso parecia desnecessrio, uma vez que ela no era mais essa pessoa.
        Ayla pensou em sua nova aquisio de nomes e laos familiares. Gostou 
do modo como a Zelandoni a apresentou. Ela se tornara Ayla dos Zelandonii 
e parceira de Jondalar, e isso vinha em primeiro lugar, mas tinha sido Ayla 
dos Mamut e no perdera a ligao com eles, um vnculo que significava 
muito. E ainda "Escolhida pelo Esprito do Leo das cavernas e Protegida 
pelo Urso das Cavernas". Agradava-lhe o fato de at mesmo o seu totem e 
suas ligaes com o CL terem sido mantdos.
        Quando chegou, da primeira vez, e ouviu as longas recitaes de 
nomes e laos das apresentaes formais dos Zelandoni, Ayla ps-se a 
imaginar e s consigo mesma, por que eles faziam essas apresentaes to 
extensas e quase interminveis, repletas de nomes e relaes 
desconhecidos. Por que no simplificar e dizer apenas os nomes pelos quais 
as pessoas costumavam ser chamadas - Jondalar, Marthona, Proleva. Ela, 
porm, ficara to feliz ao serem mencionadas as suas relaes familiares, 
que agora se alegrava com o modo de os Zelandonii incluiram referncias do 
passado. Outrora, tendo por companhia apenas uma gua e um leo, ela se 
imaginou Ayla de Nenhum Povo. Agora, tinha laos familiares com muita 
gente, estava acasalada e esperando um filho.
        Outro pensamento fugaz lhe ocorreu, ao voltar a ateno para as
pessoas presentes  reunio. Gostaria de poder incluir "Me de Durc do Cl",
em seus nomes e laos, mas, ao levar em conta o motivo daquela reunio e 
lembrando a noite do seu acasalamento e a confuso criada com a presena 
de Echozar, duvidou se algum dia poderia contar aos Zelandonii a respeito 
de seu filho Durc.
        Quando a Primeira se deslocou para o centro do alojamento, logo fez-
se silncio.
        - Vou iniciar afirmando que esta reunio no mudar nada. Joplaya e 
Echozar esto acasalados, e somente eles podem mudar qualquer coisa. Mas 
tem havido uma furtiva onda de boatos maldosos e uma insatisfao 
generalizada em relao a eles, o que acho vergonhoso. Isso me deixa menos 
orgulhosa de ser a Zelandoni de um povo capaz de ser impiedoso com dois 
jovens que esto apenas comeando sua vida em comum. Dalanar, o homem 
da lareira de Joplaya, e eu decidimos tratar abertamente deste assunto. Se 
algum tem uma queixa sincera, est na hora de apresent-la - declarou a 
donier.
        Houve alguns sons de ps se arrastando e as pessoas evitaram fazer 
contato visual umas com as outras. Ficou claro que havia um pouco de 
constrangimento, principalmente por parte daqueles que tinham ouvido, com 
sofreguido, e talvez at mesmo passado adiante, algumas fofocas maldosas. 
Os prprios lideres profanos e espirituais no eram refratrios a essas 
imperfeies humanas. Ningum parecia querer abordar a questo, como se 
fosse ridculo demais at mesmo referir-se a ela, e a Primeira preparou-se 
para introduzir o outro motivo da reunio.
        Laramar viu que ia escapulir a ocasio que andara incitando, e ele 
tinha sido o principal instigador do descontentamento.
        - Mas  verdade que a me de Echozar era uma cabea-chata, no  
mesmo? - questionou ele.
        O olhar que a Primeira lhe lanou foi uma combinao de desdm e 
irritao.
        - Ele nunca negou isso - retrucou ela.
        - Isso significa que ele  um filho de espritos misturados, e um filho 
de espritos misturados  uma abominao. Isso faz dele uma abominao - 
teimou Laramar.
        - Quem lhe disse que um filho de espritos misturados  uma 
abominao? - rebateu a Zelandoni Que Era A Primeira.
Laramar franziu a testa e olhou em volta.
        - Todo mundo sabe disso.
        - Como  que todo mundo sabe? - indagou a Primeira.
        - Porque as pessoas dizem - falou.
        - Que pessoas dizem? - pressionou ela.
        - Todo mundo - afirmou.
        - Se todo mundo disser que o sol no nascer amanh, isso vai 
acontecer? - argumentou a donier.
        - Creio que eu me lembro de ter ouvido isso da zelandonia - falou um 
dos presentes.
        A Primeira olhou em volta, para ver quem tinha falado; ela havia 
reconhecido  a voz.
        - Voc est dizendo que  um dos ensinamentos da zelandonia que um 
filho de espritos misturados  uma abominao, Marona?
        - Bem, estou - confirmou, desafiadora. - Tenho certeza de que ouvi 
isso da zelandonia.
        - Marona, voc sabia que mesmo uma mulher bonita pode parecer feia 
quando mente? - ressaltou a Primeira.
        Marona enrubesceu e fitou a Primeira com um olhar maldoso. Vrias 
pessoas viraram-se para olh-la, a fim de ver se o que a Primeira disse era 
verdade, e algumas concordaram que a expresso rancorosa no rosto da 
jovem mulher toldava a sua reconhecida beleza. Marona desviou o olhar, mas 
murmurou a meia-voz.
        - Voc entende mesmo disso, sua velha gorda!
        Vrias pessoas prximas ouviram Marona e ficaram com a respirao 
presa diante do insulto  Primeira Entre Aqueles Que Serviam  Grande 
Me Terra Ayla, que estava do outro lado do amplo aposento, tambm ficou 
com a respio suspensa, pois a sua audio era aguada de uma maneira 
quase sobrenatural. Alguns outros tinham igualmente ouvido Marona, entre 
eles a Primeira, pois sua audio tambm era bastante boa.
        - Olhe bem para esta velha gorda, Marona, e lembre-se de que, como 
voc eu tambm j fui considerada a mulher mais bonita de uma Reunio de 
Vero. Beleza  um Dom muito efmero. Use-o com sabedoria, enquanto o 
tem, minha  jovem, porque, quando ele se for, voc ser muito infeliz se no 
tiver algo mais. Eu nunca lamentei a perda da beleza, pois  muito mais 
satisfatrio o que ganhei em conhecimento e experincia - disse Aquela Que 
Era A Primeira. E a seguir, dirigindo-se ao resto do grupo:
        - Marona afirmou e Laramar subentendeu que foi ensinado pela 
zelanonia que so abominaes os filhos nascidos do resultado da mistura do 
esprito de um de ns com um daqueles a quem chamamos de cabeas-chatas. 
Nos ltimos dias eu me mantive em profunda meditao, e relembrei todas 
as Histrias e Lendas dos Antigos, e as tradies orais conhecidas somente 
pela zelandonia, para tentar descubrir de onde surgiu essa idia, e Laramar 
est certo em um aspecto. Trata-se de algo que "todo mundo" acha que sabe. 
        - Ela fez uma pausa e olhou em volta para os espectadores. - Essa 
idia nunca foi um ensinamento da zelandonia.
        Os membros da zelandonia tinham ficado em silncio, quando viram a 
Primeira meditar em solido, com a placa do peito virada ao contrrio, para 
que os entalhes e as decoraes ficassem escondidos, mostrando apenas o 
lado liso, o que significava que ela no queria ser interrompida. Agora, eles 
sabiam por qu.
        Seguiram-se conversas paralelas. "Mas eles so animais", "Nem 
mesmo so humanos", "Eles so aparentados com os ursos". 
        A Zelandoni da Dcima Quarta Caverna manifestou-se.
        - Tal mistura consterna a Me.
        - Eles so uma abominao - garantiu Denanna, a lder da Vigsima 
Nona Caverna. - Ns sempre soubemos disso.
        Madroman cochichou com o Zelandoni da Quinta Caverna:
        - Denanna tem razo. Eles so meio humanos, meio animais.
        A Primeira esperou at tudo se aquietar.
        - Pensem onde foi que ouviram essas coisas. Tentem lembrar, mesmo 
no mbito da tradio oral da zelandonia, ou das Histrias e Lendas dos 
Antigos dos Zelandonii, onde  mencionado especificamente que filhos de 
espritos mistura dos so abominaes, ou mesmo que os cabeas-chatas so 
animais. No estou me referindo a insinuaes ou sugestes, mas a 
referncias especficas - pediu.
        Ela deixou que pensassem um pouco, e ento continuou:
        - Na verdade, se pensarem nisso claramente, concluiro que a Me 
nunca ficaria consternada, nem deseja que os vejamos como abominaes. 
Eles so filhos da Me, exatamente como ns. Afinal, quem escolhe o 
esprito de um homem para se misturar com o esprito da mulher? Isso no 
acontece freqentemente, pois no mantemos muito contato com cabeas-
chatas, mas, se a Me s vezes decide criar uma nova vida misturando o el 
de um cabea-chata com o el de um Zelandoni, trata-se de uma escolha 
Dela. No cabe ao Seus filhos depreciar essas criases. A Grande Me 
Terra decidiu cri-las, talvez por um motivo especial. Echozar no  uma 
abominao. Echozar nasceu de uma mulher, como todos ns. O fato de sua 
me ter sido uma mulher do Cl no o torna menos filho da Grande Me. Se 
ele e Joplaya escolheram um ao outro, ento Doni foi contentada, e tambm 
devemos fazer o mesmo.
        Seguiu-se outra comoo, mas a Primeira no ouviu qualquer 
contestao, e resolveu prosseguir:
        - O outro motivo desta reunio  que Joharran deseja falar sobre 
aqueles a quem chamamos de cabeas-chatas. Antes, porm, acho que vocs 
precisam saber mais sobre eles por algum que pode falar por experincia 
prpria. Ayla foi criada por aqueles que conhecemos por cabeas-chatas, 
mas que ela conhece como povo do Cl. Ayla, pode vir aqui e nos falar a 
respeito deles?
        Ayla levantou-se e caminhou na direo da Primeira. Seu estmago 
ficou embrulhado e a boca tinha a sensao de secura. Ela no estava 
acostumada a falar formalmente para um grupo de pessoas, e no sabia por 
onde comear; portanto, comeou por onde iniciavam as suas lembranas.
        - Eu tinha cinco anos, creio, o mais prximo que consigo me lembrar, 
quando perdi a famlia da qual nasci. No me lembro muito bem da maioria 
das coisas, mas acredito que foi um terremoto que a levou. s vezes, eu 
sonho com isso. Acho que vaguei sozinha por algum tempo, certamente sem 
saber aonde ir nem o que fazer. No sei por quanto tempo fiquei sozinha, 
at ser perseguida por um leo das cavernas. Creio que me escondi numa 
pequena caverna, muito pequena, pois o leo tentou alcanar l dentro para 
me pegar e arranhou a minha perna. Ainda tenho as cicatrizes, quatro linhas 
de sua pata na minha perna. A minha verdadeira lembrana mais antiga  a 
de abrir os olhos e ver Iza, uma mulher daqueles que vocs chamam de 
cabeas-chatas. Lembro de gritar, ao v-la. Sua reao foi me tomar em 
seus braos, at eu me calar.
        As pessoas ficaram imediatamente cativadas pela histria de uma 
rf a contar apenas cinco anos. Ayla explicou que o lar do cl que a 
encontrou fora destrudo pelo mesmo terremoto, e eles estavam procurando 
um novo, quando deram com ela. Contou que eles sabiam que ela no era do 
Cl, mas uma do Outros, a palavra que usavam para gente como ela, e 
prosseguiu dizendo que adotada pela curandeira do cl de Brun, e por Creb, 
o irmo dela, que era o grande mog-ur, algo como um Zelandoni.
        Com a continuidade da histria, Ayla esqueceu todo o nervosismo, e 
passou a falar naturalmente, com toda a emoo o sentimento genunos 
sobre a sua vida com o povo que chamava a si mesmo Cl do Urso das 
Cavernas.
        Ela nada ocultou, nem as dificuldades que teve com Broud, o filho da 
parceira de Brun, o lder, ou a alegria ao aprender curandeirismo com Iza. 
Contou de seu amor por Creb e Iza, e por Uba, a sua irm do Cl, e de sua 
curiosidade quando pegou a funda pela primeira vez. Narrou como aprendeu 
sozinha a us-la, e, anos depois, as conseqncias por t-lo feito. S hesitou 
quando a chegar o momento  de falar sobre o seu filho. Apesar de toda a 
lgica e da nobreza dos argumentos da Primeira a respeito de as pessoas do 
Cl tambm serem filhos da Me, pde perceber, pelas expresses e 
linguagem corporal de vrias pessoas, principalmente as que fizeram 
objees a Echozar se acasalar com Joplaya, que os seus sentimentos no 
haviam mudado. Tinham apenas decidido que, por enquanto era melhor 
guard-los para si mesmas. Concluiu, portanto, que era melhor evitar 
mencionar sobre seu filho.
        Ela contou que foi forada a deixar cl quando Broud se tornou lder, 
e, embora tentasse explicar o que significava uma maldio de morte, no 
achou que as pessoas tivessem entendido plenamente o verdadeiro poder de 
sua fora coercitiva. Essa coisa, literalmente, era a causa da morte de 
membros do Cl, se eles no tivessem para onde ir, e ningum, nem mesmo 
os seus entes mais queridos, podiam sequer admitir que eles existiam. 
Comentou apenas brevemente sobre a poca em que viveu no vale, mas falou 
mais detalhadamente sobre Rydag, o filho mestio que foi adotado por 
Nezzie, a parceira do chefe do Acampamento do Leo.
        - Diferente de Echozar, ele no tinha a fora de um homem do Cl, e 
era fraco internamente, mas, como algum do Cl, ele no conseguia emitir 
determinados sons.
        Eu ensinei a ele e a Nezzie, e depois ao resto do Acampamento do 
Leo, e a Jondalar, a se comunicarem com sinais das mos. Nezzie ficou 
muito contente na primeira vez em que Rydag a chamou de "mame" - 
encerrou Ayla.
        Em seguida, Jondalar adiantou-se e narrou a histria de como ele e o 
irmo Thonolan conheceram alguns homens do Cl, pouco depois de 
atravessarem o planalto glacial da regio montanhosa ao leste. A seguir, 
contou a histria engraada de quando pescou a metade de um peixe, pois 
teve que repartir a outra metade com um jovem do Cl. Tambm explicou as 
circunstncias que o levaram a passar algumas noites com Guban e Yorga, um 
casal do Cl, e "conversar" com eles na linguagem dos sinais que Ayla lhe 
ensinou.
        - Se h alguma coisa que aprendi em minha Jornada - declarou 
Jondalar -, foi que aqueles a quem sempre chamamos de cabeas-chatas so 
gente, pessoas inteligentes. No so mais animais do que vocs ou eu. Os 
modos deles podem ser diferentes, at mesmo a inteligncia deles pode ser 
diferente, mas no  menor, apenas diferente. H algumas coisas que 
conseguimos fazer, que eles no conseguem, mas tambm h coisas que eles 
conseguem fazer, que no conseguimos.
        A seguir, Joharran levantou-se e falou de suas preocupaes e de se 
elaborar novos meios de se lidar com eles. Finalmente, Willamar comentou a 
possibilidade de comerciar com eles. Depois, houve muitas perguntas, e a 
discusso se prolongou por um longo tempo. Foi uma revelao para a 
zelandoriia e para os lderes Zelandonii.
        Alguns acharam difcil de acreditar, mas a maioria ouviu com a mente 
aberta. Pareceu bvio que a histria contada por Ayla era verdadeira; nem 
mesmo o melhor Contador de Histrias seria capaz de imaginar uma 
narrativa to convincente. E ela havia mostrado o Cl como gente, apesar de 
alguns no quererem acreditar que eles eram humanos. Nada ficou resolvido, 
mas deu a todos algo em que pensar.
        A Primeira ento levantou-se para encerrar a reunio.
        - Creio que todos aprendemos algumas coisas importantes - declarou. 
- Agradeo a boa vontade de Ayla em vir aqui e nos falar to francamente 
sobre as suas to inusitadas experincias. Ela nos deu uma compreenso da 
vida de pessoas que podem ser estranhas, mas se dispuseram a acolher uma 
criana que sabiam ser diferente e a trataram como uma semelhante. Alguns 
de ns sentem medo, ao ver por acaso um cabea-chata, quando samos para 
caar ou colher alguma coisa. Aparentemente esse temor  infundado, j 
que eles se dispuseram a acolher uma pessoa que estava perdida e sozinha.
        - Voc acha que isso significa que eles devem ter acolhido aquela 
mulher da Nona Caverna, que se perdeu algum tempo atrs? - quis saber a 
Zelandoni de cabelos brancos da Dcima Nona Caverna. - Se lembro bem, ela 
estava grvida, ao retornar. Talvez a Me tenha decidido Abeno-la, 
quando ela se encontrava com os cabeas-chatas, e usou o esprito de um 
deles para...
- No! No  verdade! Minha me no era uma abominao! - bradou Brukeval.
-  verdade. Sua me no era uma abominao - sustentou Ayla. -  isso que 
estamos tentando dizer. Nenhum desses espritos misturados  uma abo 
minao.
        - Minha me no era de espritos misturados - afirmou ele. -  por 
isso que ela no era uma abominao. - Ele a fitou com tal averso que Ayla 
precisou virar a cabea para evitar a fora do seu olhar. Em seguida, 
Brukeval retirou-se, pisando forte.
        No houve mais discusses. As pessoas levantaram-se e comearam a 
se retirar. Aquela Que Era A Primeira notou que Marona, ao sair, olhou para 
ela de uma maneira grosseira e insolente, e depois ouviu Laramar falar com o 
Zelandoni da Quinta Caverna e o seu aclito Madroman.
        - Como pode o lar de Jondalar estar entre os primeiros? - questionou. 
- A desculpa foi a de que Ayla tinha um alto nvel social entre os Mamuti, o 
povos do qual supostamente ela veio, e isso no devia ser rebaixado aqui, 
mas ela nem mesmo sabe de que povo realmente nasceu. Se foi criada pelos
cabeas-chatas ento ela  mais cabea-chata do que Mamuti. Me diga: que 
nvel tem um cabea-chata? Ela devia ser a ltima, mas agora est entre os 
primeiros. No acho isso certo.
        Depois da demorada e extenuante reunio, que terminou com aquela 
impetuosa exploso, Ayla sentiu-se angustiada. Ela supunha que devia ser 
perturbador para as pessoas descobrirem, de repente que criaturas que 
elas consideravam animais, na verdade, eram gente que pensava e tinha 
sentimentos. Tratava-se de uma mudana radical, e mudanas nunca 
aconteciam com facilidade, mas a reao de Brukeval foi irracional, e o seu 
olhar, to cheio de maldade, a amedrontou. Jondalar sugeriu que os dois 
pegassem os cavalos e sassem para um passeio longe de todo mundo, e 
relaxassem, aps os fatos perturbadores que encerraram a reunio. Ayla 
ficou feliz em ver Lobo novamente saltitando ao lado deles, j sem as 
ataduras, embora ainda no estivesse totalmente curado.
        - Tentei no demonstrar, mas fiquei to irritada com aquelas pessoas 
que se opuseram ao acasalamento de Echozar, porque a me dele era do Cl 
- comentou Ayla. - E, embora a Zelandoni e Dalanar tivessem convocado uma 
reunio especial, no acredito que algo tenha ficado resolvido. Creio que, no 
Matrimonial, o nico motivo pelo qual alguns concordaram foi porque eles no 
so Zelandonii Eles chamam a si mesmos de "Lanzadonii", mas no vejo 
nenhuma diferena. Qual  a diferena, Jondalar?
        - De certo modo, Zelandonii refere-se apenas a ns, o Povo, os filhos 
da Grande Me Terra, mas tambm aos Lanzadonii. O verdadeiro significado 
de Zelandonii seria Filhos da Terra do Sudoeste, e de Lanzadonii, Filhos da 
Terra do Nordeste - explicou Jondalar.
        - Por que Dalanar no continuou chamando a si mesmo de Zelandonii e 
fez para o seu povo outra Caverna com a palavra de contar mais alta que 
vem depois? - perguntou Ayla.
        - No sei. Nunca lhe perguntei. Talvez porque eles vivam muito 
distante. No d para chegar l numa tarde, nem mesmo num dia ou dois. 
Acho que ele sabe que, embora talvez existam laos familiares, algum dia 
eles sero um povo diferente. Agora que tem uma Zelandoni prpria, ou 
melhor, Lanzadoni, ele tem ainda menos motivos para fazer a longa viagem 
at as nossas Reunies de Vero. Talvez as doniers deles continuem sendo 
treinadas pela zelandonia durante um bom tempo, mas, se continuarem 
crescendo, comearo a treinar as suas prprias.
        - Sero como os Losadunai - refletiu Ayla. - A lngua e os costumes 
so to parecidos com os dos Zelandonii, que outrora devem ter sido o 
mesmo povo.
        - Acho que tem razo, e deve ser por isso que continuamos sendo bons 
amigos deles. Ns no os inclumos em nossos nomes e laos, mas deve ter 
havido uma poca em que fazamos isso - sups Jondalar.
        Imagino h quanto tempo deve ter sido isso. Atualmente, h muitas 
diferenas, at mesmo nas palavras da Cano da Me - observou Ayla. 
Cavalgaram um pouco mais para longe. - Se os Zelandonii e os Lanzadonii so 
o mesmo povo, por que as pessoas que se opuseram ao acasalamento de 
Joplaya com Echozar, finalmente, concordaram? S porque o nome deles diz 
que vivem no nordeste? No  sensato. Mas, tambm, a objeo deles no 
foi sensata na primeira vez.
        - Veja quem est atrs disso tudo - salientou Jondalar. - Laramar! Por 
que ele est querendo criar confuso? Voc no fez nada, a no ser tentar 
ajudar a famlia dele. Lanoga adora voc, e duvido que Lorala ainda estaria 
viva hoje, se voc no tivesse interferido. Ser que ele se importa de 
verdade, ou apenas quer atrair a ateno? No creio que ele jamais tivesse 
sido convidado para uma reunio especial, como essa, s com gente de alto 
nvel, com vrias delas, inclusive a Primeira, apresentando o caso a ele e aos 
outros poucos que discordaram. Agora que Laramar sentiu o gosto disso, 
receio que v continuar a criar problemas, s para atrair a ateno. Mas no 
entendo Brukeval, logo ele. Conhece Dalanar e Joplaya, e at mesmo  
aparentado.
        - Voc sabia que a me de Matagan me contou que, antes do 
Matrimonial, Brukeval foi ao acampamento da Quinta Caverna, tentar 
convencer algumas pessoas a se oporem ao acasalamento de Joplaya? - 
contou Ayla. - Ele tem um forte sentimento contra o Cl, mas, olhando-se 
ele e Echozar juntos, pode-se notar a semelhana. H caractersticas em 
suas feies que so indiscutivelmente do Cl, no to marcantes quanto as 
de Echozar, mas elas esto l. Acho que ele passou a me odiar porque eu 
disse que a sua me tinha nascido de espritos misturados, mas o que estava 
tentando dizer  que pessoas mestias no so ms, no so abo minaes.
        - Ele deve achar que so.  por isso que tenta duramente negar isso. 
Deve ser terrvel odiar o que se  - disse Jondalar. - No se pode mudar 
isso.  engraado. Echozar tambm odeia o Cl. Por que eles odeiam as 
pessoas das quais tm uma parte?
        - Talvez porque outras pessoas os magoem por causa daquilo que eles 
so, e no conseguem esconder isso, pois tm realmente uma aparncia 
diferente - aventou Ayla. - Mas o modo como Brukeval me olhou, antes de 
sair, foi to cheio de dio, que me amedrontou. Ele me lembrou um pouco 
Attaroa, como se houvesse algo que no estivesse certo com ele Como se 
houvesse algo errado ou deformado nele, do mesmo modo como Lanidar e o 
seu brao, porm internamente.
        - Talvez um esprito mau tenha entrado nele, ou o seu cl foi 
deformado - sugeriu Jondalar. No sei no, Ayla, mas talvez seja melhor 
voc tomar cuidado com Brukeval. Ele pode tentar criar mais dificuldades 
para voc.
        O vero intensificou-se, e os dias tornaram-se mais quentes. O capim 
dos campos cresceu alto e ficou dourado, suas cabeas assentindo com o 
peso das sementes - a promessa de uma nova vida. O corpo de Ayla tambm 
ficou pesado, repleto da nova vida do filho ainda por nascer. Ela estava 
trabalhando ao lado de Jondalar, arrancando sementes de aveia silvestre, 
quando sentiu um movimento pela primeira vez. Ela parou e pressionou a mo 
no meio de sua protuberncia. Jondalar viu o gesto.
        - O que foi, Ayla? - perguntou, com o preocupado franzido de testa.
        - Senti o beb se mexer.  a primeira vez que sinto vida! - exclamou. 
Ela parecia sorrir por dentro. - Aqui - mostrou, tirando a pedra de joeirar 
da enorme mo de Jondalar e colocando esta sobre a sua barriga. - Talvez o 
beb se mexa novamente.
        Ele aguardou, na expectativa, mas nada sentiu.
        - No sinto nada - disse, finalmente. Nisso, surgiu um leve movimento 
debaixo de sua mo, apenas uma leve ondulao. -Eu senti! Eu senti o beb! - 
bradou.
        - Os movimentos vo ficar mais fortes, depois - avisou Ayla. - No 
maravilhoso, Jondalar? O que voc quer que seja o beb? Menino ou menina?
        - No importa. S que quero que seja saudvel, e que voc tenha um 
parto fcil. E voc, o que quer que seja o beb? - indagou.
        - Eu gostaria de uma menina, mas ficaria feliz com um menino. No 
importa mesmo. Quero apenas um beb, o seu beb.  seu tambm.
        - Ei, vocs a. A Quinta Caverna vai vencer, se vocs continuarem 
vadiando. - Os dois viraram-se, e viram um jovem se aproximando. Tinha 
altura mediana e uma compleio robusta e vigorosa. Caminhava com a ajuda 
de uma muleta sob um dos braos e carregava uma pele com gua com a 
outra mo. - Querem gua? perguntou.
        - Ol, Matagan! Est quente, e a gua ser bem-vinda - disse Jondalar, 
pegou a bolsa, levantou-a sobre a cabea e deixou a gua escorrer do bico 
para a sua boca. - Como vai a perna? - perguntou, ao passar a bolsa de gua 
para Ayla.
        - Cada vez mais forte, com o passar do tempo. Talvez no demore 
para eu me livrar deste pedao de pau - respondeu, sorrindo. Eu s deveria 
fornecer gua para a Quinta Caverna, mas avistei a minha curadora favorita, 
e resolvi trapacear um pouco. Como vai, Ayla?
        - Estou tima. Momentos atrs, senti vida pela primeira vez. O beb 
est crescendo - disse ela. - Quem voc acha que est na frente?
        -  difcil dizer. A Dcima Quarta j tem vrios cestos cheios, mas a 
Terceira acaba de localizar um novo e enorme renque.
        - E a Nona? - quis saber Jondalar.
        - Acho que ela tem chance, mas estou apostando na Quinta - retrucou 
o Jovem
        - Voc  tendencioso. Quer apenas os prmios. - Jondalar deu uma 
gargalhada. - O que foi que a Quinta doou este ano?
        - A carne-seca dos dois auroques abatidos na primeira caada, uma 
dzia de lanas e uma enorme tigela de madeira entalhada pelo nosso melhor 
entalhador. E a Nona?
        - Uma enorme pele com o vinho de Marthona, quatro arremessadores 
de lanas feitas com btula, cinco pedras-de-fogo e dois grandes cestos de 
Salova, um cheio de avels, e outro com mas cidas - respondeu Jondalar.
        - Ser o vinho de Marthona que eu vou tomar, se a Quinta vencer. 
Espero que os ossos sejam bons para mim. Assim que me livrar deste pau - 
levantou a  muleta-, vou me mudar para a tenda dos homens. Eu j poderia 
me mudar agora, com ou sem muleta, mas a minha me ainda no quer que eu 
v. Ela tem sido formidvel, ningum cuidaria melhor de mim, mas j estou 
me cansando de ser mimado. Desde o acidente, parece at que eu tenho 
cinco anos de idade - disse ele.
        - No pode censur-la - ponderou Ayla.
        - Eu no a censuro Eu entendo. So quero voltar para a tenda dos 
homens. Eu at convidaria voc, Jondalar, para a festa que faremos com o 
vinho, se no estivesse acasalado.
        - Obrigado assim mesmo, mas ando farto dessas tendas de homens. 
Um dia, quando for mais velho, ver que estar acasalado no  to ruim 
quanto pensa. - salientou Jondalar.
        - Mas voc j conseguiu a mulher que eu queria - brincou o rapaz, 
dando uma olhadela provocante para Ayla. - Se a tivesse, tambm no ia me 
mudar a tenda dos homens. Quando vi Ayla, no Matrimonial de vocs, eu a 
achei a mulher mais bonita que j tinha visto. Mal pude acreditar em meus 
olhos. Acho que todos os homens pensaram a mesma coisa, e desejamos 
estar em seu lugar, Jondalar.
        Embora, no incio, se sentisse acanhado na presena de Ayla, Matagan 
perdeu o constrangimento depois que passou a conhec-la melhor, durante 
os muitos dias em que ela compareceu ao alojamento da zelandonia para 
ajudar a cuidar dele. Depois disso, o seu natural e amistoso lado socivel e o 
crescente : espontneo comearam a se manifestar
        - Escute s o que ele est dizendo - brincou Ayla, sorrindo e afagando 
a barriga saliente. - Que "bonita" que nada. Uma velha barriguda.
        - Isso torna voc mais bonita do que nunca. E gosto de mulheres mais 
velhas. Talvez algum dia eu me acasale, se encontrar uma mulher como voc 
- rebateu Matagan.
        Jondalar sorriu para o jovem, que lhe lembrava Thonolan. Era bvio 
que Matagan estava apaixonado por Ayla, mas, um dia, ele se tornaria um 
homem muito atraente para as mulheres, e talvez precisasse disso, se 
ficasse permanentemente aleijado. Jondalar no se importava que 
praticasse um pouco com Ayla. Ele tambm, certa vez, apaixonara-se por 
uma mulher mais velha.
        - E voc  a minha curadora favorita. - A expresso dos olhos dele 
ficou mais sria. - Eu despertei algumas vezes, quando estava sendo levado 
na maca, e pensei estar sonhando, ao ver voc. Pensei que era uma linda donii 
que veio para me levar para a Grande Me. Tenho certeza de que salvou a 
minha vida, Ayla, e no creio que, de modo algum, eu estivesse andando, se 
no fosse voc.
        - Apenas aconteceu de eu estar l, e fiz o que pude - condescendeu 
Ayla.
        - Ainda assim, saiba que, se houver alguma coisa... - baixou a vista, o 
rosto corado pelo constrangimento. Estava com problemas de expressar o 
que queria dizer. Voltou a olhar para ela. - Se houver alguma coisa que eu 
possa fazer por voc,  s pedir.
        - Eu me lembro de uma ocasio em que eu pensei que Ayla fosse uma 
donii - falou Jondalar, para aliviar a aflio do rapaz. - Voc sabia que ela 
costurou a minha pele? Durante a nossa Jornada, eu me lembro que todo um 
Acampamento S'Armunai pensou que ela fosse a Prpria Me, uma donii viva 
que foi ajudar os filhos Dela. Pelo que sei, do jeito que os homens se 
apaixonam por ela, talvez seja mesmo.
        - Jondalar! No o encha com todas essas bobagens - protestou Ayla. - 
 melhor voltarmos a trabalhar, ou a Nona Caverna vai perder. No apenas 
isso, mas tambm quero guardar um pouco desses gros para uma dupla de 
cavalos, e, talvez, para um novo potro. Ainda bem que colhemos bastante 
centeio, quando ele amadureceu, mas os cavalos preferem aveia.
        Ela olhou no interior do cesto pendurado em seu pescoo, a fim de que 
as mos ficassem livres, para ver a quantidade de sementes, em seguida 
posicionou a pedra na mo e passou a trabalhar. Com uma das mos, juntou 
alguns caules de gros silvestres maduros, e com a outra agarrou os caules 
para que a pedra redonda ficasse pressionada contra eles um pouco abaixo 
de onde se originavam as sementes. Ento, com um suave movimento, 
deslizou os caules por uma das mos, de modo a fazer com que a dura pedra 
arrancasse as sementes e as depositasse na outra. Esvaziou-as no cesto e 
apanhou os caules seguintes.
        Tratava-se de um trabalho lento e meticuloso, mas no era difcil, 
depois que se acostumava ao ritmo dele. A utilizao de uma pedra ajudava a 
despir os caules com mais eficincia e, portanto, mais rapidamente. Quando 
Ayla perguntou, ningum conseguiu lembrar como tinha surgido a idia, pois 
vinham fazendo isso daquele modo desde que qualquer um pudesse recordar.
Quando Matagan se afastou, Ayla e Jondalar estavam ambos recolhendo as 
sementes para os seus cestos.
        - Voc tem um dedicado admirador na Quinta Caverna, Ayla - 
comentou Jondalar. - Muita gente sente o mesmo. Voc fez muitos amigos 
nesta Reunio. A maioria das pessoas v voc como uma Zelandoni. Elas no 
esto acostumadas com um curador que no seja um donier.
        - Matagan  um rapaz amvel - disse Ayla -, e a parca com capuz 
revestida de pele, que a me dele insistiu em me presentear,  linda e 
folgada o bastante para eu poder usar no inverno. Ela me pediu para visit-
los, no outono, antes de voltarmos para casa. O lar da Quinta Caverna no  
o lugar por onde passamos, a caminho daqui?
        - , fica correnteza acima de um pequeno afluente do Rio. Talvez a 
gente possa dar uma passada por l, no caminho de volta. A propsito, daqui 
a alguns, dias, vou caar com Joharran e vrios outros Talvez a gente fique 
algum tempo fora - avisou Jondalar, tentando fazer isso parecer uma 
atividade normal.
        - Suponho que no devo ir - lamentou Ayla com tristeza.
        - Receio que, por uns tempos, tenha que desistir de caar. Voc sabe, 
e o acidente com Matagan deixou isso bem claro, que caar pode ser 
perigoso, principalmente agora que no  to rpida com os ps quanto antes. 
E depois que o beb nascer, vai estar ocupada amamentando-o e cuidando 
dele - salientou Jondalar.
        - Eu caava, depois que Durc nasceu. Uma das outras mulheres o 
amamentava por mim, se eu no voltasse a tempo para o alimentar.
        - Mas no ficava fora vrios dias de uma vez.
        - No, caava apenas pequenos animais, com a minha funda - admitiu.
        - Bem, talvez possa voltar a fazer isso, mas no deve ir com grupos de
e ficar fora muitos dias de uma vez. Alm disso, eu agora sou o seu parceiro. 
Cabe a mim cuidar de voc e dos seus filhos. Foi o que prometi, quando nos 
acasalamos. Se um homem no  capaz de prover para a parceira e os filhos, 
para que ele serve? Qual seria o propsito de um homem, se as mulheres 
tivessem filhos e tambm cuidassem de sua subsistncia? - ponderou 
Jondalar.
        Ayla nunca tinha ouvido Jondalar falar dessa maneira. Todos os 
homens se sentiam assim?, refletiu. Os homens precisavam encontrar um 
propsito para sua existncia porque no podiam ter filhos? Ela tentou 
imaginar como seria, Se fosse o contrrio, se ela no pudesse ter filhos e 
acreditasse que a sua nica contribuio fosse ajudar a sustent-los. Virou 
o rosto para ele.
        - Este beb no estaria dentro de mim, se no fosse por voc, 
Jondalar - afirmou, colocando as mos sobre o bojo abaixo dos seios. - Este 
beb  tanto seu quanto meu. S est crescendo dentro de mim por um 
tempo. Sem a sua essncia, ele no teria comeado.
        - Voc no tem certeza disso - alegou ele. - Pode ser que pense assim, 
mas ningum mais acredita nisso, nem mesmo a Zelandoni.
        Os dois ficaram se encarando no meio do campo a cu aberto, no de 
forma antagnica, mas com crenas conflitantes. Jondalar notou que fios de 
cabelos louros descolorados pelo sol tinham escapado da faixa de couro que 
os prendiam, e aoitavam o rosto dela diante da brisa. Ayla estava descala, 
e os braos e seios bronzeados estavam expostos acima da veste simples de 
couro que envolvia a sua dilatada parte central e pendia frouxamente at os 
joelhos, para proteger o corpo dos arranhes das gramneas secas que 
estavam colhendo. O olhar de Ayla era determinado, resoluto, quase 
furiosamente desafiador, mas ela parecia to vulnervel. A fisionomia dele 
suavizou-se.
        - De qualquer modo, isso no tem importncia. Eu amo voc, Ayla. 
Quero apenas cuidar de voc e do seu beb - salientou. Esticou-se para 
envolv-la nos braos.
        - Nosso beb, Jondalar. Nosso beb - corrigiu ela, colocando os 
braos em volta dele e apoiando-se em seu peito nu. Jondalar sentiu os seios 
nus e a barriga bojuda, e ficou feliz por ambos.
        - Est bem, Ayla. Nosso beb - concedeu. Ele queria acreditar nisso.
        Havia uma perceptvel pinicada de frio no ar, quando saram do 
alojamento. As folhas nas rvores do pequeno bosque comeavam a mudar 
de cor para tons de amarelo e um eventual vermelho, e a relva e as ervas em 
volta da rea do acampamento, que no foram pisoteadas e transformadas 
em p, estavam marrons e murchas. Cada pedao de madeira cada ou 
arbusto seco existentes na rea h muito haviam sido queimados, e as matas 
tinham sido consideravelmente reduzidas.
        Jondalar recolheu os fardos, que estavam no cho perto da entrada 
do alojamento.
        - Os cavalos com os arrastadores de carga vo ser de grande ajuda 
para levar de volta o abastecimento de comida para o inverno. Foi uma tima 
estao.
        Lobo correu na direo deles, a lngua pendurada do lado de fora da 
boca. Uma orelha pendia ligeiramente e tinha a borda dentada, o que lhe 
dava um ar rebelde.
        - Acho que ele sabe que estamos de partida - deduziu Ayla. - Que 
bom que ele voltou e permaneceu com a gente, mesmo machucado. Eu teria 
sentido falta dele. Estou ansiosa para voltar para a Nona Caverna, mas 
sempre lembrarei desta Reunio de Vero. Foi nela que nos acasalamos.
        - Eu tambm gostei desta Reunio de Vero. H muito tempo que no 
comparecia a uma delas, mas agora que estamos partindo j estou ansioso 
para, voltar - confessou Jondalar, e depois sorriu. Pensava na surpresa que 
sabia estar  espera de Ayla. Ela percebeu algo diferente em sua expresso. 
O sorriso era mais um aprazvel arreganhar de dentes, e ele deixava 
transparecer um senso de expectativa. Ayla sentia que havia algo que ele 
no lhe contara, mas no fazia idia do que poderia ser.
        - Ainda bem que os Lanzadonii vieram. Foi uma longa viagem para eles 
mas Dalanar conseguiu a donier que queria - continuou -, e Joplaya e 
Echozar esto devidamente acasalados.
        Os Lanzadonii ainda so um povo pequeno, mas no vai demorar para 
terem uma segunda Caverna. H muitos jovens entre eles, e tiveram sorte. 
A maiora sobreviveu.
        - Estou contente por Joplaya ter engravidado - comentou Ayla. - Ela  
foi Abenoada antes de serem unidos, mas no creio que a maioria soubesse 
disso, por ocasio do Matrimonial.
        - Muitas pessoas tinham outras coisas em mente, mas me alegro por 
eles. Joplaya parece diferente, de certo modo, triste. Talvez tudo de que 
ela precise seja um beb - deduziu Jondalar.
        -  melhor nos apressarmos. Joharran disse que queria partir cedo - 
lembrou Ayla.
        Ela no desejava comentar a tristeza de Joplaya, porque sabia o 
motivo, e deixou de  mencionar a longa conversa que tivera com Jerika. A 
me de Joplaya queria obter dela uma informao especfica. Jerika lhe 
contou a prpria dificuldade que tivera em parir, e desejava saber tudo o 
que Ayla pudesse lhe informar que fosse capaz de facilitar um parto 
potencialmente difcil. Tambm pretendeu saber tudo a respeito do remdio 
que conseguia evitar a concepo, e mtodos de induzir o  aborto, caso isso
no funcionasse. Jerika temia pela vida de sua nica filha, e preferia no ter 
nenhum neto a perder Joplaya. Contudo, j que ela estava grvida estava 
resolvida a ter o beb, se este sobrevivesse ao parto, Jerika estava 
decidida a providenciar para que no houvesse mais nenhuma gravidez.
        A Dcima Primeira Caverna tinha levado todas as suas balsas rio 
acima, e Joharran cuidou para mandar de volta algumas coisas por elas, mas 
o Lugar do Rio no tinha tantas balsas assim, e todas as Cavernas queriam 
us-las. A Nona Caverna carregou o mximo possvel os arrastadores de 
carga nas traseiras de Huiin e Racer, com fardos de couro cru contendo 
carne, e cestos com os alimentos recolhidos. Os alojamentos que lhes 
serviram de moradia durante o vero, foram derrubados, e as partes que 
podiam ser recuperadas e reutilizadas tambm viraram cargas para os 
cavalos. Cada pessoa carregava uma mochila cheia, e algumas vendo os 
arrastadores de carga dos cavalos, fizeram um dispositivo semelhante para 
puxarem. Ayla pensou em fazer um reboque para Lobo, mas ainda no o tinha 
treinado para conduzir um deles. Talvez, no prximo ano, ele tambm 
pudesse ter uma carga para levar.
        Joharran andava por toda a rea do acampamento, instando as 
pessoas a se apressarem, dando sugestes e cuidando para que tudo 
estivesse pronto. Quando se certificou de que a Nona Caverna estava com 
tudo empacotado e pronta para partir saiu  frente dos demais, a lana 
ligeiramente levantada, um gesto, porm, mais simblico do que 
indispensvel. Viajando  luz do dia como um enorme grupo, e desde que se 
mantivessem juntos, nenhum caador de quatro patas se aproximaria deles. 
Entretanto, ao primeiro sinal de perigo, Joharran podia encaixar a lana no 
seu arremessador e aprontar-se para dispar-la num instante. Ele havia 
praticado com a arma, durante o vero, e conseguira uma certa habilidade 
em seu manejo. Havia meia dzia de outros, designados para proteger os 
flancos, com Solaban e Rushemar cuidando da retaguarda. 
        A misso de vigilncia seria revezada entre vrios outros homens, que, 
no momento, ajudavam a levar de volta para a Nona Caverna a valiosa 
recompensa do vero.
        Ayla deu uma ltima olhada para o acampamento da Reunio de Vero, 
antes de partirem. Pilhas de ossos e lixo atulhavam o pequeno vale. Vrias 
Cavernas j tinham partido, deixando amplos espaos vazios entres as reas 
de acampamento daqueles que ficaram, com estacas e armaes de troncos 
ainda de p, e crculos e retngulos negros revelando onde foram feitas as 
acalentadoras fogueiras. Uma barraca, gasta demais para uma futura 
utilizao, foi deixada para trs, e um pedao rasgado de couro, j solto de 
alguma estaca, adejava ao vento, que tambm soprava um cesto para l e 
para c. Enquanto ela observava, outros alojamentos de uma Caverna iam 
sendo demolidos. O acampamento da Reunio de Vero tinha uma aparncia 
de desolao e abandono.
        O lixo, porm, era da terra, e logo iria se decompor. Na primavera 
seguinte, restariam muito poucas evidncias de que as Cavernas tinham 
passado o vero ali. A terra estaria curada da invaso.
        A viagem de volta foi rdua. As pessoas, pesadamente carregadas, 
penavam sob seus fardos, e,  noite, caam exaustas em seus leitos. No incio, 
Joharran estabeleceu uma marcha enrgica, mas,  medida que avanavam, 
ele foi diminuindo o ritmo, para que os mais fracos conseguissem 
acompanh-lo. Todos, porm, estavam ansiosos para voltar para casa, e o 
entusiasmo deles estava no mximo. A Carga que transportavam 
representava a sobrevivncia durante os severos meses de inverno que 
teriam pela frente. 
        Ao se aproximarem do alapado da Nona Caverna, a paisagem familiar 
incentivou as pessoas a se apressarem. Estavam vidas para alcanar o 
abrigo sob a salincia de pedra e foraram o passo, para no ter que passar 
mais uma noite ao relento. As primeiras estrelas da noite piscavam no 
firmamento, quando o familiar rochedo com a Pedra Pendente surgiu  vista. 
Sob a luz cadente, atravessaram o Rio do Bosque pelas passadeiras com 
alguma dificuldade, por causa de sua incmoda carga, e depois seguiram a 
trilha at a varanda frontal de seu abrigo. Estava quase escuro, quando, 
finalmente, alcanaram a varanda de pedra da abertura da prateleira 
protetora.
        Foi trabalho de Joharran fazer a primeira fogueira e acender uma 
tocha para levar ao alapado, e agradeceu s pedras-de-fogo. A fogueira foi 
rapidamente preparada, e a tocha acesa, e depois as pessoas esperaram 
impacientes enquanto a Zelandoni retirava a pequena estatueta feminina que 
fora colocada como proteo diante do abrigo deles.
        Aps agradecerem  Grande Me por vigiar o seu lar, durante a 
ausncia, vrias outras tochas foram acesas. A Caverna formou uma 
procisso atrs da grande mulher, enquanto ela colocava a donii de volta em 
seu lugar, atrs da grande lareira no lado mais afastado do espao 
protegidos e ento todos se dispersaram para as suas habitaes, 
agradecidos por poderem largar os fardos.
        A primeira tarefa inevitvel foi inspecionar qualquer dano que 
criaturas saqueadoras tivessem causado, enquanto eles estavam ausentes. 
Havia poucos excrementos de animais, algumas pedras de lareiras tinham 
sido mexidas, um ou dois cestos derrubados. O dano, porm era mnimo. 
Foram acesas fogueiras nas lareiras internas, e as provses levadas para 
dentro. Peles de dormir foram estendidas nas familiares bancadas de 
dormir. A Nona Caverna dos Zelandonii voltara para casa.
        Ayla encaminhava-se  habitao de Marthona, mas Jondalar a 
conduziu para uma direo diferente. Lobo foi atrs. Transportando uma 
tocha em uma das mos segurando a mo dela com a outra, ele a levou mais 
adiante, para os fundos  do  abrigo, em direo a uma outra estrutura, onde 
ela no se lembrava de ter estado antes. Jondalar parou diante da habitao, 
puxou a aba que cobria a entrada, e fez  um sinal para ela entrar. - Esta 
noite, voc vai dormir na sua prpria habitao Ayla - anunciou.
        - Minha prpria habitao? - surpreendeu-se Ayla, to emocionada 
que mal conseguia falar. Ao penetrar no interior escuro, o lobo foi junto com 
Jondalar seguiu logo atrs, levantando a tocha, para que ela pudesse ver.
        - Voc gostou? - perguntou.
        Ayla olhou em volta. O interior estava praticamente vazio, mas havia 
prateleiras em uma parede adjacente  entrada, e fora erigida uma 
plataforma em uma  extremidade, para as peles de dormir. O cho era 
pavimentado com pedaos achatados e lisos de calcrio retirados do 
rochedo ali perto, com argila endurecida do rio entre os espaos. Uma 
lareira fora montada, e o nicho diretamente oposto  entrada continha uma 
pequena estatueta de uma mulher gorda.
        - O meu prprio lar. - Ela rodopiou no meio da construo vazia, os 
olhos cintilando. - Uma habitao s para ns dois? - o lobo sentou-se sobre 
as ancas e olhou para ela. Tratava-se de um novo lugar, mas onde quer que 
Ayla fosse, era o lar dele.
        O rosto de Jondalar fendeu-se com um sorriso ridculo.
        - Ou, talvez, ns trs - disse ele, afagando a barriga dela. - Isto aqui 
ainda est um tanto vazio.
        - Eu adorei. Simplesmente adorei.  lindo, Jondalar.
        Ele ficou to contente com a felicidade dela, que sentiu lgrimas 
brotarem, e precisou fazer algo para cont-las. Entregou-lhe a tocha que 
ainda segurava.
        - Ento, Ayla, ter que acender a lamparina. Isso vai significar que 
aceita. Tenho um pouco de gordura derretida aqui. Carreguei o tempo todo, 
desde o nosso ltimo acampamento.
        Enfiou a mo sob a tnica e retirou uma bolsinha, aquecida pelo calor 
de seu corpo, feita da bexiga curada de um veado, enfiada numa bolsa 
ligeiramente maior, feita de couro deste, com a parte do plo para dentro. 
A bexiga era praticamente impermevel, apesar de vazar um pouco, com o 
passar do tempo, principalmente quando aquecida. A segunda bolsa era para 
absorver o pequeno vazamento, o plo acrescentando uma camada a mais 
para reter a pouca gordura capaz de permear. A parte de cima da bexiga
era amarrada, com um comprido tendo da perna, em volta de uma vrtebra
da espinha do veado, o osso peculiar aplainado para lhe dar uma forma
circular. O buraco natural, que outrora continha parte da medula espinhal,
servia como orifcio de extravasar. Este era tamponado com uma tira de
couro amarrada vrias vezes, formando um n que se ajustava no orifcio.
        Jondalar puxou a extremidade da correia, soltou o n e despejou um 
pouco da gordura liqefeita na nova lamparina de pedra. Mergulhou a ponta 
de um pavio absorvente, feito do lquen retirado dos galho de uma rvore do 
acampamento da Reunio de Vero, colocou-o no leo e depois levou a tocha 
para perto. Ele incendiou-se imediatamente. 
        Depois que a gordura estava toda derretida e quente, Jondalar 
apanhou um pacote envolto em folhas, contendo pavios feitos de um fungo 
poroso, que fora fatiado e deixado secar. Ele gostava de usar pavios de 
fungo, por causa de sua capacidade de demorar mais a queimar e fornecer 
uma iluminaao mais calorosa. Afastou o pavio do meio do raso recipiente 
para a borda e puxou-o um pouco mais acima da beira. Ento, acrescentou  
mesma lamparina um segundo e um terceiro pavios, para que ela fornecesse 
a luz de trs.
        Levou o fogo ao pavio. Este acendeu, crepitou, e logo ostentou uma luz 
brilhante. Jondalar levou a lamparina para o nicho que continha a donii e a 
colocou diante da figura feminina. Ayla o seguiu. Quando ele se virou, ela 
levantou a vista e olhou para o homem alto.
        - Esta habitao agora  nossa, Ayla. Se permitir que eu acenda a 
minha lareira dentro dela - disse Jondalar -, qualquer criana nascida aqui 
nascer minha lareira. Voc permite?
        - Sim. Claro - afirmou.
        Ele pegou a tocha que estava com ela e caminhou para a rea da 
lareira, que era demarcada com um crculo de pedras. Dentro deste, havia 
madeira arrumada, pronta para ser acesa. Levou a tocha at os gravetos e 
ficou observando at madeiras menores incendiarem os pedaos maiores. 
No queria correr o risco de o fogo apagar antes de se estabilizar. Quando 
ergueu a vista, Ayla fitava-o com amor nos olhos. Ele levantou-se e a tomou 
nos braos.
        - Estou to feliz, Jondalar - declarou, a voz falhando enquanto 
lgrimas inundavam os seus olhos.
        - Ento por que est chorando?
        - Porque estou feliz demais - confessou, apertando-o. - Nunca 
sonhado que pudesse ser to feliz. Vou viver neste belo lar, os Zelandonii 
so o meu povo, vou ter um beb e estou acasalada com voc. Principalmente 
por estar acasalar com voc. Eu te amo, Jondalar. Amo demais.
        - Eu tambm te amo, Ayla. Foi por isso que constru esta habitao 
para   voc - afirmou, curvando a cabea para alcanar os lbios dela, que se 
esticavam para alcanar os dele. Jondalar provou o sal das lgrimas dela.
        - Mas, quando fez isto? - quis saber, quando, finalmente, se 
separararam. - Como? Passamos o vero inteiro na Reunio.
        - Voc se recorda daquela viagem de caa, que fiz com Joharran e os 
outros? No foi apenas uma viagem de caa. Voltamos aqui e construmos 
isto - contou Jondalar.
        - Vocs fizeram todo o caminho de volta para construir uma 
habitao?  Por que no me contou? - indagou.
        - Eu queria lhe fazer uma surpresa. Voc no  a nica capaz de 
planejar una surpresa - argumentou, ainda encantado pela emocionada 
reao feliz de Ayla.
        - Foi a melhor surpresa que j me fizeram - declarou, as lgrimas 
comeando novamente se avolumar.
        - Sabe, Ayla - disse ele, subitamente com a expresso sria -, se 
algum dia voc jogar fora as pedras da minha lareira, eu terei que voltar 
para a habitao de minha me, antes do n de nossa unio.
        - Como pode sequer dizer uma coisas dessas, Jondalar? Eu jamais 
faria isso! - protestou, parecendo estarrecida.
        - Se voc tivesse nascido uma Zelandonii, eu no precisaria dizer isso. 
Voc saberia. Eu s quero ter certeza de que entende isso. Esta habitao  
sua e dos seus filhos, Ayla. Somente a lareira  minha - explicou Jondalar.
        - Mas foi voc quem a fez. Como pode ser minha?
        - Se eu quero que os seus filhos nasam da minha lareira,  minha 
responsabilidade providenciar um lugar para voc e os seus filhos viverem. 
Um lugar que ser seu, no importa o que acontea - falou.
        - Quer dizer que  uma exigncia voc fazer uma habitao para 
mim? - perguntou.
        - No exatamente. A exigncia  para eu providenciar um lugar para 
voc viver, mas eu quis lhe dar o seu prprio lar. Ns podamos ter 
continuado com a minha me. No  incomum, quando um jovem se acasala 
pela primeira vez. Ou, se voc fosse uma Zelandonii, poderamos ficar com a 
sua me, ou algum outro parente, at eu poder arranjar um lugar s seu. 
Nesse caso,  claro, eu teria obrigaes para com os seus parentes.
        - Quando nos juntamos, eu no sabia que voc teria tantas obrigaes 
com relao a mim - comentou Ayla.
        - No  apenas com relao  mulher, mas com os filhos. Eles no 
podem cuidar de si mesmos, precisam ser sustentados. H pessoas que 
moram toda a vida com um parente, em geral com a me da mulher. Quando 
a me morre, o lar dela passa a pertencer aos seus filhos, mas, se um deles 
j vivia com ela, ele tem a preferncia. Se o lar de uma me fica sendo da 
filha, o parceiro dela no precisa providenciar outro, mas passa a ter 
obrigaes para com os irmos e irms da parceira. Se o lar passa a ser de 
um filho, ele passa a ter obrigaes para com os irmos.
        - Acho que ainda terei muito o que aprender sobre os Zelandonii - 
comentou Ayla, enrugando a testa, pensativa.
        - E eu ainda tenho muito o que aprender sobre voc, Ayla - rebateu, 
abraando-a novamente. Ele estava mais do que disposto. Sentiu-se 
desejando-a, quan do se beijaram, e percebeu que ela respondia.
        - Espere aqui - pediu ele.
        Saiu, e voltou com as peles de dormir dos dois. Desatou os rolos e as 
estendeu sobre a plataforma. Lobo observava do meio do vazio aposento 
principal, e ento levantou a cabea e uivou.
         - Acho que ele est intranqilo. Quer saber onde deve dormir- 
deduziu Ayla.
        - Acho melhor eu ir at a habitao da minha me e pegar o leito dele. 
No v embora - disse Jondalar, sorrindo para ela. Voltou rapidamente e 
arrumou, na entrada, umas roupas velhas de Ayla, que serviam de leito para 
Lobo, e a sua tigela de comer. O lobo farejou as roupas, circundou-as e se 
aninhou nelas.
        Jondalar seguiu na direo da mulher, que continuava  espera perto 
da fogueira, levantou-a, carregou-a para a plataforma de dormir e pousou-a 
em cima das peles.        Comeou a despi-la lentamente, e ela passou a 
desamarrar um cordo, para ajudar.
        - No. Eu quero fazer isso, Ayla. Com sua licena - props.
        Ela baixou as mos. Ele continuou despindo-a lenta e delicadamente, 
depois tirou as prprias roupas e rastejou para o lado dela. E, gentilmente, 
com delicada ternura, passou metade da noite fazendo amor com ela.
        A Caverna rapidamente adaptou-se  rotina de sempre. Era um outono 
glorioso. O capim dos campos encrespava em ondas douradas com a brisa 
alvoroante e as rvores perto do Rio resplandeciam com brilhantes tons de 
amarelo e vermelho. Arbustos pesavam com bagas maduras, mas estavam 
rosadas mas cidas, espera da primeira friagem para ficarem doces, e 
amndoas caam dos ps. Enquanto o bom tempo se manteve, os dias foram 
gastos com a coleta dos presentes da estao de frutas, amndoas, bagas, 
razes e ervas. Depois que a temperatura da noite passou a cair abaixo do 
ponto de congelamento, grupos de caa saam regularmente para manter o 
suprimento de carne fresca, a fim de completar o de carne seca das 
caadas de vero.
        Durante os dias quentes, logo aps o regresso, os buracos de 
estocagem foram conferidos, e outros novos foram cavados no solo 
amolecido pelo vero, indo alm da camada normal de solo congelado, e 
revestidos com pedras. A carne de abates recentes era cortada e deixada 
da noite para o dia, em altas plataformas e distante de animais 
errantes,para congelar. Pela manh, era colocada nos buracos apropriados, o 
que evitava o seu descongelamento quando o dia esquentava. Vrias dessas 
adegas geladas localizavam-se as proximidades da Nona Caverna. Tambm 
foram cavados buracos mais rasos, que mantinham frutas e verduras frias, 
mas congeladas, durante a primeira parte da estao.
        osteriormente, com a progreso do congelante frio glacial e o solo 
tornando-se duro de gelo, os produtos seriam removidos para os fundos do 
abrigo.
        Salmes, seguindo o seu caminho correnteza acima, eram pescados 
com redes, defumados ou congelados, assim como outros tipos de peixe 
apanhados atravs de um mtodo desconhecido de Ayla: as armadilhas para 
peixes da Dcima Quarta Caverna. Ela visitara o Pequeno Vale, enquanto os 
peixes corriam, e Brameval lhe explicara como as armadilhas, tranadas e 
dotadas de um peso, permitiam que os peixes entrassem facilmente, mas no 
os deixavam sair. Ele era sem pre muito amigvel e agradvel com ela. Ayla 
tambm ficou feliz em ver Tishona e Marsheval.
        Ainda que no tivesse tido a chance de conhec-los to bem, durante 
o Matrimonial, eles continuavam a sentir o vnculo de terem se acasalado na 
mesma ocasio. 
        Algumas pessoas tambm pescavam com o engasgo. Brameval deu-lhe 
um dos pedacinhos de osso, afiado em ambas as pontas e amarrado no meio a 
uma corda fina mas forte, e mandou que ela pegasse a prpria refeio. 
Tishona e Marsheval juntaram-se a Ayla, em parte para ver se ela precisava 
de ajuda, mas tambm por causa de sua companhia. Jondalar havia lhe 
mostrado como usar um engasgo. Com minhocas e pedacinhos de peixe como 
isca, ela comeou enfiando uma minhoca no osso. Eles estavam de p na 
ribanceira do Rio, e Ayla jogou a linha na gua. Ao sentir uma presso, 
indicando que um peixe havia engolido o engasgo com a isca, ela deu um 
forte puxo na linha, torcendo para que o osso afiado se cravasse 
horizontalmente na goela dele, com ambos os lados perfurando as laterais. 
Sorriu, ao retirar um peixe da gua.
        No caminho de volta, quando Ayla parou na Dcima Primeira, Kareja 
no estava, mas viu o donier da Dcima Primeira com o seu alto e belo amigo, 
e parou para falar com eles. Ela os vira juntos, vrias vezes, na Reunio de 
Vero, e entendeu que eles eram mais do que amigos, mais do que parceiros, 
embora no tivessem feito um Matrimonial. A rigor, a cerimnia oficial de 
acasalamento era primordialmente em beneficio dos filhos em potencial. 
Muitas pessoas, alm daquelas interessadas no mesmo sexo, optavam por
viverem juntas, sem uma cerimnia de acasalamento, principalmente casais
mais velhos que j no podiam ter filhos e algumas mulheres, que j haviam
tido filhos sem um parceiro e depois decidiram viver com um ou dois amigos.
Ayla costumava acompanhar Jondalar, pelas proximidades, quando ele saa
Com um grupo de caa. Quando, porm, os caadores de caa de grande
porte seguiam para mais longe, ela permanecia perto da caverna e usava a 
funda ou praticava com um basto de arremesso. Ptrmigas habitavam a 
plancie alm do Rio como tambm tetrazes. Ela sabia que podia apanh-las 
com a funda, mas queria aprender a usar, com a mesma habilidade, um 
basto de arremesso. Queria, tambm, aprender a faz-los. Era difcil 
separar pedaos mais finos de troncos, que geralmente era feito com 
cunhas, e depois levava tempo para mold-los e alis-los Mais difcil ainda 
era aprender a arremess-los, com um efeito especial, Para que eles 
seguissem pelo ar girando horizontalmente. Certa vez, ela vira uma Mamuti 
usar algo semelhante. Ela conseguia jogar o basto em um bando de aves 
voando baixo, e freqentemente derrubava trs ou quatro delas. Ayla 
sempre gostou de caar com armas que requeriam habilidade.
        Ter uma nova arma com que praticar fez com que ela se sentisse 
menos excluida, e estava se tornando eficiente com o basto de arremesso. 
Raramente voltava para casa sem uma ou duas aves. Tambm levava sempre 
a funda, e geralmente trazia uma lebre ou um hamster para acrescentar a 
panela. Isso lhe dava, igualmente, uma certa independncia. Embora j lhe 
agradasse o modo como o seu lar comeava a aparentar - muitos dos 
presentes que ela recebeu quando se uniu com Jondalar tiveram um bom uso 
-, Ayla estava aprendendo a permutar e geralmente trocava penas de aves, e 
s vezes carne, por coisas com as quais queria dotar o seu novo lar. At 
mesmo os ossos ocos das aves podiam ser cortados para formar contas ou 
pequenos instrumentos musicais, flautas com um som agudo. Ossos de aves 
tambm podiam ser utilizados como pores de vrias ferramentas ou 
utenslios.
        A maior parte, porm, dos couros de coelhos e lebres que caava com 
a funda, ou as finas e macias peles de aves, Ayla guardava para si mesma. 
Planejava usa os couros e peles macias para fazer roupas para o beb, 
quando o tempo frio viesse  e ela tivesse que ficar confinada no abrigo.
        Num dia de frio penetrante no final da estao, Ayla estava 
rearrumando as coisas, a fim de abrir espao para o beb e seus objetos. 
Apanhou a roupa de baixo de rapaz, que Marona lhe dera, e colocou a tnica 
diante de si. H muito, ela j a tinha superado em tamanho, mas ainda 
planejava us-la posteriormente. Tratava- se de uma roupa confortvel. 
Talvez eu devesse fazer outra, para mim, com a par te de cima mais folgada, 
pensou. Ela ainda tinha algumas peles de veado. Dobrou a roupa e colocou-a 
de lado.
        Ayla prometera visitar Lanoga naquela tarde, e resolveu apanhar 
alguma comida para levar junto. Havia criado uma verdadeira afeio pela 
menina e o beb e as visitava com freqncias ainda que isso significasse 
encontrar e falar com Laramar eTremeda mais do que ela desejava. Tambm 
passou a conhecer um pouco melhor os outros filhos deles, principalmente 
Bologan, apesar de ser uma relao um tanto formal.
        Avistou Bologan, ao chegar  habitao de Tremeda. Ele comeara a
Aprender a fazer barma com o homem de sua lareira. Os sentimentos de 
Ayla em relao a isso eram confusos. Era correto algum ensinar coisas aos 
filhos de sua lareira mas os homens que sempre estavam por ali, bebendo da 
barma de Laramar, no eram, segundo ela, aqueles com os quais Bologan 
devia andar, se bem que, certamente, isso no fosse de sua conta.
        - Saudaes, Bologan - cumprimentou Ayla. - Lanoga est?
        Embora ela o tivesse saudado vrias vezes, desde que retornaram 
para a Nona Caverna, ele ainda aparentava surpresa quando Ayla fazia isso, 
e todas as vezes parecia ficar sem palavras.
        - Saudaes, Ayla. Ela est l dentro - respondeu, e depois virou-se 
para ir embora. Talvez por ter andado arrumando suas roupas, Ayla 
lembrou-se subitamente de uma promessa que fizera a ele.
        - Voc teve sorte neste vero? - perguntou.
        - Sorte? O que quer dizer com "sorte"? - indagou, intrigado.
        - Vrios jovens da sua idade fizeram o seu primeiro grande abate, na 
Reu nio de Vero. Eu gostaria de saber se teve sorte, ao caar - explicou.
        - Alguma. Abati dois auroques, na primeira caada - disse ele.
        - Ainda tem as peles?
        - Troquei uma por material para barma. Por qu?
        - Eu prometi que ia fazer umas roupas de baixo de inverno para voc, 
se me ajudasse - lembrou Ayla. - Gostaria de saber se quer usar a sua pele 
de auroque, embora eu ache que peles de veados sejam melhor. Talvez voc 
consiga troc-la.
        - Eu ia trocar por mais material para barma. Pensei que voc tinha 
esquecido - alegou Bologan. - Voc falou isso h muito tempo, na primeira 
vez em que veio aqui.
        - J faz muito tempo, mas andei pensando em outras coisas que quero 
fazer, e acho que posso aproveitar a ocasio para fazer tambm as suas 
roupas - props ela.
        - Tenho algumas peles de veado de sobra, mas voc ter que ir em 
casa e me deixar tirar as suas medidas.
        Ele olhou-a, por algum tempo, com uma estranha expresso quase 
especulativa.
        - Voc tem ajudado bastante Lorala. E Lanoga tambm. Por qu?
        Ayla pensou por um momento.
        - A princpio, simplesmente porque Lorala era um beb e precisava de 
ajuda. As pessoas querem ajudar bebs, e foi por isso que as mulheres 
comearam a amament-la, depois que descobriram que a sua me no tinha 
mais leite. Mas passei a gostar dela, e de Lanoga tambm.
        Bologan ficou calado por um instante, e em seguida olhou para ela.
        - Est bem - disse ele. - Se quer mesmo fazer uma coisa para mim, eu 
tambm tenho uma pele de veado.
        Jondalar encontrava-se numa demorada viagem de caa, junto com 
Joharran, Solaban, Rushernar e Jacsoman, que recentemente havia se 
mudado, com a sua parceira Dynoda, da Stima para a Nona Caverna. O 
grupo estava em uma misso para encontrar renas, no tanto para ca-las, 
ainda, mas para saber onde se encontravam e quando poderiam migrar para 
mais perto da regio deles, a fim de poderem providenciar um grande 
arrebanhamento. Ayla sentia-se inquieta.  Tinha sado, no incio, com os 
caadores, mas retornara. Lobo havia levantado algumas ptrmigas, ainda 
no completamente desenvolvidas, mas chegando perto disso, e ela as 
derrubou rapidamente.
        Willamar tambm estava fora, fazendo a que seria provavelmente a 
sua ltima viagem comercial da estao. Ele havia seguido para oeste, 
especificamente para conseguir sal com o povo que vivia perto das Grandes 
guas do Oeste. Ayla convidou Marthona, Folara e a Zelandoni para uma 
refeio e ajud-la a comer as ptrmigas. Disse-lhes que ia cozinhar as aves 
do jeito que costumava fazer para Creb, quando vivia com o Cl. No Vale do 
Rio do Bosque, ao p da trilha inclinada para o abrigo, ela cavou um pequeno 
buraco, revestiu-o com pedras e acendeu um boa fogueira no interior. 
Enquanto esta queimava, depenou as aves inclusive os ps de plumas brancas 
invernais, e depois juntou um punhado de palha para envolv-las.
        Se tivesse encontrado ovos, teria recheado as aves com eles, mas no 
era poca de ovos. Aves no tentam criar pintos quando se aproxima o 
inverno. Em vez disso, apanhou algumas ervas para tempero, e Marthona 
ofertou-lhe o resto sal que possua, pelo qual ela ficou muito agradecida. As 
ptrmigas ficaram cozinhando, juntamente com pios, no forno de cho. 
Ayla matou algum tempo tratando dos cavalos, e agora procurava algo mais 
para fazer, enquanto esperava as aves ficarem prontas.
        Decidiu dar uma passada com a Zelandoni para ver se havia alguma 
coisa que pudesse fazer por ela. A donier falou que precisava de um pouco 
de ocre velho, e Ayla lhe disse que teria prazer em ir apanhar. Voltou para o 
Vale do Rio do Bosque, assobiou chamando Lobo, a quem deixara explorando 
novos e interssantes montes de terra e buracos, e andou em direo ao Rio. 
Cavou o minrio ferro de cor vermelha, e achou uma bela pedra arredondada 
pela gua, que e poderia usar como pilo para triturar o ocre. Depois, ao 
seguir para o aclive, voltou a assobiar para chamar Lobo, sem prestar muita 
ateno em quem mais encontrava na trilha.
        Foi um choque, quando ela quase deu um encontro em Brukeval. 
Desde a reunio no alojamento da zelandonia sobre Echozar e o Cl, ele 
sempre a vinha evitando, embora constantemente a observasse  distncia. 
Via com prazer a sua gravidez avanando, sabendo que, em breve, ela seria 
me, e imaginava, que o filho que ela carregava tinha o esprito dele. 
Qualquer homem podia fantasiar que uma ou outra mulher grvida carregava 
o filho do seu esprito, e, ocasionalmente, a maioria imaginava se isso era 
possvel em relao a uma mulher em particular, mas o sonho de Brukeval 
era uma obsesso. s vezes,  noite, ele ficava acordado fantasiando toda 
uma vida com Ayla, quase sempre imitando aquilo que, dissimuladamente, ele 
a via fazendo com Jondalar, mas, ao se defrontar com ela na trilha, no 
soube o que dizer. Naquele instante, no houve como evit-la.
        - Brukeval - exclamou ela, tentando sorrir. - Eu estava mesmo 
querendo falar com voc.
        - Bem, aqui estamos ns - disse ele.
        Ela se apressou adiante. - Eu s queria que soubesse que, naquela 
reunio, no tive a inteno de insult-lo. Jondalar me contou que caoavam 
de voc, por causa dos cabeas-chatas, at fazer as pessoas pararem com 
isso. Admito o fato de voc ter se imposto e feito as pessoas pararem de 
cham-lo disso. Voc no  cabea-chata...um do Cl. Ningum nunca devia 
t-lo chamado disso. Nem mesmo conseguiria viver com eles. Voc  um dos 
Outros, como todos os Zelandonii.  assim que eles o veriam.
A expresso dele pareceu suavizar.
        - Alegro-me por voc reconhecer isso - mencionou.
        - Mas precisa ter em mente que, para mim, eles so gente - apressou-
se em indicar. - No poderiam ser animais. Nunca pensei neles de outra 
maneira. Eles me encontraram, sozinha e ferida, me acolheram, cuidaram de 
mim e me criaram. Eu hoje no estaria viva, se no fosse por eles. Trata-se 
de um povo admirvel. No me dei conta de que voc podia considerar um 
insulto a sugesto de que a sua av talvez tivesse vivido com eles, quando se 
perdeu e ficou sumida por tanto tempo, e que podem, tambm, ter cuidado 
dela.
        Bem, creio que voc no podia saber disso - concedeu, sorrindo.
        Ela devolveu o sorriso, sentindo-se aliviada, e tentou tornar a sua 
explicao mais clara.
        -  que voc me lembra algumas pessoas de quem eu gosto. Foi por 
isso que, desde o incio, me senti atrada por voc. Conheci um menino, a 
quem eu amava, e voc me lembra ele...
        - Espere! Continua dizendo que acha que eles so parte de mim? 
Pensei que tivesse dito que no sou um cabea-chata - protestou Brukeval.
        - Voc no . Nem mesmo Echozar . S porque a me dele era do Cl, 
no quer dizer que ele seja. Ele no foi criado por eles, nem voc...
        - Mas voc ainda acha que a minha me era uma abominao. Eu j lhe 
disse: ela no era! Nem a minha me ou a minha av tm algo a ver com eles. 
Nenhum desses animais sujos tm algo a ver comigo, est ouvindo? - gritava, 
e o rosto estava vermelho de raiva. - Eu no sou um cabea-chata! S porque 
voc  foi criada por esses animais, no pense que pode me depredar.
        Lobo rosnou para o homem nervoso, prestes a saltar para defender 
Ayla. O homem parecia querer machuc-la.
        - Lobo! No! - ordenou. Ela novamente tinha estragado tudo. Por que 
no parou quando ele estava sorrindo? Mas ele no precisava ter chamado o 
Cl de "animais sujos", pois eles no eram isso.
        - Suponho que voc deve achar que esse lobo tambm  humano - 
escarneceu Brukeval. - Voc nem mesmo sabe a diferena entre gente e 
animais. No  natural um lobo agir do modo como ele age diante das pessoas. 
        - Ele no percebia o quanto estava perto das presas de Lobo, com a 
sua gritaria, mas talvez no lhe importasse. Brukeval estava fora de si. - 
Deixe que eu lhe diga uma coisa: se aqueles animais no tivessem atacado a 
minha av, ela no teria ficado to apavorada e dado  luz a uma mulher 
fraca, e a minha me teria vivido para cuidar de mim, me amar. Aqueles 
cabeas-chatas imundos mataram a minha av e a minha me tambm. Eles 
no servem para nada. Todos deviam estar mortos, como a minha me. No 
ouse me dizer que eles tm algo a ver comigo. Se pudesse, mesmo mataria 
todos eles.
        Ele avanava para cima de Ayla, enquanto gritava, fazendo-a recuar 
na trilha. Ela segurava Lobo pelo plo do pescoo, para evitar que ele 
atacasse o homem raivoso.
        Finalmente, Brukeval passou por ela, empurrando-a para o lado e 
disparou enfurecido trilha abaixo. Ele nunca ficara to zangado. No apenas 
por Ayla ter atribudo cabeas-chatas  sua linhagem, mas porque, em sua 
ira, deixara escapar os seus mais ntimos sentimentos. Mais do que tudo, ele 
quisera ter tido uma me, para correr para ela quando os outros caoavam 
dele. Mas a mulher qe herdou Brukeval, juntamente com as posses de sua 
me, no teve nenhum amor pelo beb a quem amamentou com relutncia. Ele 
era um fardo para ela, que o considerava repulsivo. Ela tinha vrios filhos 
seus, inclusive Marona, o que tornou mais fcil ignor-lo. No foi, porm, 
uma me nem mesmo para os prprios filhos, e, com ela, Marona aprendeu o 
seu jeito duro e insensvel.
        Ayla tremia. Agora tinha mesmo estragado tudo. Tentou se recompor,
enquanto subia aos tropees a trilha em direo  habitao da Zelandoni. 
A mulher ergueu a vista para ela, quando passou pela entrada, e de imediato 
percebeu que havia algo gravemente errado.
        - O que foi, Ayla? Parece at que voc viu um esprito mau - observou
ela.
        - Oh, Zelandoni, acho que vi mesmo. Acabo de me encontrar com 
Brukeval. - falou, chorosa. - Tentei lhe dizer que no pretendi insult-lo, 
naquela reunio, mas sempre pareo dizer a coisa errada para ele.
        - Sente-se e conte-me tudo - mandou a Zelandoni.
        Ela explicou o que aconteceu durante o encontro na trilha. A 
Zelandoni ficou calada, depois que Ayla lhe contou tudo, e ento preparou-
lhe um ch. Ayla se acalmou; falar sobre aquilo tinha ajudado.
        - H muito tempo venho observando Brukeval comeou a Zelandoni, 
aps alguns instantes. - Existe uma fria dentro dele. Deseja agredir o 
mundo que lhe causou tanta dor. Resolveu colocar a culpa nos cabeas-
chatas, o Cl. Ele os v como a raiz de seu tormento. Odeia tudo relacionado 
a eles, e qualquer um que tenha algo a ver com eles. A pior coisa que voc 
poderia ter feito foi sugerir que Brukeval, de alguma forma, tem um 
parentesco com eles.  lamentvel, Ayla, mas receio que tenha feito um 
inimigo. Agora, no tem mais jeito.
        - Eu sei. Pude perceber. Por que as pessoas os odeiam tanto? O que h 
de to terrvel com eles? - questionou Ayla.
        A mulher olhou para ela, refletindo, e ento se decidiu. - Quando falei, 
na reunio, que tinha feito uma profunda meditao para relembrar todas as 
Histrias e Lendas dos Antigos, foi realmente verdade. Usei toda lembrana 
e auxlio de memria que conheo para trazer de volta tudo o que eu havia 
memorizado. Talvez seja algo que eu deva fazer mais vezes, pois  
esclarecedor. Eu acho que o problema, Ayla,  que nos mudamos para as 
terras deles. No incio no foi to ruim. Havia uma poro de espao, muitos 
abrigos vazios. No era difcil dividir a terra com eles. Costumavam se 
resguardar, e ns os evitvamos. Na poca, no os chamvamos de animais, 
apenas de cabeas-chatas. O termo era mais descritivo do que depreciativo 
- justificou-se.
        - Mas, com o passar do tempo, e mais crianas nascendo, precisamos 
de mais espao. Algumas pessoas comearam a tomar os abrigos deles, por 
vezes brigando com eles e por vezes matando-os. Nessa ocasio, j vivamos 
aqui havia bastante tempo, e este tambm era o nosso lar. Os cabeas-
chatas podiam ter estado aqui primeiro, mas precisvamos de lugar para 
viver, e portanto tomamos os deles.
        - Quando as pessoas tratam outras muito mal, elas precisam 
racionalizar isso para poderem continuar vivendo consigo mesmas. Ns nos 
desculpamos. A desculpa que usamos foi a de que a Grande Me nos deu a 
terra para o nosso lar, "a gua, a terra, e toda a Sua criao". Ou seja, 
todas as Suas plantas e animas so para ns usarmos. Ento, convencemos a 
ns mesmos que os cabeas-chatas eram animais, e, como eram animais, 
podamos tomar os seus abrigos para ns - afirmou a Zelandoni.
        - Mas no so animais, so gente - insistiu Ayla.
        - Sim. Voc est certa, mas, convenientemente, esquecemos isso. Ela 
tambm disse que a Terra  a nossa "casa para usar, mas no para abusar".
         Se Ela mistura os espritos deles com os nossos, eles tambm devem 
ser gente. Mas no creio que tivesse feito muita diferena o fato de 
acharmos que eram gente ou no. Acredito que teramos feito isso, de 
qualquer maneira.
        Donni tornou mais fcil para outras criaturas vivas matarem, a fim de
que elas possam viver. No creio que o seu lobo se preocupe com os coelhos
que ele mata para sobreviver. Sem os coelhos, ele no sobreviveria, e Doni
deu a cada ser vivo o destino de continuar vivendo - salientou a donier.
        - Aos humanos, porm, foi dada a habilidade de pensar.  isso que nos
faz aprender e progredir. E tambm  o que nos d o conhecimento de que a 
cooperao e o entendimento so necessrios para a nossa prpria 
sobrevivncia, e isso tem levado  empatia e  compaixo, mas h outro lado 
desse tipo de sentimento. A empatia e a compaixo que sentimos pela nossa 
prpria espcie s vezes se estendem para o resto das coisas vivas na terra. 
Se permitssemos que isso evitasse o abate de um veado, ou de outros 
animais, no viveramos. O desejo de viver  o sentimento mais forte, e  
por isso que aprendemos a ser seletivamente compassivos. Achamos meios 
de fechar as nossas mentes. Limitamos o nosso senso de empatia. - Ayla 
ouvia atentamente, fascinada.
        - O problema  saber o quanto deter esses sentimentos, sem 
deturp-los. . Na minha opinio, acho que esse, na verdade,  o cerne da 
preocupao de Joharran em relao ao conhecimento que voc nos trouxe, 
Ayla. Enquanto a maioria pensava que o seu Cl eram apenas animais, 
podamos mat-los sem nenhuma considerao.  mais difcil matar gente. A 
empatia  muito mais forte do que o poder da mente em inventar novos 
motivos. Mas, se conseguirmos, de algum modo, vincular isso  nossa prpria 
sobrevivncia, a mente far desvios e curvas tortuosos necessrios para 
racionalizar. Ns somos muito bons nessa coisa. Entretanto isso muda as 
pessoas. Elas aprendem a odiar. 
        O seu lobo no precisa odiar aquilo que ele mata. Seria mais facil, se 
pudessemos matar sem sentimento de culpa, como o seu lobo faz, mas, ento, 
no seramos humanos.
        Ayla pensou um momento no que disse a Zelandoni.
        - Agora eu entendo por que voc  a Primeira Entre Aqueles Que 
Servem  Me.  difcil matar. Sei o quanto  difcil. Eu me lembro do 
primeiro animal que matei com a minha funda. Foi um porco-espinho. Me 
senti to mal, que no quis caar novamente por muito tempo, e ento tive 
que achar um motivo. Resolvi matar apenas carnvoros, porque, s vezes, eles 
roubavam carne dos caadores e porque matavam os mesmos animais de que 
o Cl necessitava para se alimentar.
        - Trata-se da verdadeira perda da inocncia, Ayla, quando 
entendemos o que precisamos fazer para viver.  por isso que a habilidade 
de matar de um jovem 
        otima pessoa em um adulto. A primeira caada  a mais difcil, e  
mais do que a superao do medo. Um homem e uma mulher precisam 
mostrar que conseguem sobreviver, que podem fazer o que  preciso para 
viver.  esse tambm o motivo por que fazemos certas cerimnias para 
homenagear os espritos dos animais que matamos.  uma maneira de honrar 
 Doni. Precisamos lembrar e reconhecer que a vida deles  dada para que 
possamos viver. Caso contrrio, os humanos podem se tornar insensveis 
demais, e isso pode se voltar contra ns.
        - Precisamos sempre mostrar reconhecimento pelo que recebemos, 
precisamos, tambm, homenagear os espritos das rvores e plantas e 
outros alimentos que crescem do cho. Precisamos, enfim, tratar com 
respeito todos os Dons Dela. Ela pode se irritar, se a ignorarmos, e pode 
tomar de volta a vida que Ela nos d. Se esquecermos a Grande Me Terra, 
Ela no mais prover para ns, e se a Grande Me resolver virar as Suas 
costas para os Seus filhos, ns no teremos mais um lar.
        - Zelandoni, voc me lembra Creb, em vrios aspectos. Ele era 
bondoso e eu o amava, porm, mais do que isso, ele entendia as pessoas. Eu 
sempre podia recorrer a ele. Espero que no veja isso como insulto. No  a 
minha inteno - frisou Ayla.
        A Zelandoni sorriu.
        - No, claro que no me sinto insultada. Eu gostaria de t-lo 
conhecido. E, Ayla, espero que saiba que sempre poder recorrer a mim.
        Ayla meditou sobre a conversa com a Zelandoni, enquanto se 
preparava para moer o ocre vermelho. Mas, assim que comeou o rduo 
trabalho de esmagar os grumos de minrio de ferro, usando a pedra 
arredondada contra uma outra achatada e na forma de um pires, ela tentou 
mergulhar no trabalho para esquecer o incidente com Brukeval. O esforo 
ajudou a aliviar a tenso, a atividade fsica repetitiva deixou livre a sua 
mente, e a Zelandoni tinha lhe dado muitos motivos para pensar. Ela tem 
razo, pensou Ayla. Acho que tornei Brukeval num inimigo. Mas o que posso 
fazer agora? O que est feito est feito. No creio que jamais haja algo que 
eu possa fazer. Ele vai acreditar no que quiser acreditar, no importa o que 
eu faa ou diga.
        No ocorreu a Ayla mentir e dizer a ele que ela no achava que ele 
tivesse a aparncia do Cl. No era verdade. Ela achava que ele era um 
mestio. Comeou a pensar na av de Brukeval. A mulher que se perdera. Ao 
ser encontrada, disse que fora atacada por animais, mas os animais a que ela 
se referia deviam ser os tais a quem chamou de cabeas-chatas. Eles deviam 
t-la achado, caso contrrio como poderia ter sobrevivido? Mas, se a 
acolheram e a alimentaram, devem ter esperado que ela trabalhasse, como 
as suas prprias mulheres. E, ento, qualquer homem do Cl pensaria que 
podia us-la para aliviar as suas necessidades. Se ela recusou, algum pode 
t-la forado, do mesmo modo que Broud forou Ayla. Era impensvel para 
uma mulher do Cl resistir. Ela seria colocada em seu lugar.
        Ayla tentou imaginar de que modo uma mulher nascida Zelandonii 
reagiria a uma situao como essa. Para os Zelandonii, aquele era o Dom do 
Prazer da Grande Me Terra, e nunca devia ser forado. Era para ser 
compartilhado mas somente quando o homem e a mulher quisessem. Sem 
dvida, a av de Brukeval deve ter considerado aquilo um ataque. Qual seria 
a sensao de ser atacada por algum que voc considerava um animal? Ser 
forada a compartilhar o Dom do Prazer com tal criatura? Seria o bastante 
para afetar a mente? Talvez. As mulheres Zelandonii no estavam 
acostumadas a ser mandadas. Eram independentes to independentes 
quanto os homens.
        Ayla parou de moer a pedra vermelha. Tinha de ser verdade o fato de 
um homem do Cl ter forado a av de Brukeval a copular com ele, pois ela 
engravidou, e foi isso que comeou a vida que cresceu dentro dela. E, como 
resultado, a me de Brukeval nasceu. Ela era fraca, segundo Jondalar. Rydag 
tambm era fraco. Talvez houvesse algo na mistura, que s vezes produzia 
fraqueza na cria.
        O seu Durc, porm no era fraco, e Echozar no era fraco. Nem o 
eram e S'Armunai. Estes no eram fracos, e muitos tinham a aparncia do 
Cl. Talvez os fracos morressem jovens como Rydag, e apenas os fortes 
sobrevivessem. Seriam os S'Armunai o resultado de tal mistura que 
comeou muito tempo atrs? Eles no se importavam com mestiagem, 
talvez porque estivessem acostumados a isso. Pareciam gente normal, mas 
possuam algumas caractersticas do Cl.
        Teria sido por isso que o parceiro de Attaroa tentou dominar as 
mulheres antes de ela mat-lo? Seria por causa de algo que os homens do 
Cl pensavam que a mulheres transmitissem, como alguns de seus traos? Ou 
seria por causa de algo que descobriu quando viveu com eles? Mas havia 
muita coisa boa com relao aos S'Armunai. Bodoa, a S'Armuna, descobrira 
como tirar argila de um rio e as tratar para transform-la em pedra, e o seu 
aclito era um excelente entalhador. Echozar, ele era mesmo muito especial. 
Os Lanzadonii, do mesmo modo que os Zelandonii, acham que foi a mistura 
dos espritos que lhe deu a aparncia de ambas espcies de gente, visto que 
a me dele fora atacada por um dos Outros.
        Ayla retomou a moagem da pedra. Que ironia, pensou. Brukeval odeia 
o povo que iniciou a vida que lhe deu origem. So os homens que iniciam a 
vida que cresce dentro de uma mulher, tenho certeza disso. Os dois so 
necessrios. No admira que a Caverna dos S'Armunai estivesse se 
extinguindo quando Attaroa era sua lder. Ela no podia forar os espritos 
das mulheres a se misturarem para criar vida. As nicas mulheres que 
tinham bebs eram aquelas que,  noite, saam furtivamente para visitar os
seus homens.
        Ayla pensou na vida que crescia dentro de si. Seria o beb de 
Jondalar tanto quanto dela. Tinha certeza de que ele comeou depois que os 
dois desceram da geleira. Ela no tinha feito o seu ch especial, e estava 
certa de que era isso que vinha evitando que a vida nascesse dentro dela 
durante a longa Jornada. A ltima vez que sangrou foi pouco antes de ela e 
Jondalar comearem a travessia da geleira. Ficou contente por no ter 
enjoado muito durante aquele perodo. No foi como quando engravidou de 
Durc. Ao que parecia, crianas mestias eram mais difceis para as mulheres, 
e para alguns bebs. Desta vez, ela se sentia tima a maior parte do tempo, 
mas ser que teria uma menina ou um menino? E o que teria Huiin?
        A Nona Caverna construiu um refgio para os cavalos sob o alapado, 
na parte menos utilizada, ao sul, perto da ponte do Rio Abaixo. Ayla 
perguntara a Joharran se algum faria objeo se ela e Jondalar 
construssem algo para proteger os animais. Ela esperava fazer algo simples, 
apenas para evitar que eles fossem atingidos pela chuva e pela neve. Em vez 
disso, depois que Joharran convocou uma reunio na Pedra do 
Pronunciamento, para saber a opinio das pessoas, todos decidiram se 
envolver no trabalho e fazer uma habitao de verdade para eles, com 
paredes baixas de pedra e placas acima, para proteg-los do vento. Mas no 
havia cortinas na entrada e nenhum cercado para cont-los.
        Os cavalos sempre tiveram liberdade para ir e vir  vontade. Huiin 
tinha repartido com Ayla a caverna no vale, e ambos os cavalos estavam 
acostumados ao abrigo que o povo do Acampamento do Leo construra para 
eles em sua casa longa. Assim que Ayla mostrou o lugar a Huiin e Racer, 
alimentou-os com capim seco e aveia e lhes deu gua, pareceram saber que 
aquilo era deles. Pelo menos, voltavam freqentemente para l, usando o 
caminho mais direto, vindo da beira do Rio, que ficava nas proximidades. 
Raramente utilizavam a trilha do Vale do Rio do Bosque e atravessavam a 
movimentada salincia diante da rea das habita es, a no ser que Ayla os 
conduzisse.
        Aps a construo do abrigo, Ayla e Jondalar decidiram fazer um 
bebedouro de madeira, uma caixa quadrada talhada, ao estilo dos 
recipientes dos Xaramudi, e, quando comearam, todos ficaram 
interessados. Demorou alguns dias, mesmo contando com vrios ajudantes - 
e muito mais observadores. Primeiramente, tiveram de encontrar a rvore 
adequada, e se decidiram por um alto pinheiro que havia no meio de um 
denso renque. A proximidade de outras rvores fazia com que cada uma 
delas crescesse bem alto, para receber a luz do sol, com poucos galhos 
inferiores, o que evitava ns no tronco. 
        A rvore teve de ser derrubada com machados de slex, uma tarefa 
em si no muito fcil. Um machado de slex no cortava muito fundo. Assim, 
eles comearam na parte de cima, removendo muitas lascas e finos pedaos, 
 medida que trabalhavam no tronco em um ngulo pouco profundo. O toco 
remanescente parecia ter sido mastigado por um castor. A rvore precisou 
ser cortada novamente, logo depois da parte inferior dos galhos mais baixos. 
A parte de cima no seria desperdiada; entalhadores e fabricantes de 
ferramentas j estavam de olho na rica madeira, e as lascas seriam usadas 
para alimentar fogueiras. Uma gamela para os cavalos se alimentarem 
tambm foi feita da mesma rvore. Seguindo a tradio dos Xaramudi, 
sementes de pinha foram plantadas prximo  rvore abatida, em 
agradecimento  Grande Me. A Zelandoni ficou bastante impressionada 
com a cerimnia simples.
        A seguir, eles demonstraram como extrair pranchas de madeira do 
tronco, utilizando cunhas e malhos As tbuas resultantes, estreitando-se da 
ponta em direo ao centro, tiveram muitos usos, inclusive como prateleiras 
As caixas entalhadas eram uma idia engenhosa. Usando um buril de slex, 
ou ferramenta semelhante tipo talhadeira, eles cortaram uma prancha para 
formar uma comprida fatia com as pontas retas. As pontas retas foram 
ento chanfradas ao longo de sua borda. Em trs medidas com a mesma 
distncia uma da outra, cortaram incises de cima abaixo da prancha de 
madeira, sulcos na forma de cunha, sem atravess-la. Com a ajuda de vapor, 
a prancha foi dobrada nos trs sulcos, com o lado no cortado virado para 
fora, permitindo que as beiras afuniladas dos sulcos se encontrassem na 
parte interna, para formar uma caixa retangular. Com uma broca de slex, 
foram feitos vrios buracos nas pontas retas e chanfradas. Uma esfregao 
com areia e pedra deu  prancha um acabamento liso.
        Para o fundo, outro pedao de madeira foi aplainado e moldado com 
facas e pedras de polir, para se ajustar na parte de dentro, e encaixar em 
um sulco feito por toda a volta da parte interna inferior da caixa. Depois de 
tudo moldado e manipulado, as pontas retas e chanfradas que formaram o 
quarto canto da caixa foram presas com cavilhas enfiadas nos orifcios 
previamente furados. No incio, havia um vazamento, mas, aps ficar 
ensopada com a gua, a madeira inchava e deixava a caixa impermevel, o 
que a tornava um timo recipiente para lquidos ou gorduras, e, utilizando-se 
pedras quentes, um eficiente vaso para se cozinhar. Tambm era um timo 
recipiente para conter gua e alimentos para os cavalos. Era provvel que 
mais caixas fossem feitas no futuro.
        Marthona observou Ayla subir a trilha, as bochechas vermelhas e 
exalando vapor com cada respirao no frio. Ela usava mocassins com sola 
grossa, presos a gspeas que envolviam as panturrilhas sobre as suas 
perneiras de pele, e vestia a parka com revestimento de pele, que lhe fora 
dada pela me de Matagan. O casaco no escondia a sua bvia gravidez, 
principalmente por causa do cinturo, que ela usava bem acima, do qual 
pendiam a sua faca e algumas bolsinhas. O capuz estava jogado para trs, e 
o cabelo, preso convenientemente em um coque, mas fios soltos eram 
fustigados pelo vento.
        Ela ainda usava a sua bolsa Mamuti, em vez da de estilo Zelandonii, e 
estava cheia de alguma coisa. Acostumara-se ao bornal, a sacola usada a 
tiracolo, e normalmente a levava quando saa em curtas viagens. Deixava-lhe 
um ombro livre para carregar as suas presas. No momento, trs ptrmigas 
brancas, amarradas juntas pelos ps emplumados, vinham penduradas no 
outro ombro, atrs das costas, equilibradas na frente por duas lebres 
brancas de bom tamanho.
        Lobo vinha logo atrs. Ela costumava lev-lo, quando saa. Ele no s 
era bom em enxotar aves ou pequenos animais, mas tambm lhe mostrava 
onde haviam cado na neve as aves e as lebres brancas.
        - No sei como consegue, Ayla - comentou Marthona, ficando de p a 
seu lado, quando ela alcanou a varanda de pedra. - Quando eu estava desse 
tamanho, me sentia grande e desajeitada, e nem mesmo pensava em caar, 
mas voc continua saindo, e quase sempre traz alguma coisa.
        Ayla sorriu.
        - Eu me sinto grande e desajeitada, mas no requer muita coisa atirar 
um basto ou disparar uma pedra com a funda, e Lobo me ajuda mais do que 
se pode imaginar. Dentro de pouco tempo, terei que ficar em casa.
        Marthona sorriu para o animal que caminhava vagarosamente entre as 
duas. Embora ela tivesse ficado preocupada com ele, quando foi atacado 
pelos outros lobos, gostou bastante de sua orelha ficar ligeiramente 
pendente. Pelo menos, isso fazia com que ele fosse reconhecido com mais 
facilidade. Ficaram esperando, enquanto Ayla largava a caa, defronte  
rea de sua habitao, sobre um bloco de calcrio que algumas vezes era 
usado como lugar para se colocar coisas, e outras vezes para se sentar.
        - Nunca fui muito boa em caar animais de pequeno porte - lamentou 
Marthona -, exceto com um lao ou armadilha. Mas houve uma poca em que 
eu gostava de sair com um grupo para uma grande caada. J faz tanto 
tempo que no cao, que acho que esqueci como se faz, mas eu tinha um bom 
olho para rastrear. No enxergo mais to bem assim.
        - Olhe o que mais eu encontrei - disse Ayla, tirando do ombro a 
bojuda sacola, para mostrar a Marthona. - Mas! - ela havia encontrado 
uma macieira, desguarnecida de folhas, mas ainda enfeitada com pequenas e 
reluzentes mas, agora menos duras e cidas, depois da friagem, e enchera 
o bornal com elas.
        As duas mulheres caminharam na direo do abrigo dos cavalos. Ayla 
no esperava encontr-los l, no meio do dia, mas olhou o recipiente que 
continha a gua deles. 
        No inverno, quando a temperatura baixava ao nvel de congelamento, 
por longos perodos de tempo, ela derretia gua para eles, embora, na 
natureza, cavalos soubessem se defender muito bem. Colocou vrias mas 
na gamela.
        Em seguida, foi at a beira da salincia de pedra, e olhou para baixo, 
em direo ao Rio, margeado de rvores e arbustos. No viu os cavalos, mas 
assobiou o sinal caracterstico ao qual eles tinham sido treinados para 
responder, esperando que estivessem perto o bastante para ouvi-lo. No 
demorou muito para ela ver Huiin subindo a trilha ngreme, seguida por 
Racer. Lobo esfregou o focinho de Huiin, quando esta alcanou a salincia, 
uma saudao que parecia quase formal. Racer rinchou para ele, e recebeu 
em troca um alegre latido e um esfrego de focinho.
        Toda vez que testemunhava essa clara evidncia do controle de Ayla 
sobre os animais, Marthona ainda achava difcil acreditar. Ela se acostumara 
com Lobo, que vivia perto das pessoas e lhe obedecia. Os cavalos, porm, 
eram mais ariscos, no to amigveis, e no pareciam to domesticados, a 
no ser perto de Ayla e  Jondalar, e eram mais como os animais selvagens 
nativos que ela havia caado.
        A jovem mulher emitiu os sons, que Marthona a ouvira usar antes com 
os cavalos, ao afag-los e co-los, e depois os conduziu para o abrigo. 
Achava que isso era a linguagem de cavalos de Ayla. Esta pegou uma ma 
para cada, e e cavalos comeram das suas mos, enquanto continuava a 
conversar com eles daquele modo esquisito.
        Marthona tentou distinguir os sons que ela fazia. No era exatamente 
uma linguagem, deduziu. Havia, porm, uma impresso semelhante em 
algumas das palavras que Ayla usara ao demonstrar a lngua dos cabeas-
chatas.
        - Voc est ficando barriguda, Huiin - dizia Ayla, alisando a barriga 
redonda dela -, como eu. Provavelmente, vai parir na primavera, talvez no 
final dela, depois que esquentar um pouco. At l, eu j terei tido o meu 
beb. Eu adoraria dar um passeio, mas creio que j passei do limite. A 
Zelandoni disse que pode no ser bom para o beb. Eu me sinto tima, mas 
no quero arriscar. Jondalar vai cavalgar voc, Racer, quando ele voltar.
        Foi isso o que Ayla quis dizer aos cavalos, e o que ela falou em sua 
mente, embora a combinao de sinais do Cl, palavras e outros sons de sua 
linguagem particular no se traduzissem exatamente desse modo, se algum 
fosse capaz de traduzi-la. Os cavalos entendiam a voz agradvel, o toque 
caloroso e certos sons e sinais.
        O inverno chegou inesperadamente. Pequenos flocos brancos 
comearam a cair no final da tarde. Ficaram grandes e abundantes, e,  
noite, tornaram-se uma rodopiante tempestade de neve. Toda a Caverna 
respirou aliviada, quando os caadores, que tinham sado pela manh, 
chegaram  salincia, antes de escurecer, batendo os ps, com as mos 
vazias, mas a salvo.
        - Joharran decidiu voltar, ao ver os mamutes seguindo para o norte o 
mais depressa que podiam - contou Jondalar depois de cumprimentar Ayla. - 
Voc j deve ter ouvido o ditado "nunca v para o norte, quando os mamutes 
forem". Isso, geralmente, significa que a neve est a caminho, e eles seguem 
para o norte, onde o frio  maior, mas  seco, e a neve no  to profunda. 
Eles afundam na neve mole e alta. Joharran no quis arriscar, mas as nuvens 
de tempestade sopraram to depressa, que at os mamutes devem ter sido 
colhidos por ela. O vento deslocou-se para o norte, e, quando menos 
espervamos, a neve caiu com tanta fora, que mal conseguamos enxergar.
L fora, j est na altura dos joelhos.
        A nevasca durou a noite toda, o dia e a noite seguintes. No dava para 
enxergar nada, a no ser a mvel cortina branca, e nem mesmo O Rio do 
outro lado. Por vezes, a neve, colhida em uma contracorrente de ar, 
fustigava o rochedo, e, sem ter por onde escapar, ricocheteava de volta na 
direo primitiva dos ventos preponderantes, num vrtice de flocos 
turbilhonantes. Por outras vezes, quando os ventos instigantes arrefeciam, 
a neve caa direto, pesadamente, num constante movimento hipntico.
        Ayla estava grata pela aba protetora do alapado, que se estendia at 
a rea dos cavalos, apesar de, na primeira noite, ter ficado preocupada, sem 
saber se eles haviam encontrado o caminho para o abrigo, antes de a neve 
ficar muito alta. Se os cavalos tivessem encontrado outro abrigo, seu temor 
era perder todo o contato com eles, pois ficariam isolados, aprisionados pelo 
grosso manto branco de neve.
        Ficou aliviada, ao ouvir um relincho, quando se aproximou do abrigo, na 
manh seguinte bem cedo, e soltou um demorado suspiro, ao ver os dois 
cavalos, mas, ao cumpriment-los, pde perceber que estavam nervosos. Eles 
tambm no estavam familiarizados com uma camada to alta de neve. Ayla 
resolveu passar algum tempo com os cavalos, e tratar deles com escovas de 
cardo-penteador, o que costumava confort-los e a deixava relaxada.
        Mas, depois que os encontrou a salvo no abrigo, ficou imaginando onde 
estariam os cavalos selvagens. Teriam migrado para as regies mais frias e 
mais secas do norte e do leste, onde a neve no era profunda e no cobria o 
feno seco e resis tente que fornecia a sua alimentao de Inverno. Ela agora 
estava contente, por terem colhido pilhas de capim para os cavalos, e no 
apenas gros, para suplementar a forragem deles. Tinha sido idia de 
Joharran. Ele sabia o quanto a neve podia ficar alta, mas ela no. Agora, se 
perguntava se tinha colhido o suficiente. Os cavalos estavam adaptados ao 
frio, e com isso ela no se preocupava. A pelagem deles crescera basta e 
abundante, e tanto a subcamada felpuda quanto o desgrenhado 
revestimento externo protegiam os seus corpos robustos e compactos, mas 
teriam capim suficiente?
        Os invernos na terra onde vivia o povo de Jondalar eram frios, mas 
no secos. A caracterstica principal era a neve, nevascas intensas, pesadas, 
sufocantes. Ayla no via tanta neve desde que vivera com o Cl. Ela estava 
mais acostumada s secas e congeladas estepes de leste que extraam a 
umidade do ambiente, mais distante para o interior, em volta do seu vale e 
do territrio dos Caadores de Mamutes. Aqui, onde o clima estava sujeito 
s influncias martimas das Grandes guas do Oeste, a paisagem era 
conhecida como estepes continentais. O inverno era mais mido e com mais 
neve, assemelhando-se, de certa forma, ao clima do lugar onde ela crescera,
a extremidade montanhosa de uma pennsula que se projetava de um mar 
interior, distanciando-se para o leste.
        A espessa neve, empilhada no ressalto frontal, obstrua a metade 
inferior da abertura sob a salincia com uma macia barreira de neve macia, 
e reluzia durante a noite com o dourado reflexo das fogueiras do interior 
do alapado. Agora Ayla entendia por que troncos robustos eram utilizados 
na sustentao das muitas peas transversais de madeira, revestidas com 
couro, da passagem coberta que levava ao cercado externo, o qual, durante 
o inverno, era usado no lugar das valas para dejetos Na segunda manh, 
depois de a neve ter comeado, Ayla acordou diante do rosto sorridente de 
Jondalar, de p ao lado da plataforma de dormir, sacudindo-a delicadamente.
Suas bochechas estavam vermelhas do frio, e a pesada roupa externa ainda 
continha vestgios de neve no derretida. Ele tinha na mo um caneco de ch.
        - Vamos, dorminhoca, levante. Eu me lembro de quando voc 
costumava acordar bem antes de mim. Ainda sobrou alguma comida. A neve 
parou. Vista-se com algo quente e v l para fora - sugeriu. - Talvez seja 
melhor usar aquela roupa de baixo que ganhou de Marona e suas amigas.
        - Voc j esteve l fora? - perguntou, ao se sentar e pegar o ch 
quente. - Ultimamente, pareo ter necessidade de dormir mais. - Jondalar 
esperou Ayla se refrescar, fazer uma rpida refeio matinal e comear a 
se vestir, tentando no apress-la demais.
        - Jondalar, no consigo fechar a cala, por causa da barriga. E a parte 
cima no vai caber. Tem certeza que quer que eu vista esta roupa? No 
quero estica-la demais.
        - A cala  mais importante. No importa, se no conseguir fech-la 
por completo. Faa o melhor que puder. Voc vai vestir as suas outras 
roupas por cima dela. Aqui esto as suas botas. Cad a sua parka? - quis 
saber Jondalar.
        Ao deixarem o alapado, Ayla viu o radiante cu azul e a reluzente luz 
do sol baixando sobre a salincia. Muita gente, obviamente, tinha se 
levantado mais cedo. A trilha que descia para o Rio do Bosque havia sido 
desimpedida da neve acumu lada, e o cascalho de calcrio da parte de baixo 
do abrigo fora espalhado pelo declive para deix-lo menos escorregadio. De 
cada lado, as paredes de neve ficavam na altura do peito, mas, quando Ayla 
olhou na direo da regio campestre, ficou com a respirao presa.
        A paisagem estava transformada. O branco cobertor cintilante 
suavizara os contornos do solo, e o cu parecia ainda mais azul, em 
contraste com um branco to brilhante, que doa nos olhos. Fazia frio; a 
neve triturava sob os seu ps, e a respirao soltava vapores. Ela viu vrias 
pessoas na ampla plancie aluvial do outro lado do Rio.
        - Cuidado, ao descer a trilha. Pode ser perigoso. Deixe-me segurar a 
sua mo - alertou Jondalar. Chegaram  parte de baixo, atravessaram o 
pequeno rio congelado.
        Algumas pessoas, que os viram se aproximar, acenaram e foram em 
sua direo. Achei que voc no ia acordar nunca, Ayla comentou Folara. - 
Existe um lugar, aonde costumamos ir todos os anos, mas leva a metade da 
manh para se chegar l. Perguntei a Jondalar se podamos lev-la, mas ele 
disse que, atualmente,  longe demais para voc. Depois que a neve ficar um 
pouco mais comprimida, poderemos fazer um assento, para colocar num 
tren, e nos revezar para puxar voc. Na maioria das vezes, os trens so 
usados para puxar madeira, carne ou outra coisa qualquer. Quando eles no 
estiverem sendo usados para isso, po deremos utiliz-los. Ela estava toda 
animada.
        - Vamos com calma, Folara - pediu Jondalar.
        A neve era to funda, que, quando Ayla tentou caminhar por ela, 
atrapalhou se, perdeu o equilbrio e se agarrou em Jondalar, puxando-o para 
cima dela. Os dois caram sentados, cobertos de neve, gargalhando tanto, 
que no conseguiam se levantar. Folara tambm dava risadas.
        - No fique parada a berrou Jondalar. - Venha me ajudar a levantar 
Ayla. - Juntos, os dois conseguiram coloc-la novamente de p.
        Um projtil branco e redondo voou pelo espao e pousou no brao de 
Jondalar. Depois de erguer a vista e ver Matagan rindo dele, Jondalar 
apanhou um punhado de neve com ambas as mos e passou a mold-la em 
forma de bola. Jogou na direo do rapaz, a quem ele estava pensando em 
adotar como aprendiz. Matagan afastou-se, mancando, mas com alguma 
velocidade, e a bola de - neve no o alcanou.
        - Acho que chega por hoje - props Jondalar.
        Ayla tinha uma bola de neve escondida, e quando Jondalar se 
aproximou, jogou-a nele. A bola pousou no peito dele, e a neve explodiu em 
seu rosto.
        - Ento voc quer brincar, no ? - ameaou, ao colher um punhado de 
neve e tentar coloc-lo na parte de trs da parka de Ayla. Ela pelejou para 
se livrar e logo os dois estavam rolando na neve, gargalhando e tentando 
enfiar neve pelo pescoo um do outro. Quando, finalmente, se sentaram, 
estavam cobertos dos ps  cabea com a branca substncia molhada.
        Seguiram para a margem do rio congelado, fizeram a travessia e 
subiram de volta para a salincia. A caminho da sua habitao, passaram pela 
de Marthona, esta os ouviu se aproximarem.
        - Voc acha que devia levar Ayla l fora e deixar que ela se molhasse 
toda com a neve, na condio em que ela est, Jondalar? - brigou a me dele. 
        - E s ela casse, e isso fizesse o beb nascer antes do tempo?
        Jondalar pareceu chocado. Ele no tinha pensado nisso.
        - Tudo bem, Marthona - tranqilizou-a Ayla. - A neve estava macia, e 
no me machuquei nem me excedi. Eu no sabia que a neve podia ser to 
divertida! - os olhos dela cintilavam de emoo. - Jondalar me ajudou a 
descer e a subir de volta  trilha. Eu me sinto tima.
        - Mas ela tem razo, Ayla - afirmou Jondalar, cheio de 
arrependimento - Voc podia ter se machucado. Nem pensei nisso. Eu devia 
ter sido mais cuidadoso. Em breve, voc ser me.
        Depois disso, Jondalar tornou-se to solcito, que Ayla se sentia 
praticamente confinada. Ele no queria que ela deixasse a rea do alapado 
ou descesse a trilha. De vez em quando, ela ficava parada l em cima e 
olhava para baixo, um tanto melanclica, mas, depois de a barriga crescer 
tanto, fazendo com que no visse os prprios ps quando olhava para baixo, 
e se descobrir curvando-se para trs, ao caminhar, a fim de contrabalanar 
a carga que levava  frente, passou a ter muito pouco desejo de deixar a 
segurana do abrigo de pedra da Nona Caverna e ir para a neve e o frio 
gelado l de fora.
        Ficava feliz em permanecer perto do fogo, geralmente com amigos, na 
habitao dela ou deles, ou ento na movimentada rea central de trabalho 
sob o mac e pendente teto protetor, ocupando-se em fazer coisas para o 
beb que ia chegar. Ela estava totalmente ciente da vida que crescia dentro 
dela. Sua ateno estava voltada para dentro, no exatamente autocentrada, 
mas a sua rea de interesse que ficara restrita a um raio de ao menor.
        Visitava diariamente os cavalos, tratava deles e os mimava, e cuidava 
para que tivessem gua e provises adequadas. Eles tambm se encontravam 
mais inativos, apesar de descerem at O Rio, solidamente congelado, e 
atravessarem para o prado do outro lado. Cavalos eram capazes de cavar na 
neve e encontrar forragem, embora no fossem to eficientes quanto as 
renas, e o sistema digestivo deles estava acostumado a alimentos duros: a 
palha dos caules do capim amarelo congelado, casca de btula e de outras 
rvores de casca fina, e gravetos de arbustos. Mas, sob a insuladora neve 
perto dos caules aparentemente mortos de ervas, eles costumavam 
encontrar os caules basilares e princpios de brotos de uma nova vegetao 
apenas esperando para comear. Os cavalos conseguiam encontrar alimento 
suficiente para encher o estmago, mas os gros e o capim que Ayla 
fornecia os mantinham saudveis.
        Lobo saa mais do que os cavalos. A estao, que era to rdua para 
aqueles que comiam vegetao, costumava ser uma ddiva para os carnvoros. 
Ele vagava grandes distncias, e s vezes ficava fora o dia todo, mas sempre 
voltava  noite para dormir sobre a pilha de roupas velhas de Ayla. Ela 
mudou o seu leito para o cho, ao lado da plataforma de dormir, e se 
preocupava todas as noites at ele voltar, o que, s vezes, acontecia bem 
tarde. Alguns dias, ele no saa, e ficava perto de Ayla, descansando ou, 
para grande alegria dela, brincando com as crianas.
        O tempo de lazer da Caverna, durante os meses de relativa 
inatividade do inverno, era preenchido com cada qual ocupando-se com o seu 
ofcio. Embora s vezes sassem para caar, procurando particularmente a 
rena, por causa de sua rica fonte de gordura, armazenada at mesmo no 
interior dos ossos desse animal adaptado ao frio, havia comida suficiente 
estocada para sustent-los, e um suprimento mais do que adequado de 
madeira para mant-los aquecidos, fornecer iluminao e cozinhar os 
alimentos. Durante todo o ano, os vrios materiais de que necessitavam para 
o seu trabalho eram coletados e guardados para esse perodo. Era o tempo 
de curar o couro, amaci-lo, dar-lhe cor e um polimento para ficar brilhante, 
ou um acabamento para deix-lo impermevel, tempo de fabricar roupas e 
depois enfeit-las com contas e bordados. Faziam-se cintures e botas, e 
tambm fechos, geralmente decorados com entalhes. Tambm era tempo de 
aprender um novo ofcio ou aperfeioar uma habilidade.
        Ayla ficou fascinada com o processo de tecelagem. Observou e ouviu 
com ateno, quando Marthona falou a respeito. As fibras dos animais, que 
trocavam de pele na primavera, eram apanhadas em arbustos espinhentos, 
ou mesmo do solo, e guardadas at o inverno, quando havia tempo para se 
fazerem coisas. Havia sempre disponvel grande quantidade de vrios tipos 
de fibras, tais como a l de muflo, o carneiro selvagem de chifres enormes, 
e de bice, a cabra selvagem escaladora de montanhas, que podia ser tecida 
como feltro. A quente e felpuda subpelagem, que crescia em cada outono 
prximo  pele, abaixo do plo externo desgrenhado de vrios animais, 
inclusive do mamute, do rinoceronte e do boi almiscarado, era a favorita, 
por causa de sua maciez. O plo comprido e spero de animais, que era mais 
permanente, s era retirado depois de eles estarem mortos, como, por 
exemplo, o plo exterior de animais lanudos, e as longas caudas dos cavalos. 
Tambm eram utilizadas as fibras de muitas variedades de plantas. Tais 
fibras eram convertidas em cordes, cordas e fios finos, os quais podiam 
ser deixados na cor natural ou tingidos, e depois tecidos e transformados 
em roupas ou esteiras, mantas, ou tapetes de pendurar, para conter 
correntes de ar e cobrir frias paredes rochosas. 
        Tigelas eram cortadas de madeira, e depois moldadas, polidas, 
pintadas e entalhadas com desenhos. Cestos de todas as formas e tamanhos 
eram tranados. Jias eram fabricadas com contas feitas de marfim, 
dentes de animais, conchas e pedras incomuns. Marfim, ossos, galhadas e 
chifres eram moldados e entalhados, transformando-se em pratos e 
travessas, empunhaduras para facas, pontas para lanas, agulhas para cerzir, 
e muitas outras ferramentas, utensilios e objetos decorativos. Figuras de 
animais eram entalhadas com carinhosa ateno aos detalhes, por si s ou 
para decorar outros objetos feitos de qualquer coisa capaz de ser esculpida, 
madeira, osso, marfim ou pedra. Figuras femininas, as donii, tambm eram 
esculpidas. At mesmo as paredes do abrigo eram entalhadas e pintadas.
        O inverno era, ainda, poca de praticar talentos e se divertir. Eram 
produzidos e tocados instrumentos musicais, principalmente os de percusso, 
com um som interessante, e flautas meldicas. Executavam-se danas, 
cantavam-se msicas e contavam-se histrias. Alguns preferiam esportes 
mais sedentrios, como luta corporal e prtica de arremesso ao alvo de 
vrios tipos, e muitos se dedicavam a jogos e apostas de todas as espcies.
        Aos jovens ensinavam-lhes determinadas habilidades bsicas 
necessrias, e sempre havia alguem disposto a orientar quem tivesse uma 
inclinao ou revelasse aptido para alguma atividade especializada. Havia 
uma trilha j bastante gasta entre a Nona Caverna e o Rio Abaixo, e muitos 
artesos, em viagem para as sua casas, a fim de ficar algum tempo por l, 
costumavam passar algumas noites na Nona Caverna.
        A Zelandoni ensinava as palavras de contar a quem quisesse conhec-
las, e as Histrias e as Lendas do povo, mas raramente tinha algum tempo 
livre disponvel. As pessoas pegavam resfriado, tinham dor de cabea, dor 
de ouvido, dor de barriga e dor de dente; as dores e os incmodos da 
artrite e do reumatismo eram mais penosos durante a estao fria; e havia 
outras doenas srias. Alguns morriam e, durante o inverno, os corpos eram 
colocados nas frias entradas de certas cavernas, onde permaneciam at a 
primavera, j que a neve e o solo congelado impediam o enterro em 
cemitrios ao ar livre. s vezes, se bem que raramente, eram deixados l.
        E nascia gente. O solstcio de inverno havia passado. A Zelandoni 
explicou a Ayla que a posio, onde o sol desaparecia no horizonte, ficava  
extrema esquerda dele, e continuava assim por vrios dias, at que, 
imperceptivelmente, mudava de volta para a direita a posio em que se 
punha. Era a ocasio para um festim, uma cerimnia e um festival para 
marcar o ponto da mudana e para acrescentar um pouco de movimento aos 
dias tranqilos.
        Dali em diante, com a passagem de cada dia, o sol continuava a se pr 
 direita, at o solstcio de vero, quando atingia o ponto mais extremo 
desse lado e parecia ficar por l alguns dias, O espao da metade do dia, 
entre os dois, marcava os equincios, o incio da primavera, e, no caminho de 
volta, o incio do outono. A Zelandoni apontou para uma depresso existente 
nas colinas no horizonte que marcava os pontos mdios. Ela usava as palavras 
de contar e fazia um entalhe num pedao achatado de uma galhada, e Ayla 
achava fascinante a informao. Ela gostava de aprender esse tipo de coisa.
        No rigor do inverno, a poca mais fria, dolorosa e severa do ano, a 
neve impedia os alegres passeios. Mesmo uma rpida ida l fora, para 
apanhar carne congelada ou trazer madeira, podia ser uma experincia 
penosa. Os marcos de pedras, sobre os esconderijos de vveres e as adegas 
geladas, congelavam e grudavam umas nas outras, e havia a necessidade de 
quebr-las. Os legumes e frutas, das adegas rasas, h muito tinham sido 
transferidos para buracos revestidos com pedras, localizados no fundo do 
abrigo, mas eram necessrios um olho vigilante e muitos laos e armadilhas 
para evitar que os pequenos animais pegassem uma poro grande demais. 
Pequenos roedores, em particular, sobreviviam muito bem do trabalho rduo 
dos humanos, e sempre conseguiam compartilhar as cavernas com eles. Uma 
das brincadeiras que as crianas faziam era jogar pedras nas pequeninas nas 
velozes criaturas. E isso era incentivado pelos adultos. Uma pedra lanada 
com fora podia matar uma delas. A brincadeira no apenas era mais um 
elemento na contnua batalha contra essa praga voraz, como tambm dava s 
crianas alguma experincia a fim de obterem a preciso necessria para se 
tornarem caadores eficientes e alguns dos jovens desenvolviam uma 
pontaria e tanto. Ayla passou a usar a funda, para esse fim, e logo estava 
ensinando as crianas a usarem a sua arma favorita. Lobo tambm mostrou 
ser um valioso trunfo no esforo de se manter reduzida a populao
de roedores. As adegas de vegetais do lado de fora pareciam estar livres 
dessa praga, e a comida era armazenada nelas o tempo que fosse possvel. 
Quando, porm, o rigor do inverno ameaava destruir o frescor desses 
alimentos, eles eram levados para dentro. Depois de congelados, a maioria 
dos vegetais era apenas era utilizada cozida, assim como a maior parte dos 
alimentos secos.
        Ayla vinha sentindo um sbito aumento de energia nos ltimos dias. 
Sentia-se cada vez mais desconfortvel  medida que a barriga crescia, e de 
vez em quando era dada a acessos de choro e outras exploses emocionais, 
que afligiam Jondalar. O ativo beb s vezes a acordava  noite, e ela tinha 
dificuldade em se erguer com elegncia de sua costumeira posio sentada 
no cho com as pernas cruzadas, ela que sempre conseguia se levantar do 
cho com graciosidade.
        Ao se aproximar o momento, aumentavam os seus temores de parir, 
mas logo passou a ficar to ansiosa para ter o beb, que estava at mesmo 
disposta a enfrentar o parto.
        A Zelandoni tinha certeza de que o seu momento estava prximo. Ela 
dissera a Ayla: "A Grande Me Terra, em Sua sabedoria, tornou 
desconfortveis, de propsito, os ltimos dias da gravidez, a fim de que as 
mulheres resolvam o temor do parto s para se livrarem logo disso."
        Ayla acabara de ajeitar e rearrumar tudo para o beb, e depois, 
novamente tudo o mais em sua habitao, e resolvera preparar um jantar 
especial para Jondalar quando ele chegou  sua procura. Ayla relacionou 
para ele todas as verduras que queria de seu depsito nos fundos do abrigo, 
e que tipo de carne desejava.
        Quando  ele voltou com tudo, ela no se mexia e tinha uma estranha 
expresso no rosto uma mistura de alegria e medo.
        - O que foi, Ayla? - indagou, largando o cesto com as verduras.
        - Acho que o beb est se preparando para nascer - disse ela.
        - Neste momento? Ayla,  melhor voc se deitar. Vou chamar a 
Zelandoni. Talvez seja melhor chamar a minha me tambm. No faa nada, 
at eu trazer Zelandoni - pediu Jondalar, subitamente nervoso.
        - No vai ser neste exato momento. Tenha calma, Jondalar. Ainda vai 
demorar um pouco. Por via das dvidas, vamos esperar, antes de voc ir 
buscar Zelandoni. - Tranqilizou-o, apanhando o cesto com as verduras. Foi 
para rea de cozinhar e passou a retir-las do recipiente.
        - Deixe que eu fao isso. Voc no devia estar descansando? Tem 
certeza que no quer que eu chame a Zelandoni?
        - Jondalar, voc j viu antes bebs nascerem, no? No precisa ficar 
preocupado.
        - Quem disse que estou preocupado? - retrucou, tentando aparentar 
calma. Ela ficou imvel e colocou a mo sobre a barriga.
        - Ayla, no acha melhor eu ir chamar a Zelandoni? - a testa dele 
estava bem apertada, numa preocupao angustiada.
        - Est bem, Jondalar. Pode ir cham-la, mas s se me prometer dizer 
a ela que est apenas comeando. Que no h pressa - insistiu.
        Jondalar saiu apressado. Retornou quase arrastando a Zelandoni 
atrs de si.
        - Eu mandei voc dizer a ela que no havia pressa, Jondalar - 
reclamou, e em seguida olhou para a donier. - Desculpe por ele ter arrastado 
voc para c to cedo. Est apenas comeando.
        - Acho melhor Jondalar ir fazer uma visita a Joharran e avisar a 
Proleva que posso precisar dela depois. Eu no estou ocupada. Ficarei aqui, 
fazendo companhia a voc, Ayla. Tem um pouco de ch? - quis saber a 
Zelandoni.
        - Posso preparar um num instante - disse Ayla. - Acho que a Zelandoni 
tem razo, Jondalar. Por que no vai visitar Joharran?
        - No caminho, avise Marthona, mas no a arraste at aqui - frisou a 
Zelandoni. Jondalar disparou para fora. - Ele ficou o tempo todo presente, 
quando Folara nasceu, na maior calma. Mas  sempre diferente, quando se 
trata da prpria parceira de um homem.
        Ayla voltou a ficar imvel, esperando a contrao cessar, e depois 
comeou a preparar um ch. A Zelandoni observou-a, reparando no tempo 
que ela esperou para a contrao passar. Depois sentou-se em um banco 
largo que Ayla mandou fazer especialmente para as visitas da Zelandoni, 
sabendo que ela, se pudesse evitar no se sentava no cho ou sobre 
almofadas. Recentemente, Ayla tinha passado a us-lo.
        Aps beberem o ch e conversarem sobre amenidades, enquanto Ayla 
tinha mais contraes, a Zelandoni sugeriu que ela se deitasse, para que a 
pudesse examinar. Ayla obedeceu. A Zelandoni esperou a contrao seguinte, 
e sentiu a barriga de Ayla.
        - Pode no demorar tanto assim - avaliou a curadora.
        Ayla levantou-se, pensou em se sentar em uma almofada do cho, mas 
mudou de idia, seguiu at a rea de cozinhar, tomou um gole de ch, e 
sentiu outra contrao. Perguntou-se se devia se deitar novamente. Tudo 
parecia acontecer mais depressa do que ela esperava.
        A Zelandoni voltou a examin-la, dessa vez mais minuciosamente, e em 
seguida deu um olhar perspicaz para a jovem mulher.
        - Este no  o seu primeiro beb, no  mesmo?
        Ayla esperou passar um espasmo, antes de responder:
        - No, no  o meu primeiro. Eu tive um filho - declarou mansamente.
        A Zelandoni ficou imaginando por que ele no estava com Ayla. Teria 
morrido? Era importante saber se foi um natimorto, ou morreu logo aps o 
parto.
        - O que aconteceu com ele? - indagou.
        - Tive que deix-lo para trs. Eu o dei para a minha irm, Uba. Ele 
ainda vive com o Cl, pelo menos  o que eu espero.
        - O parto foi muito difcil, no?
        - Foi. Quase morri, dando  luz a ele - confessou Ayla, com um tom de 
voz uniforme e controlado, tentando no mostrar qualquer emoo, mas a 
donier detectou medo em seus olhos.
        - Quantos anos ele tem, Ayla? Ou melhor, qual era a sua idade, quando 
o teve? - quis saber a Zelandoni.
        - Eu ainda no devia contar o meu dcimo segundo ano - informou Ayla, 
sentindo as dores do trabalho de parto. Elas agora surgiam mais depressa.
        - E agora? - perguntou a Zelandoni, quando a dor passou.
        - Agora eu conto dezenove anos, vinte depois deste inverno. Sou velha 
de mais para ter bebs.
        - No, no , mas era muito jovem, quando teve o primeiro. Jovem de 
mais. No  de admirar que tenha tido tanta dificuldade. Voc disse que o 
deixou com o seu cl.
        Ela fez uma pausa, pensando de que modo fazer a pergunta seguinte. 
        - O seu filho  um dos "espritos misturados"? - inquiriu, finalmente, a 
mulher.
        Ayla no respondeu, a princpio. Encarou a Zelandoni, recebeu um 
olhar fixo em resposta, e a seguir, subitamente, ela se curvou quase toda, 
por causa da contrao.
        -  - respondeu, quando a dor passou, parecendo assustada.
        - Creio que isso tambm contribuiu para a sua dificuldade. Pelo que sei 
crianas de espritos misturados podem ser muito difceis para uma mulher 
parir. Me disseram que tem algo a ver com a cabea. A forma dela  
diferente, e grande demais. No cede tanto - explicou a Zelandoni. - Este 
beb pode no ser difcil para voc, Ayla. Voc est indo muito bem.
        A donier observou que ela tinha ficado mais tensa, com a ltima dor. 
Ficar tensa desse modo, pensou ela, no apenas pode piorar as coisas, como 
receio que ela esteja se lembrando do terrvel parto que teve com o 
primeiro filho. Gostaria que ela tivesse me contado antes. Talvez eu pudesse 
ter sido capaz de ajuda-la. Queria que Marthona viesse logo. No momento, 
acho que Ayla precisa de algum prestando mais ateno a ela, mas gostaria 
de fazer algo para ajud-la a relaxar. Talvez uma conversa ajude a afastar 
sua mente do medo. 
        - Gostaria de me falarsobre o seu filho?
        - A princpio, acharam que ele era deformado, e seria um fardo para o
cl. - comeou Ayla. - No incio, ele nem ao menos conseguia manter a cabea
ereta, mas cresceu forte. Todos passaram a am-lo. Grod at fez uma de 
suas lanas para ele, na medida exata do tamanho dele. E como era rpido na 
corrida, mesmo sendo to novo.
        Ayla sorria, com lgrimas nos olhos, ao recordar, e isso deu  donier 
uma surpreendente percepo. Subitamente, ela entendeu o quanto Ayla 
amou esse filho, o quanto tinha orgulho dele, tivesse ou no espritos 
misturados. Quando disse que o tinha dado  sua "irm", a Zelandoni 
concluiu que devia ter sido um alvio encontrar algum que cuidasse dele.
        Alguns da zelandonia ainda comentam sobre a av de Brukeval. 
Embora nunca tenha sido mencionado em pblico, a maioria tinha certeza de 
que a filha a quem ela deu  luz era de espritos misturados. Ningum quis 
ficar com ela, depois que a me morreu, e Brukeval sofreu o mesmo destino. 
Ele tinha a aparncia da me, talvez no to marcante, mas a Zelandoni 
estava convencida de que ele, tambm, era um mestio, apesar de nunca ter 
admitido isso em voz alta, principalmente para Brukeval.
        Seria possvel que Ayla estivesse propensa a atrair os espritos deles, 
j que foi criada pelo Cl? Este filho tambm seria mestio? E, se fosse, o 
que iria acontecer? O mais sensato seria acabar disfaradamente com a sua 
vida, antes que ela comeasse. Seria muito fcil, e ningum saberia que no 
tinha sido um natimorto. Provavelmente, pouparia uma mgoa para todos, at 
mesmo para o beb. Seria uma vergonha ter outra criana indesejvel e 
desamada na Caverna, como Brukeval e sua me.
        Mas, pensou a donier, se Ayla amou o seu primeiro filho, no amaria 
este tambm?  espantoso v-la perto de Echozar, eu acho que gosta dele 
de verdade, e ele se sente muito  vontade perto dela. Talvez desse certo, 
s dependeria de Jondalar.
        - Jondalar me avisou que o seu trabalho de parto j comeou, Ayla - 
falou Marthona, ao entrar na habitao. - Ele frisou que estava apenas no 
comeo, e que era para eu no me apressar, mas quase me empurrou para 
fora de casa, to ansioso que estava para eu vir para c.
        - Ainda bem que chegou, Marthona. Eu quero fazer uma coisa para ela 
- disse a Zelandoni.
        - Para apressar o parto? - perguntou Marthona. - O primeiro sempre 
demora para nascer. - Ela sorriu para Ayla.
        - No - respondeu a Zelandoni, fazendo uma pausa pensativa, antes de 
Continuar. - Quero apenas fazer algo para ajud-la a relaxar. Ayla est 
progredindo muito bem, mais depressa do que eu imaginava, mas acho que 
est muito tensa e apreensiva em relao ao parto.
        - Ayla reparou que a curadora no corrigiu a suposio de Marthona 
de que aquele seria o seu primeiro filho. Desde o incio, percebera que a 
Zelandoni sabia muitas coisas, muitos segredos que guardava para si mesma. 
Talvez fosse melhor que, alm da Zelandoni, ela guardasse para si mesma a 
existncia do filho. Poderia conversar com ela, a respeito dele.
        Ouviu-se uma batida na entrada, mas Proleva entrou sem esperar. -
Jondalar falou que Ayla est em trabalho de parto. Posso ajudar? - 
perguntou. Ela levava um beb s costas, sustentado por uma manta de 
transporte.
        - Pode, sim - afirmou a Zelandoni. Ela tinha assumido o direito de 
permitir ou no o acesso  habitao, e Ayla estava grata por isso. Ao sentir 
outra dor se aproximar, a ltima coisa com que queria se preocupar era com 
quem deveria estar presente. A curadora percebeu que Ayla ficou tensa e 
comeou a combater a dor. Era bvio que ela tambm no queria gritar. - 
Pode se sentar ao lado de  Ayla, enquanto Marthona ferve um pouco de gua. 
Preciso ir apanhar um remdio especial.
        A Zelandoni saiu rapidamente. Quando se dispunha, ela conseguia se 
movimentar com bastante rapidez. Folara vinha se aproximando, quando a
mulher deixou a cortina cair de volta atrs de si.
        - Posso entrar, Zelandoni? Eu gostaria de ajudar, se puder - 
ofereceu-se. A donier parou por apenas um instante.
        - Sim, v em frente. Voc pode ajudar Proleva a tentar acalmar Ayla - 
sugeriu, e seguiu apressada.
        Quando ela voltou, Ayla se debatia um tanto desenfreadamente com 
outra contrao das dores do parto, mas continuava sem gritar. Marthona e 
Proleva estavam, uma de cada lado, segurando-lhe a mo e com o ar 
preocupado. Foi colocada outra pedra quente na gua, que estava sendo 
aquecida, para mant-la quente. A expresso dela era a mesma da me. 
        Havia medo nos olhos de Ayla, e  alvio, ao avistar a curadora. Ela foi 
depressa em direo  jovem mulher.
        - Vai dar tudo certo, Ayla. Voc est indo muito bem, s precisa 
relaxar um pouco. Vou preparar uma coisa, para ajud-la a ficar mais  
vontade - avisou a  Zelandoni.
        - O que ? - perguntou Ayla, quando a dor passou.
        A Zelandoni olhou-a atentamente. A pergunta foi feita no por 
temosia mas por interesse. Isso pareceu, por um momento, afastar a mente 
dela preocupao.
        - Principalmente casca de salgueiro e folha de framboesa - informou 
correndo para ver se a gua estava fervendo. - E algumas flores de tlia e 
um pilrito bem pequeno.
        Ayla confirmou com a cabea.
        - Casca de salgueiro  um analgsico leve, folha de framboesa  
especialmente relaxante durante um trabalho de parto, flores de tlia so 
adoantes, e pilrito...creio que  o que eu chamo de datura... pode deter a 
dor e fazer voc dormir, mas, possivelmente, parar as contraes. S um 
pouquinho j pode ajudar - presumiu.
        - Foi o que pensei - concordou a donier.
        Ao se apressar em colocar as ervas e as cascas na gua quente que 
Folara estava cuidando, a Zelandoni pde perceber que, ao deixar Ayla se 
envolver no prprio tratamento, talvez isso ajudasse tanto quanto os 
remdios para faz-la relaxar, e, levando em conta o quanto ela conhecia a 
respeito de remdios, seria bobagem tentar ocultar-lhe qualquer coisa. 
        Levou algum tempo para fazer a infuso do ch medicinal, durante o 
qual Ayla sentiu vrias outras dores de parto. Quando, finalmente, levou-lhe
o ch, Ayla encontrava-se mais do que disposta a ingeri-lo, mas se sentou, 
provou primeiro a infuso, concentrando-se com os olhos fechados. Assentiu 
e depois o bebeu.
        - Mais folha de framboesa do que casca de salgueiro, e tlia s o 
suficiente para disfarar o gosto amargo da datura... pilrito - avaliou, 
voltando a se deitar para esperar o espasmo seguinte do trabalho de parto. 
Por apenas um instante, surgiu uma rplica na mente da Zelandoni, um 
sarcstico "Voc aprova?", mas se conteve e, em seguida, surpreendeu-se 
por at mesmo ter pensado nisso. A experiente mulher no estava 
acostumada a ter algum provando e comentando os seus remdios, mas ela 
no faria o mesmo? Ayla no fez nenhuma crtica, estava apenas testando a 
si mesma, deduziu a Zelandoni. Enquanto observava, a donier sorria por 
dentro, certa de saber exatamente o que Ayla estava fazendo, pois ela faria
o mesmo. Ayla usava a si mesma para testar o remdio, verificando 
silenciosamente suas prprias reaes, esperando para ver quanto tempo a 
infuso levaria para agir e quanto efeito faria. E, como a curadora 
adivinhara, isso, por si s, afastava sua mente do temor, ajudando-a a 
relaxar.
        Todas ficaram esperando, conversando baixinho. Aparentemente, o 
parto ia ser um pouco melhor para a jovem mulher. A Zelandoni no sabia se 
era por causa do remdio ou da diminuio do medo dela, talvez ambos, mas 
Ayla no se debatia mais. Em vez disso, concentrava-se exatamente no que 
estava sentindo, Comparando mentalmente aquele parto com o anterior, e 
percebeu que o atual parecia ser mais fcil. Ela seguia o trajeto que 
observara em outras mulheres que tiveram um parto normal. Estava 
presente, quando Proleva pariu, e agora sorria ao ver a mulher amamentando 
a sua filhinha.
        - Marthona, voc sabe onde est o cobertor de parto dela? Creio que 
est se aproximando o momento - anunciou a Zelandoni.
        - J? No achava que seria to depressa, depois de ela aparentar ter 
tanto problema no incio - comentou Proleva, colocando a filha sobre a manta, 
para dormir.
        - Mas parece que, agora, est tudo sob controle - observou Marthona. 
- Vou apanhar o cobertor. Ele est onde voc tinha me mostrado, Ayla?
        - Est - respondeu de pronto, sentindo chegar outra contrao 
muscular, uma convulso totalmente abrangente. Quando passou, a Zelandoni 
orientou Proleva e Folara a estenderem no cho o cobertor de couro de 
parto, marcado com desenhos e smbolos, e em seguida acenou para 
Marthona.
        - Est na hora de ajud-la a se levantar - disse ela. E, depois, para 
Ayla: - Voc precisa se levantar e deixar que o puxo da Grande Me Terra 
ajude o beb a sair. Consegue se levantar?
        - Sim - respondeu entre bufadas doloridas. A cada dor, ela estivera 
pressionando com fora, e sentiu um impulso de empurrar novamente, mas 
tentou cont-lo por um momento. - Acho que sim.
        Todas ajudaram Ayla a se colocar de p e a levaram at o cobertor. 
Proleva mostrou-lhe a posio de ccoras em que devia ficar, e depois 
segurou-a de lado, enquanto Folara a apoiava do outro. Marthona ficou na 
frente, sorrindo e dando apoio moral. A Zelandoni colocou-se atrs, colou a 
jovem mulher em seu imenso busto e ps os braos em volta dela, logo acima 
da barriga protuberante.
        Ayla sentiu-se envolvida pela maciez e calidez da grande mulher; era 
reconfortante recostar-se na Zelandoni. Ela parecia a Me, como todas as 
mes combinadas em uma s, como o seio macio da prpria Terra. Tambm 
havia algo mais, porm. Uma formidvel fora se escondia sob o monte de 
carne. Ayla teve certeza de que aquela mulher era capaz de exibir cada um 
dos humores da Prpria Me terra, desde a suavidade de um quente dia de 
vero  fria de uma arrasadora nevasca. Se estimulada, ela poderia 
desencadear a fora devastadora de uma furiosa tempestade, ou consolar e 
acalentar como uma brisa suave.
        - Agora, na prxima dor, quero que voc empurre - ordenou a 
Zelandoni. As duas mulheres de ambos os lados seguravam, cada qual, uma 
das mos de Ayla dando-lhe algo para apertar.
        - Sinto que est vindo - anunciou Ayla.
        - Ento empurre! - mandou a Zelandoni.
        Ayla inspirou fundo, e pressionou abaixo o mximo que pde. Sentiu a 
donier ajudando-a, empurrando, ao mesmo tempo, o beb para baixo. Uma 
golfada de lquido quente verteu para o cobertor.
        - timo. Eu estava esperando por isso - disse a Zelandoni.
        - Imaginava quando as guas dela iam irromper - comentou Proleva. 
Assim  melhor. L vai ela de novo.
        - Agora, empurre novamente, Ayla - comandou a Zelandoni.
        Ayla voltou a pressionar para baixo, e sentiu um movimento.
        - Posso ver a cabea - anunciou Marthona. - Estou pronta para 
segurar o beb. - Ajoelhou-se perto de Ayla, assim que comeou outra forte 
contrao. Ayla inspirou fundo e empurrou.
        - A vem ele! - exclamou Marthona.
        Ayla sentiu a passagem da cabea. O resto foi fcil. Quando o beb 
escorregou Marthona estendeu as mos e o apanhou. 
        Ayla olhou para baixo, viu a criana molhada nos braos de Marthona 
e sorriu. A Zelandoni tambm sorriu.
        - Um ltimo empurro, Ayla, para expulsar as secundinas - pediu a 
Zelandoni, ajudando-a novamente. Ela empurrou e viu uma massa de tecido 
sangrento cair sobre o cobertor de parto.
        A Zelandoni largou-a e foi para diante da nova me. Proleva e Folara 
sustentaram Ayla enquanto a Zelandoni pegava o beb, virava-o de cabea 
para baixo e dava-lhe uma palmadinha no minsculo traseiro. Seguiram-se 
pequenos sons de soluo.         A Zelandoni bateu nos ps do beb e observou-o 
expelir ar, em uma resposta sobressaltada, e depois inspirar pela primeira 
vez o ar vital. Seguiu-se um leve choro, a princpio pouco mais do que um 
miado, mas foi crescendo  medida que os pulmes se acostumavam a manter 
a vida.
        Marthona segurou a criana, enquanto a donier limpava Ayla um pouco, 
retirando o sangue e os fluidos, e ento Proleva e Folara a ajudaram a voltar 
para a cama.
        A Zelandoni amarrou em volta do cordo umbilical do beb um pedao 
de tendo - que, a pedido de Ayla, fora tingido com ocre vermelho - para 
apert-lo e evitar que sasse sangue do tubo ainda repleto dele. Com uma 
afiada lmina de slex, ela cortou o cordo entre a amarra e as secundinas, 
separando o beb da placenta que lhe fornecera alimento e um lugar para 
crescer at o parto. A criana de Ayla era um ente nico e um ser humano 
individual.
        Marthona e a Zelandoni limparam o beb com uma pele de coelho 
macia e aveludada, que Ayla havia preparado para esse fim. Marthona tinha 
pronto um pequeno cobertor, tambm de uma maciez aveludada, e to liso, 
que parecia com a pele do beb. Foi feito da pele de um feto de veado quase 
completamente desenvolvido. A Zelandoni dissera a Jondalar que uma 
criana nascida de sua lareira teria uma sorte especial, se ele conseguisse 
uma pele dessas para o parto, e, perto do final do inverno, ele e o irmo 
tinham sado  procura de uma cerva prenhe.
        Ayla o ajudara a preparar a pele do feto, transformando-a num 
malevel cobertor de couro. Jondalar sempre ficava espantado com a 
maciez das peles feitas por ela, uma habilidade, sabia ele, aprendida por 
Ayla com o Cl. Aps trabalhar um couro com ela, percebeu o esforo 
empregado, mesmo a partir de uma tenra pele de feto. A Zelandoni pousou o 
beb no cobertor, e depois Marthona envolveu com ele o recm-nascido e 
levou a criana para Ayla.
        - Alegre-se.  uma menina perfeita - anunciou Marthona, entregando 
a pequena trouxa para a me.
        Ayla olhou para a minscula cpia dela mesma.
        -  to linda! - desembrulhou as faixas de pele macia e, 
cuidadosamente, examinou a filha recm-nascida, meio temerosa, apesar das 
palavras tranqilizadoras, de encontrar alguma deformidade. - Ela  
perfeita. Voc j tinha visto uma criana to bonita, Marthona?
        A mulher apenas sorriu. Claro que j tinha. Os seus prprios bebs, 
mas este, a filha da lareira de seu filho, no era menos bonito do que os que 
ela tivera.
        - O parto, afinal de contas, no foi to difcil assim, Zelandoni - obser 
vou Ayla, quando a donier se aproximou e olhou para as duas. - Voc ajudou 
bastante, mas no foi muito difcil. Estou feliz por ser uma menina. Olhe, ela 
est tentando encontrar o meu seio. -Ayla ajudou-a, com a desenvoltura da 
experincia, refletiu a Zelandoni. - Jondalar pode vir v-la? Acho que se 
parece muito com ele, voc no acha, Marthona?
        - Ele poder vir em breve - disse a Zelandoni, enquanto examinava 
Ayla e colocava novas peles absorventes entre as suas pernas. - No houve 
dilaceramento, Ayla, nenhum dano. S o sangramento para limpar. Foi um 
bom parto. Voc j tem um nome para ela?
        - J, eu estive pensando nele, desde que voc me disse que eu teria 
que es colher um nome para a minha criana.
        - timo. Me diga qual . Eu vou fazer um smbolo para ela, nesta 
pedra, e troc-la por isto - informou, ao apanhar o cobertor de parto 
enrolado feito uma trouxa em volta das secundinas. - Depois, levarei isto l 
fora, para enterrar, antes que a vida espiritual que ainda resta nas 
secundinas tente achar um lar perto da vida que continha anteriormente. 
Preciso fazer isso depressa; depois, direi para Jondalar entrar.
        - Eu resolvi cham-la de... - comeou Ayla.
        - No! No fale em voz alta, apenas sussurre o nome para mim - 
alertou a Zelandoni.
        A donier curvou-se e Ayla sussurrou o nome em seu ouvido. Em 
seguida, ela saiu s pressas. Marthona, Folara e Proleva sentaram-se perto 
da nova me, admirando o beb e conversando baixinho. Ayla sentia-se 
cansada, mas feliz e descontrada, em nada parecido quando teve Durc. Na 
ocasio, ela ficara exausta e cheia de dores. 
        Cochilou um pouco, e foi acordada quando a Zelandoni voltou e lhe 
entregou a pequena pedra, que agora continha sinais enigmticos pintados 
em vermelho e preto.
        Coloque isto em um lugar seguro, talvez no nicho atrs da sua donii - 
sugeriu a Zelandoni.
        Ayla fez que sim, e ento viu outra cabea aparecer.
        - Jondalar! - exclamou. Ele ajoelhou-se ao lado da plataforma de 
dormir, para ficar mais perto.
        - Como voc est, Ayla?
        - Estou tima. No foi um parto difcil, Jondalar. Foi muito mais fcil 
do que eu imaginava. E olhe s o beb - falou, ao remover o cobertor, para 
que ele pudesse v-la. -  perfeita!
        - Voc teve a menina que queria - salientou, olhando para a diminuta 
recm-nascida e ficando um pouco espantado. Ela  to pequena. E, olhe s, 
j tem at mesmo unhas pequeninas. A idia de uma mulher dar  luz a um 
ser humano completamente novo o fascinou. - Que nome voc deu  sua filha, 
Ayla?
        Ela olhou para a Zelandoni.
        - Posso dizer a ele?
        - Pode, agora j  seguro - garantiu ela.
        - Dei  nossa filha o nome Jonayla, uma combinao do meu com o seu, 
Jondalar, pois ela nasceu de ns dois. Ela tambm  sua filha.
        - Jonayla. Gostei no nome. Jonayla - repetiu.
        Marthona tambm gostou do nome. Ela e Proleva sorriram 
condescendentes para Ayla. No era incomum mes recentes tentarem 
garantir aos parceiros que os filhos do casal se originavam dos espritos de 
ambos. Embora Ayla no tivesse falado em "esprito", elas tinham certeza 
de que sabiam o que ela quis dizer. A Zelandoni no estava to certa assim. 
Ayla costumava dizer exatamente o que pretendia. Jondalar no tinha 
dvidas. Ele sabia exatamente o que ela quis dizer.
        Seria timo, se fosse verdade, pensou ele, ao olhar para a menininha. 
Exposta ao ar frio, sem as cobertas, ela comeava a despertar.
        - Ela  linda. Vai parecer exatamente como voc, Ayla. J posso ver 
isso - afirmou.
        - Ela tambm se parece com voc, Jondalar. Quer segur-la?
        - No sei - hesitou, recuando um pouco. -  to pequena.
        - Mas no pequena demais para voc segurar, Jondalar - garantiu a 
Zelandoni. - Deixe que eu lhe ajude. Sente-se em uma posio confortvel. - 
Rapidamente ela envolveu o beb de volta no cobertor, levantou-a e colocou-
a nos braos de Jondalar, mostrando-lhe como segur-la.
        A criana estava com os olhos abertos, e parecia olhar para ele. Voc 
 minha filha?, perguntou-se.  to minscula, que vai precisar de algum 
para vigiar e cuidar de voc, at crescer. Ele a segurou mais perto, 
sentindo-se protetor. Ento, para sua surpresa, sentiu uma repentina e 
totalmente inesperada descarga de fervor e de amor protetor pela criana. 
Jonayla, pensou. Minha filha Jonayla.
        No dia seguinte a Zelandoni passou para ver Ayla. Andara vigiando,  
espera de uma ocasio em que ela estivesse sozinha. Ayla estava sentada em 
uma almofada no cho, amamentando o beb, e a Zelandoni arriou-se para 
uma almofada ao lado dela.
        - Por que no usa o banco, Zelandoni? - ofereceu Ayla.
        - Aqui est bem, Ayla. No  que eu no consiga me sentar no cho,  
que apenas h ocasies em que prefiro no fazer isso. Como est Jonayla?
        - Est tima.  uma criana muito boa. Ela me acordou, ontem  noite, 
mas dormiu a maior parte do tempo - comentou Ayla.
        - Eu queria lhe dizer que, no dia depois do prximo, ela ser designada 
uma Zelandonii da lareira de Jondalar, e o seu nome transmitido para a 
Caverna - informou a mulher.
        - timo - concordou Ayla. - Ficarei feliz quando ela for uma 
Zelandonii e designada como filha da lareira de Jondalar. Isso completar 
tudo.
        - Voc soube de Relona? A parceira de Shevonar, o homem que foi 
pisoteado por bises, um pouco depois de voc chegar? - perguntou a 
Zelandoni, dando a impresso de querer iniciar uma conversa amistosa.
        - No, o que houve?
        - Ela e Ranokol, o irmo de Shevonar, vo se acasalar no prximo 
vero. Ele comeou a ajud-la, como compensao pela perda do parceiro, e 
os dois passaram a se gostar. Creio que ser uma tima unio - observou a 
mulher mais velha.
        - Eu me alegro em saber disso. Ele ficou to transtornado, quando 
Shevonar morreu. Era quase como se ele culpasse a si mesmo. Acho que ele 
queria ter morrido no lugar do irmo - lembrou Ayla. Seguiu-se um silncio, 
mas ela estava com uma sensao de expectativa. Ficou imaginando se a 
Primeira tinha ido l por algum motivo e por que ainda no lhe dissera.
        - H mais uma coisa que quero falar com voc - anunciou a Zelandoni.
        - Eu gostaria de saber mais sobre o seu filho. Entendo por que nunca 
o mencionou, depois de toda aquela confuso com Echozar, mas, se no se 
importar em falar sobre ele, h algumas coisas que eu gostaria de saber.
        - No me importo em falar sobre ele. s vezes, eu anseio em falar 
sobre ele - confessou Ayla.
        Ela falou bastante para a donier a respeito do filho que teve quando 
vivia com o Cl, o tal mestio, sobre o seu enjo matinal, que durava o dia 
todo e se manteve durante quase toda a gravidez, e sobre o seu sofrido 
parto. Ela j esquecera qualquer incmodo que tivesse tido ao dar  luz a 
Jonayla, mas ainda se lembrava da dor ao parir Durc. Falou da deformidade 
dele, aos olhos do Cl, da fuga para a pequena caverna, a fim de salvar a vida 
dele, e do retorno, mesmo acreditando que o perderia. Contou de sua alegria 
diante da aceitao do filho, e do nome que Creb escolheu para ele, Durc, e 
da lenda de Durc, de onde veio o seu nome. Discorreu sobre a vida que 
levaram juntos, a risada dele e o prazer que ela sentiu ao ver que o filho 
conseguia emitir os sons que ela conseguia, e a linguagem que comearam a 
inventar juntos, e contou que foi forada a deix-lo para trs, com o Cl, 
quando foi obrigada a partir. Perto do final da histria, ela teve dificuldade 
em falar, por causa das lgrimas.
        - Zelandoni - recomeou Ayla, olhando para a grande mulher maternal
-, eu tive uma idia, quando estava escondida na pequena caverna com ele, e, 
desde ento, quanto mais tenho pensado nisso, mais acredito que seja 
verdade.  sobre o modo como a vida comea. No acredito que seja a 
mistura de espritos que inicie uma nova vida. Creio que a vida comea 
quando um homem e uma mulher copulam. Creio que o homem inicia a vida que 
cresce dentro da mulher.
        Tratava-se de uma idia surpreendente, vinda de uma jovem, 
principalmente porque nunca algum dissera antes algo semelhante  
Zelandoni; no se tratava, porm, de uma idia totalmente estranha, embora 
a nica pessoa que ela conhecia que j havia pensando em tal coisa fosse ela 
mesma.
        - Desde ento, tenho pensado muito nisso, e agora estou ainda mais 
convencida de que a vida comea quando um homem coloca o seu membro 
dentro de uma mulher, no lugar de onde sai o beb, e deixa l a sua essncia. 
Creio que  isso que inicia uma nova vida, e no a mistura de espritos - 
declarou Ayla.
        - Ou seja, quando eles compartilham o Dom do Prazer da Grande Me 
Terra - completou a Zelandoni.
        - Sim - confirmou Ayla.
        - Deixe-me fazer algumas perguntas. Um homem e uma mulher 
compartilham muitas vezes o Dom de Doni. Mas no nascem tantas crianas 
assim. Se uma vida se iniciasse todas as vezes que eles compartilhassem os 
Prazeres, haveria muito, muito mais crianas - alegou a Zelandoni.
        - Tambm estive pensando sobre isso. Est claro que uma vida no 
comea sempre que eles compartilham os Prazeres; portanto precisa haver 
algo mais, alm dos Prazeres. 
        Talvez eles precisem compartilhar os Prazeres muitas vezes, ou, tal 
vez, numa ocasio especial, ou talvez a Grande Me decida quando a vida 
deve ou no comear. Mas no so os espritos deles que Ela mistura, mas a 
essncia do homem e tambm, talvez, uma essncia especial da mulher. 
Tenho certeza de que Jonayla comeou logo depois que Jondalar e eu 
descemos da geleira, na primeira manh, quando acordamos e 
compartilhamos os Prazeres.
        - Voc disse que vem pensando nisso h muito tempo. O que a levou, 
de incio, a pensar nisso? - quis saber a Zelandoni.
        - Comecei a pensar nisso quando estava na minha pequena caverna, 
escondida com Durc - revelou Ayla.
        - Eles me disseram para levar Durc embora e deix-lo l fora, porque 
era deformado - contou Ayla, as lgrimas ameaando -, mas eu o examinei 
com todo o cuidado, e ele no era deformado. Durc no parecia com eles, e 
no parecia comigo. Parecia com o Cl e comigo. Sua cabea era comprida e 
grande na parte de trs, tinha extensa arcada superciliar como a deles, mas, 
na frente, tinha a testa alta, como a minha. Ele parecia um pouco com 
Echozar, s que, quando crescer, acho que o corpo ficar mais como o nosso. 
Ele nunca foi corpulento ou atarracado, como os meninos do Cl, e as pernas 
eram compridas e retas, e no arqueadas, como as de Echozar. Ele era uma 
mistura, mas era forte e saudvel.
        - Echozar  mestio, mas a me dele era do Cl. Quando ela teria 
compartilhado Prazeres com um homem como os nossos? Por que um homem 
dos nossos ia querer compartilhar Prazeres com uma mulher cabea-chata? 
- questionou a Zelandon.
        - Echozar me contou que a me dele foi amaldioada de morte, porque 
o parceiro dela foi morto quando tentava proteg-la de um homem dos 
Outros. Quando descobriram que ela estava grvida, deixaram que ficasse 
por l at Echozar nascer - explicou Ayla. Jonayla largou o mamilo e passou 
a ficar agitada. Ayla colocou-a sobre o ombro e deu um tapinha em suas 
costas.
        - Quer dizer que um homem dos nossos forou a me dele? Suponho 
que essas coisas aconteam, mas no consigo entender - admitiu a Zelandoni.
        - Isso aconteceu com uma das mulheres que conheci na Congregao 
do Cl. Ela teve uma filha mestia. Contou que foi forada por alguns homens 
dos Outros, homens que pareciam comigo, segundo ela. A outra filha dela foi 
morta, quando um dos tais homens a agarrou, e a menina caiu dos seus 
braos. Quando ela descobriu que estava grvida novamente, desejou ter 
uma outra menina, o que deixou furioso o parceiro dela. As mulheres do Cl 
s devem desejar ter filhos homens, mas, mesmo assim, muitas mulheres 
desejam secretamente ter uma menina. Quando a filha nasceu deformada, 
ele fez com que ela ficasse com a menina, s para lhe dar uma lio.
        - Que histria triste, ser tratada duramente pelo parceiro, depois de 
ter sido atacada e sofrido uma perda to grande - comentou a donier.
        - Ela me pediu para falar com Brun, o lder do meu cl, para arranjar 
um acasalamento entre a filha dela, Ura, e o meu Durc. Ela temia que, de 
outro modo, a filha dela nunca conseguisse um parceiro. Eu achei uma boa 
idia. Aos olhos do Cl, Durc tambm era deformado, e teria o mesmo 
problema para conseguir uma parceira. Brun concordou. Agora Ura est 
prometida para Durc. Depois da Congregao do Cl seguinte, ela deveria se 
mudar para o cl de Brun... no, agora  cl de Broud. E j deve estar por l. 
No creio que Broud seja muito gentil com ela. - Ayla fez uma pausa, 
pensando no fato de Ura ter-se mudado para um cl estranho. - Deve ter 
sido difcil para ela deixar o seu cl e a me que a ama tanto, e mudar-se 
para um cl onde no deve ser muito bem-vinda. S espero que Durc venha a 
ser o tipo de homem que a ajudar. - Ayla sacudiu a cabea, e ento o beb 
arrotou, e ela sorriu. Deixou a criana apoiada um pouco mais sobre o seu 
ombro, ainda lhe dando palmadinhas nas costas.
        - Em nossa Jornada, Jondalar e eu ouvimos muitas outras histrias 
sobre jovens dos Outros forarem mulheres do Cl. Acho que  algo que um 
desafia o outro a fazer, mas as pessoas do Cl no gostam disso.
        - Desconfio que voc tenha razo, embora essa idia me aflija. Alguns 
jovens parecem gostar de fazer todos os tipos de coisas que dizem para 
eles no fazerem. 
        Mas, forar uma mulher, mesmo sendo do Cl, me aborrece ainda mais
- afirmou Aquela Que Era A Primeira.
        - No tenho certeza se todas as crianas mestias so o resultado de 
algum homem dos Outros forar uma mulher do Cl, ou o contrrio. Rydag 
era mestio disse Ayla.
        -  a tal criana que foi acolhida pela parceira do lder dos Mamutl, o 
povo com quem voc viveu, no  mesmo? - indagou a Zelandoni.
        - . Sua me era do Cl, e, do mesmo modo que eles, Rydag no 
conseguia falar, apenas produzir alguns sons que ningum entendia muito 
bem. Era uma criana fraca. Foi por isso que morreu. Nezzie disse que a me 
dele estava sozinha e seguiu os Mamuti. Mulheres do Cl no fariam isso. 
Ela devia ter sido amaldioada, por algum motivo, ou no estaria sozinha, 
muito menos num estado de gravidez to avanado. E ela deve ter conhecido 
algum dos Outros, que a tratou bondosamente; caso contrrio, teria se 
escondido dos Mamuti, e no ido atrs deles. Talvez tenha sido esse
homem que deu incio a Rydag.
        - Talvez - foi tudo o que disse a Zelandoni. Pensando nos tais
mestios, porm, ela ficou imaginando se Ayla sabia mais a respeito de
Echozar. Ela estava mais interessada nele, j que fora aceito pelo povo de
Dalanar e tivera permisso para se acasalar com a filha de Jerika. - E a me 
de Echozar? Voc disse que ela foi amaldioada? No sei direito o que 
significa isso.
        - Ela foi desprezada, desterrada. Foi considerada uma mulher de "m 
sorte", porque o seu parceiro morreu, quando ela foi atacada, e 
principalmente depois de dar  luz uma criana "deformada". O Cl tambm 
no gosta de crianas mestias. Um homem chamado Androvan encontrou-a 
sozinha, prestes a morrer, junto com o beb, depois que ela foi abandonada 
pelo seu cl. Echozar falou que se tratava de um homem velho, que vivia 
sozinho por algum motivo, mas ele a acolheu e ao beb. Creio que ele era 
S'Armunai, mas vivia nos limites do territrio dos Zelandonii e sabia falar a 
lngua deles. Acho que deve ter escapado de Attaroa. Ele criou Echozar, 
ensinou-o a falar Zelandonii e um pouco de S'Armunai. Sua me lhe ensinou 
os sinais do Cl. Androvan tambm teve que aprend-los, pois ela no 
conseguia falar a lngua dele. Mas Echozar conseguia. Ele era como Durc. 
        Fez outra pausa, os olhos ficando mareados. - Durc podia ter 
aprendido a falar, se houvesse algum para lhe ensinar. Antes de eu partir, 
ele falava um pouquinho, e conseguia rir. Como podiam pensar que Durc ia se 
parecer com o Cl, se ele era meu filho? Nascido de mim. Mas ele tambm 
no se parecia comigo, no como Jonayla parece, e ela no se pareceria, se 
Broud a tivesse iniciado.
        - Quem  esse Broud?
        - Era filho de Ebra, a parceira de Brun. Brun era o lder do Cl. Um 
bom lder. Broud foi o tal que me fez deixar o cl, quando se tornou lder. Eu 
cresci com ele me odiando. Ele sempre me odiou - afirmou Ayla.
        - Mas voc disse que foi ele quem iniciou a criana que teve? E acha 
que isso comea ao se compartilhar os Prazeres. Por que ele quis 
compartilhar Prazeres com voc, se a odiava? - estranhou a Zelandoni.
        - Eu no compartilhei Prazeres com ele. Para mim, no houve nenhum 
Prazer nisso. Broud me forou. No sei por que fez isso, na primeira vez, 
mas foi horrvel. Ele me machucou. Eu odiei isso e o odiei por me fazer isso. 
Ele sabia que eu odiava, e era por isso que fazia. Talvez, desde o incio, ele 
soubesse que eu odiaria, mas eu sei que era por isso que continuava fazendo.
        - E o seu cl permitia? - surpreendeu-se a Zelandoni.
        - As mulheres do Cl devem copular sempre que um homem deseja, 
sempre que ele lhe fizer o sinal.  assim que ensinam a elas.
        - No consigo entender - exclamou a donier. - Por que um homem ia 
querer uma mulher, se ela no o quer?
        - No acho que as mulheres do Cl se importassem muito com isso. 
Elas at mesmo tinham alguns modos de incentivar um homem a lhes fazer o 
sinal. Iza me falou a respeito dos sinais, mas nunca quis us-los. Certamente 
no com Broud. Eu o odiava tanto, que no conseguia comer, no queria 
levantar pela manh, no queria deixar a lareira de Creb. Mas, quando 
descobri que ia ter um beb, fiquei to feliz, que nem mesmo ligava mais 
para Broud. Apenas o tolerava, e o ignorava. Depois disso, ele parou. Deixou 
de ser divertido para ele, pois eu no resistia e ele no podia mais me forar 
contra a minha vontade.
        - Voc disse que s devia contar onze anos, quando o seu filho nasceu. 
Era muito jovem, Ayla. Nessa idade, a maioria das meninas ainda nem mesmo 
so mulheres. Algumas podem se tornar mulheres nessa idade, mas no a 
maioria.
        - Mas eu era velha para o Cl. Algumas meninas do Cl se tornam 
mulheres aos sete anos, e, quando contam dez anos, a maioria das meninas 
se torna mulher. Algumas pessoas do cl de Brun achavam que eu nunca me 
tornaria mulher. Acreditavam que eu nunca teria filhos, porque o meu totem 
era poderoso demais para uma mulher - explicou Ayla.
        - Mas, obviamente, voc se tornou.
        Ayla fez uma pausa, pensativa.
        - Somente as mulheres podem parir. Mas, se as mulheres ficam 
grvidas atravs de uma mistura de espritos, por que Doni criou os homens? 
Apenas para nos fazer companhia, apenas para os Prazeres? Acho que tem 
de haver um outro motivo. Mulheres podem fazer companhia umas s outras, 
cuidar umas das outras, e at mesmo dar Prazeres umas s outras.
        - Attaroa dos S'Armunai odiava os homens. Ela os mantinha trancados. 
No permitia que compartilhassem o Dom do Prazer com as mulheres. As 
mulheres dividiam as suas lareiras com outras mulheres. Attaroa achava que, 
livrando-se dos homens, os espritos das mulheres seriam forados a se 
misturar, e elas teriam apenas meninas, mas isso no estava dando certo. 
Algumas das mulheres compartilhavam Prazeres, mas elas no podiam 
copular, no podiam misturar as suas essncias. Nasceram muito poucas 
crianas.
        - Mas nasceram algumas crianas? - atalhou a Zelandoni.
        - Algumas, mas no eram todas meninas. Attaroa aleijou dois dos 
meninos. A maioria das mulheres no pensava o mesmo que Attaroa. Algumas 
saam furtivamente para visitar os homens, e parte das mulheres que 
Attaroa usava para vigiar os homens os ajudava. As mulheres com crianas 
foram aquelas que tiveram um homem para repartir as suas fogueiras, na 
primeira noite em que eles foram libertados Eram os tais que eram 
acasalados ou que queriam se acasalar Eu acho que o nico motivo pelo qual 
elas tiveram filhos foi porque visitaram os homens s escondidas No foi 
por terem repartido uma lareira e ficarem juntos o suficiente, a fim de um 
homem mostrar que era valoroso para o seu esprito ser escolhido.
        Elas raramente viam os homens, e apenas por um breve instante, o 
suficiente para copular. Era perigoso, e Attaroa as teria matado, se 
descobrisse. Eu acredito que foi a cpula que deixou as mulheres grvidas.
A Zelandoni assentiu.
        - O seu argumento  interessante, Ayla. Ensinam a ns que  a mistura 
espritos, e isso parece responder  maioria das perguntas sobre como 
comea a vida. Mas as pessoas no questionam esse fato, simplesmente o 
aceitam. A sua infncia foi diferente, voc est mais propensa a questionar, 
mas, se eu fosse voc, teria cuidado com quem discutir essa idia. H 
pessoas que ficariam bastante contrariadas. s vezes, eu tenho me 
perguntado por que Doni fez os homens.  verdade que as mulheres, se for 
preciso, podem cuidar de si mesmas e umas das outras. J at mesmo me 
perguntei por que Ela fez animais machos. Mes animais freqentemente 
cuidam sozinhas de suas crias, e machos e fmeas no passam muito tempo 
juntos, apenas em algumas ocasies do ano, quando compartilham Prazeres.
        Ayla sentiu-se encorajada a insistir em sua tese.
        - Quando eu vivia com os Mamuti, havia um homem do Acampamento 
do Leo. Seu nome era Ranec, e ele vivia com Wymez, o lascador de slex.
        - O tal de quem Jondalar fala?
        - Sim. Quando era jovem, Wymez fez uma longa Jornada, e devia 
contar dez anos a mais quando voltou. Wymez viajou ao sul do Grande Mar, 
fez a volta por sua extremidade leste, e depois novamente para oeste. Ele 
se acasalou com uma mulher que conheceu por l, e tentava lev-la com o seu 
filho de volta para os Mamut mas ela morreu no caminho. Ao retornar, levou 
apenas o filho da sua parceira. E me contou que a sua parceira tinha a pele 
quase to negra quanto a noite, como todos do seu povo. Ela teve Ranec, 
depois que se acasalaram, e Wymez me disse quce ele parecia diferente de 
todas as outras crianas porque era muito claro, mas, para mim, parecia 
bastante escuro. Sua pele era marrom, e ele era quase to escuro quanto 
Racer, e tinha o cabelo preto encaracolado - contou Ayla.
        - Voc acha que esse homem era marrom porque a me dele era quase 
preta, e o parceiro dela era claro? Isso tambm poderia ser causado por 
uma mistura de espritos - alegou a Zelandoni.
        - Poderia - admitiu Ayla. - Foi no que os Mamuti acreditaram, mas, 
todos os demais eram pretos, exceto Wymez, no deveria haver muitos mais 
espiritos pretos, do esprito da me dele, para fazer a mistura? Eles 
estavam acasalados e devem ter compartilhado os Prazeres. - Ayla olhou 
para a filha, e depois novamente para a Zelandoni. - Seria interessante ver 
como os nossos filhos se pareceriam, se eu tivesse me unido a Ranec.
        - Era com ele que voc ia se acasalar?
        Ayla sorriu.
        - Ele tinha olhos risonhos e alvos dentes sorridentes. Era inteligente 
e engraado, ele me fazia rir, e foi o melhor entalhador que j vi. Fez uma 
donii especial para mim, e um entalhe de Huiin. Ele me amava. Dizia que 
queria se juntar a mim mais do que tudo que jamais quis na vida. No se 
parecia com ningum que eu tivesse visto, antes ou depois. Era to diferente, 
que at mesmo as suas feies eram incomuns. Eu era fascinada por ele. Se 
eu j no estivesse amando Jondalar, eu poderia ter amado Ranec.
        - Se ele era tudo isso, eu no a culpo - declarou a Zelandoni, sorrindo 
de volta. - Interessante, h rumores sobre umas pessoas de pele escura
vivendo numa Caverna ao sul, alm das montanhas do litoral do Grande Mar.
Um jovem e sua me, segundo me disseram. Eu nunca acreditei, pois no se 
sabe o quanto h de verdade nessas histrias, e isso me pareceu to 
inacreditvel. Agora, no tenho mais certeza.
        - Ranec se parecia com Wymez, apesar das diferenas na cor da pele 
e nas feies. Tinham a mesma altura, o mesmo tipo de corpo e caminhavam 
exatamente igual - mencionou Ayla.
        - Voc no precisa ir to longe assim para encontrar semelhanas - 
afirmou a Zelandoni. - Muitas crianas carregam uma semelhana com o 
parceiro da me, mas h as que se parecem com outros homens da Caverna, 
alguns deles que mal conhecem a me.
        - Isso pode ter acontecido durante um festival ou cerimnia para 
homenagear a Me. Muitas mulheres no compartilham Prazeres com 
homens que no so seus parceiros na ocasio? - aventou Ayla.
        A Zelandoni permaneceu calada, pensando.
        - Ayla, essa sua idia requer um pensamento profundo e muita anlise. 
No sei se entende as implicaes. Se for verdade, isso provocar mudanas 
que nem voc nem eu podemos imaginar. Tal revelao, Ayla, s poder 
partir da zelandonia. Ningum aceitar uma idia dessas, a no ser que 
acreditem que ela partiu dos que falam pela Prpria Grande Me Terra. Com 
quem voc j comentou isso?
        - Apenas com Jondalar, e, agora, com voc - revelou.
        - Sugiro que, por enquanto, no fale nada com mais ningum. Vou 
conversar com Jondalar e insistir na necessidade de que ele tambm no 
comente com ningum. - Ambas ficaram caladas, mergulhadas nos prprios 
pensamentos.
        - Zelandoni - comeou Ayla -, alguma vez voc imaginou como seria ser 
um homem?
        -  uma coisa estranha de se imaginar.
        - Eu estive pensando em algo que Jondalar falou. Foi quando eu quis ir 
caar, e ele no quis que eu fosse. Sei que parte do motivo era que ele 
planejava voltar aqui e construir a nossa habitao, porm havia mais do que 
isso. Ele disse algo sobre querer um propsito. "Qual seria o propsito de 
um homem, se as mulheres tivessem filhos e tambm cuidassem de sua 
subsistncia?" Foi isso o que ele disse. Eu nunca tinha pensado antes em um 
propsito para viver. Qual seria a sensao, se eu achasse que a minha vida 
no tinha um significado?
        - Voc pode ir mais alm, Ayla. Voc sabe que parte do seu propsito 
 levar adiante a prxima gerao, mas, qual  o propsito de haver uma 
prxima gerao?
        - No sei. Qual  o propsito da vida? - questionou Ayla.
        A Zelandoni deu uma gargalhada.
        - Se pudesse responder a isso, eu seria igual  Prpria Grande Me, 
Ayla. Somente Ela pode responder a esta pergunta. H muitos que afirmam 
que o nosso propsito  honr-La. Talvez o nosso propsito seja apenas viver 
e providenciar para que a gerao seguinte possa viver. Talvez esta seja a 
melhor maneira de honr-La. A Cano da Me diz que Ela nos fez porque 
estava solitria, que Ela queria ser lembrada e reconhecida. Mas h os que 
dizem que no h nenhum propsito. Duvido que essa pergunta possa ser 
respondida neste mundo, Ayla. E no estou certa de que ela possa ser 
respondida no outro.
        - Mas, pelo menos, as mulheres sabem que elas so necessrias para 
que haja uma gerao seguinte. Como voc deve se sentir, ao pensar que no 
tem nem mesmo esse propsito? - ponderou Ayla. - Como deve se sentir, ao 
pensar que a vida seguiria sendo a mesma, independentemente de voc estar 
ou no aqui, de a sua espcie, o seu gnero, estar ou no aqui?
        - Ayla, eu no tive filhos. Devo sentir que a minha vida no teve um 
propsito? - indagou a Zelandoni.
        - No  a mesma coisa. Talvez voc pudesse ter tido filhos, e, mesmo 
assim, continua sendo uma mulher. Voc continua pertencendo ao gnero que 
leva a vida adiante - afirmou Ayla.
        - Mas somos todos humanos, inclusive os homens. Todos somos gente. 
Tanto homens quanto mulheres continuaro na prxima gerao. Mulheres 
tm meninos com a mesma freqncia com que tm meninas - contraps a 
donier.
        -  exatamente isso. Mulheres tm igualmente meninos e meninas. O 
que os homens tm a ver com isso? Se voc acredita que a sua espcie no 
toma parte na criao da gerao seguinte, voc se sentiria como um ser 
humano? Ou se sentiria menos importante? Algo que foi acrescentado no 
ltimo momento, algo desnecessrio? 
        - Ayla estava curvada para a frente, defendendo firmemente o seu 
ponto de vista, exaltada em sua convico.
        A Zelandoni meditou sobre a pergunta, e depois olhou para o rosto 
srio da jovem mulher com o beb adormecido nos braos.
        - Voc pertence  zelandonia, Ayla. Voc argumenta to bem quanto 
qualquer um deles - afirmou ela.
        Ayla recuou. - Eu no quero ser uma Zelandoni - contestou.
        A pesada mulher encarou-a com um ar especulativo. - Por que no?
        - Eu quero apenas ser uma me e a parceira de Jondalar - alegou.
        - No quer mais ser uma curadora? Voc  to habilidosa quanto 
qualquer uma, inclusive eu - destacou a donier.
        Ayla franziu a testa.
        - Bem, sim, eu tambm quero continuar sendo uma curadora.
        - Voc disse que por vezes ajudou o seu Mamut em alguns de seus 
deveres. No achou isso interessante? - perguntou Aquela Que Era A 
Primeira.
        - Foi interessante - concedeu Ayla -, principalmente aprender coisas 
que eu no sabia, mas tambm foi atemorizante.
        - O quanto seria mais atemorizante, se voc estivesse sozinha e 
despreparada? Ayla, voc  uma filha do Lar do Mamute, O Mamut teve uma 
razo para adot-la. Eu posso perceber isso, e creio que voc tambm. Olhe 
para dentro de si mesma. J se sentiu atemorizada por algo estranho e 
desconhecido, quando se encontrava sozinha?
        Ayla recusou-se a encarar a Zelandoni, olhou para o lado, e depois 
para baixo, mas confirmou apenas levemente com a cabea.
        - Voc sabe que h algo diferente em voc, algo que poucas pessoas 
possuem, no  mesmo? Tenta ignorar, afastar isso de sua mente, mas s 
vezes  difcil, no ?
        Ayla ergueu a vista. A Zelandoni a olhava fixamente, forando-a a 
retribuir o olhar, mantendo os olhos como o fez na primeira vez em que se 
viram. Ayla pelejou para desviar a vista, mas no conseguiu.
        -  - falou baixinho. - s vezes,  difcil. - A Zelandonj cedeu, e Ayla 
a olhar para baixo.
        - Ningum se torna um Zelandoni, a no ser que sinta o chamado - 
falou a mulher com suavidade. - Mas, e se voc sentir o chamado e no 
estiver preparada? No acha que seria melhor ter algum treinamento, s 
por via das dvidas? A possibilidade existe, no importa o quanto voc 
queira neg-la para si mesma.
        - Mas a preparao em si no a torna mais provvel? - questionou Ayla.
        - Sim. Torna. Mas pode ser interessante. Vou ser honesta com voc. 
Eu quero um aclito. No me restam muitos anos. Quero que aquele que me 
siga seja treinado por mim. Esta  a minha Caverna. Desejo o melhor para 
ela. Eu sou A Primeira Entre Aqueles Que Servem  Grande Me Terra. No 
costumo dizer isso, mas no sou a Primeira por acaso. Se uma pessoa  
dotada, ningum  capaz de trein-la melhor do que eu. Voc  dotada, Ayla. 
Talvez voc seja mais dotada do que eu. Voc poderia ser a Primeira - 
afirmou a Zelandoni.
        - E quanto a Jondalar? - quis saber Ayla.
        - Voc deve saber a resposta. Jonokol  um excelente artista. Ele se 
contentava em permanecer um aclito. Nunca desejou se tornar um 
Zelandoni, at voc lhe mostrar aquela caverna. Voc sabe que, no prximo 
vero, ele ir embora. Vai se mudar para a Dcima Nona Caverna, assim que 
fizer com que a Zelandoni da Dcima Nona o aceite e encontrar uma 
desculpa para me deixar. Ele quer essa Caverna, Ayla, e acho que deve ir 
para l. Ele no apenas deixar aquela nova caverna mais bonita, como dar 
vida ao mundo dos espritos - concluiu a Zelandoni.

        - Veja isto, Ayla! - exclamou Jondalar, segurando uma ponta de slex. 
Ele estava todo animado. - Eu aqueci o slex, como Wymez faz, deixando-o 
bem quente. Quando esfriou, vi que tinha feito tudo certo, pois ficou com 
uma aparncia brilhante e lustrosa, quase como se tivesse sido oleada. 
Depois, retoquei as duas faces, utilizando as tcnicas de presso que ele 
inventou. Ainda no tem a qualidade das pontas que ele faz, mas estou 
chegando perto. Consigo ver todos os tipos de possibilidades. Agora, posso 
remover as camadas finas e compridas. Isso significa que poderei fazer 
pontas quase to finas quanto eu desejar, e conseguir um gume reto e 
comprido, para uma faca ou uma lana, sem a curva que sempre se obtm 
quando se comea com uma lmina desprendida de um ncleo. Posso at 
mesmo tornar, retas essas lminas, mais facilmente, retocando 
cuidadosamente a parte do meio de ambas as pontas de uma lmina 
recurvada. Posso fazer qualquer tipo de cortes que quiser. Posso fazer 
pontas escapuladas com uma haste para empunhadeira. No imagna o 
controle que isso me d. Posso fazer qualquer coisa que eu quiser.  
praticamente subjugar a pedra  sua vontade. Wymez  um gnio!
        Ayla sorria para ele, enquanto continuava sem parar.
        - Wymez pode ser um gnio. Jondalar, mas voc  to bom quando ele 
-, comentou.
        - Eu gostaria que fosse. Lembre-se que foi ele quem inventou o 
processo. Estou apenas tentando copi-lo. Pena que ele viva to longe. Mas 
sou grato pelo tempo que passei com ele. Queria que Dalanar estivesse aqui. 
Ele disse que, neste inverno, tambm ia experimentar, e gostaria de discutir 
o processo com ele.
        Jondalar examinou a lmina novamente, dando-lhe um olhar crtico. 
Em seguida, ergueu a vista e sorriu para ela.
        - Quase esqueci de lhe contar. Estou decidido a aceitar Matagan 
como aprendiz para mais do que este inverno. Como ele tem me visitado, fui 
capaz de julg-lo, e acredito que tem talento e habilidade para trabalhar a 
pedra. Tive uma longa conversa com a me dele e o parceiro dela, e Joharran 
est de acordo.
        - Gosto de Matagan - concordou Ayla. - Alegro-me por voc lhe 
ensinar o seu ofcio. Voc tem muita pacincia, e  o melhor lascador de 
slex da Nona Caverna, e talvez dentre todos os Zelandonii.
        Jondalar sorriu diante das palavras dela. A parceira de um homem 
sempre faz comparaes favorveis, disse a si mesmo, mas, no fundo, 
achava que podia ser verdade. 
        - No tem problema, se ele ficar o tempo todo com a gente?
        - Creio que vou gostar disso. Temos muito espao no aposento 
principal, e podemos separar uma parte para fazer uma rea de dormir para 
ele - sugeriu ela. S espero que o beb no o perturbe. Jonayla ainda acorda 
 noite.
        - Os jovens costumam ter sono pesado. Acho que ele nem mesmo vai 
ouvi-la.
        - Eu estava querendo falar com voc sobre algo que a Zelandoni disse 
- comentou Ayla.
        Jondalar achou que ela parecia um pouco preocupada. Talvez fosse 
sua imaginao.
        - A Zelandoni me convidou para ser sua aclita. Ela quer me treinar - 
despejou Ayla de uma vez.
        A cabea de Jondalar ergueu-se repentinamente.
        - Eu no sabia que estava interessada em se tornar uma Zelandoni, 
Ayla.
        - No creio que estivesse, e ainda no sei se estou. Ela j tinha me 
dito antes que achava que eu pertencia  zelandonia, mas a primeira vez que 
me convidou para ser sua aclita foi logo depois do nascimento deJonayla. 
Disse que precisa mesmo de algum, e eu j sei alguma coisa sobre cura. S 
porque serei uma aclita no significa que me tornarei necessariamente uma 
Zelandoni. Jonokol tem sido um aclito h bastante tempo - justificou-se 
Ayla, baixando a vista para as verduras que estava cortando.
        Jondalar caminhou at onde Ayla estava, e levantou o seu queixo para 
a olhar diretamente. Os olhos dela pareciam aflitos.
        - Ayla, todo mundo sabe que o nico motivo pelo qual Jonokol  aclito 
da Zelandoni  porque se trata de um excelente artista, capta o esprito dos 
animais com muita habilidade, e a Zelandoni precisa dele para as cerimnias. 
Ele nunca ser um donier.
        - Pode ser que seja. A Zelandoni contou que ele vai se mudar para a 
Dcima Nona Caverna - informou Ayla.
        - Por causa da nova caverna que voc descobriu, no  mesmo? - 
aventou Jondalar. - Bem, ele  a pessoa adequada para isso. Mas, se voc se 
tornar uma aclita, vai acabar se tornando uma Zelandoni, no  mesmo?
        Ayla ainda no conseguia deixar de responder a uma pergunta direta 
ou dizer uma mentira.
        - Vou, Jondalar - afirmou. - Acho que, se eu ingressar na zelandonia, 
algum dia serei uma Zelandoni, mas no imediatamente.
        -  isso que quer fazer? Ou a Zelandoni a convenceu porque voc  
uma curadora? - Jondalar exigiu saber.
        - Ela disse que, de certa forma, eu j sou uma Zelandoni. Talvez tenha 
razo, no sei. Ela sugeriu que eu seja treinada para a minha prpria 
proteo. Pode ser perigoso para mim, se eu sentir um chamado e no 
estiver preparada para ele - explicou. Ayla nunca tinha contado a Jondalar 
sobre as estranhas coisas que lhe aconteciam, e por no lhe contar parecia 
estar mentindo. Mesmo no Cl, uma pessoa conseguia deixar de mencionar 
algo. Isso a incomodava, mas, ainda assim, no lhe contou.
        Foi a vez de Jondalar parecer preocupado.
        - De qualquer modo, no h muita coisa que eu possa dizer. A escolha 
 sua. E talvez o melhor seja estar preparada. No imagina o quanto me 
assustou, quando voc e o seu Mamut fizeram aquela estranha Jornada. 
Pensei que estivesse morta, e implorei para a Grande Me traz-la de volta. 
No creio que em toda a minha vida eu jamais tenha implorado com tanto 
fervor por alguma coisa, Ayla. Espero que voc nunca mais faa algo 
semelhante.
        - Eu imaginei que tinha sido voc, no a princpio, mas posteriormente. 
O Mamut disse que algum nos chamou de volta, e chamou com tanta fora, 
que isso no pde ser negado. Achei ter visto voc, quando voltei a mim, mas 
depois no o vi - lembrou Ayla.
        - Voc estava prometida a Raznec. No quis ficar no caminho - 
justificou se Jondalar, relembrando nitidamente aquela noite terrvel.
        - Mas voc me amava. Se no me amasse tanto, talvez o meu esprito 
ainda estivesse perdido no vcuo. O Mamut afirmou que nunca mais iria l 
daquele jeito e ele me disse que, se alguma vez eu voltasse a fazer essa 
Jornada, deveria cuidar para ter uma forte proteo, ou talvez no 
retornasse. - De repente, ela foi para junto dele. - Por que eu, Jondalar? - 
bradou. Por que tenho de ser uma Zelandoni?
        Jondalar a abraou. Sim, pensou ele. Por que ela? Lembrou da donier 
comentando as responsabilidades e os perigos. Agora ele entendia por que 
ela tinha sido to franca. A Zelandoni estava tentando preparar os dois. O 
tempo todo, ela de via saber, desde o dia em que chegaram, exatamente 
como o Mamut pareceu saber. Foi por isso que ele a adotou em seu lar. Posso 
ser o parceiro de uma Zelandoni? Jondalar pensou na me e Dalanar. Sua 
me disse que Dalanar no conseguiu ficar com ela porque ela era a lder. As 
exigncias que recaem sobre uma Zelandoni so ainda maiores. Todo mundo 
dizia que ele parecia com Dalanar, no havia dvida de que Jondalar era 
filho do esprito dele. Mas Ayla diz que no se trata apenas de espritos. Ela 
afirma que Jonayla  minha filha. Se ela est certa, ento devo ser filho de 
Dalanar! O pensamento deixou-o atordoado. Seria ele tanto filho de Dalanar 
quanto de Marthona? Se fosse, seria to parecido com ele e, do mesmo 
modo, incapaz de viver com uma mulher cujos deveres eram to 
importantes? Era uma idia muito perturbadora.
Sentiu Ayla sacudir os seus braos, e olhou para ela.
        - O que foi, Ayla?
        - Tenho medo, Jondalar. Esta  a razo por que no quero fazer isso. 
Tenho medo de ser uma Zelandoni - soluou. Ela se acalmou e se afastou 
dele. - O motivo do meu medo, Jondalar,  que aconteceram coisas comigo 
que nunca contei a voc.
        - Que tipo de coisas? - perguntou, a testa enrugada.
        - Eu nunca lhe contei porque no sabia como explicar. Ainda no tenho 
certeza se consigo, mas vou tentar. Quando eu vivia com o cl de Brun, voc 
sabe que flu com eles para uma Congregao do Cl. Iza estava doente 
demais para ir... ela morreu logo depois que retornamos. - Os olhos de Ayla 
comearam a se inundar, com a lembrana. 
        - Iza era a curandeira, e ela deveria preparar a bebida especial para 
os mog-urs. Ningum mais sabia como prepar-la. Uba era jovem demais, 
ainda nem era mulher, e a bebida tinha de ser preparada por uma mulher. 
Antes de partirmos, Iza me ensinou como faz-la. Eu no achava que os 
mog-urs iam permitir que eu a fizesse... eles diziam que eu no era do Cl... 
mas, ento, Creb mandou que eu a preparasse. Trata-se da mesma bebida 
que preparei para o Mamut e para mim, quando fizemos a nossa estranha 
Jornada.
        - Mas eu no sabia prepar-la direito, e, alm disso, tambm acabei 
ingerindo um pouco dela. Nem mesmo sabia aonde estava indo, quando segui 
os mog urs de volta  caverna. A bebida era to poderosa, que eu j devia 
estar no Mundo dos Espritos. Quando vi os mog-urs, me escondi e fiquei 
observando, mas Creb sabia que eu estava l. Eu j lhe falei que Creb era um 
mago poderoso. Ele era como a Zelandoni, o Primeiro, O Mog-ur. Ele 
controlava tudo, e de algum modo a minha mente se juntou s deles. E 
retornei com eles, de volta ao comeo de tudo. No sei como explicar, mas 
eu estive l. Depois que voltamos ao presente, chegamos quele lugar. Creb 
bloqueou a passagem dos demais, pois no sabiam que eu estava com eles, 
mas depois os deixou e me seguiu. Eu sei que lugar era aquele, reconheci a 
Pedra Cadente. O Cl viveu ali por geraes, no sei lhe dizer durante 
quanto tempo. 
        Jondalar ficou fascinado, a despeito de si mesmo.
        - Muito tempo atrs, ns nos originamos do mesmo povo - continuou 
Ayla -, mas depois evolumos. O Cl foi deixado para trs, enquanto 
avanvamos. Por mais poderoso que fosse, Creb no conseguiu me seguir, 
mas ele viu algo ou sentiu algo. Ento, ele me mandou sair, ir embora da 
caverna. Foi como ouvi-lo dentro de mim, no interior de minha cabea, como 
se estivesse falando comigo. Os outros mog-urs nunca souberam que eu 
estive l, e ele nunca lhes disse. Eles teriam me matado. No  permitido 
que mulheres participem dessas cerimnias.
        - Depois disso, Creb mudou. Nunca mais foi o mesmo. Comeou a 
perder o seu poder, acho que no queria mais controlar as mentes. No sei 
como, mas, de algum modo, eu o magoei, e gostaria de nunca ter feito isso, 
mas ele tambm fez algo comigo. Desde ento, eu tambm fiquei diferente, 
os meus sonhos ficaram diferentes, e s vezes me sinto estranha, como se 
fosse para um outro lugar, e... no sei como expressar isso, mas  como se, 
s vezes, eu soubesse o que as pessoas esto pensando. 
        No, tambm no  bem assim,  mais como se eu soubesse como elas 
esto se sentindo, mas no  exatamente isso Seria como elas so, no sei 
as palavras certas, Jondalar. De qualquer modo, na maioria das vezes, eu 
impeo isso, mas, s vezes, as coisas surgem, principalmente quando so 
emoes muito fortes, como no caso de Brukeval.
        Jondalar a fitava de um modo estranho.
        - Voc sabe o que estou pensando que pensamentos esto na minha 
cabea?
        - No, nunca vejo exatamente os pensamentos. Mas sei que voc me 
ama. - viu a expresso dele mudar. - Isso o incomoda, no  mesmo? Talvez 
eu no devesse ter dito coisa alguma - murmurou, sentindo como um peso as 
emoes de Jondalar. Ela era sempre particularmente perceptiva em 
relao a Jondalar. Baixou a cabea, e os seus ombros desabaram.
        Jondalar percebeu o abatimento dela, e subitamente a sua sensao 
de inquietude evaporou-se. Segurou-lhe os ombros, fez com que ela 
erguesse a vista e olhou dentro de seus olhos. Eles tinham aquela aparncia 
incrivelmente antiga que, ocasionalmente, Jondalar vira antes, e uma 
tristeza, uma profunda e indizvel melancolia.
        - No tenho nada a esconder de voc, Ayla. No me importo se sabe o 
que estou pensando ou sentindo. Eu te amo. Nunca deixarei de amar.
        Lgrimas escorreram dos olhos dela, tanto de alvio quanto de amor. 
Esticou-se para beij-lo, ao mesmo tempo em que ele baixava a cabea em 
sua direo. Abraou-a com fora, desejando proteg-la de qualquer coisa 
que lhe pudesse causar dor. E ela o abraou. Desde que tivesse Jondalar, 
nada mais importaria realmente, no era mesmo? Ento, Jonayla comeou a 
chorar.
        - Eu quero apenas ser uma me e estar acasalada com voc, Jondalar. 
No quero mesmo ser uma Zelandoni insistiu Ayla, indo pegar a filha.
        Ela estava mesmo com medo, pensou ele, mas quem no estaria? No 
gosto sequer de chegar perto de um cemitrio, quanto mais visitar o mundo 
dos espri tos. Observou-a voltar com o beb nos braos, ainda com lgrimas 
nos olhos, e sentiu uma repentina onda de amor e amparo pela mulher e a 
criana. E da, se ela se tornasse uma Zelandoni? Para ele, continuaria sendo 
Ayla, e ela continuaria precisando dele.
        - Vai ficar tudo bem, Ayla - garantiu, pegando a filha e a aninhando 
em seus braos. Ele nunca se sentira to feliz desde que se acasalaram, e 
principalmente depois que Jonayla nasceu. Baixou a vista para a criana e 
sorriu. Acredito que ela seja minha tambm, pensou.
        - A deciso  sua, Ayla - afirmou. - Voc tem razo. Mesmo que entre 
para a zelandonia, isso no significa que ter de ser uma Zelandoni, mas, se 
for, tambm estar tudo bem. Eu sempre soube que estava me unindo a 
algum especial. No apenas a uma bela mulher, mas a uma mulher com um 
Dom raro. Voc fo escolhida pela Me, o que  uma honra, e Ela mostrou 
isso honrando voc no nosso acasalamento. E, agora, tem uma linda filha. 
No, ns temos uma linda filha. Voc disse que ela tambm  minha filha, 
no foi? - ponderou, tentando aplacar os seus temores.
Suas lgrimas voltaram a se derramar, mas Ayla sorriu atravs delas.
        - Sim. Jonayla  sua filha e minha filha - confirmou, e depois 
rebentou em novos soluos. Ele a alcanou com um dos braos e envolveu 
me e filha. - Se algum dia voc deixasse de me amar, Jondalar, no sei o 
que faria. Por favor, nunca deixe de me amar.
        - Claro que nunca vou deixar de amar voc. Eu sempre vou amar voc. 
Nada ser capaz de fazer com que eu deixe de amar voc - assegurou, 
sentindo a emoo bem dentro do corao e esperando que ela sempre fosse 
verdadeira.
        O inverno, finalmente, chegou ao fim. A neve turbilhonante, suja da 
poeira levantada pelo vento, derreteu, e os primeiros ps de aafro 
enfiaram as suas flores roxas e brancas atravs dos ltimos vestgios dela. 
Os pingentes de gelo pinga ram at desaparecer, e surgiram os primeiros 
brotos verdes. Ayla passava a maior parte do tempo com Huiin. Com o beb 
bem juntinho a ela, presa a uma capa de transporte, caminhava com a gua 
ou a cavalgava lentamente. Racer sentia-se mais lpido, e o prprio Jondalar 
tinha algum problema para control-lo, mas ele se divertia com o desafio.
        Huiin relinchou, ao avist-la, e Ayla alisou-a e abraou-a 
afetuosamente. Ela planejava se encontrar com Jondalar e vrias pessoas 
num pequeno alapado rio abaixo. Eles pretendiam drenar a seiva de alguns 
ps de btula, uma parte para cozer at se tornar uma deliciosa calda, e 
outra seria deixada fermentar para virar uma bebida levemente alcolica. 
No era longe, mas Ayla resolvera levar Hulin para passear, principalmente 
porque queria ficar perto dela. Estava quase chegando, quando comeou a 
chover. Impeliu Huiin a apressar o passo, e notou que a gua parecia ter 
dificuldade para respirar. Ayla sentiu a presso de seus flancos, no 
momento em que a gua teve outra contrao.
        - Huiin! - exclamou. - Chegou a sua hora, no  mesmo? Quanto tempo 
deve faltar para voc parir? No estamos longe do abrigo onde devo 
encontrar os outros. Espero que voc no se incomode com tanta gente  sua 
volta.
        Ao chegar ao acampamento, ela perguntou a Jobarran se podia levar 
Huiin para baixo do abrigado. A gua estava para dar  luz. Ele concordou de 
imediato, e uma onda de agitao espalhou-se pelo grupo. Seria uma 
experincia e tanto. Nenhuma daquelas pessoas jamais estivera perto de 
uma gua parindo. Ela conduziu Huiin para baixo da borda saliente.
        Jondalar correu para perguntar se ela precisava de ajuda.
        - No creio que Huiin precise da minha ajuda, mas quero ficar perto 
dela - disse Ayla. - Se voc tomar conta de Jonayla, j estar me ajudando. 
Acabei de amament-la. Ela ficar quieta por algum tempo. - Ele estendeu-
se para apanhar Jonayla. A criana viu o rosto dele e lhe deu um largo e 
encantador sorriso. Ela comeara a sorrir apenas recentemente, e passara a 
saudar o homem de sua lareira com esse sinal de reconhecimento.
        - Voc tem o sorriso de sua me, Jonayla - observou ele, ao segur-la, 
olhando-a fixamente e retribuindo o sorriso. O beb focalizou o rosto dele, 
soltou um leve arrulho, e sorriu novamente. Isso derreteu o corao de 
Jondalar. Aconchegou Jonayla na dobra do brao e caminhou de volta na 
direo do grupo que se encontrava na outra extremidade do pequeno abrigo.
        Huiin parecia contente por estar protegida da chuva. Ayla friccionou 
o corpo da gua e conduziu-a para uma rea com o solo seco, o mais longe 
possvel das pessoas. 
        Elas pareceram perceber que Ayla queria que mantivessem alguma dis
tncia, mas o espao era pequeno, e no impedia que vissem tudo. Jondalar 
virou-se para observar junto com elas. No seria a primeira vez que veria 
Hulin parir, mas a idia no era menos emocionante. Estar familiarizado com 
o processo do nascimento no diminuiu o senso de admirao diante de uma 
nova vida prestes a surgir. 
        Fosse humano ou animal, ainda era o maior Dom de Doni. Todos 
ficaram aguardando em silncio. Aps alguns momentos, quando parecia que 
Huiin ainda no estava inteiramente pronta, mas to acomodada quanto 
possvel, Ayla foi at a fogueira, perto da qual as pessoas esperavam, para 
apanhar gua. Ofereceram-lhe ch quente, e ela voltou para o tomar depois 
de levar a gua para o animal.
        - Ayla, ainda no ouvi voc contar como foi que encontrou os seus 
cavalos - comentou Dynoda. - O que fez eles deixarem de temer as pessoas?
Ayla sorriu. Ela estava se acostumando a contar histrias, e no se 
importava em falar sobre os seus cavalos. Rapidamente, narrou como 
apanhou numa arma dilha e matou a gua que era a me de Huiin, e depois 
avistou a jovem cria e as hienas. Explicou que levou a pequena gua para sua 
caverna, deu-lhe de comer e a criou. Avivou a narrativa e, sem que 
percebesse, insinuou-se em sua histria a habilidade de mostrar o 
significado atravs de expresses e gestos, que ela desenvolvera durante o 
tempo passado com o povo do Cl.
        Com metade do pensamento na gua, inconscientemente, ela 
dramatizou os acontecimentos, e as pessoas, vrias de outras Cavernas 
prximas, ficaram cativadas. O extico sotaque e a notvel habilidade em 
imitar sons de animais acrescentaram um interessante elemento  sua 
histria fora do comum. At mesmo Jondalar ficou extasiado, embora j 
conhecesse os pormenores. Ele no a tinha ouvido contar a histria daquele 
modo. Mais perguntas foram feitas, e ela passou a descrever a sua vida no 
vale, mas, ao falar que encontrou e criou um leo das cavernas, houve 
expresses de incredulidade. Rapidamente, Jondalar confirmou tudo. Quer 
acreditassem inteiramente quer no, tratava-se de uma histria deliciosa, o 
fato de um leo, uma gua e uma mulher viverem juntos em uma caverna num 
vale isolado. Um rudo vindo da gua impediu-a de continuar.
        Ayla sobressaltou-se e foi at Huiin, que j se encontrava deitada de 
lado. A cabea de uma cria envolta por uma membrana comeou a emergir. 
Pela segunda vez, ela agia como parteira da gua. Antes de a garupa se 
esvaziar completamente, a potra recm-nascida, ainda molhada, tentou se 
erguer. Huiin olhou para trs, para ver o que tinha feito, e relinchou 
suavemente para a nova cria Ainda no cho, a potra comeou a se contorcer 
em direo  cabea de Huiin, parando um instante para tentar mamar, 
antes de ambas se colocarem de p. Quando alcanou a me, a gua 
imediatamente passou a limp-la com a lngua. Poucos momentos depois, a 
pequena gua tentou se levantar. Caiu sobre o prprio focinho, mas, na 
segunda tentativa, colocou-se de p, apenas alguns momentos aps ter 
nascido.
        Um cavalinho forte, pensou Ayla.
        Assim que a cria se ergueu, Huiin levantou-se, e, no instante em que 
ficou de p, a nenm passou a focinh-la, novamente tentando mamar,
primeiramente mergulhando por baixo da me, incapaz de encontrar o lugar
certo. Depois de ela passar uma segunda vez sob as suas pernas traseiras,
Huiin deu uma pequena bi cada na cria para lev-la na direo certa. Foi tudo
o que era preciso. Sem qual quer ajuda, Huiin foi perfeitamente capaz de
dar  luz  sua potra de pernas finas e compridas.
        As pessoas haviam observado em silncio, vendo, pela primeira vez, a
sabedo ria que a Grande Me Terra dera s Suas criaturas selvagens, sobre
como cuidar de seus recm-nascidos. O nico modo de os jovens da espcie
de Huiin sobreviverem, como os da maioria dos outros animais que pastavam
em grande nmero pelas estepes, era torn-los capazes, logo aps o
nascimento, de ficar de p e cor rer quase tanto quanto um adulto. Sem isso,
seriam presas fceis de predadores e poderiam no sobreviver. 
        Huiin parecia contente amamentando a sua cria.
        O nascimento da gua foi um raro divertimento para as pessoas que o 
viram, e uma histria que seria contada e recontada no futuro por todos os 
que o tinham testemunhado. Depois que me e filha estavam instaladas 
confortavelmente, Ayla voltou, pois muita gente tinha perguntas e 
comentrios a fazer-lhe.
        - Eu no sabia que bebs de cavalos podiam andar pouco depois de 
terem nascido. Um beb humano leva pelo menos um ano para caminhar. Eles 
tambm crescem mais depressa?
        - Crescem - respondeu Ayla. - Racer nasceu um dia depois de eu 
encontrar Jondalar. Ele agora  um garanho adulto, e conta apenas trs 
anos de vida.
        - Voc vai ter que dar um nome para a jovem, Ayla - lembrou Jondalar.
        - Sim, mas vou ter que pensar - disse Ayla.
        Jondalar foi rpido em captar o que ela deixou subentendido. Era 
verdade que a gua cor de feno tinha parido uma cria de cor diferente. 
Tambm era verdade que entre os cavalos das estepes orientais, perto da 
regio dos Mamuti, havia alguns com tonalidades de marrom escuro, como 
Racer. Ele no tinha certeza com que cor ficaria a pequena potranca, mas 
no parecia que ia ter a cor da me.
        Lobo os encontrou pouco depois. Como se, instintivamente, soubesse 
que devia se aproximar com cautela da nova famlia, ele seguiu primeiro para 
Huiin. A despeito de seus instintos, a gua sabia que aquele no era um 
carnvoro temvel. Ayla juntou-se a eles, e, depois de a gua se convencer de 
que aquele lobo era - uma exceo, principalmente quando a mulher estava 
por perto, permitiu que ele farejasse a cria e deixou-a sentir o cheiro dele.
A recm-nascida era uma potranca cinzenta.
        - Acho que vou cham-la de Cinza - mencionou para Jondalar -, e ela 
ser a montaria de Jonayla. Mas teremos que ensinar s duas. - Sorriu 
encanta do diante da probabilidade.
        No dia seguinte, quando voltaram para a rea dos cavalos, no abrigo, 
Racer acolheu a irmzinha com vida curiosidade, mas sob a rigorosa 
superviso de Huiin. Ayla olhava por acaso para a rea das habitaes, 
quando viu a Zelandoni se aproximar. Ficou surpresa com o fato de a donier 
estar indo visitar a nova cria, j que raramente fazia qualquer esforo em 
especial para ver os animais. Outras pessoas arranjavam desculpas para uma 
olhadela, e Ayla pediu para, no incio, no chegarem muito perto, mas a 
donier foi apresentada pessoalmente a Cinza.
        - Jonokol me informou que deixar a Nona Caverna, quando formos 
para a Reunio de Vero - anunciou a donier, aps ter examinado a potranca.
        - Bem, era o que voc esperava - comentou Ayla, sentindo-se um 
pouco nervosa.
        - J decidiu se vai ser a minha nova aclita? - perguntou abertamente, 
sem hesitar.
        Ayla olhou para baixo, e em seguida de volta para a mulher.
        A Zelandoni ficou  espera, e depois olhou nos olhos de Ayla.
        - Eu acho que voc no tem escolha. Sabe que, um dia, receber o 
chamado, talvez mais cedo do que imagina. Eu lamentaria ver destrudo o seu 
potencial, mesmo se for capaz de sobreviver a isso sem apoio e treinamento.
Ayla pelejou para se livrar do olhar autoritrio. Ento, nas profundezas do 
seu ser, ou nas trilhas de seu crebro, ela encontrou a fora necessria. 
Teve a impresso de um poder elevar-se dentro de si, e no mais se sentiu 
constrangida por Aquela Que Era A Primeira, e sustentou o olhar firme dela. 
Isso lhe deu uma sensao de algo indescritvel, um senso de fora, de 
domnio, de autoridade, que, COnscientemente, jamais tivera.
        Ao livrar a mulher, a Zelandoni desviou a vista por um instante.
Quando a olhou de volta, havia sumido a sensao do tremendo poder que
possua, mas Ayla a fitava com um sorriso consciente. A criana em seus
braos comeou a se mexer, como se algo a perturbasse, e a ateno de
Ayla voltou-se para a filha.
        A Zelandoni abateu-se, contudo se controlou rapidamente. Fez meia-
volta para ir embora, virou-se e examinou Ayla novamente, no com o fitar
que produzira o embate de foras de vontade, mas com um olhar franco e
penetrante.
        - Diga-me agora que no  uma Zelandoni, Ayla - falou baixinho.
        Ayla enrubesceu e olhou em volta, incerta, como se tentasse
encontrar algum modo de escapar. Quando olhou de volta para a grande
mulher, a Zelandoni voltara a ser a presena autoritria que ela sempre 
conhecera.
        - Eu vou falar com Jondalar - prometeu e ento, rapidamente baixou a 
vista para a filha.


A Cano da Me
O caos do tempo, em meio  escurido,
O redemoinho deu a Me sublime  imensido.
Sabendo que a vida  valiosa, para Si Mesma Ela acordou
E o vazio vcuo escuro a Grande Me Terra atormentou.
Sozinha a Me estava. Somente Ela se encontrava.
No p do Seu nascimento, Ela viu uma soluo,
E criou um amigo claro e brilhante, um colega, um irmo.
Eles cresceram juntos, aprenderam a amar e a cuidar,
E quando Ela estava pronta, eles decidiram se casar.
E diante dela ele se curvou. O Seu claro e brilhante amor.
No incio, Ela ficou contente com Sua complementao.
Mas a Me tornou-se intranqila, insegura de Seu corao.
Ela gostava do Seu louro amigo, o Seu caro amado,
Mas algo estava faltando, Seu amor era desperdiado.
Ela era a Me e amava. De outro ela precisava.
O grande vazio, o caos, o escuro Ela enfrentou
 procura da fria morada que a centelha de vida propiciou
O redemoinho era temvel, a escurido se alastrava.
O caos era congelante e o Seu calor alcanava.
A Me era valente, O perigo era inclemente.
Ela extraiu do frio caos a fora criativa total,
E aps conceber dentro dele, Ela fugiu com a fora vital
E amor e orgulho para Si mesma Ela deu. A Me carregava. Sua vida Ela 
partilhava.
A vasta Terra estril e o vazio vcuo escuro,
Com expectativa, aguardavam o futuro.
A vida bebeu do sangue Dela e dos Seus 05505 respirou.
Fendeu e abriu a Sua pele e as Suas Pedras rachou
A Me estava concebendo. Outro estava vivendo.
Suas jorrantes guas parturientes encheram rios e mares,
E inundaram a terra, elevando altas rvores nos ares.
De cada gota preciosa, mais grama e folhas brotaram,
E viosas plantas verdejantes toda a Terra renovaram.
Sua gua flua. O novo verde crescia.
Num violento trabalho de parto, vomitando fogo e desprazer,
Ela pelejou na dor para uma nova vida ver nascer.
Seu sangue coagulado e seco tornou ocre vermelho o solo,
Mas a criana radiante que nasceu foi o seu consolo.
A Me estava contente. Era o Seu menino reluzente.
Montanhas jorraram chamas de seus cumes ondulosos,
E Ela amamentou o filho com os Seus seios montanhosos.
Ele sugou com tanta fora, que fascas voaram adiante,
O quente leite da Me estendeu uma trilha no cu distante.
A vida Dele comeou. O Seu Filho Ela amamentou.
Ele sorria e brincava, e se tornou grande e luminoso.
Acendia a escurido, era da Me o amoroso.
Ela era generosa com o Seu amor, e ele crescia com abastana,
Mas logo amadureceu, no era mais uma criana.
Da fonte retirou a vida que gerado Ela havia. hora o vcuo frio e vazio o Seu 
filho seduzia. A Me dava amor, porm o jovem por mais passou a ansiar, 
Queria conhecimento,
emoo, viajar, explorar.
O caos era inimigo Seu. E ao desejo do filho no cedeu.
Ele o furtou do lado Dela, quando a Grande Me dormia,
Enquanto, no escuro, o vcuo rodopiante agia.
Com tentadoras indues, a escurido enganou.
Iludido pelo redemoinho, o caos Seu filho capturou.
O escuro o Seu filho levou. O jovem brilhante se apagou.
O filho reluzente da Me, a princpio se alegrou,
Mas logo o rido vcuo frio se revelou.
A Sua cria imprudente, pelo remorso mortificado,
A fora misteriosa no conseguia p6r de lado.
O caos no o libertava. O temerrio descendente Dela confinava.
Mas quando a escurido para o frio o puxou,
A Me acordou, estendeu a mo e buscou.
Para ajud-La a recuperar o seu filho radiante,
A Me apelou para o claro brilhante.
A Me com fora o segurou. E  vista o deixou.
Ela o acolheu de volta, aquele que fora o Seu amor,
E triste e magoada, Sua histria Ela contou.
O Seu caro amigo concordou em ajudar,
E o filho Dela de seu perigoso apuro salvar.
Ela falou de Sua solido. E do escuro redemoinho ladro.
A Me estava cansada e precisava se recuperar,
E o aperto em seu luminoso amante decidiu afrouxar.
Enquanto Ela dormia, a fria fora ele combateu,
E, por um tempo, para a sua fonte a devolveu.
O esprito dele era irado, O encontro foi demorado.
O louro e brilhante amigo Dela pelejou, e fez o possvel,
Mas o conflito era duro, e a batalha, incrvel.
Sua cautela falou, quando do grande olho se aproximou.
E sua luz do cu foi roubada, depois que a escurido se insinuou.
Seu claro amigo estava tentando. Sua luz estava expirando.
Quando a escurido ficou total, Ela gritando acordou.
O tenebroso vazio a luz do cu ocultou.
Ela se juntou ao conflito, foi rpida na abertura,
E afastou para longe de Seu amigo a sombra escura.
Mas a plida face da noite rondava. E o Seu filho ocultava.
Preso no redemoinho, o Seu filho reluzente sucumbido
No mais fornecia calor  Terra; o frio caos havia vencido.
A frtil vida verde agora em gelo e neve se tornava,
E um afiado frio cortante continuamente soprava.
A Terra despojada estava. Nenhuma planta verde restava.
A Me estava exausta, triste e abatida,
Mas saiu novamente atrs de a quem deu a vida.
No podia desistir, precisava lutar,
Para fazer a luz gloriosa do Seu filho retornar.
Ela continuou a lutar. Para a luz recuperar.
E o Seu amigo luminoso estava preparado para combater
O ladro que o filho do seio Dela mantinha em seu poder.
Juntos lutaram pelo filho que era o Seu bem-querer.
O esforo foi bem-sucedido, e sua luz se fez renascer.
Sua energia inflamou, O seu brilho voltou.
Mas a rida e fria escurido desejava o seu calor incandescente.
A Me manteve-se na defesa, sem querer recuar absolutamente.
O redemoinho puxava forte. Em se recusar a largar Ela era terminante.
A Me lutava por um empate com o Seu escuro inimigo rodopiante.
Ela acuava a escurido o bastante. Mas o Seu filho estava distante.
Depois que Ela combateu o redemoinho e fez o caos fugir,
A luz do Seu filho com vitalidade voltou a reluzir.
Quando a Me se cansou, o rido vcuo oscilante ficou,
E a escurido ao final do dia retornou.
O calor do filho Ela sentiu. Mas para nenhum a vitria sorriu.
A Grande Me passou com uma dor em Seu corao a conviver,
De que Ela e o Seu filho separados para sempre iam viver.
Pela criana que Lhe fora negada padecia
Ento, mais uma vez, a fora vital interna a reanimaria.
Ela no se conformava. Com a perda de quem amava.
Quando Ela estava pronta, com as Suas guas, que faziam nascer,
De volta para a Terra fria e nua, a vida verde Ela fez crescer.
E as lgrimas de Sua perda, vertidas e abundantes
Produziram o orvalho cintilante e os arco-ris emocionantes.
As guas o verde criaram. Mas Suas lgrimas derramaram.
Com um estrondoso bramido, Suas pedras em pedaos se partiram,
E das grandes cavernas que bem abaixo se abriram,
Ela novamente em seu espao cavernoso fez parir,
Para do Seu ventre mais Filhos da Terra sair.
Da Me em desespero, mais crianas nasceram.
Mas sozinha a Mulher estava. Somente Ela se encontrava.
Cada filho era diferente, havia grandes e pequenos tambm,
Uns caminhavam, outros voavam, uns rastejavam e outros nadavam bem.
Mas cada forma era perfeita, cada esprito acabado,
Cada qual era um exemplar cujo modelo podia ser imitado.
A Me produzia. A terra verde se enchia.
Todas as aves, peixes e animais gerados,
No deixariam, desta vez, os olhos da Me inundados.
Cada espcie viveria perto do lugar de corao.
E da Grande Me Terra partilharia a imensido.
Perto Dela ficariam. Fugir no poderiam.
Todos eram Seus Filhos, e lhe davam prazer,
Mas esgotaram a fora vital do Seu fazer.
Mas Ela ainda tinha um resto, para uma ltima inovao,
Uma criana que lembraria Quem fez a criao.
Uma criana que respeitaria. E a proteger aprenderia.
A primeira Mulher nasceu adulta e querendo viver,
E recebeu os Dons de que precisava para sobreviver.
A Vida foi o Primeiro Dom, e, como a Grande Me Terra dadivosa,
Ela acordou para si mesma sabendo que vida era valiosa.
A Primeira Mulher a haver. A primeira a nascer.
A seguir, foi o Dom da Percepo, do aprender,
O desejo do discernimento, o Dom do Saber.
 Primeira Mulher foram dados conhecimentos contundentes
Que a ajudariam a viver, e pass-los aos descendentes.
A Primeira Mulher ia saber. Como aprender, como crescer.
Com a fora vital quase esgotada, a Me estava consumida,
E passou para a Vida Espiritual, que fora a sua lida.
Ela fez com que todos os Seus filhos mais uma vez fizessem a criao,
E a Mulher tambm foi abenoada com a procriao.
A Me lembrou a prpria solido que sentiu,
O amor do Seu amigo e as demoradas carcias que produziu.
Com a ltima centelha que restava, a Sua tarefa iniciou,
Para compartilhar a vida com a Mulher, o Primeiro Homem Ela criou.
Mais uma vez Ela dava. Mais uma vez criava.
 Mulher e ao Homem a Me concebeu,
E depois, para seu lar, Ela o mundo lhes deu,
A gua, a terra, e toda a Sua criao.
Us-los com cuidado era deles a obrigao.
Era a casa deles para usar. Mas no para abusar.
Para os Filhos da Terra a Me proveu
O Dom para sobreviver, e ento Ela resolveu
Dar a eles o Dom do Prazer e do partilhar
Que honram a Me com a alegria da unio e do se entregar.
Os Dons so bem merecidos. Quando os sentimentos so retribudos.
A Me ficou contente com o casal criado,
E o ensinou a amar e a zelar no acasalado.
Ela incutiu neles o desejo de se manter,
E foi ofertado pela Me o Dom do Prazer.
E assim foi encerrando. Os seus filhos tambm estavam amando. Depois de
os Filhos da Terra abenoar, a Me pde descansar.










Relao dos Personagens

Ayla - da Nona Caverna dos Zelandonii, anteriormente Ayla do
Acampamento do Leo dos Mamuti, Filha do Lar do Mamute, Escolhida pelo
Esprito do Leo das Cavernas, Protegida pelo Urso das Cavernas, amiga dos
cavalos Huiin e Racer, e de Lobo, o caador de quatro patas.
Jondalar - da Nona Caverna dos Zelandonii, prometido de Ayla, filho da ex-
lder, irmo do lder, chamado de Jond pela irm Folara.
Zelandoni (Zolena) - Atual Zelandoni, ex-amante de Jondalar.
Thonolan - Irmo mais novo de Jondalar, morto na Jornada.
Folara - Irm mais nova de Jondalar.
Marthona - Me de Jondalar, ex-lder, e tambm me de Joharran e Folara.
Willamar - Parceiro de Marthona, Mestre Comerciante, Viajante.
Tivonan - Aprendiz de comerciante de Willamar.
Joconan - Primeiro parceiro de Marthona, morto, homem da lareira de 
Joharran.
Joharran - Irmo mais velho de Jondalar, lder da Nona Caverna.
Proleva - Parceira de Joharran.
Jaradal - Filho de Proleva, criana da lareira de Joharran.
Levela - Irm mais nova de Proleva, parceira de Jondecan.
Jondecam - Parceiro de Levela, sobrinho de Kimeran e filho da Zelandoni da          
Segunda Caverna.
Velima - Me de Proleva e Levela.
Solaban - Caador, conselheiro e amigo de Joharran.
Ramara - Parceira de Solaban.
Robenan - Filho de Ramara.
Rushemar - Caador, conselheiro e amigo de Joharran.
Salova - Parceira de Rushemar.
Marsola - Filha de Salova.
Marona - Ex-namorada de Jondalar.
Wylopa - Prima de Marona.
Portula - Amiga de Marona.
Lorava - Irm mais nova de Portula.
Ramila - Amiga de Folara.
Galeya - Amiga de Folara.
Charezal - Novo membro da Nona Caverna, desconhecido de Jondalar.
Shevonar - Homem que morre na caada.
Relona - Parceira de Shevonar.
Ranokol - Irmo de Shevonar.
Brukeval - Primo distante (parte Cl) de Jondalar.
Madroman - Chamado anteriormente de Ladroman, aclito da Quinta 
Caverna.
Laramar - Homem que faz barma.
Tremeda - Parceira de Laramar.
Bologan - Filho mais velho de Tremeda, doze anos.
Lanoga - Filha de Tremeda, dez anos.
Lorala - Filha de Tremeda, cerca de seis meses.
Stelona - Mulher mais velha que amamenta Lorala.
Thefona - Melhor olheira da Terceira Caverna, tem a melhor viso.
Thevola - Fabricante de placas de couro cru.
Lanidar - Menino da Dcima Nona Caverna com o brao direito deformado, 
doze anos.
Mardena - Me de Lanidar.
Denoda - Me de Mardena.
Janida - Parceira de Peridal.
Peridal - Parceiro de Janida.
Matagan - Jovem que foi ferido por um rinoceronte lanudo.
Tjshona - Parceira de Marsheval.
Marsheval - Parceiro de Tishona.
Palidar - Amigo de Tivonan.
Huiin - Montaria de Ayla, gua amarelo-pardo, eqino Przwalski.
Racer - Cavalo de Jondalar, ganharo baio (castanho), eqino Cherski (raro).
Lobo - Lobo de Ayla.


LDERES

Manvelar - Lder da Terceira Caverna, Pedra dos Dois Rios.
Morizan - Filho da parceira de Manvelar, filho da lareira dele.
Kareja - Lder da Dcima Primeira Caverna, Lugar do Rio.
Dorova - Me de Kareja.
Brameval - Lder da Dcima Quarta Caverna, Pequeno Vale.
Kimeran - Lder da Segunda Caverna dos Zelandonii, o Lar Mais Antigo, 
irmo da Zelandoni da Segunda Caverna, tio de Jondecam.
Denanna - Lder das trs Pores da Vigsima Nona Caverna, Trs Pedras, e, 
especificamente, da Poro Sul, Pedra do Reflexo.
Tormaden - Lder da Dcima Nona Caverna dos Zelandonii.




ZELANDONIA

Zelandoni - da Dcima Primeira Caverna, Lugar do Rio, homossexual.
Marolan - homem que  amigo e parceiro do Zelandoni da Dcima Primeira.
Zelandoni - da Terceira Caverna, Pedra dos Dois Rios, homem mais velho.
Zelandoni - da Dcima Quarta Caverna, Pequeno Vale, mulher de meia- idade.
Zelandoni - da Segunda Caverna, o Lar Mais Antigo, irm mais velha de 
Kimeran, me de Jondecam.
Zelandoni - da Stima Caverna, Pedra Cabea de Cavalo, av grisalho da
Zelandoni da Segunda e de Kimeran.
Zelandoni - da Dcima Nona Caverna, mulher mais velha de cabelos brancos.
Zelandoni - da Quinta Caverna, Vale Antigo, homem de meia-idade. 
Zelandoni - da Vigsima Nona Caverna, Trs Pedras, e mediadora entre os 
trs Zelandonis e os trs lderes das trs pores separadas da Vigsima 
Nona Caverna.
Zelandoni Assistente- da Vigsima Nona Caverna, Zelandoni de Pedra do 
Reflexo (Poro Sul), homem de meia-idade.
Zelandoni Assistente- da Vigsima Nona Caverna, Zelandoni da Face Sul 
(Poro Norte), homem jovem.
Zelandoni Assistente- da Vigsima Nona Caverna, Zelandoni do 
Acampamento de Vero (Poro Oeste), mulher de meia-idade.
Primeira Aclita da Segunda Caverna (quase Zelandoni), mulher jovem. 
Jonokol - Primeiro Aclito da Nona Caverna, artista, homem jovem. 
Mejera - Aclita da Terceira Caverna (outrora Dcima Quarta), mulher 
muito jovem.
Madroman - Aclito da Quinta Caverna (outrora Ladroman da Nona Caver 
na), homem jovem.


PRIMEIRA CAVERNA DOS LANZADONII (CAVERNA DE DALANAR)

Dalanar - Homem da lareira de Jondalar, ex-parceiro de Marthona, 
fundador dos Lanzadonii.
Jerika - Parceira de Dalanar, co-fundadora dos Lanzadonii.
Ahnlay - Me de Jerika, morta.
Hochaman - Homem da lareira de Jerika, Grande Viajante.
Joplaya - filha de Jerika, filha da lareira de Dalanar.
Echozar - Parceiro de Joplaya, metade Cl.
Andovan - Homem que ajudou a criar Echozar, morto.
Yoma - Me de Echozar, mulher do Cl, morta.



Agradecimentos

        Sou mais grata do que posso expressar pela assistncia de muita 
gente que me ajudou a aprender sobre o mundo antigo das pessoas que
viviam quando as geleiras avanaram mais alm do sul das margens atuais e
cobriram um quarto da superfcie da terra. Contudo, h alguns detalhes que
optei por usar, particularmente no que se refere a certas teorias e  
sincronia de locais e acontecimentos, os quais podem no ser aceitos pela 
maioria da atual comunidade acadmica. Alguns podem ter sido descuidados, 
mas outros foram escolhidos premeditadamente, em geral porque 
pareceram mais exatos a esta romancista, que precisa escrever sobre 
pessoas com uma compreenso da natureza humana e motivao lgica para 
os atos de cada um.
        Mais especialmente, quero agradecer ao Dr. Jean-Phiippe Rigaud, a 
quem conheci durante a minha primeira viagem de pesquisa  Europa, em sua 
escavao arqueolgica denominada Flageolet, no sudoeste da Frana, 
outrora um acampamento de caa em uma encosta que d vista para uma 
ampla plancie relvada e os animais migratrios da Era Glacial que ela 
preservou. Embora eu fosse uma desconhecida escritora americana, ele 
dedicou parte de seu tempo para me explanar algumas das descobertas 
feitas naquele stio, e ajudou-me a conseguir uma visita  Caverna de 
Lascaux. Cheguei s lgrimas ao ver o santurio de esplendor pr-histrico 
pintado por aqueles primeiros humanos modernos da Europa Paleolftica 
Superior, os Cro-Magnons - uma obra que pode ser equiparada s mais belas 
de hoje em dia.
        Posteriormente, quando voltamos a nos encontrar em La Micoque, um 
bem primitivo stio Neanderthal, passei a entender mais sobre a 
incomparvel poca do incio de nossa pr-histria, quando os primeiros 
humanos anatomicamente modernos chegaram  Europa e encontraram os 
neanderthais que ali habitavam desde antes da ltima Era Glacial. Como eu 
queria entender o processo que  utilizado para se aprender sobre os nossos 
mais antigos ancestrais, meu marido e eu trabalhamos por um curto perdo 
em Grotte Seize, a escavao mais recente do Dr. Rigaud. Ele tambm me 
deu muitos esclarecimentos sobre o valioso e extenso stio habitado, que 
atualmente  denominado Laugerie Haute, mas que passei a chamar de Nona 
Caverna dos Zelandonii.
        O Dr. Rigaud tem sido de grande ajuda por toda esta srie, mas 
agradeo a sua assistncia a este livro em particular. Antes de eu comear a 
escrever Os abrigos de pedra, peguei todas as informaes que havia 
reunido sobre a regio e como ela era na poca e redigi todo o pano de 
fundo da histria, batizando os stios com a minha prpria denominao e 
descrevendo os cenrios, para que, quando precisasse da informao, ela 
estivesse facilmente disponvel em minhas prprias palavras. 
Tenho feito inmeras consultas a vrios cientistas e outros especialistas, 
mas nunca pedi a nenhum deles para conferir o meu trabalho antes de ele 
ser publicado. 
        Sempre assumi total responsabilidade pelas escolhas que fiz ao 
selecionar os detalhes que foram usados em meus livros, pelo modo como 
decidi us-los, e pela imaginao que lhes acrescentei - e ainda acrescento. 
Entretanto, como o cenrio deste romance  muito conhecido, no apenas 
por arquelogos e outros profissionais, mas tambm por muitas pessoas que 
tm visitado a regio, precisei ter certeza de que os detalhes do meu pano 
de fundo fossem os mais acurados possveis. Fiz, portanto, algo que eu nunca 
tinha feito anteriormente. Pedi ao Dr. Rigaud, um conhecedor da regio e da 
arqueologia, que conferisse as muitas e muitas pginas de material de fundo, 
a fim de eliminar os possveis erros. No me dei conta totalmente do imenso 
trabalho que lhe pedi, e lhe agradeo profundamente o seu tempo e 
empenho. Ele me fez um elogio ao dizer que a informao era 
aceitavelmente acurada, mas tambm me falou de algumas coisas que eu no 
sabia ou no havia entendido, as quais pude corrigir e incorporar. Quaisquer 
erros que tenham subsistido so inteiramente meus.
        Sou profundamente grata a outro arquelogo francs, o Dr. Jean 
Clottes, a quem conheci por intermdio de seu colega, o Dr. Rigaud. Em 
Montignac, durante a comemorao dos cinqenta anos da descoberta da 
Caverna de Lascaux, ele teve a gentileza de traduzir para mim, em voz baixa, 
os pontos principais de algumas palestras feitas em francs durante o 
encontro paralelo ao evento em Lascaux. Desde ento, atravs dos anos, 
temos nos encontrado em ambos os lados do Atlntico, e toda a minha 
gratido no  suficiente diante de sua gentileza e excepcional 
generosidade com o seu tempo e assistncia. Ele me serviu de guia atravs 
de muitas cavernas pintadas e entalhadas, principalmente na regio prxi ma 
s montanhas dos Pirineus. Alm das fabulosas cavernas na propriedade do 
conde Begouen, fiquei particularmente impressionada com Gargas, que tem 
muito mais do que as impresses de mos pelas quais  bem conhecida. 
Tambm apre ciei muito mais do que posso expressar a minha segunda visita 
feita com ele s profundezas da Caverna de Niaux, que durou cerca de seis 
horas e foi uma mara vilhosa revelao, em parte porque, na ocasio, aprendi 
bem mais a respeito de cavernas pintadas do que da primeira vez. Embora 
esses locais ainda no estejam includos na histria, foram bastante 
esclarecedoras as vrias conversas com ele sobre conceitos e idias, 
principalmente em relao ao motivos que os cro-magnons devem ter tido 
para enfeitar as suas cavernas e stios habitados.
        Fiz a minha primeira visita  caverna de Niaux, nos contrafortes dos 
Pirineus, em 1982, pela qual devo agradecer ao Dr. Jean-Michel Belamy. 
Fiquei indelevelmente impressionada com Niaux, com os animais pintados no 
Salo Negro, as pegadas de crianas, os cavalos lindamente pintados bem 
nas profundezas da extensa caverna alm do pequeno lago, e muito mais. 
Fiquei comovida e sem pala vras com a mais recente ddiva do Dr. Belamy, a 
excepcional primeira edio do primeiro livro sobre a caverna de Niaux.
        Sinto-me imensamente grata ao conde Robert Begouen, que tem 
protegido e preservado as notveis cavernas em suas terras, L'Enlene, Tuc 
d'Audoubert e Trois Frres, e criado um incomparvel museu para os 
artefatos que foram cuidadosa mente escavados delas. Fiquei encantada 
com as duas cavernas que vi, e sou profundamente grata a ele, e ao Dr. 
Clottes, por guiarem as minhas visitas.
        Quero, tambm, agradecer ao Dr. David Lewis-Wihiams, um homem 
bondoso com fortes convices, cujo trabalho com os bosqumanos da frica 
e as notveis pinturas na rocha de seus ancestrais tem engendrado 
profundas e fasci nantes idias e produzido vrios livros, um deles em co-
autoria com o Dr. Charles Clottes, The Shamans of Prehistory (Os xams da 
pr-histria), o qual sugere que os antigos pintores de cavernas francesas 
devem ter tido motivos semelhantes para pintar as paredes de pedra de 
suas cavernas.
        Um agradecimento igualmente  devido ao Dr. Roy Larick por seus 
prstimos e principalmente por destrancar a porta metlica protetora e me 
mostrar a bela cabea de cavalo entalhada em baixo-relevo na parede da 
caverna inferior em Commarque.
        Tambm sou grata ao Dr. Paul Bahn por me ajudar a entender, 
traduzindo, algumas das palestras feitas na reunio comemorativa do 
aniversrio de Lascaux. Atravs do seu empenho, tive a honra de conhecer 
trs dos homens que, quando meninos, descobriram nos anos 40 a bela 
caverna de Lascaux. O stio me levou s lgrimas, quando vi suas paredes 
brancas cobertas com as notveis pinturas em policromia, e pude imaginar a 
impresso que elas devem ter causado nos quatro meninos que seguiram um 
cachorro por um buraco e viram a caverna pela primeira vez desde o 
desabamento de sua entrada h 15.000 anos. O Dr. Bahn me tem sido de 
grande ajuda, tanto atravs de conversas como de seus livros sobre a 
intrigante era pr-histrica, tema desta srie de romances.
        Sinto uma grande simpatia e gratido pelo Dr. Jan Jelinek pelas 
contnuas conversas sobre a Era Paleoltica Superior.. So sempre valiosos 
os seus esclareci sobre as pessoas que viveram durante essa poca, quando 
os seres humanos anatomicamente modernos chegaram e se estabeleceram 
na Europa em contato com os neanderthais que l viviam. Tambm quero 
agradecer a ele por auxiliar os editores checos nas tradues dos livros 
anteriores desta srie.
        Eu li os livros do Dr. Alexander Marshack, pioneiro na tcnica de 
examinar em um microscpio artefatos entalhados, muito antes de conhec-
lo, e tenho gran de apreo pelo empenho que tem feito para a compreenso 
dos cro-magnons e neanderthais, e pelos livros que me envia. Tenho ficado 
impressionada com suas teorias srias e irrefutveis, baseadas em 
cuidadosos estudos feitos por ele, e conti fluo a ler a sua obra, por causa de 
suas argutas e inteligentes intuies sobre o povo que viveu durante a
ltima Era Glacial.
        Durante os trs meses em que vivi perto de Les Eyzies de Tayac, no 
sudoeste da Frana, pesquisando para este livro, visitei muitas vezes a 
caverna de Font-de Gaume.
        Devo um obrigado especial a Paulette Daubisse, diretora e 
encarregada das pessoas que guiavam as visitas quela bela e antiga caverna 
pintada, pela sua gentileza e, em particular, por ter me oferecido uma visita 
especial individual. Ela convive h muitos anos com esse stio e o conhece 
como se fosse sua prpria casa. Mostrou-me muitas formaes e pinturas 
que normalmente no so apresentadas ao visitante normal - tornaria a 
visita demorada demais - e sou mais grata do que ela pode imaginar pelas 
incomparveis revelaes que produziram.
        Quero, tambm, agradecer a M. Renaud Bombard da Presse dela Cit, 
o meu editor francs, pela sua boa vontade em me ajudar a encontrar o que 
quer que eu precisasse,
sempre que eu me encontrava na Frana, pesquisando. Quer fosse um lugar 
para fazer cpias de um enorme manuscrito no muito longe de onde me 
encontrava e com algum que falasse ingls para eu poder explicar o que 
desejava, ou um bom hotel na regio, na baixa temporada, quando a maioria 
dos hotis ficam fechados, ou um fabuloso restaurante no vale do Loire, 
onde pudemos fes tejar o aniversrio de caros amigos, ou reservas de 
ltima hora em um popular resort no Mediterrneo, que por acaso ficava no 
caminho de um stio que eu que ria visitar. Fosse o que fosse, M. Bombard 
sempre conseguia fazer acontecer, e sou sinceramente grata.
        Para escrever este livro, precisei aprender mais do que arqueologia e 
paleontologia, e h vrias pessoas que foram de grande ajuda. Um sincero 
muito obrigado ao Dr. Ronald Naito, doutor de medicina em Portland, 
Oregon, e meu mdico particular h muitos anos, que se dispunha a me 
visitar, aps o expediente em seu consultrio, e responder s minhas 
perguntas sobre os sintomas e a progresso de certas doenas e ferimentos. 
        Quero, ainda, agradecer ao Dr. Brett Bolhofner, doutor de medicina  
ortopdica em St. Petersburg, Flrida, por sua informao sobre trauma e 
danos sseos, porm mais ainda por juntar o quadril e a plvis despedaados 
do meu filho aps um acidente de carro que ele sofreu. Um agradecimento 
tambm a Joseph J. Pica, cirurgio de trauma ortopdico e mdico-
assistente do Dr. Bolhofner, por sua convincente explanao sobre danos 
internos, e o excelente cuidado que dedicou ao meu filho. Tambm tenho em 
alta considerao a conversa que tive com Rick Frye, paramdico voluntrio 
do pronto-socorro do Washington State, sobre o que se deve fazer em 
primeiro lugar numa emergncia mdica.
        Obrigado da mesma forma ao Dr. John Kallas, Portland, Oregon, 
especialista em coletar alimentos silvestres, que continuamente faz 
experincias com o processamento e o cozimento deles, por compartilhar o 
seu extenso conhecimento, no apenas de plantas silvestres alimentcias, 
como tambm mariscos, mexilhes e vegetais do mar. Eu no fazia idia da 
existncia de tantas espcies de algas comestveis.
        Um agradecimento especial a Lenette Stroebel de Prineville, Oregon, 
que tem feito reprodues a partir de cavalos selvagens e recriado a raa 
tarpan, descobrindo algumas caractersticas interessantes. Por exemplo, 
eles tm cascos to duros que no necessitam de ferraduras mesmo em solo 
rochoso, possuem uma crina alta e tm um padro semelhante ao dos cavalos 
pintados em algumas paredes de cavernas, como as pernas e a cauda pretas, 
e s vezes listras nos flancos. E possuem uma linda cor cinza chamada gruya. 
Ela no apenas permitiu que eu visse os cavalos, como me contou muitas 
coisas a respeito deles e enviou-me uma maravilhosa srie de fotografias de 
uma de suas guas dando  luz, o que me serviu de base para o parto da cria 
de Huiin.
        Sou grata a Claudine Fisher, professora de Francs da Portland State 
University e membro emrito da Comisso Francesa do Oregon, pelas 
tradues de material de pesquisa e correspondncia, e pela orientao e 
avaliao deste e de outros ori ginais, e dados adicionais em Francs.
        Aos primeiros leitores Karen Auel-Feuer, Kendall Auel, Cathy Humbie, 
Deanna Sterett, Claudine Fisher e Ray Auel, que apressadamente leram um 
primeiro esboo acabado e deram boas sugestes construtivas, o meu 
obrigado.
        Sou profundamente reconhecida a Betty Prashker, minha arguta, 
inteligente e atenta editora. Suas sugestes so sempre teis, e sua 
intuio inestimvel.
        Um ilimitado obrigado  minha agente literria, Jean Naggar, que 
voou at aqui para ler o primeiro esboo acabado, e junto com o marido, 
Serge Naggar, fez algumas sugestes, mas me disse que funcionava. Ela tem 
estado presente desde o comeo, realizando milagres com esta srie. O meu 
obrigado tambm a Jennifer Weltz, da Agncia Literria Jean V. Naggar, 
que trabalha com Jean para executar outros milagres, principalmente em 
relao aos direitos internacionais.
        Com enorme pesar, minha gratido in memoriam a David Abrams, 
professor de antropologia e arqueologia em Sacramento, Califrnia. Em 
1982, David e sua assistente de pesquisas e futura esposa, Diane Kelly, 
levou Ray e a mim na minha primeira viagem de pesquisa  Europa - Frana, 
ustria, Checoslovquia e Ucrnia (ento Unio Sovitica) - para visitar, 
pela primeira vez, alguns dos stios onde, h cerca de 30.000 anos, se 
passam os livros da Saga dos Filhos da Terra. Fui capaz de ter a percepo 
das localidades, e isso me ajudou tremendamente. Ns nos tornamos amigos 
de David e Diane, e nos encontramos diversas vezes atravs dos anos, tanto 
aqui quanto na Europa. Foi um choque saber que ele estava to enfermo - 
era jovem demais para nos deixar -, mas se sustentou com perseverana por 
muito mais tempo do que qualquer um foi capaz de prever, sempre mantendo 
uma formidvel atitude positiva. Sinto saudades dele.
        Preciso agradecer, in memoriam, a outro caro amigo, Richard Ausman, 
que me ajudou a escrever estes livros, ao projetar locais confortveis onde 
eu pudesse viver e escrever. "Oz" possua uma genialidade especial para 
criar casas bonitas e eficientes, porm mais do que isso, foi um bom amigo 
durante anos para mim e Ray. Ele achava que tinha detido o cncer a tempo, 
e casou-se com Paula, na esperana de ter muitos anos mais com ela e os 
filhos dela, mas no era para ser. Sinto uma grande tristeza por ele no 
estar mais entre ns.
        H muitos outros a quem, provavelmente, deveria agradecer por 
observaes e ajuda, mas isto j est longo demais; portanto, encerrarei 
com aquele que conta mais do que todos. Sou grata a Ray, por seu amor, 
apoio e incentivo, por ajudar a conseguir tempo e espao para eu trabalhar, 
a despeito das minhas horas estranhas, e por estar presente.




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Este livro foi composto na tipologia Agaramond em corpo 11/14,5 e impresso 
em papel Chamois
Jine 7Og!nz no Sistema Cameron da Diviso
Grfica da Distribuidora Record.


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